23/06/2016

Brio do elefante

É uma desventura para os homens, e uma ventura talvez para os tiranos, que os pobres, os infelizes não tenham o instinto ou o brio do elefante, que não se reproduz na servidão.”
Chamfort

Gonzaguinha & Victor e Leo - Espere por mim, morena

Se ele tivesse nascido mulher

Dos dezesseis irmãos de Benjamin Franklin, Jane é a que mais se parece com ele em talento e força de vontade.
Mas na idade em que Benjamin saiu de casa para abrir seu próprio caminho, Jane casou-se com um seleiro pobre, que a aceitou sem dote, e dez meses depois deu à luz seu primeiro filho. Desde então, durante um quarto de século, Jane teve um filho a cada dois anos. Algumas crianças morreram, e cada morte abriu-lhe um talho no peito. As que viveram exigiram comida, abrigo, instrução e consolo. Jane passou noites a fio ninando os que choravam, lavou montanhas de roupa, banhou montões de crianças, correu do mercado à cozinha, esfregou torres de pratos, ensinou abecedários e ofícios, trabalhou ombro a ombro com o marido na oficina e atendeu os hóspedes cujo aluguel ajudava a encher a panela.
Jane foi esposa devota e viúva exemplar; e quando os filhos já estavam crescidos, encarregou-se dos próprios pais, doentes, de suas filhas solteironas e de seus netos desamparados. Jane jamais conheceu o prazer de se deixar flutuar em um lago, levada à deriva pelo fio de um papagaio, como costuma fazer Benjamin, apesar da idade. Jane nunca teve tempo de pensar, nem se permitiu duvidar.
Benjamin continua sendo um amante fervoroso, mas Jane ignora que o sexo possa produzir outra coisa além de filhos. Benjamin, fundador de uma nação de inventores, é um grande homem de todos os tempos. Jane é uma mulher do seu tempo, igual a quase todas as mulheres de todos os tempos, que cumpriu com seu dever nesta terra e expiou sua parte de culpa na maldição bíblica. Ela fez o possível para não ficar louca e buscou, em vão, um pouco de silêncio.
Seu caso não despertará o interesse dos historiadores.
Eduardo Galeano, in Mulheres

Por discrição

Deus lhe deu inúmeros pequenos dons que ele não usou nem desenvolveu por receio de ser um homem completo e sem pudor.
Clarice Lispector, in Aprendendo a viver

Blefes

Google Imagens

Ninguém conhece a alma humana melhor do que um jogador de pôquer. A sua e a do próximo. Numa mesa de pôquer o homem chega ao pior e ao melhor de si mesmo, e vai da euforia ao ódio numa rodada. Mas sempre como se nada estivesse acontecendo. Os americanos falam do poker face, a cara de quem consegue apostar tendo um Royal Straight Flush ou nada na mão com a mesma impassividade, embora a lava esteja turbilhonando dentro. Porque sabe que está rodeado de fingidos, o jogador de pôquer deve tentar distinguir quem tem jogo de quem não tem e está blefando por um tremor na pálpebra, por um tique na orelha. Ou ultrapassando a fachada e mergulhando na alma do outro. Não se trata de adivinhar o caráter. Não é uma questão de caráter. O blefe é um lance tão legítimo quanto qualquer outro no pôquer. Os puros são até melhores blefadores pois só quem não tem culpa pode sustentar um poker face perfeito sob o escrutínio hostil da mesa. Há quem diga que ganhar com um blefe supõe ganhar com boas cartas e que é no blefe que o pôquer deixa de ser um jogo de azar, e portanto de acaso, e se torna um jogo de talento. Já fora do pôquer o blefe perde sua respeitabilidade. É apenas sinônimo de engodo, geralmente aplicado a pessoas que não eram o que pareciam ou fingiam ser. A história dos presidentes do Brasil desde Jânio tem sido uma sucessão de blefes. Jango também foi um blefe, na medida em que aparentava ter um poder que não tinha. O golpe de 64 foi um blefe para quem acreditou nele. Um blefe involuntário. Sarney não foi um blefe completo porque ninguém esperava que ele fosse muito diferente. Collor foi um blefe deliberado que manteve a versão política do poker face, que é uma cara-de-pau sustentada mesmo sob a ameaça do ridículo. E chegamos à social-democracia brasileira no poder, que pode até estar agradando a muita gente, mas é outro blefe em relação às expectativas que criou e ao que podia ter sido. Ou talvez esse blefe tenha uma história antiga, e a gente é que não tinha notado.
Luís Fernando Veríssimo, in As mentiras que os homens contam

