21/03/2014

Arte em toda parte


Fonte: brazilwonders.tumblr.com

A costureira da loja da esquina


A costureira da loja da esquina é profissional prendada. Esmera-se em atender aos pedidos de pronto. Claro, nos tempos dos espartilhos e dos colarinhos duros, demorava-se mais. Hoje, entretanto, de fios tão fúteis, e com a experiência acumulada, não se demora um minuto, mesmo considerando o tremor das mãos e a catarata nos olhos.
A costureira da loja da esquina especializara-se em reparar a nudez. 
Da mãe aprendera a arte de descoser fios.
Bonito é ver a clientela tornar à rua vestida da verdade do corpo.
A costureira da loja da esquina não deveria morrer nunca.
Viegas Fernandes da Costa é historiador e escritor. Leciona no Instituto Federal de Santa Catarina e é cronista do Jornal de Santa Catarina. Reside em Blumenau – SC.

Menos inúteis


“O melhor governo é aquele no qual há o mínimo de pessoas inúteis.”
Voltaire

Naquele tempo...

www.ultimaquimera.com.br

Desconheço as leis do espírito

“Tudo o que aqui escrevo é forjado no meu silêncio e na penumbra. Vejo pouco, ouço quase nada. Mergulho enfim em mim até o nascedouro do espírito que me habita. Minha nascente é obscura. Estou escrevendo porque não sei o que fazer de mim. Quer dizer: não sei o que fazer com meu espírito. O corpo informa muito. Mas eu desconheço as leis do espírito: ele vagueia. Meu pensamento, com a enunciação das palavras mentalmente brotando, sem depois eu falar ou escrever — esse meu pensamento de palavras é precedido por uma instantânea visão, sem palavras, do pensamento — palavra que se seguirá, quase imediatamente — diferença espacial de menos de um milímetro. Antes de pensar, pois, eu já pensei.”
Clarice Lispector, in Um Sopro de Vida

20/03/2014

Mas tudo é novo debaixo do sol


“Resmungam os velhos: ‘- Nada há de novo debaixo do sol’ – e nem se lembram dos que, neste momento, estão recriando o mundo: os poetas, os artistas, os recém-nascidos.”
Mário Quintana, in Caderno H

Pão e educação

“Depois do pão, a educação é a primeira necessidade do povo.”
Georges Jacques Danton

O Silêncio das Estrelas - Lenine



Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão
Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos
Como um Deus e amanheço mortal

E assim, repetindo os mesmos erros, dói em mim
Ver que toda essa procura não tem fim
E o que é que eu procuro afinal

Um sinal, uma porta pro infinito irreal
O que não pode ser dito, afinal
Ser um homem em busca de mais
Afinal, feito estrelas que brilham em paz

Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão
Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos
Como um Deus e amanheço mortal

Um sinal, uma porta pro infinito irreal
O que não pode ser dito, afinal
Ser um homem em busca de mais
Afinal, ser um homem em busca de mais.
Composição: Lenine e Dudu Falcão

Recompensa final

“Morrer é duro. Sempre senti que a recompensa final dos mortos é nunca mais morrer!”
Irvin D. Yalom, in Quando Nietzsche chorou

MAM recebe mostra com obras hiper-realistas de Ron Mueck


O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM) espera quebrar recordes e atrair ao menos 200 mil pessoas ao espaço com a exposição inédita no Brasil das obras do australiano Ron Mueck. Entre 20 de março e 1 de junho os cariocas e visitantes poderão se impressionar com nove obras do australiano, que tem causado furor em galerias pelo mundo ao apresentar esculturas de cenas do cotidiano nas mais diversas escalas retratadas com extremo realismo.
Mueck mistura matérias como resina, fibra de vidro, silicone e acrílico, levando os expectadores a questionarem a noção de real. Detalhes como a cor dos pelos na perna dos personagens, veias e expressões impressionam. Apesar de algumas esculturas chegarem a quase três metros de altura, caso do casal de idosos recostado um no outro embaixo de um guarda-sol, a verossimilhança e o apreço aos detalhes aproxima o trabalho dos visitantes.
Entre os nove trabalhos da exposição destacam-se três obras confeccionadas especialmente para a mostra. Além disso, acompanha o trabalho um documentário de 50 minutos, batizado de “Still Life”, que mostra todo o solitário processo de composição de Mueck, que evita falar com a imprensa ou mesmo explicar o seu trabalho.


