04/12/2024
Incomodidade
Nunca me senti bem nas salas de estar, Salas de estar... Mas de estar o quê?
Mário Quintana, em Caderno H
Traduzir procurando não trair
Tati
Moraes e eu traduzimos uma peça de Lillian Hellman para Tônia
Carrero levar. Fizemos a tradução com o maior prazer, se bem que de
início eu tivesse que ser fustigada por Tati que é a minha
inexorável feitora em vários terrenos, de trabalho ou não. Mas
Tônia, você não imagina o trabalho de minúcias que dá traduzir
uma peça. Ou melhor, você, que andou nos dando sugestões
inteligentes, imagina sim. Primeiro, traduzir corre o risco de não
parar nunca: quanto mais se revê, mais se tem que mexer e remexer
nos diálogos. Sem falar na necessária fidelidade ao texto do autor,
enquanto ao mesmo tempo há a língua portuguesa que não traduz
facilmente certas expressões americanas típicas, o que exige uma
adaptação mais livre.
E
a exaustiva leitura da peça em voz alta para podermos sentir como
soam os diálogos? Estes têm que ser coloquiais: de acordo com as
circunstâncias, ora mais ou menos cerimoniosos, ora mais ou menos
relaxados.
Como
se não bastasse, cada personagem tem uma “entonação” própria
e para isso precisamos das palavras e do tom apropriados. Por falar
em entonação, aconteceu-me uma coisa desagradável, enquanto durou
a tradução. De tanto lidar com personagens americanos, “peguei”
uma entoação inteiramente americana nas inflexões de voz. Passei a
cantar as palavras, exatamente como um americano que fala português.
Queixei-me a Tati, pois já estava enjoada de me ouvir, e ela
respondeu com a maior ironia: “Quem manda você ser uma atriz
inata?” Mas acho que todo escritor é um ator inato. Em primeiro
lugar ele representa profundamente o papel de si mesmo. Escritor é
uma pessoa que se cansa muito, e que termina com um pouco de náusea
de si, já que o contato íntimo consigo próprio é por força
prolongado demais.
Esta
peça para Tônia foi ótima de se traduzir. Mas – e quando nos
caiu em mãos uma peça de Tchekhov? Veio numa fase em que eu estava
meio deprimida. Depois eu soube que Tati andou consultando amigos
para saber se me convinha lidar com o personagem principal, já que
este se parecia demais comigo. A conclusão era que eu trabalhasse de
qualquer maneira porque me faria bem agir, e porque seria bom eu ver,
como num espelho, a minha própria fisionomia. Que me faria bem lidar
com um personagem cujo senso trágico da vida termina levando-o ao
desespero. Traduzimos Tchekhov, eu com um esforço tremendo, pois me
parecia estar me descrevendo. Depois por motivos externos, a peça
passou para as mãos de outras pessoas, e perdemo-la de vista. Um dos
motivos externos consistia no fato do diretor querer interferir
demais na nossa tradução. Não nos incomodamos com a interferência
justa de um diretor, tantas vezes esclarecedora, mas as divergências
eram muito mais sérias. Entre outras, ele achava que, em vez de
“angústia”, usássemos a palavra “fossa”. Ora, nós duas
discordávamos: um personagem russo, ainda mais daquela época e
ambiente, não falaria em fossa. Falaria em angústia e em tédio
destruidor.
Mas,
para falar a verdade, em termos atuais, ele estava na fossa mesmo.
Em
compensação, traduzimos Hedda Gabler, que não só foi logo
encenada em São Paulo, como nos fez ganhar, com justo orgulho
profissional, o prêmio da melhor tradução do ano. Uma medalha, meu
Deus!
Prazer
engraçado tive eu ao traduzir um livro condensado de Agatha
Christie, encomendado por Tito Leite, diretor de Seleções. Em vez
de lê-lo antes no original, como sempre faço, fui lendo à medida
que ia traduzindo. Era um romance policial, eu não sabia quem era o
criminoso, e traduzi com a maior pressa, pois não suportava a tensão
da curiosidade. O livro esgotou-se rapidamente.
Traduzo,
sim, mas fico cheia de medo de ler traduções que fazem de livros
meus. Além de ter bastante enjoo de reler coisas minhas, fico também
com medo do que o tradutor possa ter feito com um texto meu. Uma
tradução de dois livros meus que fizeram para o alemão, não me
causou problemas: não entendo uma palavra de alemão, e a coisa
ficou aliviadoramente, por isso mesmo nem as críticas e comentários
que a editora me mandou eu pude ler. Mas quando um livro meu foi
traduzido para o inglês, nos Estados Unidos, pela Knopf – o livro
saiu fisicamente lindo, bom até de se tocar com as mãos – então
o problema foi outro. Eu sabia que o tradutor, Gregory Rabassa, era
de primeira água – ganhou o National Book Award do ano, nos
Estados Unidos – e inglês eu podia ler. Chamei-me então
severamente à ordem, e comecei a cumprir o dever de ler a mim mesma.
A tradução me pareceu muito boa. Mas parei, pois o que venceu
mesmo foi a náusea de me reler. O tradutor, professor de literatura
portuguesa e brasileira numa universidade, fez um longo prefácio ao
livro sobre literatura brasileira. Chegou à conclusão estranha de
que eu era ainda mais difícil de traduzir que Guimarães Rosa, por
causa de minha sintaxe. Não se assustem, nesta coluna esforço-me
por não usar uma sintaxe que me é íntima e natural. Com um pouco
de vergonha, já tinha esquecido o que quer dizer sintaxe. Perguntei
a um amigo, que me explicou: sintaxe é o modo como a frase se coloca
dentro do período. Fiquei um pouco na mesma e desconfiada de que não
podia se tratar apenas disso: uma palavra tão grave como sintaxe não
podia significar simplesmente isso. Tenho o maior respeito por
gramática, e pretendo nunca lidar conscientemente com ela. Em
matéria de escrever certo, escrevo mais ou menos certo de ouvido,
por intuição, pois o certo sempre soa melhor.
Clarice Lispector, em Todas as crônicas
Prefácio | Hipotrélico
Hei
que ele é.
Do
Irreplegível.
Há
o hipotrélico. O termo é novo, de impesquisada origem e ainda sem
definição que lhe apanhe em todas as pétalas o significado.
Sabe-se, só, que vem do bom português. Para a prática, tome-se
hipotrélico querendo
dizer: antipodático, sengraçante imprizido; ou, talvez, vice-dito:
indivíduo pedante, importuno agudo, falto de respeito para com a
opinião alheia. Sob mais que, tratando-se de palavra inventada, e,
como adiante se verá, embirrando o hipotrélico em não tolerar
neologismos, começa ele por se negar nominalmente a própria
existência.
