07/12/2024

Querer ser justo e querer ser juiz

— Schopenhauer, cujo grande conhecimento das coisas humanas, demasiado humanas, cujo primordial senso dos fatos foi um tanto prejudicado pela colorida pele de leopardo de sua metafísica (que é preciso antes remover, para descobrir embaixo um verdadeiro gênio de moralista) — Schopenhauer faz esta excelente distinção, com a qual terá bem mais razão do que realmente podia confessar a si mesmo: “a compreensão da rigorosa necessidade das ações humanas é a linha que separa as mentes filosóficas das outras”. Essa poderosa percepção, a que por vezes ele se achava aberto, ele contrariava dentro de si mesmo com o preconceito que ainda tinha em comum com os homens morais (não com os moralistas) e que assim expressa, de maneira ingênua e crédula: “a última e verdadeira explicação sobre a íntima essência da totalidade das coisas deve, por necessidade, ligar-se estreitamente àquela sobre a significação ética do agir humano” — o que precisamente não é “necessário” de forma nenhuma, e sim é rejeitado por aquela proposição sobre a rigorosa necessidade das ações humanas, ou seja, da absoluta não liberdade e irresponsabilidade da vontade. As mentes filosóficas se diferenciarão das outras, portanto, através da descrença na significação metafísica da moral: e isso pode estabelecer entre elas um abismo profundo e insuperável, de que o deplorado abismo entre “cultos” e “incultos”, tal como hoje existe, não pode dar ideia. É certo que devem ser reconhecidas como inúteis várias outras escapatórias que as “mentes filosóficas”, como Schopenhauer mesmo, deixaram para si: nenhuma leva ao ar livre, ao ar do livre-arbítrio; cada uma, através da qual até agora se tentou escapar, revelou novamente por trás o muro brônzeo do fado: nós estamos na prisão, só podemos nos sonhar livres, não nos tornar livres. Que não se pode contrariar por muito tempo mais esse conhecimento, isso demonstram as desesperadas, incríveis posturas e contorções daqueles que contra ele investem, que com ele prosseguem a luta. — Eis o que agora se passa neles, aproximadamente: “Então ninguém é responsável? E em tudo há pecado e sentimento do pecado? Mas alguém tem de ser o pecador: se é impossível e não mais é permitido acusar e julgar o indivíduo, a pobre onda na inevitável rebentação do devir — então: que a rebentação mesma, o devir, seja o pecador: aqui está o livre-arbítrio, aqui se pode acusar, condenar, expiar e pagar: que seja Deus o pecador, e o homem, seu redentor: que a história universal seja culpa, autocondenação e suicídio; que o malfeitor se torne seu próprio juiz, e o juiz, seu próprio carrasco”. — Esse cristianismo de cabeça para baixo — que é, senão isso? — é a última estocada na luta entre a doutrina da moralidade absoluta e a da não liberdade absoluta — uma coisa horrível, se fosse mais do que uma careta lógica, mais do que um gesto feio do pensamento que sucumbe — algo como o espasmo final do coração desesperado e ansioso de cura, ao qual a loucura sussurra: “És o cordeiro que carrega o pecado de Deus”. — O erro está não apenas no sentimento “eu sou responsável”, mas igualmente na antítese “eu não sou responsável, mas alguém tem de ser”. — Isso justamente não é verdadeiro: o filósofo deve então dizer, como Cristo: “não julguem!”, e a diferença última entre os espíritos filosóficos e os outros seria que os primeiros querem ser justos e os outros querem ser juízes.

Friedrich Nietzsche, em Humano, demasiado humano

Corrupção

Charge: Millôr

 ♦ Acabar com a corrupção é o objetivo supremo de quem ainda não chegou ao poder.
Corrompo, logo existo.
A corrupção anda tão generalizada que já tem político ofendido ao ser chamado de incorruptível.
Basta você examinar um otimista pra descobrir por baixo uma compra sem licitação, com superfaturamento.
Corrupção: quantos decretos-leis se fazem em teu nome!
Invejar os corruptos já é meia corrupção.
Lição de corrupção número 1: “Ninguém come de graça”.
Os corruptos são encontrados em várias partes do mundo, quase todas no Brasil.
Uma característica curiosa do corrupto se observa em restaurantes. O corrupto está sempre nas outras mesas.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos

Nega Florinda




Aos domingos e nos dias santos, todos os escravos tinham folga certa, menos nós, os da casa-grande, que precisávamos trabalhar se os senhores assim quisessem. E sempre queriam, pois falavam que a nossa vida era bem melhor que a vida dos escravos que viviam na senzala grande, e que, portanto, não fazíamos favor algum abrindo mão de certas regalias. De fato, eu já tinha percebido que a nossa vida era melhor mesmo, apesar do pouco contato com os outros, de quem o sinhô José Carlos fazia questão de nos manter afastados. Segundo a Esméria, era para que não pegássemos de novo os vícios selvagens dos pretos, e assim servirmos melhor aos brancos. Mas eu desconfiava que ela não cumpria muito bem esta ordem, pois em algumas noites que eu fingia dormir, via que ela se levantava e saía, voltando somente na hora de torrar e moer o café para o desjejum. Ela também conversava muito com a Nega Florinda, que aparecia de vez em quando na fazenda e de quem eu já tinha ouvido a sinhá Ana Felipa dizer que não gostava, por ser metida até as unhas com bruxarias, embora se divertisse com as histórias que a preta contava.
A Nega Florinda era das pessoas mais antigas da ilha, morava lá desde que tinha chegado da África, ainda mocinha, e já era forra havia tanto tempo que ninguém vivo se lembrava dela como escrava. Era muito velha e parecia saber todas as histórias do mundo, desde que o mundo era mundo, como ela mesma dizia. Como recontadeira, andava de casa em casa e recebia algum dinheiro ou mesmo sobras de comida, que aceitava de bom grado antes de se agachar em qualquer canto e contar histórias. Até a sinhá se aproximava para ouvi-la, e não se importava se algumas pretas da casa ou da cozinha também ficassem por perto. Parecia que o Tico e o Hilário tinham faro para as histórias, pois os dois podiam estar longe que davam um jeito de aparecer. Aliás, os dois estavam sempre sumidos, e muitas vezes, quando se precisava deles para fazer algo ou levar recado a pedido dos senhores, quem tinha recebido a incumbência de encomendar o serviço a eles acabava tendo que fazê-lo, porque só eram encontrados quando o assunto também lhes interessava.
Eu me assustei um pouco na primeira vez que vi a Nega Florinda se aproximar da varanda onde eu estava com a sinhazinha Maria Clara. De longe, ela parecia um dos egunguns que eu tinha visto certa vez passeando pelas ruas de Uidá. Era baixa e andava curvada, os passos rápidos para compensar as pernas curtas, e usava uma bata inteiriça e colorida que ia até os pés, com um pano da costa jogado sobre o ombro direito e, em uma das mãos, uma bolsa de tecido, onde guardava o dinheiro ou as prendas que recebia por suas histórias. Usava vários colares de contas coloridas em volta do pescoço, e em uma corda amarrada na cintura pendurava um sino pequeno e barulhento, que tilintava para anunciar sua chegada. A sinhá Ana Felipa não deixava que a Nega Florinda fosse recebida sem que ela estivesse presente, pois queria ter certeza de que, como desdenhava, a velha não contaria histórias de feitiços nem dos demônios que os pretos chamavam de santos e cultuavam como se fossem capazes de grandes feitos. Mas quando a sinhá estava cansada de bordar ou de ler, a Nega Florinda era até bem recebida, com direito a refresco e um pedaço de pão ou bolo, sem falar no dinheiro. Além de dizer alôs muito bem, era interessante ver como a Nega se preparava, batendo palmas ritmadas antes de começar e durante a narração, com força e velocidade diferentes, para ajudar a fazer suspense. A primeira história que ela contou eu já conhecia, a minha avó tinha contado para mim, para a Taiwo e o Kokumo enquanto tecia sob o pé de iroco, com uma pequena diferença no final, que a Nega Florinda devia ter feito para agradar à sinhá Ana Felipa. Era a história do teiú e da tartaruga, que viviam em um lugar onde há muito tempo não chovia, fazendo com que todos passassem fome. Para sobreviver, o teiú se arriscava para roubar o inhame que crescia dentro de uma rocha mágica vigiada por um homem muito bravo, e foi enganado pela fada da cabeça pelada. Mas no final deu tudo certo e a fada foi punida, apanhando muito do dono da roça, que quebrou seu casco em vários lugares. Arrependida, a fada recebeu ajuda da barata, que coseu o casco e o deixou daquele jeito, com as marcas das rachaduras. Perto da sinhá Ana Felipa, a Nega Florinda disse que a ajuda tinha sido de Nossa Senhora, mas tive quase certeza de que ela sabia o final verdadeiro.
Em um dia em que a Nega Florinda apareceu e não pôde ser recebida porque a sinhá estava de repouso para não perder a criança, aproveitei para conversar com ela. Imaginei que ela poderia me ajudar porque talvez fosse da mesma região que a minha avó, já que as duas conheciam a mesma história. Desse modo, entenderia a minha necessidade de cumprir as promessas feitas, de providenciar um Xangô, uma Nanã, uma Oxum, os Ibêjis e, principalmente, o pingente que representaria a Taiwo, para que eu pudesse ficar com a alma completa, a alma que nós duas dividíamos antes de ela morrer. Estávamos na varanda quando a Nega Florinda chegou, e como a sinhazinha adorava ouvir suas histórias, foi pedir à sinhá que deixasse a Nega Florinda contar uma história só, mesmo ela não estando por perto. Com a negativa da sinhá, a sinhazinha Maria Clara se trancou no quarto, chorando, e eu aproveitei para seguir a Nega Florinda até a praia. Antes, procurei pelo Eufrásio, o capataz, ou pelos homens que trabalhavam com ele, e não vi ninguém por perto. Na praia, apenas alguns pretos da senzala grande cuidavam dos barcos de pesca, ocupados com as próprias vidas, não dando importância ao que eu fazia da minha. Mesmo assim, pedi que entrássemos um pouco pelo palmeiral, para o caso de alguém aparecer de repente. A Nega Florinda disse que já sabia que eu precisava falar com ela e que podia ajudar. Contei como eu tinha chegado até ali e ela disse que isso já era um sinal de que os voduns e os orixás estavam comigo, mesmo que no momento eu não pudesse cultuá-los como mereciam, pois se eu tinha sobrevivido era porque havia uma importante missão a cumprir. Ela também era jeje, capturada em Ardra mais de sessenta anos antes, vivendo como liberta havia mais de trinta. No Daomé, tinha chegado a ser vodu-no, como a minha avó antes de ser expulsa da corte de Abomé. Disse também que devia conhecer quase todos os voduns que a minha avó conhecia e que poderia até me falar deles, mas não adiantaria muito porque eles eram de África e ainda não estavam assentados no Brasil, tinham ficado por lá. Alguns assentamentos já estavam sendo providenciados, mas aquela não era a minha missão porque, do contrário, eu já teria recebido um sinal. Muito menos era a missão dela, que, embora continuasse acreditando neles, na ajuda deles, sabia que não podiam fazer muita coisa por nós. No Brasil, o culto aos orixás era forte demais até para o grande poder que os voduns possuíam. Ela também disse que eu poderia me valer dos orixás para cultuar alguns voduns, porque, na Bahia, Mawu, Khebiosô, Legba, Anyi-ewo, Loko, Hoho, Saponan e Wu eram cultuados como Olorum, Xangô, Elegbá, Oxum, Iroco, Ibêjis, Xaponã e Olokum. Na Bahia, os orixás já tinham tomado conta da cabeça dos pretos e o culto deles vinha de muito tempo, praticado por quase todos os africanos que, por muitos e muitos anos, iam parar naquelas terras. Nossos voduns nunca teriam força para ganhar um pouco de espaço ou atenção, e para eles estava destinado um lugar não muito longe dali, do qual, por enquanto, ela nada podia falar. A Nega Florinda foi embora prometendo me ajudar, primeiro com o pingente da Taiwo, depois com a estátua dos Ibêjis, as maiores urgências. As outras coisas chegariam cada qual a seu tempo, como tinha que ser naquele lugar onde fingíamos cultuar os santos dos brancos.

Ana Maria Magalhães, em Um defeito de cor

Munir Hossn & ELAS | Live at The Black Room Sessions

Duas canções de silêncio

Ouve como o silêncio
Se fez de repente
Para o nosso amor

Horizontalmente...

