28/12/2018

Alma perdida

Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente…
Talvez sejas a alma, a alma doente
D’alguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste… e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh’alma
Que chorasse perdida em tua voz!…
Florbela Espanca

É(ti)ca!


O homem entre os bois

Luxo de lei; luxo louco. Sair de casa, mão que sim, pé na noite, fim de estrelas, rio de orvalho, pão do verde, galope e sol, deus no céu, mundo rei, tudo caminho. Escolher de si, partir o campo, falar o boi, romper à fula e à frouxa, dar uma corra, bater um gado; arrastar às costas o couro do dia. Rer, adviver, entender, aguisar, vigiar, corçoar, conter, envir, sistir, miscuir, separar, remover, defender, guaritar, conduzir.
Assim o vaqueiro lá a cavalo, no meio do mapa.
Guimarães Rosa, in Ave, palavra

26/09/91 - 12:16

Recebi as provas do novo livro hoje. Poesia. Martin disse que vai dar umas 350 páginas. Acho que os poemas são bons. Assalto ao trem. Sou um velho trem a vapor, correndo para o hipódromo.
Levei umas duas horas para ler. Tenho certa prática nisso. As linhas rolam livremente e falam sobre o que quero que falem. Hoje, minha principal influência sou eu mesmo.
À medida que vivemos, caímos e somos destroçados por várias armadilhas. Ninguém escapa delas. Alguns até mesmo convivem com elas. A ideia é se dar conta de que uma armadilha é uma armadilha. Se você está numa e não se dá conta, você está fodido. Acho que me dei conta da maioria das minhas armadilhas e escrevi sobre elas. É claro, nem tudo o que escrevi foi sobre armadilhas. Existem outras coisas. Ainda assim, alguns dizem que a vida é uma armadilha. Escrever pode ser uma armadilha. Alguns escritores tendem a escrever o que agradou seus leitores no passado. Daí, estão fodidos. A criatividade da maioria dos escritores tem vida curta. Ouvem os elogios e acreditam neles. Há apenas um juiz final do que foi escrito, que é o escritor. Quando é influenciado pelos críticos, editores, leitores, está acabado. E, é claro, quando for influenciado por sua fama e sua fortuna, você pode mandá-lo flutuando rio abaixo junto com a merda.
Cada nova linha é um começo e não tem nada a ver com as linhas que a precederam. Todos começamos como novos, a cada vez. E, é claro, isto não tem nada de sagrado. O mundo pode viver muito mais facilmente sem livros do que sem encanamentos. E alguns lugares do mundo quase não têm nenhum dos dois. É claro, preferia viver sem encanamento, mas preciso dele porque estou doente.
Não há nada que impeça um homem de escrever, a não ser que ele impeça a si mesmo. Se um homem quer realmente escrever, ele o fará. A rejeição e o ridículo apenas lhe darão mais força. E quanto mais for reprimido, mais forte ele se torna, como uma massa de água forçando um dique. Não há perdas em escrever; faz seus dedos do pé rirem enquanto você dorme; faz você andar como um tigre; ilumina seus olhos e coloca você frente a frente com a Morte. Você vai morrer como um lutador, será reverenciado no inferno. A sorte da palavra. Vá com ela, mande-a. Seja o Palhaço nas Trevas. É engraçado. É engraçado. Mais uma linha...
Charles Bukowski, in O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio

