29/12/2021

O retorno de Zorba

Assim que avistei a praia da linhita, parei bruscamente: havia luz no barracão.
Zorba deve ter chegado, pensei todo alegre.
Estive a ponto de correr, mas contive-me. “Preciso esconder minha alegria, disse para comigo. Preciso mostrar-me aborrecido, e começar enganando-o. mandei-o lá para negócios urgentes e ele jogou pela janela o dinheiro, andou com cantoras e chega com doze dias de atraso. É preciso tomar um ar furioso, é preciso...”
Pus-me a caminho a passos lentos, para dar tempo de me encolerizar. Esforçava-me para ficar irritado, franzia a testa, cerrava os punhos, fazia todos os gestos do homem irritado, para me zangar, mas nada conseguia. Ao contrário, mais diminuía a distancia, mais minha alegria aumentava.
Aproximei-me na ponta dos pés e olhei pela janelinha iluminada. Zorba estava de joelhos, acendera o fogo e fazia o café.
Meu coração amoleceu e gritei:
Zorba!
Abriu-se a porta de um só golpe. Zorba, descalço, sem camisa, jogou-se para fora. Esticou o pescoço na obscuridade, viu-me e abriu os braços, mas logo se conteve, deixando-os cair.
Contente por estar de novo com você, patrão! — disse num tom hesitante, imóvel diante de mim, o rosto exprimindo desgraça.
Procurei fazer uma voz forte:
Contente que você se tenha dado ao trabalho de voltar — disse eu, zombeteiro. — não se aproxime, você recende a sabonete.
Ah! Se soubesse como me lavei, patrão — murmurou. — eu me poli, raspei a maldita pele antes de me apresentar a você. Mas este cheiro infernal... mas que mal pode ele fazer? Não é a primeira vez, ele vai desaparecer, por bem ou por mal.
Vamos entrar — disse eu, prestes a estourar numa gargalhada.
Entramos. O barracão recendia a perfume, a pó-de-arroz, a sabonete, a mulher.
Diga lá, que coisas são estas, hein? — perguntei, vendo, em cima de um caixote, bolsas de mulher, sabonetes, meias, uma sombrinha vermelha e um minúsculo frasco de perfume.
Presentes — murmurou Zorba de cabeça baixa.
Presentes? — fiz eu, esforçando-me para dar a voz um tom zangado. — presentes?
Presentes, patrão, não se aborreça, para a pobre Bubulina. A Páscoa vem aí, coitada dela...
Ainda uma vez consegui conter minha vontade de rir.
O mais importante, você não lhe trouxe... — disse.
O quê?
Mas vejamos! As coroas de casamento!
Contei-lhe então a história que tinha forjado para a sereia enamorada.
Zorba coçou a cabeça e refletiu um instante.
Você fez mal, patrão — disse enfim, — fez mal, com o devido respeito. Brincadeiras como essa, patrão... a mulher é uma criatura fraca, delicada, quantas vezes é preciso dizer? Um vaso de porcelana a gente segura nele com cuidado.
Senti-me envergonhado. Eu também estava arrependido, mas era muito tarde. Mudei a conversa.
E o cabo? — perguntei. — e as ferramentas?
Trouxe tudo, tudo, não se atormente! “O pastel está inteiro e o cão satisfeito.” Teleférico, Lola, Bubulina, patrão... está tudo em regra.
Tirou o brik do fogo, encheu-me a xícara, deu-me biscoitos de gergelim que trouxera, e sálvia com mel que ele sabia ser o meu fraco.
Trouxe-lhe de presente uma caixa grande de sálvia! — disse-me com ternura. — não me esqueci de você. Olhe, comprei também um saquinho de amendoim para o papagaio. Não me esqueci de ninguém. Você vê, patrão, que eu estou com a cabeça bem no lugar.
Comi os biscoitos e a salva, bebi o café, sentado no chão. Zorba degustava também o seu café, fumava, olhava para mim e seus olhos me fascinavam como os de uma serpente.
Resolveu o problema que o preocupava, velho sacripanta? — perguntei-lhe adoçando a voz.
Que problema, patrão?
Se a mulher é ou não um ser humano.
Ora! Isso acabou! — respondeu Zorba, agitando a enorme pata. — ela é também um ser humano como nós... e pior! Quando vê a nossa carteira, tem vertigem, se gruda na gente, perde a liberdade — e fica encantada por perdê-la — porque, você vê, por trás está a carteira brilhando. Mas, bem depressa… Deixe isso para lá, patrão!
Levantou-se e jogou o cigarro pela janela.
Agora, falemos como homens — disse ele. — a semana Santa está chegando, temos o cabo, é tempo de subir ao mosteiro, conversar com aqueles toucinhos gordos e assinar os contratos da floresta... antes que eles vejam o teleférico e lhes suba a cabeça, compreende? O tempo passa, patrão, não é coisa que se faça, ficar aí flanando; é preciso colher já alguma coisa, é preciso que os navios venham carregar, para compensar a despesa... esta viagem a Cândia custou os tubos. O Diabo, como você vê...
Calou-se. Tive pena dele. Era como uma criança que, tendo feito tolices e não sabendo como repará-las, treme todo o coraçãozinho.
Que vergonha para você, protestei comigo, então se deixa tremer de medo uma alma como essa? Acorde, onde encontrará algum dia outro Zorba? Acorde, peque na esponja e apague tudo!
Zorba, estourei eu, — deixe pra lá o Diabo, não precisamos dele! Coisas passadas, coisas esquecidas. Pega o santuri!
Abriu os braços, como se quisesse de novo abraçar-me. Mas tornou a fechá-lo, ainda hesitante.
Numa pernada, chegou até a parede. Ficou na ponta dos pés e apanhou o santuri. Ao se aproximar da luz da lamparina, olhei para seus cabelos: estavam pretos como graxa.
Desembuche lá, seu velhaco — falei, — que cabelos são esses? Onde você foi buscar isso?
Zorba começou a rir.
Pintei-os, patrão, não se aflija, eu os pintei, os traidores...
Por quê?
Por amor-próprio, juro! Um dia, passeava com Lola de braços dados. Isto é, não... espere, só segurava as pontas dos dedos! Pois passa um maldito garoto, um tiquinho de guri, e começa a nos chatear. “Eh! Velho, grita o filho da mãe, eh! Velho! Onde é que você vai levar sua neta?” — Lola, você compreende, ficou envergonhada e eu também. E para ela não ter mais vergonha de mim, fui no mesmo dia ao barbeiro para tingir a cabeleira.
Pus-me a rir. Zorba encarou-me, sério.
Você acha engraçado, patrão? Entretanto, preste bem atenção que coisa gozada a gente é. Depois desse dia virei homem. Parecia que eu tinha os cabelos pretos de verdade, eu mesmo acreditava nisso — você vê, a gente se esquece facilmente o que não convém — e eu lhe juro que até as minhas forças aumentaram. Lola também percebeu isso. Lembra a pontada que eu tinha aqui nos rins? Sumiu, você nem acredita. Essas coisas, você vê, seus livrecos não contam...
Teve um riso irônico, mas logo se arrependeu:
Desculpe, patrão. O único livro que eu li na minha vida, foi Simbad o
Marinheiro, e para o proveito que dele tirei...
Pegou o santuri, despiu-o ternamente, lentamente.
Vamos lá para fora — disse. — aqui, entre quatro paredes, o santuri não fica à vontade. É um animal selvagem, precisa de espaço.
Saímos, as estrelas cintilavam. A Via-Láctea corria de uma ponta a outra no céu. O mar fervia.
Sentamos na areia. As ondas vinham lamber-nos a planta dos pés.
Quando se está na miséria a gente precisa se distrair — disse Zorba. — como é então! Ela pensa que vai fazer a gente se entregar?
Venha cá, meu santuri.
Uma ária macedônica, da sua terra, Zorba — disse eu. Cantar um versinho que me ensinaram em Cândia. Desde que o aprendi a minha vida mudou.
Refletiu um instante:
Não, ela não mudou, mas agora compreendo que eu tinha razão.
Pousou os dedos os dedos grossos no santuri e aprumou o pescoço. Sua voz selvagem, rouca, dolorosa, elevou-se:

