04/12/2024

Níquel Náusea

Incomodidade

Nunca me senti bem nas salas de estar, Salas de estar... Mas de estar o quê?

Mário Quintana, em Caderno H

Mesa da Poesia | DVD Decentes do Forró | Nossa História

Traduzir procurando não trair

Tati Moraes e eu traduzimos uma peça de Lillian Hellman para Tônia Carrero levar. Fizemos a tradução com o maior prazer, se bem que de início eu tivesse que ser fustigada por Tati que é a minha inexorável feitora em vários terrenos, de trabalho ou não. Mas Tônia, você não imagina o trabalho de minúcias que dá traduzir uma peça. Ou melhor, você, que andou nos dando sugestões inteligentes, imagina sim. Primeiro, traduzir corre o risco de não parar nunca: quanto mais se revê, mais se tem que mexer e remexer nos diálogos. Sem falar na necessária fidelidade ao texto do autor, enquanto ao mesmo tempo há a língua portuguesa que não traduz facilmente certas expressões americanas típicas, o que exige uma adaptação mais livre.
E a exaustiva leitura da peça em voz alta para podermos sentir como soam os diálogos? Estes têm que ser coloquiais: de acordo com as circunstâncias, ora mais ou menos cerimoniosos, ora mais ou menos relaxados.
Como se não bastasse, cada personagem tem uma “entonação” própria e para isso precisamos das palavras e do tom apropriados. Por falar em entonação, aconteceu-me uma coisa desagradável, enquanto durou a tradução. De tanto lidar com personagens americanos, “peguei” uma entoação inteiramente americana nas inflexões de voz. Passei a cantar as palavras, exatamente como um americano que fala português. Queixei-me a Tati, pois já estava enjoada de me ouvir, e ela respondeu com a maior ironia: “Quem manda você ser uma atriz inata?” Mas acho que todo escritor é um ator inato. Em primeiro lugar ele representa profundamente o papel de si mesmo. Escritor é uma pessoa que se cansa muito, e que termina com um pouco de náusea de si, já que o contato íntimo consigo próprio é por força prolongado demais.
Esta peça para Tônia foi ótima de se traduzir. Mas – e quando nos caiu em mãos uma peça de Tchekhov? Veio numa fase em que eu estava meio deprimida. Depois eu soube que Tati andou consultando amigos para saber se me convinha lidar com o personagem principal, já que este se parecia demais comigo. A conclusão era que eu trabalhasse de qualquer maneira porque me faria bem agir, e porque seria bom eu ver, como num espelho, a minha própria fisionomia. Que me faria bem lidar com um personagem cujo senso trágico da vida termina levando-o ao desespero. Traduzimos Tchekhov, eu com um esforço tremendo, pois me parecia estar me descrevendo. Depois por motivos externos, a peça passou para as mãos de outras pessoas, e perdemo-la de vista. Um dos motivos externos consistia no fato do diretor querer interferir demais na nossa tradução. Não nos incomodamos com a interferência justa de um diretor, tantas vezes esclarecedora, mas as divergências eram muito mais sérias. Entre outras, ele achava que, em vez de “angústia”, usássemos a palavra “fossa”. Ora, nós duas discordávamos: um personagem russo, ainda mais daquela época e ambiente, não falaria em fossa. Falaria em angústia e em tédio destruidor.
Mas, para falar a verdade, em termos atuais, ele estava na fossa mesmo.
Em compensação, traduzimos Hedda Gabler, que não só foi logo encenada em São Paulo, como nos fez ganhar, com justo orgulho profissional, o prêmio da melhor tradução do ano. Uma medalha, meu Deus!
Prazer engraçado tive eu ao traduzir um livro condensado de Agatha Christie, encomendado por Tito Leite, diretor de Seleções. Em vez de lê-lo antes no original, como sempre faço, fui lendo à medida que ia traduzindo. Era um romance policial, eu não sabia quem era o criminoso, e traduzi com a maior pressa, pois não suportava a tensão da curiosidade. O livro esgotou-se rapidamente.
Traduzo, sim, mas fico cheia de medo de ler traduções que fazem de livros meus. Além de ter bastante enjoo de reler coisas minhas, fico também com medo do que o tradutor possa ter feito com um texto meu. Uma tradução de dois livros meus que fizeram para o alemão, não me causou problemas: não entendo uma palavra de alemão, e a coisa ficou aliviadoramente, por isso mesmo nem as críticas e comentários que a editora me mandou eu pude ler. Mas quando um livro meu foi traduzido para o inglês, nos Estados Unidos, pela Knopf – o livro saiu fisicamente lindo, bom até de se tocar com as mãos – então o problema foi outro. Eu sabia que o tradutor, Gregory Rabassa, era de primeira água – ganhou o National Book Award do ano, nos Estados Unidos – e inglês eu podia ler. Chamei-me então severamente à ordem, e comecei a cumprir o dever de ler a mim mesma. A tradução me pareceu muito boa. Mas parei, pois o que venceu mesmo foi a náusea de me reler. O tradutor, professor de literatura portuguesa e brasileira numa universidade, fez um longo prefácio ao livro sobre literatura brasileira. Chegou à conclusão estranha de que eu era ainda mais difícil de traduzir que Guimarães Rosa, por causa de minha sintaxe. Não se assustem, nesta coluna esforço-me por não usar uma sintaxe que me é íntima e natural. Com um pouco de vergonha, já tinha esquecido o que quer dizer sintaxe. Perguntei a um amigo, que me explicou: sintaxe é o modo como a frase se coloca dentro do período. Fiquei um pouco na mesma e desconfiada de que não podia se tratar apenas disso: uma palavra tão grave como sintaxe não podia significar simplesmente isso. Tenho o maior respeito por gramática, e pretendo nunca lidar conscientemente com ela. Em matéria de escrever certo, escrevo mais ou menos certo de ouvido, por intuição, pois o certo sempre soa melhor.

Clarice Lispector, em Todas as crônicas

Prefácio | Hipotrélico


Hei que ele é.
Do Irreplegível.