Crê apenas no amor
E em mais nada
Cala; escuta o silêncio
Que nos fala
Mais intimamente; ouve
Sossegada
O amor que despetala
O silêncio…

Deixa as palavras à poesia…

Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor

O picolé




Corria a notícia de que no Bar Danúbio, pelos poderes de uma máquina vinda da capital, a água mole estava sendo transformada em coisa dura. Dura e fria, que podia ser chupada, na ponta de um pauzinho, nos mais variados sabores e cores, tal como se chupa bala ou rapadura. O picolé, como era chamado, tornou-se assunto obrigatório de todas as rodas de homens e de comadres, e a sua descrição era levada pela boca de cavaleiros e andarilhos até os lugares mais distantes da serra, das vargens e das beiradas de rio. Seus relatos eram ouvidos com assombro pelos jovens, que gostavam de novidades; e com desconfiança pelos velhos, que imaginavam que aquilo não passava de uma troça e diziam que a água, por determinação de Deus Todo-Poderoso, estava destinada a ser mole para sempre. Se sucedido semelhante fosse verdade, só se fosse por obra do Coisa-Ruim, ou se o fim do mundo estivesse chegando, com a revirada geral das coisas. O próximo passo, argumentavam, seria a pedra virar água, e isto seria o dilúvio. Os portadores da novidade não se davam por vencidos, e exibiam, num gesto de triunfo, os pauzinhos que traziam guardados na algibeira.
Pois aqui está a prova, pra ninguém duvidar. Este é o pauzinho do picolé, é nele que se segura. Tem de muitas cores, vermelho, amarelo, branco; com gosto de groselha, abacaxi e coco...”
O Bar Danúbio, que de costume só atraía uns poucos que ali iam para beber pinga e para conversa fiada, de repente ficou que nem gruta onde aparece a Virgem. Vinha gente de todos os lugares, em romaria, para ver e chupar “o milagre”. Até o vigário da paróquia ficou agradecido, porque a igreja ficou pequena para a quantidade de gente que vinha da roça para a santa missa, não por repentina devoção, mas porque depois da missa era a hora do picolé que se fabricava no Bar Danúbio.
Meu pai, digno herdeiro do espírito moderno da dona Sophia, numa de suas viagens à capital da república, Rio de Janeiro, terno de linho branco e chapéu panamá, calor de 40 graus, o suor escorrendo pelo rosto, assentou-se numa sorveteria na avenida Rio Branco, para chupar um picolé. Deu-se conta, de um estalo, que aquela delícia ainda não se encontrava em sua terra. Não pensou duas vezes. Saiu dali direto para a fábrica de máquinas de picolé e fechou negócio. E logo a cidadezinha ficou em polvorosa com a chegada da novidade. Quem não saía, saiu. Quem não sorria, sorriu...
Enganam-se aqueles que pensam que o Diano fizesse essas coisas por raciocínios comerciais. De jeito nenhum. A ideia de ganhar dinheiro não lhe passou nem uma vez pela cabeça enquanto negociava a máquina, no Rio de Janeiro. Ele não nascera para ficar rico. Enriquecera por acidente. A única coisa que queria era ver a alegria dos outros. No fundo, era uma criança que queria ser amada e, para isto, seria capaz de dar qualquer festa... Claro que a riqueza ajudava. E agora, vendo aquele mundaréu de gente que se comprimia diante da máquina de picolé, ele se sentia como um deus. Pois não será isto mesmo? Que Deus é uma criança que quer dar uma grande festa? Se houvesse eleição para prefeito, é certo que ele seria eleito. Mas nunca quis. Pra que ser prefeito, se do jeito como estava podia distribuir felicidade?
O vendedor não parava de distribuir picolés para os fregueses sorridentes. Todo mundo chupava picolé e ria. Menos um, que chupava picolé de cara triste. O Diano não aguentou. Não podia ver ninguém infeliz.
Não está gostando?”, perguntou.
Tô!”, respondeu o roceiro de embornal pendurado no ombro.
Então, por que a cara triste?”
Tô pensano na muié e nas criança. Ficaro em casa. Num pudero vi. Num vão chupá picolé. Teim dó deis...”
O Diano se comoveu com aquele pai e pensou que era hora de fazer mais gente feliz.
O senhor mora longe?”
Duas légua, na direção da serra...”
Eu vou dar um jeito...”
O Diano, que não acreditava que coisa alguma fosse impossível, tomou as providências. Procurou uma caixinha de madeira, mandou buscar serragem na serraria, embrulhou em papel-manteiga uma dúzia de picolés de todas as cores, acondicionou tudo, fechou, amarrou e entregou o pacote para o roceiro espantado.
Está aqui. Ajeita isto no embornal...”
Quanto é que é?”
Não é nada não...”
Então, Deus lhe pague...”
E enquanto o roceiro descia a rua, montado em sua égua velha, o Diano sorria imaginando a festa, a mulher e a criançada chupando picolé.
Marialva, Firmino, Toninho, Aninha...”
Fazia mais de duas horas que ele andava, apressando a cavalgadura, sol a pino, imaginando a alegria da família chupando picolé.
A casa nem bem aparecera e já o homem anunciava:
Óia o que tô trazeno. Picolé pra todo mundo!”
Foi um alvoroço. A criançada correu. A mulher ficou espiando. Ele desmontou de um salto e notou que o embornal estava molhado, melado. Mas nem ligou. De que vale um embornal molhado quando se tem doze picolés dentro de uma caixa, coloridos e frios, à espera?
Pegou o canivete de cortar fumo, cortou o barbante, desembrulhou a caixa, abriu a tampa…

