26/12/2016

Livre, ou não

Para a realidade humana, ser é escolher-se: nada lhe vem de fora, nem tão-pouco de dentro, que possa receber ou aceitar. Está inteiramente abandonada, sem auxílio de nenhuma espécie, à insustentável necessidade de se fazer ser até ao mais ínfimo pormenor. Assim, a liberdade não é um ser: é o ser do homem, quer dizer, o seu nada de ser. (...) O homem não pode ser ora livre, ora escravo; ele é inteiramente e sempre livre, ou não é.
Jean-Paul Sartre, in O Ser e o Nada

Tó Brandileone e Zé Luis Nascimento - O Agora

Esta gente

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo.
Sophia de Mello Breyner Andresen

Babel

A Torre de Babel (1563), de Pieter Bruegel

Deus sabotou a construção da Torre de Babel simplesmente porque não gostava de espigões, ou arranha-céus, como poeticamente eram denominados em tempos que não vão longe. Hoje, basta o pejorativo de espigões para ver-se o quanto os abominamos — com exceção dos construtores — estranho sinônimo dos demolidores da beleza e da comodidade do mundo. Era tão bom viver à flor da terra...
Mas parece que eles, os construtores, andaram lendo por demais as novelas de ficção científica. Tudo são elevados ou subterrâneos. Ou anda-se minhocando por debaixo da terra ou pairando em alturas. Se ao menos fossem os jardins suspensos da Babilônia... Onde está o nosso querido chão humano? Tudo é tão desnatural!
Quando ainda há pouco estive no Rio, encaminharam-nos diretamente da porta do avião para um túnel, ao fim do qual aconteceu uma escada rolante, depois mais um túnel e mais uma escada, depois a espera de que as nossas bagagens passassem por nós. Era o Rio aquilo?
Não: parecia que estávamos dentro de um conto de Kafka. No hotel perguntou-me o gerente se eu preferia um quarto da frente ou dos fundos. Escolhi um dos fundos porque haveria menos barulho. Engano d’alma! Lá nos fundos havia uma britadeira que trabalhou toda a noite. E, no regresso, puxa! Quanta fila de espera e quanto guichê e quanto elevador! E ainda os cariocas indagavam se eu não achava uma maravilha aquele novo aeroporto... Eu achava a coisa um pesadelo técnico.
A sorte é que andei autografando no Largo do Boticário — um oásis no Rio de hoje, com seus casarões coloniais, com seus lampiões — e tudo aquilo reconstruído ou ressuscitado pela senhora proprietária do local — uma construtora inteligente.
Mário Quintana, in A vaca e o hipogrifo

Diminuindo a nossa franja da vida

Usamos a razão para destruir, matar, diminuir a nossa franja de vida. E é essa espécie de indecência do comportamento humano, orientada pela exploração do outro, da sede do lucro, da ambição do poder, que conduz à indiferença e ao alheamento. Ao desprezo do outro. Se a ética não governa a razão, a razão está-se nas tintas.
José Saramago, in As palavras de Saramago