O testa de ferro

Naquele tempo os jornalistas eram homens que fabricavam desaforos com tinta.
Os de hoje também fabricam, mas antigamente os desaforos eram mais pesados e mais numerosos.
Dedicar-se alguém a essa hidrofobia impressa, agradável aos leitores e desagradável aos políticos, é arriscado e exige músculo abundante e ossos espessos, atributos que dificilmente se encontram em articulistas. Eles têm, é verdade, bastante coragem, mas a coragem dura apenas o tempo necessário à produção dos artigos. Com as portas cerradas e Deus por testemunha, todos nós somos criaturas naturalmente dispostas — e arranjamos sozinhos diálogos admiráveis em que espatifamos adversários com habilidade espantosa.
É impossível conhecer-se a dignidade toda que há nos homens: de ordinário ela fica escondida. Surge às vezes nas conversas em que pessoas imaginosas contam rasgos de heroísmo que praticaram e nos insultos escritos para os jornais.
É aí que o indivíduo se supera, como dizia o Zaratustra, e se, em horas de trabalho, o literato valente visse aparecer-lhe um perigo sério, é provável que, impossibilitado de se transformar de repente, tivesse um pouco das qualidades que julga ter.
Infelizmente as folhas descem para a composição — e certas ideias importunas começam a picar o redator. Na revisão cortam-se alguns adjetivos cabeludos; como, porém, a coragem ainda existe, outros permanecem. De resto é preciso que um intelectual não se acanalhe perante os tipógrafos. Resultado: no dia seguinte há conveniência em o jornalista não sair de casa ou sair com precaução, olhando para os cantos e evitando encontros prejudiciais à ordem pública.
Realmente a tranquilidade só chega quando vem a certeza de que a vítima, fingindo superioridade, não ligou importância ao ataque. Aí o articulista sabe, sem nenhuma sombra de dúvida, que é bravo.
Com exercício, no decorrer dos anos, a bravura aumenta.
Podem advir, entretanto, mal-entendidos e sucessos deploráveis. Criaturas de índole selvagem, ignorando que a imprensa é um sacerdócio e pode gritar, arranhar, morder impunemente, indignam-se quando são alvejadas com retórica e vingam-se com pancadas. Temos visto alguns desses mártires da liberdade do pensamento, cobertos de glórias e de esparadrapos.
Para poupar sacrifícios inúteis foi que, em épocas passadas, se instituiu o testa de ferro, figura de que os escritores idosos se lembram.
Era o padrasto das diatribes que as folhas publicavam.
Não valia nada, falava difícil, discutia todos os assuntos, conhecia frases latinas, não escrevia, não se ocupava em coisa nenhuma e ganhava cinquenta mil réis por mês, uma insignificância atualmente, mas quantia razoável no tempo em que havia câmbio.
Se um jornal trazia publicação escandalosa, os ofendidos tinham dois caminhos, é claro: partir a cara do autor ou levá-lo à Justiça. Quem foi, quem não foi — e o barulho começava.
Nesse ponto o testa de ferro assinava uma declaração responsabilizando-se pelas injúrias e calúnias presentes e futuras. E a parte contrária, desarmada, metia a viola no saco, porque ninguém quereria entreter com semelhante personagem uma briga chinfrim em calçadas ou uma pendência ridícula no foro.
Daí em diante a gazeta podia insultar à vontade. Ah! Já tivemos liberdade de pensamento.
E a reputação do testa de ferro crescia. O testa de ferro era considerado.
Sofria, é certo, alguns dissabores sem consequências graves: quebravam-lhe uma costela ou duas, de longe em longe, em noites de escuro. Tolice. Em toda parte há sempre costelas quebradas.
Enquanto o nosso homem se consolidava, a literatura política florescia jogando bilhar, dançando na Phenix ou declamando discursos.
O testa de ferro desapareceu. Habituado a viver em redações, acabou mexendo os pronomes, fez sonetos e compôs arengas compridas. Depois morreu. Faz pena.
Por isso deixam de circular hoje em dia muitas descomposturas.
Graciliano Ramos, in Garranchos [Jornal de Alagoas, 16/08/1931]

