Todos
foram à vila, para missa-do-galo e Natal, deixando na fazenda Tio
Bola, por achaques de velhice, com o terreireiro Anjão, imbecil, e a
cardíaca cozinheira Nhota. Tio Bola aceitara ficar, de boa graça,
dando visíveis sinais de paciência. Tão magro, tão fraco: nem
piolhos tinha mais. Tudo cabendo no possível, teve uma ideia.
Não
de primeira e súbita invenção.
Apreciara
antes a ausência de meninos e adultos, que o atormentavam,
tratando-o de menos; dos outros convém é a gente se livrar. Logo,
porém, casa vazia, os parentes figuravam ainda mais hostis e
próximos. A gente precisa também da importunação dos outros. Tio
Bola, desestimado, cumpria mazelas diversas, seus oitenta anos; mas
afobado e azafamoso. Quis ver visões.
Seu
espírito pulou tãoquanto à vila, a Natal e missa, aquela merafusa.
Topava era tristeza — isto é, falta de continuação. Por que é
que a gente necessita, de todo jeito, dos outros? Velho sacode
facilmente a cabeça. A ideia lhe chegou então, fantasia, passo de
extravagância.
— “Mecê
não mije na cama!” — intimara a Nhota, quando, comido o
leite com farinha, ele fingia recolher-se. Não cabia no quarto.
Natal era noite nova de antiguidade. Tomou aviso e voltou-se:
estafermado, no corredor, o Anjão fazia-lhe pelas costas gesto
obsceno. Ordenou-lhe então — trouxesse ao curral um boi, qualquer!
Saiu
o Anjão a obedecer, gostava do que parecesse feitiço ou maldade. E
no pequeno cercado estava já o burro chumbo, de que os outros não
tinham carecido. Sem excogitamento, o burrinho dera a Tio Bola o
remate da ideia.
Lá
fora o escuro fechava. O Anjão no pátio acendera fogo, acocorava-se
ante chama e brasa. Esse se ria do sossego. Também botara milho e
sal no cocho, mandado. Natal era animação para surpresas, tintins
tilintos, laldas e loas! O burro e o boi — à manjedoura — como
quando os bichos falavam e os homens se calavam.
Nhota,
em seus cantos, rezava para tomar ar, não baixando minuto, e tudo
condenava. Tio Bola esperava que o Anjão se fosse, que Nhota não
tossisse mas adormecesse. Estava de alpercatas, de camisolão e sem
carapuça, esticando à janela pescoço e nariz, muito compridos. Os
currais todos ermos, menos aquele... Tremia de verdade.
Veio,
enfim, à sorrelfa; a horas. Pelas dez horas. Queria ver. Devagar
descera, com Deus, a escada. Burro e boi diferençavam-se, puxados da
sombra, quase claros. Paz. Sem brusquidão nem bulir: de longe o
reconheciam.
Os
olhos oferecidos lustravam. Guarani, boi de carro, severo
brando. Jacatirão, prezado burrinho de sela. Tio Bola tateou
o cocho: limpo, úmido de línguas. Empinou olhar: a umas estrelas
miudinhas. Espiou o redor — caruca — que nem o esquecido, em
vivido. Tio Bola devia de distrair saudades, a velhice entristecia-o
só um pouco. Riu do que não sentiu; riu e não cuspiu. Estava ali a
não imaginar o mundo.
Por
um tempo, acostumava a vista.
Nhota
dormia, agora, decerto; até o Anjão. Os outros, no Natal, na vila,
semelhavam sempre fugidos... Quem vinha rebater-lhe o ato, fazer-lhe
irrisão? De anos, só isto, hoje somente, tinha ele resolvido e em
seu poder: a Noite, o curralete, cheiro de estercos, céu aberto, os
dois dredemente — gado e cavalgadura. Boi grosso, baixo, tostado,
quase rapé. Burro cor de rato. Tão com ele, no meio espaço,
de-junto. Caduco de maluco não estava. Não embargando que em
espírito da gente ninguém intruge. Apoiou-se no topo do cocho.
Bicho não é limpo nem sujo. Ia demorar lá um tanto. Só o viço da
noite — o som confuso?
O
Anjão, rondava. Nhota, também, com luz em castiçal, corria a casa;
não chamava alto, porque lá a doença não lhe dava fôlego. Turro,
o boi ainda não se deitara, como eles fazem — havia de sentir
falta do Guaraná, par seu de junta. Burro não deita: come
sempre, ou para em pé, as horas todas. A gente podia esperar, assim
como eles, ocultado num ponto do curral. Tudo era prazo.
Deitava-se
no cocho? Não como o Menino, na pura nueza... O voo de serafins, a
sumidez daquilo. Mas, pecador, numa solidão sem sala. E um tiquinho
de claro-escuro. Teve para si que podia — não era indino — até
o vir da aurora. Que o achassem sem tino perfeito, com algum
desarranjo do juízo!
Tão
gordo fora; e, assim, como era, tinha só de deixar de fora seus
rústicos cotovelos. Agora, o comichar, uma coceira seca. Viu o boi
deitar-se também — riscando primeiro com a pata uma cruz no chão,
e ajoelhando-se — como eles procedem. O mundo perdeu seu
tique-taque. Tombou no quiquiri de um cochilo. Relentava. Ouviu. O
Anjão estava ali, no segundo curral, havia coisa de um instante.
Que
se aquietasse, pelo prazo de três credos.
Manteve-se.
A hora dobrou de escura. Meia-noite já bateu? Abriu olhos de
caçador. Dessurdo, escutou, já atilando. Um abecê, o reportório.
Essas estrelas prosseguiam o caminhar, levantadas de um peso. Fazia
futuro. O contrário do aqui não é ali... — achou. O boi —
testo lento, olhos redondos. O burrinho, orelhas, fofas ventas. Da
noite era um brotar, de plantação, do fundo. A noite era o dia
ainda não gastado. Vez de espertar-se, viver esta vida aos átimos...
Soporava. Dormiu reto. Dormindo de pés postos.
Acordou,
no tremeclarear. Orvalhava. A Nhota dormia também, ali, sentada no
chão, sem um rezungo. O Anjão, agachado, acendera um foguinho.
Conchegados, com o boi amarelão e o burro rato, permaneciam; tão
tanto ouvindo-se passarinhos em incerta entonação.
A
estrela-d’alva se tirou. Já mais clareava. As pretas árvores nos
azulados... O Anjão se riu para o sol. Nhota entoava o Bendito,
não tinha morrido. Cantando o galo, em arrebato: a última
estrelinha se pingou para dentro.
Tio
Bola levantou-se — o corpo todo tinha dor-de-cabeça. Deu ordens,
de manhã, dia: o Anjão soltasse burro e boi aos campos, a Nhota
indo coar café. Os outros vinham voltar, da vila, de Natal e
missa-do-galo. Tio Bola subiu a escada, de camisolão e alpercatas,
sarabambo, repetia: — “Amém, Jesus!”
Guimarães Rosa, in Tutameia
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