22/06/2016

8 palavras pouco usadas em português que têm antônimos famosos

 

 
Não é que sejamos pessoas negativas. Mas confessa aí: você sabe qual é o antônimo de desodorante? Se você parar pra pensar, não é muito difícil adivinhar. O lance é que a palavra odorante simplesmente não aparece com muita frequência nas nossas conversas. Aliás, as palavras desta lista quase nunca são ditas no sentido positivo – apenas o seu antônimo é famoso. Mesmo quando queremos usá-las no sentido positivo, geralmente optamos por utilizar a dupla negativa – tipo “o acabamento não é impecável” ou “a água não é insípida”. Conheça agora os antônimos anônimos.
1. Algésico
Antônimo: Analgésico
Significado: adjetivo 1. relativo a algesia. adjetivo e substantivo masculino 2. que dá sensibilidade à dor.


2. Biótico
Antônimo: Antibiótico
Significado: adjetivo 1. relativo a biota 2. relativo ou pertencente à vida ou aos seres vivos 3. criado, provocado ou induzido pela ação de organismos vivos.


3. Dizível
Antônimo: Indizível
Significado: adjetivo de dois gêneros – que pode e/ou deve ser dito.


4. Fraldar
Antônimo: Desfraldar
Significado: verbo transitivo direto 1. colocar fraldas em verbo pronominal 2. vestir fraldão (‘escarcela’).


5. Odorante
Antônimo: Desodorante
Significado: adjetivo de dois gêneros – que exala um odor, geralmente agradável; recendente.


6. Pecável
Antônimo: Impecável
Significado: adjetivo de dois gêneros – que é capaz de pecar.


7. Virginalizar
Antônimo: Desvirginar
Significado: verbo transitivo direto e pronominal – tornar(-se) virginal.


8. Sápido
Antônimo: Insípido
Significado: adjetivo – que tem sabor; gostoso.


Fonte: revista Superinteressante

Cidades

As cidades são como os seres humanos: têm um corpo e têm uma alma. Talvez muitas almas, porque o corpo é um albergue onde moram muitas almas, todas diferentes em ideias e sentimentos, todas com a mesma cara. O corpo das cidades são as ruas, praças, carros, lojas, bancos, escritórios, fábricas, coisas materiais. A alma, ao contrário, são os pensamentos e sentimentos dos que nela moram. Há corpos perfeitos com almas feias e são como um violino Stradivarius em mãos de quem não gosta de música e não sabe tocar. Mas pode acontecer o contrário: um corpo tosco com alma bonita. Aí é como acontecia com as rabecas do querido Gramanni. Rabecas são violinos rústicos fabricados por artesãos desconhecidos. Mas o Gramanni era capaz de tocar Bach nas suas rabecas... O mesmo vale para as cidades: cidades bonitas por fora e com almas feias, cidades rústicas por fora com almas bonitas. Onde se podem encontrar as almas das cidades? Eu as encontro bonitas nas feiras, nas bancas de legumes e frutas, no mercadão, no sacolão. Esses são lugares onde acontecem reencontros felizes. Também na feira de artesanato, nos jardins onde há crianças, nos concertos... Mas ela aparece assustadora nas torcidas de futebol e no tráfego... Ah, o tráfego! É nele que a alma da cidade aparece mais nua. Pensei nisso na semana que passei em Portugal. Lembrei-me que há lugares onde os motoristas sabem que o pedestre tem sempre a preferência. Eles param para que o pedestre passe. Um amigo me contou de sua experiência em Munique: desceu da calçada, pôs o pé no asfalto e, para seu espanto, viu que todos os carros pararam para que ele atravessasse a rua. Sempre que paro meu carro para que o pedestre passe percebo a surpresa no seu rosto. Não acredita. É preciso que eu faça um gesto com a mão para que ele se atreva. Não é incomum ver um motorista acelerar o carro ao ver um pedestre atravessando a rua. Disseram-me que existe mesmo um videogame cuja sensação está em atropelar os pedestres. E a contagem é maior se o atropelado for um velho... As cidades voltarão a ser bonitas quando os motoristas compreenderem que o natural é andar a pé. Os pedestres devem ter sempre a preferência. No Brasil há uma cidade assim. Mas não estou bem certo... Acho que é Campo Mourão, no Paraná.
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola

Anésia, a Sincera

Anésia Dolores costura calças rasgadas rasgar demência neta 
www.willtirando.com.br

Início árduo

A lixeira é o primeiro móvel de um escritor.”
Ernest Hemingway

Deleuze me pagaria uma cerveja

A necessidade de se encaixar numa tribo, num nicho cultural, numa militância ideológica faz com que o jovem contemporâneo crie experiências fictícias nas redes sociais. Parece que na internet todos precisam ter um discurso de moralidade ilibada e contestadora diante da guerra política. E nessa troca de socos, a esquerda e a direita fantasiam como se estivessem num baile de carnaval. O jovem contemporâneo é um autoficcionista engajado. Ora se orgulhando pelo caráter incorruptível ou pela dissimulação vitimista fraudada.
Diego Moraes, in ursocongelado.tumblr.com

21/06/2016

Saudade dessa terra infernal

“– Não interrompendo... Como é que se tem saudade dessa terra infernal?
Moço, sertanejo não se adoma no brejo. O sertão é pra nós como homem malvado pra mulher: quanto mais maltrata, mais se quer bem. Aperreia, bota pra fora e, na primeira fuga, se volta em cima dos pés.
E levantando-se para fechar a porta:
- E foi a seca que me deu coragem. Porque saber sofrer, moço, isso é que é ter coragem.”
José Américo de Almeida, in A Bagaceira

Por que não?

Você vê coisas que existem e diz: ‘Por quê?’. Mas eu sonho coisas que nunca existiram e digo: ‘Por que não?’.”
Bernard Shaw

Street Art: Os 4 subversivos de Liverpool

O homem não coincide consigo mesmo

Ao afirmar que, na obra de Dostoiévski, o homem não coincide consigo mesmo, o que Bakhtin quer dizer é: “A” é diferente de “A”, isto é, não há lógica identitária aí. Em outras palavras, é aquela ideia de que, na existência natural, a figura da natureza é a decomposição. O ser humano se decompõe, e a imagem disso é a morte do indivíduo, do corpo. O corpo morre e, mesmo que ele se decomponha na barriga de uma bactéria, já não é mais o mesmo indivíduo. Podemos fazer, então, o caminho no registro existencial, no qual o indivíduo se decompõe, ou no materialismo, que é a compreensão do ser através de um processo contínuo de decomposição dos ser. O que é o materialismo senão a redução do ser a suas partes mínimas?
Luiz Felipe Pondé, in Crítica e profecia: a filosofia da religião em Dostoiévski