Quando tomares um decisão, não tenhas medo, para a frente!
Solta a rédea a tua juventude, não a poupes.”

Dissiparam-se as preocupações, os aborrecimentos fugiram, a alma atingiu seu próprio cume. Lola, a linhita, o teleférico, a “eternidade”, as pequenas e as grandes confusões, tudo isso se transformou em fumaça azul que se dissipou nos ares, restando apenas um pássaro de aço, a alma humana que cantava.
Dou-lhe tudo de presente, Zorba! — exclamei, quando terminou a famosa canção; — tudo o que você fez, dou-lhe de presente: a cantora, os cabelos pintados, o dinheiro que gastou; tudo! Tudo! Cante mais.
Esticou de novo o pescoço descarnado:

Coragem, que Diabo, o que vier, virá!
Ou perderás o golpe ou então ganharás.”

Uns dez trabalhadores que dormiam perto da mina ouviram as canções. Levantaram-se, desceram furtivamente, e agacharam-se perto de nós. Ouviram sua música preferida e sentiam formigar as pernas.
E bruscamente, incapazes de se conterem por mais tempo, sugiram na obscuridade, seminus, descabelados, com suas calças bufantes, fizeram círculo em volta de Zorba e do santuri e se puseram a dançar, na areia grossa.
Empolgado, eu os olhava em silêncio:
Ei-lo, pensei, o verdadeiro filho que eu procurava. Não quero nenhum outro.

