03/02/2023

O outro

Na redação, o secretário fazia a cozinha do jornal, quando a senhora, não primaveril, mas ainda não invernosa, dele se aproximou timidamente. E sacando da bolsa um recorte de suplemento, perguntou-lhe se sabia o endereço de Emílio Moura, autor dos versos ali estampados.
O secretário explicou-lhe que o assunto era da competência do Silva, encarregado da seção literária. O Silva não ia demorar, estava na hora dele. Não queria sentar-se, esperar?
Ela recolheu cuidadosamente o fragmento e dispôs-se a aguardar o Silva, que, como acontece nessas ocasiões, tardou um pouquinho. Mas que tardasse dois anos, não fazia diferença, a julgar pelo semblante da senhora, de paciente determinação.
Diante do Silva, exibiu novamente o papelzinho e fez-lhe a pergunta.
Endereço do Emílio Moura? Pois não, minha senhora. Com licença, deixe ver aqui no caderninho: rua tal, número tal, em Belo Horizonte…
O rosto da senhora se transfigurou:
Belo Horizonte? O senhor tem certeza de que ele está em Belo Horizonte?
Se está, no momento, não sei, minha senhora. Mas sempre morou lá, isso eu posso lhe garantir.
Nova mutação se operou na fisionomia da visitante, onde o desaponto parecia querer instalar-se, mas era combatido pela dúvida:
O senhor… o senhor conhece pessoalmente Emílio Moura?
Conheço, sim. Há muitos anos.
Muitos? Que idade tem ele, mais ou menos?
Fez cinquenta há pouco tempo, a senhora não leu nos jornais a comemoração?
Tem certeza de que não está enganado? Perdoe a insistência, mas podia me fazer o retrato físico de Emílio Moura?
Perfeitamente. Trata-se de um senhor alto, magro, cabelos ainda pretos, pequena costeleta, bigodinho, usa piteira e fuma cigarro de palha. Que mais? Meio calado, extremamente simpático, muito querido por todos. Completo a ficha: professor da Universidade, casado, com filhos.
A senhora olhava para o papel, dobrava-o, esboçava o gesto de jogá-lo fora, depois o desdobrava e alisava com carinho. E, na ponta de um longo silêncio:
Sr. Silva, este pedacinho de jornal me trouxe uma grande esperança e agora uma profunda decepção. Muito obrigada. Desculpe.
Ia retirar-se, sem que o Silva compreendesse níquel, mas voltou-se, e rapidamente desfolhou esta confidência:
Há quatro anos ando à procura de Emílio Moura. Éramos muito amigos, ele fazia versos lindos, que eu, na qualidade de sua maior amiga, lia em primeira mão. Um dia, contou-me que ia viajar para Montevidéu, onde ficaria algum tempo. Escreveu-me de lá duas vezes, e da segunda anunciava que seguiria para o Canadá. Nunca mais tive a menor notícia. Ninguém sabe informar nada. Quando li no jornal esta poesia com o nome dele, fiquei cheia de esperança, mas agora não sei o que pensar. O senhor me diz que Emílio Moura tem cinquenta anos e é professor em Belo Horizonte. O que eu conheço tem trinta e dois anos e nunca morou em Minas, que eu saiba, mas como os versos dele são parecidos com estes que o seu jornal publicou! A mesma doçura, uma sensação de fim de tarde, meio triste, o senhor não imagina… Enganei-me. Desculpe mais uma vez, e passe bem, sr. Silva.
Saiu, levando nas mãos o papelzinho, como uma flor.

Carlos Drummond de Andrade, in Fala, Amendoeira

Coração de poeta

O coração do poeta
não sossega um segundo,
mergulha no mar da alma
até encostar no fundo,
depois faz a própria dor
ser a dor de todo mundo.