Há o hipotrélico. O termo é novo, de impesquisada origem e ainda sem definição que lhe apanhe em todas as pétalas o significado. Sabe-se, só, que vem do bom português. Para a prática, tome-se hipotrélico querendo dizer: antipodático, sengraçante imprizido; ou, talvez, vice-dito: indivíduo pedante, importuno agudo, falto de respeito para com a opinião alheia. Sob mais que, tratando-se de palavra inventada, e, como adiante se verá, embirrando o hipotrélico em não tolerar neologismos, começa ele por se negar nominalmente a própria existência.
Somos todos, neste ponto, um tento ou cento hipotrélicos? Salvo o excepto, um neologismo contunde, confunde, quase ofende. Perspica-nos a inércia que soneja em cada canto do espírito, e que se refestela com os bons hábitos estadados. Se é que um não se assuste: saia todo-o-mundo a empinar vocábulos seus, e aonde é que se vai dar com a língua tida e herdada? Assenta-nos bem à modéstia achar que o novo não valerá o velho; ajusta-se à melhor prudência relegar o progresso no passado.
Sobre o que, aliás, previu-se um bem decretado conceito: o de que só o povo tem o direito de se manifestar, neste público particular. Isto nos aquieta. A gente pensa em democráticas assembleias, comitês, comícios, para a vivíssima ação de desenvolver o idioma; senão que o inconsciente coletivo ou o Espírito Santo se exerçam a ditar a vários populares, a um tempo, as sábias, válidas inspirações. Haja para. Diz-se-nos também, é certo, que tudo não passa de um engano de arte, leigo e tredo: que quem inventa palavras é sempre um indivíduo, elas, como as criaturas, costumando ter um pai só; e que a comunidade contribui apenas dando-lhes ou fechando-lhes a circulação. Não importa. Na fecundidade do araque apura-se vantajosa singeleza, e a sensatez da inocência supera as excelências do estudo. Pelo que, terá de ser agreste ou inculto o neologista, e ainda melhor se analfabeto for.
Seja que, no sem-tempo quotidiano, não nos lembremos das e muitíssimas que foram fabricadas com intenção — ao modo como Cícero fez qualidade (“qualitas”), Comte altruísmo, Stendhal egotismo, Guyau amoral, Bentham internacional, Turguêniev niilista, Fracástor sífilis, Paracelso gnomo, Voltaire embaixatriz (“ambassadrice”), Van Helmont gás, Coelho Neto paredro, Ruy Barbosa egolatria, Alfredo Taunay necrotério; e mais e mais e mais, sem desdobrar memória. Palavras em serviço efetivo, já hoje viradas naturais, com o fácil e jeito e unto de espontâneas, conforme o longo uso as sovou.
De acordo, concedemos. Mas, sob cláusula: a de que o termo engenhado venha tapar um vazio. Nem foi menos assim que o dr. Castro Lopes, a fim de banir galicismos, e embora se saindo com processo direto e didático, deixadas fora de conta quaisquer sutilezas psicológicas ou estéticas, conseguiu pôr em praça pelo menos estes, como ele mesmo dizia, “produtos da indústria nacional filológica”: cardápio, convescote, preconício, necrópole, ancenúbio, nasóculos, lucivéu e lucivelo, fádico, protofonia, vesperal, posturar, postrídio, postar (no correio) e mamila. E, donde: palavra nova, só se satisfizer uma precisão, constatada, incontestada.
Verdade é que outros também nos objetam que esta maneira de ver reafirma apenas o estado larval em que ainda nos rojamos, neste pragmático mundo da necessidade, em que o objetivo prevale o subjetivo, tudo obedece ao terra-a-terra das relações positivas, e, pois, as coisas pesam mais do que as pessoas. Por especiosa, porém, rejeitamos a argumentação. Viver é encargo de pouco proveito e muito desempenho, não nos dando por ora lazer para nos ocuparmos em aumentar a riqueza, a beleza, a expressividade da língua. Nem nos faz falta capturar verbalmente a cinematografia divididíssima dos fatos ou traduzir aos milésimos os movimentos da alma e do espírito. A coisa pode ir indo assim mesmo à grossa.
E fique à conta dos tunantes da gíria e dos rústicos da roça — que palavrizam autônomos, seja por rigor de mostrar a vivo a vida, inobstante o escasso pecúlio lexical de que dispõem, seja por gosto ou capricho de transmitirem com obscuridade coerente suas próprias e obscuras intuições. São seres sem congruência, pedestres ainda na lógica e nus de normas. Veja-se o que diz Gustavo Barroso, no “Terra de Sol”: “‘Subdorada’ era o adjetivo que lhes exprimia a admiração. Não sei onde o foram encontrar. No sertão há dessas expressões; nascem ninguém sabe como; vivem eternamente ou desaparecem um dia sem também se saber como.” Confere. Pode-se lá, porém, permitir que a palavra nasça do amor da gente, assim, de broto e jorro: aí a fonte, o miriquilho, o olho-d’água; ou como uma borboleta sai do bolso da paisagem?
Do que tal se infere serem os neologismos de um sertanejo desses, do Ceará ou de Minas Gerais, coisas de desadoro, imanejáveis, senão perigosas para as santas convenções. Se nem ao menos tão longe, mas por aqui, no Estado do Rio, nosso amigo Edmundo se surpreendeu com a resposta, desbarbadamente hermética, de um de seus meeiros, a quem perguntara como ia o milho: — “Vai de minerol infante.” — “Como é?” — “Está cobrindo os tocos...” O que já pode parecer excessiva força de ideias.
Dito seja, a demais, que o vezo de criar novas palavras invade muitas vezes o criador, como imperial mania. Um desses poetas, por exemplo, de inabafável vocação para contraventor do vernáculo, foi o fazendeiro Chico de Matos, de Dourados; coitado, morreu de epitelioma. Duas das suas se fizeram, na região: intujuspéctico, que quase por si se define — com o sentido de pretensioso impostor e enjoado soturno; e incorubirúbil, que onomatopeicamente pode parecer o gruziar de um peru ou o propagar-se de golpes com que se sacoleja a face límpida de uma água, mas que designa apenas quem é “cheio de dedos”, “cheio de maçada”, “cheio de voltas”, “cheio de nós pelas costas”, muito susceptível e pontilhoso. Não são de não se catalogar?
Já outro, contudo, respeitável, é o caso — enfim — de “hipotrélico”, motivo e base desta fábula diversa, e que vem do bom português. O bom português, homem-de-bem e muitíssimo inteligente, mas que, quando ou quando, neologizava, segundo suas necessidades íntimas.
Ora, pois, numa roda, dizia ele, de algum sicrano, terceiro, ausente:
E ele é muito hiputrélico...
Ao que, o indesejável maçante, não se contendo, emitiu o veto:
Olhe, meu amigo, essa palavra não existe.
Parou o bom português, a olhá-lo, seu tanto perplexo:
Como?!... Ora... Pois se eu a estou a dizer?
É. Mas não existe.
Aí, o bom português, ainda meio enfigadado, mas no tom já feliz de descoberta, e apontando para o outro, peremptório:
O senhor também é hiputrélico...
E ficou havendo.

