11/08/2014
Lei seca da arte
"A lei seca da arte é esta: 'Ne quid nimis', nada além do
necessário. Tudo o que é supérfluo, tudo aquilo que podemos suprimir sem
alterar a essência é contrário à existência da beleza."
José
Ortega y Gasset
07/08/2014
Expressão
"Sei mais do que aquilo que posso
exprimir em palavras, e o pouco que posso exprimir não o teria exprimido se
tivesse sabido mais."
Vladimir
Nabokov
Genialidade brasileira
Confusão. Sempre confusão. Espírito crítico de antologia
universal. Lado a lado todas as épocas, todas as escolas, todos os matizes.
Tudo embrulhado. Tudo errado. E tudo bom. Tudo ótimo. Tudo genial.
Olhem a mania nacional de classificar palavreado de literatura.
Tem adjetivos sonoros? É literatura. Os períodos rolam bonito? Literatura. O
final é pomposo? Literatura, nem se discute. Tem asneiras? Tem. Muitas? Santo
Deus. Mas são grandiloquentes? Se são. Pois então é literatura e da melhor.
Quer dizer alguma cousa? Nada. Rima, porém? Rima. Logo é literatura.
O Brasil é o único país de existência geograficamente provada
em que não ser literato é inferioridade. Toda gente se sente no dever
indeclinável de fazer literatura. Ao menos uma vez ao ano e para gasto doméstico.
E toda a gente pensa que fazer literatura é falar ou escrever bonito. Bonito
entre nós às vezes quer dizer difícil. Às vezes tolo. Quase sempre eloquente.
O cavalheiro que encerra a sua oração com um Na antiga Roma
ou como disse Barroso Na célebre batalha é orador. Orador, só? Não. Orador de
gênio. O cavalheiro que termina o seu soneto com um Ó sol! É raio! Ó luz! Ó
nume! Ó astro! É poeta. Também genial. E
assim por diante.
Só a gente se agarrando com Nossa Senhora da Aparecida. Essa falsa noção da genialidade brasileira é a mesma do Brasil, primeiro país no mundo. Não há cidadão perdido em São Luiz do Paraitinga ou São João do Rio do Peixe que não esteja convencido disso. E porque o Brasil é o campeão do universo e o brasileiro o batuta da terra, tudo quanto aqui nasce e existe há de ser forçosamente o que há de melhor neste mundo de Cristo e de nós também. Todos os adjetivos arrebatados e apoteóticos são poucos para tamanha grandeza e tamanha lindeza. Ninguém pode conosco. Nós somos os cueras mesmo.
Só a gente se agarrando com Nossa Senhora da Aparecida. Essa falsa noção da genialidade brasileira é a mesma do Brasil, primeiro país no mundo. Não há cidadão perdido em São Luiz do Paraitinga ou São João do Rio do Peixe que não esteja convencido disso. E porque o Brasil é o campeão do universo e o brasileiro o batuta da terra, tudo quanto aqui nasce e existe há de ser forçosamente o que há de melhor neste mundo de Cristo e de nós também. Todos os adjetivos arrebatados e apoteóticos são poucos para tamanha grandeza e tamanha lindeza. Ninguém pode conosco. Nós somos os cueras mesmo.
Qualquer coisinha assume aos nossos olhos de mestiços
tropicais proporções magnificentes, assustadoras, insuperáveis, nunca vistas. O
Brasil é o mundo. O resto é bobagem. Castro Alves bate Victor Hugo na curva. O
problema da circulação em São Paulo absorve todas as atenções estudiosas. Sem
nós a Sociedade das Nações Unidas dá em droga. Vocês vão ver. Wagner é canja
para Carlos Gomes. Em Berlim como em Sydney, em Leningrado como em Nagasaki só
temos admiradores invejosos. O universo inteiro nos contempla. Êta nós!
É por isso que seria excelente de vez em quando uma cartinha
como aquela de Remy de Gourmont a Figueiredo Pimentel. Um pouco de água gelada
nesta fervura auriverde. Para que o trouxa brasileiro caia na realidade. E
deixe-se dessa história de gênio, grandeza, importância e riquezas
incomparáveis que é bobagem.
E não é verdade.
Alcântara Machado, in Antologia
do humorismo e sátira
06/08/2014
Lógica e linguagem
“Alguém já se lembrou de fazer um estudo sobre a estatística
dos provérbios? Este, por exemplo: "Quem cospe para o céu, na cara lhe
cai". Tal desarranjo sintático faria a antiga análise lógica perder de
súbito a razão.”
