Fonte: brazilwonders.tumblr.com
21/03/2014
A costureira da loja da esquina

A costureira da loja da esquina é profissional
prendada. Esmera-se em atender aos pedidos de
pronto. Claro, nos tempos dos espartilhos e dos colarinhos duros, demorava-se
mais. Hoje, entretanto, de fios tão fúteis, e com a experiência acumulada, não
se demora um minuto, mesmo considerando o tremor das mãos e a catarata nos
olhos.
A costureira da loja da esquina
especializara-se em reparar a nudez.
Da mãe aprendera a arte de
descoser fios.
Bonito é ver a clientela tornar à
rua vestida da verdade do corpo.
A costureira da loja da esquina não deveria morrer nunca.
Viegas Fernandes da Costa é historiador e escritor. Leciona no Instituto Federal de Santa
Catarina e é cronista do Jornal de Santa Catarina. Reside em Blumenau – SC.
Desconheço as leis do espírito
“Tudo o que aqui escrevo é forjado no meu
silêncio e na penumbra. Vejo pouco, ouço quase nada. Mergulho enfim em mim até
o nascedouro do espírito que me habita. Minha nascente é obscura. Estou
escrevendo porque não sei o que fazer de mim. Quer dizer: não sei o que fazer
com meu espírito. O corpo informa muito. Mas eu desconheço as leis do espírito:
ele vagueia. Meu pensamento, com a enunciação das palavras mentalmente
brotando, sem depois eu falar ou escrever — esse meu pensamento de palavras é
precedido por uma instantânea visão, sem palavras, do pensamento — palavra que
se seguirá, quase imediatamente — diferença espacial de menos de um milímetro.
Antes de pensar, pois, eu já pensei.”
Clarice
Lispector, in Um Sopro de Vida
20/03/2014
Mas tudo é novo debaixo do sol
“Resmungam os velhos: ‘- Nada há de novo
debaixo do sol’ – e nem se lembram dos que, neste momento, estão recriando o
mundo: os poetas, os artistas, os recém-nascidos.”
Mário
Quintana, in Caderno H
O Silêncio das Estrelas - Lenine
Solidão, o silêncio das
estrelas, a ilusão
Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos
Como um Deus e amanheço mortal
E assim, repetindo os mesmos erros, dói em mim
Ver que toda essa procura não tem fim
E o que é que eu procuro afinal
Um sinal, uma porta pro infinito irreal
O que não pode ser dito, afinal
Ser um homem em busca de mais
Afinal, feito estrelas que brilham em paz
Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão
Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos
Como um Deus e amanheço mortal
Um sinal, uma porta pro infinito irreal
O que não pode ser dito, afinal
Ser um homem em busca de mais
Afinal, ser um homem em busca de mais.
Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos
Como um Deus e amanheço mortal
E assim, repetindo os mesmos erros, dói em mim
Ver que toda essa procura não tem fim
E o que é que eu procuro afinal
Um sinal, uma porta pro infinito irreal
O que não pode ser dito, afinal
Ser um homem em busca de mais
Afinal, feito estrelas que brilham em paz
Solidão, o silêncio das estrelas, a ilusão
Eu pensei que tinha o mundo em minhas mãos
Como um Deus e amanheço mortal
Um sinal, uma porta pro infinito irreal
O que não pode ser dito, afinal
Ser um homem em busca de mais
Afinal, ser um homem em busca de mais.
Composição:
Lenine e Dudu Falcão
Recompensa final
“Morrer é duro. Sempre senti que a
recompensa final dos mortos é nunca mais morrer!”
Irvin
D. Yalom, in Quando Nietzsche chorou
MAM recebe mostra com obras hiper-realistas de Ron Mueck
O
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM) espera quebrar recordes e atrair
ao menos 200 mil pessoas ao espaço com a exposição inédita no Brasil das obras
do australiano Ron Mueck. Entre 20 de março e 1 de junho os cariocas e
visitantes poderão se impressionar com nove obras do australiano, que tem
causado furor em galerias pelo mundo ao apresentar esculturas de cenas do
cotidiano nas mais diversas escalas retratadas com extremo realismo.