Rubem Alves, em O Velho que Acordou Menino

Sêneca | IV


1. Para mim, meu querido Sereno, Atenodoro parece ter cedido demasiado aos tempos, tendo fugido demasiado cedo: Não negarei que às vezes é preciso reformar-se, mas é preciso reformar-se lentamente, ao ritmo dos pés, sem perder os alferes ou a honra como soldado: aqueles que fazem as pazes com as armas nas mãos são mais respeitados pelos inimigos e mais seguros nas próprias mãos.
2. Isto é o que eu penso que deve ser feito pela virtude e por aquele que pratica a virtude: se a Fortuna se sobrepõe a ele e o priva do poder da ação, que não vire imediatamente as costas ao inimigo e jogue fora suas armas e fuja em busca de um esconderijo, como se houvesse algum lugar onde a Fortuna não pudesse persegui-lo, mas que ele seja mais parcimonioso em sua aceitação do cargo público e, após a devida deliberação, descubra alguns meios pelos quais ele possa ser útil ao Estado.
3. Ele não pode servir no exército: então que ele se torne um candidato a um cargo público: ele deve viver numa posição privada? Então que ele seja um advogado: ele está condenado a manter silêncio? Então que ele ajude seus compatriotas com conselhos silenciosos. É perigoso para ele entrar no fórum? Então deixe-o provar ser um bom companheiro, um amigo fiel, um hóspede sóbrio nas casas das pessoas, em exposições públicas, e em vinícolas. Suponhamos que ele tenha perdido o status de cidadão; então que ele exerça o de homem.
4. Nossa razão para nos recusarmos magnanimamente a nos confinar dentro das muralhas de uma cidade, por termos saído para desfrutar de relações com todas as terras e por nos professarmos cidadãos do mundo é que assim possamos obter um teatro mais amplo no qual possamos mostrar nossa virtude. O tribunal dos juízes está fechado para você, está proibido de se dirigir ao povo da cidade, ou de ser candidato nas eleições? Então desvie os olhos de Roma, e veja que grande extensão de território, que número de nações se apresentam diante de você. Assim, nunca é possível que tantas saídas sejam fechadas contra a sua ambição que mais não permaneçam abertas a ela.
5. Mas repare se toda a proibição não se origina da sua própria culpa. Você não aceita dirigir os assuntos do Estado a não ser como cônsul, prítane, cérix ou sufete. O que devemos dizer se você se recusa a servir no exército a não ser como general ou tribuno militar? Mesmo que outros formem a primeira linha, e que a sua sorte o tenha colocado entre os veteranos da terceira, faça lá o seu dever com a sua voz, encorajamento, exemplo e espírito: mesmo que as mãos de um homem sejam cortadas, ele pode encontrar meios para ajudar o seu lado numa batalha, se ele se mantiver firme e apoiar os seus camaradas.
6. Faça algo desse tipo você mesmo: se a Fortuna o retirar da linha de frente, fique de pé mesmo assim e vibre por seus companheiros, e se alguém calar sua boca, fique de pé mesmo assim e ajude seu grupo em silêncio. Os serviços de um bom cidadão nunca são jogados fora: ele faz o bem por ser ouvido e visto, pela sua expressão, pelos seus gestos, pela sua determinação silenciosa e pela sua própria caminhada.
7. Como alguns remédios nos beneficiam pelo seu cheiro, bem como pelo seu gosto e toque, assim a virtude, mesmo quando escondida e à distância, nos dá utilidade. Se ela se move à sua vontade e goza dos seus justos direitos, ou se só pode aparecer no mundo exterior em sofrimento e é forçada a diminuir a vela sob a tempestade, seja ela desocupada, silenciosa, e emparedada em um alojamento estreito, ou exposta abertamente, seja qual for o disfarce que ela possa aparentar, ela sempre faz o bem.
8. O quê? Você acha que o exemplo de alguém que pode repousar nobremente não tem valor? É de longe o melhor plano, portanto, misturar o ócio com os negócios, sempre que impedimentos do acaso ou o estado dos negócios públicos proíbam levar uma vida ativa: pois nunca se está tão afastado de todas as atividades a ponto de não encontrar espaço para uma ação honrosa.