Guimarães Rosa, em Tutameia

O que é um país senão uma sentença para toda a vida?


Reli o Diário de luto do Roland Barthes ontem, o livro que ele escreveu todo dia, por um ano, depois da morte da mãe. Conheci o corpo da minha mãe, ele escreve, doente e depois moribundo. E foi aí que eu parei. Foi aí que eu decidi te escrever. Você que ainda está viva.
Aqueles sábados no fim do mês quando, se tinha sobrado dinheiro depois de pagar as contas, a gente ia ao shopping. Tinha gente que punha as melhores roupas para ir à missa ou a jantares, a gente se arrumava todo para ir a um centro comercial perto da Interestadual 91. Você acordava cedo, passava uma hora se maquiando, punha o melhor vestido preto com lantejoulas, o único par de argolas de ouro, sapatos pretos de lamê. Depois você se ajoelhava e besuntava meu cabelo com um punhado de brilhantina, penteando-o.
Vendo nós dois ali, um desconhecido não ia adivinhar que a gente fazia compras na mercearia da esquina da avenida Franklin, onde a entrada ficava entulhada de tíquetes de vale-alimentação fornecidos pelo governo, onde produtos básicos como leite e ovos custavam o triplo do que custavam nos subúrbios, onde as maçãs, enrugadas e machucadas, ficavam numa caixa de papelão ensopada no fundo por conta do sangue de porco vazado da caixa de costelinhas suínas, o gelo há muito derretido.
Vamos comprar o chocolate chique”, você dizia, apontando para os Godivas. Nós saíamos com uma sacolinha de papel com uns cinco ou seis quadradinhos de chocolate escolhidos aleatoriamente. Várias vezes isso era a única coisa que a gente comprava no shopping. Depois a gente andava, passando chocolate de um para o outro até nossos dedos brilharem retintos e doces. “É assim que se aproveita a vida”, você dizia, chupando os dedos, o esmalte rosa descascando depois de uma semana trabalhando como pedicure.
A vez com os teus punhos, gritando no estacionamento, o sol do fim de tarde gravando em água-forte teus cabelos vermelhos. Meus braços protegendo minha cabeça enquanto as tuas juntas batiam em mim.
Naqueles sábados, a gente passeava pelos corredores até que, uma a uma, as lojas baixavam as portas de aço. Depois a gente ia até o ponto de ônibus descendo a rua, nossa respiração flutuando acima de nós, a maquiagem secando no teu rosto. Nossas mãos vazias, exceto por nossas mãos.

Da minha janela hoje de manhã, pouco antes do sol nascer, dava para ver um cervo parado numa neblina tão densa e brilhante que o segundo cervo, não muito longe, parecia uma sombra inacabada do primeiro.
Você pode colorir isso. Pode chamar de “A História da Memória”.

A migração pode ter como gatilho o ângulo do sol, indicando uma mudança de estação, temperatura, vida da flora e quantidade de alimentos disponível. As borboletas-monarcas fêmeas botam ovos pelo caminho. Toda história tem mais de um fio, todo fio é uma história de divisão. A viagem leva sete mil setecentos e setenta quilômetros, mais do que a extensão deste país. As monarcas que voam para o sul não voltarão para o norte. Toda partida, portanto, é definitiva. Só seus filhos voltarão; só o futuro revisita o passado.
O que é um país senão uma sentença sem fronteiras, uma vida?
Aquele dia no açougueiro chinês, você apontou para o porco assado pendurado no gancho. “Depois de queimar, as costelas são iguaizinhas às de uma pessoa.” Você deixou escapar uma risadinha entrecortada, pegou a carteira, o rosto tenso, e contou de novo nosso dinheiro.
O que é um país senão uma sentença para toda a vida?

Ocean Vuong, em Sobre a terra somos belos por um instante

Balada

Folha enrugada,
poeira nos livros.
A pena se arrasta
no esforço inútil
de libertação.
Nenhuma vontade,
nem mesmo desejo
na tarde cinzenta.

A árvore seca
esperando seiva
não tem paisagem.
Na frente é o deserto
coberto de pedras.
Nem sombra de oásis.
Pobre árvore seca
na tarde cinzenta!

Se houvesse um castelo
com torres e dama
de loiros cabelos,
talvez eu fizesse
algum madrigal.
Mas a dama morreu,
os castelos se foram
na tarde cinzenta!

O caminho se alonga
por entre montanhas,
por campos e vales.
Talvez me conduza
ao roteiro perdido
no fundo do mar.
Mas estou tão cansado
na tarde cinzenta!

Não sou lobo da estepe;
amo a todos os homens
e suporto as mulheres.
Contudo não posso
falar com os lábios,
amar com o sexo,
porque sinto a tortura
da tarde cinzenta!

Só me restam os livros.
Vou ficar com eles
esperando que chegue
do fundo da noite,
das sombras do tempo,
oh! imenso mar,
vem me libertar
da tarde cinzenta!

José Paulo Paes, em Poesia completa

02/12/2024

Wood & Stock, de Angeli

O cachorro e o frasco


Que fofo, que amado, que lindo cãozinho; venha cá cheirar este excelente perfume comprado na melhor botica da cidade.
E o cachorro, abanando o rabo, gesto que creio ser o equivalente do riso e do sorriso entre essas pobres criaturas, aproximou-se e apoiou curioso o focinho úmido na boca do frasco destampado; depois, recuando de um pulo, ainda latiu contra mim, como para reclamar.
Ah, cachorro maldito, se eu lhe tivesse oferecido um pacote de excrementos, você o farejaria deliciado, e possivelmente o devorava. E assim, companheiro indigno da minha triste vida, descubro-te tal qual o público, a quem não convém jamais oferecer perfumes delicados, que o exasperam, mas vilezas cuidadosamente escolhidas.

Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa

O amor que move o sol e outras estrelas

Foi no cruzamento de São José com a Avenida, depois na Cinelândia, depois em Copacabana. Elas atravessavam a rua, entravam em lojas, saíam de automóveis, paravam para admirar vitrinas e aí seguiam num novo impulso, quais jovens barcos, os barcos a se agitarem como remos de incerta parlamenta, ganhando devagar e sempre os mares azuis da tarde carioca fresca e fagueira. Saias pretas, batinas brancas, sapatinhos de balé, os cabelos graciosamente curtos ou atacados no alto, lá iam elas bamboleando a sua doce carga, com os veludosos olhos atentos aos mostruários. Surgiam às dezenas, de todos os lados, como obedecendo a um sinal convencionado e ao se cruzarem miravam-se de soslaio, a se medirem como embarcações rivais.
Às vezes, numa esquina, paravam por um momento, ligeiramente resfolegantes, para descansar um pouco do esforço feito dentro do mar picado da multidão. Mas nada que denunciasse nelas uma grande estafa ou um sentimento de derrota. As barriguinhas pandas, os corpos equilibrados à nova distribuição de peso, a pele esticada, a nuca fresca, súbito punham elas de novo a funcionar o motorzinho de popa e saíam empinadinhas em frente, um enxame de mulherzinhas grávidas a penetrar a vida urbana de uma nova vida, uma nova graça e uma certa gravidade.
Como explicar a emoção que senti? Talvez essa que provocaria a vista de um quadrinho de regata feito por Guignard, com os ioles e esquifes distendidos na puxada e por ali tudo, em meio ao esvoaçar multicor de bandeirinhas, um mundo de serenas baleeiras a se balançarem suaves ao sabor das ondas. Sei que fiquei lírico, possuído do sentimento da fecundidade da vida, sentindo a brisa farfalhar em meus cabelos e arder em minha pele o sol claro do dia. Soube que o tempo tinha cumprido a sua missão, e todas aquelas mulherzinhas fecundadas, a berçar no movimento de seus passos a gestação dos filhos, constituíam em seu gracioso desenho convexo uma maravilhosa afirmação de vida e um caminho positivo para o amor. Soube que o amor é uma missão a cumprir por nós, homens, e que é a nós de constantemente querer, zelar e defender essas que, tão frágeis, fazem a nossa força e miséria e cuja existência é um contínuo sofrer, se alegrar e se extinguir por nós. Soube que homem e mulher são, em sua constante atração e repúdio, a imagem mesma da vida em movimento, e que sua longa jornada de mãos juntas, a se afastar cada vez mais do Paraíso Perdido, tende a uma alfombra cada vez menos distante, onde se aninharão melhor e onde fecundarão seres cada vez mais próximos da terra.

Vinicius de Moraes, em Para viver um grande amor

Dona Onete e Emicida | Coração de Brechó

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Carlos Drummond de Andrade, em Sentimento do mundo

No espelho da natureza

— Um homem não se acha descrito com exatidão, quando ouvimos que ele gosta de andar por altos campos de trigo amarelo, que prefere as cores das florestas e das flores do outono amarelecido e caduco, por elas insinuarem coisas mais belas do que a natureza jamais alcançou, que ele se sente em casa sob grandes nogueiras de espessas folhas, como entre parentes próximos, que a sua maior alegria, estando nas montanhas, é encontrar os pequenos lagos afastados, dos quais a solidão mesma parece contemplá-lo, que ele ama a cinzenta paz do nevoento crepúsculo que em noites de outono e princípio de inverno se aproxima das janelas e envolve, como cortina de veludo, todo ruído inanimado, que ele sente as rochas brutas como testemunhos do passado desejosos de falar e as venera desde criança, e, por fim, que o mar, com sua movediça pele de serpente e sua beleza de fera, é e sempre lhe será estranho? — Sim, alguma coisa desse homem foi descrita, certamente; mas o espelho da natureza nada diz sobre o fato de que o mesmo homem, com toda a sua idílica sensibilidade (e não “apesar dela”), poderia ser bastante frio, mesquinho e presunçoso. Horácio, que entendia de tais coisas, pôs o mais delicado sentimento pelo campo na boca de um agiota romano, no famoso verso “beatus ille qui procul negotiis” [feliz aquele que, longe das ocupações...].

Friedrich Nietzsche, em Humano, demasiado humano

A leste do Éden | 4


[ 2 ]