Street Art, de Julien de Casabianca, em Memphis, USA


Uma carta virtual da Catalunha

Outro dia uma vizinha mineira me disse que ia à Catedral da Sé para rezar pelos carteiros. Pensei que ela ia rezar pelo aumento do salário dos carteiros, que estavam em greve. Mas a razão da reza era mais grave.
Meu pai foi carteiro em Belo Horizonte”, ela disse. “Daqui a cinco anos os carteiros vão perder o emprego para a internet.”
Ainda recebo postais”, eu disse. “Recebi um de Cruzeiro do Sul, outro de Zurique, um de Fez, dois de Belém. E vou receber um envelope…”
Seus postais e envelopes estão com os dias contados”, interrompeu minha vizinha. “Daqui a cinco anos você só vai receber extrato bancário. Ou nem isso. Vão entupir seu computador com postais eletrônicos. Por isso vou rezar por esses mensageiros andarilhos em extinção.”
Mensageiros andarilhos em extinção…
Agora, ao ver um carteiro na calçada, a frase da minha vizinha piedosa me vem à mente. Não sei se os postais, as cartas e os carteiros vão sumir. Sei que a amizade está ficando virtual demais. Temo que os amigos desapareçam, já nem ouço a voz de alguns deles, nem ao telefone. Porque ver e abraçar um amigo tornou-se uma coisa complicada, quase uma façanha numa cidade cujos moradores só se deslocam com rapidez por baixo da terra. E há poucas estações de metrô numa metrópole do tamanho de São Paulo. Uma mensagem eletrônica é um contato muito mais rápido, quase instantâneo. Mas será mais humano?
E o diabo é que os bloqueadores dos provedores são driblados o tempo todo. Não há bloqueador infalível, de modo que as mensagens indesejáveis proliferam que nem atos secretos.
Por que eu me interessaria em comprar um apartamento em Cingapura ou em ter um emprego em Dubai, Bangcoc ou na Costa do Marfim? E esses malucos que oferecem um elixir que garante uma potência sexual até os 96 anos de idade? Sem contar as fotografias de gatas assanhadas, que mais parecem quadros de um museu pornô-kitsch eletrônico.
Essa invasão é o lado bárbaro da internet: a propaganda desenfreada, amalucada e nociva (para não dizer ofensiva), que vai do comércio sexual à oferta de trabalho semiescravo. Em 1867, depois de visitar a Exposição Universal de Paris, Gustave Flaubert escreveu: “o ser humano não foi criado para devorar o infinito”.
Mas devo à internet o contato com uma amiga espanhola, que não via desde o século passado. Ela me enviou uma mensagem em catalão e recordou a brincadeira que eu fazia sobre sua língua materna: muitas palavras catalãs hesitavam em terminar ou não terminavam totalmente, palavras que parecem desprezar o som final, nasalizado, tão forte em outras línguas românicas.
Reatamos pela internet uma amizade interrompida há quase trinta anos, e na longa carta virtual lembrou passagens da nossa vida no bairro de Gracia, onde dividíamos um apartamento em frente ao pequeno teatro Lliure, que encenava as melhores peças de Barcelona.
Ou você aprende um pouco de catalão ou vai ficar mudo em Gracia”, ela dizia, referindo-se aos moradores do bairro, quase todos catalães da gema, que se recusavam a falar espanhol, uma recusa obstinada, corajosa, mesmo durante a época nada memorável do ditador Franco.
Nossa língua faz parte da nossa identidade, é a essência da nossa cultura”, ela escreveu, evocando também a visita ao apartamento de Gracia de amigos brasileiros que moravam em Paris e Londres.
Que memória, Carmen! Reinaldo Moraes vai bem e publicou há pouco tempo um épico erótico, um romance divertidíssimo que só os desalmados não dão gargalhadas durante a leitura.” Carmen lembrava-se de Reinaldo, Denio, Daisy, Maria Emília, Betania, Eliete e outros brasileiros que passaram pela rua Montseny. Perguntou por uma moça calada, uma poetisa e tradutora que morava na Inglaterra.
Nem todas as notícias são boas, Carmen. Essa moça talentosa se suicidou em 1983.”
E por fim ela revelou que havia encontrado um caderno branco, manchado pelo tempo: meu diário catalão, onde registrara minhas andanças por vários lugares da Espanha, poemas callejeros, trabalhos de freelancer e tantas coisas que havia esquecido.
Já dava esse diário por perdido, que é o destino das palavras de muitos diários: pura perdição. Agora esse achado da minha amiga voará de Barcelona até São Paulo num envelope que um mensageiro andarilho me entregará antes de perder seu emprego para a internet. Às vezes um mero acaso pode extraviar envelopes, mas espero que dessa vez o correio não seja el correo del azar.
Milton Hatoum, in Um solitário à espreita

O anjo Malaquias

O Ogre rilhava os dentes agudos e lambia os beiços grossos, com esse exagerado ar de ferocidade que os monstros gostam de aparentar, por esporte.
Diante dele, sobre a mesa posta, o Inocentinho balava, imbele. Chamava-se Malaquias – tão pequenino e reconchudo, pelado, a barriguinha pra baixo, na tocante posição de certos retratos da primeira infância…
O Ogre atou o guardanapo ao pescoço. Já ia o miserável devorar o Inocentinho, quando Nossa Senhora interferiu com um milagre. Malaquias criou asas e saiu voando, voando, pelo ar atônito… saiu voando janela em fora…
Dada, porém, a urgência da operação, as asinhas brotaram-lhe apressadamente na bunda, em vez de ser um pouco mais acima, atrás dos ombros. Pois quem nasceu para mártir, nem mesmo a Mãe de Deus lhe vale!
Que o digam as nuvens, esses lerdos e desmesurados cágados das alturas, quando, pela noite morta, o Inocentinho passa por entre elas, voando em esquadro, o pobre, de cabeça pra baixo.
E o homem que, no dia do ordenado, está jogando os sapatos dos filhos, o vestido da mulher e a conta do vendeiro, esse ouve, no entrechocar das fichas, o desatado pranto do Anjo Malaquias!
E a mundana que pinta o seu rosto de ídolo... E o empregadinho em falta que sente as palavras de emergência fugirem-lhe como cabelos de afogado... E o orador que pára em meio de uma frase… E o tenor que dá, de súbito, uma nota em falso... Todos escutam,
no seu imenso desamparo, o choro agudo do Anjo Malaquias!
E quantas vezes um de nós, ao levantar o copo ao lábio, interrompe o gesto e empalidece... – O Anjo! O Anjo Malaquias! – ... E então, pra disfarçar, a gente faz literatura... e diz aos amigos que foi apenas uma folha morta que se desprendeu... ou que um pneu estourou, longe... na estrela Aldebaran…
Mário Quintana, in Coleção Melhores Poemas