Leitura como alucinação aural

As palavras escritas, escritas, desde os tempos das primeiras tabuletas sumérias, destinavam-se a ser pronunciadas em voz alta, uma vez que os signos traziam implícito, como se fosse sua alma, um som particular. A frase clássica scripta manent, verba volant - que veio a significar em nossa época, “a escrita fica, as palavras voam” - costumava expressar exatamente o contrário: foi cunhada como elogio à palavra dita em voz alta, que tem asas e pode voar, em comparação com a palavra silenciosa na página, que está parada, morta. Diante de um texto escrito, o leitor tem o dever de emprestar voz às letras silenciosas, a scripta, e permitir que elas se tornem, na delicada distinção bíblica, verba , palavras faladas - espírito. As línguas primordiais da Bíblia - aramaico e hebreu - não fazem diferença entre o ato de ler e o ato de falar; dão a ambos o mesmo nome.
Nos textos sagrados, nos quais cada letra e o número de letras e sua ordem eram ditados pela divindade, a compreensão plena exigia não apenas os olhos, mas também o resto do corpo: balançar na cadência das frases e levar aos lábios as palavras sagradas, de tal forma que nada do divino possa se perder na leitura. Minha avó lia o Velho Testamento dessa maneira, pronunciando as palavras e movendo o corpo de um lado para o outro, ao ritmo da prece. Posso vê-la em seu apartamento sombrio no Barrio del Once, o bairro judeu de Buenos Aires, entoando as palavras antigas do único livro da casa, a Bíblia, cuja capa preta lembrava a textura de sua própria tez pálida amolecida pela idade. Também entre os muçulmanos o corpo inteiro participa da leitura sagrada. No islã, saber se um texto sagrado é para ser ouvido ou lido é uma questão de importância essencial. O erudito do século IX Ahmad ibn Muhammad ibn Hanbal expôs o problema nos seguintes termos: uma vez que o Corão original - a Mãe do Livro, a Palavra de Deus tal como revelada por Alá a Maomé - é incriado e eterno, torna-se ele presente apenas ao ser dito na oração ou ele se multiplica na página examinada pelo olho para ler, copiada por diferentes mãos ao longo das eras humanas? Não sabemos se obteve resposta, porque em 833 tal questão valeu-lhe a condenação do mihnah, ou inquisição islâmica, instituída pelos califas abássidas. Três séculos depois, o estudioso de leis e teólogo Abu Hamid Muhammad al-Ghazali estabeleceu uma série de regras para estudar o Corão, segundo as quais ler e ouvir o texto lido tornaram-se parte do mesmo ato sagrado. A regra número cinco estabelecida que o leitor deve seguir o texto lentamente e sem nenhum atropelo a fim de refletir sobre o que está lendo. A regra número seis mandava “chorar”. Se não consegues chorar naturalmente, então força-te a chorar, pois o pesar deve estar implícito na apreensão das palavras sagradas. A regra número nove exigia que O Corão fosse lido “alto o suficiente para que o leitor o escutasse, porque ler significa distinguir entre sons”, afastando assim as distrações do mundo externo.
O psicólogo americano Julian Jaynes, em um estudo controvertido sobre a origem da consciência, afirmou que a mente bicameral – na qual um dos hemisférios torna-se especializado na leitura silenciosa – é um desenvolvimento tardio da evolução da humanidade e que o processo pelo qual essa função se desenvolve ainda está mudando.
Ele sugeriu que a leitura possa ter sido inicialmente uma percepção aural, e não visual. “A leitura no terceiro milênio antes de Cristo pode, portanto, ter sido uma questão de ouvir o cuneiforme, isto é, uma alucinação do discurso a partir do movimento do olhar para suas figuras-símbolos, em vez de uma leitura visual de sílabas, no nosso sentido.”
Essa “alucinação aural” pode ter sido verdade também no tempo de Agostinho, quando as palavras na página não apenas se “tornavam” sons quando os olhos as percebiam: elas eram sons. A criança que cantava a canção reveladora no jardim vizinho, tal como Agostinho antes dela, tinha certamente aprendido que ideias, descrições, histórias verdadeiras e inventadas, qualquer coisa que a mente pudesse processar possuía uma realidade física em sons, sendo simplesmente lógico que esses sons, representados na tabuleta, rolo ou página manuscrita, fossem pronunciados pela língua quando reconhecidos pelo olho. Ler era uma forma de pensar e falar. Cícero, consolando os surdos em um de seus ensaios morais, escreveu: “Se gostam de recitações, deveriam primeiro lembrar que, antes da invenção dos poemas, muitos homens sábios viviam felizes; e, em segundo lugar que se pode ter prazer muito maior lendo e não ouvindo esses poemas”. Mas isso é apenas um prêmio de consolação oferecido por um filósofo que pode se regalar com o som da palavra escrita. Para Agostinho, como para Cícero, ler era uma habilidade oral: oratória, no caso de Cícero; pregação, no de Agostinho.
Alberto Manguel, in Uma história da leitura

