27/03/2018

Arreios

É ridículo como você coloca arreios em si mesmo para este mundo.
Franz Kafka, in Aforismos reunidos

Retratos de amantes

Num boudoir de homens, numa sala de fumar contígua a um elegante cassino, quatro homens fumavam e bebiam. Não eram precisamente nem moços nem velhos, nem bonitos nem feios; mas, velhos ou moços, traziam essa distinção não desprezada pelos veteranos da alegria, esse indescritível não sei quê, essa tristeza fria e irônica que diz claramente: “Já vivemos muito e ainda procuramos o que poderíamos amar e estimar”.
Um deles desviou a conversa para as mulheres. Teria sido mais filosófico não tocar absolutamente no assunto, mas há pessoas de espírito que, quando bebem, deixam de desprezar as palestras banais. Escuta-se então aquele que fala, como se escutaria uma música de dança.
Todos os homens, — dizia ele, — já tiveram a idade dos querubins; é a época em que, à falta de dríades, a gente abraça, sem desprazer, o tronco dos carvalhos. É o primeiro grau do amor. No segundo grau, principia-se a escolher. Poder deliberar é já uma decadência. É então que se procura decididamente a beleza. Quanto a mim, senhores, vanglorio-me de ter chegado, há muito tempo, à época climatérica do terceiro grau, no qual nem a beleza é suficiente, se não é temperada de perfume, de enfeites, et cetera. Confesso mesmo que, às vezes, aspiro como a uma felicidade desconhecida, a um certo grau que deve marcar a calma absoluta. Mas, durante toda a minha vida, exceto na idade de querubim, tenho sido mais sensível do que qualquer outro à enervante toleima, à irritante mediocridade das mulheres. O que amo nos animais é, sobretudo, a sua candura. E agora julguem quanto devo ter sofrido com minha última amante. Ela era bastarda de um príncipe. Bonita, naturalmente; sem isso, porque haveria eu de querê-la? Mas, essa qualidade era prejudicada por uma ambição inconveniente e disforme. Era uma mulher que queria sempre fazer-se de homem. “Você não é homem! Ah, se eu fosse homem! De nós dois, o homem sou eu!” Tais eram os insuportáveis refrões que saíam daquela boca da qual eu desejaria que só partissem canções. A propósito de um livro, de um poema, de uma ópera pela qual eu deixasse escapar a minha admiração, ela logo me dizia: “Acha que isso seja assim tão forte?” E argumentava: “E conhecerá você sua força?” Um belo dia, resolveu dedicar-se à química, de modo que, entre minha boca e a sua, passei a encontrar uma máscara de vidro. Além disso, muito esquiva. Se às vezes eu a excitava com um gesto um pouco amoroso demais, convulsionava-se como uma sensitiva violada…
E como acabou? — perguntou um dos outros. — Nunca pensei que você fosse tão paciente.
Deus — continuou ele — deu o remédio. Um dia, encontrei essa Minerva, ávida de força ideal, num colóquio com o meu criado, e numa situação que me obrigou a retirarme para não envergonhá-los. À noite, mandei os dois embora, pagando-lhes o saldo de suas contas.
Quanto a mim, — disse o que interrompera, — só posso queixar-me de mim mesmo.
A felicidade foi morar em minha casa e eu não a reconheci. O destino doara-me, estes últimos tempos, o usufruto de uma mulher que era certamente a mais amável, obediente e dedicada das criaturas. Sempre disposta, mas sem entusiasmo! “Quero, pois você gosta”, — era sua resposta habitual. Se vocês dessem uma bengalada naquela parede ou naquele banco, obteriam mais suspiros do que os impulsos do amor mais furioso do seio de minha amante. Depois de um ano de vida comum, ela confessou-me que jamais conhecera o prazer. Enjoei desse duelo desigual, e a incomparável rapariga casou-se. Tive, mais tarde, a ideia de tornar a vê-la e então ela me disse, mostrando-me seis lindas crianças: “Pois é, meu caro amigo, a esposa continua tão virgem como quando era sua amante”. Nada mudara naquela criatura. Às vezes, tenho saudades: eu deveria ter-me casado com ela.
Os outros puseram-se a rir, e um terceiro disse por sua vez: — Senhores, conheci prazeres que talvez tenham esquecido. Quero falar do lado cômico do amor, cômico que não exclui a admiração. Creio que admirei mais minha última amante do que vocês adiaram ou amaram as suas. E toda a gente admirava-a tanto quanto eu. Quando entrávamos num restaurante, ao cabo de alguns minutos, todos se esqueciam de comer para contemplá-la. Os próprios garçons e a caixa experimentavam esse êxtase contagioso ao ponto de se esquecerem dos seus deveres. Em suma, vivi por algum tempo com um fenômeno vivo. Ela comia, mastigava, triturava, devorava, engolia, mas com o ar mais natural e despreocupado deste mundo. Mantinha-me assim, durante muito tempo, em êxtase. Tinha um modo delicado, sonhador, inglês e romântico de dizer: “Estou com fome!” E repetia essas palavras dia e noite, mostrando os dentes mais bonitos deste mundo, que os teriam enternecido e alegrado ao mesmo tempo. Eu poderia ter feito fortuna mostrando-a nas feiras como um monstro polífago. Alimentava-a bem; no entanto, ela me abandonou...
Por um fornecedor de víveres, talvez? Mais ou menos isso, uma espécie de empregado da intendência que, com alguns expedientes que conhecia, talvez tenha fornecido àquela pobre criança a ração de vários soldados. É pelo menos o que suponho.
Eu — disse o quarto — é que amarguei sofrimentos atrozes, justamente pelo contrário do que em geral se atribui à fêmea egoísta. Acho que vocês, mortais de tanta sorte, não têm o direito de se queixarem das imperfeições de suas amantes! Disse isso num tom sério demais para um homem de aspecto doce e grave, com uma fisionomia quase clerical, infelizmente iluminada por uns olhos cinzentos claros, cuja expressão parecia dizer: “Eu quero!” ou: “É preciso!” ou ainda: “Não perdoo!” — Se, nervoso como o conheço, G..., medrosos e volúveis como vocês dois, K... e J..., vocês se tivessem unido a certa mulher de minhas relações, ou teriam fugido, ou estariam mortos. Pois eu sobrevivi, como estão vendo. Imaginem uma pessoa incapaz de cometer uma falta, de sentimento ou de cálculo; imaginem uma desoladora serenidade de temperamento; uma dedicação sem falsidade e sem exageros; uma meiguice sem fraqueza; uma energia sem violência. A história do meu amor parece uma interminável viagem numa planície pura e polida como um espelho, vertiginosamente monótona, que refletisse todos os meus sentimentos e gestos com a irônica exatidão da minha própria consciência, de maneira que eu não pudesse permitir-me uma atitude ou um sentimento condenável sem sentir imediatamente a muda censura do meu inseparável espectro. O amor parecia-me uma tutela. Quantas tolices ela me impediu de fazer e que eu lamento não ter cometido! Quantas dívidas pagas contra a minha vontade! Privava-me de todos os benefícios que eu pudesse tirar da minha loucura pessoal. Com um regime frio e seguido à risca, refreava todos os meus caprichos. Por cúmulo do horror, passado o perigo, não exigia reconhecimento.
Quantas vezes não tive o ímpeto de saltar-lhe à garganta e gritar-lhe: “Seja imperfeita, miserável! Para que eu possa gostar de você sem aborrecimento e sem cólera!” Admirei-a durante vários anos, o coração cheio de ódio. Afinal, não fui eu que morri! — Ah! — interromperam os outros, — então ela morreu?
Sim! Aquilo não podia continuar. O amor tornara-se para mim um pesadelo horrível. Vencer ou morrer, como ensina a Política; eis a alternativa que o destino me impunha. Uma noite, num bosque... à beira de um charco... após um melancólico passeio em que os olhos dela refletiam a doçura do céu, e em que o meu coração estava crispado como o inferno...
O quê!
Como!
Que quer você dizer?
Era inevitável. Tenho um sentimento de equidade muito grande para espancar, ultrajar ou despedir um servidor irrepreensível. Mas, era preciso conciliar esse sentimento com o horror que aquele ser me inspirava, e livrar-me dele sem lhe faltar ao respeito. Que queriam que eu fizesse, se ela era perfeita?
Os três outros companheiros lançaram-lhe um olhar vago e meio estúpido, como fingindo não compreender e confessando implicitamente que também não se sentiam capazes de ação tão rigorosa, embora suficientemente explicada.
Em seguida, mandaram vir novas garrafas, para matar o tempo, que torna a vida tão dura, e acelerar a vida, que corre tão devagar.
Charles Baudelaire, in Pequenos poemas em prosa

