25/04/2011

O Rapadura Cult Recomenda:


BIOTÔNICO: programa da Rádio UOL, criado e apresentado por Zeca Baleiro e os amigos Otávio Rodrigues, jornalista e dj, e Celso Borges, poeta e jornalista. Tem formato de almanaque, com curiosidades, bate-papos, resgates de antigas propagandas, aforismos, poesia e, sobretudo, muita música. Imperdível: recomendo assistir a todos os programas já postados.

Poema/Canção*

Dores e Amores

Não conheço palavra que não corte
Como fio de uma velha faca cega
Dilacerando a parte em que se esfrega
Quando o amor se depara com a morte.
Não conheço verdade que não minta
Nem gelo que não queime como fogo
Quando o amor, apesar do rogo,
Nas cores da traição escolhe a tinta.
Não conheço esperança que resista
À descrença de um sonho destruído,
Aquele que, alegre e colorido,
Ganha a funesta cor da ametista.
Mas calculo a tristeza interior
De quem não sofreu, pois não teve amor.


*Cid Augusto, poeta mossoroense, in Estados do Verso e musicado por Genildo Costa, cantor e compositor de Grossos-RN, no CD Cores e Caminhos.


“Você vê coisas que existem e diz: ‘Por quê?’. Mas eu sonho coisas que nunca existiram e digo: ‘Por que não?’”.
Bernard Shaw

24/04/2011

Ode aos ratos


Rato de rua
Irrequieta criatura
Tribo em frenética proliferação
Lúbrico, libidinoso transeunte
Boca de estômago
Atrás do seu quinhão
Vão aos magotes
A dar com um pau
Levando o terror
Do parking ao living
Do shopping center ao léu
Do cano de esgoto
Pro topo do arranha-céu
Rato de rua
Aborígene do lodo
Fuça gelada
Couraça de sabão
Quase risonho
Profanador de tumba
Sobrevivente
À chacina e à lei do cão
Saqueador da metrópole
Tenaz roedor
De toda esperança
Estuporador da ilusão
Ó meu semelhante
Filho de Deus, meu irmão
Rato
Rato que rói a roupa
Que rói a rapa do rei do morro
Que rói a roda do carro
Que rói o carro, que rói o ferro
Que rói o barro, rói o morro
Rato que rói o rato
Ra-rato, ra-rato
Roto que ri do roto
Que rói o farrapo
Do esfarra-rapado
Que mete a ripa, arranca rabo
Rato ruim
Rato que rói a rosa
Rói o riso da moça
E ruma rua arriba
Em sua rota de rato

Edu Lobo/Chico Buarque
“Há duas espécies de livros: um que os leitores esgotam, outros que esgotam os leitores”.
  Mário Quintana  

O Poeta Ficou Cansado

Pois não quero mais ser
Teu arauto.
Já que todos têm voz,
por que só eu devo tomar navios
de rota que não escolhi?
Por que não gritas, Tu mesmo,
a miraculosa trama dos teares,
já que Tua voz reboa
nos quatro cantos do mundo?
Tudo progrediu na Terra
e insistes em caixeiros-viajantes
de porta em porta, a cavalo!
Olha aqui, cidadão,
repara, minha senhora,
neste canivete mágico:
corta, saca e fura,
é um faqueiro completo!
Ó Deus,
me deixa trabalhar na cozinha,
nem vendedor nem escrivão,
me deixa fazer Teu pão.
Filha, diz-me o Senhor,
eu só como palavras.

Adélia Prado
             “A vida não faz viver a morte; o fato de morrer não mata a vida. Vida e morte são relativas; estão englobadas num amplo conjunto”.
  Tchuang-Tsé  
“A religião é vista pelo povo comum como verdadeira, pelos sábios como falsa e pelos governantes como útil”.
Sêneca

23/04/2011


Se eu morrer novo,

sem poder publicar livro nenhum,
sem ver a cara que têm os meus versos em letra impressa
peço que, se quiserem ralar por minha causa,
que não se ralem.
Se assim aconteceu, assim está certo.
Mesmo que os meus versos nunca sejam impressos,
eles lá terão a sua beleza, se forem belos.
Mas eles não podem ser belos e ficar por imprimir,
porque as raízes podem estar debaixo da terra,
mas as flores florescem ao ar livre e à vista.
Tem que ser assim por força. Nada o pode impedir.

Fernando Pessoa
“Que felicidade poder caminhar, falar, sentar à mesa e comer com os filhos – coisas corriqueiras, às quais a gente não dá valor”.
  Shotaro Shimada  
                           “Toda morte não me diminui, porque eu sou uma parcela da humanidade; não me perguntes por quem os sinos dobram: eles dobram por ti”. 
                                                     John Donne  

Redemoinho

Tanto canto que não morro
Fujo, corro e não sossego.
Olho o limbo
Entrego o olho
Foco o fraco e cuspo fogo

Quem tem o vento me vê
Quem vem no vento, me tem

Pasto o sono, cubro o morro
Roço o mato, mato o morto
Mordo o rabo
Pico fumo
Fecho o tempo e
Corto o couro

Quem tem o vento me vê
Quem vem no vento me tem

Soleira, cancela,
Panela, farinha
Bigorna, marreta
Batalha, briguinha
Desejo, banquete
Sandália, fivela
Fogueira, vaidade
Palácio, casinha


E o mundo roda, roda, roda.  

