24/09/2012

Um sonho de simplicidade

Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade. Será um sonho vão? Detenho-me um instante, entre duas providências a tomar, para me fazer essa pergunta. Por que fumar tantos cigarros? Eles não me dão prazer algum; apenas me fazem falta. São uma necessidade que inventei. Por que beber uísque, por que procurar a voz de mulher na penumbra ou os amigos no bar para dizer coisas vãs, brilhar um pouco, saber intrigas?
Uma vez, entrando numa loja para comprar uma gravata, tive de repente um ataque de pudor me surpreendendo assim, a escolher um pano colorido para amarrar ao pescoço.
A vida bem poderia ser mais simples. Precisamos de uma casa, comida, uma simples mulher, que mais? Que se possa andar limpo e não ter fome, nem sede, nem frio. Para que beber tanta coisa gelada? Antes eu tomava a água fresca da talha, e a água era boa. E quando precisava de um pouco de evasão, meu trago de cachaça.
Que restaurante ou boate me deu o prazer que tive na choupana daquele velho caboclo do Acre? A gente tinha ido pescar no rio, de noite. Puxamos a rede afundando os pés na lama, na noite escura, e isso era bom. Quando ficamos bem cansados, meio molhados, com frio, subimos a barranca, no meio do mato, e chegamos à choça de um velho seringueiro. Ele acendeu um fogo, esquentamos um pouco junto do fogo, depois me deitei numa grande rede branca — foi um carinho ao longo de todos os músculos cansados. E então ele me deu um pedaço de peixe moqueado e meia caneca de cachaça. Que prazer em comer aquele peixe, que calor bom em tomar aquela cachaça e ficar algum tempo a conversar, entre grilos e votes distantes de animais noturnos.
Seria possível deixar essa eterna inquietação das madrugadas urbanas, inaugurar de repente uma vida de acordar bem cedo? Outro dia vi uma linda mulher, e senti um entusiasmo grande, uma vontade de conhecer mais aquela bela estrangeira: conversamos muito, essa primeira conversa longa em que a gente vai jogando um baralho meio marcado, e anda devagar, como a patrulha que faz um reconhecimento. Mas por que, para que, essa eterna curiosidade, essa fome de outros corpos e outras almas?
Mas para instaurar uma vida mais simples e sábia, então seria preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse ofício absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas... Seria preciso fazer algo de sólido e de singelo: tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de útil e concreto, que me fatigasse o corpo, mas deixasse a alma sossegada e limpa.
Todo mundo, com certeza, tem de repente um sonho assim. E apenas um instante. O telefone toca. Um momento! Tiramos um lápis do bolso para tomar nota de um nome, um número... Para que tomar nota? Não precisamos tomar nota de nada, precisamos apenas viver — sem nome, nem número, fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeirão.
Rubem Braga, in A traição das elegantes

