16/09/2018

Pouca sombra no chão

Quando Olímpico lhe dissera que terminaria deputado pelo Estado da Paraíba, ela ficou boquiaberta e pensou: quando nos casarmos então serei uma deputada? Não queria, pois deputada parecia nome feio. (Como eu disse, essa não é uma história de pensamentos. Depois provavelmente voltarei para as inominadas sensações, até sensações de Deus. Mas a história de Macabéa tem que sair senão eu estouro.)
As poucas conversas entre os namorados versavam sobre farinha, carne-de-sol, carne-seca, rapadura, melado. Pois esse era o passado de ambos e eles esqueciam o amargor da infância porque esta, já que passou, é sempre acre-doce e dá até nostalgia. Pareciam por demais irmãos, coisa que — só agora estou percebendo — não dá para casar. Mas eu não sei se eles sabiam disso. Casariam ou não?
Ainda não sei, só sei que eram de algum modo inocentes e pouca sombra faziam no chão.
Não, menti, agora vi tudo: ele não era inocente coisa alguma, apesar de ser uma vítima geral do mundo. Tinha, descobri agora, dentro de si a dura semente do mal, gostava de se vingar, este era o seu grande prazer e o que lhe dava força de vida. Mais do que ela que não tinha anjo da guarda.
Enfim o que fosse acontecer, aconteceria. E por enquanto nada acontecia, os dois não sabiam inventar acontecimentos. Sentavam-se no que é de graça: banco de praça pública. E ali acomodados, nada os distinguia do resto do nada. Para a grande glória de Deus. 
Ele: – Pois é.
Ela: – Pois é o quê?
Ele: – Eu só disse pois é!
Ela: – Mas “pois é” o quê?
Ele: – Melhor mudar de conversa porque você não me entende. 
Ela: – Entender o quê?
Ele: – Santa Virgem, Macabéa, vamos mudar de assunto e já!
Ela: – Falar então de quê?
Ele: – Por exemplo, de você.
Ela: – Eu?!
Ele: – Por que esse espanto? Você não é gente? Gente fala de gente.
Ela: – Desculpe mas não acho que sou muito gente.
Ele: – Mas todo mundo é gente, meu Deus!
Ela: – É que não me habituei.
Ele: – Não se habituou com quê?
Ela: – Ah, não sei explicar.
Ele: – E então?
Ela: – Então o quê?
Ele: – Olhe, eu vou embora porque você é impossível!
Ela: – É que só sei ser impossível, não sei mais nada. Que é que eu faço para conseguir ser possível?
Ele: – Pare de falar porque você só diz besteira! Diga o que é do teu agrado.
Ela: – Acho que não sei dizer.
Ele: – Não sabe o quê?
Ela: – Hein?
Ele: – Olhe, até estou suspirando de agonia. Vamos não falar em nada, está bem?
Ela: – Sim, está bem, como você quiser.
Ele: – É, você não tem solução. Quanto a mim, de tanto me chamarem, eu virei eu. No sertão da Paraíba não há quem não saiba quem é Olímpico. E um dia o mundo todo vai saber de mim.
– É?
– Pois se eu estou dizendo! Você não acredita?
– Acredito sim, acredito, acredito, não quero lhe ofender. Em pequena ela vira uma casa pintada de rosa e branco com um quintal onde havia um poço com cacimba e tudo. Era bom olhar para dentro. Então seu ideal se transformara nisso: em vir a ter um poço só para ela. Mas não sabia como fazer e então perguntou a Olímpico:
– Você sabe se a gente pode comprar um buraco?
– Olhe, você não reparou até agora, não desconfiou que tudo que você pergunta não tem resposta?
Ela ficou de cabeça inclinada para o ombro assim como uma pomba fica triste.
Quando ele falava em ficar rico, uma vez ela lhe disse:
– Não será somente visão?
– Vá para o inferno, você só sabe desconfiar. Eu só não digo palavrões grossos porque você é moça-donzela.
– Cuidado com suas preocupações, dizem que dá ferida no estômago.
– Preocupações coisa nenhuma, pois eu sei no certo que vou vencer. Bem, e você tem preocupações?
– Não, não tenho nenhuma. Acho que não preciso vencer na vida.
Foi a única vez em que falou de si própria para Olímpico de Jesus. Estava habituada a se esquecer de si mesma. Nunca quebrava seus hábitos, tinha medo de inventar.
Clarice Lispector, in A hora da estrela

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