“É um trabalho que causa grande impacto nas pessoas, consegue falar com todos os tipos de público”, explica Grazia Quaroni, que faz a curadoria da exposição junto a Hervé Chandès, diretor da Fundação Cartier para a Arte Contemporânea em Paris. “Há sempre mudanças de escala, nunca vai ser um manequim, mas apesar do tamanho são situações íntimas. O artista não dá nenhuma informação sobre elas, cada um pode fazer a sua interpretação”, afirma.
De família alemã, Mueck nasceu na Austrália e hoje vive em Londres. Filho de fabricantes de brinquedos ele trabalhou em diversos programas de televisão e na produção de efeitos especiais antes de ingressar no mundo das artes cênicas.
Pela primeira vez na América do Sul, a exposição já passou por Buenos Aires onde levou 160 mil pessoas a Fundação Proa. Antes disso a mostra chegou ao número recorde de 300 mil espectadores quando estreou em Paris. A seguir, mais trabalhos do artista.






Fonte: diversao.terra.com.br/arte-e-cultura

19/03/2014

Abrir as portas



“Não sei quando virá o amanhecer, por isso abro todas as portas.”
Emily Dickinson

"Vento que balança as palhas do coqueiro..."*





Fotos: Elilson Batista

*Na praia de Caraúbas, Maxaranguape - RN, dia 16/03/2014

Crenças

“Não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar.”
Carl Sagan

Consolo na praia

Foto: João Machado

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.
Carlos Drummond de Andrade 