27/12/2018

Alma nua - Vander Lee

Palavras

Não quero muitas
E nem poucas palavras.
Não quero definições
E nem quero sentenças.
Quero apenas caminhar com sede
E ouvir-me silenciosamente,
Enquanto atravesso essa vida em tumulto,
Esse alarde,
Essa insana busca de tudo,
Para o nada que preciso.
Aline Binns

Meandros de um rio por inventar

O português moçambicano — ou ainda, nesta altura, o português em Moçambique — é ele próprio um lugar de conflitos e de ambiguidades. A adesão moçambicana à lusofonia está carregada de reservas, aparentes recusas, desconfiadas aderências. O que eu gostaria de mostrar aqui é que esse caminho em ziguezague não resulta de capricho dos dirigentes, mas de ambivalências da História.
Em 1975, ano da Independência Nacional, mais de 60% dos moçambicanos não falava português. Vinte e cinco anos depois existem ainda 40% de moçambicanos que não falam português. Mesmos os que têm essa competência fazem-no como segunda língua. Apenas 3% dos moçambicanos têm o português como língua materna.
O meu país é um território de muitas nações. O idioma português é uma língua de uma dessas nações — um território cultural inventado por negros urbanizados, mestiços, indianos e brancos.
Sendo minoritário e circunscrito às cidades, esse grupo ocupa lugares-chave nos destinos políticos e na definição daquilo que se entende por moçambicanidade.
Esse é o Moçambique lusófono. Esse é o país que se senta nos fóruns que decidem sobre a lusofonia. Os outros moçambicanos das outras nações moçambicanas correm o risco de ficar de fora, afastados dos processos de decisão, excluídos da modernidade.
A política portuguesa em África foi orientada no sentido de fabricar uma camada social — os assimilados — capaz de gerir a máquina do Estado colonial. Os candidatos a assimilados deviam virar costas à sua religião, à sua cultura, às suas raízes. Uma das fronteiras entre os chamados civilizados e os não civilizados (os denominados indígenas) passava pelo domínio da língua do colonizador. A administração portuguesa aceitava conceder o estatuto de cidadãos de segunda classe a estes portugueses de pele preta, na esperança de que eles se viessem a tornar os futuros reprodutores da instituição colonial. Estava-se forjando a ordem colonial dos nossos dias — um colonialismo indigenizado, um colonialismo que dispensa colonos.
Conto-vos agora uma pequena história. Fala-vos de um jovem camponês chamado Eduardo Chivambo Mondlane. Este criador de cabras foi levado para os Estados Unidos onde se formou em Antropologia. Em 1961, Eduardo Mondlane regressava a Moçambique como funcionário das Nações Unidas. O regime colonial já reconhecera o perigo que representava esta figura pública. Mas o governo não podia impedir a sua entrada em Moçambique.
Pois nessa noite, na noite em que chegou a Lourenço Marques, estava convocado um comício na Associação dos Negros de Moçambique. Ali se aglomeraram milhares de pessoas para escutarem a palavra libertadora daquele que era esperado como um Messias. Mondlane deveria falar numa varanda de um velho edifício que se abria para a praça repleta de gente.
Quando se dirigia para o varandim, agentes da Pide chamaram-no à parte e disseram-lhe: podia usar da palavra, sim, mas não podia falar de política, não podia falar de pobreza, não podia referir nada sobre o povo de Moçambique nem o que se passava em África. A lista das interdições era tão extensa e rigorosa que pouco ou nada restava para ser dito.
Mondlane, mesmo assim, encaminhou-se para a varanda e no seu rosto era visível essa procura do que dizer. Então, contou a seguinte história: “Certa vez um caminhante foi recebido por uma família rural que lhe ofereceu abrigo e repouso antes de prosseguir viagem. Ao fim da tarde, o anfitrião conduziu o viajante ao quintal e mostrou a criação na sua capoeira. Entre as galinhas havia, estranhamente, uma águia. Perdera o seu porte real, anichada (ou agalinhada) num canto, piando como galinha e debicando grãos de milho no chão. O viajante ficou impressionado com a visão daquela ave tão nobre, ali despersonalizada como se fosse apenas uma entre muitas galinhas.
Ela acredita ser uma galinha — explicou o dono da casa.
De noite, o viajante não tomou sono, assaltado por aquela impressão que lhe causara a visita ao galinheiro. E de madrugada, muito cedo, já ele entrava na capoeira e, pegando na águia, a conduziu para o descampado. Lançou a ave nos ares enquanto incitava:
Voa, tu és uma águia.
E a ave, sem jeito, se despenhava no chão. Repetiu a tentativa várias vezes. Sem resultado. Até que foi parar a um desfiladeiro. Então, segurando o pássaro num braço, se abeirou do abismo e lhe repetiu:
Voa, tu és uma águia.
E de um sacão lançou o bicho no vazio do precipício. Então, a águia iniciou um esplendoroso voo e venceu as alturas, cruzando o horizonte para além de si mesma”.

