27/11/2017

Inferno, eterno inverno, quero dar

Inferno, eterno inverno, quero dar
Teu nome à dor sem nome deste dia
Sem sol, céu sem furor, praia sem mar,
Escuna de alma à beira da agonia.
Inferno, eterno inverno, quero olhar
De frente a gorja em fogo da elegia,
Outono e purgatório, clima e lar
De silente quimera, quieta e fria.
Inverno, teu inferno a mim não traz
Mais do que a dura imagem do juízo
Final com que me aturde essa falaz
Beleza de teus verbos de granizo:
Carátula celeste, onde o fugaz
Estilo de teu riso — paraíso?
Mário Faustino

Não renunciar às convicções

Eu não precisei deixar de ser comunista para ganhar o prêmio Nobel. Se tivesse que renunciar às minhas convicções para ganhar, teria aberto mão do Nobel, mas felizmente a Academia não se importou com o fato de ser eu um comunista renitente.
José Saramago, In As palavras de Saramago

Carro de bois


Por favor, o senhor não me leve a mal, sei que suas intenções são as melhores, mas acontece que sou mineiro, preso muito às coisas de antigamente, quero que elas sobrevivam, fazem parte do meu corpo, e esse é o caso do carro de bois, sobre o que já escrevi várias coisas; menino, era uma felicidade ver o carro de bois chegando, a gente corria atrás e se aboletava, na frente o carreiro conduzindo os bois com o seu ferrão, atrás os bois caminhando pachorrentamente, humilhados de cabeça baixa, conformados com o seu triste destino, e o eixo gemendo música dolorida... Eu disse “o” eixo, no singular, porque carro de boi, por razões da geometria e da física, só pode ter um eixo com duas rodas. Carro de boi com dois eixos e quatro rodas quebra. Por que é assim? Eu lhe pergunto: para garantir que todos os pés de um tamborete estejam assentados no chão, quantos pés ele deve ter? A resposta é fácil: três. Geometria: três pontos definem um plano. Tamborete de três pés está sempre assentado. Tamborete de quatro pés pode ficar manco. Basta um desnível no chão... Veículo de quatro rodas precisa de estrada boa, plana. Acontece que carro de boi foi feito para caminhos que nem são estradas, esburacados. Por isso, para não mancar, só têm três pontos de apoio: as duas rodas e os bois. Os artesãos de antigamente não eram bobos... Sabiam ciência e geometria. Mas o senhor, com a melhor das intenções, para ilustrar seu restaurante de nome tão bonito, “Carro de boi”, pediu que um artista fizesse um desenho... Mas ele era um homem de cidade... Nunca viu um carro de bois e, pior, não se deu ao trabalho de procurar uma fotografia. E ele desenhou um carro de bois de quatro rodas. Não existe. Não me leve a mal. Eu só quis ajudar. É que amo os carros de bois porque eles fazem parte da minha alma. Olhando para um carro de bois de quatro rodas, eu começo a mancar…
Rubem Alves, In Do universo à jabuticaba

Primeira tentativa de três de tornar-se um homem importante

Esse homem que voltara para casa não conseguia lembrar nenhum período de sua vida que não tivesse sido animado pela vontade de se tornar uma pessoa importante; Ulrich parecia ter nascido com esse desejo. É verdade que nesse desejo também se podem esconder vaidade e ignorância; apesar disso, não é menos verdade que é um desejo belo e correto, sem o qual provavelmente não haveria muitas pessoas importantes.
O fatal era apenas que ele não sabia como a gente se torna importante, nem o que é um homem importante. Nos seus tempos de escola, pensava que Napoleão o fosse, em parte devido à natural admiração dos jovens pelo crime, em parte porque os professores apontavam esse tirano, que tentou colocar a Europa de cabeça para baixo, como sendo o pior criminoso da história. O resultado foi que, assim que escapou da escola, Ulrich se tornou alferes de um regimento de cavalaria. Naquela época, se indagassem dos motivos dessa escolha, ele provavelmente não teria mais respondido: para me tornar um tirano; mas esses desejos são jesuíticos; o gênio de Napoleão apenas começou a se desenvolver depois que ele se tornara general, e como é que Ulrich, simples alferes, teria podido convencer seu comandante da necessidade de chegar a essa condição?! Já nos exercícios de esquadrão, via-se não raro que o comandante pensava de outro modo. Apesar disso, Ulrich não teria amaldiçoado a praça de exercícios, em cujo pacífico relvado não se distingue presunção de vocação, se não fosse tão ambicioso. Naquele tempo, não dava o mínimo valor a expressões pacifistas como “educação armada do povo”, mas recordava com paixão os tempos heróicos de feudalismo, violência e orgulho. Participava de corridas de cavalo, duelava, e distinguia apenas três espécies de pessoas: oficiais, mulheres e civis; os últimos eram uma classe fisicamente não desenvolvida e espiritualmente desprezível, cujas mulheres e filhas eram arrebatadas pelos oficiais. Entregou-se a um pessimismo sublime: parecia-lhe que se a profissão de soldado é um instrumento aguçado e ardente, era preciso queimar e cortar o mundo com esse instrumento, para seu próprio bem.
Teve sorte de mesmo assim não lhe acontecer nada de mal naquele tempo, mas certo dia passou por uma experiência. Sofreu, numa reunião, uma pequena desavença com um conhecido financista, e quis resolver tudo à sua maneira grandiosa, verificando então que também entre os civis há homens que sabem defender os membros femininos de suas famílias. O financista teve uma conversa com o Ministro da Guerra, a quem conhecia pessoalmente, e o resultado foi que Ulrich teve um longo encontro com seu superior, no qual lhe explicaram a diferença entre um arquiduque e um simples oficial. A partir dali, a profissão militar não lhe agradou mais. Esperara encontrar-se num palco de aventuras que abalassem o mundo, cujo herói seria ele próprio, e de repente via um jovem embriagado fazendo desordem numa grande praça vazia, onde só as pedras lhe respondiam. Percebendo isso, despediu-se daquela carreira ingrata, na qual acabara de chegar a tenente, e deixou o serviço militar.
Robert Musil, in O homem sem qualidades