Fonte: brazilwonders.tumblr.com

Tolice x sensatez

“É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.”
Manoel de Barros

Clic

Cidadão se descuidou e roubaram seu celular. Como era um executivo e não sabia mais viver sem celular, ficou furioso. Deu parte do roubo, depois teve uma ideia. Ligou para o número do telefone. Atendeu uma mulher.
— Aloa.
— Quem fala?
— Com quem quer falar?
— O dono desse telefone.
— Ele não pode atender.
— Quer chamá-lo, por favor?
— Ele esta no banheiro. Eu posso anotar o recado?
— Bate na porta e chama esse vagabundo agora.
Clic. A mulher desligou. O cidadão controlou-se. Ligou de novo.
— Aloa.
— Escute. Desculpe o jeito que eu falei antes. Eu preciso falar com ele, viu? É urgente.
— Ele já vai sair do banheiro.
— Você é a...
— Uma amiga.
— Como é seu nome?
— Quem quer saber?
O cidadão inventou um nome.
— Taborda. (Por que Taborda, meu Deus?) Sou primo dele.
— Primo do Amleto?
Amleto. O safado já tinha um nome.
— É. De Quaraí.
— Eu não sabia que o Amleto tinha um primo de Quaraí.
— Pois é.
— Carol.
— Hein?
— Meu nome. É Carol.
— Ah. Vocês são...
— Não, não. Nos conhecemos há pouco.
— Escute Carol. Eu trouxe uma encomenda para o Amleto. De Quaraí. Uma pessegada, mas não me lembro do endereço.
— Eu também não sei o endereço dele.
— Mas vocês...
— Nós estamos num motel. Este telefone é celular.
— Ah.
— Vem cá. Como você sabia o número do telefone dele? Ele recém-comprou.
— Ele disse que comprou?
— Por que?
O cidadão não se conteve.
— Porque ele não comprou, não. Ele roubou. Está entendendo? Roubou. De mim!
— Não acredito.
— Ah, não acredita? Então pergunta pra ele. Bate na porta do banheiro e pergunta.
— O Amleto não roubaria um telefone do próprio primo.
E Carol desligou de novo.
O cidadão deixou passar um tempo, enquanto se recuperava. Depois ligou.
— Aloa.
— Carol, é o Tobias.
— Quem?
— O Taborda. Por favor, chame o Amleto.
— Ele continua no banheiro.
— Em que motel vocês estão?
— Por que?
— Carol, você parece ser uma boa moça. Eu sei que você gosta do Amleto...
— Recém nos conhecemos.
— Mas você simpatizou. Estou certo? Você não quer acreditar que ele seja um ladrão. Mas ele é, Carol. Enfrente a realidade. O Amleto pode Ter muitas qualidades, sei lá. Há quanto tempo vocês saem juntos?
— Esta é a primeira vez.
— Vocês nunca tinham se visto antes?
— Já, já. Mas, assim, só conversa.
— E você nem sabe o endereço dele, Carol. Na verdade você não sabe nada sobre ele. Não sabia que ele é de Quaraí.
— Pensei que fosse goiano.
— Ai esta, Carol. Isso diz tudo. Um cara que se faz passar por goiano...
— Não, não. Eu é que pensei.
— Carol, ele ainda está no banheiro?
— Está.
— Então sai daí, Carol. Pegue as suas coisas e saia. Esse negocio pode acabar mal. Você pode ser envolvida. — Saia daí enquanto é tempo, Carol!
— Mas...
— Eu sei. Você não precisa dizer. Eu sei. Você não quer acabar a amizade. Vocês se dão bem, ele é muito legal. Mas ele é um ladrão, Carol. Um bandido. Quem rouba celular é capaz de tudo. Sua vida corre perigo.
— Ele esta saindo do banheiro.
— Corra, Carol! Leve o telefone e corra! Daqui a pouco eu ligo para saber onde você está.
Clic.
Dez minutos depois, o cidadão liga de novo.
— Aloa.
— Carol, onde você está?
— O Amleto está aqui do meu lado e pediu para lhe dizer uma coisa.
— Carol, eu...
— Nós conversamos e ele quer pedir desculpas a você. Diz que vai devolver o telefone, que foi só brincadeira. Jurou que não vai fazer mais isso.
O cidadão engoliu a raiva. Depois de alguns segundos falou:
— Como ele vai devolver o telefone?
— Domingo, no almoço da tia Eloá. Diz que encontra você lá.
— Carol, não...
Mas Carol já tinha desligado.
O cidadão precisou de mais cinco minutos para se recompor. Depois ligou outra vez.
—Aloa.
Pelo ruído o cidadão deduziu que ela estava dentro de um carro em movimento.
— Carol, é o Torquato.
— Quem?
— Não interessa! Escute aqui. Você está sendo cúmplice de um crime. Esse telefone que você tem na mão, esta me entendendo? Esse telefone que agora tem suas impressões digitais. É meu! Esse salafrário roubou meu celular!
— Mas ele disse que vai devolver na...
— Não existe Tia Eloá nenhuma! Eu não sou primo dele. Nem conheço esse cafajeste. Ele esta mentindo para você, Carol.
— Então você também mentiu!
— Carol...
Clic.
Cinco minutos depois, quando o cidadão se ergueu do chão, onde estivera mordendo o carpete, e ligou de novo, ouviu um "Alô" de homem.
— Amleto?
— Primo! Muito bem. Você conseguiu, viu? A Carol acaba de descer do carro.
— Olha aqui, seu...
— Você já tinha liquidado com o nosso programa no motel, o maior clima e você estragou, e agora acabou com tudo. Ela está desiludida com todos os homens, para sempre. Mandou parar o carro e desceu. Em plena Cavalhada. Parabéns primo. Você venceu. Quer saber como ela era?
— Só quero meu telefone.
— Morena clara. Olhos verdes. Não resistiu ao meu celular. Se não fosse o celular, ela não teria topado o programa. E se não fosse o celular, nós ainda estaríamos no motel. Como é que chama isso mesmo? Ironia do destino?
— Quero meu celular de volta!
— Certo, certo. Seu celular. Você tem que fechar negócios, impressionar clientes, enganar trouxas. Só o que eu queria era a Carol...
— Ladrão!
— Executivo!
— Devolve meu...
Clic.
Cinco minutos mais tarde. Cidadão liga de novo. Telefone toca várias vezes. Atende uma voz diferente.
— Ahn?
— Quem fala?
— É o Trola.
— Como você conseguiu esse telefone?
— Sei lá. Alguém jogou pela janela de um carro. Quase me acertou.
— Onde você está?
— Como eu estou? Bem, bem. Catando meus papéis, sabe como é. Mas eu já fui de circo. É. Capitão Trovar. Andei até pelo Paraguai.
— Não quero saber de sua vida. Estou pagando uma recompensa por este telefone. Me diga onde você está que eu vou buscar.
— Bem. Fora a Dalvinha, tudo bem. Sabe como é mulher. Quando nos vê por baixo, aproveita. Ontem mesmo...
— Onde você está? Eu quero saber onde!
— Aqui mesmo, embaixo do viaduto. De noitinha. Ela chegou com o índio e o Marvão, os três com a cara cheia, e...
Luís Fernando Veríssimo, in As mentiras que os homens contam