25/12/2016

As luvas

 Só ontem o descobri, atirado atrás de uns livros, o pequeno par de luvas pretas. Fiquei um instante a imaginar de quem poderia ser, e logo concluí que sua dona é aquela mulher miúda, de risada clara e brusca e lágrimas fáceis, que veio duas vezes, nunca me quis dar o telefone nem o endereço, e sumiu há mais de uma semana. Sim, suas mãos são assim pequenas, e na última noite ela estava vestida de escuro, os cabelos enrolados no alto da cabeça. Revejo-a se penteando, com três grampos na boca; lembro-me de seu riso e também de suas palavras de melancolia no fim da aventura banal. Eu quis ser cavalheiro, sair, levá-la em casa. Ela aceitou apenas que eu chamasse um táxi pelo telefone, e que a ajudasse a vestir o capote; disse que voltaria...
Talvez telefone outro dia, e volte; talvez, como aconteceu uma vez, entre suas duas visitas, fique aborrecida por me telefonar em uma tarde em que tenho algum compromisso para a noite. “A verdade” — me lembro dessas palavras de uma tristeza banal — “é que a gente procura uma aventura assim para ter uma coisa bem fugaz, sem compromisso, quase sem sentimento; mas ou acaba decepcionada ou sentimental...” Lembrei-lhe a letra de uma velha música americana: “I am getting sentimental over you.” Ela riu, conhecia a canção, cantarolou-a um instante, e como eu a olhasse com um grande carinho meio de brincadeira, meio a sério, me declarou que eu não era obrigado a fazer essas caras para ela, e dispensava perfeitamente qualquer gentileza e me detestaria se eu quisesse ser falso e gentil. Juntou, quase nervosa, que também não lhe importava o que eu pudesse pensar a seu respeito; e que mesmo que pensasse o pior, eu teria razão; que eu tinha todo o direito de achá-la fácil e leviana, mas só não tinha o direito de tentar fazê-la de tola. Que mania que os homens têm...
Interrompi-a. Que ela, pelo amor de Deus, não me falasse mal dos homens; que isso era muito feio; e que a seu respeito eu achava apenas que era uma flor, um anjo “y muy buena moza”.
Meu bom humor fê-la sorrir. Na hora de sair disse que ia me dizer uma coisa, depois resolveu não dizer. Não insisti. “Telefono.” E não a vi mais.
Com certeza não a verei mais, e não ficaremos os dois nem decepcionados nem sentimentais, apenas com uma vaga e suave lembrança um do outro, lembrança que um dia se perderá.
Pego as pequenas luvas pretas. Têm um ar abandonado e infeliz, como toda luva esquecida pelas mãos. Os dedos assumem gestos sem alma e todavia tristes. É extraordinário como parecem coisas mortas e ao mesmo tempo ainda carregadas de toda a tristeza da vida. A parte do dorso é lisa; mas pelo lado de dentro ficaram marcadas todas as dobras das falanges, ficaram impressas, como em Verônica, as fisionomias dos dedos. É um objeto inerte e lamentável, mas tem as rugas da vida, e também um vago perfume.
O telefone chama. Vou atender, levo maquinalmente na mão o par de luvas. A voz é de mulher e hesito um instante, comovido. Mas é apenas a senhora de um amigo que me lembra o convite para o jantar. Visto-me devagar, e quando vou saindo vejo sobre a mesa o par de luvas. Seguro-o um instante como se tivesse na mão um problema; e o atiro outra vez para trás dos livros, onde estavam antes.
Rubem Braga, in Ai de ti, Copacabana

Noites Cariocas - Rogério Caetano e Hamilton de Holanda

Raça detestável!

Já notei que a maior parte dos homens se sente açulada e indignada quando, em pleno combate moral, recorremos à ternura e ao afeto. É vê-los feras amansadas e apanhadas de surpresa assim que recorremos à violência ou à dureza. Raça detestável! Tal preceito mantém-se praticamente inalterável no que respeita ao amor.
Realidade estranha e deplorável, pois, em muitos casos, é igualmente aplicável à amizade; realidade pavorosa, desesperante, mas inevitável, necessária à subsistência das nossas sociedades, dos governos mais democráticos aos mais despóticos. Quando não é refreado nem reprimido, o homem aproveita imediatamente para cometer abusos. Despreza quem o receia e maltrata quem o ama; receia quem o despreza e ama quem o maltrata.
George Sand, in Diário Íntimo

Alguns preferem o nada à criação

A angústia invade quer o inquieto, exclusivamente deslumbrado por aquilo que arde com uma luz vaga, quer o poeta cheio de amor pelos poemas que nunca escreveu o seu, quer a mulher apaixonada pelo amor, mas incapaz de devir por não saber escolher. Eles bem sabem que eu os curaria da angústia se lhes permitisse esse dom que exige sacrifícios e escolha e esquecimento do universo. Porque determinada flor é, em primeiro lugar, uma renúncia a todas as outras flores. E, no entanto, só com esta condição é bela. É o que acontece com o objeto da troca. E o insensato, que vem censurar a esta velha o seu bordado, sob o pretexto de que ela poderia ter tecido outra coisa, demonstra com isso que prefere o nada à criação.
Antoine de Saint-Exupéry, in Cidadela

O atraso pontual

Ontens e hojes, amores e ódio,
adianta consultar o relógio?
Nada poderia ter sido feito,
a não ser no tempo em que foi lógico.
Ninguém nunca chegou atrasado.
Bênçãos e desgraças
vêm sempre no horário.
Tudo o mais é plágio.
Acaso é este encontro
entre o tempo e o espaço
mais do que um sonho que eu conto
ou mais um poema que eu faço?
Nem tudo envelhece.
O brilho púrpura,
sob a água pura,
ah, se eu pudesse.
Nem tudo,
sentir fica.
Fica como fica a magnólia,
magnífica.
Paulo Leminski