* * *

Esta foi a história de que Mondlane fez uso. Esta narrativa não seria da sua autoria, mas isso pouco importa. Para mim, enquanto escritor, o importante é a habilidade de recorrer a um conto, a uma pequena fábula para fazer suportar o pensamento. E esse é um traço da oralidade que é um sistema de pensamento ainda dominante no meu país.
Muito mais que uma questão linguística nós estamos perante a ameaça de extinção deste universo da oralidade, de toda essa cultura que sobrevive à margem da escrita.
O que deve ser retido aqui, porém, é o seguinte: para Eduardo Mondlane o mais simples teria sido falar em shangana, a sua língua materna e a língua dominante na capital. Mas ele queria mostrar que estava falando para todo o Moçambique, a nação futura com suas múltiplas línguas. E por isso falou em português. Naquele momento esboçava-se a opção que, um ano mais tarde, seria confirmada no Primeiro Congresso da Frelimo.
Mia Couto, in E se Obama fosse africano?

Maus Momentos no Hotel Royale | Trailer

O monopólio do sofrimento

Eu me pergunto por que o sofrimento não oprime mais do que uma minoria. Existe uma razão desta seleção que isola, entre os indivíduos normais, uma categoria de eleitos destinados aos suplícios mais apavorantes? Certas religiões afirmam que o sofrimento é o meio do qual se serve a Divindade para nos testar, ou para nos fazer expiar um pecado. Esta concepção pode valer para um fiel, mas aquele que vê o sofrimento atacar indiferentemente puros e inocentes não saberia admiti-lo. Nada pode justificar o sofrimento, e querer fundá-lo numa hierarquia de valores é estritamente impossível - mesmo supondo que uma tal hierarquia pudesse existir.
O aspecto mais estranho dos sofredores reside na crença no valor absoluto de seu tormento - e que lhes dá a impressão de deter o monopólio. Eu tenho a ideia de ter concentrado em mim todo o sofrimento deste mundo e de ter o seu gozo exclusivo - mesmo que eu constate sofrimentos ainda mais atrozes, que se pode morrer perdendo pedaços de carne, desintegrando-se sob seus próprios olhos; sofrimentos monstruosos, criminosos, inadmissíveis. Pergunta-se como eles podem advir, e, uma vez que eles advêm, como falar ainda de finalidade e de outras trivialidades. O sofrimento impressiona-me tanto que perco quase toda a coragem. Eu não posso entender a razão do sofrimento no mundo; que ele derive da bestialidade, da irracionalidade, do demonismo da vida, isto explica sua presença, mas não fornece sua justificação. É, então, provável que o sofrimento não tenha nenhuma, da mesma forma que a existência em geral. A existência deveria ser? Ou ela tem uma razão puramente imanente? O ser não é apenas ser? Por que não admitir um triunfo final do não-ser, por que não admitir que a existência caminha em direção ao vazio, e o ser em direção ao não-ser? Este último ponto não constituiria a única realidade absoluta? Eis um paradoxo do tamanho do mundo.
Ainda que o sofrimento como fenômeno me impressione e, às vezes, mesmo me encante, eu não saberia escrever-lhe uma apologia, pois o sofrimento durável - e o verdadeiro sofrimento é assim - por mais purificador que ele seja na sua primeira fase, acaba por arruinar, destruir, desagregar. O entusiasmo fácil pelo sofrimento caracteriza os estetas e os diletantes, que o tomam por divertimento, ignorando sua terrível força de decomposição e seus recursos venenosos de desagregação, bem como sua fecundidade, à qual deve-se, entretanto, pagar muito caro. Deter o monopólio do sofrimento é voltar a viver suspenso sobre um abismo. Todo o verdadeiro sofrimento é um abismo.
Emil Cioran, in Nos cumes do desespero

