27/12/2020

A crítica ácida no traço do polonês Pawel Kuczynski

 

As três experiências

          Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O “amar os outros” é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.
E nasci para escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por quê, foi esta que eu segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.
Quanto a meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o voo necessário, e eu ficarei sozinha. É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.
Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte, mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é o meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia.
Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse à minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.
Espero em Deus não viver do passado. Ter sempre o tempo presente e, mesmo ilusório, ter algo no futuro.
O tempo corre, o tempo é curto: preciso me apressar, mas ao mesmo tempo viver como se esta minha vida fosse eterna. E depois morrer vai ser o final de alguma coisa fulgurante: morrer será um dos atos mais importantes da minha vida. Eu tenho medo de morrer: não sei que nebulosas e vias lácteas me esperam. Quero morrer dando ênfase à vida e à morte.
Só peço uma coisa: na hora de morrer eu queria ter uma pessoa amada por mim ao meu lado para me segurar a mão. Então não terei medo, e estarei acompanhada quando atravessar a grande passagem. Eu queria que houvesse encarnação: que eu renascesse depois de morta e desse a minha alma viva para uma pessoa nova. Eu queria, no entanto, um aviso. Se é verdade que existe uma reencarnação, a vida que levo agora não é propriamente minha: uma alma me foi dada ao corpo. Eu quero renascer sempre. E na próxima encarnação vou ler meus livros como uma leitora comum e interessada, e não saberei que nesta encarnação fui eu que os escrevi.
Está-me faltando um aviso, um sinal. Virá como intuição? Virá ao abrir um livro? Virá esse sinal quando eu estiver ouvindo música?
Uma das coisas mais solitárias que eu conheço é não ter a premonição.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