26/11/2017

Viver "com" e "em" alguém

Há uma grande diferença entre viver com alguém e viver em alguém. Pessoas há em quem somos capazes de viver sem que consigamos viver com elas. E há os casos inversos. Só uma extrema pureza do amor e da amizade está em condições de juntar as duas coisas.
O homem só pode viver com os que se lhe assemelham. E ao mesmo tempo não pode viver com eles, porque não suporta que alguém se lhe assemelhe eternamente.
Quando duas pessoas estão inteiramente satisfeitas uma com a outra, podemos ter quase sempre a certeza de que estão ambas enganadas.
Goethe, in Máximas e reflexões

Viver outra vez

Com o solzinho da tarde, ela entrou no apartamento. Sábado. — A entrevista, lembra?
Olhou as roupas espalhadas, móveis empoeirados e ele desculpou-se: — Poucos vêm aqui. Achava que minha próxima visita seria a morte. Observou-a. Pequena, inquieta, mãozinhas curiosas nos discos e livros. Depois, pernas cruzadas — gravador ligado — murmurou, voz rouca: — O terreiro do bairro quer fazer um trabalho sobre memória. Ele, aborrecido, negou depoimento. Tentava esquecer o passado — fantasma que se escondia sob a cama.
O senhor ajudou a fundar associações, a desmascarar a ideologia da falsa democracia racial — ela insistiu.
Um dia fora professor. Mas ela não sabia que agora não era mais nada? Que, há algum tempo, o coração vinha ameaçando parar? — Minha filha, esqueça-se de mim.
Com o esforço de levantar-se arregalou os olhos. Ela assustou-se:
Que foi?
Tonturas, já passa.
Caiu, sem dizer mais nada.
Apavorada, ela procurou vizinhos. Um taxista veio. Gordo, dirigia com a barriga encostada ao volante. No pronto-socorro lotado, brigaram para serem atendidos. Um jovem médico os recebeu, perguntando:
Seu pai? É só pressão um pouco alta. Vocês da raça negra são muito sujeitos a ter hipertensão. Receitou maleato de enalapril e mandou-os embora.
Na volta, no táxi, ela ouviu-o, voz trêmula de velho, sussurrar “obrigado”.
Por fazer o senhor ficar nervoso — sorriu —, ir para o hospital? — Por se preocupar comigo. Sabe, já estou no fim...
Ele olhou pela janela do carro. Viu crianças sem camisas jogando futebol nas ruas.
Só não pensei — continuou — que fosse terminar viúvo, sem filhos, aqui, neste bairro, que é quase outra cidade. Quem povoou Perdizes, Bela Vista? A negrada. Minha família sempre morou lá.
Nasci aqui — ela afirmou. — É legal. Um pouco perigoso, ultimamente. Uns amigos morrendo por causa de drogas. Dezesseis, dezessete anos. Não lhe parece que existe um plano para exterminar nosso povo? O que o tocou, quando ela ergueu o rosto e fitou-o? Os olhos úmidos? Quase menina, tão preocupada com sua gente. Queria dizer-lhe para não se iludir, mas a frase ficou presa dentro do peito, mesmo quando ela voltou outras vezes, depois do trabalho, para ver como estava. Um dia chegou, tirou o walk-man, passou os dedos nos móveis e exclamou:
Tem tanto pó! — Foi acumulando com as decepções — ele brincou.
No dia seguinte, de bermudas, coxas roliças à mostra, ela espanou, varreu. Não podia ver nada envelhecer? Pensava, com a alegria de menina, em remoçá-lo? Num domingo, chegou com discos:
Racionais, conhece? Bom pra caramba.
Ouviu e gostou. Parecia escutar a si mesmo nos versos dos raps, rapaz crescendo revoltado nos cortiços do Bixiga. Mas o que a moça queria, enchendo o lugar com música, verificando se comia direito, arrumando as camisas no guarda-roupa? — Vê-lo recuperar-se — ela dizia. — Já está mais moço.
Acreditava no poder de cura de mãos movidas por carinho. Deu-lhe as suas e levou-o a bares onde pagodeiros punham a alma para percutir os instrumentos. Dançou com ele, sob olhares curiosos, diferentes daqueles que os vizinhos lhes dirigiam, quando passavam nas ruas, mãos entrelaçadas. Ouvia-os dizer: Podia ser sua filha, que sem-vergonha.
Ela nem ligava. O velho mais desiludido tornava-se o mais animado. O homem que ajudara seu povo a se organizar despertava, às vezes, no trovão da gargalhada. Mas, num sábado, tristezas de outrora emergiram no poço dos olhos. Ao vislumbrá-las, fez de tudo para levá-lo à praia. Pularam sete ondas, despachando as coisas ruins que pesavam nos ombros. Gotas de água em seus cabelos eram minúsculos sóis. Deitadinhos na areia, contou a ele sobre o pai, disse que jamais o conhecera. Os olhos marejaram, uma sombra passou por seu rosto. Então, mudou de assunto e puxou-o para brincar na água.