Mueck
mistura matérias como resina, fibra de vidro, silicone e acrílico, levando os
expectadores a questionarem a noção de real. Detalhes como a cor dos pelos na
perna dos personagens, veias e expressões impressionam. Apesar de algumas
esculturas chegarem a quase três metros de altura, caso do casal de idosos
recostado um no outro embaixo de um guarda-sol, a verossimilhança e o apreço
aos detalhes aproxima o trabalho dos visitantes.
Entre
os nove trabalhos da exposição destacam-se três obras confeccionadas especialmente
para a mostra. Além disso, acompanha o trabalho um documentário de 50 minutos,
batizado de “Still Life”, que mostra todo o solitário processo de composição de
Mueck, que evita falar com a imprensa ou mesmo explicar o seu trabalho.
“É
um trabalho que causa grande impacto nas pessoas, consegue falar com todos os
tipos de público”, explica Grazia Quaroni, que faz a curadoria da exposição
junto a Hervé Chandès, diretor da Fundação Cartier para a Arte Contemporânea em
Paris. “Há sempre mudanças de escala, nunca vai ser um manequim, mas apesar do
tamanho são situações íntimas. O artista não dá nenhuma informação sobre elas,
cada um pode fazer a sua interpretação”, afirma.
De
família alemã, Mueck nasceu na Austrália e hoje vive em Londres. Filho de fabricantes
de brinquedos ele trabalhou em diversos programas de televisão e na produção de
efeitos especiais antes de ingressar no mundo das artes cênicas.
Pela
primeira vez na América do Sul, a exposição já passou por Buenos Aires onde
levou 160 mil pessoas a Fundação Proa. Antes disso a mostra chegou ao número
recorde de 300 mil espectadores quando estreou em Paris. A seguir, mais trabalhos do artista.
Fonte: diversao.terra.com.br/arte-e-cultura
19/03/2014
Crenças
“Não é possível convencer um crente de
coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa
profunda necessidade de acreditar.”
Carl
Sagan
Consolo na praia
Foto: João Machado
Vamos, não
chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.
Carlos Drummond de Andrade
Fonte: brazilwonders.tumblr.com
Clic
Cidadão
se descuidou e roubaram seu celular. Como era um executivo e não sabia mais
viver sem celular, ficou furioso. Deu parte do roubo, depois teve uma ideia.
Ligou para o número do telefone. Atendeu uma mulher.
—
Aloa.
—
Quem fala?
—
Com quem quer falar?
—
O dono desse telefone.
—
Ele não pode atender.
—
Quer chamá-lo, por favor?
—
Ele esta no banheiro. Eu posso anotar o recado?
—
Bate na porta e chama esse vagabundo agora.
Clic.
A mulher desligou. O cidadão controlou-se. Ligou de novo.
—
Aloa.
—
Escute. Desculpe o jeito que eu falei antes. Eu preciso falar com ele, viu? É
urgente.
—
Ele já vai sair do banheiro.
—
Você é a...
—
Uma amiga.
—
Como é seu nome?
—
Quem quer saber?
O
cidadão inventou um nome.
—
Taborda. (Por que Taborda, meu Deus?) Sou primo dele.
—
Primo do Amleto?
Amleto.
O safado já tinha um nome.
—
É. De Quaraí.
—
Eu não sabia que o Amleto tinha um primo de Quaraí.
—
Pois é.
—
Carol.
—
Hein?
—
Meu nome. É Carol.
—
Ah. Vocês são...
—
Não, não. Nos conhecemos há pouco.
—
Escute Carol. Eu trouxe uma encomenda para o Amleto. De Quaraí. Uma pessegada,
mas não me lembro do endereço.
—
Eu também não sei o endereço dele.
—
Mas vocês...
—
Nós estamos num motel. Este telefone é celular.
—
Ah.
—
Vem cá. Como você sabia o número do telefone dele? Ele recém-comprou.
—
Ele disse que comprou?
—
Por que?
O
cidadão não se conteve.
—
Porque ele não comprou, não. Ele roubou. Está entendendo? Roubou. De mim!
—
Não acredito.
—
Ah, não acredita? Então pergunta pra ele. Bate na porta do banheiro e pergunta.
—
O Amleto não roubaria um telefone do próprio primo.
E
Carol desligou de novo.
O
cidadão deixou passar um tempo, enquanto se recuperava. Depois ligou.
—
Aloa.
—
Carol, é o Tobias.
—
Quem?