Artemilson Lima, cantor e compositor pauferrense
                  “Cada vez que a ciência deu um passo à frente, perguntou-se sempre se Deus com isso ganhava ou perdia. Mas, essas perdas e ganhos são mais aparentes do que reais, porque a angústia do homem diante de si mesmo e de seu destino é sempre a mesma”.
                                                Paul-Arbusse Bastide  
“A vida é tão imensamente vasta e profunda quanto este abismo estrelado acima de nós. Só se pode atirar um olhar a ele através desta minúscula abertura que é a nossa existência pessoal. E, por esta abertura, sentimos mais do que vemos. Por isso temos de nos certificar de que esta abertura está sempre limpa”.
                             Franz Kafka

22/04/2011

Sagrados Segredos

A mala que guarda sagrados segredos
Os livros, brinquedos, as traças, cupim
As velhas cantigas de vozes em coro
Lembranças alegres de tempos sem fim.

Crianças libertas de vis preconceitos
Nem pensam direito, sem rumo, é assim
Mas andam felizes sorrindo por vento
Cantando e brincando sem tempo ruim.

Saudades dos banhos, nos rios e lagos
Nadando e brincando, pescando anequim
Sussurros e gritos vagueiam nos ventos

Riscando as escritas do meu folhetim
Estórias e sonhos guardados na mente
Deslizam no tempo, deixadas por mim.

Rogério Dias, escritor mossoroense
                “Perdoai-me, Senhor, se simples verme da Terra, ouso levantar a ponta do véu que envolve os vossos mistérios”.
           Pascal, em sua humilde oração antes de entrar, todas as vezes, em seu laboratório de experiências. 

Sigamos o exemplo

O governador da Paraíba, Ricardo Coutinho, reforçou, ontem, a posição do seu secretário de Cultura, o cantor Chico César, de não patrocinar as chamadas "bandas de plástico" nos festejos juninos deste ano. Além de ressaltar que o estado não tem condições financeiras para arcar com as despesas de contratação dessas bandas, o governador salientou que se houver algum recurso disponível será para ajudar na valorização do forró regional, também conhecido como forró pé de serra. A atitude do secretário já tivera o endosso, no "twitter", da primeira dama, Pâmela Bório, que não vê "identidade" nessas bandas.
Chico César entende que além de não refletirem a realidade nordestina, as "bandas de plástico" podem se prestar a irregularidades na prestação de contas por parte de administradores sem maior compromisso com o interesse público. Alertou, igualmente, para a poluição sonora e para o alto custo cobrado pelas referidas bandas.
Ontem, o compositor e secretário advertiu prefeitos que insistirem em buscar financiamento estatal para agremiações musicais de fora que haverá a rescisão de contratos celebrados, supostamente envolvendo a administração estadual.
Por Nonato Guedes, do jornal O Norte

Leia nota oficial divulgada por Chico César:
Tem sido distorcida a minha declaração, como secretário de Cultura, de que o Estado não vai contratar nem pagar grupos musicais e artistas cujos estilos nada têm a ver com a herança da tradição musical nordestina, cujo ápice se dá no período junino. Não vai mesmo. Mas nunca nos passou pela cabeça proibir ou sugerir a proibição de quaisquer tendências. Quem quiser tê-los que os pague, apenas isso. O Estado encontra-se falto de recursos e já terá inegáveis dificuldades para pactuar inclusive com aqueles municípios que buscarem o resgate desta tradição. São muitas as distorções, admitamos. Não faz muito tempo vaiaram Sivuca em festa junina paga com dinheiro público aqui na Paraíba porque ele, já velhinho, tocava sanfona em vez de teclado e não tinha moças seminuas dançando em seu palco. Vaias também recebeu Geraldo Azevedo porque ele cantava Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro em festa junina financiada pelo governo aqui na Paraíba, enquanto o público, esperando a dupla sertaneja, gritava "Zezé, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver".
Intolerância é excluir da programação do rádio paraibano (concessão pública) durante o ano inteiro, artistas como Parrá, Baixinho do Pandeiro, Cátia de França, Zabé da Loca, Escurinho, Beto Brito, Dejinha de Monteiro, Livardo Alves, Pinto do Acordeon, Mestre Fuba, Vital Farias, Biliu de Campina, Fuba de Taperoá, Sandra Belê e excluí-los de novo na hora em que se deve celebrar a música regional e a cultura popular”.
Secretário de Estado da Cultura – Chico César
              “Se verdadeiramente amo alguém, então amo a todos, amo o mundo, amo a vida. Se posso dizer a outrem Eu te amo, devo ser capaz de dizer: Amo em ti a todos, através de ti amo o mundo, amo-me a mim mesmo em ti”.
  Erich Fromm

 “E, no final, não são os anos de sua vida que contam, mas a vida de seus anos”.
Abraham  Lincoln 

21/04/2011

Ao Filho, 14 Vezes com Amor
                                        Para Heitor

21 de abril de 1997:
Gestação complexa,
Parto intrincado, demorado.
Depois do choro bem-vindo,
Cabelos à maquina zero.
E não expliquei
O sacrifício exíguo
Do pai aflito
A ver o filho saudável:
Heitor.
Hoje, orgulho meu,
Te amo,
Não só nesta data querida,
Parabéns pra você.


Elilson José Batista