O homem que dissolvia xícaras

Na manhã de terça-feira ele descobriu. Ao apanhar uma xícara de ágate, a xícara se derreteu. Aliás, na verdade, a xícara se dissolveu, desintegrou. A tinta branca melou suas mãos, enquanto ele contemplava o fenômeno surpreso, assustado e maravilhado. Antes que a mulher viesse para a cozinha, ele limpou as mãos e ficou sentado diante de uma nova xícara, desta vez de louça. Imaginando como teria sido contemplado com tal propriedade. Não era homem de acreditar em milagres, inspiração divina, sinal para o escolhido. Nada disso. Procurava, isto sim, tentar estabelecer em sua cabeça os motivos puramente físicos que teriam ocasionado tal reação entre sua mão e uma xícara. Nesta época em que as transformações são totais, também a matéria tinha sido finalmente atingida pelas mutações que ocorrem sem cessar. E era uma coisa boa, de repente, ao café da manhã, sentir-se que não era mais um homem comum.
Agora, havia nele alguma coisa que o diferenciava dos outros. Até então, apesar de esclarecido e de ler bastante, ao menos de tentar ler um pouco mais do que o razoável, do que a média, sentia-se esmagado por um sentimento de frustração inquietante. Era um homem igual a milhares e milhares e morreria assim, não tendo acrescentado à vida, própria e dos outros, uma parcela mínima de bem ou de mal. Nem era caso de se medir em termos de bem ou mal. Ele sofria por não poder contribuir em nada para fazer o mundo um pouco diferente; um pouco só bastava.
Sua vida resumia-se no escritório asséptico, montado por um decorador profissional, um homem que ele jamais vira, mas um especialista que percorrera o mundo olhando outros escritórios e trazendo a sua experiência. A segunda parte de sua vida consistia na casa, igualmente esterilizada, móveis exatos em locais exatos, quadros predeterminados em lugares determinados e em alturas padronizadas. Nenhuma desorganização, tudo de acordo com os catálogos. Ele falava de negócios no escritório e de filhos em casa. Os amigos vinham e as mulheres dos amigos falavam de empregadas e os homens de futebol, negócios, carros novos, viagens à Argentina e Miami, cotação do peso, vantagens que eles teriam em viajar agora.
Tornara-se um hábito, mais do que isso, necessidade, ele vomitar depois de cada reunião em sua casa. Assim que a porta se fechava e o último amigo ia embora, ele corria ao banheiro, punha tudo para fora. Não pusesse, sofria uma dor de cabeça que permanecia por dias e dias. Então adquirira o costume, salutar, de enfiar o dedo na garganta e fazer a limpeza. A mulher achava que tinham sido os uísques e comentava como ele bebia pouco e ficava tonto, como se tornara fraco. Jamais tinha ligado as coisas: reunião, conversas, vômitos.
Depois, as coisas pioraram, ele passou a sair correndo no meio dos jantares e encontros. Ia para o banheiro e punha até bílis para fora. O tempo passou. Aí, à simples menção de uma reunião com os amigos, o estômago se revirava. A mulher mandou um dia chamar um médico. Obrigou-o a fazer um check-up. Ela tinha visto um comercial na televisão, os amigos no enterro e comentando como o defunto era tão novo e como podia ter evitado a morte prematura. Claro que o check-up não revelou nada, a mulher ficou contente e o homem sofrendo com os 3 mil cruzeiros perdidos. Como revelar a verdadeira causa? Quem entenderia? Afinal, não é egoísta, brutal, frio, cínico, tudo o que há de ruim, um homem que não consegue estar bem com seus amigos, sua família, tudo o mais? Uma vida perfeita, salário alto, dois carros, dois celulares, uma casa de campo, uma casa de praia, o que ele quer mais?
Ele mesmo não sabia de onde tirara aquela angústia. Ficava morto de remorso ao contemplar o que tinha e não se sentir satisfeito. Chegou a entender que um dos problemas era que estava tudo no mesmo nível. Que ele navegava num mar sem ondas, a sua vida possuía flutuadores perfeitos, por pior que fossem as vagas ele se balançava pouco. Onde estava o erro de tudo? Talvez estivesse em tentar entender as coisas, em se situar, querer saber.
Jamais pensara em se matar, era um obstinado e um desafiador. O grande mistério estava à sua frente, era a sua existência. Se a eliminasse, não haveria desafio, enigmas, jogo. Nem razão de ser. Contemplá-la com inquietação e angústia passou a ser muito importante.
Até que na manhã de terça-feira ele conseguiu dissolver a xícara em suas mãos. Não! Não queria entender o mistério. Ao menos tão já não queria. Nem se importava. Que as coisas corressem e os amigos viessem. Por algum tempo, quando se sentisse nauseado, apanharia uma xícara de ágate e não se sentiria tão igualado. Mais tarde, estudaria o rumo a seguir.
Ignácio de Loyola Brandão, in Cadeiras Proibidas