Voltaram da viagem à noite. Entraram no pequeno apartamento rindo de tudo, de nada. Dono ainda de olhos tristes, mas animado. Bateu-lhe no peito sem feri-lo. Acariciou sua carapinha. Depois, olhou-o durante um bom tempo e beijou sua boca sorridente. Idade pra ser o pai? — Sou virgem — ela murmurou. — Não posso engravidar. As roupas ficaram sobre o tapete, espalhadas.
De mãos dadas na padaria, no mercado, ouviam os vizinhos:
É a sobrinha? — uns perguntavam.
Amante. — outros diziam, baixinho.
Ele ia receber a aposentadoria e ficava no ponto de ônibus meia hora. Enquanto outros reclamavam, permanecia impassível, dono de um segredo. É a concubi na. — Parecia escutar alguém sussurrando.
Sentia-se leve, até ser acometido por uma dorzinha besta no peito.
No centro da sala, o homem sentado no sofá é uma pálida lembrança daquele que, outrora, acreditara na sua gente. Que fantasmas o acompanhariam ao cemitério? Ela assustou-se, ao vê-lo com as mãos sobre o peito. — Coração? — Um coração enfraquecido pelas desilusões. Por que não falava desses fantasmas? — Não confia em mim? Quer dizer que eu não sou nada?
O gravador — ele pediu, imediatamente após ouvi-la falar. Esperou-a tirar o sony da bolsa e continuou:
No início do século, previa-se o desaparecimento da nossa, não digo raça, que só existe a raça humana. E melhor etnia. As elites brasileiras queriam um país sem negros e mulatos. Quando soube dessas ideias, a luz da revolta me iluminou. Uns amigos falaram-me sobre Zumbi, sobre os quilombos, sobre união. Acreditei que a união fosse possível. Mas o sonho se desfez tão rápido! Os amigos se cansaram. O nosso povo? Desinteressado, apático. Não sei — enxugou uma lágrima — como não desapareceu. — O que vocês fizeram foi bonito. — São coisas que eu preciso esquecer.
Hoje os problemas são os mesmos. Mas há pessoas jovens, querendo aprender, como eu. Quero acreditar em algo. Nosso povo sobreviveu porque acreditou na vida.
É verdade. Parece que nós temos de adquirir uma força tão grande, parece que um amor pela vida se enraíza tão fundo dentro da gente, que nada nos abala com facilidade. E se a gente cai, é pra levantar mais forte; se apanhamos, voltamos a brigar com mais garra; se choramos, também aprendemos a extrair, lá de dentro, uma gargalhada tão gostosa, que é como se toda a alegria do mundo coubesse em nosso peito. Somos negros e temos essa força. Isso é maravilhoso.
Ela abraçou-o, beijou-o. Só então ele se deu conta de que falara com entusiasmo. Uma parte do sonho ainda vivia. Mas as dores no peito persistiram. Ela vinha mais vezes, preparava arroz integral, moderou no sal e tirou o açúcar branco.
A pinga com carqueja eu não jogo fora — ele protestou. Era para diabetes, um amigo tinha ensinado.
Ficava irritado com os excessos de cuidados. No fundo, sentia falta quando ela não vinha. A menina de uma geração tão diferente, com quem reaprendia a viver. A moça que acreditava nas coisas em que ele acreditara. Num domingo, sentindo o relógio no peito se acelerar, disse-lhe: — Não vou durar muito. Só lamento não ter tido filhos. Notou que ela ficou calada, pensativa. Escondia algo?
Veio na segunda-feira. Preocupada, tensa. Acusou-o de cerceá-la. Tensão pré-menstrual? Que havia?
Estou grávida — disse, por fim. — Não posso. Tenho estudos. Também não quero um filho pra crescer como eu, sem pai.
Foi até a janela. Suas lágrimas rolavam como a chuva lá fora. — Um filho? — ele perguntou, incrédulo. — A soma do meu e do teu sonho. Olhe — pegou-lhe a mão e pôs sobre seu próprio peito — parou de doer. Podemos criar esse filho, se você quiser. — Então abraçou-a e, com a voz embargada, soluçando, falou: — Te amo.
Quando eles passavam, grávidos, ouviam os vizinhos comentarem:
É o filho — uns diziam.
O neto — outros apostavam.
É o amor nos recriando — diziam um ao outro.
Márcio Barbosa, in Os cem melhores contos brasileiros do século