Nikos Kazantzakis, in Zorba, o Grego

28/12/2021

Peço | Luis Kiari e Tais Alvarenga

Rio de Sangue | 8

A faca ressurgiu, rutilante, entre as coisas que Belonísia levava em sua sacola de palha. Por um instante, Bibiana não acreditou se tratar da mesma peça que havia desaparecido da casa antiga, provavelmente pelas mãos de Donana. Caminhou até a frente da casa da mãe, as filhas chamavam do lado de fora para que visse o batizado de bonecas que Ana estava preparando. Se aproximou, muda, e retornou para a cadeira velha onde pendia a lâmina. Estendeu os dedos e sentiu que estava quente ao seu toque, quase candente, quando confirmou do que se tratava. Sentiu vergonha por estar espiando a sacola da irmã, mas não conseguiu disfarçar a surpresa ao ver o que julgava soterrado em sua memória. A cicatriz de sua língua se ressentiu da recordação, formigou, e lançou Bibiana de novo ao dia do acidente. A mão da avó, por um instante, desabou sobre sua cabeça, que se tornou pesada com as interrogações que surgiram com a imagem. Puxou o objeto pela ponta até que se revelasse por inteiro: a empunhadura de marfim bem acabada; pomos e guarda de um metal mais embaçado; lâmina brilhante, sem envelhecer. E um fio de corte que parecia vibrar, prestes a rasgar o pequeno campo de atmosfera em seu entorno, como se dividisse com um talhar um pequeno lenço de seda.
Belonísia entrou no cômodo e parou, como se retornasse trinta anos no tempo e visse, de novo, Bibiana retirar o objeto do tecido encardido de sangue. Há muito não havia mais o tecido. Mas o silêncio com que viu a irmã devolver seu olhar a deixou suspensa no tempo, como se nada mais pudesse avançar antes que se esclarecesse o que aquela presença significava.
Tão habituada que estava a se locomover com a faca, agora se contrapunha de forma inevitável à perplexidade que os olhos de Bibiana lhe devolviam. O rútilo se tornou mais intenso no objeto, e, ao redor das irmãs surgiu uma sombra fria, projetada por uma nuvem que encobriu o sol. Belonísia deu duas pancadas leves no queixo e desceu com o polegar pela face para dizer que sim, era da avó. Cruzou os dedos das duas mãos, deslizando uns sobre os outros para comunicar, sim, é faca. Repetiu o gesto com as pancadas no queixo e o polegar descendo a face. Não precisava confirmar, Bibiana já havia entendido. Perguntou se Salu sabia. Negação foi a resposta. Para quê? Se preocuparia de forma desnecessária. Ela apenas continuaria a ser tratada como a criança irrequieta que havia se mutilado. E por que a carregava consigo? Para trabalhar, claro, para se proteger – veja o que aconteceu a Severo, seus indicadores deslizaram no ar em direção à irmã – e porque havia perdido a língua. O objeto havia chegado às suas mãos de novo, havia um sinal naquele assombro. Guardava por sentimentos que, por mais que vivesse, não saberia explicar. E onde estava esse tempo todo, perguntou. Você não acreditaria, disse negando com a cabeça e colocando uma mão sobre a outra com as palmas voltadas para cima.
Ao se mudar para a casa de Tobias, naquela manhã em que saiu com a trouxa de coisas e seguiu para a margem do Santo Antônio no mesmo cavalo, naquela manhã em que sentiu seu ventre vibrar na caminhada do animal até a casa onde moraria, não imaginou que seria surpreendida com uma montanha de entulho que o marido guardava em casa. Àquela visão inicial se seguiu o desânimo, ao pensar o que teria que fazer para tornar a casa habitável, que teria muito trabalho, já que havia trocado a casa dos pais por uma morada árida de tudo. Não conseguiu arrumar tudo no mesmo dia, após a primeira organização se seguiram muitos dias de trabalho, separando lixo, garrafas vazias e tudo que se amontoava pelo casebre.
Um pote de cerâmica – como as panelas antigas – com pequenos torrões de terra ao redor estava esquecido, como quase tudo, num canto da cozinha. Belonísia resistiu a abri-lo com receio de encontrar um rato, uma aranha ou ossada de gente, como já havia ouvido em relatos do povo da região. Faltava um pedaço da boca do pote. Ela adiou essa abertura até esbarrar nele de forma acidental e terminar por quebrar mais um pedaço grande da boca. Ao levantar o objeto sentiu que algo balançava com o movimento. Deixou o pote no chão e se afastou. Mas o raio do sol da manhã alcançou o pote e refletiu no que quer que fosse que estivesse guardado. O brilho chegou aos seus olhos. Um diamante. Era a primeira coisa que alguém pensaria, considerando as histórias da Chapada. Todo mundo espera, um dia, encontrar ou ser encontrado pelo brilho da pedra. Retirou o tampo. A ponta de uma faca reluziu de forma mais intensa exposta à luz. Belonísia a retirou do pote para fazer como havia feito com tudo até aquele momento: jogar o que não prestava fora e dar novo destino ao que tinha utilidade.
O cabo de marfim tocou sua mão. Estava morno como o pote exposto ao sol em que se abrigava. Mas a boca formigou como no dia em que encontrou a faca da avó. O brilho intenso, as intrigas, o desejo de descobrir seu gosto e a disputa nas brincadeiras com a irmã a levaram ao desfecho que a silenciou para o mundo. A lembrança de Donana depois do evento surgiu viva em seu pensamento. A velha vagando pelo quintal, chamando a filha de quem não tinha notícias, pedindo que tomassem cuidado com a onça, dona Tonha dizendo quando chegaram do hospital que ela havia saído para a beira do rio levando um embrulho. O embrulho, a faca, o pote de cerâmica que desconhecia. Era a lâmina aquecida por estar no sol, fria quando estava na mala debaixo da cama. Era o fio de corte preservado que rasgava o véu do passado e chegava ao seu presente para fazê-la recordar aquele dia.
Tobias entrou e encontrou seu semblante de espanto e distante no tempo. Belonísia colocou um pano de prato sobre a faca em cima da mesa. Ele havia esquecido a vara de pesca, traria peixe para os dois quando terminasse as tarefas.
Não devolverei a Tobias”, foi o que passou por seus pensamentos, “pertence à minha família”. Encontrou um lugar seguro para colocar a faca, entre o armário empenado e a parede, onde apenas sua mão e o objeto cabiam. Depois que ficou viúva, retirou-a do lugar em que a havia escondido. Passou a andar com ela para a roça, para o rio, levou para defender Maria Cabocla, dobrou o homem da vizinha que se acovardou diante da lâmina e dos seus olhos de fúria. Mas nada disso Bibiana saberia. Ela colocou um ponto final na história antes que a memória lhe retornasse desordenada. Ouviu da irmã apenas que, olhando para a faca tantos anos depois, ela parecia ter sido retirada naquele mesmo instante da mala velha de Donana. A mala que havia levado consigo e com a qual havia regressado, também. E alertou: “Cuidado com Ana, não deixe à toa”, devolveu a faca a Belonísia, “ela é curiosa como nós éramos”.
Saiu em direção ao terreiro, mas, antes de chegar à porta, retornou.
Belô”, disse para a irmã, “o que será que fez minha avó guardar essa faca como um tesouro?”. Belonísia fez a linha de sua boca ganhar a forma de um arco. “Sabe, não sei se você lembra, mas uma coisa me intrigou, não naquele tempo, éramos muito meninas, mas anos depois, quando me lembrava disso tudo”, disse, enquanto a irmã terminava de guardar a faca na sacola. O dedo indicador arqueado voltou ao corpo de Belonísia. “Por que a faca estava envolta naquele tecido sujo de sangue? Aquela mancha escura era sangue”, suspirou. “E por que minha avó guardava essa faca com tanto medo? Ela não temia outras coisas que podiam nos machucar da mesma forma, como um caco de espelho ou qualquer outra coisa.”
Medo?”, o polegar e o dedo do meio tocaram o lugar do coração. Belonísia queria entender aonde a irmã queria chegar.
Minha avó tinha mais medo do que essa faca significava. Ela temia mais o segredo que guardava do que o que pudesse nos ferir.”

Itamar Vieira Junior, in Torto Arado

Em que consiste a felicidade

 “Você nunca será feliz se continuar procurando em que consiste a felicidade. Você nunca viverá se estiver procurando o sentido da vida.”

Albert Camus, in 1001 frases de grandes pensadores

Hagar, o Horrível

 

A casa dos relógios

Estimada senhorita:

Já que me destaquei em suas aulas com minhas redações, cumpro com a promessa que fiz: me exercitarei escrevendo cartas. A senhorita me pergunta o que fiz nos últimos dias de férias, não?
Escrevo enquanto Joaquina ronca. É a hora da sesta e a senhorita sabe que, a essa hora e à noite, Joaquina, por causa da carne esponjosa que tem no nariz, ronca mais do que de costume. É chato, porque não deixa ninguém dormir. Escrevo à senhorita no caderninho dos deveres de casa, porque o papel de carta que consegui com o Pituco não tem linhas e a letra se espalha por todos os lados. Conto-lhe que Julia, a cachorrinha, agora dorme debaixo da minha cama, chora quando entra a luz da lua pela janela, mas eu não ligo, porque nem mesmo o ronco de Joaquina me desperta.
Fomos passear na lagoa La Salada. É muito gostoso se banhar. E me afundei no barro até os joelhos. Juntei plantas para o herbário e, nas árvores que ficam bem longe dali, juntei também ovos para minha coleção de pombas-torcazes, uracas e perdizes. As perdizes não põem ovos nas árvores, e sim no solo, coitadinhas. Me diverti muito na lagoa Salada; fizemos fortalezas de barro; mas me diverti ainda mais à noite, na festa da Ana María Sausa, dada pelo batizado de Rusito. O pátio todo estava decorado com lanternas de papel e serpentinas. Puseram quatro mesas, que improvisaram com tábuas e cavaletes, com comidas e bebidas de todo tipo, que eram de lamber os dedos. Não fizeram chocolate por causa da greve do leite e porque meu pai fica louco só de ver leite, mas faz mal para o fígado dele.
Naquele dia Estanislao Romagán abandonou o colosso de relógios que ele tem sob seus cuidados para ver como preparavam a festa e para ajudar um pouquinho (ele, que nem aos domingos nem em dias de festa deixa de trabalhar). Eu amava muito o Estanislao Romagán. A senhorita se lembra daquele relojoeiro corcunda que consertou seu relógio? O que vivia na casinha subindo esta rua, aquela que eu chamava de A Casa dos Relógios, que ele mesmo construiu e que parece uma casinha de cachorro? Aquele que se especializou em despertadores? Vá saber se a senhorita não o esqueceu! É difícil de acreditar! Relógios e corcundas não se esquecem assim, do dia para a noite. Pois esse é Estanislao Romagán. Com um projetor de slides, ele me mostrava um relógio de sol que disparava um canhão automaticamente ao meio-dia, outro que não era de sol e cuja parte exterior representava uma fonte; outro, o relógio de Estrasburgo, com escada, carruagem e cavalos, figuras de mulheres com túnicas e homenzinhos esquisitos. A senhorita não vai acreditar, mas era muito agradável escutar, a qualquer momento, as diferentes sinetas de todos os despertadores e os relógios que davam as horas mil vezes por dia. Meu pai não pensava assim.
Para a festa, Estanislao desenterrou um terno que tinha guardado em um pequeno baú, entre dois ponchos, uma manta e três pares de sapatos que não eram dele. O terno estava amarrotado, mas, depois de lavar o rosto e pentear os cabelos, muito lustrosos, negros e que chegam quase até suas sobrancelhas, como um gorro catalão, Estanislao ficou bem elegante.
Sentado, com a nuca apoiada sobre uma almofada, ficaria bem. Tem boa presença, melhor que a de muitos convidados — comentou minha mãe.
Me deixa tocar suas costinhas? — dizia-lhe Joaquina, correndo com ele pela casa.
Ele permitia que tocassem suas costas, porque era bonzinho.
E para mim, quem é que traz sorte?² — dizia.
Você é um sortudo — respondia Joaquina —, tem a sorte em cima de você.
Mas eu achava uma injustiça dizer isso a ele. A senhorita não acha também?
A festa foi maravilhosa. E aquele que disser que não, está mentindo. Pirucha dançou rock e Rosita, danças espanholas; ela é loira, e mesmo assim dança com graça.
Comemos sanduíches de três andares, mas um pouquinho secos, merengues rosados com gosto de perfume, desses pequenininhos, e bolo e alfajores. As bebidas eram deliciosas. Pituco as misturava, as batia, as servia como um verdadeiro garçom profissional. Todo mundo me dava um pouquinho daqui, um pouquinho de lá, e assim cheguei a juntar e a beber o conteúdo de três taças, pelo menos. Iriberto me perguntou:
Che, garoto, quantos anos você tem?
Nove.
Bebeu alguma coisa?
Não. Nem um gole — respondi, porque me deu vergonha.
Então tome esta taça.
E me fez beber um licor que me queimou a garganta até a campainha. Ele riu e disse:
Assim vai virar homem.
Não se faz esse tipo de coisa com um menino, não acha, senhorita?
As pessoas estavam muito alegres. Minha mãe, que fala pouco, conversava como qualquer senhora, e Joaquina, que é tímida, dançou sozinha cantando uma canção mexicana que não sabia de memória. Eu, que sou retraído, conversei até com o velhinho malvado que sempre me manda para o diabo. Já era tarde quando, por fim vestido e penteado, Estanislao Romagán desceu de sua casinha, desculpando-se por usar um terno amarrotado. Aplaudiram-no e lhe deram de beber. Desdobraram-se em mil atenções a ele: lhe ofereceram os melhores sanduíches, os melhores alfajores, as bebidas mais gostosas. Uma moça, a mais bonita da festa, na minha opinião, arrancou uma flor de uma trepadeira e a colocou em sua lapela. Posso dizer que ele era o rei da festa e que foi ficando alegre com cada taça que tomava. As senhoras lhe mostravam os relógios de pulso desajustados ou quebrados, que quase todas levavam na munheca. Ele os examinava sorridente, prometendo que ia acertá-los sem cobrar nada. De novo se desculpou por usar um terno tão amarrotado e, rindo, disse que era porque não estava acostumado a ir a festas. Então Gervasio Palmo, que tem uma tinturaria atrás de casa, aproximou-se dele e disse:
Vamos passar o terno agora mesmo. Para que servem as tinturarias se não para passar os ternos dos amigos?
Todos acolheram a ideia com entusiasmo, até o próprio Estanislao, que é tão moderado, gritou de alegria e deu uns passinhos no compasso da música vinda de um aparelho de rádio que estava no meio do pátio. Assim iniciaram a peregrinação à tinturaria. Minha mãe, aborrecida porque tinham lhe quebrado o enfeite mais bonito da casa e sujado um caminho de mesa de macramê, me segurou pelo braço:
Não vá, querido. Me ajude a arrumar os estragos.
Como se o gato³ estivesse falando comigo (ainda que a senhorita não acredite), saí correndo atrás de Estanislao, de Gervasio e do resto da comitiva. Depois da casinha dos relógios do Estanislao Romagán, a casa de que eu mais gosto no bairro é essa tinturaria La Mancha. Dentro dela há fôrmas de chapéus, enormes tábuas de passar, aparatos que soltam vapor, recipientes gigantescos e um aquário, com peixes coloridos. O sócio de Gervasio Palmo, que chamamos de Nakoto, é um japonês, e o aquário é dele. Uma vez ele me deu de presente uma plantinha, que morreu em dois dias. Como ele pode querer que um menino goste de uma planta? Essas coisas são para os adultos, não acha, senhorita? Mas Nakoto usa óculos, tem os dentes muito afiados e os olhos muito compridos; não me atrevi a dizer isto a ele: o que eu queria que ele tivesse me dado era um dos peixes. Qualquer um me entenderia.
Já tinha escurecido. Caminhamos meia quadra cantando uma canção que desafinávamos ou que não existe. Na frente da tinturaria, Gervasio Palmo procurou as chaves no bolso, demorou para encontrá-las, porque tinha muitas. Quando abriu a porta, todos nos amontoamos e ninguém conseguia entrar, então Gervasio Palmo impôs a calma com sua voz de trovão. Nakoto nos afastou, acendeu as luzes da casa, tirando os óculos. Entramos numa sala enorme, que eu não conhecia. Diante de uma fôrma que parecia uma sela de cavalo, parei para olhar o lugar onde iam passar o terno de Estanislao.
Tiro a roupa? — perguntou Estanislao.
Não — respondeu Gervasio —, não se preocupe. Vamos passá-la no seu corpo.
E a giba? — quis saber Estanislao, timidamente.
Era a primeira vez que eu escutava essa palavra, mas, pela conversa, entendi o que significava (veja só que progresso em meu vocabulário).
Também vamos passá-la — respondeu Gervasio, dando-lhe uma palmada no ombro.
Estanislao se acomodou sobre uma mesa comprida, como lhe ordenou Nakoto, que estava preparando as tábuas de passar. Um cheiro de amoníaco, de diferentes ácidos, me fez espirrar: tampei a boca com um lenço, seguindo seus ensinamentos, senhorita, mas alguém me disse “porco”, o que me pareceu muita falta de educação. Que exemplo para um menino! Ninguém ria, a não ser Estanislao. Todos os homens esbarravam em algo, nos móveis, nas portas, nos utensílios de trabalho, neles mesmos. Traziam trapos úmidos, recipientes, tábuas. Aquilo parecia, ainda que a senhorita não acredite, uma operação cirúrgica. Um homem caiu no chão e me deu uma rasteira que por pouco não me arrebenta todo. Por isso, ao menos para mim, a alegria tinha acabado. Comecei a vomitar. A senhorita sabe que meu estômago é muito saudável e que os colegas do colégio me chamavam de avestruz, porque eu engolia qualquer coisa. Não sei o que aconteceu comigo. Alguém me tirou dali voando e me levou para casa.
Não voltei a ver Estanislao Romagán. Muita gente veio pegar os relógios e um caminhãozinho da relojoaria La Parca retirou os últimos, entre os quais havia um que parecia uma casa de madeira, meu preferido. Quando perguntei para minha mãe onde estava Estanislao, ela não quis me responder como devia ter respondido. Disse, como se falasse com o cachorro: “Foi para outro lugar”, mas tinha os olhos vermelhos de chorar por causa do caminho de mesa de macramê e do enfeite, e me fez ficar quieto quando mencionei a tinturaria.
Daria tudo para saber alguma coisa do Estanislao. Quando souber de algo, escrevo outra vez para a senhorita.
Saudações carinhosas, seu aluno preferido.
N. N.
______________________________________
2. Crendice popular que diz que tocar as costas de alguém corcunda traz boa sorte. (N. T.)
3. Gato é uma música (e uma dança) crioula, típica do folclore argentino. (N. T.)