Calvin


Caráter

Dar estilo ao seu caráter... é uma arte deveras considerável que raramente se encontra! Para a exercer é necessário que o nosso olhar possa abranger tudo o que há de forças e de fraquezas na nossa natureza, e que as adaptemos em seguida a um plano concebido com gosto, até que cada uma apareça na sua razão e na sua beleza e que as próprias fraquezas seduzam os olhos. Aqui ter-se-á acrescentado uma grande massa de segunda natureza, nos pontos onde se terá tirado um pedaço da primeira, à custa, nos dois casos, de um paciente exercício e de um trabalho de todos os dias. Neste lugar disfarçou-se uma fealdade que se não podia fazer desaparecer, noutro ela foi transmudada, fez-se dela uma beleza sublime. Grande número de elementos, que se recusavam a tomar forma, foram reservados para ser utilizados nos efeitos de perspectiva: darão os longes, o apelo do infinito. Foi a unidade, a pressão de um mesmo gosto que dominou e afeiçoou no grande e no pequeno: a que ponto, vemo-lo por fim, uma vez terminada a obra; que esse gosto seja bom ou mau, importa menos do que se pensa, basta que tenha havido um.
Serão as naturezas fortes e dominadoras que apreciarão as alegrias mais sutis nesta opressão, nesta escravatura, nesta perfeição ditadas pela lei pessoal; o aspecto de qualquer natureza estilizada, de qualquer natureza, enfim, vencida e submetida, alivia a paixão da sua forte vontade; se têm de construir palácios, se têm de plantar jardins repugna-lhes também deixar a natureza livre. Pelo contrário, os caráteres fracos, aqueles que não se dominam, odeiam a servidão do estilo: sentem que se tornariam inevitavelmente vulgares se esta amarga opressão lhes fosse imposta: não saberiam servir sem se tornar escravos, por isso detestam fazê-lo. Semelhantes espíritos - e podem ser de primeira ordem - empenham-se sempre em se dar a si próprios e em dar ao seu meio o ritmo de naturezas livras - selvagens, arbitrárias, fantasistas, desordenadas e surpreendentes - ou em interpretar-se como tais: e fazem bem, porque é só assim que se satisfazem! Uma única coisa é, com efeito, necessária: que o homem chegue a estar contente consigo, qualquer que seja a arte ou a ficção de que se serve para esse fim: é somente então que ganha uma fisionomia suportável! Os que estão descontentes consigo próprios estão sempre prontos a vingar-se: como nós que seremos as suas vítimas, quanto mais não seja tendo de suportar sempre o seu desagradável espetáculo. Porque o espetáculo da fealdade torna as pessoas más e sombrias.”
Friedrich Nietzsche, in A gaia ciência