Meu Bem, Meu Mal - Alexandre Pires e Caetano Veloso

Urbanística

Essas vilas de arrabalde com os seus jardins bem arrumados, bonitinhos, comportadinhos... Mas por que não a liberdade de um matagal selvagem? Por que não deixam ao menos a natureza ser natural?
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

O Specksynder

No que diz respeito aos oficiais do navio baleeiro, este lugar me parece tão bom quanto qualquer outro para expor certas peculiaridades domésticas da vida de bordo relativas à classe dos oficiais arpoadores, uma classe naturalmente desconhecida em qualquer outra marinha senão a baleeira.
A grande importância atrelada ao trabalho dos arpoadores é demonstrada pelo fato de que, originalmente na antiga Pesca Holandesa de mais de dois séculos atrás, o comando de um navio baleeiro não era exclusivamente concentrado na pessoa que hoje chamamos de capitão, mas dividido entre este e um oficial chamado de Specksynder. Literalmente, a palavra significa Cortador de Gordura; no entanto, seu uso a tornou um equivalente de Arpoador-chefe. Naqueles tempos, a autoridade do capitão era restrita à navegação e à administração geral do navio; ao passo que, na área da pesca de baleias e nas coisas que lhe diziam respeito, o Specksynder, ou Arpoador-chefe, reinava supremo. Na Pesca Britânica na Groenlândia, sob o título corrompido de Specksioneer, este velho oficial Holandês ainda se mantém, mas sua antiga respeitabilidade está tristemente abreviada. Atualmente, não passa de um Arpoador decano; e como tal é apenas um dos subalternos mais inferiores do capitão. Não obstante, como o êxito da viagem depende em grande parte da boa conduta dos arpoadores, e visto que na Pesca Norte-Americana ele não apenas é um oficial importante num bote, mas em certas circunstâncias (como nas vigílias noturnas das zonas baleeiras) o comando do navio também é seu; por isso, a grande máxima política do mar exige que ele viva isolado dos que ficam diante do mastro e que, de algum modo, seja considerado por eles profissionalmente superior; embora sempre socialmente visto como um igual.
Ora, a grande distinção entre o oficial e o marinheiro é a seguinte – o primeiro se aloja na popa, o último na proa. Portanto, nos navios baleeiros, assim como nos navios mercantes, os oficiais têm seu alojamento junto ao do capitão; e por isso, na maior parte dos navios baleeiros norte-americanos, os arpoadores também estão alojados na popa do navio. Isso quer dizer que fazem suas refeições na cabine do capitão e dormem num lugar que tem comunicação indireta com ela.
Apesar da longa duração de uma viagem baleeira ao sul (de longe a mais comprida das viagens que o homem já fez), dos perigos específicos e da comunidade de interesses que prevalece na tripulação, cujos membros, do primeiro ao último, para seus ganhos dependem não de salários fixos, mas de sua sorte comum, somada à sua vigilância, coragem e ao árduo trabalho conjunto; apesar de todas essas coisas tenderem a gerar uma disciplina menos rigorosa do que entre os marinheiros mercantes; ainda assim, não importa que em algumas circunstâncias esses baleeiros vivam primitivamente unidos à maneira de uma antiga família da Mesopotâmia; por tudo isso, as formalidades exteriores do tombadilho são poucas vezes afrouxadas e de forma alguma abolidas. De fato, muitos são os navios de Nantucket em que você encontrará o comandante inspecionando seu tombadilho com uma grandeza portentosa jamais superada em navio militar algum; ou ainda, exigindo demonstrações de reverência tal, como se envergasse a púrpura imperial, e não a mais modesta farda de piloto.
E ainda que dentre todos os homens o soturno capitão do Pequod fosse o menos afeito a esse tipo de superficialidade; e ainda que a única homenagem exigida fosse a obediência irrestrita e imediata; e ainda que não exigisse que marinheiro algum tirasse os sapatos antes de subir ao tombadilho; e embora houvesse ocasiões em que, devido a circunstâncias específicas ligadas a eventos que serão relatados mais adiante, se dirigisse aos marinheiros de forma estranha, às vezes afável, às vezes in terrorem; a verdade era que o Capitão Ahab não negligenciava de modo algum os usos e costumes dominantes do mar.
Tampouco se deixará de perceber que, talvez, por trás desses usos e costumes, tais como eram, ele às vezes se ocultasse; incidentalmente valendo-se deles para outros fins mais pessoais do que aqueles aos quais deviam legitimamente servir. Este tipo de sultanato de seu cérebro, que em outras circunstâncias teria permanecido não-manifesto; por aquelas mesmas formalidades tornou-se uma ditadura irresistível. Por maior que seja a superioridade intelectual de um homem, não lhe é possível assumir o domínio prático e útil de outros homens sem a ajuda de algum tipo de artifício e manobra externa, em si mesmos mesquinhos e indignos. É isso que afasta para sempre os verdadeiros príncipes do Império de Deus dos palanques do mundo; e os faz recusar as mais altas honrarias que esse ar confere a homens que se tornaram famosos mais por causa de sua infinita inferioridade – postos ao lado do oculto punhado de homens escolhidos pelo Divino Inerte – do que devido às indubitáveis qualidades superiores ao nível médio das massas. Tão grande virtude se esconde nessas pequenas coisas, quando uma excessiva superstição política as envolve, que, em certas instâncias régias, mesmo à imbecilidade do idiota se confere autoridade. Mas quando, como no caso do Czar Nicolau, a coroa circular do império geográfico cinge um cérebro imperial; então, os rebanhos plebeus se curvam humilhados perante a tremenda centralização. E o trágico dramaturgo que quisesse representar a indomabilidade mortal com a mais plena nitidez e pura retidão não deveria jamais esquecer esse fato ao qual fiz alusão, incidentalmente tão importante para sua arte.
Mas Ahab, meu Capitão de Nantucket, ainda se move diante de mim com toda sua austeridade e cólera; e, nesse episódio de Reis e Imperadores, não devo ocultar que tenho de me satisfazer com um velho e pobre pescador de baleias como ele; por isso, toda a pompa e circunstância majestática me são negadas. Ó, Ahab! Aquilo que é grandioso em ti deve ser arrancado aos céus, pescado nas profundezas e representado no ar incorpóreo!
Herman Melville, in Moby Dick