Instale ainda hoje o seu humildificador

          Senta que lá vem história. Na primeira delas vamos encontrar o lamentável marechal Costa e Silva visitando as instalações do Jornal do Brasil na avenida Rio Branco. A ciceroneá-lo a muy digna proprietária do estabelecimento, a condessa Pereira Carneiro. Ao se aproximar o fim do tour, ela informa ao presidente que no dia seguinte o JB noticiaria a visita em suas páginas. O segundo chefe da ditadura militar, com a elegância que caracterizava a classe, quis saber mais:
Vai ter elogio?”
A condessa, constrangida com a cara-de-pau do cara, informou-lhe, com jeitinho, que, hum, bem, não haveria. Seria feita uma reportagem sem comentários, objetiva, como é da boa norma jornalística, da passagem do presidente pela casa. O marechal foi-lhe sincero:
Desse jeito não precisa não, condessa. Eu gosto mesmo é de elogio.”
Na segunda história, vamos encontrar entrando numa festa o diretor Daniel Filho, um currículo enorme de grandes realizações na TV brasileira. Daniel cumprimenta uns e outros, até que chega ao grupo em que um conviva está cercado de barbudos e cabeludos por todos os lados. Ao mesmo tempo que aperta a mão do diretor, o sujeito vira-se para a roda. A pretexto de apresentação, anuncia:
Pessoal, esse é o Daniel Filho.”
E depois de fazer uma pausa enfática para que todos anotassem bem a que tipo de gente o recém-chegado pertencia, foi em frente na apresentação:
Ele adora um sucesso.”
Continue sentado porque lá vem mais história.
Sucesso e elogio são dois dos mais lindos bálsamos semânticos da língua e eu sugeriria a esses deputados sempre em busca de algo desnecessário a se apresentar como projeto de lei que fosse instituída uma Bandeira Brasileira do Bom Profissional. O mesmo retângulo verde, o mesmo losango amarelo e a bolota azul. Sairia apenas o “Ordem e Progresso” da faixa entre as estrelas para dar lugar ao “Sucesso e Elogio”.
Eu gostaria de provar dos dois, quem não? Qualquer caixa do Bradesco ou cientista de Manguinhos está em busca dessas delícias perigosas. No Brasil, sucesso é ofensa pessoal. Elogio, em qualquer parte do mundo, nunca satisfaz a nossa enorme fome de reconhecimento. Elogio-e-sucesso, como a banana da música do Braguinha, engorda e faz crescer. Os Ronaldinhos ficaram mais bonitos depois, é ou não é? Mas leia a bula. Há efeitos colaterais desagradáveis da ingestão sem cuidado daquelas bananas.
Uma antiga namorada diria que eu não passo disso, frankenstein leonino surgido do cruzamento do Costa e Silva com o Daniel Filho. Desacordo. Ela não sabe, por mais boa moça que seja, coitada, que um jornalista tem no conteúdo da sua caixa postal diária um cirurgião plástico eficiente para lhe corrigir na cara e na alma as monstruosidades que sucesso e elogio podem fazer ao ego e perfil. Não uso Pond’s. Ao bisturi do Pitanguy também nunca fui acertar problemas de máscara comportamental. Para manchas e espinhas do caráter uso o santo remédio – o e-mail do leitor que não gosta. Do leitor que não te acha essa Coca-Cola toda. Que denuncia a pobreza das tuas vírgulas. É o mais fantástico corretor facial existente no mercado.
Tenho dúzias de e-mails desse tipo arquivadas, e sei que novos chegarão. “Quanta falta de assunto”, dizem sempre. Guardo com especial carinho aquele que já nas primeiras horas de uma manhã de segunda-feira abria os trabalhos da minha correspondência. O leitor tinha acabado de sobreviver ao embate com não sei mais que crônica. Foi curto e grosso na opinião: “Ai que saudade do Rubem Braga. Desiste, cara.” Um bom-dia desses, desde que cheguem outros na direção oposta, deixa qualquer um no seu tamanho exato. É a senha para você se levar menos a sério. Dá equilíbrio. Tira o salto.
Eu moro em Niterói, faço crônica para um site da Califórnia e sei como é”, disse outro leitor. “A inspiração não veio hoje, né?”
O jornalismo diário, com sua enorme possibilidade de erro e a espetacular exibição pública desses fracassos, os mais discretos deles transformados imediatamente em e-mails esculhambatórios ao seu responsável, no caso este que vos digita, é a minha versão particular do “humildificador”. Trata-se de um “aparelho virtual” patenteado pelo psicanalista Francisco Daudt. A engenhoca ativa uma área cerebral que costuma ficar sem uso: a noção da nossa própria desimportância. Ao longo do dia, o humildificador sussurra nas orelhas do seu portador um mantra básico para cortar qualquer possível efeito alérgico da ingestão da droga moderna do elogio-e-sucesso. “Menos, bicho, menos.” Se o papa morre, você, então, nem se fala. Pega leve. Se toca. Olha a pose.
Rhett Butler, grande filósofo do século passado, estava certo quando olhou nos olhos de Scarlett O’Hara em “...E o vento levou” e mandou outra das frases que ativam o humil- dificador de Daudt: “Francamente, querida, eu não estou nem aí para isso tudo.”
Agora senta que lá vem a última história.
Séculos atrás, na TV Continental, canal 9 do Rio de Janeiro, Fernando Lobo entrevistava alguém cheio das importâncias.
Entrevistado: “Bem, Fernando, eu não sei se eu posso responder a sua pergunta aqui na televisão.”
Fernando: “Ah, claro que sim. Fala aí. Ninguém assiste a este programa mesmo...”
Fernando Lobo já usava, tenha um também. O humildificador está à venda nas boas casas do ramo. Instale hoje mesmo e viva a delícia feliz da nossa humana desimportância.

Joaquim Ferreira dos Santos, in Em busca do Borogodó perdido

26/12/2020

Sabor a mi / Cyrille Aimée & Diego Figueiredo

O procurador do amor

Amor, a quanto me obrigas.
De dorso curvo e olhar aceso,
troto as avenidas neutras
atrás da sombra que me inculcas.

Esta sombra que se confunde
com as mulheres gordas e magras,
entra numa porta, sai por outra
como nos filmes americanos,
e reaparece olhando as vitrinas.

Meu olhar desnuda as passantes.
Às vezes um bico de seio
vale mais que o melhor Baedeker.
Mas onde seio para minha sede?

O andar, a curva de um joelho,
vinco de seda no quadril
(não sabia quanto eras pura),
faço a polícia dos dessous.

Eu sei que o êxtase supremo,
o looping no céu espiritual
pode enredar-se, malicioso,
no que as mulheres mais (?) escondem
no que meus olhos mais indagam.

O dia se emenda com a noite
As mulheres vão para a rua
mas a mulher que tu me destinas
talvez ainda esteja em Peiping.

Desiludido ainda me iludo.
Namoro a plumagem do galo
no ouro pérfido do coquetel.
Enquanto as mulheres cocoricam
os homens engolem veneno.