A mesa da cabine

É meio-dia, e Dough-boy, o camareiro, colocando seu rosto branco como um filão de pão para fora do escotilhão da cabine, anuncia o almoço a seu amo e senhor, que, sentado num bote a sotavento, acaba de observar o sol; e agora calcula a latitude em silêncio, na tabuleta lisa em forma de medalhão, reservada para este fim, sobre a parte superior de sua perna de marfim. De sua total falta de atenção ao aviso, você poderia depreender que o soturno Ahab não escutara seu subalterno. Mas, apoiando-se nos brandais da mezena, lança-se para o convés e, anunciando com uma voz indiferente, “O almoço, senhor Starbuck”, desaparece na cabine.
Quando se cala o último eco dos passos de seu sultão, e Starbuck, o primeiro Emir, tem todos os motivos para supor que ele já esteja sentado, então este sai de sua tranquilidade, dá umas voltas pelo convés e, depois de olhar para dentro da bitácula, anuncia com uma voz brincalhona, “O almoço, senhor Stubb”, e desce em direção à cabine. O segundo Emir se espreguiça perto do cordame, e assim, sacudindo de leve um dos cabos para ver se tudo corre bem por ali, também assume o velho fardo, e, com um breve “O almoço, senhor Flask”, segue seus predecessores.
Mas o terceiro Emir, vendo-se sozinho no tombadilho, sente-se como que liberto de alguma restrição curiosa; depois de lançar todos os tipos de olhares para todas as direções, e chutando para o alto os sapatos, entrega-se a uma selvagem mas silenciosa dança de convés, o hornpipe, bem em cima da cabeça do Grão-turco; depois, jogando seu boné no cesto da mezena com um gesto hábil, desce divertindo-se, pelo menos enquanto permanece visível ao convés, na contramão das demais procissões, por ter música na retaguarda. Mas antes de entrar pela porta da cabine abaixo ele pára, põe a bordo uma nova expressão, e então, independente e pequenino, o cômico Flask se apresenta diante do Rei Ahab interpretando Abjectus, ou o Escravo.
Não é a menos estranha entre as situações geradas pela extrema artificialidade dos costumes do mar que, enquanto no ar livre do convés, alguns oficiais, sob provocação, se comportem de modo atrevido e desafiador para com seu comandante; mas, numa proporção de dez para um, veja como esses mesmos oficiais descem no instante seguinte para suas refeições costumeiras naquela mesma cabine do capitão e, com um ar verdadeiramente inofensivo, para não dizer depreciativo e humilde, se dirigem àquele sentado à cabeceira; isso é incrível, às vezes muito engraçado. Por que essa diferença? Um problema? Talvez não. Ter sido Baltasar, Rei da Babilônia, e tê-lo sido não com arrogância, mas com cortesia, nisso há certamente um toque de grandeza mundana. Mas aquele que com espírito nobre e inteligente preside sua mesa de jantar particular com convidados – o jamais desafiado poder e domínio da influência individual desse homem sobre os tempos, bem como sua dignidade real, superam Baltasar, pois Baltasar não foi o maior. Quem ofereceu um jantar aos amigos uma só vez já provou o que é ser César. É um feitiço do czarismo social que não encontra resistência. Ora, se a essa consideração você somar a supremacia oficial de um comandante de navio, então, por inferência, estará entendida a causa da singularidade da vida no mar que acabo de mencionar.
À mesa de marfim marchetado, Ahab presidia como um silencioso e jubado leão-marinho na praia branca e coralina, cercado por filhotes guerreiros, porém respeitosos. A seu tempo, cada oficial esperava ser servido. Eram como criancinhas diante de Ahab; e em Ahab não havia o menor vestígio de arrogância. Com um só pensamento, seus olhos atentos se fixavam na faca do velho, enquanto este cortava o prato principal à sua frente. Não creio que por nada neste mundo eles teriam profanado aquele momento com qualquer observação, nem mesmo com um assunto tão banal quanto o tempo. Nunca! E quando, estendendo a faca e o garfo que prendiam um pedaço de carne, Ahab trazia para si o prato de Starbuck, o oficial recebia a carne como se estivesse recebendo uma esmola; e cortava-a com delicadeza; e ficava sobressaltado se por acaso a faca roçasse o prato; e mastigava sem fazer ruído; e engolia, não sem circunspeção. Pois, como no banquete de coroação em Frankfurt, quando o Imperador Alemão almoça com os sete Eleitores Imperiais, as refeições na cabine eram refeições solenes, feitas em um terrível silêncio; não que o velho Ahab proibisse a conversa; apenas se mantinha calado. Que alívio sentia Stubb, sufocado, quando um rato fazia um movimento no porão embaixo. E o pobre e pequenino Flask, ele era o filho mais novo, o caçula desse aborrecido grupo familiar. Seus eram os ossos da carne de vaca salgada, dele teriam sido os pés da galinha. Para Flask, tomar a liberdade de se servir equivaleria a um flagrante de furto. Tivesse se servido à mesa, nunca mais poderia andar de cabeça erguida neste mundo honrado; no entanto, por estranho que pareça, Ahab jamais explicitara tal proibição. E, se Flask se servisse, é possível que Ahab nem se desse conta. Por fim, Flask aventou a possibilidade de se servir da manteiga. Se foi porque pensou que os donos do navio não permitiam, visando a conservar sua pele clara e luminosa; ou se porque julgou que numa viagem tão longa, em águas tão distantes de mercados, a manteiga era um prêmio, e portanto um subalterno como ele não a merecia; seja lá o que fosse, Flask, ai! – era um homem desamanteigado.
Outra coisa. Flask era o último a descer para o almoço, e Flask era o primeiro a subir. Imagine! Não era à toa que o almoço de Flask era mal servido de tempo. Starbuck e Stubb vinham à sua frente; e também tinham o privilégio de acabar depois. Mesmo que Stubb, que estava apenas um pouco acima de Flask, manifestasse pouco apetite e desse sinal de estar terminando a refeição, então Flask teria que correr, não conseguiria mais do que três bocados nesse dia; pois era contra o costume sagrado que Stubb precedesse Flask no convés. Foi por isso que Flask admitiu certa vez em particular que, desde que ele tinha ascendido à condição de oficial, nunca mais soube o que era sentir outra coisa além de um pouco de fome. Pois tudo o que comia não lhe matava a fome, como se a mantivesse imortal dentro de si. A paz e a satisfação, pensava Flask, desertaram para sempre do meu estômago. Sou um oficial; mas como desejaria agarrar um pedaço de carne velha no castelo de proa, como fazia quando era um simples marinheiro. São os frutos de ser promovido; é a vaidade da glória; é a insensatez da vida! Além disso, se algum simples marinheiro do Pequod tivesse algum rancor contra Flask em sua condição de oficial, tudo o que esse marinheiro precisava fazer, para uma vingança completa, era ir à popa na hora da refeição e observar Flask pela clarabóia da cabine, sentado em silêncio, como um tolo, diante do terrível Ahab.