Mário
Quintana, in Caderno H
A Arte
"A arte não é um espelho para refletir
o mundo, mas um martelo para forjá-lo."
Vladimir
Maiakovski
Taxidermia, ou poeticamente hipócrita
Posso falar de morte enquanto vivo?
Posso ganir de fome imaginada?
Posso lutar nos versos escondido?
Posso fingir de tudo, sendo nada?
Posso tirar verdades de mentiras,
Ou inundar de fontes um deserto?
Posso mudar de cordas e de liras,
E fazer de má noite sol aberto?
Se tudo a vãs palavras se reduz
E com elas me tapo a retirada,
Do poleiro da sombra nego a luz
Como a canção se nega embalsamada.
Olhos de vidro e asas prisioneiras,
Fiquei-me pelo gosto de palavras
Como rasto das coisas verdadeiras.
Posso ganir de fome imaginada?
Posso lutar nos versos escondido?
Posso fingir de tudo, sendo nada?
Posso tirar verdades de mentiras,
Ou inundar de fontes um deserto?
Posso mudar de cordas e de liras,
E fazer de má noite sol aberto?
Se tudo a vãs palavras se reduz
E com elas me tapo a retirada,
Do poleiro da sombra nego a luz
Como a canção se nega embalsamada.
Olhos de vidro e asas prisioneiras,
Fiquei-me pelo gosto de palavras
Como rasto das coisas verdadeiras.
José Saramago
05/08/2014
Vida: capacidade de trabalhar
“Se a vida tem mesmo algum sentido, é só
pela consciência de termos capacidade de trabalhar. O trabalho do escritor, do
compositor, do artista independe da idade, das condições sociais... O criador
espiritual é o único homem que leva para a velhice o sentido da vida, a
possibilidade de criar. Já o cientista, se não tem laboratório e cátedra, fica
estéril.”
Sándor
Márai, in Diário
O muito esforço para conseguir manter o poder

“Aqueles que, só pela mão da fortuna, de
vulgares cidadãos se tornam príncipes alcançam o mando com pouca fadiga, mas só
com muito esforço o conseguem manter. Não experimentam dificuldades na
caminhada para o poder, parecendo que para lá vão voando. As dificuldades
surgem depois de serem entronizados. É o que sucede com aqueles a quem é dado
um estado a troco de dinheiro ou por graça de quem o concede (...) Os que assim
sobem à condição de príncipe ficam dependentes da vontade e da fortuna de quem
lhes proporcionou o trono, que são duas coisas assaz volúveis e instáveis, não
sabendo nem podendo garantir a sua conservação. Não sabem - porque, a menos que
seja um homem de grande habilidade e virtude, não é razoável que, tendo sempre
vivido como vulgar cidadão, saiba comandar; não podem - porque não dispõem de
forças que lhes possam ser amigas e fiéis. Além disto, os estados que surgem de
repente, como todas as outras coisas da natureza que nascem e crescem
rapidamente, não desenvolvem as raízes, o tronco e os ramos, sendo destruídos
pelo primeiro temporal. Isto, a menos que aqueles que, como eu disse, de
repente se tornaram príncipes possuam tanta virtude como a fortuna que tiveram
quando o estado lhes caiu no regaço e saibam, rapidamente, preparar-se para o
conservar. E aqueles pressupostos que outros preencheram antes de se tornarem
príncipes sejam por eles reunidos posteriormente.”
Maquiavel, in O
Príncipe
04/08/2014
Excessos
"Não
lamento um único excesso dos que cometi na juventude. Só lamento, na minha
avançada idade, as ocasiões e possibilidades que não aproveitei."
Henry James
O Rio antigo
Vista do tradicional bairro de Botafogo na década de 1910, quando havia
apenas casas térreas e sobrados. Ao fundo, o morro do Pão de Açúcar. Fonte: operamundi.uol.com.br.
03/08/2014
Saudade devidamente atualizada
De uns tempos pra cá, tenho acordado no susto.
Sempre com a estranha sensação de estar atrasado para um compromisso que não
existe. Sempre com aquela angústia desnecessária de estar devendo ao mundo um
poema que nunca será escrito. Olho na agenda, nada marcado. Coloco meus óculos
e confirmo nitidamente que não tenho realmente nada agendado para os próximos
dias, quiçá meses. Devo estar atrasado comigo, com o meu passado. Alguma
saudade que eu deixei para trás está cobrando minha companhia, como se fosse um
chope ou uma dúzia de bolinhos de bacalhau que eu deixei em alguma conta
pendurada no balcão do meu bar predileto.
Regra número 1: a saudade sempre volta para apertar
o peito e acertar as contas.