Jaguar: sempre atual


Os avós de Tom

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Os dois velhinhos esforçavam-se cada qual por chegar mais depressa à porta da casa. Disputavam por qualquer motivo; sentiam o prazer e a necessidade da disputa.
Atrás deles, movendo-se com passos iguais e vagarosos, vinham o velho Tom Joad e seu filho Noah, o primogênito, alto, e tranquilo e extravagante, que andava sempre com um aspecto de pasmo nas faces, calmo e perplexo. Nunca esteve irritado, colérico, na vida. Olhava admirado as pessoas encolerizadas, como uma pessoa normal olha um louco. Noah movia-se devagar, raramente falava, e quando o fazia era com tal lentidão que os que não o conheciam bem julgavam-no um idiota. Era pouco orgulhoso, e não tinha problemas sexuais. Trabalhava e dormia seguindo um ritmo curioso que, não obstante, satisfazia-o. Gostava imensamente de sua gente, mas jamais lhe demonstrava o seu amor. Embora o observador não pudesse dizer por quê, Noah dava a impressão de que era um aleijado; desfigurado do corpo, da cabeça, das pernas ou apenas do espírito, a verdade é que ninguém poderia lhe apontar um membro deformado. O velho Tom Joad pensava que sabia por que Noah era assim, mas o velho Tom Joad tinha vergonha de dizê-lo, e jamais o disse. Na noite em que Noah nasceu, seu pai, apavorado com a distensão das coxas da mulher, sozinho em casa, horrorizado com os gritos agudos do sofrimento dela, ficou louco de apreensão. Usando suas próprias mãos, seus dedos fortes como fórceps, puxou e deu uma torção na criança. A parteira, chegando tarde demais, foi encontrar a cabeça do menino fora da posição normal, o pescoço distendido, o corpo torcido; e então ela recolocou-a no lugar e moldou com as mãos o corpinho frágil. O velho Tom Joad sempre se lembrava dessa cena e sentia vergonha ao recordá-la. E ele era mais carinhoso com Noah que com os outros filhos. Na face larga, olhos muito apartados um do outro, queixo alongado e frágil, o velho pensava ver ainda a figurinha arqueada e retorcida do recém-nascido. Noah poderia fazer o que quisesse, sabia ler e escrever, trabalhar ou ficar cismando o que quisesse, mas ele jamais parecia dar importância a essas coisas; não se importava com coisa alguma, não o atraía nada do que as outras pessoas precisavam e queriam. Ele vivia enclausurado numa torre de silêncio, de onde olhava para fora com olhos calmos. Era um estranho para todos, mas não podia ser considerado um solitário.
Os quatro vinham chegando pelo terreiro e o avô perguntava:
Onde tá ele? Diabo, onde é que ele está?
E seus dedos exploravam os botões da calça e esqueciam-nos para remexerem nos bolsos. Depois, ele viu seu neto, Tom, parado à porta. Estacou e fez com que os outros, que vinham atrás dele, também estacassem. Seus olhinhos brilhavam maliciosos.
Vejam só — disse. — Um que teve engaiolado. Fazia tempo que um Joad não ia na cadeia. — Seus pensamentos deram uma reviravolta. — Prenderam ele injustamente. Fez o que eu também fazia. Esses filho da puta não tinha razão de prender ele. — Seus pensamentos deram novo salto. — E o velho Turnbull, esse zorrilho fedorento, pensando como ia te matar quando ocê saísse da prisão! Diss’que tinha sangue dos Hatfield. Bem, eu também não deixei ele sem resposta. Disse assim pra ele: olhe, não se meta com os Joad, ouviu? Eu tenho é sangue dos MacCoy, tá ouvindo? Meta-se com o Tommy e ocê vai se arrepender. Pego no rifle e te dou é um tiro no rabo. E aí ele ficou com medo.
A avó, sem prestar atenção às palavras do avô, continuou a berrar: “Com Deus, pela vitória!”
O avô chegou-se a Tom e deu-lhe um tapinha no peito, seus olhinhos contemplando-o com afeto e orgulho.
Como vai, Tommy?
Tô muito bem — disse Tom. — E o senhor?
Cheio de mijo e de vinagre — disse o avô.
Seu pensamento voou outra vez. — É como eu disse, eles não iam ter o Tommy engaiolado por muito tempo. Sempre falei: o Tommy vai dar o fora daquela cadeia, vocês vão ver, vai sair que nem um touro derrubando uma cerca. E ocê fez mesmo isso. Bem, sai daí que eu tô com fome. — Foi entrando, sentou-se à mesa, encheu o prato com carne de porco, pegou duas grossas fatias de pão e botou-as também no prato e espargiu sobre tudo isso o molho gorduroso. E antes que os outros começassem a comer, já ele estava de boca cheia.
Tom fez-lhe um trejeito afetuoso.
Esse velho não vale nada, mesmo — disse. Mas o avô estava com a boca tão cheia que nem sequer gaguejar ele podia, mas seus olhos maus sorriram e ele meneou a cabeça violentamente.
A avó disse pomposamente:
Nunca existiu homem mais perverso que o teu avô, Tom. Ele vai direitinho pro inferno, que Deus seja louvado. Agora até automóvel ele quer guiar, mas isso eu não deixo — falou com desdém.
O avô engasgou-se, deixou cair uma boa porção de comida mastigada nas pernas e tossiu fracamente.
A avó sorriu para Tom.
É um trapalhão, né? — observou, com inflexão satisfeita.
Noah estava parado no patamar e olhava Tom, e seus olhos apartados pareciam não o ver. Suas feições eram inexpressivas. Tom disse:
Como é que ocê vai, Noah?
Bem — falou Noah. — E ocê, como vai? — Não era grande coisa, mas era algo confortante.
A mãe enxotou as moscas de sobre o prato de molho de carne.
Não tem lugar pra todo mundo sentar — disse. — É melhor cada um encher o prato e sentar onde puder. No quintal ou em outro lugar qualquer.
John Steinbeck, in As vinhas da ira