Silvina Ocampo, in A fúria

Capítulo quatro | Mais abeira o branco


Boa de Espanto sentou e pediu que Altura Verde escutasse:
lembro quase nada. Eu deveria estar em tarefas, certamente fui ao longe para recados. Não sei. Não sei onde estaria. Sei que voltei como se caminhasse demasiado porque sentia muita dor e talvez qualquer percurso me fosse já distante por tanto penar. Atormentou meu espírito aquela brancura, eu não podia ver bem seu rosto, mas a pressa de seu corpo sobre o meu era feita da pele luminosa como se eu agarrasse um pouco de sol e ele não queimasse mas ferisse minha carne toda. Cortava. Não consigo lembrar se o avistei e tentei fugir. Se me colheu de traição. Eu lembro de estar sobre as folhas e havia talvez uma pedra com a qual me bateu. Julguei que tomasse meus ossos. Nem era para usar meu corpo por folia e ferir um filho em mim, eu julguei que ele estivesse cortando para tomar meus ossos.
Altura Verde respondeu:
o teu inimigo mais abeirou. Tua lembrança abeira o inimigo. Ele vai ser encontrado pela mata e nosso povo vai caçar. Quando tombar, o educaremos. Será inteiro na alegria abaeté. Não haverá mais sofrimento. Entoa de novo. Entoa de novo, sagrada Boa de Espanto.
E a feminina entoou:
tinha sede ou acabara de beber. Havia água, talvez estivesse perto do igarapé, mas não escutava nada porque eu só escutava como algo quebrava sob mim e temia que fosse eu própria. Eu entendi que o animal entrava no meu corpo. Entendi. Mas havia sangue, eu devo ter adormecido na dor porque creio que o sangue me surpreendeu ou assustou. Ele era calado. Coberto de seu entrançado fino. O branco é uma fera que sabe ser silente. E meu berro passava sem eco por seu vazio. Eu sinto que berrei. Porque depois eu quis calar também. Morrer forte. E era sempre tudo
muito claro. Eu continuo a ver apenas um corpo de luz pesando sobre mim e essa impressão de algo quebrar. Podia ser osso, mas eu não quebrei osso, sagrado Altura Verde, tu sabes. Eu voltei de esqueleto inteiro. Estou inteira de cada pedaço. Talvez quebrasse algum galho no chão. Deve ter enchido minha boca de folhas ou de terra porque eu sinto sempre nojo. Eu sinto haver comido porcaria e talvez por isso tenha calado também. Eu não sei. E sinto que morri. Sagrado Altura Verde, eu inteira morri. Não devo ter levantado. Fui levantada. Algum espírito me obrigou a caminhar de volta e eu não sei que espírito foi.
Altura Verde respondeu:
o teu inimigo mais abeirou. Tua lembrança abeira o inimigo. Ele vai ser encontrado pela mata e nosso povo vai caçar. Quando tombar, o educaremos. Será inteiro na alegria abaeté. Não haverá mais sofrimento. Entoa de novo. Entoa de novo, sagrada Boa de Espanto.
E a feminina entoou:
alguma coisa estava molhada. Talvez eu levasse água, talvez estivesse de mão mergulhada no igarapé. Quando despertei com o inimigo sobre meu corpo, eu pensei em água ou na vontade de beber. E agora acredito que tivesse tentado nadar, dissolver no curso, descendo. Ele agarrou minhas mãos, porque ainda me sabem suas presas aqui, comprimindo de encontro ao chão, afundando quase como se plantasse meus pulsos. Ele bateu muito, mas eu julgo que foi depois de amainar. Teve sua folia, amainou e bateu. Deve ter usado um galho que quebrou de algum tronco caído porque eu lembro de quebrar alguma coisa. Estava sempre quebrando alguma coisa. O ruído era o da mata morrendo junto.
Altura Verde perguntou:
e como era o inimigo, sagrada Boa de Espanto. Como era.
A feminina respondeu:
branco. Eu vi bem que era branco. Tinha dentes. Muitos dentes. Talvez estivesse sorrindo enquanto se apressava. Talvez mordesse. Ou talvez beijasse. Sujava minha boca com a sua boca. Ia devorar meu interior. Por isso, calei. Certamente foi assim. Eu vi menos seu rosto porque eu virei a cabeça para o chão de jeito a que não entrasse sua língua na minha. O animal mordia. E eu queria água para lavar seu gosto, o cheiro fétido. Fedia. Era uma luz que fedia. E olhava para o chão e alguns galhos ficavam ali e minha mão feria porque era esmagada contra os galhos. Eu cortei muito. Ainda antes que ele amainasse e batesse, eu já cortava. A pele abria e sentia que a carne deitava cada osso ao chão. Ou era meu medo. Devia ser meu medo, porque voltei cortada mas inteira. Doía muito, ainda sinto que dói. Eu queria soltar minha mão. Não sei se soltei. Perdi a força. Era forte para calar, não era forte para mais nada. E o peito dele começou a cobrir meu rosto. Era outras vezes o meu tamanho. Mas eu vi bem que era branco. O inimigo branco.
Altura Verde perguntou:
conta como viste.
A feminina respondeu:
era nos meus olhos. Tão claro que parecia imenso por ser indistinto da luz vinda do céu. Ou seriam seus olhos grandes metidos nos meus em pânico. Os olhos podem ser claros, sagrado Altura Verde. Tu crês que eles podem ser apenas um verde tímido num vazio. Eu julgo que era o tamanho dele, vazio. A amplitude de tudo quanto não há. Talvez por isso não possa lembrar do seu rosto. Jamais o poderei lembrar. O tamanho do inimigo branco era vazio. Como se fosse tão covarde que nem ali estivesse enquanto me atacava.
Altura Verde respondeu:
o teu inimigo mais abeirou. Tua lembrança abeira o inimigo. Ele vai ser encontrado pela mata e nosso povo vai caçar. Quando tombar, o educaremos. Será inteiro na alegria abaeté. Não haverá mais sofrimento.