Ora, Ahab e seus três oficiais formavam o que se pode chamar de a primeira mesa da cabine do Pequod. Depois de sua saída, que ocorria na ordem inversa de sua chegada, a toalha de lona era retirada, ou melhor, retornava a uma certa ordem apressada por obra do pálido camareiro de bordo. E então os três arpoadores eram convidados a se refestelar, como legatários dos restos. Transformavam a cabine eminente e poderosa num tipo de refeitório temporário dos empregados.
Num estranho contraste com o quase intolerável constrangimento e dominação invisível e inominável da mesa do capitão, reinava um bem-estar e uma liberdade despreocupada, uma democracia quase frenética, entre esses sujeitos inferiores, os arpoadores. Enquanto seus chefes, os oficiais, pareciam ter medo do ruído das articulações de seus próprios maxilares, os arpoadores mastigavam os alimentos com tamanha satisfação que se podia escutá-la. Alimentavam-se como lordes; enchiam suas barrigas como os navios indianos se enchem de especiarias. O apetite de Queequeg e Tashtego era tão prodigioso que, para preencher a lacuna da refeição precedente, muitas vezes o pálido Dough-boy tinha que trazer uma grande posta de carne salgada, que parecia estirpada do boi vivo. E se não fosse lépido, se não fosse num pé e voltasse no outro, Tashtego tinha um modo grosseiro de fazê-lo se apressar, atirando em suas costas um garfo como se atirasse um arpão. E, certa vez, Daggoo, num ataque de gracejo, refrescou a memória de Dough-boy erguendo-o no ar e colocando sua cabeça numa tábua de cortar carne vazia, enquanto Tashtego, faca na mão, fazia os círculos preliminares para escalpelá-lo. Era um sujeito naturalmente muito nervoso e trêmulo, esse camareiro com cara de pão; descendente de um padeiro falido e de uma enfermeira de hospital. E com o espetáculo permanente do terrível e sombrio Ahab, e as periódicas visitas tumultuadas desses três selvagens, a vida de Dough-boy era um contínuo tremor de lábios. Em geral, depois de servir aos arpoadores tudo o que lhe pediam, ele fugia de suas garras para a pequena despensa adjacente e ficava olhando através do buraco da porta, até que tudo houvesse terminado.
Era um espetáculo ver Queequeg sentado de frente para Tashtego, opondo seus dentes afilados aos do índio: Daggoo sentava-se no chão, na transversal, porque, se usasse um banco, sua cabeça, suporte de plumas, teria encostado às carlinas mais baixas; a cada movimento de seus membros colossais a estrutura da cabine estremecia, como quando um elefante africano é transportado num navio. E com tudo isso esse negro enorme ainda era extremamente moderado, para não dizer delicado. Não parecia possível que com tão pouca comida ele pudesse manter a vitalidade que se difundia por seu corpo tão amplo, imponente, varonil. Mas, sem dúvida, esse nobre selvagem comia muito e bebia profundamente do abundante elemento aéreo; e por suas narinas dilatadas inalava a sublime vida dos mundos. Não é com carne de vaca ou com pão que os gigantes se alimentam. Mas Queequeg, esse tinha uma maneira bárbara de fazer ruído com os lábios enquanto comia – um ruído tão horrível que o estremecido Dough-boy olhava para seus próprios braços delgados para ver se tinham marcas de dentes. E quando ouvia Tashtego chamá-lo para que aparecesse, que queria morder seus ossos, o ingênuo Camareiro tremia tanto que quase quebrava a louça dependurada na despensa. Nem as pedras que os arpoadores carregavam nos bolsos, para amolar lanças e outras armas; e com as quais, durante a refeição, afiavam ostensivamente as facas; nem o ruído irritante das pedras serviam para acalmar o pobre Dough-boy. Como poderia esquecer que em seus tempos de Ilha, Queequeg, por exemplo, devia ter sido culpado por alguma imprudência festiva e assassina. Pobre Dough-boy! Dura é a vida de um copeiro branco que tem de servir canibais. Não deveria trazer um guardanapo no braço, mas um escudo. Contudo, em boa hora, para sua grande alegria, os três guerreiros de águas salgadas se levantariam e sairiam; e, às suas orelhas crédulas e imaginativas, os ossos marciais tiniam a cada passo, como cimitarras mouriscas nas bainhas.
Não obstante, embora esses bárbaros almoçassem na cabine e nominalmente lá vivessem; ainda assim, sendo seus hábitos pouco sedentários, raramente iam para lá, exceto em horas de refeição, e um pouco antes de dormir, quando passavam por ali para chegar a seus aposentos particulares.
Neste único ponto Ahab não era diferente dos outros capitães baleeiros norte-americanos, que, em conjunto, tendem a achar que a cabine do navio lhes pertence por direito; e que apenas por cortesia a entrada de uma pessoa nesse lugar é permitida. Por isso, na verdade, os oficiais e os arpoadores do Pequod viviam muito mais tempo fora do que dentro da cabine. Porque, quando entravam, era como uma porta da rua em uma casa; viravam-se para dentro por uns instantes, apenas para voltar para fora em seguida; vivendo permanentemente ao ar livre. Também não perdiam muito com isso; na cabine não havia companhia; socialmente, Ahab era inacessível. Embora estivesse nominalmente incluído no censo da Cristandade, mantinha-se alheio a ele. Vivia no mundo, como vivem os últimos ursos pardos do Missouri. Quando a primavera e o verão terminavam, aquele Logan selvagem das florestas, enterrando-se no tronco de uma árvore oca, ali passava o inverno, lambendo as próprias patas; do mesmo modo, em sua velhice inclemente e tempestuosa, a alma de Ahab se ocultava no tronco cavoucado de seu corpo, e ali se alimentava das patas taciturnas de sua melancolia!
Herman Melville, in Moby Dick