Sempre me pareceu estranho que são geralmente homens como Adam que têm de bancar o soldado. Ele não gostava de lutar, em princípio, e longe de aprender a amar o combate, como acontece com alguns homens, sentia uma repulsa cada vez maior à violência. Várias vezes seus oficiais tiveram sua atenção voltada para ele, suspeitando de que fingisse doença para escapar ao serviço, mas não fizeram nenhuma acusação. Durante seus cinco anos como soldado, Adam fez mais serviço de patrulha do que qualquer homem no esquadrão, mas se matou algum inimigo foi por acidente ou por ricochete. Sendo um perito em tiro ao alvo e exímio atirador, estava peculiarmente preparado para errar. A esta altura o combate aos índios se tornara algo como um perigoso transporte de boiadas — as tribos eram forçadas a se revoltar, empurradas à luta e dizimadas, e os tristes e taciturnos remanescentes se instalavam em terras estéreis. Não era trabalho agradável, mas, dado o modelo do desenvolvimento do país, tinha de ser feito.
Para Adam, que era um instrumento, que não via as futuras fazendas, apenas as barrigas dilaceradas de seres humanos, era revoltante e inútil. Quando detonava sua carabina para errar, estava cometendo uma traição contra sua unidade e não se importava. A emoção da não violência foi crescendo dentro dele até virar um preconceito como qualquer outro preconceito que anula o pensamento. Infligir qualquer ferimento em qualquer coisa por qualquer propósito se tornou uma aversão para ele. Ficou obcecado com essa emoção, pois se tratava seguramente disso, até que apagava qualquer pensamento possível nessa área. Mas nunca houve nenhuma sugestão de covardia na ficha militar de Adam. Na verdade, ele foi recomendado três vezes e condecorado por bravura.
Quanto mais se revoltava com a violência, mais seu impulso tomava a direção oposta. Arriscou a vida inúmeras vezes para resgatar homens feridos. Ofereceu-se como voluntário para trabalhar em hospitais de campanha, mesmo quando já estava exausto de seus deveres regulares. Era encarado pelos companheiros com desdenhoso afeto e com o medo que os homens têm de impulsos que não compreendem.
Charles escrevia ao irmão regularmente — sobre a fazenda e o vilarejo, as vacas doentes e a égua que deu cria, o pasto aumentado e o celeiro atingido por um raio, a morte de Alice sufocada por sua tuberculose e o posto permanente e remunerado do pai junto ao Grande Exército da República em Washington. Como acontecia com muitas pessoas, Charles, que não conseguia falar, escrevia copiosamente. Descrevia sua solidão e suas perplexidades, e colocava no papel muitas coisas que desconhecia a respeito de si mesmo.
Durante o tempo em que Adam esteve fora, conheceu seu irmão melhor do que jamais conhecera antes ou conheceria depois. Na troca de cartas nasceu uma intimidade que nenhum deles poderia ter imaginado.
Adam guardou uma carta do irmão, não porque a entendesse completamente, mas porque parecia ter um significado oculto que ele não conseguia adivinhar. “Querido irmão Adam”, dizia a carta, “pego a caneta com a esperança de que esteja gozando de saúde” — ele sempre começava assim para embarcar suavemente na tarefa de escrever. “Não recebi sua resposta a minha última carta, mas imagino que tenha outras coisas para fazer — há! há! A chuva chegou no tempo errado e estragou a floração das maçãs. Não haverá muitas para comer no próximo inverno, mas vou guardar o que puder. Esta noite limpei a casa e ela está úmida e coberta de sabão e talvez não tenha ficado mais limpa. Como é que mamãe conseguia conservá-la como fazia, você tem alguma ideia? Não parece a mesma coisa. Algo fica depositado na casa. Não sei o que é, mas não dá para retirar com o esfregão. Mas consegui espalhar a sujeira mais por igual, de qualquer maneira. Há! Há!
Papai lhe escreveu alguma coisa sobre a sua viagem? Foi direto até São Francisco para um acampamento do Grande Exército. O secretário da Guerra vai estar lá e papai deverá fazer a sua apresentação. Mas isso é apenas uma ninharia para papai. Já se encontrou com o presidente três, quatro vezes, foi até cear na Casa Branca. Eu gostaria de conhecer a Casa Branca. Talvez você e eu pudéssemos ir juntos quando voltar para casa. Papai podia nos levar lá por alguns dias e ele gostaria de estar com você de qualquer maneira.
Acho melhor eu procurar uma boa esposa. Esta é uma boa fazenda e, ainda que eu não seja grande coisa, existem garotas que não encontrariam nada melhor do que esta fazenda. O que você acha? Não disse se vem morar em casa quando sair do Exército. Espero que sim. Sinto falta de você.”
A carta parava aqui. Havia um rabisco na página e um borrão de tinta e depois ela continuava a lápis, mas a letra era diferente.
O trecho a lápis dizia: “Mais tarde. Bem, exatamente aqui a caneta teve problemas. A pena quebrou. Vou ter de comprar outra pena no vilarejo, esta está toda enferrujada.”
As palavras começaram a correr mais suavemente. “Acho que eu devia esperar uma nova pena e não escrever a lápis. Só que eu estava sentado aqui na cozinha com o lampião aceso e acho que comecei a pensar e de repente já era tarde — depois da meia-noite, eu acho, mas não cheguei a olhar. O velho Black Joe começou a cocoricar no galinheiro. E então a cadeira de balanço da mãe rangeu como se ela estivesse sentada nela. Sabe que não acredito nessas coisas, mas fiquei perturbado, você sabe como isso acontece às vezes. Acho que vou rasgar esta carta, porque não vale a pena escrever coisas como essas.”
As palavras começavam a correr agora, como se não estivessem saindo suficientemente rápidas. “Se vou jogar fora, tanto faz se a continuo”, a carta dizia. “É como se a casa inteira estivesse viva e possuísse olhos por toda parte e houvesse pessoas por trás da porta prontas para entrar se você olhasse para o outro lado. Isso me deixa arrepiado. Quero dizer — quero dizer — isto é, eu nunca entendi — bem, por que nosso pai fez aquilo. Por que ele não gostou daquele canivete que comprei para ele no seu aniversário. Por que não gostou? Era um bom canivete e ele precisava de um bom canivete. Se o tivesse usado ou até mesmo afiado, ou tirasse do bolso e olhasse para ele — era tudo o que precisava fazer. Se ele tivesse gostado do canivete, eu não teria brigado com você. Eu tive de brigar com você. Parece que a cadeira da minha mãe está balançando um pouco. É só a luz. Não estou ligando para isso. Parece que tem uma coisa que não foi acabada. Como quando a gente deixa um trabalho pela metade e não pode saber o que era. Algo deixou de ser feito. Eu não devia estar aqui. Eu devia estar rodando pelo mundo em vez de sentado aqui numa boa fazenda à procura de uma esposa. Tem alguma coisa errada, como se não tivesse sido acabada, como se acontecesse rápido demais e algo ficasse de fora. Eu é que devia estar onde você está e você aqui. Nunca pensei assim antes. Talvez porque seja muito tarde, é mais tarde do que pensei. Dei uma olhada para fora e é o começo da aurora. Não creio que eu tenha adormecido. Como podia a noite passar tão rápido? Não posso ir para a cama agora. Eu não conseguiria dormir, de qualquer maneira.”
A carta não estava assinada. Talvez Charles tenha se esquecido de que pretendia destruí-la e a enviou. Mas Adam guardou-a por algum tempo, e sempre que a relia ela lhe dava calafrios e ele não sabia por quê.

John Steinbeck, em A leste do Éden

01/12/2024

Primeiro encontro

Não há nada acontecendo, de André Dahmer

Concorrência pública

Tão safado quanto um contrato feito por concorrência pública.

