A
primeira partida da seleção brasileira contra o Exeter City
Football Club em 1914.
A
Argentine Football Association não permitia que se falasse em
espanhol nas reuniões de seus dirigentes, e a Uruguay Association
Football League proibia que as partidas fossem disputadas aos
domingos, porque o costume inglês mandava jogar aos sábados. Mas já
nos primeiros anos do século o futebol estava começando a se
popularizar e a se nacionalizar, nas margens do rio da Prata. Esta
diversão importada, que entretinha os ócios dos meninos das boas
famílias, tinha escapado de sua alta jardineira, havia baixado à
terra e estava lançando raízes.
Foi
um processo irreversível. Como o tango, o futebol cresceu a partir
dos subúrbios. Era um esporte que não exigia dinheiro e que podia
ser jogado sem nada além da pura vontade. Nos baldios, nos becos e
nas praias, os rapazes nativos e os jovens imigrantes improvisavam
partidas com bolas feitas de meias velhas, recheadas de trapos ou de
papel, e um par de pedras para simular o arco. Graças à linguagem
do futebol, que começava a tornar-se universal, os trabalhadores
expulsos do campo se entendiam muito bem com os trabalhadores
expulsos da Europa. O esperanto da bola unia os nativos pobres com os
peões que tinham atravessado o mar vindos de Vigo, Lisboa, Nápoles,
Beirute ou da Bessarábia, e que sonhavam fazer a América levantando
paredes, carregando caixotes, assando pão ou varrendo ruas. Linda
viagem, a que havia feito o futebol: tinha sido organizado nos
colégios e universidades inglesas, e na América do Sul alegrava a
vida de gente que nunca tinha pisado numa escola.
Nas
canchas de Buenos Aires e de Montevidéu, nascia um estilo. Uma
maneira própria de jogar o futebol ia abrindo caminho, enquanto uma
maneira própria de dançar se afirmava nos pátios milongueiros. Os
bailarinos desenhavam filigranas, fazendo floreios num tijolo só, e
os futebolistas inventavam sua linguagem no minúsculo espaço onde a
bola não era chutada, mas retida e possuída, como se os pés fossem
mãos trançando o couro. E nos pés dos primeiros virtuoses nativos
nasceu o toque : a bola tocada como se fosse violão, fonte de
música.
Simultaneamente,
o futebol se tropicalizava no Rio de Janeiro e em São Paulo. Eram os
pobres que o enriqueciam, enquanto o expropriavam. Este esporte
estrangeiro se fazia brasileiro, na medida em que deixava de ser o
privilégio de uns poucos jovens acomodados, que o jogavam copiando,
e era fecundado pela energia criadora do povo que o descobria. E
assim nascia o futebol mais bonito do mundo, feito de jogo de
cintura, ondulações de corpo e voos de pernas que vinham da
capoeira, dança guerreira dos escravos negros, e dos bailes alegres
dos arredores das grandes cidades.
O
futebol ia se tornando paixão popular e revelava sua beleza secreta,
e ao mesmo tempo se desqualificava como passatempo fino. Em 1915, a
democratização do futebol arrancava queixas à revista Sports,
do Rio de Janeiro: “De modo que nós que frequentamos uma Academia,
temos uma posição na sociedade, fazemos a barba no Salão Naval,
jantamos na Rotisserie, frequentamos as conferências literárias,
vamos ao five o’clock... somos obrigados a jogar com um
operário, limador, torneiro mecânico, motorista e profissões
outras que absolutamente não estão em relação com o meio onde
vivemos. Nesse caso a prática do esporte torna-se um suplício, um
sacrifício, mas nunca uma diversão.”
Eduardo
Galeano, in Futebol ao sol e à sombra
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