Ela se infiltra nos meus sonhos, pelas janelas
fechadas dos nossos olhos, e fica ali, quietinha, até se apoderar com força
descomunal das nossas fraquezas. Acho que é assim que nascem as nossas
lágrimas. Lágrima é a nossa saudade em estado líquido.
Meu despertador é testemunha sonora da minha
vontade de continuar sonhando. Só mais um pouquinho, por favor. “NÃO!” – temos
tanta intimidade que parece que ele me dá esporro em bom e velho português. E
toca mais alto e mais alto e mais alto e mais alto… Não tem mais jeito: preciso
levantar.
Uma secretária imaginária parece ter programado o
meu dia:
6h: abrir os olhos
6h40: acordar
7h30: sair da cama
9h: tomar café
9h01: despertar.
Sim! Acho que o primeiro sinal de que o tempo
passou é quando a gente descobre que existe diferença entre abrir os olhos,
acordar, sair da cama e despertar. Quando menino, eu já abria os olhos com o
coração a mil por hora, elétrico, chutando uma bola imaginária. Tadinha da
luminária!
10h: responder e-mails de ontem
12h: reunião com o meu organismo para saber se
estou com fome
13h: pagar a conta do almoço
14h35: ligar para o meu pai. Será que a voz dele
mudou nesses quatro anos e meio? E-mail não tem timbre…
15h: desenhar guardanapos
16h: lembrar que esqueci que a agência bancária
acabou de fechar e eu não paguei meu plano de saúde
17h50: caminhar pela orla
19h: responder os e-mails de hoje
21h: pensar em sobreviver da minha arte
23h: continuar pensando no que eu estava pensando
às 21h
23h59: deitar
1:15: pedir encarecidamente para pararem de
comentar “segue de volta” e “troco likes”
2h: iniciar o processo de sono e se preparar para
sonhar
Que tédio! Nossos sonhos não podem virar rotina, um
programa sem audiência embutido na grade horária da nossa realidade. Nossos
sonhos não podem ser uma resposta automática do nosso corpo quando a luz se
apaga, como estender as mãos para cumprimentar ou retrair os pés para se
despedir. Onde aperto o botão, querida secretária imaginária? Preciso atualizar
o meu sistema operacional.
6h: abrir os olhos…
Talvez seja só uma conclusão saudosa e um menino que
se esqueceu de despertar, talvez seja só uma afirmação ranzinza de um adulto
que não se lembrou dos seus sonhos, mas essa saudade que volta para apertar o
nosso peito e acertar as nossas contas é a nossa infância buscando
compatibilidade com a nossa realidade. Por que carrega essa amargura, Pedro?
Por que você deixou de lado a ternura, Antônio? Onde está essa criança,
Gabriel?
Regra número
2: a poesia sempre nasce para que essa saudade não passe.
*PEDRO GABRIEL nasceu em N’Djamena, capital do
Chade, em 1984. Filho de pai suíço e mãe brasileira, chegou ao Brasil aos 12
anos — e até os 13 não formulava uma frase completa em português. A partir da
dificuldade na adaptação à língua portuguesa, que lhe exigiu muita observação
tanto dos sons quanto da grafia das palavras, Pedro desenvolveu talento e
sensibilidade raros para brincar com as letras. É formado em publicidade e
propaganda pela ESPM-RJ e criador de “Eu me chamo Antônio”, perfil do Instagram
e página do Facebook que deram origem ao livro Eu me chamo Antônio, lançado
pela Intrínseca.
A corrupção
“Os homens são atormentados pelo pecado
original dos seus instintos antissociais, que permanecem mais ou menos
uniformes através dos tempos. A tendência para a corrupção está implantada na
natureza humana desde o princípio. Alguns homens têm força suficiente para
resistir a essa tendência, outros não a têm. Tem havido corrupção sob todo o
sistema de governo. A corrupção sob o sistema democrático não é pior, nos casos
individuais, do que a corrupção sob a autocracia. Há meramente mais, pela
simples razão de que onde o governo é popular, mais gente tem oportunidade para
agir corruptamente à custa do Estado do que nos países onde o governo é
autocrático. Nos estados autocraticamente organizados, o espólio do governo é
compartilhado entre poucos. Nos estados democráticos há muito mais
pretendentes, que só podem ser satisfeitos com uma quantidade muito maior de
espólio que seria necessário para satisfazer os poucos aristocratas. A
experiência demonstrou que o governo democrático é geralmente muito mais
dispendioso do que o governo por poucos.”
Aldous
Huxley, in Sobre a Democracia e Outros Estudos
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