E faço este verso perverso
inútil, capenga e lúbrico.
E possível que neste momento
ela se ria de mim
aqui, ali ou em Peiping.

Ora viva o amendoim.

Carlos Drummond de Andrade

Parem com essa bobagem de querer ter sucesso

          “Fulano é um homem muito bem-sucedido”, “Beltrana construiu uma carreira de sucesso”. Crescemos ouvindo esse tipo de expressão acerca de pessoas que teoricamente chegaram ao topo de suas caminhadas e passamos a aceitar desde pequenos que nossa principal meta de vida é alcançar o sucesso.
A questão interessante que se coloca é que praticamente nunca ouvimos uma pessoa repetir este discurso em primeira pessoa: “Eu alcancei o sucesso.” Talvez isso ocorra por uma razão muito simples, que nada tem a ver com humildade: sucesso é uma coisa e realização é outra, completamente diferente. Sucesso é o que os outros pensam sobre uma pessoa e seus caminhos, enquanto a realização é o que a pessoa pensa sobre as escolhas que fez na própria vida. Realização pessoal, realização profissional: alcançar a realização é encontrar a plenitude em determinadas esferas da vida, ter sucesso é simplesmente passar uma imagem de que tudo deu certo.
O problema é que muitas vezes as coisas não deram tão certo quanto o sucesso quer fazer parecer. O sucesso é um telhado de vidro, ninguém sabe muito bem quão resistente é aquilo. O sucesso, puro e simples, pode vir acompanhado de uma infelicidade gigantesca. Não apenas por causa da velha história de que muitos sacrificam a vida pessoal por conta da carreira. Mas porque cada vez mais frequentemente encontramos pessoas que chegaram no topo de empresas, de escritórios e da mídia – os famosos “profissionais bem-sucedidos” – mas que não sentem, nem de longe, que encontraram a realização profissional.
Já o sentimento de realização caminha realmente muito próximo da sensação de missão cumprida. Mas, para tanto, é preciso que haja uma missão. Metas não são missões. Sonhar com um cargo não é ter uma missão. Traçar uma carreira com GPS e executar o caminho no menor tempo possível pode até garantir sucesso, mas nunca garante que você se sente naquela cadeira sonhada e sinta-se minimamente realizado.
Então às vezes nós temos que parar e nos perguntar: para quem estamos construindo as nossas vidas? Para quais olhares estamos direcionando nossas imagens? Para os nossos ou para os dos outros? Será que não estamos dedicando tempo demais às aparências e será que um dia isso não vai nos custar muito caro? Porque, no fim das contas, os cargos se vão, o prestígio se vai e só o que resta é a opinião que nós mesmos temos sobre a estrada percorrida.

Ruth Manus, in Um dia ainda vamos rir de tudo isso

Mafalda

 

Coragem

Do adversário de verdade flui uma coragem sem limites para dentro de você.