23/09/2012

Arte de Rua em Brest, França, por Liliwenn & Bom K

Fonte: www.streetartutopia.com

Um disco fundamental da MPB

Caetano Veloso - 1968

As mudanças operadas na sociedade brasileira a partir da segunda metade dos anos sessenta foram muito profundas e assentaram as bases do pensamento e do sentimento nacional em relação ao conceito de pátria. Vivíamos um período onde a cada dia verificava-se uma crescente diminuição das liberdades individuais, fruto do progressivo fechamento do regime instaurado a partir de março de 1964, que entre outras coisas não admitia que sua autoridade fosse contestada. Acontece que o mundo respirava o ambiente da contestação, da renovação de valores, não se admitindo mais nenhum tipo de autoritarismo que viesse cercear as ideias e o ideal de liberdade que estava presente na mente e nos corações dos jovens, esses os protagonistas dessa mudança de mentalidade proposta.
A cada dia acirravam-se os embates entre aqueles que almejavam um mundo livre, onde reinaria o “paz e amor” e os outros que desejavam sufocar essas tentativas de transformação em prol de um ideário baseado no conceito de esquerda/direita, comunismo/capitalismo, discursos esses que se enquadravam no esqueça ideológico da guerra fria. Se para alguns a América Latina tinha criado seus mitos nas figuras de Che Guevara e Fidel Castro, os americanos do norte haviam em nome dessa propalada escalada de contra ofensiva comunista resolvido enviar tropas ao Vietnã para intrometer-se numa situação política local transformando-a num sangrento embate onde os maiores perdedores, como sempre acontece, foram as populações civis e os soldados que para la iam como buchas de canhão para servirem a um ideal que nem eles mesmos sabiam qual era. O resultado foi a fragorosa derrota da superpotência, tendo que retirar suas tropas de forma humilhante, mas que infelizmente não foram suficientes para lhe servirem de lição.
No centro das atenções mundiais estavam os artistas populares que buscavam através da arte serem os porta-vozes de uma geração que vivia em conflito ideológico, mas que no fundo sabiam o que desejavam, expressando-se de maneira livre e tornando-se os realizadores da trilha sonora de um dos períodos mais interessantes da nossa história contemporânea.
Foi com esse sentimento e também buscando um retorno a nossas mais legitimas tradições, com um diálogo nativista, transgressor e revolucionário que um grupo de baianos a partir de 1967 se transformariam na consciência e na discussão do que é ser brasileiro, transgredindo regras de comportamento, impondo opiniões conflitantes/contraditórias, porém demonstrando que não estávamos fora do alcance dos acontecimentos mundiais, eles apenas precisariam ser recontextualizados com nosso ideário de pátria, nação, nacionalidade, modernidade e apontar os rumos que essa discussão iria provocar para o nosso desenvolvimento e amadurecimento futuros.
Com esse clima surgem então Caetano Veloso e Gilberto Gil na ponta do processo e com eles e sua arte/manifesto algumas das mais interessantes mensagens musicais de período histórico recente. Depois de ter participado do Festival da Canção da TV Record e lançado um primeiro disco com Gal Costa, Caetano nos brinda com um LP que tem a sua visão pessoal e o seu posicionamento nesse ambiente de mutação constante.
O disco que traz na capa seu nome e foi lançado em 1968, um ano emblemático para o nosso país, nos revela canções como Tropicália onde o discurso da modernidade transformadora/contestadora se insere com uma colagem critica do contexto nacional; Soy loco por ti América, numa mistura de rumba, cumbia e mambo, com parte da letra em espanhol é um libelo a favor da revolução comunista/socialista cubana e uma homenagem a Che Guevara recentemente assassinado; Superbacana com uma batida pop aproveita sem cerimônia inúmeros clichês da época numa interessante colagem literária, Alegria, alegria, com sua múltipla e fragmentária imagem de nossa sociedade inaugura uma nova linguagem urbana na musica brasileira tem o acompanhamento do grupo argentino Beat Boys que com suas guitarras elétricas provocou uma grande polemica alimentada por aqueles que defendiam um nacionalismo musical e não aceitavam a introdução de instrumentos típicos do Rock and Roll em nossa canção popular.
Destaque ainda para Clarice que entrou de última hora por Caetano considerá-la muito tradicional e não se engajar no espírito do disco e acabou tornando-se num de seus destaques pela beleza da poesia e da melodia; Paisagem útil, Clara, Anunciação e Eles que demonstram em sua estrutura uma postura poética influenciada pela mensagem modernista e antropofágica de autores como Mario de Andrade e Oswaldo de Andrade, um retorno às nossas tradições interioranas com Ave Maria, uma autobiografia em No dia que eu vim-me embora e uma canção dor de cotovelo com Onde andarás, em que Caetano chega inclusive a imitar a impostação e a pronúncia vocal de Nelson Gonçalves.
Com arranjos arrojados uma mistura de ritmos e gêneros musicais como samba canção, bolero, baião, pop/rock, beguim e bossa nova, além de uma capa colorida/tropicalista que demonstrava o visual estético do movimento cultural que ajudara a fundar esse disco de Caetano Veloso insere-se portanto como um dos trabalhos mais importantes de nossa moderna musica popular, um retrato poético/musical de uma época que mudou nossas vidas para sempre. Ouvi-lo é refletir sobre um tempo que fundamentou as bases do pensamento intelectual brasileiro recente e que nos influencia até os dias de hoje.
Luiz Américo Lisboa Junior, in www.luizamerico.com.br
"Haja ou não deuses, deles somos servos."
Fernando Pessoa