18/03/2014

Dante

O inferno — tão exato como um atestado.
O purgatório — falso como toda alusão ao Céu.
O paraíso — mostruário de ficções e de insipidezes...
A trilogia de Dante constitui a mais alta reabilitação do diabo empreendida por um cristão.
Emil Michel Cioran, in Silogismos da amargura

Quase Nada 249

Quase Nada 249
www.10paezinhos.com.br

Imagino mais do que recordo

“Como serás tu que imagino mais do que recordo – a memória traz consigo também o esquecimento, continuando embora memória de gestos repetidos – com quem te encontras, como pensas, que brisas novas suavizarão teu sangue inquieto. Na distância imprecisa que o tempo traz recordo vagamente teu rosto rude e já marcado, a ternura inconsistente e macia da areia deslizando em nossas mãos.”
Roland Barthes, in Fragmentos de um discurso amoroso

Licor

Dulcíssimas cerejas 
no ritual de outubro.
 
Se eu te mordesse os cílios
 
e gemesses de espanto
 
eu diria que o amor
 
é uma invenção do sonho,
 
que o corpo com que exerço
 
esta dança secreta
 
não tem definição
 
mas é garça e poeira,
 
lasca de unha, mancha
 
de sangue num lençol.

Riríamos do amor 
de tal forma alumbrados
 
que o sonho passaria
 
e eu veria a verdade
 
que paira quando tudo
 
é prazer triturado.

Prazer? Eu sondaria 
milímetros de nervos
 
e pesaria os gestos
 
as mínimas torções
 
concluindo com o nada
 
de uma nuvem traçada
 
numa folha vadia.
 
(Nem sequer uma nuvem
 
distante e verdadeira.)

Se quisesses me ouvir 
eu contaria a história
 
de uma imagem que quis
 
roubar do que é real
 
uma gota de mel.

Diria que este furto 
sem dimensão exata
 
seria toda a glória
 
desta imagem sem voz.
 
Se quisesses me ouvir
 
eu te prometeria
 
logo após dispensar
 
levando a minha história.

E eu te desejaria 
o porto da loucura
 
para que só falasses
 
desta opaca memória.

Dulcíssimas cerejas. 
Outubro, a névoa, nada
 
reconstrói o perdido
 
quando é mito refeito
 
de improvável delícia.

Dulcíssimas cerejas, 
imponderável gesto
 
suspenso entre o remorso
 
e a frustrada carícia.
Walmir Ayala