Bráulio Bessa, in Um carinho na alma

O Impressionismo de Renoir

Menina Lendo (1886), de Pierre-Auguste Renoir

Uma história de luz (1)

Quando morreu, ele tinha umas poucas roupas usadas demais, uma flauta doce e uma pasta onde guardava sua certidão de nascimento, a carteira de identidade e recortes de jornais. Na parte de dentro da capa desta pasta, ele escrevera: “Luciano Felipe da Luz — jornalista e jornaleiro do Boca de Rua”. Tudo estava ali. Com essa frase ele se inscreveu no mundo e morreu como um homem. Só pôde morrer como um homem porque viveu como um.
A frase que ele escolhera para se identificar, para atravessar o espaço e quebrar com palavras a ausência de si, é a chave para acessar a vida que se foi, mas fica no registro. Quem apenas decodificasse a frase sem conseguir lê-la, poderia se enganar com o legado do homem-garoto. Num olhar superficial, ele era um menino que morria cedo, aos 20 e bem poucos anos. Tinha marcas demais no corpo, toda uma existência contada ali em cicatrizes de facadas, de surras, de picadas, um mostruário completo de todas as formas de violência inventadas, um mostruário da humanidade contada pelas suas tripas. Tanto em tão pouco, uma confusão que a vida faz com o tempo e o espaço.
Mas tudo que estava ali contado nas cicatrizes daquele corpo no necrotério só existia porque ele tinha se tornado “Luciano Felipe da Luz — jornalista e jornaleiro do Boca de Rua”. Era no conteúdo da pasta que ele nomeava, nos recortes do jornal que ele escrevia com outros garotos com destinos parecidos, mas jamais iguais, que ele havia se tornado o homem que morreu.
Dito de outra maneira. Ele havia nascido Luciano Felipe da Luz. Mas só se tornou Luciano Felipe da Luz ao começar a escrever-se no jornal. Ao escrever-se, ele se tornou homem. E só se completou homem porque passou a ser lido como homem. Essa é a sutileza de sua identidade — “Luciano Felipe da Luz — jornalista e jornaleiro do Boca de Rua”. Ao colocar no mesmo patamar o jornalista e o jornaleiro, ele intuiu que escrever e ser lido eram partes do mesmo mistério. Como jornalista ele se escrevia, como jornaleiro ele se fazia ler. Luciano Felipe da Luz eliminara ali, na frase do seu legado, a mercadoria. Ele, que até então havia sido a sobra do capitalismo.
O que faz de um homem um homem? O que nos faz o que somos? A narrativa, a capacidade de nos contarmos. Mas não só. O tornar-se homem só se completa na possibilidade de ser lido, no reconhecimento da história de cada um pelo outro. É naquele reconhecimento que vemos nos olhos de quem amamos ao acordar que nos humanizamos, que nossa humanidade se reedita a cada manhã. Por isso nenhum homem pode ser uma ilha — na frase perfeita que já se tornou um clichê. Porque só somos no outro. E o outro só é em nós.
Quem era Luciano Felipe da Luz antes de tomar posse do seu corpo pela escrita? Era Mercedez. Ganhou este nome por causa do caminhão Mercedes Benz que o atropelou um dia. Não tinha sido o único atropelamento. Ele fora atropelado 12 vezes. Numa delas, ganhou esse batismo tão literalmente das ruas. Sem reconhecimento, seu corpo levou ainda um tiro na cabeça, algumas facadas e mais tarde foi assinalado também pelas marcas da Aids.
Arrastando seu corpo sem palavras pelas ruas de Porto Alegre, Mercedez não era visto. Há várias formas de não ver um outro. Infelizmente exercitamos todas elas e sempre inventamos uma nova. Deixamos de reconhecer um homem — no homem — quando pensamos que sua dor não nos diz respeito. É só ao desconhecer o outro como um igual que a desigualdade de condições de vida se torna aceitável. Comum, banal e, principalmente, alheia a nós.