O mito do eterno retorno

“O mito do eterno retorno afirma, por negação, que a vida que desaparece de uma vez por todas, que não volta mais, é semelhante a uma sombra, não tem peso, esta morta por antecipação, e por mais atroz, mas bela, mais esplêndida que seja, essa atrocidade, essa beleza, esse esplendor não tem o menor sentido [...] Se cada segundo de nossa vida deve se repetir um número infinito de vezes, estamos pregados na eternidade como Cristo na cruz. Essa ideia é atroz. No mundo do eterno retorno, cada gesto carrega o peso de uma responsabilidade insustentável. É isso que levava Nietzsche a dizer que a ideia do eterno retorno é o mais pesado dos fardos [...] O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão [...] Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é. Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semirreal, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes...”
Milan Kundera, in A Insustentável Leveza do Ser

22/09/2012

Crise na saúde pública do RN

Charge de Ivan Cabral

Janela sobre a utopia


Ela está no horizonte – diz Fernando Birri. – Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais a alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para caminhar.
Eduardo Galeano, in As palavras andantes

Abertura de Cosmopolis


Mundo novo, vida nova, de Gonzaguinha


Buscar um mundo novo, vida nova
E ver, se dessa vez, faço um final feliz
Deixar de lado
Aquela velha estória
O verso usado
O canto antigo
Vou dizer adeus
Fazer de tudo e todos mera lembrança
Deixar de ser só esperança
E por minhas mãos, lutando, me superar
Vou rasgar no tempo o meu próprio caminho
E assim, abrir meu peito ao vento, me libertar
De ser somente aquilo que se espera
Em forma, jeito, luz e cor
E vou, vou pegar um mundo novo, vida nova
Vou pegar um mundo novo, vida nova.

Buscar um mundo novo, vida nova
E ver, se dessa vez, faço um final feliz
Deixar de lado
Aquela velha estória
O verso usado
O canto antigo
Vou dizer adeus.