O Realismo brasileiro de Almeida Júnior

O inoportuno (1898), de José Ferraz de Almeida Júnior

Uma viola-de-amor

Deem ao homem uma viola-de-amor e façam-no cantar um canto assim...
Sairei de mim mesmo e irei ao encontro das flores humildes dos caminhos e das lentas aves dos crepúsculos, cujo pipilo suspende na paisagem uma lágrima que nunca se derrama. Sairei de mim mesmo em busca de mim mesmo, em busca de minha imagem perdida nos abismos do desespero, minha imagem de cuja face já não me lembro mais...
Sairei de mim mesmo em busca das melodias esquecidas na memória, em busca dos instantes de total abandono e beleza, em busca dos milagres ainda não acontecidos...
Que eu seja novamente aquele que ergue do chão o pássaro ferido e, no calor de sua mão, dá-lhe de morrer em paz; aquele que, em sua eterna peregrinação em busca da vida, ajuda o camponês a consertar a roda do seu carro...
Que me seja dado, em minhas andanças, restituir a cada ser humano o consolo de chorar dias de lágrimas; e depois levá-lo lá onde existe a luz e chorar eu próprio ante a beleza do seu pranto ao sol...
Possa eu mirar novamente os pélagos e compreendê-los; atravessar os desertos e amá-los. Possa eu deitar-me à noite na areia das praias e manter com as estrelas em delírio o colóquio da eternidade. Possa eu voltar a ser aquele que não teme ficar só consigo mesmo, numa dura solidão sem deliquescência...
Bem haja o meu irmão no meu caminho, com as suas úlceras à mostra, que a ele eu hei de curar e dar abrigo no meu peito, Bem haja no meu caminho a dor do meu semelhante, que a ela estarei desvelado e atento...
Seja a mulher a mãe, a esposa, a amante, a filha, a bem-amada do meu coração; possa eu amá-la e respeitá-la, dar-lhe filhos e silêncios. Possa eu coroá-la de folhas da primavera em seu nascimento, seu conúbio e sua morte. Tenha eu no meu pensamento a ideia constante de querê-la e lhe prestar serviço...
Que o meu rosto reflita nos espelhos um olhar doce e tranquilo, mesmo no mais fundo sofrimento; e que eu não me esqueça nunca que devo estar constantemente em guarda de mim mesmo, para que sejam humanos e dignos o meu orgulho e a minha humildade, e para eu cresça sempre no sentido de Tempo...
Pois o meu coração está antes de tudo com os que têm menos do que eu, e com os que, tendo mais do que eu, nada têm. Pois o meu coração está com a ovelha e não com o lobo; com o condenado e não com o carrasco
E que este seja o meu canto e o escutem os surdos de carinho e de piedade; e que ele vibre com um sino nos ouvidos dos falsos apóstolos dos falsos apóstatas; pois eu sou o homem, ser de poesia, portador do segredo e sua incomunicabilidade - e o meu largo canto vibra acima dos ócios e ressentimentos, das intrigas e vinganças, nos espaços infinitos...”.
Deem ao homem uma viola-de-amor e façam-no cantar um canto assim, que sua voz está rouca de tanto insulto inútil e seu coração triste, de tanta vã mentira que lhe ensinaram.
Vinicius de Moraes, in Prosa