25/11/2017

Os especialistas


Antes da partida, os comentaristas e os cronistas formulam suas perguntas desconcertantes:
Dispostos a ganhar?
E obtêm respostas assombrosas:
Faremos todo o possível para obter a vitória.
Depois, os locutores tomam a palavra. Os da televisão acompanham as imagens, mas sabem muito bem que não podem competir com elas. Os do rádio, ao contrário, não são recomendados para cardíacos: esses mestres do suspense correm mais que os jogadores e mais que a própria bola, e em ritmo de vertigem narram uma partida que pode não ter muita relação com o que se está olhando. Nessa catarata de palavras, passa roçando o travessão o disparo que se vê roçando o mais alto céu, e corre iminente perigo de gol a meta onde uma aranha tece sua teia, de trave a trave, enquanto o goleiro boceja.
Quando conclui a vibrante jornada no colosso de cimento, chega a vez dos comentaristas. Antes os comentaristas interromperam várias vezes a transmissão da partida, para indicar aos jogadores o que deviam fazer, mas eles não puderam escutá-los porque estavam ocupados em errar. Estes ideólogos da WM contra a MW, que é a mesma coisa mas ao contrário, usam uma linguagem onde a erudição científica oscila entre a propaganda bélica e o êxtase lírico. E falam sempre no plural, porque são muitos.
Eduardo Galeano, in Futebol ao sol e à sombra

Correndo risco

Quem na verdade risca nosso destino?
Estará Deus por trás de tudo isso?
Com Bic?
Grafite?
Pintando oito vezes o teu nome na
Pedra da solidão?
Vejo tanto lirismo por trás dos teus óculos.
Será Deus daltônico?
Talvez esteja aí o mistério de tantas óticas
Na Conde da Boa Vista.
Miró da Muribeca