Somos
todos, neste ponto, um tento ou cento hipotrélicos? Salvo o excepto,
um neologismo contunde, confunde, quase ofende. Perspica-nos a
inércia que soneja em cada canto do espírito, e que se refestela
com os bons hábitos estadados. Se é que um não se assuste: saia
todo-o-mundo a empinar vocábulos seus, e aonde é que se vai dar com
a língua tida e herdada? Assenta-nos bem à modéstia achar que o
novo não valerá o velho; ajusta-se à melhor prudência relegar o
progresso no passado.
Sobre
o que, aliás, previu-se um bem decretado conceito: o de que só o
povo tem o direito de se manifestar, neste público particular. Isto
nos aquieta. A gente pensa em democráticas assembleias, comitês,
comícios, para a vivíssima ação de desenvolver o idioma; senão
que o inconsciente coletivo ou o Espírito Santo se exerçam a ditar
a vários populares, a um tempo, as sábias, válidas inspirações.
Haja para. Diz-se-nos também, é certo, que tudo não passa de um
engano de arte, leigo e tredo: que quem inventa palavras é sempre um
indivíduo, elas, como as criaturas, costumando ter um pai só; e que
a comunidade contribui apenas dando-lhes ou fechando-lhes a
circulação. Não importa. Na fecundidade do araque apura-se
vantajosa singeleza, e a sensatez da inocência supera as excelências
do estudo. Pelo que, terá de ser agreste ou inculto o neologista, e
ainda melhor se analfabeto for.
Seja
que, no sem-tempo quotidiano, não nos lembremos das e muitíssimas
que foram fabricadas com intenção — ao modo como Cícero fez
qualidade
(“qualitas”), Comte altruísmo,
Stendhal egotismo,
Guyau amoral, Bentham
internacional,
Turguêniev niilista,
Fracástor sífilis,
Paracelso gnomo,
Voltaire embaixatriz
(“ambassadrice”), Van Helmont gás,
Coelho Neto paredro,
Ruy Barbosa egolatria,
Alfredo Taunay necrotério;
e mais e mais e mais, sem desdobrar memória. Palavras em serviço
efetivo, já hoje viradas naturais, com o fácil e jeito e unto de
espontâneas, conforme o longo uso as sovou.
De
acordo, concedemos. Mas, sob cláusula: a de que o termo engenhado
venha tapar um vazio. Nem foi menos assim que o dr. Castro Lopes, a
fim de banir galicismos, e embora se saindo com processo direto e
didático, deixadas fora de conta quaisquer sutilezas psicológicas
ou estéticas, conseguiu pôr em praça pelo menos estes, como ele
mesmo dizia, “produtos da indústria nacional filológica”:
cardápio, convescote,
preconício, necrópole, ancenúbio, nasóculos, lucivéu e lucivelo,
fádico, protofonia, vesperal, posturar, postrídio, postar (no
correio) e
mamila. E, donde: palavra nova, só se satisfizer uma
precisão, constatada, incontestada.
Verdade
é que outros também nos objetam que esta maneira de ver reafirma
apenas o estado larval em que ainda nos rojamos, neste pragmático
mundo da necessidade, em que o objetivo prevale o subjetivo, tudo
obedece ao terra-a-terra das relações positivas, e, pois, as coisas
pesam mais do que as pessoas. Por especiosa, porém, rejeitamos a
argumentação. Viver é encargo de pouco proveito e muito
desempenho, não nos dando por ora lazer para nos ocuparmos em
aumentar a riqueza, a beleza, a expressividade da língua. Nem nos
faz falta capturar verbalmente a cinematografia divididíssima dos
fatos ou traduzir aos milésimos os movimentos da alma e do espírito.
A coisa pode ir indo assim mesmo à grossa.
E
fique à conta dos tunantes da gíria e dos rústicos da roça —
que palavrizam autônomos, seja por rigor de mostrar a vivo a vida,
inobstante o escasso pecúlio lexical de que dispõem, seja por gosto
ou capricho de transmitirem com obscuridade coerente suas próprias e
obscuras intuições. São seres sem congruência, pedestres ainda na
lógica e nus de normas. Veja-se o que diz Gustavo Barroso, no “Terra
de Sol”: “‘Subdorada’ era o adjetivo que lhes
exprimia a admiração. Não sei onde o foram encontrar. No sertão
há dessas expressões; nascem ninguém sabe como; vivem eternamente
ou desaparecem um dia sem também se saber como.” Confere. Pode-se
lá, porém, permitir que a palavra nasça do amor da gente, assim,
de broto e jorro: aí a fonte, o miriquilho, o olho-d’água; ou
como uma borboleta sai do bolso da paisagem?
Do
que tal se infere serem os neologismos de um sertanejo desses, do
Ceará ou de Minas Gerais, coisas de desadoro, imanejáveis, senão
perigosas para as santas convenções. Se nem ao menos tão longe,
mas por aqui, no Estado do Rio, nosso amigo Edmundo se surpreendeu
com a resposta, desbarbadamente hermética, de um de seus meeiros, a
quem perguntara como ia o milho: — “Vai de minerol
infante.” — “Como é?” — “Está
cobrindo os tocos...” O que já pode parecer excessiva
força de ideias.
Dito
seja, a demais, que o vezo de criar novas palavras invade muitas
vezes o criador, como imperial mania. Um desses poetas, por exemplo,
de inabafável vocação para contraventor do vernáculo, foi o
fazendeiro Chico de Matos, de Dourados; coitado, morreu de
epitelioma. Duas das suas se fizeram, na região: intujuspéctico,
que quase por si se define — com o sentido de pretensioso impostor
e enjoado soturno; e incorubirúbil,
que onomatopeicamente pode parecer o gruziar de um peru ou o
propagar-se de golpes com que se sacoleja a face límpida de uma
água, mas que designa apenas quem é “cheio de dedos”, “cheio
de maçada”, “cheio de voltas”, “cheio de nós pelas costas”,
muito susceptível e pontilhoso. Não são de não se catalogar?
Já
outro, contudo, respeitável, é o caso — enfim — de
“hipotrélico”, motivo e base desta fábula diversa, e que vem do
bom português. O bom português, homem-de-bem e muitíssimo
inteligente, mas que, quando ou quando, neologizava, segundo suas
necessidades íntimas.
Ora,
pois, numa roda, dizia ele, de algum sicrano, terceiro, ausente:
— E
ele é muito hiputrélico...
Ao
que, o indesejável maçante, não se contendo, emitiu o veto:
— Olhe,
meu amigo, essa palavra não existe.