Quase Nada 175

Quase Nada 175
Fábio Moon e Gabriel Bá, in www.10paezinhos.com.br

A famosa Samanta

― Quer dizer que eu finalmente vou conhecer a famosa Samanta... ― disse Gustavo.
― Você vai amar a Samanta, Gu! ― disse Suzaninha.
Suzaninha não parara de sorrir desde que recebera o telefonema da irmã dizendo que chegaria no dia seguinte e ficaria com eles. Samanta não era apenas sua irmã mais velha. Era o seu ídolo. Gustavo já cansara de ouvir as histórias da Samanta que Suzaninha contava com os olhos brilhando. Samanta fumando na mesa para desafiar o pai, e apagando o cigarro no pudim para escandalizar a mãe. Samanta namorando três ao mesmo tempo e tratando os namorados como empregados ("Homem só serve para carregar peso" era uma das suas frases). Samanta não apenas aderindo a todas as causas nobres como assumindo a liderança do movimento. Samanta mandando em todos à sua volta, e sempre conseguindo o que queria. Samanta brilhante. Samanta fantástica.
Samanta irresistível.
Gustavo não estava em casa quando Samanta chegou. Suzaninha abraçou a irmã, emocionada, mas Samanta a afastou, examinou seu rosto e sua roupa e decretou:
― Você está péssima.
― Você está linda!
― Esse seu marido não cuida de você, não?
― Cuida. Ele é formidável. Você vai ver.  
E depois:
― Você vai amar o Gustavo, Sam!
Samanta dormiria numa cama de armar na salinha do computador do Gustavo, que desocupara uma das suas estantes para a cunhada pôr suas coisas. Depois de examinar todo o apartamento com uma leve expressão de nojo ("Pequeno, não é?"), Samanta se atirara numa poltrona, aceitara uma bebida ("Coca daiti com uma rodela de limão e pouco gelo") e passara a fazer um relatório de casa, onde, para resumir, continuava tudo a mesma merda, inclusive o pai e a mãe.
A novidade era ela. Samanta tinha um plano.
― Suzeca, decidi ter um filho.
― O quê?!
Um filho. Você sabe, aquelas coisas que saem de dentro da gente e fazem barulho.
― Mas assim, sem mais nem menos? Suzana queria dizer "sem casamento nem marido?” – Sem mais nem menos, não. Será uma coisa bem planejada. Para começar, preciso encontrar o homem ideal. É para isso que estou aqui.
― Não era você que dizia que homem só serve para carregar peso? ― E segurar a porta. Era. Mas reavaliei meus conceitos. Também servem como reprodutores, até que inventem coisa melhor.
Segundo Samanta, só os mortos nunca mudavam de filosofia.
Samanta pôs-se a descrever o homem que procurava. O físico. O temperamento. O jeito de ser. O posicionamento político ("De esquerda, mas não muito"). E quanto mais Samanta falava, mais Suzaninha tentava controlar o pensamento que a assolava, o vazio no seu estômago que aumentava, a certeza que crescia. Mas não havia como evitar a conclusão aterradora: Samanta procurava um homem como Gustavo. E Samanta sempre conseguia o que queria.
Quando finalmente Samanta disse "Mas chega de falar de mim, me conte sobre você, Suzeca. Você sente muito a minha falta?" Suzana tinha decidido o que fazer. E quando Samanta comentou que Gustavo estava custando a chegar, que não podia esperar para conhecer o famoso Gustavo, disse:
― Eu me esqueci. Hoje ele tinha médico.
― Médico? Algum problema?
― Nada demais. Quer dizer, é chato mas...
― Suzeca. Não me diz que...
Suzaninha fez que "sim" com a cabeça. Sim, era o que Samanta estava pensando.
― Disfunção erétil ― Suzeca! Mas hoje existem esses remédios...
― Nada funciona com o Gustavo.
Quando Gustavo chegou, deu com as duas irmãs abraçadas no sofá, Samanta acariciando a cabeça de Suzaninha e dizendo:
― Suzeca, Suzeca...
Durante o jantar, Suzaninha viu Samanta examinando Gustavo e pensou: "Ela deve estar pensando ele é tudo que eu queria, mas não serve, maldição, não serve, pobre da Suzaninha." E Samanta, examinando Gustavo, pensou "Hmmm, essa disfunção erétil eu curo, ah se não curo". Pois Samanta não apenas descobrira o reprodutor que queria, também descobrira outra causa nobre.
Suzaninha ainda a agradeceria.
Luís Fernando Veríssimo

A certeza e o coração (ou causa mortis)

Um dia, há tempos mais além de hoje,
meu pai, categoricamente seguro e certo de si e da vida,
me disse, sem titubear nem tampouco ponderar,
que os opostos não se atraiam
- pausa pra tragar seu cigarro –
que isso era ilusão romântica
- me encarou:
ilusão não sustenta a realidade -
que opostos se afastavam
(eu, hoje: mais que todo o resto que se afasta. Será?)
completou, sem piscar nem refletir,
que as semelhanças mantinham a união.
Apagou o cigarro
e tempos depois enfartou sem clemência
quando já não lhe salvaria qualquer dúvida.
, do blog bicho de sete cabeças