Do habitual

Uma importante variedade do prazer e, com isso, fonte da moralidade, provém do hábito. O usual faz-se mais facilmente, melhor, portanto, com mais agrado, sente-se nisso um prazer e sabe-se, por experiência, que o habitual deu bom resultado, daí é útil; um costume, com o qual se pode viver, está provado que é salutar, proveitoso, ao contrário de todas as tentativas novas, ainda não comprovadas. O costume é, por conseguinte, a união do agradável e do útil; além disso, não exige reflexão. Assim que o homem pode exercer coação, exerce-a para impor e introduzir os seus costumes, pois para ele, eles são a comprovada sabedoria prática. De igual modo, uma comunidade de indivíduos obriga cada um deles ao mesmo costume.
Aqui está a conclusão errada: porque uma pessoa se sente bem com um costume ou, pelo menos, porque por intermédio do mesmo assegura a sua existência, então esse costume é necessário, pois passa por ser a única possibilidade de uma pessoa se conseguir sentir bem; o agrado da vida parece emanar exclusivamente dele. Esta concepção do habitual como uma condição da existência é aplicada até aos mais pequenos pormenores do costume: dado que o conhecimento da verdadeira causalidade é muito escasso entre os povos e as civilizações que se encontram a um nível baixo, vela-se, pois, com supersticioso receio, por que tudo continue a seguir com o mesmo andamento; mesmo quando o costume é difícil, austero, incômodo, é conservado, devido à sua utilidade aparentemente superior. Não se sabe que o mesmo grau de bem-estar também pode existir com outros costumes e que até é possível alcançar graus mais elevados. Mas aquilo que se percebe bem é que todos os costumes, até os mais austeros, com o tempo se tornam mais agradáveis e suaves e que até o modo de vida mais severo se pode tornar um hábito e, portanto, um prazer.
Friedrich Nietzsche, in Humano, demasiado humano

Saudade

Saudade é amar um passado que ainda não passou. É recusar o presente que nos magoa. É não ver o futuro que nos convida...”
Pablo Neruda

Lisboa


Uma outra vida à espera no cais. Tias engalanadas em lenços de seda e luvas brancas como mãos de porcelana. Vamos lá ser menino com um sorriso que é de cara e não é de mais nada. A viagem chegou ao fim e Lisboa é o fim do mar.
Junto às tias e a esta terra, tudo volta a ser pequenino. O sufixo parece ser anterior às palavras, o menino está cansadinho, a viagem foi boazinha, está tão branquinho, coitadinho. Portugal é assim, diminutivo e manso. O que foi chegando fez-se à escala e por cá ficou, as Indiazinhas, as Americazinhas, os pretitos, pobrezinhos. Os Portugueses não querem nada que não possam meter no bolso. Como é que esta gente descobriu tanto mundo?
Os passageiros descem as escadas e alteram-se a cada passo, passam a ser filhos, sobrinhos, maridos e mães. No barco cada um foi o que quis e pôde, feito à medida de sonhos e frustrações, personagem entre atos, entre o ter partido e o ainda não ter chegado. À saída a vida não permite já devaneios e um nome dito por quem o diz é um grito de realidade.
Fernando não foi nada durante a viagem, apenas olhos de ver e uma cabeça de inventar filosofias. Agora é o sobrinho das tias e dá beijos e abraços. Há um grande conforto no encontrar o que se espera e uma coisa deve ser sempre aquilo que é. Lisboa é Lisboa, as tias são as tias e faz calor porque o Verão ainda não morreu.
A capital é um país de boca aberta para o rio, uma cidade a cantar modas de outro tempo, sempre de outro tempo. Em Portugal inventou-se o viajar no tempo, mas sempre para o passado, sem nunca se sair de onde um dia se partiu.
As ruas passam pela janela do carro, há gente que caminha, gente que vende e gente que leva objetos de um sítio para outro. Há muitos pobres mal vestidos e há também muito ruído de vozes gritadas e rodas na calçada. As tias fazem perguntas que se vão respondendo com sim, não e mais ou menos. As tias têm medo de um silêncio que não existe, são mulheres educadas e boas que penteiam os cabelos de Fernando quando lhes faltam ideias ou palavras.
Os cavalos puxam o carro e Fernando sente-se puxado pelas tias, levado a trote para uma casa que ainda não é sua e nem chegará a ser. Os cavalos e as tias conduzem-lhe o destino sem lhe perguntar nada, é uma surpresa para o menino embrulhada numa rua de Lisboa. As tias são mulheres sérias que lhe imaginam uma vida direita.
A rua das tias tem árvores a todo o comprimento e há beleza nisso, as árvores são próximas do silêncio. Os cavalos param, o carro pára e durante alguns segundos tudo fica tranquilo como um quadro antigo que se pode e deve admirar.
O cocheiro sobe as escadas com a mala apoiada nas costas, seguem-no as tias e depois Fernando que conta os degraus. Habituou-se a medir as distâncias em passos para que o corpo as possa entender. As milhas e os metros são unidades da cabeça, já os passos são quedas pequenas que o corpo aprendeu a aparar. Da rua ao vestíbulo são vinte e oito degraus e duas pernas cansadas de tanta viagem.
A casa cheira a sopa e a alfazema, os móveis têm formas austeras e por todo o lado se encontram rendas e bordados de mulheres sem marido. Fernando senta-se e olha em volta, aturdido. Bebe da água fresca que lhe trazem e permanece imóvel e tímido à espera de que alguém diga alguma coisa. As tias sorriem porque estão contentes e estão em casa e Fernando sorri também.
Nuno Camarneiro, in No meu peito não cabem pássaros