O cachimbo de Felizbento

Toda a estória se quer fingir verdade. Mas a palavra é um fumo, leve de mais para se prender na vigente realidade. Toda a verdade aspira ser estória. Os factos sonham ser palavra, perfumes fugindo do mundo. Se verá neste caso que só na mentira do encantamento a verdade se casa à estória. O que aqui vou relatar se passou em terra sossegada, dessa que recebe mais domingos que dias de semana.
Aquele chão ainda estava a começar, recém-recente. As sementes ali se davam bem, o verde se espraiando em sumarentas paisagens. A vida se atrelava no tempo, as árvores escalando alturas. Um dia, porém, ali desembarcou a guerra, capaz de todas as variedades da morte. Em diante, tudo mudou e a vida se tornou demasiado mortal.
Vieram da Nação apressados funcionários. Os delegados da capital sempre cumprem pressas quando estão longe de sua origem. E avisaram que os viventes tinham que sair, convertidos de habitantes em deslocados. Motivos da segurança. Chamaram um por um, em ordem analfabética. Chegou-se a vez de Felizbento. O velho escutou, incrédulo como o sapo que comeu a cobra. Sua única substância foi um suspiro. Ficou como estava, enrolando a alma. Os outros se resumiram, embrulho e vulto, nas traseiras dos camiões. Mas Felizbento se deixou imóvel. O funcionário chefiou a situação, ordenando que se depressasse. Que fosse, igual aos outros.
Não ouviu a ordem? Agora, implementa.
Felizbento deu uma segunda demão no silêncio, esfregou um pé no outro. Puxava lustro em pé descalço? Ou apontava o chão, lugar único de sua existência? Sempre calara suas dores, mais fornecido de paciência do que de idade. Finalmente, apontou a vaga mata e falou:
Se vou sair daqui tenho que levar todas essas árvores.
O nacional funcionário economizou paciência e lhe disse que, mais semana, eles voltariam para o carregarem, nem que fosse à bruta força. E foram.
No dia sequente, o homem pôs-se a desenterrar as árvores, escavando pelas raízes. Começou pela árvore sagrada do seu quintal. Trabalhou fundo: lá onde ia covando já se desabria um escuro total. Para dar seguimentos na fundura passou a levar um petromax, desses que trouxera do Johnne. E tempo após tempo, se demorou nesse serviço.
Sua esposa lhe apontava, desapontada, a incondizência de seus atos. Nem valia a pena perguntar nada a Felizbento. Roupa de morto já não se amarrota. Teima de velho não se desfigura. A senhora ficava à janela como um relógio parado. No escuro da noite, a velha só via a locomoção do petromax, parecia nenhuma mão lhe segurava.
Aflita a mulher desenhou o plano. Ela se ofereceria, imitando os tempos em que seus corpos desacreditavam ter limite. Foi ao fundo dos armários, onde nem as baratas ousam. Tirou a saia de flores, os sapatos de bico e ponta. E lhe fez noturna espera, roupa e cheiros a apetecerem. Lembrava as antigas palavras de Felizbento, nesses outroras:
Se é para namorar o melhor é a noite.
Os que já namoraram diverso e variado sabem o quentinho do escuro, leito do leito. De noite, os seres mudam seu valor. O dia mostra os defeitos do mundo: rugas, poeiras, vincos, tudo na luz se vê. À noite se olha mais, se vê menos. Cada ser se revela apenas pela luz que dele emana. E ela, nessa noite, produzia suave clareza que nem lua.
Felizbento chegou de sua labuta, olhou a mulher num raspão. Ficou como que encalhado, perdida a água de sua viagem. A mulher se aproximou, tocando em seus braços. Se apresentava dona de si mesma: essa era sua irrecusável beleza.
Esta noite fique comigo. Deixe as árvores, Felizbento.
O velho ainda hesitou uma tontura. A mulher nele se envolveu, em dedilhar de trepadeira. Felizbento se sentia como água dentro do peixe. Que seria aquilo? Alma deste mundo? Foi quando ela, sem querer, pisou com seu sapato de ponta o pé descalço do marido. Foi como pico em balão. O camponês recuou, resolvido. Machado de volta à mão ele reentrou no escuro.
Certo dia, Felizbento veio à superfície e pediu à mulher que lhe desmalasse o fato, preparasse a devida roupa, engomasse os terilenes. Há mais de trinta anos que aquela roupa não cumpria cerimônia. Os sapatos já nem lhe cabiam. Os pés tinham tomado a disforme forma da descalcidão. Não havia, aliás, sapatos que lhe coubessem.
Levou os antigos sapatos assim mesmo, meio enfiados, calcando os calcanhares. Arrastava-os pelo chão, não fossem separar-se os pés dos passos. E lá foi, dobrado como caniço, nessa infância que só na velhice se encontra. Foi entrando na terra e só uma vez se virou. Não para as despedidas mas para remexer nos bolsos um esquecimento. O cachimbo! Remexeu os interiores da roupa. Tirou o velho cachimbo e revirou-o sob a luz trêmula do candeeiro. Depois, com gesto desanimado, atirou-o fora. Era como se atirasse toda a sua vida.
O cachimbo lá ficou, remoto e esquecido, meio enterrado na areia. Parecia a terra aspirava nele, fumando o inutensílio. Felizbento ingressou no buraco, desaparecendo.
Ainda hoje a mulher se debruça na cova e chama por ele. Mas sem gritar. Doce como se chamasse uma pessoa adormecida. Ainda ela usa o vestido das flores, sapatos de ponta e o cheiro com que, em desesperança, ainda tentou a tentação de Felizbento. Depois ela se recolhe, apagada. Só os olhos, em redonda insistência, semelham coruja com insónia. Que sonhos convidam aquela mulher a existir?
Os que voltaram ao lugar dizem que, sob a árvore sagrada, cresce agora uma planta fervorosa de verde, trepando em invisível suporte. E asseguram que tal arvorezinha pegou de estaca, brotando de um qualquer cachimbo remoto e esquecido. E, na hora dos poentes, quando as sombras já não se esforçam, a pequena árvore esfumaça, igual uma chaminé. Para a esposa, não existe dúvida: em baixo de Moçambique, Felizbento vai fumando em paz o seu velho cachimbo. Enquanto espera a maiúscula e definitiva Paz.
Mia Couto, in Estórias abensonhadas