Acerca do domínio de si próprio

“O domínio de si próprio, embora eu não negue de forma alguma a sua necessidade em muitas circunstâncias, não é a melhor forma de conseguir que um ser humano se conduza bem. Tem o inconveniente de diminuir a energia e as faculdades criadoras. É como uma pesada armadura que ao mesmo tempo que impede o vosso braço de bater nos vossos vizinhos, o torna igualmente incapaz de um movimento útil. Os que não têm outro apoio além da disciplina que se impõem a si próprios, tornam-se obstinados e timoratos com receio de si próprios.
Mas os impulsos aos quais eles não permitem qualquer saída, continuam a existir neles a tal como os rios represados, cedo ou tarde transbordarão. As forças a que nós contrariamos a função natural que é o desabrochar da nossa própria vida, ou se atrofiam ou acabam por ter uma saída perturbando a vida de outrem. Elas procurarão qualquer saída do gênero das que não representam nenhum perigo para nós, por exemplo, a tirania doméstica. Se essa saída não for suficiente, há outras que o podem ser. Há sempre condenados e párias a quem a sociedade permite torturar e isso não comporta nenhum risco.
Esses párias, tanto podem ser criminosos como escravos. Do ponto de vista da virtude ultrajada, a lei penal tem o mérito de oferecer uma saída a esses impulsos agressivos que a covardia, disfarçada em moralidade, refreia nas suas formas mais espontâneas. A guerra tem a mesma vantagem. Vós não podeis matar o vosso vizinho que detestais talvez cordialmente, mas um pouco de propaganda é suficiente para transferir esse ódio a qualquer nação estrangeira, contra a qual todos os vossos instintos assassinos se transformarão em heroísmo patriótico."
Bertrand Russell, in A Última Oportunidade do Homem

21/09/2012

Algas petrificadas: as formas da natureza sob as mãos do artista


Há tempos, pensar em arte deixou de remeter apenas a formas figurativas e de interpretação objetiva. Ao longo das épocas, a evolução das técnicas e a liberdade criativa conquistada pelos artistas e pela sociedade permitiram que ela - a arte - tomasse um novo rumo. Hoje, a leitura de um artefato artístico pode levar a múltiplos significados, passando inclusive pelo conhecimento da personalidade do criador, ou mesmo de um momento histórico em que se insere.


No campo das esculturas, ainda de forma mais notória por se tratar de uma expressão tridimensional, a ruptura dessa barreira levou a uma evolução no segmento, permitindo-lhe trabalhar com materiais e superfícies das mais diversas. No último século, especialmente, o uso de matérias primas sintéticas, como resinas, pedras artificiais, plásticos, entre outros, agregaram um novo significado ao verbo “esculpir”: as possibilidades de manuseio e a flexibilidade das formas possíveis levam a um amplo leque de possibilidades às mãos de quem se propõe a criar.


Para Demétrius Coelho, artista potiguar cujas obras usam diversos materiais, essa versatilidade ganha máxima ênfase e acaba por refletir em um sem fim de formas e significados. Especialmente nas esculturas realizadas em resina, que incluem desde peças para paredes a outras, para apoio, as formas orgânicas e a diversidade de cores permitida pelo material expressam a liberdade criativa garantida ao artista e explorada à exaustão. Sua obra está exposta na Galeria Demétrius Coelho (Rua Seridó, 493 – Petrópolis – Natal/RN, 84 3211 0973) e na Galeria de Artes Mariana Furlani (Rua Canuto de Aguiar, 1401 – Meireles – Fortaleza/CE, 85 3242 2024).


Ao trabalhar com um material tão flexível e versátil, a natureza (sempre ela!) aparece como grande fonte de inspiração, refletidas nas formas orgânicas de algas marinhas, por exemplo: leves, sinuosas e delicadas, as formas conquistadas exprimem a suavidade e a tranquilidade que a água nos remete, celebrando uma fase de grande produtividade para o artista. Reunindo cor, forma, textura, brilho e sentimento, Demétrius Coelho transmite em seu trabalho, amadurecido pela experiência de anos, sua expressão sobre o que vê ao seu redor.


Em cores diversas ou monocromáticas, opacas ou translúcidas, lisas ou texturizadas, as peças desfrutam da melhor maneira as propriedades que a resina oferece como poucos materiais. Saber extrai-las é o grande segredo. E, claro, isso apenas cabe ao artista.


Texto e fotos cedidos gentilmente ao blog pelo artista plástico Demétrius Coelho, editor da Revista Formas.