Adeus aos corações que aguentaram o tranco

Com a nova ortografia da Língua Portuguesa, dei um triste adeus aos tremas e a algumas palavras que levavam acento. Vou sentir falta da velha ortografia, uma falta nada nostálgica, mas visual.
O voo, sem o circunflexo, parece que ficou mais raso e pesado; lembra o voo de um inhambu, essa ave grande e pesada e desajeitada que, para sair do chão, bate asas com estardalhaço, como se fosse uma bandeira ao vento.
E o que dizer da nova “idéia”? Sem o acento agudo, tornou-se grave, fechada e sugere uma pronúncia mais lusitana. Lamento a nudez de ideia, como lamento também a nudez da palavra jiboia, que perdeu o acento espetado no centro do corpo.
E os tremas, esses dois pontinhos suspensos, olhinhos fixos que davam tanta graça e elegância à letra u?
Tantos corações que “agüentaram” o tranco por toda uma vida agora vão ter que suportar emoções, dissabores e adversidades sem o trema. Eu gostava desses pontinhos gêmeos que davam um encanto visual à palavra “tranqüilo”. Gostava também das mãos de minha avó, mãos que passavam unguento nas costas dos netos durante as noites úmidas de Manaus. Com ou sem trema, o unguento ainda existe, mas as mãos da avó sumiram e apenas emitem sinais na minha memória. Espero que aquelas noites não sejam molhadas de tanta humidade , tomara que as noites e os dias em tempo chuvoso permaneçam úmidos, livres de um h intruso, desnecessário.
Sempre antipatizei com o hífen, esse traço minúsculo que separa duas palavras. Nem todos os hífens foram suprimidos, e a nova regra para o seu uso ainda é nebulosa, como afirmou Evanildo Bechara, um dos nossos lexicógrafos mais doutos. Sei que “segundo-tenente” leva hífen, mas como nomear a condição degradante em que vivem milhões de brasileiros: sub-humana ou subhumana?
Sei também que “ultra-rápido” será grafado “ultrarrápido”. Essa duplicação do r ameaça a prevalência das vogais e lembra uma afirmação de Balzac sobre a língua polonesa: as consoantes odeiam as vogais.

Machado de Assis já não escrevia como Eça de Queirós; aliás, já nem escrevia como os seus contemporâneos do Brasil. O texto do escritor argentino Roberto Arlt não é o castelhano de seus contemporâneos espanhóis. O ritmo, a sonoridade e a sintaxe da prosa de Arlt são outros. E já nem falo do vocabulário do subúrbio de Buenos Aires. Não será necessário mencionar Guimarães Rosa, que inventou uma linguagem quase intraduzível para o mundo.
Para desespero dos editores e revisores, daqui a dez ou quinze anos haverá uma nova reforma ortográfica. Tomara que não padronizem a língua portuguesa, pois a uniformidade seria o fim da picada. O que enriquece nossa língua é justamente o conjunto de diferenças fonéticas e sintáticas da língua portuguesa falada e escrita em vários continentes. A riqueza de uma língua herdada pelos colonizadores reside também na sua inovação e maleabilidade.
As línguas portuguesa e espanhola desta América são línguas transplantadas. Nasceram da mesma semente, mas cresceram como arbustos de outro clima e em situações históricas específicas; de algum modo, esses arbustos são estranhos às sementes de origem.
A jurisprudência e a burocracia podem usar uma ortografia padronizada, mas não os escritores, que são parentes próximos de Caliban, embora devam muito a Próspero. O narrador-onça do relato “Meu tio o Iauaretê” que o diga. Nesse conto de Guimarães Rosa, a prosódia, a sintaxe e o léxico não obedecem a convenções ou normas rígidas. Rosa parece dizer que somos volúveis e inventivos na fala e na escrita.
A reforma ortográfica de 2020 ou 2022 pode suprimir todos os acentos, todos os hífens, pode excluir até o ç, com prejuízo gritante à palavra “caça”. Mas deixem, por favor, o nosso gerúndio. Não estou a pedir muito, pá. Estou pedindo apenas isso: nosso pendor ao movimento e à ação, que nem sempre seguem para a frente. Mas esta não é uma crônica sobre caranguejos.
Milton Hatoum, in Um solitário à espreita

24/11/2017

A provocante Arte de Sidney Amaral

O atleta ou o sonho de kichute (2013), de Sidney Amaral

Suprassumos da quintessência

O papel é curto.
Viver é comprido.
Oculto ou ambíguo,
Tudo o que digo 
tem ultrassentido
Se rio de mim,
me levem a sério.
Ironia estéril?
Vai nesse ínterim,
meu inframistério.
Andar e pensar um pouco,
que só sei pensar andando.
Três passos, e minhas pernas
já estão pensando.
Aonde vão dar estes passos?
Acima, abaixo?
Além? Ou acaso
se desfazem ao mínimo vento
sem deixar nenhum traço?
você está tão longe
que às vezes penso
que nem existo
nem fale em amor
que amor é isto.
Paulo Leminski