Valter Hugo Mãe, in As doenças do Brasil

De carteiras a carteiristas

Como a parte final do capítulo anterior pode ter causado estranheza aos que vivem em terra firme, habituados a deliciar-se com muito elevadas e românticas ideias quanto ao caráter dos homens de um navio de guerra, talvez não seja impróprio registrar aqui alguns fatos sobre tal tema, os quais podem servir para colocar o assunto sob seu verdadeiro prisma.
Em virtude da vida selvagem que vivem e de inúmeras outras causas (inútil mencioná-las), os marinheiros, como classe, partilham de uma perspectiva bastante flexível ante a noções de moralidade e aos Dez Mandamentos; ou, antes, assumem posições próprias diante de tais assuntos, preocupando-se pouco com definições teológicas e éticas de outros no tocante ao que pode ser criminoso ou errado.
Suas ideias sofrem forte influxo das circunstâncias. Eles subtrairão discretamente algo de alguém que os desagrade; e serão firmes em dizer que, em tal caso, furto não é roubo. Ou, quando o crime envolve algum divertimento, tal como o caso da jaqueta branca, o farão unicamente pelo prazer da piada; não obstante seja mister lembrar: eles jamais estragam a piada devolvendo o objeto roubado.
É considerada boa brincadeira, por exemplo — e inclusive muitas vezes levada a bordo do navio —, ficar conversando com um sujeito numa vigília durante a noite, enquanto outros cortam os botões de seu casaco. Uma vez cortados, porém, esses botões jamais crescerão de novo. Botões não afloram espontaneamente.
Talvez seja algo incontornável, mas a verdade é que, em meio à tripulação de um navio de guerra, é muito frequente encontrarmos grupos de criminosos que não se intimidam ante os delitos maiores. Essa gente não desconhece assalto à mão armada. Um bando é informado de que certo sujeito tem três ou quatro peças de ouro em sua bolsilha, que muitos marinheiros trazem amarradas ao pescoço ou guardadas longe dos olhos de quem quer que seja. Sabendo disso, deliberam seus planos; e, na hora devida, tratam de executá-lo. Talvez o homem marcado esteja apenas atravessando a coberta penumbrosa em direção à caixa de seu rancho; quando, não mais que de repente, salteadores surgem de seu esconderijo, jogam-no ao chão e, enquanto dois ou três passam-lhe a mordaça e o amarram, outro arranca-lhe a bolsilha do pescoço e foge com ela, seguido de seus camaradas. Isso se sucedeu mais de uma vez a bordo do Neversink.
Noutras ocasiões, ante a hipótese de que um marinheiro tem algo de valor escondido em sua maca, eles a rasgam na face inferior enquanto ele dorme, e fazem da conjectura uma certeza.
Seria infindável enumerar todos os furtos menores a bordo de um navio de guerra. Com algumas muito louváveis exceções, eles roubam e são roubados sucessivamente, até que, em se tratando de objetos menores, parece se consolidar um conjunto de bens comuns a toda a marujada; que, por fim, como um todo, se mostra relativamente honesta, uma vez que quase todos se corrompem. É inútil o esforço dos oficiais de instilar, por meio de ameaças de punição condigna, princípios mais virtuosos em sua tripulação. O bando é tão coeso que, dentre mil ladrões, não se identifica um.

Herman Melville, in Jaqueta Branca

27/12/2021

Cartão Postal | Apanhador Só

Aja com bondade

Observe com atenção e perceberá: tudo acontece justamente. Digo em relação não somente ao encadeamento dos eventos, mas também à justiça. É como se os acontecimentos fossem obra de quem atribui valor a cada coisa. Continue atento. Aja em harmonia com a bondade — com o que é particular de um homem bom. Atenha-se a isso quando agir.

Marco Aurélio, in Meditações do Imperador Marco Aurélio: Uma Nova Tradução

Amor feinho

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.