Franz Kafka, in Aforismos reunidos

A entrega da pequena Isa

          A proposta da dona Amanda era tão absurda quanto irrecusável. Em troca da propriedade dos campos onde Lauro construíra seu rancho e vivia com sua família, a filha do seu querido padrinho pediu para que entregassem a pequena Isa, sempre tão adoentada, para que ela a cuidasse.
Lauro, eu peço que penses muito bem na proposta. Vocês têm outras crianças. Além disso, a pequena está doente e vocês não tem condições de criá-la. Deixem-na comigo, e ela terá somente do bom e do melhor. E vocês finalmente vão ser donos daquele posto onde meu pai deixava que vocês morassem — deixou que a ameaça velada fizesse seu efeito.
Algum tempo depois, Lauro e dona Amanda entraram na cozinha, onde estavam Ana e Pitanga.
Ana, arruma a Isa e traz a menina aqui. — pediu ele.
A esposa fez a vontade do marido e trouxe a criança, de uma limpidez mórbida e olhos escondidos em olheiras cinzentas e profundas. Ele disse à esposa então:
Mulher, peço que me perdoe pelo que eu fiz. Mas nossa filha está doente e, se não fizermos algo, ela acabará morrendo. Como chefe desta família, não posso permitir que isso aconteça.
Ana, com lágrimas riscando suas faces, ficou em silêncio à espera da explicação do esposo, e ele disse:
A partir de agora, a dona Amanda e o marido vão cuidar da Isa. A menina vai ter tudo que precisa: médicos, remédios e tudo o mais. E a vó dela vai estar sempre por perto.
Sem acreditar no que ouvia, a mãe explodiu em um choro convulsivo e, com as mãos tremendo, segurava firme sua pequena filha contra o peito. Fora de si, gritava:
Ninguém tira ela de mim, ninguém!
Já era tarde demais. A velha Pitanga aproximou-se da nora e retirou-lhe a criança dos braços. Pragmática, recolheu as poucas coisas da menina que estavam pela casa. Com a voz seca e sem rodeios, disse:
Foi Deus quem quis assim, minha filha. Vocês não têm condições de tratar desta menina. Não deixe que o egoísmo acabe com a vida da minha neta. Volte pra casa, cuide dos teus outros filhos e apoie teu marido, que mulher não deve discutir — disse isso e levou a pequena para sua nova família.
E foi mais ou menos assim que o Posto virou Chácara das Lebres. Porém, quando finalmente a prosperidade pediu pouso no rancho da família, veio com ela a tristeza e, sem pedir licença, foi como que se adonando do pouco que os Contreras tinham.
A vida deles nunca mais foi a mesma. Para desviar do assunto que parecia sempre rondá-lo, Lauro concentrou todas suas forças em trabalhar ainda com mais afinco do que antes. Continuava com um pouco de gado do Silêncio engordando em sua chácara, sobre o qual recebia um valor por cabeça. Comprou animais, plantou. Saía de seu rancho todos os dias antes do amanhecer e retornava apenas à noite.
A partir daí, os Contreras deixaram de ser uma família. Eram apenas um bando que dividia o mesmo rancho, a mesma lida e a mesma vida miserável que Deus lhes dera. Pouco tempo depois, foram embora também Miguelina, que decidiu ganhar a estrada no lombo do cavalo de um gaúcho qualquer; Álvaro, que foi trabalhar de peão em uma estância lindeira, e Mariana, que se juntou com um capataz e foi morar com ele. Ficaram no rancho apenas Lauro, a esposa, João e Laurinho.
Sentado nas sombras do ipê-amarelo, Lauro ruminava suas escolhas e não conseguia afastar o amargor que lhe subia à boca. Quando havia aceitado a oferta de dona Amanda, tinha certeza de que estava certo. No entanto, naquele momento, já nem sabia mais.

R. Tavares, in Andarilhos

24/12/2020

Nego Max / Eu não sou racista | Prod. DropɅllien

O inominável

          O eu nem nome tem. O meu nome, diz ele, é João. E daí? É como se dissesse o meu nariz, os meus óculos, o meu par de sapatos.
Este eu irredutível é o que existe de mais impessoal portanto, mais vasto e mais profundo — o assunto primeiro e último dos poemas, o campo de batalha dos anjos.
O resto é a pessoa ocasional, isto é, o indivíduo a quem emprestaram o nome de João, que comprou um par de sapatos, que usa óculos e se julga dono do próprio nariz.

Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

Conto vitorioso

          Este conto é o melhor conto do livro. Mais do que isso. Esse conto é o melhor conto do mundo. E isto, não fomos nós que decidimos. Isto foi decidido unanimemente por dezenas de especialistas independentes que o compararam – usando padrões laboratoriais rígidos – a uma amostragem representativa da literatura mundial. Este conto é uma inovação israelense exclusiva, única. E aposto que vocês estão se perguntando, como foi que justamente nós (o pequeno e minúsculo Israel) o escrevemos e não os norte-americanos? Então saibam que também os norte-americanos fazem a mesma pergunta. E não são poucos os figurões do mundo editorial norte-americano que estão para perder o emprego por não terem tido uma resposta pronta a tempo.
Exatamente como o nosso exército é o melhor do mundo, este conto também. Trata-se, inclusive, de uma inovação protegida por patente registrada. E onde é que esta patente está registrada? É isso. Está registrada no próprio conto. Neste conto não há tretas, mumunhas ou partes melosas. É todo constituído de um único bloco, uma amálgama de profundas introspecções e alumínio. Não enferruja, não perturba, mas pode perambular. É muito atual, mas também supratemporal. E a história julgará. Aliás, na opinião de muitos e bons, já julgou e nosso conto triunfou.
O que é tão especial neste conto?” As pessoas perguntam por ignorância ou dissimulação [depende de quem]. “O que é que ele tem que não se encontre em Tchekov ou em Kafka ou sei lá quem?” A resposta a esta pergunta é longa e complicada. Mais longa do que o próprio conto, mas menos complexa. Porque não há algo mais intrincado que este conto. Apesar disto, vamos tentar responder com um exemplo. No final deste conto, em contraste com os contos de Tchekov ou de Kafka, um afortunado vencedor – selecionado ao acaso entre os que o leram corretamente – ganhará um carro Mazda Lantis cor cinza metálico. E dentre os que lerem de forma incorreta será sorteado outro carro, mais barato, mas não menos cinza metálico, para que ele ou ela não se sinta mal. Porque este conto não está aqui para mostrar arrogância. Ele está aqui para que vocês se sintam bem. Como está escrito no guardanapo de papel da lanchonete perto da casa de vocês? SE GOSTARAM, CONTEM PARA OS AMIGOS. SE NÃO GOSTARAM, FALEM CONOSCO. Ou neste caso, contem ao conto. Porque este conto não é só narrador, ele é também ouvinte. O ouvido dele, como se diz, está atento aos sentimento do público. E quando o público se encher dele e quiser lhe dar uma conclusão, este conto não arrastará os pés ou se segurará nas bordas do altar, ele simplesmente terá um fim.