—
O Taborda. Por favor, chame o Amleto.
—
Ele continua no banheiro.
—
Em que motel vocês estão?
—
Por que?
—
Carol, você parece ser uma boa moça. Eu sei que você gosta do Amleto...
—
Recém nos conhecemos.
—
Mas você simpatizou. Estou certo? Você não quer acreditar que ele seja um
ladrão. Mas ele é, Carol. Enfrente a realidade. O Amleto pode Ter muitas
qualidades, sei lá. Há quanto tempo vocês saem juntos?
—
Esta é a primeira vez.
—
Vocês nunca tinham se visto antes?
—
Já, já. Mas, assim, só conversa.
—
E você nem sabe o endereço dele, Carol. Na verdade você não sabe nada sobre
ele. Não sabia que ele é de Quaraí.
—
Pensei que fosse goiano.
—
Ai esta, Carol. Isso diz tudo. Um cara que se faz passar por goiano...
—
Não, não. Eu é que pensei.
—
Carol, ele ainda está no banheiro?
—
Está.
—
Então sai daí, Carol. Pegue as suas coisas e saia. Esse negocio pode acabar
mal. Você pode ser envolvida. — Saia daí enquanto é tempo, Carol!
—
Mas...
—
Eu sei. Você não precisa dizer. Eu sei. Você não quer acabar a amizade. Vocês
se dão bem, ele é muito legal. Mas ele é um ladrão, Carol. Um bandido. Quem
rouba celular é capaz de tudo. Sua vida corre perigo.
—
Ele esta saindo do banheiro.
—
Corra, Carol! Leve o telefone e corra! Daqui a pouco eu ligo para saber onde
você está.
Clic.
Dez
minutos depois, o cidadão liga de novo.
—
Aloa.
—
Carol, onde você está?
—
O Amleto está aqui do meu lado e pediu para lhe dizer uma coisa.
—
Carol, eu...
—
Nós conversamos e ele quer pedir desculpas a você. Diz que vai devolver o
telefone, que foi só brincadeira. Jurou que não vai fazer mais isso.
O
cidadão engoliu a raiva. Depois de alguns segundos falou:
—
Como ele vai devolver o telefone?
—
Domingo, no almoço da tia Eloá. Diz que encontra você lá.
—
Carol, não...
Mas
Carol já tinha desligado.
O
cidadão precisou de mais cinco minutos para se recompor. Depois ligou outra
vez.
—Aloa.
Pelo
ruído o cidadão deduziu que ela estava dentro de um carro em movimento.
—
Carol, é o Torquato.
—
Quem?
—
Não interessa! Escute aqui. Você está sendo cúmplice de um crime. Esse telefone
que você tem na mão, esta me entendendo? Esse telefone que agora tem suas
impressões digitais. É meu! Esse salafrário roubou meu celular!
—
Mas ele disse que vai devolver na...
—
Não existe Tia Eloá nenhuma! Eu não sou primo dele. Nem conheço esse cafajeste.
Ele esta mentindo para você, Carol.
—
Então você também mentiu!
—
Carol...
Clic.
Cinco
minutos depois, quando o cidadão se ergueu do chão, onde estivera mordendo o
carpete, e ligou de novo, ouviu um "Alô" de homem.
—
Amleto?
—
Primo! Muito bem. Você conseguiu, viu? A Carol acaba de descer do carro.
—
Olha aqui, seu...
—
Você já tinha liquidado com o nosso programa no motel, o maior clima e você
estragou, e agora acabou com tudo. Ela está desiludida com todos os homens,
para sempre. Mandou parar o carro e desceu. Em plena Cavalhada. Parabéns primo.
Você venceu. Quer saber como ela era?
—
Só quero meu telefone.
—
Morena clara. Olhos verdes. Não resistiu ao meu celular. Se não fosse o celular,
ela não teria topado o programa. E se não fosse o celular, nós ainda estaríamos
no motel. Como é que chama isso mesmo? Ironia do destino?
—
Quero meu celular de volta!
—
Certo, certo. Seu celular. Você tem que fechar negócios, impressionar clientes,
enganar trouxas. Só o que eu queria era a Carol...
—
Ladrão!
—
Executivo!
—
Devolve meu...
Clic.