24/12/2016

Dai-me a verdade

Mais que amor, dinheiro e fama, dai-me a verdade. Sentei-me a uma mesa onde a comida era fina, os vinhos abundantes e o serviço impecável, mas onde faltavam sinceridade e verdade, e com fome me fui embora do inóspito recinto. A hospitalidade era fria como os sorvetes. Pensei que nem havia necessidade de gelo para conservá-los. Gabaram-me a idade do vinho e a fama da safra, mas eu pensava num vinho muito mais velho, mais novo e mais puro, de uma safra mais gloriosa, que eles não tinham e nem sequer podiam comprar.
O estilo, a casa com o terreno em volta e o "entretenimento" não representam nada para mim. Visitei o rei, mas ele deixou-me à espera no vestíbulo, comportando-se como um homem incapaz de hospitalidade. Na minha vizinhança havia um homem que morava no oco de uma árvore e cujas maneiras eram régias. Teria feito bem melhor visitando-o a ele.
Até quando nos sentaremos nos nossos alpendres a praticar virtudes ociosas e bolorentas, que qualquer trabalho tornaria descabidas? É como se alguém começasse o dia com paciência, contratasse alguém para lhe sachar as batatas, e de tarde saísse para praticar a mansidão e a caridade cristãs com bondade premeditada!
Henry David Thoreau, in Walden