26/12/2018

Existência

Ler significa aproximar-se de algo que acaba de ganhar existência.”
Ítalo Calvino, in Se um viajante numa noite de inverno

Esquece o futuro

Esquece o futuro... Ele não te pertence!
O presente te basta!
Mas é preciso ser rápido, quando ele é mau presente
E andar devagar quando se trata de saboreá-lo
Expressões como: ‘passar o tempo’ espelham bem a maneira
de viver dessa gente prudente.... que imagina não haver coisa melhor
para fazer da vida.
Deixam passar o presente, esquivam-se, ignoram o presente
Como se estar vivo fosse uma coisa desprezível
Porque a natureza nos deu a vida em condições tão favoráveis
que só mesmo por nossa culpa ela poderia se tornar pesada e inútil!
Michel de Montaigne

A Terceira Lâmina - Robertinho de Recife e Metalmania

Os pobres e os ricos

Bola 7 bateu na porta da minha casa, minha casa porra nenhuma, meu barraco, nem meu barraco é, eu alugo essa merda, fica no alto do morro e lá embaixo eu vejo as casas dos bacanas todas iluminadas, os putos dão festas todos dos dias, o dinheiro está sobrando, e eu tenho ódio deles, tenho ódio de todos os ricos, todo mundo odeia os ricos, e eu jogo pedras nas casas dos putos, mas as pedras não chegam lá, eu sou raquítico, sempre comi mal, não tive peito de mãe para mamar e, no abrigo, só tomava pela metade uma espécie de sopa de massa, e o Bola 7 bateu na porta do barraco e entrou, todo curvado, carregando um embrulho, e disse, gaguejando, ele tinha antigamente o apelido de Gaguinho, mas, depois de matar três que o chamaram de Gaguinho, ninguém mais teve coragem de chamar o Bola 7 de Gaguinho, mas ser chamado de Bola 7 ele não se incomodava, ele é um fodão na mesa de sinuca, eu também jogo, mas sou perna de pau, sou nervoso quando vejo as bolas na mesa, a branca tacadeira, tenho medo de esquecer o valor delas e fico repetindo para mim mesmo, vermelha um ponto, amarela dois, verde três, marrom quatro, azul cinco, rosa seis e a preta sete, o Bola 7 era preto retinto, igual a bola sete da mesa, mas eu fico nervoso e começo a fazer merda na tacadeira e encaçapo a bola errada e sou castigado e me fodo em copas, e o Bola 7 me disse, abrindo o embrulho que carregava, vou deixar essa joia com você, aqui os homens não dão as caras, você tem ficha limpa, venho apanhar quando a barra estiver limpa, e me mostrou uma espécie de carabina, eu nunca tinha visto nada igual, e o Bola 7 disse, este é um fuzil ganan, ou fuzil garnan, um nome assim, e isso aqui em cima é uma lente telescópica, com ela você vê longe, esconde bem este material, devo voltar aqui em uma semana, e o Bola 7 embrulhou o fuzil com a tal lente que via longe e ele mesmo escondeu o embrulho no armário, mas antes me disse, ela tem uma bala para ser disparada, mas está travada, está vendo isto aqui, isto trava e destrava o fuzil, assim trava, assim destrava, vou travar, viu?, está travada, e saiu depois de espiar a rua, e não demorou muito, acho que dois ou três dias, e me disseram que o Bola 7 havia sido morto pela polícia, e então, de noite, eu fui no armário e tirei o fuzil de dentro do embrulho e olhei pela lente a casa toda acesa de um rico filho da puta e levei um susto, eu via a cara das pessoas, as roupas das mulheres, os garçons servindo todo tipo de bebida, umas claras, outras escuras, em todo tipo de copo, uns compridos, outros redondões, outros pequenos, e os ricos riam, rico ri o tempo todo, então eu pensei, vou matar um filho da puta desses, o certo seria o dono da casa, mas eu não sabia quem era o dono da casa, então escolhi um gordo, o cara é gordo porque come muito, da mesma forma que eu sou magro porque passo fome, então, conforme o Bola 7 ensinou, eu destravei a arma e mirei no gordo e apertei o gatilho e atirei e o gordo caiu no chão e todos os ricos começaram a correr de um lado para o outro, não sabiam de onde a morte tinha atacado e eu fiquei no escuro olhando pela lente, sempre pensei que a felicidade não existia, mas a felicidade existe, eu estava feliz.
Rubem Fonseca, in Amálgama