Sêneca, em Sobre a Tranquilidade da Alma

06/12/2024

Dormida

Piratas do Tietê, de Laerte

Casa Velha | Capítulo II


Antes de me despedir deles, fui ver a biblioteca. Era uma vasta sala, dando para a chácara, por meio de seis janelas de grade de ferro, abertas de um só lado. Todo o lado oposto estava forrado de estantes, pejadas de livros. Estes eram, pela maior parte, antigos, e muitos in-fólio; livros de história, de política, de teologia, alguns de letras e filosofia, não raros em latim e italiano. Eu via-os, tirava e abria um ou outro, dizia alguma palavra, que o Félix, que ia comigo, ouvia com muito prazer, porque as minhas reflexões redundavam em elogio do pai, ao mesmo tempo que lhe davam de mim maior ideia. Esta ideia cresceu ainda, quando casualmente dei com os olhos na Storia Fiorentina de Varchi, edição de 1721. Confesso que nunca tinha lido esse livro, nem mesmo o li mais tarde; mas um padre italiano, que eu visitara no Hospício de Jerusalém, na antiga Rua dos Barbonos, possuía a obra e falara-me da última página, que, em alguns exemplares faltava, e tratava do modo descomunalmente sacrílego e brutal com que um dos Farneses tratara o bispo de Fano.
Será o exemplar truncado? disse eu.
Truncado? repetiu Félix.
Vamos ver, continuei eu, correndo ao fim. Não, cá está; é o cap. 16 do lv. XVI. Uma coisa indigna: In quest’anno medesimo nacque un caso... Não vale a pena ler; é imundo.
Pus o livro no lugar. Sem olhar para o Félix, senti-o subjugado. Nem confesso este incidente, que me envergonha, senão porque, além da resolução de dizer tudo, importa explicar o poder que desde logo exerci naquela casa, e especialmente no espírito do moço. Creram-me naturalmente um sábio, tanto mais digno de admiração, quanto que contava apenas trinta e dois anos. A verdade é que era tão-somente um homem lido e curioso. Entretanto, como era também discreto, deixei de manifestar um reparo que fiz comigo acerca de promiscuidade de coisas religiosas e incrédulas, alguns padres de Igreja não longe de Voltaire e Rousseau, e aqui não havia afetar nada, porque os conhecia, não integralmente, mas no principal que eles deixaram. Quanto à parte que imediatamente me interessava, achei muitas coisas, opúsculos, jornais, livros, relatórios, maços de papéis rotulados e postos por ordem, em pequenas estantes, e duas grandes caixas que o Félix me disse estarem cheias de manuscritos.
Havia ali dois retratos, um do finado ex-ministro, outro de Pedro I. Conquanto a luz não fosse boa, achei que o Félix parecia-se muito com o pai, descontada a idade, porque o retrato era de 1829, quando o ex-ministro tinha quarenta e quatro anos. A cabeça era altiva, o olhar inteligente, a boca voluptuosa; foi a impressão que me deixou o retrato. Félix não tinha, porém, a primeira nem a última expressão; a semelhança restringia-se à configuração do rosto, ao corte e viveza dos olhos.
Aqui está tudo, disse-me Félix; aquela porta dá para uma saleta, onde poderá trabalhar, quando quiser, se não preferir aqui mesmo.
Já disse que saí de lá encantado, e que os deixei igualmente encantados comigo. Comecei os meus trabalhos de investigação três dias depois. Só então revelei a Monsenhor Queirós, meu velho mestre, o projeto que tinha de escrever uma história do Primeiro Reinado. E revelei-lho com o único fim de lhe contar as impressões que trouxera da Casa Velha, e confiar as minhas esperanças de algum achado de valor político. Monsenhor Queirós abanou a cabeça, desconsolado. Era um bom filho da Igreja, que me fez o que sou, menos a tendência política, apesar de que no tempo em que ele floresceu muitos servidores da Igreja também o eram do Estado. Não aprovou a ideia; mas não gastou tempo em tentar dissuadir-me. “Conquanto, disse-me ele, que você não prejudique sua mãe, que é a Igreja. O Estado é um padrasto”.
A meu cunhado e minha irmã, que sabiam do projeto, apenas contei o que se passara na Casa Velha; ficaram contentes, e minha irmã pediu-me que a levasse lá, alguma vez, para conhecer a casa e a família.
Na quarta-feira comecei a pesquisa. Vi então que era mais fácil projetá-la, pedi-la e obtê-la, que realmente executá-la. Quando me achei na biblioteca e no gabinete contíguo, com os livros e papéis à minha disposição, senti-me constrangido, sem saber por onde começasse. Não era uma casa pública, arquivo ou biblioteca, era um lugar onde, no que tocava a papéis e manuscritos, podia dar com alguma coisa privada e doméstica. Para melhor haver-me, pedi ao Félix que me auxiliasse, disse-lhe até com franqueza, a causa do meu acanhamento. Ele respondeu, polidamente, que tudo estava em boas mãos. Insistindo eu, consentiu em servir-me (palavras suas) de sacristão; pedia, porém, licença naquele dia porque tinha de sair; e, na seguinte semana, desde terça-feira até sábado, estaria na roça. Voltaria sábado à noite, e daí até o fim, estava às minhas ordens. Aceitei este convênio.
Ocupei os primeiros dias na leitura de gazetas e opúsculos. Conhecia alguns deles, outros não, e não eram estes os menos interessantes. Logo no dia seguinte, Félix acompanhou-me nesse trabalho, e daí em diante até seguir para a roça. Eu, em geral chegava às dez horas, conversava um pouco com a dona da casa, as sobrinhas e o coronel; o primo Eduardo retirara-se para S. Paulo. Falávamos das coisas do dia, e poucos minutos depois, nunca mais de meia hora, recolhia-me à biblioteca com o filho do ex-ministro. Às duas horas, em ponto, era o jantar. No primeiro dia recusei, mas a dona da casa declarou-me que era a condição do obséquio prestado. Ou jantaria com eles, ou retirava-me a licença. Tudo isso com tão boa cara que era impossível teimar na recusa. Jantava. Entre três e quatro horas descansava um pouco, e depois continuava o trabalho até anoitecer.
Um dia, quando ainda o Félix estava na roça, D. Antônia foi ter comigo, com o pretexto de ver o meu trabalho, que lhe não interessava nada. Na véspera, ao jantar, disse-lhe que estimava muito ver as terras da Europa, especialmente França e Itália, e talvez ali fosse daí a meses. D. Antônia, entrando na biblioteca, logo depois de algumas palavras insignificantes, guiou a conversa para a viagem, e acabou pedindo que persuadisse o filho a ir comigo.
Eu, minha senhora?
Não se admire do pedido; eu já reparei, apesar do pouco tempo, que Vossa Reverendíssima e ele gostam muito um do outro, e sei que se lhe disser isso, com vontade, ele cede.
Não creio que tenha mais força que sua mãe. Já lhe tem lembrado isso?
Já, respondeu D. Antônia com uma entonação demorada que exprimia longas instâncias sem efeito.
E logo depois com um modo alegre:
As mães como eu não podem com os filhos. O meu foi criado com muito amor e bastante fraqueza. Tenho-lhe pedido mais de uma vez: ele recusa sempre dizendo que não quer separar-se de mim. Mentira! A verdade é que ele não quer sair daqui. Não tem ambições, fez estudos incompletos, não lhe importa nada. Há uns parentes nossos em Portugal. Já lhe disse que fosse visitá-los, que eles desejavam vê-lo, e que fosse depois à Espanha e França e outros lugares. José Bonifácio lá esteve e contava coisas muito interessantes. Sabe o que ele me responde? Que tem medo do mar; ou então repete que não quer separar-se de mim.
E não acha que esta segunda razão é a verdadeira?D. Antônia olhou para o chão, e disse com voz sumida:
Pode ser.
Se é a verdadeira, haveria um meio de conciliar tudo; era irem ambos, e eu com ambos, e para mim seria um imenso prazer.
Eu?
Pois então?
Eu? Deixar esta casa? Vossa Reverendíssima está caçoando. Daqui para a cova. Não fui quando era moça, e agora que estou velha é que hei de meter-me em folias... Ele sim, que é rapaz — e precisa…
Tive uma suspeita súbita:
Minha senhora, dar-se-á que ele padeça de alguma moléstia que…
Não, não, graças a Deus! Digo que precisa, porque é rapaz, e meu avô dizia que, para ser homem completo, é preciso ver aquelas coisas por lá. É só por isso. Não, não tem moléstia nenhuma; é um rapaz forte.
Era impossível, ou, pelo menos, indelicado tentar obter a razão secreta deste pedido, se havia alguma, como me pareceu. Pus termo à conversação dizendo que ia convidar o rapaz. D. Antônia agradeceu-me, declarou que não me havia de arrepender do companheiro, e fez grandes elogios do filho. Quis falar de outras coisas; ela, porém, teimava no assunto da viagem, para familiarizar-nos com a ideia, e moralmente constranger-me a realizá-la. No dia seguinte voltou à biblioteca, mas com outro pretexto: veio mostrar-me uma boceta de rapé, que fora do marido, e que era, realmente, uma perfeição. Não tive dúvida em dizer-lhe isto mesmo, e ela acabou pedindo-me que a aceitasse como lembrança do finado. Aceitei-a constrangido; falamos ainda da viagem, duas palavras apenas, e fiquei só.
Não estava contente comigo. Tinha-me deixado resvalar a uma promessa inconsiderada, cuja execução parecia complicar-se de circunstâncias estranhas e obscuras, provavelmente sérias. As instâncias de D. Antônia, as razões dadas, as reticências, e finalmente aquele mimo, sem outro motivo mais que cativar-me e obrigar-me, tudo isso dava que cismar. Na noite desse dia fui à casa do Padre Mascarenhas para sondá-lo; perguntei-lhe se sabia alguma coisa do rapaz, se era peralta, se tinha irregularidades na vida. Mascarenhas não sabia nada.
Até aqui suponho que é um modelo de sossego e seriedade, concluiu ele. Verdade seja que só vou lá aos domingos.
Mas pelos domingos tiram-se os dias santos, repliquei rindo.
Félix voltou da roça dois dias depois, num sábado. No domingo não fui lá. Na segunda-feira, falei-lhe da viagem que ia fazer, e do desejo que tinha de o levar comigo; respondeu que seria para ele um grande prazer, se pudesse acompanhar-me, mas não podia. Teimei, pedi-lhe razões, falei com tal interesse, que ele, desconfiado, fitou-me os olhos, e disse:
Foi mamãe que lhe pediu?
Não digo que não; foi ela mesma. Tinha-lhe dito que tencionava ir à Europa, daqui a alguns meses, e ela então falou-me do senhor e das vezes que já lhe tem aconselhado uma viagem. Que admira?
Félix conservou os olhos espetados em mim, como se quisesse descer ao fundo da minha consciência. Ao cabo de alguns instantes respondeu secamente:
Nada: não posso ir.
Por quê?
Aqui teve ele um gesto quase imperceptível de orgulho molestado; achou naturalmente esquisita a curiosidade de um estranho. Mas, ou fosse da índole dele, ou do meu caráter sacerdotal, vi desaparecer-lhe logo esse pequeno assomo; Félix sorriu e confessou que não podia separar-se da mãe. Eu, a rigor, não devia dizer mais nada, e encerrar-me no exame dos papéis; mas a maldita curiosidade picava-me de esporas, e ainda repliquei alguma coisa; ponderei-lhe que o sentimento era digno e justo, mas que, tendo de viver com os homens, devia começar por ver os homens, e não restringir-se à vida simples e emparedada da família. Demais, o contato de outras civilizações necessariamente nos daria têmpera ao espírito. Escutou calado, mas sem atenção fixa, e quando acabei, declarou ultimando tudo:
Bem, pode ser que me resolva; veremos. Não vai já? Então depois falaremos disto; pode ser... E o seu trabalho, está adiantado?
Não insisti, nem voltei ao assunto, apesar da mãe, que me falou algumas vezes dele. Pareceu-me que o melhor de tudo era acelerar a conclusão do trabalho, e despregar-me de uma intimidade que podia trazer complicações ou desgostos. As horas que então passei foram das melhores, regulares e tranquilas, ajustadas a minha índole quieta e eclesiástica. Chegava cedo, conversava alguns minutos, e recolhia-me à biblioteca até a hora de jantar, que não passava das duas. O café ia à grande varanda, que ficava entre a sala de jantar e o terreiro das casuarinas, assim chamado, por ter um lindo renque dessas árvores, e eu retirava-me antes do pôr do sol. Félix ajudava-me grande parte do tempo. Tinha todas as horas livres, e quando não me ajudava é porque saíra a caçar, ou estava lendo, ou teria ido à cidade a passeio ou a negócio de casa.
Vai senão quando, um dia, estando só na biblioteca, ouvi rumor do lado de fora. Era a princípio um chiar de carro de bois, de que não fiz caso, por já o ter ouvido de outras vezes; devia ser um dos dois carros que traziam da roça para a Casa Velha, uma ou duas vezes por mês, fruta e legumes. Mas logo depois ouvi outro rodar, que me pareceu de sege, vozes trocadas e como que um encontrão dos dois veículos. Fui à janela; era isso mesmo. Uma sege, que entrara depois do carro de bois, foi a este no momento em que ele, para lhe dar passagem, torcia o caminho; o boleeiro não pôde conter logo as bestas, nem o carro fugir a tempo, mas não houve outra conseqüência além da vozeria. Quando eu cheguei à janela já o carro acabava de passar, e a sege galgou logo os poucos passos que a separavam da porta que ficava justamente por baixo de minha janela. Entretanto, não foi tão pouco o tempo que eu não visse aparecer, entre as cortinas entreabertas da sege, a carinha alegre e ridente de uma moça que parecia mofar do perigo. Olhava, ria e falava para dentro da sege. Não lhe vi mais do que a cara, e um pouco do pescoço; mas daí a nada, parando a sege à porta, as duas cortinas de couro foram corridas para cada lado, e ela e outra desceram rapidamente, e entraram em casa. “Hão de ser visitas”, pensei comigo.
Voltei para o trabalho; eram onze horas e meia. Perto de uma, entrou na biblioteca o filho de D. Antônia; vinha da praça, aonde fora cedo, para tratar de um negócio do tio coronel. Estava singularmente alegre, expansivo, fazendo-me perguntas e não atendendo, ou atendendo mal às respostas. Não me lembraria disto agora, nem nunca mais, se não se tivesse ligado aos acontecimentos próximos, como veremos. A prova de que não dei então grande importância ao estado do espírito dele, é que daí a pouco quase que não lhe respondia nada, e continuava a ver os papéis. Folheava justamente um maço de cópias relativas à Cisplatina, e preferia o silêncio a qualquer assunto de conversa. Félix demorou-se pouco, saiu, mas tornou antes das duas horas, e achou-me concluindo o trabalho do dia, para acudir ao jantar. Daí a pouco estávamos à mesa.