Com Mercedez era assim, um menino que cresceu nas ruas sem ser visto. Quando era visto, era sempre pelo olhar da violência. Do nosso, que não o enxergava, de outros, que como ele disputavam os restos da rua, da polícia, que o espancava. Tudo o que conhecia era ser marcado por essa violência, por um olhar que não o via. Porque entre as piores formas de não ver alguém está aquela que só enxerga seu estereótipo. No caso dele, um garoto de rua, um maloqueiro, um vagabundo, um sujo, um feio, um malvado. Um problema para as autoridades, uma mazela social para os especialistas, um estorvo que atrapalha o tráfego e suja as calçadas para a maioria. Não causa espanto que, sendo assim, Mercedez tenha sido atropelado tantas vezes, inclusive uma delas por um caminhão Mercedes-Benz.
O que causa espanto é que Luciano Felipe da Luz tenha sobrevivido a todos os atropelamentos, inclusive o do seu batismo. Mais tarde, quando ele começou a se contar pela palavra (e não apenas pelas cicatrizes no corpo), dizia que era “filho da luz”. Se uma interpretação parcial dos fatos mostrava que ele era filho do abandono — de vários abandonos —, ele se agarrava ao fio do sobrenome e com ele construiu uma outra verdade narrativa que repetia nas ruas: “Eu sou filho da luz”. Esse parto de palavras pode ter dado a ele uma maternidade que lhe permitiu viver dentro dos seus possíveis. A narrativa que fez de sua origem deu a ele uma mãe que era luz. E com o que pareceria pouco para muitos, Luciano Felipe da Luz desfez parte de suas trevas.
Quando duas jornalistas, Clarinha Glock e Rosina Duarte, começaram a inventar um jornal escrito e vendido por garotos de rua em Porto Alegre, encontraram-no estirado na calçada junto às paredes de um colégio de elite onde guardava carros. Sujo, chapado e esquecido de si. Devagar, bem aos poucos, ele foi se agarrando a esse fio que permitia a vida — a essa maternidade narrativa que dava a luz e não a morte. Sem negar o Mercedez que era parte dele, resgatou-se como Luciano. Parecia pouco, era tudo. O suficiente para cuidar do seu corpo, agora que ele era constituído também por palavras, essas cicatrizes da alma.
Agora que não o viam mais como resto, mas como “jornalista e jornaleiro”. Agora que ele se apresentava diante do cidadão, com seu crachá de jornalista e jornaleiro, e oferecia o jornal que ele também escrevia. Senhor, senhora, meu nome é Luciano Felipe da Luz e eu tenho uma história. Pela primeira vez, então, dois mundos dialogavam sem medos mútuos. E descobriam que só as palavras atravessam pontes. São gestos no ar.
Infelizmente, não para ninguém, mas para a humanidade inteira, a Aids já o devastava há tempo demais, e o cuidado com um corpo que agora podia ser marcado também pelo amor só o roubou pouco tempo mais da morte — o que não é pouco, mas também é. Morreu na luz. No Campo Santo, a parte do cemitério reservada aos pobres, foi sepultado pelos amigos e colegas do jornal. Que perguntaram ao coveiro porque ele, como todos ali, era apenas uma cruz com número — sem foto nem nome. A resposta era que ali os corpos são enterrados com menos de sete palmos e desenterrados depois de algum tempo para dar lugar a outro corpo de pobre.
Decidiram então registrar sua vida por escrito no jornal — e assim Luciano Felipe da Luz morreu como um homem que viveu, morreu inscrito na história. Antes, eles apenas desapareciam, invisíveis na morte como na vida. Agora, homens como ele, jornalistas e jornaleiros, morrem. E isso é um jeito de permanecer como vida.
Luciano Felipe da Luz, jornalista e jornaleiro do Boca de Rua (2), ficaria feliz ao saber que um dia, depois da sua morte, seus colegas de jornalismo e jornaleirismo fizeram também um filme. Nele, apresentavam Porto Alegre aos moradores de rua de São Paulo. Numa das exibições, no Centro Cultural Santander, na capital gaúcha, um espaço cultural muito valorizado e simbolicamente dentro do cofre de um antigo banco, foram barrados ao chegar. Ensinado a interceptar roupas velhas e pobres, o segurança intimou: “Quem são vocês?”. Um deles se adiantou: “Nós somos os autores”. E entraram.
Sim, eles são autores. Como autores podem viver. Como dizia Luciano Felipe da Luz: “A minha vida é sempre a sua. Se liga gente boa”.
13 de setembro de 2010