Millôr Fernandes, em A bíblia do caos 

Capítulo I – Antes e depois da missa


Aqui está o que contava, há muitos anos, um velho cônego da Capela Imperial:
Não desejo ao meu maior inimigo o que me aconteceu no mês de abril de 1839. Tinha-me dado na cabeça escrever uma obra política, a história do reinado de D. Pedro I. Até então esperdiçara algum talento em décimas e sonetos, muitos artigos de periódicos, e alguns sermões, que cedia a outros, depois que reconheci que não tinha os dons indispensáveis ao púlpito. No mês de agosto de 1838 li as Memórias que outro padre, Luís Gonçalves dos Santos, o padre Perereca chamado, escreveu do tempo do rei, e foi esse livro que me meteu em brios. Achei-o seguramente medíocre, e quis mostrar que um membro da igreja brasileira podia fazer coisa melhor.
Comecei logo a recolher os materiais necessários, jornais, debates, documentos públicos, e a tomar notas de toda a parte e de tudo. No meado de fevereiro, disseram-me que, em certa casa da cidade, acharia, além de livros, que poderia consultar, muitos papéis manuscritos, alguns reservados, naturalmente importantes, porque o dono da casa, falecido desde muitos anos, havia sido ministro de Estado. Compreende-se que esta notícia me aguçasse a curiosidade. A casa, que tinha capela para uso da família e dos moradores próximos, tinha também um padre contratado para dizer missa aos domingos, e confessar pela quaresma: era o rev. Mascarenhas. Fui ter com ele para que me alcançasse da viúva a permissão de ver os papéis.
Não sei se lhe consentirá isso, disse-me ele; mas vou ver.
Por que não há de consentir? É claro que não me utilizarei senão do que for possível, e com autorização dela.
Pois sim, mas é que livros e papéis estão lá em grande respeito. Não se mexe em nada que foi do marido, por uma espécie de veneração, que a boa senhora conserva e sempre conservará. Mas enfim vou ver, e far-se-á o que for possível.
Mascarenhas trouxe-me a resposta dez dias depois. A viúva começou recusando; mas o padre instou, expôs o que era, disse-lhe que nada perdia do devido respeito à memória do marido consentindo que alguém folheasse uma parte da biblioteca e do arquivo, uma parte apenas; e afinal conseguiu, depois de longa resistência, que me apresentasse lá. Não me demorei muito em usar do favor; e no domingo próximo acompanhei o Padre Mascarenhas.
A casa, cujo lugar e direção não é preciso dizer, tinha entre o povo o nome de Casa Velha, e era-o realmente: datava dos fins do outro século. Era uma edificação sólida e vasta, gosto severo, nua de adornos. Eu, desde criança, conhecia-lhe a parte exterior, a grande varanda da frente, os dois portões enormes, um especial às pessoas da família e às visitas, e outro destinado ao serviço, às cargas que iam e vinham, às seges, ao gado que saía a pastar. Além dessas duas entradas, havia, do lado oposto, onde ficava a capela, um caminho que dava acesso às pessoas da vizinhança, que ali iam ouvir missa aos domingos, ou rezar a ladainha aos sábados.
Foi por esse caminho que chegamos à casa, às sete horas e poucos minutos. Entramos na capela, após um raio de sol, que brincava no azulejo da parede interior onde estavam representados vários passos da Escritura. A capela era pequena, mas muito bem tratada. Ao rés-do-chão, à esquerda, perto do altar, uma tribuna servia privativamente à dona da casa, e às senhoras da família ou hóspedas, que entravam pelo interior; os homens, os fâmulos e vizinhos ocupavam o corpo da igreja. Foi o que me disse o padre Mascarenhas explicando tudo. Chamou-me a atenção para os castiçais de prata, para as toalhas finas e alvíssimas, para o chão em que não havia uma palha.
Todos os paramentos são assim, concluiu ele. E este confessionário? Pequeno, mas um primor.
Não havia coro nem órgão. Já disse que a capela era pequena; em certos dias, a concorrência à missa era tal que até na soleira da porta vinham ajoelhar-se fiéis. Mascarenhas fez-me notar à esquerda da capela o lugar em que estava sepultado o ex-ministro. Tinha-o conhecido, pouco antes de 1831, e contou-me algumas particularidades interessantes; falou-me também da piedade e saudade da viúva, da veneração em que tinha a memória dele, das relíquias que guardava, das alusões frequentes na conversação.
Lá verá na biblioteca o retrato dele, disse-me. Começaram a entrar na igreja algumas pessoas da vizinhança, em geral pobres, de todas as idades e cores. Dos homens alguns, depois de persignados e rezados, saíam, outra vez, para esperar fora, conversando, a hora da missa. Vinham também escravos da casa. Um destes era o próprio sacristão; tinha a seu cargo, não só a guarda e asseio da capela, mas também ajudava a missa, e, salvo a prosódia latina, com muita perfeição. Fomos achá-lo diante de uma grande cômoda de jacarandá antigo, com argolas de prata nos gavetões, concluindo os arranjos preparatórios. Na sacristia, entrou logo depois um moço de vinte anos mais ou menos, simpático, fisionomia meiga e franca, a quem o padre Mascarenhas me apresentou; era o filho da dona da casa, Félix.
Já sei, disse ele sorrindo, mamãe me falou de V. Revma. Vem ver o arquivo de papai?
Confiei-lhe rapidamente a minha ideia, e ele ouviu-me com interesse. Enquanto falávamos vieram outros homens de dentro, um sobrinho do dono da casa, Eduardo, também de vinte anos, um velho parente, coronel Raimundo, e uns dois ou três hóspedes. Félix apresentou-me a todos, e, durante alguns minutos, fui naturalmente objeto de grande curiosidade. Mascarenhas, paramentado e de pé, com o cotovelo na borda da cômoda, ia dizendo alguma coisa, pouca; ouvia mais do que falava, com um sorriso antecipado nos lábios, voltando a cabeça a miúdo para um ou outro. Félix tratava-o com benevolência e até deferência; pareceu-me inteligente, lhano e modesto. Os outros apenas faziam coro. O coronel não fazia nada mais que confessar que tinha fome; acordara cedo e não tomara café.
Parece que são horas, disse Félix; e, depois de ir à porta da capela: — Mamãe já está na tribuna. Vamos?