Era costume de D. Antônia vir para a mesa acompanhando a irmã (a senhora idosa que achei na tribuna da capela, no primeiro dia em que ali fui), e assim o fez agora, com a diferença que outra senhora a acompanhava também. Disseram-me que era amiga da família, e chamava-se Mafalda. Logo que nos sentamos, D. Antônia perguntou à hóspeda:
Onde está Lalau?
Onde há de estar! talvez brincando com o pavão. Mas, não faz mal, sinhá D. Antônia, vamos jantando; ela pode ser que nem tenha vontade de comer: antes de vir comeu um pires de melado com farinha.
A sege chegou muito tarde? perguntou Félix à hóspeda.
Não, senhor; ainda esperou por nós.
Seu irmão está bom?
Está; minha cunhada é que anda um pouco adoentada. Depois da erisipela que teve pelo Natal, nunca ficou boa de todo.
Creio que disseram ainda outras coisas; mas não me interessando nada, nem a conversação, nem a hóspeda, que era uma pessoa vulgar, fiz o que costumo fazer em tais casos: deixei-me estar comigo. Já tinha compreendido que a hóspeda era uma das que chegaram na sege, que a outra devia ser a mocinha, cuja cara vi entre as cortinas, e finalmente que alguma intimidade haveria entre tal gente e aquela casa, visto que, contra a ordem severa desta, Lalau andava atrás do pavão, em vez de estar à mesa conosco. Mas, em resumo, tudo isso era bem pouco para quem tinha na cabeça a história de um imperador.
Lalau não se demorou muito. Chegou entre o primeiro e o segundo prato. Vinha um pouco esbaforida, voando-lhe os cabelos, que eram curtinhos e em cachos, e quando D. Antônia lhe perguntou se não estava cansada de travessuras, Lalau ia responder alguma coisa, mas deu comigo, e ficou calada; D. Antônia, que reparou nisso, voltou-se para mim.
Reverendíssimo, é preciso confessar esta pequena e dar-lhe uma penitência para ver se toma juízo. Olhe que voltou há pouco e já anda naquele estado. Vem cá, Lalau.
Lalau aproximou-se de D. Antônia, que lhe compôs o cabeção do vestido; depois foi sentar-se defronte de mim, ao pé da outra hóspeda. Realmente, era uma criatura adorável, espigadinha, não mais de dezessete anos, dotada de um par de olhos, como nunca mais vi outros, claros e vivos, rindo muito por eles, quando não ria com a boca; mas se o riso vinha juntamente de ambas as partes, então é certo que a fisionomia humana confirmava com a angélica, e toda a inocência e toda a alegria que há no céu pareciam falar por ela aos homens. Pode ser que isto pareça exagerado a uns e vago a outros, mas não acho do momento um modo melhor de traduzir a sensação que essa menina produziu em mim. Contemplei-a alguns instantes com infinito prazer. Fiei-me do caráter de padre para saborear toda a espiritualidade daquele rosto comprido e fresco, talhado com graça, como o rosto da pessoa. Não digo que todas as linhas fossem corretas, mas a alma corrigia tudo.
Chamava-se Cláudia; Lalau era o nome doméstico. Não tendo pai nem mãe, vivia em casa de uma tia. Quase se pode dizer que nasceu na Casa Velha, onde os pais estiveram muito tempo como agregados, e aonde iam passar dias e semanas. O pai, Romão Soares, exercia um ofício mecânico, e antes pertencera à guarda de cavalaria de polícia; a mãe, Benedita Soares, era filha de um escrivão da roça, e, segundo me disse a própria D. Antônia, foi uma das mais bonitas mulheres que ela conheceu desde o tempo do rei.
Lalau, se não nasceu ali, ali foi criada e tratada sempre, ela como a mãe, no mesmo pé de outras relações; eram menos agregadas que hóspedas. Daí a intimidade desta mocinha, que chegava a infringir a ordem austera da casa, não indo para a mesa com a dona dela. Lalau andava na própria sege de D. Antônia, vivia do que esta lhe dava, e não lhe dava pouco; em compensação, amava sinceramente a casa e a família. Tendo ficado órfã desde 1831, D. Antônia cuidou de lhe completar a educação; sabia ler e escrever, coser e bordar; aprendia agora a fazer crivo e renda.
Foi D. Antônia quem me deu essas notícias, naquela mesma tarde, ao café, acrescentando que achava bom casá-la quanto antes; tinha a responsabilidade do seu destino, e receava que lhe acontecesse o mesmo que com outra agregada, seduzida por um saltimbanco em 1835.
Nisto a menina veio a nós, olhando muito para mim. Estávamos na varanda.
Vou confessá-la, disse-lhe eu; mas olhe lá se me nega algum pecado.
Que pecado, meu Deus! Cruz! Eu não tenho pecado. Nhãtônia é que anda inventando essas coisas. Eu, pecado?
E as travessuras? perguntei-lhe. Olhe, ainda hoje, quando estava quase a suceder um desastre na estrada, entre o carro de bois e a sege em que a senhora vinha, a senhora, em vez de ficar séria e pensar em Deus, enfiou a cabeça por entre as cortinas para fora, rindo como uma criança.
Que é ela senão criança? ponderou D. Antônia.
Lalau olhou espantada.
Onde estava o senhor padre?
Estava no céu, espiando.
Ora! diga onde estava.
Já disse; estava no céu.
Adeus! diga onde estava!
Lalau! que modos são esses? repreendeu D. Antônia.
A moça calou-se aborrecida; eu é que fui em auxilio dela, e contei-lhe que estava à janela da biblioteca, quando ela chegara. D. Antônia já sabia tudo, pois ali um acontecimento de nada ou quase nada era matéria de longas conversações. Não obstante. a mocinha referiu ainda o que se passara e as suas sensações alegres. Confessou que não tinha medo de nada, e até que queria ver um desastre para compreender bem o que era. Como a conversação dela era a troncos, interrompeu-se para perguntar-me se era eu quem iria agora dizer missa lá em casa, em vez do Padre Mascarenhas. Respondi-lhe que não, quis saber o que estava fazendo na biblioteca. Disse-lhe que fazia crivo. Ela pareceu gostar da resposta; creio que achou entre os nossos espíritos algum ponto de contacto.
A verdade é que, no dia seguinte, vendo-me entrar e ir para a biblioteca, ali foi ter comigo, ansiosa de saber o que eu estava fazendo. Como lhe dissesse que examinava uns papéis, ouviu-me atenta, pagou curiosa de algumas notas, e dirigiu-me várias perguntas; mas deixou logo tudo para contemplar a biblioteca, peça que raramente se abria. Conhecia os retratos, distinguiu-os logo; ainda assim parecia tomar gosto em vê-los, principalmente o do ex-ministro; quis saber se ela o conhecia; respondeu-me que sim, que era um bonito homem, e fardado então parecia um rei. Seguiu-se um grande silêncio, durante o qual ela olhou para o retrato, e eu para ela, e que se quebrou com esta frase murmurada pela moça, entre si e Deus:
Muito parecido...
Parecido com quem? perguntei.
Lalau estremeceu e olhou para mim, envergonhada. Não era preciso mais; adivinhei tudo. Infelizmente tudo não era ainda tudo.