Cinco
minutos mais tarde. Cidadão liga de novo. Telefone toca várias vezes. Atende
uma voz diferente.
—
Ahn?
—
Quem fala?
—
É o Trola.
—
Como você conseguiu esse telefone?
—
Sei lá. Alguém jogou pela janela de um carro. Quase me acertou.
—
Onde você está?
—
Como eu estou? Bem, bem. Catando meus papéis, sabe como é. Mas eu já fui de
circo. É. Capitão Trovar. Andei até pelo Paraguai.
—
Não quero saber de sua vida. Estou pagando uma recompensa por este telefone. Me
diga onde você está que eu vou buscar.
—
Bem. Fora a Dalvinha, tudo bem. Sabe como é mulher. Quando nos vê por baixo,
aproveita. Ontem mesmo...
—
Onde você está? Eu quero saber onde!
— Aqui mesmo, embaixo do viaduto. De
noitinha. Ela chegou com o índio e o Marvão, os três com a cara cheia, e...
Luís
Fernando Veríssimo, in As
mentiras que os homens contam
18/03/2014
Dante
O
inferno — tão exato como um atestado.
O
purgatório — falso como toda alusão ao Céu.
O
paraíso — mostruário de ficções e de insipidezes...
A trilogia de Dante constitui a mais alta
reabilitação do diabo empreendida por um cristão.
Emil
Michel Cioran, in Silogismos da amargura
Imagino mais do que recordo
“Como serás tu que imagino mais do que recordo –
a memória traz consigo também o esquecimento, continuando embora memória de
gestos repetidos – com quem te encontras, como pensas, que brisas novas
suavizarão teu sangue inquieto. Na distância imprecisa que o tempo traz recordo
vagamente teu rosto rude e já marcado, a ternura inconsistente e macia da areia
deslizando em nossas mãos.”
Roland Barthes, in Fragmentos
de um discurso amoroso
Licor
Dulcíssimas cerejas
no ritual de outubro.
Se eu te mordesse os cílios
e gemesses de espanto
eu diria que o amor
é uma invenção do sonho,
que o corpo com que exerço
esta dança secreta
não tem definição
mas é garça e poeira,
lasca de unha, mancha
de sangue num lençol.
no ritual de outubro.
Se eu te mordesse os cílios
e gemesses de espanto
eu diria que o amor
é uma invenção do sonho,
que o corpo com que exerço
esta dança secreta
não tem definição
mas é garça e poeira,
lasca de unha, mancha
de sangue num lençol.
Riríamos do amor
de tal forma alumbrados
que o sonho passaria
e eu veria a verdade
que paira quando tudo
é prazer triturado.
de tal forma alumbrados
que o sonho passaria
e eu veria a verdade
que paira quando tudo
é prazer triturado.
Prazer? Eu sondaria
milímetros de nervos
e pesaria os gestos
as mínimas torções
concluindo com o nada
de uma nuvem traçada
numa folha vadia.
(Nem sequer uma nuvem
distante e verdadeira.)
milímetros de nervos
e pesaria os gestos
as mínimas torções
concluindo com o nada
de uma nuvem traçada
numa folha vadia.
(Nem sequer uma nuvem
distante e verdadeira.)
Se quisesses me ouvir
eu contaria a história
de uma imagem que quis
roubar do que é real
uma gota de mel.
eu contaria a história
de uma imagem que quis
roubar do que é real
uma gota de mel.
Diria que este furto
sem dimensão exata
seria toda a glória
desta imagem sem voz.
Se quisesses me ouvir
eu te prometeria
logo após dispensar
levando a minha história.
sem dimensão exata
seria toda a glória
desta imagem sem voz.
Se quisesses me ouvir
eu te prometeria
logo após dispensar
levando a minha história.
E eu te desejaria
o porto da loucura
para que só falasses
desta opaca memória.
o porto da loucura
para que só falasses
desta opaca memória.
Dulcíssimas cerejas.
Outubro, a névoa, nada
reconstrói o perdido
quando é mito refeito
de improvável delícia.
Outubro, a névoa, nada
reconstrói o perdido
quando é mito refeito
de improvável delícia.
Dulcíssimas cerejas,
imponderável gesto
suspenso entre o remorso
e a frustrada carícia.
imponderável gesto
suspenso entre o remorso
e a frustrada carícia.
Walmir
Ayala
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