Adélia Prado

O diabo estava cheio de tesão

Bem, eu tinha acabado de discutir com Flo e não estava com vontade de me embebedar nem de ir a uma casa de massagem. Então entrei no carro e segui para oeste, em direção à praia. Estava anoitecendo e dirigi lentamente. Cheguei ao píer, estacionei e caminhei por ali. Parei no fliperama, joguei um pouco, mas o lugar fedia a mijo e acabei saindo. Eu estava velho demais para andar no carrossel, então passei também essa atração. Os tipos de sempre vagavam pelo píer... uma multidão sonolenta e indiferente.
Foi quando notei um som de rugido vindo de um prédio nas proximidades. Uma fita ou uma gravação, sem dúvida. Na frente do local, havia um homem anunciando:
Sim, senhoras e senhores, venham, aqui dentro... nós realmente capturamos o demônio! Ele está em exibição para que vocês possam ver com seus próprios olhos! Pensem, por apenas 25 centavos, uma moeda, vocês podem realmente ver o diabo... o maior perdedor de todos os tempos! O fracassado da única revolução que já tentaram fazer no paraíso!
Bem, eu estava pronto para um pouco dessa comédia, ao menos para compensar o que Flo me fazia passar. Paguei os 25 centavos e entrei com seis ou sete outros idiotas de toda espécie. Mantinham o pobre-diabo em uma jaula. Haviam-no pintado de vermelho e ele tinha algo na boca que fazia com que, ao bufar, pequenas colunas de fumaça e labaredas de fogo se erguessem. Não estava fazendo um show lá muito bom. Estava apenas caminhando em círculos, repetindo sempre a mesma coisa:
Porra do caralho! Tenho que sair daqui! Como infernos acabei entrando nessa?
Bem, preciso dizer que ele realmente parecia perigoso. Subitamente, fez seis piruetas para trás. Na última, caiu em pé, olhou ao redor e disse:
Ah, merda, me sinto péssimo!
Então ele me viu. Caminhou direto para o lugar que eu ocupava perto da tela de arames. Ele era quente como um aquecedor. Não sei como fizeram isso.
Meu filho – ele disse –, finalmente você veio! Estive esperando por você. Trinta e dois dias que já estou nesta jaula de merda!
Não sei do que você está falando.
Meu filho – ele disse –, não faça piada comigo. Volte hoje à noite com um alicate para cortar estes arames e me liberte!
Não vem com essa merda pra cima de mim, cara – eu disse.
Estou aqui há 32 dias, meu filho! Finalmente vou recuperar minha liberdade!
Então você alega ser realmente o diabo?
Que eu coma o cu de um gato se não for verdade o que lhe digo – ele respondeu.
Bom, se você é mesmo o diabo, então pode usar seus poderes sobrenaturais pra sair daí.
Meus poderes desapareceram temporariamente. Esse sujeito que fica anunciando lá na frente estava preso junto comigo. Eles nos pegaram por embriaguez pública, junto com um bando de outros bêbados. Eu lhe disse que era o demônio e ele pagou a minha fiança. Estava sem meus poderes na prisão, ou então não teria precisado dele. Ele me embebedou outra vez e, quando acordei, estava nessa gaiola. O filho da puta me alimenta com comida pra cachorro e sanduíches com manteiga de amendoim. Meu filho, me ajude, eu lhe imploro!
Você é louco – eu disse. – Não passa de algum tipo de louco.
Basta que você volte esta noite, meu filho, com o alicate especial.
O anunciante entrou e disse que a sessão com o demônio tinha terminado e que, se quiséssemos vê-lo por mais tempo, teríamos de pagar outros 25 centavos. Eu tinha visto o suficiente. Saí juntamente com os demais idiotas de toda espécie.
Ei, ele falou com você? – perguntou um sujeitinho que caminhava ao meu lado. – Venho todas as noites e é a primeira vez que vejo ele falar com alguém.
Foda-se – eu disse.
O anunciante me parou.
O que ele lhe disse? Vi que falava com você. O que ele disse?
Ele me contou tudo – eu disse.
Bem, fique fora disso, meu chapa, ele é meu! Não ganho tanto dinheiro desde que a mulher barbada de três pernas estava aqui.
O que aconteceu com ela?
Fugiu com o homem-polvo. Estão administrando uma fazenda no Kansas.
Acho que vocês todos são loucos.
É um aviso. Eu encontrei esse sujeito. Não se meta!
Segui até o meu carro, entrei e voltei para Flo. Quando cheguei, ela estava sentada na cozinha, bebendo uísque. Continuou como estava e me disse uma centena de vezes que eu era um inútil. Bebi um pouco com ela sem dizer muito em minha defesa. Então levantei, fui até a garagem, peguei o alicate de cortar arame, coloquei-o em meu bolso, entrei no carro e dirigi de volta ao píer.

Arrombei a porta dos fundos, o ferrolho estava enferrujado e cedeu na minha primeira tentativa. Ele estava dormindo no chão da gaiola. Tentei cortar o arame da tela, mas não consegui. O fio era muito grosso. Então ele acordou.
Meu filho – ele disse –, você voltou! Eu sabia que voltaria!
Olha, cara, não consigo cortar o arame com isso. O fio é muito grosso.
Ele se levantou.
Deixe-me tentar.
Deus – eu disse –, suas mãos estão quentes! Você deve estar com algum tipo de febre.
Não me chame de deus – ele disse.
Ele cortou o fio com o alicate como se fosse uma linha de costura e saiu.
E agora, meu filho, para a sua casa. Tenho que recuperar minha energia. Alguns bifes de filé bem grossos e vou estar bem. Comi tanta comida de cachorro que receio que possa começar a latir a qualquer momento.
Caminhamos de volta para o meu carro e levei-o para a minha casa. Quando entramos, Flo ainda estava sentada na cozinha bebendo uísque. Fritei um ovo com bacon e fiz um sanduíche como aperitivo e nos sentamos com Flo.
Seu amigo é um demônio bem bonito – ela me disse.
Ele alega que é o demônio – eu disse.
Faz muito tempo – ele disse – desde que provei uma boa mulher.
Ele se inclinou para frente e beijou Flo longamente. Quando a soltou, ela parecia estar em um estado de choque.
Esse foi o beijo mais quente que já vi – ela disse. – E já vi muitos.
Mesmo? – ele perguntou.
Se você faz amor da mesma forma que beija, seria simplesmente demais, simplesmente demais!
Onde é o quarto? – me perguntou.
Siga a moça – eu disse.
Seguiu Flo para o quarto, e eu me servi um copo cheio de uísque.
Nunca tinha ouvido gritos e gemidos como aqueles, e a coisa continuou por uns bons 45 minutos. Então ele saiu sozinho e sentou e se serviu de uma bebida.
Meu filho – ele disse –, você tem uma mulher e tanto ali.
Ele caminhou até o sofá na sala da frente, se espreguiçou e adormeceu. Entrei no quarto, tirei a roupa e pulei na cama com Flo.
Meu deus – ela disse –, meu Deus, não acredito nisso. Ele me fez cruzar os céus e o inferno.
Só espero que ele não ponha fogo no sofá – eu disse.
Quer dizer que ele fuma um cigarro e vai dormir?
Esqueça – eu disse.