Etgar Keret, in De repente, uma batida na porta

Então é Natal!

 

Sem teatralidade

Que alma aquela que está preparada a qualquer momento, se for preciso, para deixar o corpo, para extinguir-se ou dispersar-se ou sobreviver! Mas que essa preparação sobrevenha do próprio julgamento, não de mera obstinação, como no caso de cristãos; que seja refletida, séria e, se quiseres convencer os outros, despida de teatralidade.

Marco Aurélio, in Meditações

Crônica de Natal (de novo)

          Tenho inveja dos cronistas novos. Não porque eles não sabem que todas as crônicas de Natal já foram escritas e podem escrevê-las de novo. Mas porque podem fazer isto sem remorso.
Tem as infinitas variações sobre problemas encontrados por Papai Noel no mundo moderno (seu trenó levado num assalto, sua dificuldade em se identificar em portarias eletrônicas, protestos de ambientalistas contra o seu tratamento das renas, suspeita de exploração de trabalho escravo, suspeita de pedofilia etc.).
Tem as muitas maneiras de atualizar a história da Natividade (Maria e José em fila do SUS, os Reis Magos chegando atrasados porque foram detidos por patrulhas israelenses ou militantes palestinos, Jesus vítima de uma bala perdida).
Tem as versões diferentes da cena na manjedoura, inclusive — juro que já li esta, se não a escrevi — narrada do ponto de vista do boi.
Todas já foram feitas.
Há tantas crônicas de Natal possíveis quanto há meios de se desejar felicidade ao próximo.
Os cartões de fim de ano são outro desafio à criatividade humana. Pois todas as suas variações também já foram inventadas.
Quando eu trabalhava em publicidade, todos os anos recebia encomendas de saudações de Natal e Ano Novo “diferentes”, porque os clientes não se contentavam em apenas desejar que o Natal fosse feliz e o Ano Novo fosse próspero.
Uma vez sugeri um cartão de Natal completamente branco com a frase “Aquelas coisas de sempre…” num canto, mas acho que este foi considerado diferente demais.
E dê-lhe poesia, pensamentos inspiradores, má literatura e a busca desesperada do diferente.
Um cartão em forma de sapato, de dentro do qual saía uma meia: a meia para o Papai Noel encher de presentes e o sapato para entrar no Ano Novo de pé direito. Coisas assim.
Enfim, tudo isto é apenas para desejar a você aquelas coisas de sempre…

Luís Fernando Veríssimo, in peramblogando.blogspot.com

23/12/2020

Maria Bethânia / Carta de Amor

Novos dias

Que bom que Deus ou não sei quem inventou os novos dias”.

Preciosa, no filme Preciosa

O genial Quino

 

Ovos de Páscoa

O ovo não cabe em si, túrgido de promessa,
A natureza morta palpitante.
Branco tão frágil guarda um sol ocluso
O que vai viver, espera.

Adélia Prado

Divina Música

Entre as graças que devemos à bondade de Deus, uma das maiores é a música. A música é tal qual como a recebemos: numa alma pura, qualquer música suscita sentimentos de pureza.”

Miguel de Unamuno, in O segredo da vida