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(1) O Boca de Rua é um projeto da ONG Alice, de Porto Alegre, iniciado em 2000. O jornal, publicado a cada três meses, conta histórias de um mundo até então invisível, agora escrito, fotografado e grafitado por moradores das ruas de Porto Alegre, que se encontram uma vez por semana para decidir a pauta e reeditar a vida. Os analfabetos ditam suas palavras, todos se escrevem de alguma maneira, com a ajuda de todos. Depois, é vendido nas ruas da capital por seus autores. Cada um tem a sua cota de exemplares e a renda pertence a eles. Ao final desta coluna, Eliane fez um adendo: “Aos jornalistas e jornaleiros que tornaram o Boca de Rua possível, a minha homenagem. Afinal, um jornal é exatamente isso — ou pelo menos deveria ser: o reconhecimento da vida. Em palavras”.
(2) As colunas sobre moradores de rua, como Eliane constatou, são as menos lidas, no acompanhamento da audiência. É como se as pessoas não quisessem vê-los, nem nas ruas, nem em lugar algum. É por isso que ela continua escrevendo sobre moradores de rua. Até que enxerguem.

Eliane Brum, in A Menina Quebrada

De Camarote

Apesar dos esforços da polícia civil, confortavelmente instalada em cadeiras de lona à margem da pista (sem pretender chamá-los de marginais), que interrompeu várias vezes o merecido sono e o estudo d’0 favorito, e da pronta intervenção da FM, que suspendeu a pelada e passou a prender a polícia civil - em que pesem o leitão e as ameaças das comunidades de informações e dos mal-informados os integrantes das escolas de samba se recusam a deixar a passarela da Marquês de Sapucaí. Baterias emudecidas, estandartes abandonados, passistas e cabrochas espiam, embasbacados, a badema que otoridades, vips e vamps promovem (êpa!) nos camarotes.
O cafetão internacional xeque Harum Al-Eskarrar presenteou o Dr. Vidrado Deválium Dez, a “Marleide”, com a privada de ouro de seus aposentos não menos privados. E ainda repleta de cocô, o que dá mais colorido ao fato. Vidrado, destacado membro do Colégio de Cirurgiões e da Penitenciária Lemos de Brito, declarou para a posteridade: “Agora, quando eu quiser me suicidar, é só entrar no vaso e puxar a válvula. Morrerei na merda, como a maioria dos brasileiros, mas com um toque de distinção”.
No camarote ao lado, um Marechal da comunidade dos incomunicáveis ergueu sua taça: “Eu também como a grande maioria dos brasileiros!”. Já o xeque Harum, com um delicioso sotaque baiano, justificou seu rasgo de generosidade de forma singela: “Marleide seleciono legal as puta, num sabe?”.
O Troféu “Folião Mais Pitoresco” deverá ser concedido ao impagável (tá cobrando muito caro) Delegado Luterinho Nazi, elegantíssimo dentro do conjunto safári do recém-falecido traficante Laurindo Tambatajá.
Completavam o traje a inseparável tarrafa, chapéu de cortiça e rifle com mira telescópica “pra atirar em pandeirista”, segundo o bem-humorado agente da lei e da ordem. Luterinho, com charme e soco-inglês, exigiu que os gatos e pardos só se referissem a ele como Buana Nazi, o Grande Caçador Branco.
Cassandras e pessimistas inveterados sofreram rude golpe com um tocante episódio acontecido no camarote do industrial e contraventor (não necessariamente nessa ordem) Urânio Pólio Falcatrua, o “Fuinha do Alvoradão”.
Após chupar uma meia dúzia de paus, a modelo internacional Fann Xonna manifestou desejo de queimar um charo. Anfitrião impecável, Urânio mandou seu ajudante-de-ordens, Bicheir-Major-Aero-Transportável Aloísio Sagrado Coração, enrolar um de dois palmos. Consternados, os dois homens de visão souberam, por alcagüetes, que o fumo acabara logo após a passagem pelo camarote da comitiva das altas esferas (só a esposa do Deputado Keres Barata Arreboque tem 1,80m e pesa 115 quilos) políticas da situação. Informado a respeito do impasse, um assessor da Secretaria de Iiiçeguranssa, lotado num camarote próximo, cedeu maconha de sua própria capanga, Neuza “Enfia-o-Dedo-e-Roda”, aos quilos. O gentil-homem não quis se identificar, por estar sem documentos, e disse apenas que se chamava Inspetor-pra-Viagem Clóvis Mascarado de Melindros Filho. O grande Urânio agradeceu muito e prometeu pagar no Dia de São Nunca. “Quem dá ao próximo, em festa, adeus!”, acrescentou o rafles carioca.
Caído num terreno baldio das imediações, o cadáver do Juiz-Carregador Mártir Telúrico dos Santos considerou o gesto de Clóvis Mascarado inoportuno e de tendência criptocomunista. “Além do mais, ele deveria ter cobrado na hora, em espécie. Não foi pra isso que fizemos a Revolução.” O magistrado expressou-se em latim, por considerar língua morta mais compatível com seu estado de putrefação.
Uma nota: dois bi foi quanto o jurista Beto Nem-Pensar pagou ao legista Chicotinho Queimado para falsificar o atestado de óbito de sua amante (dos dois) Tetê Fufu Nicols, parda, gaga, idade média. Tetê faleceu do coração com seis tiros à queima-pele. Comenta-se que, antes do ataque, Tetê estava nua, abraçada ao peru da ceia do contínuo da cunhada da secretária do maítre do camarote de um ministro desses aí. O jurista, que tava de olho no mesmo peru, matou em defesa da honra, da farofa e dos miúdos.
Senhoras de nossa melhor sociedade, Lívida do Grelo Maior, Odile de Piranhas Margens Plácidas e a Condessa Lavanda de Prozz Tchittuta, ministraram (ui!) verdadeira aula de Moral e Cívica nos Camarotes da Sapucaí, ao lincharem, no mais puro estilo Baixada, a modelo internacional Fann Xonna II. Tudo começou quando a modelo passou a mão na bunda de Lívida. Espelho do belo nome, a colunável replicou: “Bunda onde a condessa meteu o vibrador, fanchona nenhuma passa a sapata. Dito isso, tirou da bolsa importada o estoque dos bons tempos de detenta no Tâlavera Bruce. Seguindo o nobre exemplo da amiga, a condessa abriu o “Terror do Bois”, sua famosa navalha. Odile gritava palavrão em nove idiomas. Coube a Lívida aplicar o golpe de misericórdia com seu Grelo Maior, uma variante da umbigada. Desacordada, a modelo foi arrastada pela passarela do samba e atada aos ferros da cabine, junto ao jurado de morte do quesito Evolução, o qual deu dez! nota dez! e fugiu por unia viela. Fann, entre um e outro autógrafo, foi empalada e torturada até a morte. Aproveitando a liquidação, o delegado Luterinho Nazi atirou em diversos populares, pediu mais verba e acusou Fann de ser o crioulo forte, de boné, que matou Mariel.