Parou
o bom português, a olhá-lo, seu tanto perplexo:
— Como?!...
Ora... Pois se eu a estou a dizer?
— É.
Mas não existe.
Aí,
o bom português, ainda meio enfigadado, mas no tom já feliz de
descoberta, e apontando para o outro, peremptório:
— O
senhor também é hiputrélico...
E
ficou havendo.
Guimarães Rosa, em Tutameia
O que é um país senão uma sentença para toda a vida?
Reli
o Diário de luto do Roland Barthes ontem, o livro que ele
escreveu todo dia, por um ano, depois da morte da mãe. Conheci o
corpo da minha mãe, ele escreve, doente e depois moribundo.
E foi aí que eu parei. Foi aí que eu decidi te escrever. Você que
ainda está viva.
Aqueles
sábados no fim do mês quando, se tinha sobrado dinheiro depois de
pagar as contas, a gente ia ao shopping. Tinha gente que punha as
melhores roupas para ir à missa ou a jantares, a gente se arrumava
todo para ir a um centro comercial perto da Interestadual 91. Você
acordava cedo, passava uma hora se maquiando, punha o melhor vestido
preto com lantejoulas, o único par de argolas de ouro, sapatos
pretos de lamê. Depois você se ajoelhava e besuntava meu cabelo com
um punhado de brilhantina, penteando-o.
Vendo
nós dois ali, um desconhecido não ia adivinhar que a gente fazia
compras na mercearia da esquina da avenida Franklin, onde a entrada
ficava entulhada de tíquetes de vale-alimentação fornecidos pelo
governo, onde produtos básicos como leite e ovos custavam o triplo
do que custavam nos subúrbios, onde as maçãs, enrugadas e
machucadas, ficavam numa caixa de papelão ensopada no fundo por
conta do sangue de porco vazado da caixa de costelinhas suínas, o
gelo há muito derretido.
“Vamos
comprar o chocolate chique”, você dizia, apontando para os
Godivas. Nós saíamos com uma sacolinha de papel com uns cinco ou
seis quadradinhos de chocolate escolhidos aleatoriamente. Várias
vezes isso era a única coisa que a gente comprava no shopping.
Depois a gente andava, passando chocolate de um para o outro até
nossos dedos brilharem retintos e doces. “É assim que se aproveita
a vida”, você dizia, chupando os dedos, o esmalte rosa descascando
depois de uma semana trabalhando como pedicure.
A
vez com os teus punhos, gritando no estacionamento, o sol do fim de
tarde gravando em água-forte teus cabelos vermelhos. Meus braços
protegendo minha cabeça enquanto as tuas juntas batiam em mim.
Naqueles
sábados, a gente passeava pelos corredores até que, uma a uma, as
lojas baixavam as portas de aço. Depois a gente ia até o ponto de
ônibus descendo a rua, nossa respiração flutuando acima de nós, a
maquiagem secando no teu rosto. Nossas mãos vazias, exceto por
nossas mãos.
Da
minha janela hoje de manhã, pouco antes do sol nascer, dava para ver
um cervo parado numa neblina tão densa e brilhante que o segundo
cervo, não muito longe, parecia uma sombra inacabada do primeiro.
Você
pode colorir isso. Pode chamar de “A História da Memória”.
A
migração pode ter como gatilho o ângulo do sol, indicando uma
mudança de estação, temperatura, vida da flora e quantidade de
alimentos disponível. As borboletas-monarcas fêmeas botam ovos pelo
caminho. Toda história tem mais de um fio, todo fio é uma história
de divisão. A viagem leva sete mil setecentos e setenta quilômetros,
mais do que a extensão deste país. As monarcas que voam para o sul
não voltarão para o norte. Toda partida, portanto, é definitiva.
Só seus filhos voltarão; só o futuro revisita o passado.
O
que é um país senão uma sentença sem fronteiras, uma vida?
Aquele
dia no açougueiro chinês, você apontou para o porco assado
pendurado no gancho. “Depois de queimar, as costelas são
iguaizinhas às de uma pessoa.” Você deixou escapar uma risadinha
entrecortada, pegou a carteira, o rosto tenso, e contou de novo nosso
dinheiro.
O
que é um país senão uma sentença para toda a vida?
Ocean Vuong, em Sobre a terra somos belos por um instante
Balada
Folha
enrugada,
poeira
nos livros.
A
pena se arrasta
no
esforço inútil
de
libertação.
Nenhuma
vontade,
nem
mesmo desejo
na
tarde cinzenta.
A
árvore seca
esperando
seiva
não
tem paisagem.
Na
frente é o deserto
coberto
de pedras.
Nem
sombra de oásis.
Pobre
árvore seca
na
tarde cinzenta!
Se
houvesse um castelo
com
torres e dama
de
loiros cabelos,
talvez
eu fizesse
algum
madrigal.
Mas
a dama morreu,
os
castelos se foram
na
tarde cinzenta!
O
caminho se alonga
por
entre montanhas,
por
campos e vales.
Talvez
me conduza
ao
roteiro perdido
no
fundo do mar.
Mas
estou tão cansado
na
tarde cinzenta!
Não
sou lobo da estepe;
amo
a todos os homens
e
suporto as mulheres.
Contudo
não posso
falar
com os lábios,
amar
com o sexo,
porque
sinto a tortura
da
tarde cinzenta!
Só
me restam os livros.
Vou
ficar com eles
esperando
que chegue
do
fundo da noite,
das
sombras do tempo,
oh!
imenso mar,
vem
me libertar
da
tarde cinzenta!
José Paulo Paes, em Poesia completa
02/12/2024
O cachorro e o frasco
– Que
fofo, que amado, que lindo cãozinho; venha cá cheirar este
excelente perfume comprado na melhor botica da cidade.
E
o cachorro, abanando o rabo, gesto que creio ser o equivalente do
riso e do sorriso entre essas pobres criaturas, aproximou-se e apoiou
curioso o focinho úmido na boca do frasco destampado; depois,
recuando de um pulo, ainda latiu contra mim, como para reclamar.
– Ah,
cachorro maldito, se eu lhe tivesse oferecido um pacote de
excrementos, você o farejaria deliciado, e possivelmente o devorava.
E assim, companheiro indigno da minha triste vida, descubro-te tal
qual o público, a quem não convém jamais oferecer perfumes
delicados, que o exasperam, mas vilezas cuidadosamente escolhidas.
Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa
O amor que move o sol e outras estrelas
Foi
no cruzamento de São José com a Avenida, depois na Cinelândia,
depois em Copacabana. Elas atravessavam a rua, entravam em lojas,
saíam de automóveis, paravam para admirar vitrinas e aí seguiam
num novo impulso, quais jovens barcos, os barcos a se agitarem como
remos de incerta parlamenta, ganhando devagar e sempre os mares azuis
da tarde carioca fresca e fagueira. Saias pretas, batinas brancas,
sapatinhos de balé, os cabelos graciosamente curtos ou atacados no
alto, lá iam elas bamboleando a sua doce carga, com os veludosos
olhos atentos aos mostruários. Surgiam às dezenas, de todos os
lados, como obedecendo a um sinal convencionado e ao se cruzarem
miravam-se de soslaio, a se medirem como embarcações rivais.
Às
vezes, numa esquina, paravam por um momento, ligeiramente
resfolegantes, para descansar um pouco do esforço feito dentro do
mar picado da multidão. Mas nada que denunciasse nelas uma grande
estafa ou um sentimento de derrota. As barriguinhas pandas, os corpos
equilibrados à nova distribuição de peso, a pele esticada, a nuca
fresca, súbito punham elas de novo a funcionar o motorzinho de popa
e saíam empinadinhas em frente, um enxame de mulherzinhas grávidas
a penetrar a vida urbana de uma nova vida, uma nova graça e uma
certa gravidade.
Como
explicar a emoção que senti? Talvez essa que provocaria a vista de
um quadrinho de regata feito por Guignard, com os ioles e esquifes
distendidos na puxada e por ali tudo, em meio ao esvoaçar multicor
de bandeirinhas, um mundo de serenas baleeiras a se balançarem
suaves ao sabor das ondas. Sei que fiquei lírico, possuído do
sentimento da fecundidade da vida, sentindo a brisa farfalhar em meus
cabelos e arder em minha pele o sol claro do dia. Soube que o tempo
tinha cumprido a sua missão, e todas aquelas mulherzinhas
fecundadas, a berçar no movimento de seus passos a gestação dos
filhos, constituíam em seu gracioso desenho convexo uma maravilhosa
afirmação de vida e um caminho positivo para o amor. Soube que o
amor é uma missão a cumprir por nós, homens, e que é a nós de
constantemente querer, zelar e defender essas que, tão frágeis,
fazem a nossa força e miséria e cuja existência é um contínuo
sofrer, se alegrar e se extinguir por nós. Soube que homem e mulher
são, em sua constante atração e repúdio, a imagem mesma da vida
em movimento, e que sua longa jornada de mãos juntas, a se afastar
cada vez mais do Paraíso Perdido, tende a uma alfombra cada vez
menos distante, onde se aninharão melhor e onde fecundarão seres
cada vez mais próximos da terra.
Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor
Mãos dadas
Não
serei o poeta de um mundo caduco.
Também
não cantarei o mundo futuro.
Estou
preso à vida e olho meus companheiros.
Estão
taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre
eles, considero a enorme realidade.
O
presente é tão grande, não nos afastemos.
Não
nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não
serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não
direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não
distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não
fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O
tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a
vida presente.
Carlos Drummond de Andrade, em Sentimento do mundo
No espelho da natureza
— Um homem não se acha descrito com
exatidão, quando ouvimos que ele gosta de andar por altos campos de
trigo amarelo, que prefere as cores das florestas e das flores do
outono amarelecido e caduco, por elas insinuarem coisas mais belas do
que a natureza jamais alcançou, que ele se sente em casa sob grandes
nogueiras de espessas folhas, como entre parentes próximos, que a
sua maior alegria, estando nas montanhas, é encontrar os pequenos
lagos afastados, dos quais a solidão mesma parece contemplá-lo, que
ele ama a cinzenta paz do nevoento crepúsculo que em noites de
outono e princípio de inverno se aproxima das janelas e envolve,
como cortina de veludo, todo ruído inanimado, que ele sente as
rochas brutas como testemunhos do passado desejosos de falar e as
venera desde criança, e, por fim, que o mar, com sua movediça pele
de serpente e sua beleza de fera, é e sempre lhe será estranho? —
Sim, alguma coisa desse homem foi descrita, certamente; mas o
espelho da natureza nada diz sobre o fato de que o mesmo homem, com
toda a sua idílica sensibilidade (e não “apesar dela”), poderia
ser bastante frio, mesquinho e presunçoso. Horácio, que entendia de
tais coisas, pôs o mais delicado sentimento pelo campo na boca de um
agiota romano, no famoso verso “beatus ille qui procul negotiis”
[feliz aquele que, longe das ocupações...].
Friedrich Nietzsche, em Humano, demasiado humano
A leste do Éden | 4
[
2 ]
Sempre
me pareceu estranho que são geralmente homens como Adam que têm de
bancar o soldado. Ele não gostava de lutar, em princípio, e longe
de aprender a amar o combate, como acontece com alguns homens, sentia
uma repulsa cada vez maior à violência. Várias vezes seus oficiais
tiveram sua atenção voltada para ele, suspeitando de que fingisse
doença para escapar ao serviço, mas não fizeram nenhuma acusação.
Durante seus cinco anos como soldado, Adam fez mais serviço de
patrulha do que qualquer homem no esquadrão, mas se matou algum
inimigo foi por acidente ou por ricochete. Sendo um perito em tiro ao
alvo e exímio atirador, estava peculiarmente preparado para errar. A
esta altura o combate aos índios se tornara algo como um perigoso
transporte de boiadas — as tribos eram forçadas a se revoltar,
empurradas à luta e dizimadas, e os tristes e taciturnos
remanescentes se instalavam em terras estéreis. Não era trabalho
agradável, mas, dado o modelo do desenvolvimento do país, tinha de
ser feito.
Para
Adam, que era um instrumento, que não via as futuras fazendas,
apenas as barrigas dilaceradas de seres humanos, era revoltante e
inútil. Quando detonava sua carabina para errar, estava cometendo
uma traição contra sua unidade e não se importava. A emoção da
não violência foi crescendo dentro dele até virar um preconceito
como qualquer outro preconceito que anula o pensamento. Infligir
qualquer ferimento em qualquer coisa por qualquer propósito se
tornou uma aversão para ele. Ficou obcecado com essa emoção, pois
se tratava seguramente disso, até que apagava qualquer pensamento
possível nessa área. Mas nunca houve nenhuma sugestão de covardia
na ficha militar de Adam. Na verdade, ele foi recomendado três vezes
e condecorado por bravura.
Quanto
mais se revoltava com a violência, mais seu impulso tomava a direção
oposta. Arriscou a vida inúmeras vezes para resgatar homens feridos.