20/06/2016

Dani Black e Milton Nascimento - Maior

O que é a verdade?

O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem ao povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas.”
Friedrich Nietzsche

Uma ode à palavra

Pesquisador português organiza e edita os manuscritos do teórico Pierre Hourcade sobre a obra de Fernando Pessoa
Fernando Pessoa
Pessoa, o poeta inapreensível da inquietação e da dor

A pátria de Fernando Pessoa não era apenas a língua portuguesa. Aos 42 anos, o poeta via expandir em traduções a obra que assinara com o próprio nome ou com 105 outros, seus heterônimos. Duas décadas mais jovem, o professor Pierre Hourcade, responsável por verter pela primeira vez seus versos em português e inglês a uma língua estrangeira, o francês, desejava conhecer o poeta pessoalmente. Em fevereiro de 1930, encontraram-se no Café Martinho da Arcada, em Lisboa.
Pessoa animou-se. Os dois tinham muito em comum. Houcarde via Portugal como uma terra propícia ao suicídio dos poetas, que ali poriam fim à vida não por suas ideias, mas pela ausência delas. E Pessoa escrevera em Tabacaria, sob a alcunha Álvaro de Campos: “Falhei em tudo. Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada”. Os dois trocaram livros, ideias e informações. Concordaram sobre a pequenez do mundo onde viviam. Nascia uma grande amizade.
Hourcade entendeu-o resignado enquanto homem, ousado enquanto poeta. A bem dizer, um gênio poético. “Deixa muito para trás os nossos pálidos e secos teóricos de vanguarda”, escreveu na revista parisiense Contacts ao relatar esse encontro, quatro meses depois. O poeta se disse lisonjeado com os artigos do autor francês em torno de sua obra. “Gostava de ter em Lisboa um Pierre Hourcade com quem conversar”, escreveu a João Gaspar Simões, um amigo que seria seu primeiro biógrafo.
Em uma ocasião, Pessoa confessou que lhe agradaria ver o jovem professor contratado pela Faculdade de Letras de Lisboa. O desejo concretizou-se entre outubro de 1933 e dezembro de 1934, período em que o francês atuou na instituição. Os encontros entre os dois tornaram-se frequentes. Mas, no ano seguinte, o Brasil se interpôs entre eles. Junto a Roger Bastide e Claude Lévi-Strauss, Hourcade integraria a equipe pioneira de docentes da Universidade de São Paulo. Embora se dissesse contente pela “formidável notícia”, Pessoa lamentou o vazio que a ausência do amigo deixaria nele e em todos os que o conheceram.
Acesse aqui o artigo completo da Revista Cult.

O chefe político

Possuímos, segundo dizem os entendidos, três poderes: o Executivo, que é o dono da casa, o Legislativo e o Judiciário, domésticos, moços de recados; gente assalariada para o patrão fazer figura e deitar empáfia diante das visitas. Resta ainda um quarto poder, coisa vaga, imponderável, mas que é tacitamente considerado o sumário dos outros três. (...) Aí está o rombo na Constituição quando ela for revista, metendo-se nela a figura interessante do chefe político, que é a única força de verdade. O resto é lorota.”
Graciliano Ramos, em artigo de 1915, no Jornal de Alagoas

19/06/2016

Prefácio

Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
dependimentos demais
e tarefas muitas —
os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
que as moscas iriam iluminar
o silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
que as moscas não davam conta de iluminar o
silêncio das coisas anônimas —
passaram essa tarefa para os poetas.
Manoel de Barros