Show de Leila Pinheiro em Mossoró

Leila Pinheiro_Foto Marcelo Coelho

O Projeto MPB Petrobras chega a Mossoró e traz para o palco do Teatro Municipal Dix-Huit-Rosado a cantora Leila Pinheiro. A artista se apresenta no dia 22set, às 21h, em show de voz e piano. A cantora Alzinete Di Oliveira mostra o seu trabalho no show de abertura. O MPB Petrobras está há 15 anos em cartaz e mantêm em 10 capitais uma programação musical de qualidade a preços populares: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia). Patrocínio exclusivo da PETROBRAS, com realização da Caderno 2 Produções Artísticas e produção local de Agenda Propaganda.
Leila Pinheiro apresenta em Mossoró um show inédito onde canta canções de compositoras brasileiras. Décadas depois de Chiquinha Gonzaga quebrar barreiras preconceituosas no mundo machista de então e conquistar o seu espaço na música popular brasileira, o país conheceu um número significativo de compositoras. Para reverenciar essa produção feminina, Leila selecionou um repertório que retrata a versatilidade destas compositoras, da pioneira Chiquinha Gonzaga a Adriana Calcanhoto, de Dolores Duran a Mart´nália, passando por Maysa, Dona Ivone Lara, Sueli Costa, Fátima Guedes e Zélia Duncan, somente para citar algumas. Sozinha ao piano, a artista faz um passeio por décadas da música popular brasileira e mostra, entre outras canções, as músicas Essa Mulher de Joyce, Fogueira de Ângela RoRo e Só de Você de Rita Lee.
Para este show Leila vai abrir um espaço no final para mostrar algumas músicas do seu último álbum – meu segredo mais sincero, feito em homenagem a Renato Russo e ao grupo Legião Urbana. No repertório, as canções Pais e Filhos, Eduardo e Mônica e Mais Uma Vez, dentre outras do repertório da banda.

Serviço: MPB Petrobras
Show: Leila Pinheiro – Voz e Piano
Show de Abertura: Alzinete Di Oliveira
Dias: 22 de setembro
Horário: 21h
Local: Teatro Municipal Dix-Huit-Rosado
Convites: R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia-entrada)
Classificação: 15 anos
Charge de Dácio (Correio Popular)

