20/10/2012
Ao dia do Poeta: O Cúmplice, de Jorge Luis Borges
Crucificam-me e eu tenho de ser a cruz e
os pregos.
Estendem-me a taça e eu tenho de ser a cicuta.
Enganam-me e eu tenho de ser a mentira.
Incendeiam-me e eu tenho de ser o inferno.
Tenho de louvar e de agradecer cada instante do tempo.
O meu alimento é todas as coisas.
O peso exato do universo, a humilhação, o júbilo.
Tenho de justificar o que me fere.
Não importa a minha felicidade ou infelicidade.
Sou o poeta.
Enganam-me e eu tenho de ser a mentira.
Incendeiam-me e eu tenho de ser o inferno.
Tenho de louvar e de agradecer cada instante do tempo.
O meu alimento é todas as coisas.
O peso exato do universo, a humilhação, o júbilo.
Tenho de justificar o que me fere.
Não importa a minha felicidade ou infelicidade.
Sou o poeta.
Jorge
Luis Borges, in A Cifra
Ao Dia do Poeta: Destino de poeta, de Octavio Paz
Palavras? Sim, de ar,
e no ar perdidas.
Deixa-me perder entre palavras,
deixa-me ser o ar nuns lábios,
um sopro vagabundo sem contornos
que o ar desvanece.
Também a luz em si mesma se perde.
Deixa-me perder entre palavras,
deixa-me ser o ar nuns lábios,
um sopro vagabundo sem contornos
que o ar desvanece.
Também a luz em si mesma se perde.
Octavio
Paz, in Liberdade sob Palavra
Hoje, Dia do Poeta, música em homenagem com O Teatro Mágico - Pena
O poeta pena quando cai o
pano
E o pano cai
Um sorriso por ingresso
Falta assunto, falta acesso
Talento traduzido em cédula
E a cédula tronco é a cédula mãe solteira
O poeta pena quando cai o pano
E o pano cai
Acordes em oferta, cordel em promoção
A Prosa presa em papel de bala
Música rara em liquidação
E quando o nó cegar
Deixa desatar em nós
Solta a prosa presa
A Luz acesa
Lá se dorme um Sol em mim menor
Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior (4x)
O palhaço pena quando cai o pano
E o pano cai
A porcentagem e o verso
rifa, tarifa e refrão
Talento provado em papel moeda
Poesia metamorfoseada em cifrão
O palhaço pena quando cai o pano
E o pano cai
Meu museu em obras, obras em leilão
Atalhos, retalhos, sobras
A matemática da arte em papel de pão
E quando o nó cegar
Deixa desatar em nós
Solta a prosa presa
A luz acesa
Já se abre um sol em mim maior
[Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior] (4x)
E o pano cai
Um sorriso por ingresso
Falta assunto, falta acesso
Talento traduzido em cédula
E a cédula tronco é a cédula mãe solteira
O poeta pena quando cai o pano
E o pano cai
Acordes em oferta, cordel em promoção
A Prosa presa em papel de bala
Música rara em liquidação
E quando o nó cegar
Deixa desatar em nós
Solta a prosa presa
A Luz acesa
Lá se dorme um Sol em mim menor
Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior (4x)
O palhaço pena quando cai o pano
E o pano cai
A porcentagem e o verso
rifa, tarifa e refrão
Talento provado em papel moeda
Poesia metamorfoseada em cifrão
O palhaço pena quando cai o pano
E o pano cai
Meu museu em obras, obras em leilão
Atalhos, retalhos, sobras
A matemática da arte em papel de pão
E quando o nó cegar
Deixa desatar em nós
Solta a prosa presa
A luz acesa
Já se abre um sol em mim maior
[Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior] (4x)
Segurança e maturidade do espírito
“Uma
certa vivacidade de impressões, mais diretamente dependentes da sensibilidade
física, decresce com a idade. Ao chegar aqui, e sobretudo depois de ter aqui
passado alguns dias, não senti, desta vez, essas vagas de tristeza ou de
entusiasmo que este local me costumava comunicar, e cuja recordação, depois, me
era tão doce.
Deixá-lo-ei,
se calhar, sem a pena que outrora sentia. O meu espírito, por seu turno, tem hoje uma segurança muito maior, uma maior
capacidade de fazer associações e de se exprimir; a inteligência cresceu, mas a
alma perdeu parte da sua elasticidade e irritabilidade. E porque é que, ao fim
e ao cabo, não partilhará o homem o destino comum de todos os outros seres?
Ao pegarmos num fruto delicioso, será
justo pretender respirar ao mesmo tempo o perfume da flor? Foi preciso passar
pela sutil delicadeza da nossa sensibilidade juvenil para chegar a esta
segurança e maturidade do espírito. Talvez os grandes homens - é o que eu penso
- sejam aqueles que, numa idade em que a inteligência possui já a sua plena
força, ainda conservam parte dessa impetuosidade das impressões, que é própria
da juventude.”
Eugène
Delacroix, in Diário
19/10/2012
Último dia

Alço voo em busca do sol
O que menos importa
É a temperatura
Vou destruí-lo.
É a temperatura
Vou destruí-lo.
Queimar-me?
Mais quente
É o lugar
De onde venho!
Mais quente
É o lugar
De onde venho!
Cuspo fogo
Labaredas
Vou deixando
Pelo caminho.
Labaredas
Vou deixando
Pelo caminho.