26/03/2018

Au revoir por favor

No calor da sala,
dos presentes trocados,
dos futuros sem etiqueta de troca,
dos passados sem retorno,
volverá que eu vi!
mais um fim de ano
desde que nasci
todos os anos têm fim
e em todos recomeça outra de mim
todos os fins de ano acusam
“obra em andamento”
e o que é um ano além de mais uma placa de inauguração
do que jamais será
inaugurado?
a inauguração deste edifício
somente ao fim
quando não houver
mais ano algum a romper, enfim.
Leilah Accioly

Talentos - Alana Moraes

A dama cujo amor Ulrich conquistou depois de uma conversa sobre esporte e mística

Afinal, também Bonadéia aspirava às grandes ideias. Bonadéia era a dama que salvara Ulrich naquela sua infeliz noite de boxeador, e na manhã seguinte o visitara, coberta de espessos véus. Ele a batizara Bonadéia, a boa deusa, por ter entrado daquele modo em sua vida, e também segundo o nome de uma deusa da castidade que tivera, na velha Roma, um templo que, por uma bizarra inversão, se tornara centro de todos os excessos. Aquele nome sonoro que Ulrich lhe dera agradou à dama, e ela o usava nas suas visitas, como um traje luxuosamente bordado.
Então eu sou a sua boa deusa — perguntou —, a sua bona dea? — E para pronunciar corretamente essas duas palavras passava os braços pelo pescoço dele e o encarava, emocionada, a cabeça levemente inclinada para trás.
Era esposa de um homem importante, e mãe carinhosa de dois belos meninos. Sua expressão preferida era “decentíssimo”, e aplicava-a a pessoas, criados, negócios e sentimentos, sempre que queria fazer-lhes um elogio. Era capaz de dizer “o que é verdadeiro, bom e belo” com a mesma frequência e naturalidade com que as outras pessoas dizem “quinta-feira”. O que mais satisfazia à sua necessidade de ideias era imaginar uma vida sossegada e idealizada no círculo do marido e dos filhos, e, muito abaixo, o mundo sombrio do “não me deixes cair em tentação”, com seu horror enevoando aquela felicidade radiante, transformando-a em fraca luz de lâmpada. Ela só tinha um defeito: a simples visão de um homem a excitava de maneira incrível. Não que fosse lasciva; era sensual, como outras pessoas têm lá seus problemas, por exemplo, transpirar nas mãos ou corar com facilidade. Aparentemente nascera assim, e não o conseguia evitar. Quando conhecera Ulrich, em condições tão romanescas que lhe excitavam a fantasia, tornara-se no mesmo momento vítima de uma paixão que começara como piedade, mas depois de breve e intensa luta transformou-se em emoções secretas e proibidas, continuando então como alternantes acessos de pecado e remorso.
Ulrich era mais um dos incontáveis casos em sua vida. Os homens, percebendo uma tal situação, costumam tratar essas mulheres sedentas de amor como tratariam idiotas a quem se engana com os truques mais tolos, fazendo-os cair sempre no mesmo tropeço. Pois os mais delicados sentimentos masculinos são mais ou menos como o rosnado de um tigre diante de um naco de carne, e qualquer coisa que os perturba os irrita imensamente. Assim, muitas vezes Bonadéia levava uma vida dupla, como qualquer cidadão respeitável que nas fiestas mais sombrias da consciência é um assaltante de trens; portanto, sempre que não estava nos braços de um homem, aquela dama tranquila e majestosa sentia-se sufocar de autodesprezo devido às mentiras e humilhações a que se expunha para ser abraçada. Quando excitada, era melancólica e bondosa, numa mescla de fervor e lágrimas, brutal naturalidade e inevitável remorso.
Quando seu fervor se retraía à depressão iminente, ela adquiria um encanto excitante como o rufar de um tambor envolto em panos negros.
Mas no intervalo entre duas crises, no remorso entre duas fraquezas, quando sentia sua impotência, ela assumia muitas pretensões à respeitabilidade, que tornavam o convívio complicado. Queria que todos fossem bons e verdadeiros, compassivos para com as desgraças, amantes da família imperial, respeitando tudo o que era respeitável e tão delicados em assuntos morais como quem estivesse à cabeceira de um doente.
Mas mesmo que isso não acontecesse, nada mudava no curso dos fatos. Para desculpar-se, inventara a lenda de que, nos primeiros inocentes anos de casados, o marido é que a deixara naquele triste estado. O marido, muito mais velho e fisicamente maior que ela, parecia então um monstro de brutalidade, e já nas primeiras horas do novo amor ela mencionara isso a Ulrich, com uma tristeza ambígua. Só mais tarde ele descobriria que o marido era um jurista respeitado e conhecido, eficiente na profissão, um inofensivo aficcionado de caçadas, visitante muito querido de várias rodas de caçadores e de juristas, onde se debatiam questões masculinas em vez de arte e amor. O único erro desse homem bondoso e alegre, um tanto ingênuo, era ser casado com aquela esposa, e por isso mais frequentemente do que outros homens manter com ela aquela relação que em linguagem jurídica se chama de “relação de circunstância”. O efeito moral de submeter-se anos a fio a uma pessoa com que se casara mais por esperteza do que por afeto formara em Bonadéia a ilusão de ser fisicamente superexcitável, tornando essa ideia quase que independente de sua consciência. Uma força interior, que ela mesma não entendia, ligava-a àquele homem favorecido pelas circunstâncias; desprezava-o por sua própria fraqueza de vontade, e sentia-se fraca demais para o poder desprezar; traía-o para fugir dele, mas nos momentos mais inadequados falava dele e dos filhos que tivera com ele, e nunca conseguia libertar-se dele inteiramente. Por fim, como muitas mulheres infelizes, num espaço oscilante, apoiava-se exatamente naquela repulsa pelo sólido esposo, e transferia seu conflito com ele para cada nova experiência que a deveria dele livrar.
Praticamente, nada restava para acalmar suas dores do que lançar-se rapidamente da depressão para o fervor. Mas aos homens que isso concretizavam e se aproveitavam de sua fraqueza, ela negava ao mesmo tempo qualquer intenção nobre; e quando se “inclinava” para esse novo homem, como costumava dizer com objetividade científica, o sofrimento cobria seus olhos com um véu de úmida ternura.
Robert Musil, in O homem sem qualidades

O morto chamado Rentería

Dom Pedro, voltei, porque não estou satisfeito comigo mesmo. Com prazer vou continuar cuidando de seus assuntos.
Disse isso sentado novamente no escritório de dom Pedro Páramo, onde havia estado não fazia nem meia hora.
Está bem, Gerardo. Aí estão os papéis, onde você deixou.
Eu também queria... Os gastos... A viagem... Um adiantamento mínimo de honorários... Algum extra, se o senhor houver por bem.
Quinhentos?
Não poderia ser um pouco, digamos, um pouquinho mais?
Você ficaria conformado com mil?
E se fossem cinco?
Cinco o quê? Cinco mil pesos? Não tenho. Você sabe muito bem que está tudo investido. Terras, animais. Você sabe disso. Leva os mil. Não acho que você precise de mais.
Ficou meditando. A cabeça caída. Ouvia o tilintar dos pesos sobre a escrivaninha onde Pedro Páramo contava o dinheiro. Lembrava-se de dom Lucas, que sempre ficou devendo seus honorários. De dom Pedro, que abriu conta nova. De seu filho Miguel: quanta dor de cabeça aquele rapaz tinha dado!
Livrou-o da cadeia pelo menos umas 15 vezes, se é que não foram mais. E o assassinato que cometeu com aquele homem, como era mesmo o nome?, Rentería, isso. O morto chamado Rentería, em cuja mão puseram uma pistola. O jeito que Miguelzinho estava assustado, embora depois caísse no riso. Só isso, quanto teria custado a dom Pedro se as coisas tivessem ido até lá, até a lei? E a questão das violações, nada? Quantas vezes ele teve que tirar do próprio bolso dinheiro para que elas enterrassem o assunto: “Fique bem e em paz que você vai ter um filhote branquelo!”, dizia a elas.
Aqui está, Gerardo. Cuida muito bem deles, porque não geram cria.
E ele, que ainda estava em suas cismas, respondeu:
Pois é, os mortos também não — e acrescentou: — Desgraçadamente.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

A companheira


A lua parte com quem partiu e fica com quem ficou. E, pacientemente consoladoramente, aguarda os suicidas no fundo do poço.
Mário Quintana, in Sapato florido

25/03/2018

Aqui estou eu neste livro

O que eu quero é que o leitor, quando se encontrar com um livro meu, quando o ler e chegar ao final, possa dizer: conheci a pessoa que escreveu isto. Embora não defenda um confessionalismo na literatura, me interessa dizer: aqui estou eu, e isto é o que eu penso, isto é o que eu sinto. Para mim, é muito importante que o leitor possa dizer: este livro carrega uma pessoa dentro, e que essa pessoa é o autor de toda essa diversidade de coisas com que se faz um romance.
José Saramago, in As palavras de Saramago