Dani Black - Bem Mais

Preguiça

Perguntaram à preguiça:
Preguiça, você quer mingau?
Ela disse bem devagar:
Queeeeero.
Então vem buscar.
Não quero mais nããão…
Num dia de chuva dá muita preguiça. Quase não posso escrever. Foi na viagem para um fim de semana em Friburgo. Chovia e na Parada Modelo vi as preguiças. Era demais para mim e me deu um sono daqueles. Vi as preguiças ensopadas mas ali imóveis, morrendo de preguiça. Um cheiro bom de bicho vinha delas. Elas têm cor de pedra, quase cor de nada.
Friburgo é uma coisa. E a granja onde ficamos tem de tudo: cavalos, galinhas, jabuticabeiras, margaridas, bananeiras, limões, rosas. Tem forno onde se fazia pão. É um verdadeiro sítio. E a cidade tem um ar fino. Fui à rodoviária onde comprei o Jornal do Brasil e li Drummond. Comi steak au poivre feito em casa. Só que em vez do steak era pernil de porco. Isso no sábado que é o meu dia. De sexta para sábado sonhei tão verdadeiro que me levantei e me vesti e me pintei. Quando descobri que era sonho voltei para a cama, antes comendo porque estava com fome brava. Mas era homem com que sonhei, mulher que sou. Sonhei que tinha encontro marcado e não queria me atrasar. Estou a ver que quase conto o sonho, mas não posso. É íntimo demais.
Já vi vacas e um frango. De manhã comi ovos com bacon. Friburgo me fascina. Tem casas cor-de-rosa e azul. A natureza fica tão tranquila quando chove! Lembro-me das preguiças que continuam no mesmo lugar, imóveis e ensopadas só para não terem o trabalho de mudar. Eu também. Hoje é o meu dia de preguiça. Mas não vou dormir: quero usufruir da granja e dos animais. O tempo aqui parou. Eu queria que o fogão ainda funcionasse e se fizesse pão. Vi um cafeeiro e por isso tomei café. O mundo está louco: isso eu vi no Jornal do Brasil. E a Feira da Providência perdi por Friburgo. Esqueci de dizer que na casa tinha cachorro: cruza de galgo com vira-lata, muito manso e alegre. Vou interromper para tomar outro café. Volto já.
Voltei. Meu rádio de pilha está ligado para Mozart que é alegre. Vi um cavalo branco inteiramente nu. Parou de chover. É hora de trabalhar. Mas nada tenho a dizer. O que dizer, meu Deus? Vou falar que colhi uma margarida e coloquei-a no meu casaco de couro preto: oh, fiquei linda. Estou com vontade de rever as preguiças e sentir o cheiro morno delas. É outubro, mês neutro. Setembro é mês alegre como maio. O cavalo só volve para dormir e eu também: resolvi que depois do almoço vou dormir. Dormir é bom – que o digam as preguiças. Meio-dia vou almoçar e ler o Complexo de Portnoy, livro corajoso. E no meio adormeço.
Quando acordar vou à cidade de novo. Eu queria visitar a Faculdade de Letras. Mas não parece ter jeito não. Estou ligada a essa faculdade e a Marly: grande poeta e pessoa das mais cultas que conheço. Quero ir à cidade e estou com sono. Quero Coca-Cola para tirar o sono. Quem me ensinou que Coca-Cola com café tira o sono foi João Henrique. Diz que é chofer de caminhão que toma: João Henrique me ensinou muita coisa. Sou grata a ele. Agora me lembro que Míriam Bloch também me disse.
Fui à cidade. Tinha um ajuntamento grande de pessoas. Perguntei o que era. Informaram-me que estavam à procura de um esfaqueador que matou seis mulheres e estava fugindo no morro. Tive medo. Não quero morrer. Morrer é ruim.
Fui não sei para que para a Faculdade de Letras. Não quis visitar a biblioteca. Não sou culta. A freira que me atendeu não sabia de nada. Tinha uma aula de História da Arte. Não quis assistir: Chega de arte, embora eu seja artista. Tenho vergonha de ser escritora – não dá pé. Parece demais com coisa mental e não intuitiva.
É lindo o anoitecer em Friburgo. Ouço também um batuque que vem de uma vendinha que vende cachaça e alegra os homens. Aqui tudo é alegre, menos o esfaqueamento. Será que a polícia já prendeu o esfaqueador de mulheres? Só tomara.
A natureza é tão preguiçosa. Os cavalos continuam comendo. Agora estão relinchando. Ouço também os grilos. Ouço flauta doce, não sei se Bach ou Vivaldi. São quatro horas da madrugada com silêncio. Só agora estou ouvindo os sapos coaxarem. Já tomei café. Estou fumando. Essa casa não tem quadros. Cabo Frio tinha: pudera: Scliar, João Henrique, José de Dome. Scliar gosta de ocre, João Henrique gosta de verde, José de Dome de amarelo. Mas aqui tem uma sopeira muito bonita. Faz-me falta a máquina de escrever. Tenho duas: uma Olivetti e uma Olympia. Prefiro a Olivetti que é mais dura e resiste aos dedos. Todos estão dormindo. Menos eu. Tem aqui uma ferradura para dar sorte. Os passarinhos com fome piando. Parece mentira de tão bom que está aqui. Tenho um livro de Simenon – sou doida por ele: o melhor é ler em francês, mas o que tenho aqui é português. Vou citar um trecho: “Um largo feixe de luz atravessa o quarto, iluminando uma fina poeira, como se de repente se descobrisse a vida íntima do ar.” Não é bom?
Clarice Lispector, in Aprendendo a viver

A religião mais verdadeira é a sua

Nunca me esquecerei do dia em que, dizendo-lhe “Mas, senhor padre Manuel, a verdade, a verdade, acima de tudo”, ele, a tremer, sussurrou-me ao ouvido - e isso apesar de estarmos sozinhos no meio do campo: - “A verdade? A verdade, Lázaro, é porventura uma coisa terrível, uma coisa intolerável, uma coisa mortal; as pessoas simples não conseguiriam viver com ela.”
E porque é que ma deixa vislumbrar agora aqui, como confissão?”, perguntei-lhe. E ele respondeu: “Porque se não atormentar-me-ia tanto, tanto, que eu acabaria por gritá-lo no meio da praça, e isso nunca, nunca, nunca. Eu estou cá para fazer viver as almas dos meus paroquianos, para os fazer felizes, para fazer com que se sonhem imortais e não para os matar.
O que aqui faz falta é que eles vivam sãmente, que vivam em unanimidade de sentido, e com a verdade, com a minha verdade, não viveriam. Que vivam. E é isto que a Igreja faz, fazer com que vivam. Religião verdadeira? Todas as religiões são verdadeiras enquanto fazem viver espiritualmente os povos que as professam, enquanto os consolam de terem tido de nascer para morrer, e para cada povo a religião mais verdadeira é a sua, a que ele fez. E a minha? A minha é consolar-me em consolar os outros, embora o consolo que eu lhes dê não seja o meu.”
Nunca esquecerei estas suas palavras.
Miguel de Unamuno, in São Manuel Bom, Mártir