Ofereceu-se como voluntário para trabalhar em hospitais de campanha,
mesmo quando já estava exausto de seus deveres regulares. Era
encarado pelos companheiros com desdenhoso afeto e com o medo que os
homens têm de impulsos que não compreendem.
Charles
escrevia ao irmão regularmente — sobre a fazenda e o vilarejo, as
vacas doentes e a égua que deu cria, o pasto aumentado e o celeiro
atingido por um raio, a morte de Alice sufocada por sua tuberculose e
o posto permanente e remunerado do pai junto ao Grande Exército da
República em Washington. Como acontecia com muitas pessoas, Charles,
que não conseguia falar, escrevia copiosamente. Descrevia sua
solidão e suas perplexidades, e colocava no papel muitas coisas que
desconhecia a respeito de si mesmo.
Durante
o tempo em que Adam esteve fora, conheceu seu irmão melhor do que
jamais conhecera antes ou conheceria depois. Na troca de cartas
nasceu uma intimidade que nenhum deles poderia ter imaginado.
Adam
guardou uma carta do irmão, não porque a entendesse completamente,
mas porque parecia ter um significado oculto que ele não conseguia
adivinhar. “Querido irmão Adam”, dizia a carta, “pego a caneta
com a esperança de que esteja gozando de saúde” — ele sempre
começava assim para embarcar suavemente na tarefa de escrever. “Não
recebi sua resposta a minha última carta, mas imagino que tenha
outras coisas para fazer — há! há! A chuva chegou no tempo errado
e estragou a floração das maçãs. Não haverá muitas para comer
no próximo inverno, mas vou guardar o que puder. Esta noite limpei a
casa e ela está úmida e coberta de sabão e talvez não tenha
ficado mais limpa. Como é que mamãe conseguia conservá-la como
fazia, você tem alguma ideia? Não parece a mesma coisa. Algo fica
depositado na casa. Não sei o que é, mas não dá para retirar com
o esfregão. Mas consegui espalhar a sujeira mais por igual, de
qualquer maneira. Há! Há!
“Papai
lhe escreveu alguma coisa sobre a sua viagem? Foi direto até São
Francisco para um acampamento do Grande Exército. O secretário da
Guerra vai estar lá e papai deverá fazer a sua apresentação. Mas
isso é apenas uma ninharia para papai. Já se encontrou com o
presidente três, quatro vezes, foi até cear na Casa Branca. Eu
gostaria de conhecer a Casa Branca. Talvez você e eu pudéssemos ir
juntos quando voltar para casa. Papai podia nos levar lá por alguns
dias e ele gostaria de estar com você de qualquer maneira.
“Acho
melhor eu procurar uma boa esposa. Esta é uma boa fazenda e, ainda
que eu não seja grande coisa, existem garotas que não encontrariam
nada melhor do que esta fazenda. O que você acha? Não disse se vem
morar em casa quando sair do Exército. Espero que sim. Sinto falta
de você.”
A
carta parava aqui. Havia um rabisco na página e um borrão de tinta
e depois ela continuava a lápis, mas a letra era diferente.
O
trecho a lápis dizia: “Mais tarde. Bem, exatamente aqui a caneta
teve problemas. A pena quebrou. Vou ter de comprar outra pena no
vilarejo, esta está toda enferrujada.”
As
palavras começaram a correr mais suavemente. “Acho que eu devia
esperar uma nova pena e não escrever a lápis. Só que eu estava
sentado aqui na cozinha com o lampião aceso e acho que comecei a
pensar e de repente já era tarde — depois da meia-noite, eu acho,
mas não cheguei a olhar. O velho Black Joe começou a cocoricar no
galinheiro. E então a cadeira de balanço da mãe rangeu como se ela
estivesse sentada nela. Sabe que não acredito nessas coisas, mas
fiquei perturbado, você sabe como isso acontece às vezes. Acho que
vou rasgar esta carta, porque não vale a pena escrever coisas como
essas.”
As
palavras começavam a correr agora, como se não estivessem saindo
suficientemente rápidas. “Se vou jogar fora, tanto faz se a
continuo”, a carta dizia. “É como se a casa inteira estivesse
viva e possuísse olhos por toda parte e houvesse pessoas por trás
da porta prontas para entrar se você olhasse para o outro lado. Isso
me deixa arrepiado. Quero dizer — quero dizer — isto é, eu nunca
entendi — bem, por que nosso pai fez aquilo. Por que ele não
gostou daquele canivete que comprei para ele no seu aniversário. Por
que não gostou? Era um bom canivete e ele precisava de um bom
canivete. Se o tivesse usado ou até mesmo afiado, ou tirasse do
bolso e olhasse para ele — era tudo o que precisava fazer. Se ele
tivesse gostado do canivete, eu não teria brigado com você. Eu tive
de brigar com você. Parece que a cadeira da minha mãe está
balançando um pouco. É só a luz. Não estou ligando para isso.
Parece que tem uma coisa que não foi acabada. Como quando a gente
deixa um trabalho pela metade e não pode saber o que era. Algo
deixou de ser feito. Eu não devia estar aqui. Eu devia estar rodando
pelo mundo em vez de sentado aqui numa boa fazenda à procura de uma
esposa. Tem alguma coisa errada, como se não tivesse sido acabada,
como se acontecesse rápido demais e algo ficasse de fora. Eu é que
devia estar onde você está e você aqui. Nunca pensei assim antes.
Talvez porque seja muito tarde, é mais tarde do que pensei. Dei uma
olhada para fora e é o começo da aurora. Não creio que eu tenha
adormecido. Como podia a noite passar tão rápido? Não posso ir
para a cama agora. Eu não conseguiria dormir, de qualquer maneira.”
A
carta não estava assinada. Talvez Charles tenha se esquecido de que
pretendia destruí-la e a enviou. Mas Adam guardou-a por algum tempo,
e sempre que a relia ela lhe dava calafrios e ele não sabia por quê.
John Steinbeck, em A leste do Éden
01/12/2024
Concorrência pública
Tão safado quanto um contrato feito por concorrência pública.
Millôr Fernandes, em A bíblia do caos
Capítulo I – Antes e depois da missa
Aqui
está o que contava, há muitos anos, um velho cônego da Capela
Imperial:
— Não
desejo ao meu maior inimigo o que me aconteceu no mês de abril de
1839. Tinha-me dado na cabeça escrever uma obra política, a
história do reinado de D. Pedro I. Até então esperdiçara algum
talento em décimas e sonetos, muitos artigos de periódicos, e
alguns sermões, que cedia a outros, depois que reconheci que não
tinha os dons indispensáveis ao púlpito. No mês de agosto de 1838
li as Memórias que outro padre, Luís Gonçalves dos Santos, o padre
Perereca chamado, escreveu do tempo do rei, e foi esse livro que me
meteu em brios. Achei-o seguramente medíocre, e quis mostrar que um
membro da igreja brasileira podia fazer coisa melhor.