Capítulo 14 - O Primeiro Beijo

Tinha dezessete anos; pungia-me um buçozinho que eu forcejava por trazer a bigode. Os olhos, vivos e resolutos, eram a minha feição verdadeiramente máscula. Como ostentasse certa arrogância, não se distinguia bem se era uma criança com fumos de homem, se um homem com ares de menino.
Ao cabo, era um lindo garção, lindo e audaz, que entrava na vida de botas e esporas, chicote na mão e sangue nas veias, cavalgando um corcel nervoso, rijo, veloz, como o corcel das antigas baladas, que o romantismo foi buscar ao castelo me-dieval, para dar com eles nas ruas do nosso século. O pior é que o estafaram a tal ponto, que foi preciso deitá-lo à margem, onde o realismo o veio achar, comido de lazeira e vermes, e, por compaixão, o transportou para os seus livros.
Sim, eu era esse garção bonito, airoso, abastado; e facilmente se imagina que mais de uma dama inclinou diante de mim a fronte pensativa, ou levantou para mim os olhos cobiçosos. De todas porém a que me cativou logo foi uma... uma... não sei se diga; este livro é casto, ao menos na intenção; na intenção é castíssimo. Mas vá lá; ou se há de dizer tudo ou nada. A que me cativou foi uma dama espanhola. Marcela, a “linda Marcela”, como lhe chamavam os rapazes do tempo. E tinham razão os rapazes. Era filha de um hortelão das Astúrias; disse-mo ela mesma, num dia de sinceridade, porque a opinião aceita é que nascera de um letrado de Madrid, vítima da invasão francesa, ferido, encarcerado, espingardeado, quando ela tinha apenas doze anos. Cosas de España. Quem quer que fosse, porém, o pai, letrado ou hortelão, a verdade é que Marcela não possuía a inocência rústica, e mal chegava a entender a moral do código. Era boa moça, lépida, sem escrúpulos, um pouco tolhida pela austeridade do tempo, que lhe não permitia arrastar pelas ruas os seus estouvamentos e berlindas; luxuosa, impaciente, amiga de dinheiro e de rapazes. Naquele ano, ela morria de amores por um certo Xavier, sujeito abastado e tísico, - uma pérola.
Via-a, pela primeira vez, no Rossio Grande, na noite das luminárias, logo que constou a declaração da independência, uma festa de primavera, um amanhecer da alma pública. Éramos dois rapazes, o povo e eu; vínhamos da infância, com todos os arrebatamentos da juventude. Via-a sair de uma cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante, um desgarre, alguma coisa que nunca achara nas mulheres puras. - Segue-me, disse ela ao pajem. E eu seguia-a, tão pajem como o outro, como se a ordem me fosse dada, deixei-me ir namorado, vibrante, cheio das primeiras auroras. A meio caminho, chamaram-lhe “linda Marcela”, lembrou-me que ouvira tal nome a meu tio João, e fiquei, confesso que fiquei tonto.
Três dias depois perguntou-me meu tio, em segredo, se queria ir a uma ceia de moças, nos Cajueiros. Fomos; era em casa de Marcela. O Xavier, com todos os seus tubérculos, presidia ao banquete noturno, em que eu pouco ou nada comi, porque só tinha olhos para a dona da casa. Que gentil que estava a espanhola! Havia mais uma meia dúzia de mulheres, - todas de partido -, e bonitas, cheias de graça, mas a espanhola... O entusiasmo, alguns goles de vinho, o gênio imperioso, estouvado, tudo isso me levou a fazer uma coisa única; à saída, à porta da rua, disse a meu tio que esperasse um instante, e tornei a subir as escadas.
- Esqueceu alguma coisa? perguntou Marcela de pé no patamar.
- O lenço.
Ela ia abrir-me caminho para tornar à sala; eu segurei-lhe nas mãos, puxei-a para mim, e dei-lhe um beijo. Não sei se ela disse alguma coisa, se gritou, se chamou alguém; não sei nada; sei que desci outra vez as escadas, veloz como um tufão, e incerto como um ébrio.
Machado de Assis, in Memórias póstumas de Brás Cubas

O ópio dos povos?

  
Os torcedores na geral do antigo Maracanã - Arquivo Nacional 

Em que o futebol se parece com Deus? Na devoção que desperta em muitos crentes e na desconfiança que desperta em muitos intelectuais.
Em 1880, em Londres, Rudyard Kipling desdenhou o futebol e as “almas pequenas que podem ser saciadas pelos enlameados idiotas que jogam”. Um século depois, em Buenos Aires, Jorge Luis Borges foi mais sutil: proferiu uma conferência sobre o tema da imortalidade no mesmo dia, e na mesma hora, em que a seleção argentina estava disputando sua primeira partida na Copa de 78.
O desprezo de muitos intelectuais conservadores se baseia na certeza de que a idolatria da bola é a superstição que o povo merece. Possuída pelo futebol, a plebe pensa com os pés, como corresponde, e nesse gozo subalterno se realiza. O instinto animal se impõe à razão humana, a ignorância esmaga a Cultura, e assim a ralé tem o que quer.
Por outro lado, muitos intelectuais de esquerda desqualificam o futebol porque castra as massas e desvia sua energia revolucionária. Pão e circo, circo sem pão: hipnotizados pela bola, que exerce uma perversa fascinação, os operários atrofiam sua consciência e se deixam levar como um rebanho por seus inimigos de classe.
Quando o futebol deixou de ser coisa de ingleses e de ricos, no rio da Prata nasceram os primeiros clubes populares, organizados nas oficinas das estradas de ferro e nos estaleiros dos portos. Naquela época, alguns dirigentes anarquistas e socialistas denunciaram esta maquinação da burguesia destinada a evitar as greves e mascarar as contradições sociais. A difusão do futebol no mundo era o resultado de uma manobra imperialista para manter os povos reduzidos à idade infantil – para sempre.
No entanto, o time Argentinos Juniors nasceu chamando-se Clube Mártires de Chicago, em homenagem aos operários anarquistas enforcados num primeiro de maio, e foi um primeiro de maio o dia escolhido para fundar o clube Chacarita, batizado numa biblioteca anarquista de Buenos Aires. Naqueles primeiros anos do século, não faltaram intelectuais de esquerda que celebraram o futebol, em vez de repudiá-lo como anestesia da consciência. Entre eles, o marxista italiano Antonio Gramsci, que elogiou “este reino da lealdade humana exercida ao ar livre”.
Eduardo Galeano, in Futebol ao sol e à sombra

A existência de Deus

Para abordar a questão da existência de Deus, que é uma questão ampla e séria, pedirei licença para tratar dela de maneira um tanto resumida – se eu fosse tentar abordá-la de qualquer maneira adequada, precisaria mantê-los aqui até o Final dos Tempos. Os senhores sabem, é claro, que a Igreja Católica definiu como dogma o fato de a existência de Deus poder ser provada pela razão espontânea. Esse é um dogma um tanto curioso, mas é um dos dogmas deles. Precisaram introduzi-lo porque, a certa altura, os livres-pensadores adotaram o hábito de dizer que existiam tais e tais argumentos por meio dos quais a pura e simples razão poderia concluir que Deus não existe, mas é claro que eles sabiam, por questão de fé, que Deus existe. Esses argumentos e razões foram expostos muito longamente, e a Igreja Católica sentiu a necessidade de dar um basta nisso. Assim, estabeleceram que a existência de Deus pode ser comprovada pela razão espontânea, e precisaram determinar o que consideravam argumentos para comprovar tal fato. Existem, é claro, diversos deles, mas abordarei apenas alguns.