Machado de Assis, em Casa Velha

Boogarins | Crescer

Imitação de Cecília Meireles num sábado estrangeiro

Em prateleiras etiquetadas da quitanda
jaz a floresta útil, organizada e civil.

Na cabeça definha o pomar da infância
simples: mãe e vizinha, goiaba e abiu.

Sobe o número de hectares do mundo,
incha o mapa, exótico: istmos, fiordes.

Mas o açude do bairro era mais fundo,
o reino vasto, medido em quarteirões.

Na cama, uniam-se ao canto dos galos
o pio do bem-te-vi e do fogo-apagou.

Agora mal nos vemos e nem cantamos,
o alarme de incêndio é o que restou.

Ricardo Domeneck, em Cabeça de galinha no chão de cimento

1553 – Concepción

Um sonho de Pedro de Valdívia

Treme no breu a luz das tochas. Ruído de esporas que arrancam faíscas do chão de pedras, em uma praça de armas que não é do Chile, nem de nenhum lugar. Na galeria, uma fila de homens nobres, de palácio: longas capas negras, espadas na cinta, chapéus de plumas. À passagem de Pedro de Valdívia, cada um dos homens se inclina e tira o chapéu. Ao tirar o chapéu, sai junto a cabeça.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Cartas na Rua | SEIS


8

Era preciso preencher mais papéis para sair de lá do que para entrar.
A primeira folha que lhe davam era uma consideração pessoal, mimeografada, do Diretor dos Correios da cidade.
Começava assim:
Sinto muito que esteja terminando sua carreira nos Correios e... etc., etc., etc.”
Como ele podia sentir? Nem me conhecia.
Havia uma lista de perguntas.
Você achou os nossos supervisores compreensivos? Foi capaz de se relacionar com eles?”
Sim, respondi.
Você descobriu nos supervisores algum tipo de preconceito em relação a cor, religião, formação ou qualquer outro fator relacionado?”
Não, respondi.
Então havia uma que dizia: “Você aconselharia seus amigos a procurar emprego nos Correios?”.
Claro, respondi.
Se você tem alguma decepção ou reclamações a fazer sobre os Correios, por favor, liste-as em detalhe no verso desta página.”
Nenhum descontentamento, respondi.
Então minha garota negra voltou.
Já terminou?
Terminei.
Nunca vi ninguém preencher tão rápido esses papéis.
Depressa — eu disse.
Depressa? — perguntou. — O que quer dizer com isso?
Quero dizer, o que temos de fazer agora?
Por favor, passe por aqui.
Segui seu rabo por entre as mesas até um lugar quase nos fundos do prédio.
Sente-se — disse um homem.
Levou algum tempo lendo e percorrendo os papéis. Então olhou para mim.
Posso perguntar por que está se demitindo? Há alguma relação com as medidas disciplinares adotadas contra o senhor?
Não.
Então qual é o motivo de seu pedido de demissão?
Quero me dedicar a outra carreira.
Outra carreira?
Ele me olhou. Eu estava a menos de oito meses de completar cinquenta anos. Sabia o que ele estava pensando.
Posso perguntar qual será essa sua “carreira”?
Bem, senhor, vou lhe dizer. A estação de caça nas nascentes se estende apenas de dezembro a fevereiro. Já perdi quase um mês.
Um mês? Mas o senhor está aqui há onze anos.
Tudo bem, então, joguei onze anos fora. Ainda consigo pegar de dez a vinte mil em três meses de caça na nascente de La Fourche.
O que o senhor faz?
Capturo ratos almiscarados, nútria, marta, lontra... guaxinim. Tudo de que preciso é de uma canoa. Pago vinte por cento do que capturar pelo uso da terra. Recebo 1,25 pelas peles de rato almiscarado, três dólares por marta, quatro dólares por martas superiores, 1,50 por nútria e 25 dólares por lontra. Eu vendo a carcaça do rato almiscarado, que tem cerca de trinta centímetros, por cinco centavos para uma fábrica de comida para gatos. Consigo 25 centavos pela nútria despelada. Crio porcos, galinhas e patos. Pesco bagres. Não há nada como isso. Eu...
Esqueça, sr. Chinaski, já é o suficiente.
Enfiou alguns papéis na máquina de escrever e os datilografou.
Então ergui os olhos e dei de cara com Parker Anderson, meu cara no sindicato, o bom e velho Parker, que fazia a barba e cagava em postos de gasolina, dava-me agora seu sorrisinho malicioso de político.
Está pedindo demissão, Hank? Sabia que você estava maquinando alguma coisa há onze anos...
Sim, estou indo para o sul da Louisiana e vou juntar uma boa quantidade de riquezas.
Eles têm um hipódromo por lá?
Está de brincadeira? Tem o Fair Grounds, um dos mais antigos hipódromos do país!
Parker tinha consigo um garoto branco — outro neurótico da tribo dos perdidos —, e os olhos do garoto estavam cobertos de lágrimas. Uma enorme lágrima em cada olho. Elas não caíam. Era fascinante. Já tinha visto mulheres se sentarem e me olharem com aqueles mesmos olhos antes de enlouquecerem e começarem a gritar sobre o grande filho da puta que eu era. Era evidente que o garoto tinha caído em uma das muitas armadilhas e que tinha ido correndo até o Parker. Parker poderia salvar seu emprego.
O homem me deu mais um papel para assinar e, depois disso, me mandei dali.
Parker disse:
Boa sorte, meu velho — quando passei por ele.
Obrigado, baby — respondi.
Não senti qualquer diferença. Mas sabia que muito em breve, como um homem resgatado rapidamente das profundezas do mar, eu seria vítima de um tipo de descompressão bem particular. Eu era como aqueles periquitos desgraçados da Joyce. Depois de viver na gaiola eu tinha saído para o ar livre e voava — como uma bala em direção aos céus. Aos céus?

Charles Bukowski, em Cartas na Rua

Abracadabra


Trata-se de uma palavra cabalística, à qual, durante toda a Idade Média, se atribuíram virtudes mágicas para curar ou evitar algumas doenças, sobretudo febres, através da repetição contínua do vocábulo.
São várias as etimologias que têm sido avançadas. Viria do hebreu abreg ad hâbraque significa “envia o teu raio até à morte” ou, ainda do hebreu, deab-ruah-dabar, “pai, espírito, palavra”, o que representaria uma trindade divina. A origem poderia também residir no persa abrasas, denominação mística da divindade (referida, eventualmente, ao deus Mitra) anteposta a dabar, o hebraico, com o significado de “palavra divina”, pelo que a grafia preferível devia de ser abrasadabra.
Mas a etimologia mais comummente aceite faz vir abracadabra de abracax, abraxás, abraxax, termo persa ou, novamente, do hebreu hab’rakah, “nome sagrado”. Todos estes étimos se relacionariam com uma divindade proposta pelo heresiarca Basílides de Alexandria, o mais conhecido gnóstico que viveu nos inícios do século II. Desse deus, o pai incriado, “Abracax”, dependeriam outros deuses e anjos que presidiam aos 365 céus correspondentes aos dias do ano. Mas a construção teológica de Basílides, que tentava explicar o cristianismo, não é conhecida directamente. Nenhuma sua obra chegou até nós e o pouco que se sabe do tão complexo sistema resulta do que se infere das refutações da sua doutrina feitas por Sto. Ireneu e Sto. Hipólito.
Abracadabra” utilizava-se gravada numa pedra ou em metal que se suspendia ao peito como amuleto. Para surtir efeito, na cura das doenças ou na expulsão dos demónios, deveria a palavra escrever-se em triângulo invertido orientando para baixo as energias da parte superior que o talismã captava e as letras dispor-se-iam de tal modo que a palavra se pudesse ler em vários sentidos. Exemplos:

ABRACADABRA
BRACADABR
RACADAB
ACADA
CAD
A

*
ABRACADABRA
BRACADABRA
RACADABRA
ACADABRA
CADABRA
ADABRA
DABRA
ABRA
BRA
RA
A

*
ABRACADABRA
ABRACADABR
ABRACADAB
ABRACADA
ABRACAD
ABRACA
ABRAC
ABRA
ABR
AB
A

Orlando Loureiro Neves, em Dicionário da origem das palavras