Comecei
logo a recolher os materiais necessários, jornais, debates,
documentos públicos, e a tomar notas de toda a parte e de tudo. No
meado de fevereiro, disseram-me que, em certa casa da cidade,
acharia, além de livros, que poderia consultar, muitos papéis
manuscritos, alguns reservados, naturalmente importantes, porque o
dono da casa, falecido desde muitos anos, havia sido ministro de
Estado. Compreende-se que esta notícia me aguçasse a curiosidade. A
casa, que tinha capela para uso da família e dos moradores próximos,
tinha também um padre contratado para dizer missa aos domingos, e
confessar pela quaresma: era o rev. Mascarenhas. Fui ter com ele para
que me alcançasse da viúva a permissão de ver os papéis.
— Não
sei se lhe consentirá isso, disse-me ele; mas vou ver.
— Por
que não há de consentir? É claro que não me utilizarei senão do
que for possível, e com autorização dela.
— Pois
sim, mas é que livros e papéis estão lá em grande respeito. Não
se mexe em nada que foi do marido, por uma espécie de veneração,
que a boa senhora conserva e sempre conservará. Mas enfim vou ver, e
far-se-á o que for possível.
Mascarenhas
trouxe-me a resposta dez dias depois. A viúva começou recusando;
mas o padre instou, expôs o que era, disse-lhe que nada perdia do
devido respeito à memória do marido consentindo que alguém
folheasse uma parte da biblioteca e do arquivo, uma parte apenas; e
afinal conseguiu, depois de longa resistência, que me apresentasse
lá. Não me demorei muito em usar do favor; e no domingo próximo
acompanhei o Padre Mascarenhas.
A
casa, cujo lugar e direção não é preciso dizer, tinha entre o
povo o nome de Casa Velha, e era-o realmente: datava dos fins do
outro século. Era uma edificação sólida e vasta, gosto severo,
nua de adornos. Eu, desde criança, conhecia-lhe a parte exterior, a
grande varanda da frente, os dois portões enormes, um especial às
pessoas da família e às visitas, e outro destinado ao serviço, às
cargas que iam e vinham, às seges, ao gado que saía a pastar. Além
dessas duas entradas, havia, do lado oposto, onde ficava a capela, um
caminho que dava acesso às pessoas da vizinhança, que ali iam ouvir
missa aos domingos, ou rezar a ladainha aos sábados.
Foi
por esse caminho que chegamos à casa, às sete horas e poucos
minutos. Entramos na capela, após um raio de sol, que brincava no
azulejo da parede interior onde estavam representados vários passos
da Escritura. A capela era pequena, mas muito bem tratada. Ao
rés-do-chão, à esquerda, perto do altar, uma tribuna servia
privativamente à dona da casa, e às senhoras da família ou
hóspedas, que entravam pelo interior; os homens, os fâmulos e
vizinhos ocupavam o corpo da igreja. Foi o que me disse o padre
Mascarenhas explicando tudo. Chamou-me a atenção para os castiçais
de prata, para as toalhas finas e alvíssimas, para o chão em que
não havia uma palha.
— Todos
os paramentos são assim, concluiu ele. E este confessionário?
Pequeno, mas um primor.
Não
havia coro nem órgão. Já disse que a capela era pequena; em certos
dias, a concorrência à missa era tal que até na soleira da porta
vinham ajoelhar-se fiéis. Mascarenhas fez-me notar à esquerda da
capela o lugar em que estava sepultado o ex-ministro. Tinha-o
conhecido, pouco antes de 1831, e contou-me algumas particularidades
interessantes; falou-me também da piedade e saudade da viúva, da
veneração em que tinha a memória dele, das relíquias que
guardava, das alusões frequentes na conversação.
— Lá
verá na biblioteca o retrato dele, disse-me. Começaram a entrar na
igreja algumas pessoas da vizinhança, em geral pobres, de todas as
idades e cores. Dos homens alguns, depois de persignados e rezados,
saíam, outra vez, para esperar fora, conversando, a hora da missa.
Vinham também escravos da casa. Um destes era o próprio sacristão;
tinha a seu cargo, não só a guarda e asseio da capela, mas também
ajudava a missa, e, salvo a prosódia latina, com muita perfeição.
Fomos achá-lo diante de uma grande cômoda de jacarandá antigo, com
argolas de prata nos gavetões, concluindo os arranjos preparatórios.
Na sacristia, entrou logo depois um moço de vinte anos mais ou
menos, simpático, fisionomia meiga e franca, a quem o padre
Mascarenhas me apresentou; era o filho da dona da casa, Félix.
— Já
sei, disse ele sorrindo, mamãe me falou de V. Revma. Vem ver o
arquivo de papai?
Confiei-lhe
rapidamente a minha ideia, e ele ouviu-me com interesse. Enquanto
falávamos vieram outros homens de dentro, um sobrinho do dono da
casa, Eduardo, também de vinte anos, um velho parente, coronel
Raimundo, e uns dois ou três hóspedes. Félix apresentou-me a
todos, e, durante alguns minutos, fui naturalmente objeto de grande
curiosidade. Mascarenhas, paramentado e de pé, com o cotovelo na
borda da cômoda, ia dizendo alguma coisa, pouca; ouvia mais do que
falava, com um sorriso antecipado nos lábios, voltando a cabeça a
miúdo para um ou outro. Félix tratava-o com benevolência e até
deferência; pareceu-me inteligente, lhano e modesto. Os outros
apenas faziam coro. O coronel não fazia nada mais que confessar que
tinha fome; acordara cedo e não tomara café.
— Parece
que são horas, disse Félix; e, depois de ir à porta da capela: —
Mamãe já está na tribuna. Vamos?
Fomos.
Na tribuna estavam quatro senhoras, duas idosas e duas moças.
Cumprimentei-as de longe, e, sem mais encará-las, percebi que
tratavam de mim, falando umas às outras. Felizmente o padre entrou
daí a três minutos, ajoelhamo-nos todos, e seguiu-se a missa que,
por fortuna do coronel, foi engrolada. Quando acabou, Félix foi
beijar a mão à mãe e à outra senhora idosa, tia dele; levou-me e
apresentou-me ali mesmo a ambas. Não falamos do meu projeto;
tão-somente a dona da casa disse-me delicadamente:
— Está
entendido que V. Revma. faz-nos a honra de almoçar conosco?