O ARGUMENTO DA CAUSA PRIMORDIAL
Talvez o mais simples e mais fácil de entender seja o argumento da Causa Primordial. (Defende-se que tudo o que vemos neste mundo tem uma causa e, à medida que retrocedermos cada vez mais na corrente de causas, chegaremos obrigatoriamente à Causa Primordial, e essa Causa Primordial recebe o nome de Deus.) Tal argumento, suponho, não tem muito peso nos dias de hoje, porque, em primeiro lugar, já não é mais o que era. Os filósofos e os homens de ciência têm estudado muito a causa, e ela já não tem nem de longe a vitalidade que tinha; mas, fora isso, dá para ver que o argumento de que obrigatoriamente existe uma Causa Primordial não pode ter nenhuma validade. Posso dizer que, quando eu era jovem e debatia essas questões com muita seriedade em minha mente, durante muito tempo aceitei o argumento da Causa Primordial, até o dia em que, aos dezoito anos, li a autobiografia de John Stuart Mill 13 e lá encontrei a seguinte frase: “Meu pai me ensinou que a pergunta ‘Quem me fez?’ não pode ser respondida, já que imediatamente sugere a pergunta seguinte ‘Quem fez Deus?’”. Essa frase extremamente simples me mostrou, como ainda penso, que o argumento da Causa Primordial é uma falácia. Se tudo precisa ter uma causa, então também Deus deve ter uma causa. Se é possível que exista qualquer coisa sem causa, isso tanto pode ser o mundo quanto Deus, de modo que não pode haver validação nesse argumento. Trata-se exatamente da mesma natureza da visão hinduísta de que o mundo repousava sobre um elefante, e que o elefante repousava sobre uma tartaruga; e quando alguém perguntava “Mas e a tartaruga?”, o indiano respondia: “Que tal mudarmos de assunto?”. O argumento, de fato, não é melhor do que isso. Não há razão por que o mundo não possa ter passado a existir sem causa nenhuma; tampouco, por outro lado, existe qualquer razão que o impeça de ter sempre existido. Não há razão para supor que o mundo teve alguma espécie de início. A ideia de que as coisas precisam obrigatoriamente ter um início na verdade se deve à pobreza da nossa imaginação. Portanto, talvez eu não precise mais perder tempo com o argumento relativo à Causa Primordial.

O ARGUMENTO DA LEI NATURAL
Em seguida, há o argumento muito comum da lei natural. Esse foi um dos argumentos preferidos ao longo de todo o século XVIII, principalmente sob a influência de sir Isaac Newton e de sua cosmogonia. As pessoas observavam os planetas girando em torno do sol de acordo com a lei da gravidade, e pensavam que Deus tinha dado um comando a esses planetas para que se movessem daquela maneira específica, sendo por isso que o faziam. Essa era, obviamente, uma explicação conveniente e simples, que as poupava do trabalho de ter de procurar explicações mais elaboradas para a lei da gravidade. Hoje, explicamos a lei da gravidade de uma maneira um tanto complicada, introduzida por Einstein. Não me proponho a fazer uma palestra a respeito da interpretação de Einstein para a lei da gravidade, porque, mais uma vez, isso demoraria algum tempo; de qualquer forma, já não dispomos mais daquele tipo de lei natural que existia no sistema newtoniano, em que, por alguma razão que ninguém era capaz de entender, a natureza agia de maneira uniforme. Hoje, descobrimos que muitas coisas que acreditávamos serem leis naturais na verdade são convenções humanas. Sabemos que, até mesmo nas mais remotas profundezas do espaço estelar, três pés somam uma jarda. Esse é, sem dúvida, um fato muito notável, mas dificilmente diríamos que seja uma lei da natureza. E muitíssimas coisas que foram consideradas leis da natureza são desse tipo. Por outro lado, quando for possível chegar a qualquer conhecimento sobre o que os átomos são de fato capazes de fazer, descobrir-se-á que eles estão bem menos sujeitos a leis do que as pessoas pensavam, e que as leis a que se chega são médias estatísticas, exatamente do tipo que poderia emergir do acaso. Existe, como todos sabemos, uma lei que diz que, ao lançarmos dados, obteremos seis duplos apenas uma a cada 36 vezes aproximadamente, e não consideramos isso como prova de que a queda dos dados é regulada pelo plano divino; ao contrário, se o duplo seis saísse toda vez, poderíamos pensar que o plano divino existe. As leis da natureza são desse tipo no que diz respeito à maior parte delas. São médias estatísticas tais como as que emergiriam das leis do acaso; e isso faz com que essa coisa toda de lei natural seja muito menos impressionante do que era anteriormente. Bem separado disso, representando o estado momentâneo da ciência que pode transformar o amanhã, toda a ideia de que as leis naturais implicam um determinador das leis se deve à confusão entre as leis naturais e as humanas. As leis humanas são comandos que ordenam que se aja de uma certa maneira, de modo que cada um possa escolher se comportar ou não se comportar; mas as leis naturais são uma descrição de como as coisas de fato se comportam e, por serem uma mera descrição do que elas de fato fazem, não dá para argumentar que existe obrigatoriamente alguém que lhes disse para fazer isso, porque, mesmo se supusermos que existe, então a seguinte questão seria suscitada: “Por que Deus estabeleceu exatamente estas leis naturais, e não outras?”. Se a resposta for que Ele fez isso apenas a seu bel-prazer, e sem razão nenhuma, então descobre-se que existe alguma coisa que não está sujeita à lei, de modo que a linha da lei natural é interrompida. Se for dito, como os teólogos mais ortodoxos dizem, que em todas as leis estabelecidas por Deus existe uma razão para que determinada lei fosse promulgada em detrimento de outras – tendo como razão, é claro, criar o melhor universo, apesar de ser impossível pensar assim ao examiná-lo –, se houvesse uma razão para as leis que Deus estabeleceu, então o próprio Deus estaria sujeito à lei, de modo que não existe nenhuma vantagem em introduzir Deus como intermediário. Na verdade, tem-se uma lei alheia e anterior aos éditos divinos, e Deus não atende ao objetivo, porque Ele não é o legislador supremo. Em resumo, toda essa discussão a respeito da lei natural não tem mais nem de longe a força que tinha. Estou viajando no tempo na minha revisão dos argumentos. Os argumentos usados para a existência de Deus mudam de caráter à medida que o tempo passa. No início, eram argumentos intelectuais rígidos, que incorporavam certas falácias bem definidas. Quando chegamos aos tempos modernos, elas se tornam menos respeitadas intelectualmente e cada vez mais afetadas por um tipo de moralização vaga.
Bertrand Russell, in Por que não sou cristão

El Efecto • O Monge e o Executivo (part. Helen Nzinga)

24/03/2018

Sociedade

O homem disse para o amigo:
— Breve irei a tua casa
e levarei minha mulher.

O amigo enfeitou a casa
e quando o homem chegou com a mulher,
soltou uma dúzia de foguetes.

O homem comeu e bebeu.
A mulher bebeu e cantou.
Os dois dançaram.
O amigo estava muito satisfeito.