Bem, ele começou a tomar conta de tudo. Eu tive de dormir no sofá. Tive de escutar os gritos e gemidos de Flo que vinham lá do quarto todas as noites. Um dia, enquanto Flo estava no mercado e nós estávamos bebendo uma cerveja onde normalmente tomávamos café da manhã, tive uma conversa com ele:
Escute – eu disse –, não me importo de ajudar alguém, mas agora perdi minha cama e minha esposa. Vou ter de pedir para que você vá embora.
Acho que ainda vou ficar mais um pouco, meu filho, sua mulher é uma das melhores bucetas que já provei.
Escute, cara – eu disse –, talvez eu precise tomar medidas extremas para retirar você daqui.
Garoto durão, hein? Bem, escute, garoto durão, tenho uma pequena novidade para você. Meus poderes sobrenaturais voltaram. Se tentar foder comigo, vai acabar se queimando. Fique atento!
Tínhamos um cachorro. Chamava-se Old Bones; não valia muito, latia à noite e era um razoável cão de guarda. Bem, ele apontou para o cachorro e o seu dedo fez um som parecido com o barulho de um espirro, então, depois de um chiado, uma fina linha de fogo acertou Old Bones em cheio. O cachorro fritou e sumiu. Simplesmente não estava mais lá. Nenhum osso, nenhum pelo, nem mesmo o fedor. Só espaço.
Ok, cara – eu lhe disse. – Você pode ficar mais alguns dias, mas depois disso você tem que partir.
Prepare um bife de filé pra mim – ele disse –, estou com fome e receio que a minha contagem de esperma esteja diminuindo.
Levantei e atirei um bife na panela.
Prepare umas batatas fritas para acompanhar – ele disse – e uns tomates fatiados. Não preciso de café. Tenho andado com insônia. Vou só tomar mais algumas cervejas
No instante em que lhe servi a comida, Flo estava de volta.
Olá, meu amor – ela disse –, como está?
Bem – ele disse –, não tem ketchup?
Saí, entrei no meu carro e dirigi até a praia.

Bem, o anunciante tinha outro diabo lá dentro. Paguei meus 25 centavos e entrei. Esse demônio realmente não era grande coisa. A tinta vermelha que borrifaram nele o estava matando, e ele estava bebendo para não enlouquecer. Era um sujeito grande, mas não tinha nenhuma qualidade. Eu era um dos poucos clientes ali dentro. Havia mais moscas do que gente.
O anunciante veio até mim.
Tenho passado fome desde que você roubou o demônio de verdade de mim. Imagino que você agora está comandando o seu próprio show?
Escute – eu disse –, faço qualquer coisa para devolvê-lo a você. Estava apenas tentando ser um bom sujeito.
Sabe o que acontece com os bons sujeitos neste mundo, não sabe?
Sim, acabam na esquina da sétima com a Broadway vendendo revistas das Testemunhas de Jeová.
Meu nome é Ernie Jamestown – ele disse –, me fale o que está acontecendo. Tenho uma sala nos fundos.
Caminhei até a sala com Ernie. Sua esposa estava sentada à mesa, bebendo uísque. Ela levantou os olhos.
Escute, Ernie, se esse cretino for nosso novo diabo, esqueça. Muito melhor encenarmos um suicídio triplo.
Calma – disse Ernie – e passe a garrafa.
Contei a Ernie tudo o que tinha acontecido. Ele escutou cuidadosamente e depois disse:
Posso resolver esse problema para você. Ele tem duas fraquezas... álcool e mulher. E tem mais uma coisa. Não sei por que isso acontece, mas quando ele está confinado, como estava na prisão, na cela dos bêbados, ou naquela jaula ali fora, ele perde seus poderes sobrenaturais. Tudo bem, vamos começar a partir daí.
Ernie foi até o armário e trouxe, de arrasto, muitas correntes e cadeados. Então foi até o telefone e ligou para Edna Hemlock. Edna Hemlock tinha de nos encontrar em vinte minutos na esquina do Bar do Woody. Ernie e eu entramos no meu carro, paramos para comprar duas garrafas na loja de bebidas, encontramos Edna e fomos até a minha casa.

Eles ainda estavam na cozinha. Estavam se agarrando feito loucos. Mas assim que viu Edna, o demônio esqueceu da minha mulher. Livrou-se dela como quem se desfaz de um par de calcinhas manchadas. Edna era uma mulher completa. Quando a fizeram, não esqueceram de nenhum detalhe.
Por que vocês não bebem para se conhecerem melhor? – disse Ernie.
Ernie serviu dois grandes copos de uísque diante de cada um deles.
O demônio olhou para Ernie.
Ei, seu filho da puta, você é o sujeito que me colocou naquela jaula, não é mesmo?
Esqueça – disse Ernie –, vamos deixar o passado no passado.
Claro que não!
Apontou o dedo e a linha de chamas foi até Ernie e logo ele já não estava mais lá.
Edna sorriu e ergueu seu copo de uísque. O diabo mostrou os dentes, ergueu seu copo e bebeu tudo.
Que coisa boa! – ele disse. – Quem comprou?
O homem que acabou de deixar o recinto há um momento – eu disse.
Ah.
Ele e Edna beberam outro copo e começaram a se olhar. Então minha velha esposa disse a ele:
Tira os olhos dessa vagabunda!
Que vagabunda?
Ela!
Apenas beba sua bebida e cale a boca!
Ele apontou o dedo para a minha esposa, ouviu-se um som de um estalido, e ela não estava mais lá. Então ele me olhou:
E o que você tem a dizer?
Eu? Sou o sujeito que trouxe o alicate de cortar arame, lembra? Estou aqui para levar mensagens, trazer toalhas e assim por diante...
Com certeza é ótimo ter meus poderes sobrenaturais novamente.
São bem úteis – eu disse –, ainda mais agora que temos um problema de superpopulação.
Ele estava olhando para Edna. Estavam se olhando tão intensamente que consegui roubar uma das garrafas de uísque. Peguei a garrafa e entrei no meu carro e dirigi de volta para a praia.

A esposa de Ernie ainda estava sentada na sala dos fundos. Ela estava feliz em ver uma nova garrafa e eu servi dois copos.
Quem é o garoto que está trancado na jaula? – perguntei.
Oh, é um quarterback de terceira categoria de uma das universidades locais. Está tentando ganhar um extra.
Você realmente tem belos peitos – eu disse.
Você acha? Ernie nunca elogia meus peitos.
Beba. Esse uísque é muito bom.
Puxei a cadeira e sentei-me ao lado dela. Ela tinha coxas belas e grossas. Quando a beijei, ela não resistiu.
Estou tão cansada dessa vida – ela disse. – Ernie sempre foi um pilantra barato. Você tem um bom emprego?
Sim. Sou o gerente do setor de despachos da Drombo-Western.
Me beija de novo – ela disse.

Rolei para o lado e me limpei com o lençol.
Se Ernie descobrir, ele nos mata – ela disse.
Ernie não vai descobrir. Não se preocupe com isso.
Você é muito bom de cama – ela disse, – mas por que eu?
Não estou entendendo.
Quero dizer, de verdade, o que o levou a fazer isso?
Ah – eu disse –, o diabo me obrigou.
Então acendi um cigarro, me deitei de barriga para cima, traguei e soprei um anel de fumaça perfeito. Ela se levantou e foi ao banheiro. Em um minuto ouvi a descarga da privada.

Charles Bukowski, in Ao Sul de Lugar Nenhum