Derreto aço
Como e fumo brasa
Queimo
O inferno.
Como e fumo brasa
Queimo
O inferno.
Sou o caos
O ódio
É meu combustível
Tentem apagá-lo.
O ódio
É meu combustível
Tentem apagá-lo.
E conhecerão
Uma fúria
Muito pior
Que a minha.
Uma fúria
Muito pior
Que a minha.
Anchieta Rolim, artista plástico e poeta de Areia Branca
- RN
O equilíbrio da vida
“E enquanto uma chora, outra ri; é a lei
do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria
monótono, tudo rindo, cansativo; mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas,
soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessária,
e faz-se o equilíbrio da vida.”
Machado
de Assis, in Quincas
Borba
Demétrius Coelho na XII Mostra Officina Interiores
A arte
sempre está presente na Mostra Officina Interiores. Desde a primeira edição, o
artista plástico Demétrius Coelho promove o enlace oportuno entre a arquitetura
e o universo subjetivo da arte com obras que atendem as exigências dos
profissionais do ramo para ambientação de diferentes estilos de projeto. São
peças em madeira de demolição, mármore, resina, aço e ônix, com as formas
imaginadas e esculpidas pela mente e mãos do artista.
Esculturas em madeira de
demolição no Louge da XXII Mostra Officina Interiores
Esculturas em madeira de
demolição no Louge da XXII Mostra Officina Interiores
Esculturas em madeira de demolição no Louge da XXII Mostra Officina Interiores
Escultura em resina de poliéster com acabamento Levigado no
Louge da XXII Mostra Officina Interiores
Escultura em madeira de demolição no Loft de Monique Brasil
e Jussara Freire
Escultura em madeira de demolição no Loft de Monique Brasil
e Jussara Freire
Escultura
em mármore branco no Loft de Marília Bezerra
Escultura
em madeira de demolição na Varanda Gourmet de Rita Albuquerque
Esculturas
em madeira de demolição no Loft de Marília Bezerra
Esculturas
em madeira de demolição no Loft de Marília Bezerra
Escultura
em madeira de demolição no Living de Francisco Ribeiro e Rosely Ribeiro
Escultura
em madeira de demolição na Sala de Jantar de Carol Melo
Por Demétrius Coelho - Matéria exclusiva para o Rapadura Cult
18/10/2012
O novo causídico
Eis
que temos um novo causídico, o Dr. Bucéfalo. Pouco há em sua aparência que nos
leve a recordar os tempos em que ele ainda era o cavalo-de-batalha de Alexandre
da Macedônia. No entanto, qualquer pessoa bem informada estaria a par de muitas
coisas a respeito dele. Ainda recentemente, por exemplo, vi um inexpressivo
meirinho – com os olhos espertos que os joão-ninguém costumam ter – acompanhar
com espanto os movimentos de nosso causídico quando ele subiu um a um os
degraus do Tribunal de Justiça, erguendo bem alto as coxas e fazendo ressoar no
mármore cada passo que dava.
De
um modo geral, a Corte aprova a investidura do Dr. Bucéfalo. Com surpreendente
perspicácia, dizem-se a si próprios os seus membros que o Dr. Bucéfalo está
numa posição bastante difícil diante do ordenamento atual da sociedade, mas
merece todo apreço precisamente por isso, bem como pela sua importância
histórica. Nos dias que correm – ninguém poderá negá-lo – já não temos mais
conosco uma personalidade como Alexandre, o Grande. No entanto, não são poucos
os que sabem matar; da mesma forma não há falta de eficiência sempre que se
quer atingir com a lança um amigo no outro lado da mesa de jogo. Muitos acham
que a Macedônia é demasiado pequena, e amaldiçoam Felipe – o pai -, mas são
totalmente incapazes de liderar o avanço sobre a Índia. Ao tempo dele, no
entanto, as portas da Índia já eram inacessíveis, mas, pelo menos, a espada
real sempre apontava a direção correta. Hoje, como se sabe, essas portas foram
renovadas para outro lugar, para um sítio muito mais longe, muito mais alto. Já
não temos quem nos indique a rota; muitos brandem suas espadas, mas as utilizam
apenas para floreios inúteis e, consequentemente, os olhares que os acompanham
tornam-se perdidos e confusos.
Talvez seja de fato melhor, por isso
mesmo, que todos mergulhemos nos livros jurídicos, tal como fez Bucéfalo. Livre
de todas as peias, suas coxas também libertadas das coxas de seu ginete, ele se
volta e lê – à luz suave do lampião, e distante dos fragores da batalha de
Issus – as páginas de nossos mais vetustos códigos.
Franz
Kafka, in Contos, fábulas e aforismos
A quota-parte dos males
“Em todas as situações em que nos coloca
a Fortuna, comparamo-nos ao que está acima de nós e olhamos para aqueles que
estão melhor que nós. Confrontemo-nos com o que está abaixo: não há ninguém que
seja tão mal-aventurado que não encontre mil exemplos com que se consolar. É
defeito nosso antes encararmos de má vontade o que se acha à nossa frente que
de bom grado o que se acha atrás. E, no entanto, como dizia Sólon, se num
montão se empilhassem todos os males, não haveria ninguém que não preferisse
continuar com os males que tem a chegar, com todos os outros homens, a uma
equitativa repartição desse montão de males e a ficar com a sua quota-parte.”
Michel
de Montaigne, in Ensaios - Da Vaidade
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