Fomos. Na tribuna estavam quatro senhoras, duas idosas e duas moças. Cumprimentei-as de longe, e, sem mais encará-las, percebi que tratavam de mim, falando umas às outras. Felizmente o padre entrou daí a três minutos, ajoelhamo-nos todos, e seguiu-se a missa que, por fortuna do coronel, foi engrolada. Quando acabou, Félix foi beijar a mão à mãe e à outra senhora idosa, tia dele; levou-me e apresentou-me ali mesmo a ambas. Não falamos do meu projeto; tão-somente a dona da casa disse-me delicadamente:
Está entendido que V. Revma. faz-nos a honra de almoçar conosco?
Inclinei-me afirmativamente. Não me lembrou sequer acrescentar que a honra era toda minha.
A verdade é que me sentia tolhido. Casa, hábitos, pessoas davam-me ares de outro tempo, exalavam um cheiro de vida clássica. Não era raro o uso de capela particular; o que me pareceu único foi a disposição daquela, a tribuna de família, a sepultura do chefe, ali mesmo, ao pé dos seus, fazendo lembrar as primitivas sociedades em que florescia a religião doméstica e o culto privado dos mortos. Logo que as senhoras saíram da tribuna, por uma porta interior, voltamos à sacristia, onde o padre Mascarenhas esperava com o coronel e os outros. Da porta da sacristia, passando por um saguão, descemos dois degraus para um pátio, vasto, calçado de cantaria, com uma cisterna no meio. De um lado e outro corria um avarandado, ficando à esquerda alguns quartos, e à direita a cozinha e a copa. Pretas e moleques espiavam-me, curiosos, e creio que sem espanto, porque naturalmente a minha visita era desde alguns dias a preocupação de todos. Com efeito, a casa era uma espécie de vila ou fazenda, onde os dias, ao contrário de um rifão peregrino, pareciam-se uns com os outros; as pessoas eram as mesmas, nada quebrava a uniformidade das coisas, tudo quieto e patriarcal.
D. Antônia governava esse pequeno mundo com muita discrição, brandura e justiça. Nascera dona de casa; no próprio tempo em que a vida política do marido, e a entrada deste nos conselhos de Pedro I podiam tirá-la do recesso e da obscuridade, só a custo e raramente os deixou. Assim é que, em todo o ministério do marido, apenas duas vezes foi ao paço. Era filha de Minas Gerais, mas foi criada no Rio de Janeiro, naquela mesma Casa Velha, onde casou, onde perdeu o marido e onde lhe nasceram os filhos — Félix, e uma menina que morreu com três anos. A casa fora construída pelo avô, em 1780, voltando da Europa, de onde trouxe ideias de solar e costumes fidalgos; e foi ele, e parece que também a filha, mãe de D. Antônia, quem deu a esta a pontazinha de orgulho, que se lhe podia notar, e quebrava a unidade da índole desta senhora, essencialmente chã. Inferi isso de algumas anedotas que ela me contou de ambos, no tempo do rei. D. Antônia era antes baixa que alta, magra, muito bem composta, vestida com singeleza e austeridade; devia ter quarenta e seis a quarenta e oito anos.
Poucos minutos depois estávamos almoçando. O coronel, que afirmava, rindo, ter um buraco de palmo no estômago, nem por isso comeu muito, e durante os primeiros minutos, não disse nada; olhava para mim, obliquamente, e, se dizia alguma coisa, era baixinho, às duas moças, filhas dele; mas desforrou-se para o fim, e não conversava mal. Félix, eu e o padre Mascarenhas falávamos de política, do ministério e dos sucessos do Sul. Notei desde logo, no filho do ministro, a qualidade de saber escutar, e de dissentir parecendo aceitar o conceito alheio, de tal modo que, às vezes, a gente recebia a opinião devolvida por ele, e supunha ser a mesma que emitira. Outra coisa que me chamou a atenção foi que a mãe, percebendo o prazer com que eu falava ao filho, parecia encantada e orgulhosa. Compreendi que ela herdara as naturais esperanças do pai, e redobrei de atenção com o filho. Fi-lo sem esforço; mas pode ser também que entrasse por alguma coisa, naquilo, a necessidade de captar toda a afeição da casa, por motivo do meu projeto.
Foi só depois do almoço que falamos do projeto. Passamos à varanda, que comunicava com a sala de jantar, e dava para um grande terreiro; era toda ladrilhada, e tinha o teto sustentado por grossas colunas de cantaria. D. Antônia chamou-me, sentei-me ao pé dela, com o Padre Mascarenhas.
Reverendíssimo, a casa está às suas ordens, disse-me ela. Fiz o que o Sr. Padre Mascarenhas me pediu, e a muito custo, não porque o não julgue pessoa capaz, mas porque os livros e papéis de meu marido ninguém mexe neles.
Creia que agradeço muito…
Pode agradecer, interrompeu ela sorrindo; não faria isto a outra pessoa. Precisa ver tudo?
Não posso dizer se tudo; depois de um rápido exame, saberei mais ou menos o que preciso. E V. Ex.ª também há de ser um livro para mim, e o melhor livro, o mais íntimo…
Como?
Espero que me conte algumas coisas, que hão de ter ficado escondidas. As histórias fazem-se em parte com as notícias pessoais. V. Exª., esposa de ministro…
D. Antônia deu de ombros.
Ah! eu nunca entendi de política; nunca me meti nessas coisas.
Tudo pode ser política, minha senhora; uma anedota, um dito, qualquer coisa de nada, pode valer muito.
Foi neste ponto que ela me disse o que acima referi; vivia em casa, pouco saía, e só foi ao paço duas vezes. Confessou até que da primeira vez teve muito medo, e só o perdeu por se lembrar a tempo de um dito do avô.
Saí de casa tremendo. Era dia de gala, ia trajada à Corte; pelas portinholas do coche via muita gente olhando, parada. Mas quando me lembrava que tinha de cumprimentar o imperador e a imperatriz, confesso que o coração me batia muito. Ao descer do coche, o medo cresceu, e ainda mais quando subi as escadas do paço. De repente, lembrou-me um dito de meu avô. Meu avô, quando aqui chegou o rei, levou-me a ver as festas da cidade, e, como eu, ainda mocinha, impressionada, lhe dissesse que tinha medo de encarar o rei, se ele aparecesse na rua, olhou para mim, e disse com um modo muito sério que ele tinha às vezes: “Menina, uma Quintanilha não treme nunca!” Foi o que fiz, lembrou-me que uma Quintanilha não tremia, e, sem tremer, cumprimentei Suas Majestades.
Rimo-nos todos. Eu, pela minha parte, declarei que aceitava a explicação e não lhe pediria nada; e depois falei de outras coisas. Parece que estava de veia, se não é que a conversação da viúva me meteu em brios. Veio o filho, veio o cunhado, vieram as moças, e posso afirmar que deixei a melhor impressão em todos; foi o que o Padre Mascarenhas me confirmou, alguns dias depois, e foi o que notei por mim mesmo.