Pós

os homens as mulheres nascem crescem
veem como os outros nascem
como desaparecem
desse mistério brota um cemitério
enterram carcaças depois esquecem

os homens as mulheres nascem crescem
veem como os outros nascem
como desaparecem
registram registram com o celular
fazem planilhas depois esquecem

torcem pra que demore sua vez
os homens as mulheres
não sabem o que vem depois
então fazem uma pós

os homens as mulheres nascem crescem
sabem que um dia nascem
noutro desaparecem
mas nem por isso se esquecem
de apagar o gás e a luz
Angélica Freitas

Segurança

O ponto de venda mais forte do condomínio era a sua segurança. Havia as belas casas, os jardins, os playgrounds, as piscinas, mas havia, acima de tudo, segurança.
Toda a área era cercada por um muro alto. Havia um portão principal com muitos guardas que controlavam tudo por um circuito fechado de TV Só entravam no condomínio os proprietários e visitantes devidamente identificados e crachados.
Mas os assaltos começaram assim mesmo. Ladrões pulavam os muros e assaltavam as casas.
Os condôminos decidiram colocar torres com guardas ao longo do muro alto. Nos quatro lados. As inspeções tornaram-se mais rigorosas no portão de entrada. Agora não só os visitantes eram obrigados a usar crachá. Os proprietários e seus familiares também. Não passava ninguém pelo portão sem se identificar para a guarda. Nem as babás. Nem os bebês.
Mas os assaltos continuaram.
Decidiram eletrificar os muros. Houve protestos, mas no fim todos concordaram. O mais importante era a segurança. Quem tocasse no fio de alta tensão em cima do muro morreria eletrocutado. Se não morresse, atrairia para o local um batalhão de guardas com ordens de atirar para matar.
Mas os assaltos continuaram.
Grades nas janelas de todas as casas. Era o jeito. Mesmo se os ladrões ultrapassassem os altos muros, e o fio de alta tensão, e as patrulhas, e os cachorros, e a segunda cerca, de arame farpado, erguida dentro do perímetro, não conseguiriam entrar nas casas. Todas as janelas foram engradadas.
Mas os assaltos continuaram.
Foi feito um apelo para que as pessoas saíssem de casa o mínimo possível.
Dois assaltantes tinham entrado no condomínio no banco de trás do carro de um proprietário, com um revólver apontado para a sua nuca. Assaltaram a casa, depois saíram no carro roubado, com crachás roubados. Além do controle das entradas, passou a ser feito um rigoroso controle das saídas.
Para sair, só com um exame demorado do crachá e com autorização expressa da guarda, que não queria conversa nem aceitava suborno.
Mas os assaltos continuaram.
Foi reforçada a guarda. Construíram uma terceira cerca. As famílias de mais posses, com mais coisas para serem roubadas, mudaram-se para uma chamada área de segurança máxima. E foi tomada uma medida extrema. Ninguém pode entrar no condomínio. Ninguém. Visitas, só num local predeterminado pela guarda, sob sua severa vigilância e por curtos períodos.
E ninguém pode sair.
Agora, a segurança é completa. Não tem havido mais assaltos. Ninguém precisa temer pelo seu patrimônio. Os ladrões que passam pela calçada só conseguem espiar através do grande portão de ferro e talvez avistar um ou outro condômino agarrado às grades da sua casa, olhando melancolicamente para a rua.
Mas surgiu outro problema.
As tentativas de fuga. E há motins constantes de condôminos que tentam de qualquer maneira atingir a liberdade.
A guarda tem sido obrigada a agir com energia.
Luís Fernando Veríssimo, in Comédias para se ler na escola