As pessoas, os escritores


“O escritor William Faulkner tinha boas lembranças de seu emprego num bordel. “Para um artista, é o melhor lugar”, declarou, “Têm-se liberdade econômica, um teto em cima e quase nada para fazer, salvo cuidar de umas escriturações simples e ir mensalmente pagar à polícia local. O lugar é quieto durante as manhãs, o melhor momento do dia para a literatura. E há bastante vida social à noite, o que afasta o tédio.
Hilda Hilst mudou-se para um sítio isolado, onde escrevia durante o dia, e aguardava a visita de discos voadores ao anoitecer. Para Ernest Hemingway, os melhores lugares eram os hotéis. “Basta uma cama, uma boa mesa e um quarto limpo.” Françoise Sagan exigia apenas que o lugar fosse bastante iluminado. Caio Fernando Abreu não escrevia sem uma rosa amarela e uma foto de Virginia Woolf à sua frente. Balzac escreveu a sua Comédia Humana trancado secretamente em um quarto minúsculo, fugindo de credores. Nelson Rodrigues criava seus personagens em meio ao burburinho frenético das redações de jornal. Anton Tchekhov elaborava a maior parte de seus contos entre consultas médicas e diagnósticos. Clarice Lispector escrevia com a sua Olivetti no colo, entre os filhos e os afazeres domésticos. Gustave Flaubert fazia dos corpos de suas amantes sólidos apoios para a pena e os papéis.
Dorothy Parker levava seis meses para escrever um conto. Primeiro imaginava-o do início ao fim, só depois se sentava para escrever frase a frase. Ela nunca tinha o primeiro esboço porque não conseguia escrever cinco palavras sem modificar sete, como dizia. Dorothy Canfield Fisher comparava a redação de um primeiro rascunho a uma descida de esqui por uma encosta íngreme, que ela não tinha a certeza de ser bastante hábil para realizar: “Eu escrevia tão depressa quanto o meu lápis permitia, indicando palavras inteiras com os meus rabiscos”. Frank O’Connor preferia escrever o que lhe viesse à cabeça, ou ao papel, sem julgamentos. Acreditava que no emaranhado de ideias apareceria o contorno principal da sua história. William Styron confessava ter uma necessidade neurótica de melhorar cada parágrafo, até mesmo cada frase, à medida que escrevia, o que tornava o ato de reescrever interminável. Françoise Sagan levava no máximo três dias revisando cada novela. A maior parte do tempo era dedicada a eliminar vícios literários: “Adjetivos, advérbios e toda palavra que lá estivesse apenas para produzir efeito”. Georges Simenon era da mesma opinião. “Corto tudo que for muito literário”, declarou uma vez em uma entrevista, “Se me deparo com uma bela frase, por exemplo, elimino-a”. A beleza para ele era na maioria das vezes apenas decorativa. Julio Cortázar achava por bem desconfiar sempre dos seus textos, se não “corremos o risco de nos tornarmos cegos como aquelas mães que julgam os seus filhos os mais belos e inteligentes de todos, e assim esperam que o mundo inteiro faça”. Clarice Lispector não relia os seus livros depois de entregá-los à editora. “Tenho náuseas”, dizia.
William Faulkner não era contra a técnica, mas achava que ela muitas vezes assumia em demasiado o comando da imaginação artística, antes que o próprio escritor pudesse deitar-lhe a mão. “O trabalho assim não é mais do que uma questão de ajustar os tijolos uns sobre os outros. Já que o escritor provavelmente sabe cada palavra que virá até o fim antes de escrever a primeira.” Difícil tarefa de manter a vivacidade dentro de uma forma, ele considerava. “O objetivo de todo artista é deter o movimento, que é a vida, por meios artificiais, e conservá-lo fixo, de modo que, cem anos depois quando um estranho o fitar, ele se mova novamente.” Henry Miller descobriu com o tempo que a sua melhor técnica era não ter técnica nenhuma. “Jamais achei que deveria aderir a qualquer maneira de tratar um tema. Permaneço aberto e flexível, pronto para seguir a direção dos ventos ou das correntes de pensamento.” Truman Capote buscava manter um domínio estilístico e emocional sobre o que escrevia. Para ele, uma história poderia ser arruinada por causa de um ritmo equivocado de uma frase ― principalmente se for na parte final, ou por um erro na divisão dos parágrafos ou de pontuação. “A arte de escrever possui leis de perspectiva, luz e sombra, assim como a pintura e a música. Se a gente nasce conhecendo-as, ótimo. Se não, devemos aprendê-las e depois readaptá-las para que se ajustem a nós.” Katherine Anne Porter buscava como escritora uma visão singular para os acontecimentos. “É aí que começa o trabalho, com as consequências dos atos, não com os atos em si mesmos. É nas reverberações, nas implicações que o artista trabalha.”
Henry Miller um dia cortou o cordão umbilical com a literatura. “Abandonei as influências e resolvi escrever partindo de minha experiência, daquilo que eu sabia e sentia. E isso foi a minha salvação.” Deixou de ser um literato para ser um escritor, como ele disse. “Abandonei as ideias e os conceitos em prol da vitalidade.” Em busca da pulsação vital da palavra escrita, muitos escritores equivocadamente olham mais para fora ― para aquilo que chamam de realidade ― do que para dentro ― para aquilo que chamam de sonho ou imaginação, lamentou Paul Valéry. “Lançar mão da realidade é uma espécie de embuste”, considerava Françoise Sagan, “A arte deve colher a realidade de surpresa”. Para a escritora, a arte não deveria inculcar o real como sendo uma preocupação. “Nada é mais irreal que certos romances chamados realistas ― e que não passam de pesadelos. É possível conseguir ― se num romance certa verdade sensorial ― o verdadeiro sentimento de um personagem ― eis tudo. A ilusão da arte por certo é fazer com que se acredite que a grande literatura é muito ligada à vida, mas exatamente o oposto é que é verdadeiro. A vida é amorfa; a literatura, formal.” Ernest Hemingway considerava a busca da vitalidade, e não da realidade, a sua saga literária. “De todas as coisas que se sabe e das que não se sabe, a gente faz algo através de nossa invenção, que não é uma representação, mas é algo inteiramente novo e mais verdadeiro do que qualquer coisa verdadeira e viva. A gente lhe dá vida. Pelo tempo que dura uma leitura, e pelo tempo que a leitura ressoar em alguém, lhe dá imortalidade. Eis aí por que se escreve.”
Por Cláudia Lage, No jornal Rascunho, na edição de março de 2009 (a partir do substantivoplural.com.br).