Inclinei-me
afirmativamente. Não me lembrou sequer acrescentar que a honra era
toda minha.
A
verdade é que me sentia tolhido. Casa, hábitos, pessoas davam-me
ares de outro tempo, exalavam um cheiro de vida clássica. Não era
raro o uso de capela particular; o que me pareceu único foi a
disposição daquela, a tribuna de família, a sepultura do chefe,
ali mesmo, ao pé dos seus, fazendo lembrar as primitivas sociedades
em que florescia a religião doméstica e o culto privado dos mortos.
Logo que as senhoras saíram da tribuna, por uma porta interior,
voltamos à sacristia, onde o padre Mascarenhas esperava com o
coronel e os outros. Da porta da sacristia, passando por um saguão,
descemos dois degraus para um pátio, vasto, calçado de cantaria,
com uma cisterna no meio. De um lado e outro corria um avarandado,
ficando à esquerda alguns quartos, e à direita a cozinha e a copa.
Pretas e moleques espiavam-me, curiosos, e creio que sem espanto,
porque naturalmente a minha visita era desde alguns dias a
preocupação de todos. Com efeito, a casa era uma espécie de vila
ou fazenda, onde os dias, ao contrário de um rifão peregrino,
pareciam-se uns com os outros; as pessoas eram as mesmas, nada
quebrava a uniformidade das coisas, tudo quieto e patriarcal.
D.
Antônia governava esse pequeno mundo com muita discrição, brandura
e justiça. Nascera dona de casa; no próprio tempo em que a vida
política do marido, e a entrada deste nos conselhos de Pedro I
podiam tirá-la do recesso e da obscuridade, só a custo e raramente
os deixou. Assim é que, em todo o ministério do marido, apenas duas
vezes foi ao paço. Era filha de Minas Gerais, mas foi criada no Rio
de Janeiro, naquela mesma Casa Velha, onde casou, onde perdeu o
marido e onde lhe nasceram os filhos — Félix, e uma menina que
morreu com três anos. A casa fora construída pelo avô, em 1780,
voltando da Europa, de onde trouxe ideias de solar e costumes
fidalgos; e foi ele, e parece que também a filha, mãe de D.
Antônia, quem deu a esta a pontazinha de orgulho, que se lhe podia
notar, e quebrava a unidade da índole desta senhora, essencialmente
chã. Inferi isso de algumas anedotas que ela me contou de ambos, no
tempo do rei. D. Antônia era antes baixa que alta, magra, muito bem
composta, vestida com singeleza e austeridade; devia ter quarenta e
seis a quarenta e oito anos.
Poucos
minutos depois estávamos almoçando. O coronel, que afirmava, rindo,
ter um buraco de palmo no estômago, nem por isso comeu muito, e
durante os primeiros minutos, não disse nada; olhava para mim,
obliquamente, e, se dizia alguma coisa, era baixinho, às duas moças,
filhas dele; mas desforrou-se para o fim, e não conversava mal.
Félix, eu e o padre Mascarenhas falávamos de política, do
ministério e dos sucessos do Sul. Notei desde logo, no filho do
ministro, a qualidade de saber escutar, e de dissentir parecendo
aceitar o conceito alheio, de tal modo que, às vezes, a gente
recebia a opinião devolvida por ele, e supunha ser a mesma que
emitira. Outra coisa que me chamou a atenção foi que a mãe,
percebendo o prazer com que eu falava ao filho, parecia encantada e
orgulhosa. Compreendi que ela herdara as naturais esperanças do pai,
e redobrei de atenção com o filho. Fi-lo sem esforço; mas pode ser
também que entrasse por alguma coisa, naquilo, a necessidade de
captar toda a afeição da casa, por motivo do meu projeto.
Foi
só depois do almoço que falamos do projeto. Passamos à varanda,
que comunicava com a sala de jantar, e dava para um grande terreiro;
era toda ladrilhada, e tinha o teto sustentado por grossas colunas de
cantaria. D. Antônia chamou-me, sentei-me ao pé dela, com o Padre
Mascarenhas.
— Reverendíssimo,
a casa está às suas ordens, disse-me ela. Fiz o que o Sr. Padre
Mascarenhas me pediu, e a muito custo, não porque o não julgue
pessoa capaz, mas porque os livros e papéis de meu marido ninguém
mexe neles.
— Creia
que agradeço muito…
— Pode
agradecer, interrompeu ela sorrindo; não faria isto a outra pessoa.
Precisa ver tudo?
— Não
posso dizer se tudo; depois de um rápido exame, saberei mais ou
menos o que preciso. E V. Ex.ª também há de ser um livro para mim,
e o melhor livro, o mais íntimo…
— Como?
— Espero
que me conte algumas coisas, que hão de ter ficado escondidas. As
histórias fazem-se em parte com as notícias pessoais. V. Exª.,
esposa de ministro…
D.
Antônia deu de ombros.
— Ah!
eu nunca entendi de política; nunca me meti nessas coisas.
— Tudo
pode ser política, minha senhora; uma anedota, um dito, qualquer
coisa de nada, pode valer muito.
Foi
neste ponto que ela me disse o que acima referi; vivia em casa, pouco
saía, e só foi ao paço duas vezes. Confessou até que da primeira
vez teve muito medo, e só o perdeu por se lembrar a tempo de um dito
do avô.
— Saí
de casa tremendo. Era dia de gala, ia trajada à Corte; pelas
portinholas do coche via muita gente olhando, parada. Mas quando me
lembrava que tinha de cumprimentar o imperador e a imperatriz,
confesso que o coração me batia muito. Ao descer do coche, o medo
cresceu, e ainda mais quando subi as escadas do paço. De repente,
lembrou-me um dito de meu avô. Meu avô, quando aqui chegou o rei,
levou-me a ver as festas da cidade, e, como eu, ainda mocinha,
impressionada, lhe dissesse que tinha medo de encarar o rei, se ele
aparecesse na rua, olhou para mim, e disse com um modo muito sério
que ele tinha às vezes: “Menina, uma Quintanilha não treme
nunca!” Foi o que fiz, lembrou-me que uma Quintanilha não tremia,
e, sem tremer, cumprimentei Suas Majestades.
Rimo-nos
todos. Eu, pela minha parte, declarei que aceitava a explicação e
não lhe pediria nada; e depois falei de outras coisas. Parece que
estava de veia, se não é que a conversação da viúva me meteu em
brios. Veio o filho, veio o cunhado, vieram as moças, e posso
afirmar que deixei a melhor impressão em todos; foi o que o Padre
Mascarenhas me confirmou, alguns dias depois, e foi o que notei por
mim mesmo.