Dois no Corcovado

O sol apareceu, como no primeiro dia da Criação. E tudo tinha mesmo ar de primeiro dia da Criação, com o mundo a emergir, hesitante, do caos. Três dias e três noites a tempestade esmigalhara árvores, pedras, casas, caminhos, postes, viadutos, veículos, matara, ferira, enlouquecera. Vistas do alto, as partes esplêndidas da cidade continuavam esplêndidas, mas entre elas as marcas de destruição exibiam-se como chagas de gigante. Os homens entreolharam-se. Estavam salvos. Salvos e ilhados no alto do Corcovado.
A estrada tinha acabado, o telefone tinha acabado, a energia tinha acabado, e, por azar, não havia rádio de pilha para pegar notícias. Decerto, lá embaixo providenciavam a recuperação das estradas, mas quando se lembrariam deles, pequena fração humana junto da estátua? Daí, lá tem bar, um bar dispõe de lataria e garrafas para um ano. Não, um ano é demais, até uma hora é demais para eles que passaram meia semana isolados e fustigados pelo aguaceiro entre céu e terra.
Os mais moços não quiseram esperar, foram abrir caminho a golpes de imprudência. Mocidade pode mais o impossível do que o possível — e descer naquelas condições era mesmo coisa de doido. Com certeza chegaram a salvamento, como acontece aos doidos. Os que ficaram sentiram inveja e despeito. A turma de trabalhadores não vinha remover as barreiras caídas. O dia passou. A noite foi inquieta. Parentes lá embaixo esperavam aflitos, se é que não tinham morrido.
A mais bela paisagem do mundo — dizem os cartazes de turismo; eles também achavam que sim, mas como suportá-la na manhã seguinte, se a vista aumentava a angústia, pela impossibilidade de alcançar aqueles sítios, pura miragem?
Evém um helicóptero! — gritou alguém, e veio mesmo, mas passou sem pousar; ia revezar a turma da torre da radiopatrulha, mais adiante. O pessoal do Cristo que se pegasse com o Cristo, a cuja sombra trabalha — pensariam talvez as pessoas que, embaixo, cuidavam de tudo.
Dos dez que ganham a vida na montanha, seis já tinham descido. Os quatro restantes, enervados, não tinham mais de que conversar. O sol brilhando, a cidade se refazendo, eles presos ali, prisão sem grade, à espera de serem lembrados. O pico virou ilha, tudo mais era oceano sem navio.
Dois não aguentaram mais; despediram-se como presidiários antes de tentar fuga. Prometeram levar notícias dos que ficaram: o gerente e o garçom do bar.
Estes, por acaso, moram no mesmo subúrbio: Cachambi. Olham sempre na mesma direção, como se, por absurdo, quisessem distinguir o aceno de mão longínqua. Isto os reúne mais; desfaz um vínculo e cria outro, espontâneo. O gerente não é mais um velho patrão, o outro não é mais empregado. Vivem uma só experiência, fora das leis de trabalho. E se o garçom tentasse descer? Ainda é forte, pode tentar. “Você não tem obrigação de me fazer companhia.” Mas ele não tenta, para não abandonar o outro: “Não iria deixar o senhor sozinho”. O gerente nunca imaginara ouvir uma coisa dessas. O próprio garçom ficou espantado depois que a disse. Era pra valer. Amanhã ou depois serão recolhidos — sabemos nós, não eles. Tempo não se mede pelo relógio, mas pelo vácuo de comunicação, pela expectativa sem segurança. E nessa situação, insignificante para nós, ilimitada para eles, dois homens descobrem-se um ao outro.
Carlos Drummond de Andrade, in 70 historinhas

Um Café Lá em Casa com Paulo André Tavares e Nelson Faria

Fernando Pessoa me ajudando

Noto uma coisa extremamente desagradável. Estas coisas que ando escrevendo aqui não são, creio, propriamente crônicas, mas agora entendo os nossos melhores cronistas. Porque eles assinam, não conseguem escapar de se revelar. Até certo ponto nós os conhecemos intimamente. E quanto a mim, isto me desagrada. Na literatura de livros permaneço anônima e discreta. Nesta coluna estou de algum modo me dando a conhecer. Perco minha intimidade secreta? Mas que fazer? É que escrevo ao correr da máquina e, quando vejo, revelei certa parte minha. Acho que se escrever sobre o problema da superprodução do café no Brasil terminarei sendo pessoal. Daqui em breve serei popular? Isso me assusta. Vou ver o que posso fazer, se é que posso. O que me consola é a frase de Fernando Pessoa que li citada: “Falar é o modo mais simples de nos tornarmos desconhecidos.”
Clarice Lispector, in Aprendendo a viver