Plantas medicinais, de Peter Lippman












Fonte: peterlippman.com
"O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela."
Fernando Pessoa

Sobre a consolidação da fé

“Pode-se dizer que, muito plausivelmente, há uma ignorância abecedária que precede o saber e uma outra, doutoral, que se lhe segue, ignorância esta que o saber produz e engendra da mesma maneira que desfaz e destrói aqueloutra. Dos espíritos simples, menos curiosos e menos instruídos, fazem-se bons cristãos, que, por reverência e obediência, com simplicidade, creem e mantêm-se submissos às leis. É nos espíritos de vigor e capacidade médios que se engendram as opiniões errôneas, pois eles seguem a aparência das suas primeiras impressões e têm pretextos para interpretar como simpleza e estultícia o nosso apego aos antigos usos, considerando que nós aí não chegamos por via do estudo dessas matérias.
Os grandes espíritos, mais avisados e clarividentes, constituem um outro gênero de bons crentes: por meio de uma aturada e escrupulosa investigação, penetram nas Escrituras até atingir uma luz mais profunda e abstrusa, e entendem o misterioso e divino segredo da nossa política eclesiástica. Vemos, porém, alguns, com maravilhoso proveito e com consolidação da sua fé, chegarem, através do segundo, a este último nível, como o extremo limite da inteligência cristã, e rejubilar na sua vitória com refrigério, ações de graças, reformas dos costumes e grande modéstia. Não entendo nesta categoria situar aqueloutros que, para se purgarem da suspeita dos seus passados erros e para ganharem a nossa confiança, tornam-se extremistas, insensatos e injustos defensores da nossa causa, a qual maculam com infindos e repreensíveis atos de violência.
Os camponeses simples são gente honesta e gente honesta são os filósofos, ou seja, aqueles que, tanto quanto o permitem os nossos tempos, possuem naturezas fortes e ilustres, enriquecidas de um grande cabedal de conhecimentos úteis.
Os ‘mestiços’, que desdenharam o primeiro estado - o da ignorância das letras - e não conseguiram atingir o outro, estando o seu cu entre duas selas (e no seu número eu, com tantos outros, me incluo), são perigosos, ineptos e importunos: são eles que trazem transtorno ao mundo. Por isso, no que me diz respeito, recuo tanto quanto posso para esse primeiro estado natural, do qual em vão tentei me afastar.
A poesia popular, puramente espontânea, tem encantos e graças pelas quais se compara à beleza superior da poesia artisticamente perfeita, como se vê nos vilancicos gascões e nas canções que nos foram trazidas de nações sem conhecimento de nenhuma ciência e nem mesmo da escrita. A poesia mediana, que se situa entre essas duas, é desprezível e indigna de ser honrada e apreciada.
(...) se estes ensaios fossem dignos de serem refletidos, poderia ocorrer, em minha opinião, que eles não agradassem aos espíritos comuns e vulgares, nem tampouco aos singulares e excelentes - aqueles não os entenderiam suficientemente, estes, entendê-los-iam bem de mais - e só poderiam sobreviver na região intermédia."
Michel de Montaigne, in Ensaios - Das Vãs Sutilezas