Quando foi hora de sair,
o amigo disse para o homem:
— Breve irei a tua casa.
E apertou a mão dos dois.

No caminho o homem resmunga:
— Ora essa, era o que faltava.
E a mulher ajunta: — Que idiota.

— A casa é um ninho de pulgas.
— Reparaste o bife queimado?
O piano ruim e a comida pouca.

E todas as quintas-feiras
eles voltam à casa do amigo
que ainda não pôde retribuir a visita.
Carlos Drummond de Andrade

Juízo Final

Só a nossa concepção de tempo nos faz nomear o Juízo Final com essas palavras; na realidade ele é um tribunal permanente.
Franz Kafka, in Aforismos reunidos

Vidas alheias

Belinha, Belinha... A mulher do Caio?
Não, a mulher do Ciro. O do incêndio.
Com um ouvido atento e um pouco de imaginação, qualquer coisa pode virar uma história na sua cabeça. Ou um mergulho nesse poço de surpresas que é a vida alheia. Uma frase. Ou uma conversa. Como esta numa sala de cinema, antes de começar a sessão. Duas mulheres, sentadas atrás de você, conversando.
O Ciro que pôs fogo na casa?
Esse. Só que nunca ficou provado que foi ele mesmo. A Belinha é que acusou.
Pronto. Você já tem os ingredientes para uma história. Sua imaginação fornecerá os detalhes. Um casal, Belinha e Ciro, e a suspeita de que o Ciro pôs fogo na casa. Talvez para matar a Belinha.
Coitada da Belinha. Ficou traumatizada. Ela esperaria qualquer coisa do Ciro. Mas botar fogo na casa foi um pouco demais.
Imagina! Mas então quem é a mulher do Caio?
Você está pensando na Carol, aquela que saiu com a cueca manchada do marido na rua, pra mostrar pra todo mundo.
Epa! A história da Carol e do Caio parece mais interessante do que a da Belinha e do Ciro. Mulher brandindo a cueca manchada do marido para toda a vizinhança saber da sua infidelidade bate incêndio possivelmente criminoso como motivo de briga de casal em qualquer vara de família séria do mundo. Mas a conversa das mulheres volta para o primeiro casal.
E o que que tem a Belinha?
Você pensa em se virar na poltrona e protestar. Não! Esqueçam a Belinha. Quero saber mais sobre a Carol! A história da Carol é melhor!
A Belinha descobriu uma colônia de abelhas no portão da casa dela. Como é que se chama? Uma colmeia. Enorme. Da noite para o dia milhares de abelhas tinham se instalado no portão. A Belinha não podia sair ou entrar em casa sem o risco de levar uma ferroada.
Meu Deus.
Aí ela ouviu dizer que havia um apicultor que se especializava em retirar colmeias. Pegava as abelhas, empacotava, sei lá como, e levava embora. Ela chama o tal apicultor. E quem é que aparece?
Quem?
O Brad Pitt.
O quê?
Numa versão rústica, é claro.
Você imagina o encontro. O apicultor examinando a colmeia enquanto Belinha examina o apicultor. O olhar dele para as abelhas é terno, o dela para ele é de súplica e paixão. Leve-me também, apicultor, pensa Belinha. Leve-me junto com as abelhas para a sua cabana tosca onde nos cobriremos de mel e...
E pintou alguma coisa?
Não. A Belinha ainda estava muito traumatizada com o incêndio. Não queria saber de homem. Mas hoje ela me telefonou muito animada porque apareceram outras abelhas no quintal e ela está pensando em chamar o Brad Pitt de novo. Ela acha que se surgirem mais abelhas será um sinal para que ela chame o Brad Pitt, e seja o que Deus quiser. A natureza estará lhe dizendo para esquecer sua mágoa com os homens e tentar de novo. Ela...
Ssshh. Vai começar a sessão.
E você precisa se controlar para não se virar para trás e pedir:
Por favor. A Carol. Rapidamente, antes que comece o filme. Como é a história da Carol?
Vidas alheias, vidas alheias. Poços de surpresas.
Luís Fernando Veríssimo, in Amor Veríssimo

Street Art: o artista brasileiro Eduardo Kobra recria Monet




A obra original


Eduardo Kobra homenageia Claude Monet em dois novos murais em Boulogne, na França. Num, recria a obra Mulher com sombrinha, de 1815, noutro, Monet.

Estória de Trancoso

O povo denomina estórias de Trancoso aos contos tradicionais, o documentário mais rico de nossa literatura oral. Trancoso, Gonçalo Fernandes Trancoso, é o autor da primeira coleção de estórias populares em Portugal, Contos e histórias de proveito e exemplo, primeira e segunda partes publicadas em Lisboa por Marcos Borges, 1585, a outra edição em 1589, por João Álvares. Houve uma terceira parte, inédita, divulgada em 1596, por seu filho, Simão Lopes. As três partes, constituindo um só volume, apareceram em 1646, pelo impressor Antônio Alves, com várias reedições nos séculos XVII e XVIII. Em 1921 o Prof. Agostinho de Campos deu uma seleção antológica. São trinta e oito estórias, adaptadas de novelistas italianos e muitas de fonte popular. Trancoso era professor. A popularidade determinou dizer o conto popular estórias de Trancoso, numa generalização consagradora.
A primeira citação no Brasil encontra-se no Diálogos das grandezas do Brasil, III, 1618, onde Alviano diz: “Isto parece-me dos contos do Trancoso e, como tal, não me persuado a dar-lhe crédito”. Não há, entretanto, nenhum elemento sobrenatural no volume. Muitas estórias estão vivas e sabidas no Brasil. Menéndez y Pelayo escreveu o melhor estudo sobre Trancoso (Origenes de la novela), a quem seus patrícios devem uma edição crítica. Por que estória e não história? João Ribeiro aconselhara-a em 1919, mas ficou escrevendo História. Propusemos a grafia em 1941, na Sociedade Brasileira de Folclore, usando-a sem solução de continuidade a partir do ano seguinte. Gustavo Barroso (A Manhã, Rio de Janeiro, 22 de novembro de 1942), comentando os estatutos daquela sociedade, elogiou a iniciativa numa brilhante exposição. Fundamentava-se, sem maior aparato erudito, na distinção imediata e visual entre a História, documentada, verídica, oficial, e o conto popular, como os ingleses têm history e story, podendo entitular uma History of a folk story, como fez Gordon Hall Gerould. História do Brasil. Estória de Trancoso. Vinte e dois anos depois, estória é corrente e comum no Brasil, nos títulos de livros e noticiário de imprensa. Fiquei compensado dos protestos e críticas quando comecei a estória em 1942. Já apareceram, naturalmente, vários pais da criança que a ignoravam nas décadas iniciais, mas estão encantados, vendo-a recepcionada e airosa.
Luís da Câmara Cascudo, in Coisas que o povo diz