23/12/2016

O homem, um escravo

O que deve um cão a um cão, um cavalo a um cavalo? Nada. Nenhum animal depende do seu semelhante. Tendo porém o homem recebido o raio da Divindade a que se chama razão, qual foi o resultado? Ser escravo em quase toda a terra. Se o mundo fosse o que parece dever ser, isto é, se em toda parte os homens encontrassem subsistência fácil e certa e clima apropriado à sua natureza, impossível teria sido a um homem servir-se de outro. Cobrisse-se o mundo de frutos salutares. Não fosse veículo de doenças e morte o ar que contribui para a existência humana. Prescindisse o homem de outra morada e de outro leito além do dos gansos e cabras monteses, não teriam os Gengis Cãs e Tamerlões vassalos senão os próprios filhos, os quais seriam bastante virtuosos para auxiliá-los na velhice.
No estado natural de que gozam os quadrúpedes, aves e répteis, tão feliz como eles seria o homem, e a dominação, quimera, absurdo em que ninguém pensaria: para quê servidores se não tivésseis necessidade de nenhum serviço? Ainda que passasse pelo espírito de algum indivíduo de bofes tirânicos e braços impacientes por submeter o seu vizinho menos forte que ele, a coisa seria impossível: antes que o opressor tivesse tomado as suas medidas o oprimido estaria a cem léguas de distância. Todos os homens seriam necessariamente iguais, se não tivessem necessidades. A miséria que avassala a nossa espécie subordina o homem ao homem - o verdadeiro mal não é a desigualdade: é a dependência.
Pouco importa chamar-se tal homem Sua Alteza, tal outro Sua Santidade. Duro porém é um servir o outro. Uma família numerosa cultivou um bom terreno. Duas famílias vizinhas têm campos ingratos e rebeldes: impõe-se-lhes servir ou eliminar a família opulenta. Uma das duas famílias indigentes vai oferecer os seus braços à rica para ter pão. A outra vai atacá-la e é derrotada. A família servente é fonte de criados e operários. A família subjugada é fonte de escravos. Impossível, neste mundo miserável, que a sociedade humana não seja dividida em duas classes, uma de opressores, outra de oprimidos. Essas duas classes subdividem-se em mil outras, essas outras num sem número de cambiantes diferentes. Nem todos os oprimidos são absolutamente desgraçados. A maior parte nasce nesse estado, e o trabalho contínuo impede-os de sentir toda a miséria da sua própria situação. Quando a sentem, porém, são guerras, como a do partido popular contra o partido do senado em Roma, as dos camponeses na Alemanha, Inglaterra, França. Mais cedo ou mais tarde todas essas guerras terminam com a submissão do povo, porque os poderosos têm dinheiro e o dinheiro tudo pode no Estado. Digo no Estado, porque o mesmo não se dá de nação para nação. A nação que melhor se servir do ferro sempre subjugará a que, embora mais rica, tiver menos coragem.
Todo o homem nasce com forte inclinação para o domínio, a riqueza, os prazeres e sobretudo para a indolência. Todo o homem portanto quereria estar de posse do dinheiro e das mulheres ou das filhas dos outros, ser-lhes senhor, sujeitá-los a todos os seus caprichos e nada fazer ou pelo menos só fazer coisas muito agradáveis. Vedes que com estas excelentes disposições é tão difícil aos homens ser iguais quanto a dois pregadores ou professores de teologia não se invejarem. Tal como é, é impossível o gênero humano subsistir, a menos que haja uma infinidade de homens úteis que nada possuam. Porque, claro é que um homem satisfeito não deixará a sua terra para vir lavrar a vossa. E se tiverdes necessidade de um par de sapatos, não será um referendário que vo-lo fará. Igualdade é pois a coisa mais natural e ao mesmo tempo a mais quimérica.
Como se excedem em tudo que deles dependa, os homens exageraram essa desigualdade. Pretendeu-se em muitos países proibir aos cidadãos sair do lugar em que a ventura os fizera nascer. O sentido dessa lei é visivelmente: este país é tão mau e tão mal governado que vedamos a todo o indivíduo dele sair, por temor que todos o desertem. Fazei melhor: infundi em todos os vossos súditos o desejo de permanecer no vosso Estado, e aos estrangeiros o desejo de para aí vir. Nos íntimos refolhos do coração todo o homem tem o direito de crer-se de todo o ponto de vista igual aos outros homens. Daí não segue dever o cozinheiro de um cardeal ordenar ao seu senhor que lhe faça o jantar; pode todavia dizer: “Sou tão homem como o meu amo; nasci como ele a chorar; como eu ele morrerá nas mesmas angústias e com as mesmas cerimônias. Temos ambos as mesmas funções animais. Se os turcos se apoderarem de Roma e eu me tornar cardeal e o meu senhor cozinheiro, tomá-lo-ei a meu serviço”. Tudo isso é razoável e justo. Mas, enquanto o grão turco não se assenhorear de Roma, o cozinheiro precisa de cumprir as suas obrigações, ou toda a humanidade se perverteria.
Um homem que não seja cozinheiro de cardeal nem ocupe nenhum cargo no Estado; um particular que nada tenha de seu mas a quem repugne o ser em toda a parte recebido com ar de proteção ou desprezo; um homem que veja que muitos monsignori não têm mais ciência, nem mais espírito, nem mais virtude que ele, e que se enfade de esperar nas suas antecâmaras, que partido deve tomar? O da morte.
Voltaire, in Dicionário Filosófico