Não
é um conto policial, apenas o relato da viúva de um magistrado
amazonense. Aos 96 anos de idade, essa bisneta de baianos tem uma
memória invejável. Um e outro detalhe talvez sejam acréscimos da
minha imaginação.
Eu
e meu marido Simplício pertencíamos a uma família de magistrados
da cidade. Meu avô fundou a faculdade de direito da Universidade
Livre de Manaus; meu pai foi diretor e meu marido professor de
direito civil dessa faculdade. Os fundamentos jurídicos, a
consistência dos argumentos e a conduta ética de Simplício foram
decisivos para que ele fosse nomeado desembargador. Ele falava como
se estivesse escrevendo, e a voz dele, de grande magistrado, era uma
sentença.
Naquela
época os pobres não tinham coragem de bater à porta de um juiz.
Lembro que era uma quinta-feira. Nós íamos sentar à mesa para
jantar quando alguém tocou a campainha. O visitante queria falar com
o meu marido. Era um rapaz baixinho, meio entroncado, com traços
indígenas e uma humildade nos olhos e gestos. Notei que a humildade
não lhe subtraía a coragem. Na porta, ele se apresentou ao meu
marido e disse sem rodeio que na próxima semana seria julgado um
caso importante e que só ele, o doutor desembargador, podia mudar o
rumo da votação e fazer justiça.
“Parece
que tudo está arranjado”, prosseguiu o visitante. “Vão absolver
um criminoso porque não sou uma pessoa influente.”
Simplício
convidou o rapaz a sentar numa das cadeiras do pátio. Por timidez ou
pudor, sentou num banquinho; não aceitou água nem guaraná.
“O
senhor está se referindo a qual processo?”, perguntou Simplício.
“Minha
esposa foi assassinada pelo amante dela”, disse o visitante. “Esse
animal retalhou minha querida mulher. O advogado do assassino alega
legítima defesa, mas eu tenho certeza de que ela não atacaria
ninguém. Nasceu para amar, não para agredir, odiar. Infelizmente
amou outro homem e este homem matou-a barbaramente. Sou capaz de
perdoar o adultério e a desonra, dr. Simplício, mas não a
impunidade do assassino.”
Simplício
ouviu com atenção e disse que não costumava julgar crimes. O rapaz
ficou calado. Por alguns segundos, contemplou a lâmpada no teto do
pátio, seguindo com o olhar o voo atrapalhado de uma mariposa. Aí
ele tirou uma fotografia do bolso da camisa e mostrou-a ao meu
marido. Eu pude ver a foto do casal sob o caramanchão da praça da
Saudade. Uma moreninha muito linda. Eu e Simplício não sabíamos o
que dizer. O rapaz pôs a foto no bolso, levantou, despediu-se com
gestos de cavalheiro. Quando apertou minha mão, senti a mão dele
trêmula e suada. Eu disse ao meu marido: “Esse rapaz pode cometer
um crime ou suicidar-se”.
“Por
quê?”
“Porque
é um homem apaixonado. A mulher morreu, mas continua viva na memória
desse viúvo.”
“Sim,
um pobre homem magno cum luctu”, disse Simplício.
No
dia seguinte, Simplício leu os autos e estudou o processo; releu
livros de direito criminal, inclusive franceses e ingleses. Depois
conversou com o delegado, requisitou a faca usada no crime e as
fotografias da vítima e do local do assassinato. Seis páginas do
processo transcreviam a declaração de uma moça que havia deposto a
favor do amante da vítima. Era a única testemunha. Simplício me
disse que ela era ‘a ave que levava o raio’. Ele ordenou uma
busca na casa de parentes da testemunha, intimando-a a depor outra
vez. Os policiais afirmaram que ela estava no Rio, talvez em São
Paulo. Então meu marido pensou que ela havia sido subornada ou
ameaçada pelo advogado de defesa, com a anuência do suposto
criminoso, que se dizia vítima. O delegado encontrou-a na casa de um
tio, perto do Parque Amazonense. A moça, de uns vinte anos, era
muito elegante. No rosto arredondado, os lábios carnudos pareciam um
botão de rosa. Na presença de Simplício, o delegado pediu-lhe que
contasse o que viu na noite do crime. A moça contou sua versão,
depois repetiu o relato, usando quase as mesmas palavras. Havia
decorado tudo. O delegado falou grosso com ela:
“Conte
a verdade, a senhora está diante de um grande magistrado.”
A
moça chorou. Disse que era a outra amante do assassino e que não
queria vê-lo preso. Já escurecia quando ela saltou do bonde e viu o
Chevrolet Belair estacionar nos arredores da praça Pedro II; ela se
aproximou furtivamente do carro, ouviu os dois discutirem e viu o
homem esfaquear a amante rival.
Simplício
anulou o depoimento anterior da testemunha: um inventário de
mentiras. Ele mesmo reescreveu os autos e o criminoso foi julgado e
condenado por unanimidade a 21 anos de prisão.
Nós
esperamos uma carta, uma visita ou um telefonema do viúvo. Um mês
depois do julgamento, ele morreu de enfarte. Não sei se o viúvo era
cardíaco. Talvez tenha morrido de saudade, ou aliviado de ver o
criminoso na cadeia. São emoções diferentes, mas ambas perturbam
um coração frágil.
Milton
Hatoum, in Um
solitário à espreita
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