Machado de Assis, em Casa Velha
Delírios
O
analista de Bagé às vezes se cansa da profissão – “O que me
aparece de louco, tchê!” –, mas sempre diz que consultório de
psicanalista, em matéria de tipos humanos interessantes, é “más
variado que a baldeação em Cacequi”. Só é preciso ter um pouco
de paciência. Como na vez em que a Lindaura introduziu no
consultório um homenzinho que se apresentou como “João
Figueiredo” e em seguida se identificou: “Presidente”.
– Buenas.
Se abanque, no más.
– Qual
é a sua patente? – perguntou o homenzinho, recusando-se a deitar
no divã coberto com um pelego.
– Pos
é daquelas branca, tchê. Não reparei na marca.
– Digo,
patente militar.
– Dei
baixa como cabo.
– Fique
sabendo que nem o ministro da Guerra manda em mim.
– Mas
eu sou do FMI! – disse o analista, levantando o homenzinho e
atirando-o em cima do divã.
Foi
um caso difícil e no fim do tratamento o homenzinho se declarou
curado do delírio de grandeza. Disse que seu nome era Pinto e
trabalhava com miudezas.
Mas
na saída, depois da última sessão, agradeceu ao analista
efusivamente e, puxando-o por um braço, segredou:
– Escuta.
Quem vai escolher o meu sucessor sou eu. Se você quiser...
O
analista puxou o homenzinho de volta e o atirou de novo no pelego.
Quando a Lindaura veio ver o que estava acontecendo, encontrou o
analista arregaçando as mangas. Ele perguntou:
– Quem
é o próximo?
– Um
édipo salteado que não larga avó.
– Suspende!
*
* *
Outra
vez um paciente com alucinação não chegou nem a começar o
tratamento.
Entrou
no consultório e dali a pouco foi posto porta afora pelo analista,
aos gritos de “Te enxerga, ó bosta!”.
– O
que foi? – quis saber a Lindaura.
– Esses
louco tão se passando...
– Esse
disse que era quem?
– O
Freud!
E
ficou resmungando.
– Mas
não respeitam mais nada!
Luís Fernando Veríssimo, em Histórias do Analista de Bagé
Suportar este tédio
III
1.
Você me pergunta o que eu acho que é melhor usarmos para nos ajudar
a suportar este tédio. “O melhor – como diz Atenodoro – é
ocupar-se dos negócios, da gestão dos assuntos do Estado e dos
deveres de um cidadão: pois como alguns passam o dia a exercitar-se
ao sol e a cuidar da sua saúde corporal, e os atletas acham mais
útil passar a maior parte do seu tempo a alimentar os músculos e a
força a cujo cultivo dedicaram a vida; assim também para vocês que
estão treinando a alma para participar das lutas da vida política,
é muito mais honroso estar assim a trabalhar do que estar no ocioso.
Aquele cujo objetivo é estar a serviço dos seus compatriotas e de
todos os mortais, exercita-se e faz o bem ao mesmo tempo quando está
absorto nos negócios e está trabalhando o melhor que pode, tanto no
interesse do público como do homem privado.
2.
“Mas”, continua ele, “porque a ingenuidade dificilmente está
segura entre ambições tão furiosas e tantos homens que desviam
alguém do caminho certo, e é sempre certo encontrar mais obstáculos
do que ajuda, devemos nos retirar do fórum e da vida pública, e uma
grande alma, mesmo em uma posição privada, pode encontrar espaço
onde se expandir livremente. O confinamento em covis restringe as
forças de leões e criaturas selvagens, mas isso não se aplica aos
seres humanos, que muitas vezes realizam os trabalhos mais
importantes na solidão.
3.
Que o ser humano, porém, só se retire de tal modo que, onde quer
que passe seu ócio, seu desejo ainda possa ser o de beneficiar tanto
os homens individuais como a humanidade, tanto com seu intelecto, sua
voz, como com seus conselhos. O homem que presta bons serviços ao
Estado não é apenas aquele que apresenta candidatos a cargos
públicos, que defende os acusados e dá seu voto em questões de paz
e de guerra, mas aquele que encoraja os jovens a fazer o bem, que
supre a atual carência de bons mestres, infundindo-lhes na alma os
princípios da virtude, que agarra e retém aqueles que se precipitam
na busca da riqueza e do luxo, e, se nada mais fizer, pelo menos
controla seu curso – tal homem presta serviços ao público, embora
em uma posição privada.
4.
Aquele que decide entre estrangeiros e cidadãos (como pretor
peregrinus), ou, como pretor urbanus, pronuncia a sentença
aos pretendentes em seu tribunal por determinação de seu
assistente, ou aquele que lhes mostra o que significa justiça,
sentimento filial, perseverança, coragem, desprezo pela morte e
conhecimento dos deuses, e o quanto um homem é ajudado por uma boa
consciência?
5.
Se então você transferir para a filosofia o tempo que você tira do
serviço público, você não será um desertor ou se terá recusado
a desempenhar a sua própria tarefa. Um soldado não é apenas aquele
que está nas fileiras e defende a direita ou a esquerda do exército,
mas também aquele que guarda os portões – um serviço que, embora
menos perigoso, não é sinecura – que vigia e se encarrega do
arsenal: embora todos estes sejam deveres sem derramamento de sangue,
ainda assim eles contam como serviço militar.
6.
Assim que você se dedicar à filosofia, terá superado todo desgosto
da vida: não desejará as trevas porque está cansado da luz, nem
será um problema para si mesmo e inútil para os outros: adquirirá
muitos amigos, e todos os melhores homens serão atraídos para você:
pois a virtude, por mais obscura que seja, não pode ser escondida,
mas dá sinais de sua presença: quem for digno, a seguirá pelos
seus passos:
7.
Mas se abandonarmos toda a sociedade, virarmos as costas a toda a
raça humana, e vivermos comungando sozinhos conosco mesmos, esta
solidão sem qualquer ocupação interessante levará a uma carência
de algo a fazer: começaremos a construir e a demolir, a represar o
mar, a fazer fluir as águas através dos obstáculos naturais e, em
geral, a fazer uma má disposição do tempo que a Natureza nos deu
para vivermos: alguns de nós usam-no com relutância, outros
desperdiçam-no;
8.
Alguns de nós o gastam para que possamos mostrar uma contabilidade
de lucros e perdas, outros para que não lhes restem bens: do qual
nada pode ser mais vergonhoso. Muitas vezes um homem que é muito
velho em anos não tem nada além da sua idade, pelo que possa provar
que já viveu muito tempo”.
Sêneca, em Sobre a Tranquilidade da Alma
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