Machado de Assis, em Casa Velha

Dindi | Peter Autschbach

Delírios

O analista de Bagé às vezes se cansa da profissão – “O que me aparece de louco, tchê!” –, mas sempre diz que consultório de psicanalista, em matéria de tipos humanos interessantes, é “más variado que a baldeação em Cacequi”. Só é preciso ter um pouco de paciência. Como na vez em que a Lindaura introduziu no consultório um homenzinho que se apresentou como “João Figueiredo” e em seguida se identificou: “Presidente”.
Buenas. Se abanque, no más.
Qual é a sua patente? – perguntou o homenzinho, recusando-se a deitar no divã coberto com um pelego.
Pos é daquelas branca, tchê. Não reparei na marca.
Digo, patente militar.
Dei baixa como cabo.
Fique sabendo que nem o ministro da Guerra manda em mim.
Mas eu sou do FMI! – disse o analista, levantando o homenzinho e atirando-o em cima do divã.
Foi um caso difícil e no fim do tratamento o homenzinho se declarou curado do delírio de grandeza. Disse que seu nome era Pinto e trabalhava com miudezas.
Mas na saída, depois da última sessão, agradeceu ao analista efusivamente e, puxando-o por um braço, segredou:
Escuta. Quem vai escolher o meu sucessor sou eu. Se você quiser...
O analista puxou o homenzinho de volta e o atirou de novo no pelego. Quando a Lindaura veio ver o que estava acontecendo, encontrou o analista arregaçando as mangas. Ele perguntou:
Quem é o próximo?
Um édipo salteado que não larga avó.
Suspende!

* * *

Outra vez um paciente com alucinação não chegou nem a começar o tratamento.
Entrou no consultório e dali a pouco foi posto porta afora pelo analista, aos gritos de “Te enxerga, ó bosta!”.
O que foi? – quis saber a Lindaura.
Esses louco tão se passando...
Esse disse que era quem?
O Freud!
E ficou resmungando.
Mas não respeitam mais nada!

Luís Fernando Veríssimo, em Histórias do Analista de Bagé

Suportar este tédio


III

1. Você me pergunta o que eu acho que é melhor usarmos para nos ajudar a suportar este tédio. “O melhor – como diz Atenodoro – é ocupar-se dos negócios, da gestão dos assuntos do Estado e dos deveres de um cidadão: pois como alguns passam o dia a exercitar-se ao sol e a cuidar da sua saúde corporal, e os atletas acham mais útil passar a maior parte do seu tempo a alimentar os músculos e a força a cujo cultivo dedicaram a vida; assim também para vocês que estão treinando a alma para participar das lutas da vida política, é muito mais honroso estar assim a trabalhar do que estar no ocioso. Aquele cujo objetivo é estar a serviço dos seus compatriotas e de todos os mortais, exercita-se e faz o bem ao mesmo tempo quando está absorto nos negócios e está trabalhando o melhor que pode, tanto no interesse do público como do homem privado.
2. “Mas”, continua ele, “porque a ingenuidade dificilmente está segura entre ambições tão furiosas e tantos homens que desviam alguém do caminho certo, e é sempre certo encontrar mais obstáculos do que ajuda, devemos nos retirar do fórum e da vida pública, e uma grande alma, mesmo em uma posição privada, pode encontrar espaço onde se expandir livremente. O confinamento em covis restringe as forças de leões e criaturas selvagens, mas isso não se aplica aos seres humanos, que muitas vezes realizam os trabalhos mais importantes na solidão.
3. Que o ser humano, porém, só se retire de tal modo que, onde quer que passe seu ócio, seu desejo ainda possa ser o de beneficiar tanto os homens individuais como a humanidade, tanto com seu intelecto, sua voz, como com seus conselhos. O homem que presta bons serviços ao Estado não é apenas aquele que apresenta candidatos a cargos públicos, que defende os acusados e dá seu voto em questões de paz e de guerra, mas aquele que encoraja os jovens a fazer o bem, que supre a atual carência de bons mestres, infundindo-lhes na alma os princípios da virtude, que agarra e retém aqueles que se precipitam na busca da riqueza e do luxo, e, se nada mais fizer, pelo menos controla seu curso – tal homem presta serviços ao público, embora em uma posição privada.
4. Aquele que decide entre estrangeiros e cidadãos (como pretor peregrinus), ou, como pretor urbanus, pronuncia a sentença aos pretendentes em seu tribunal por determinação de seu assistente, ou aquele que lhes mostra o que significa justiça, sentimento filial, perseverança, coragem, desprezo pela morte e conhecimento dos deuses, e o quanto um homem é ajudado por uma boa consciência?
5. Se então você transferir para a filosofia o tempo que você tira do serviço público, você não será um desertor ou se terá recusado a desempenhar a sua própria tarefa. Um soldado não é apenas aquele que está nas fileiras e defende a direita ou a esquerda do exército, mas também aquele que guarda os portões – um serviço que, embora menos perigoso, não é sinecura – que vigia e se encarrega do arsenal: embora todos estes sejam deveres sem derramamento de sangue, ainda assim eles contam como serviço militar.
6. Assim que você se dedicar à filosofia, terá superado todo desgosto da vida: não desejará as trevas porque está cansado da luz, nem será um problema para si mesmo e inútil para os outros: adquirirá muitos amigos, e todos os melhores homens serão atraídos para você: pois a virtude, por mais obscura que seja, não pode ser escondida, mas dá sinais de sua presença: quem for digno, a seguirá pelos seus passos:
7. Mas se abandonarmos toda a sociedade, virarmos as costas a toda a raça humana, e vivermos comungando sozinhos conosco mesmos, esta solidão sem qualquer ocupação interessante levará a uma carência de algo a fazer: começaremos a construir e a demolir, a represar o mar, a fazer fluir as águas através dos obstáculos naturais e, em geral, a fazer uma má disposição do tempo que a Natureza nos deu para vivermos: alguns de nós usam-no com relutância, outros desperdiçam-no;
8. Alguns de nós o gastam para que possamos mostrar uma contabilidade de lucros e perdas, outros para que não lhes restem bens: do qual nada pode ser mais vergonhoso. Muitas vezes um homem que é muito velho em anos não tem nada além da sua idade, pelo que possa provar que já viveu muito tempo”.

Sêneca, em Sobre a Tranquilidade da Alma