Aldir Blanc, in Brasil passado a sujo

02/02/2023

Tom Waits | "Chicago" (Live on David Letterman, 2012)

Como se sente um estrangeiro?

Estrangeiro é um conceito muito largo. Um sujeito que pode ser mil sujeitos. Eu não fui a mesma estrangeira na França que sou em Portugal. Assim como sei que um angolano, um francês ou um chinês em Portugal não se sentem da mesma forma que eu me sinto. Cada história é uma história, cada vivência é uma vivência.
Mas, certos sentimentos, eu acredito que sejam comuns. Há angústias pelas quais todos passamos, há medos compartilhados, prazeres que todos experimentamos, dúvidas que nos acompanham sempre, como as malas de rodinha e as saudades permanentes.
Todos vivemos uma certa fragilidade de raízes. Para nossos conterrâneos somos os que foram embora, e para os que nos recebem seremos sempre os de fora. É como se não pertencêssemos verdadeiramente a nenhum dos dois lugares: somos estrangeiros onde vivemos e, num dado momento, também somos estrangeiros no país onde nascemos. E não é simples de se lidar com o sentimento que isso traz.
Ser estrangeiro é ter sempre uma estranha sensação de que estão nos fazendo favor de nos deixarem permanecer na nossa própria casa. Trabalhamos, pagamos as contas, temos documentos, amores, projetos, mas mesmo assim não parecemos ser tão donos das nossas vidas. Nunca sabemos se aparecerá um Trump ou um outro absurdo qualquer.
Por outro lado, temos a contraditória riqueza de sentir que vivemos duas vidas ao mesmo tempo, enquanto os demais vivem apenas uma. A sensação é boa e é ruim. Uma vida mais preenchida, dois países, duas bases, dois ninhos. Ao mesmo tempo, duas ausências, duas saudades, dois vazios.
É difícil ser estrangeiro. As dúvidas sempre pairarão a seu respeito, não importa quão fiável você seja. Se você tiver nascido no hemisfério sul, as dúvidas duplicam. Assim como suponho que não seja fácil ser português na França nem romeno na Alemanha. Estrangeiros são eternas hipóteses. Por que está aqui? O que quer aqui? O que veio buscar aqui?
Contudo, há dias em que o país que nos acolhe é puro abraço e nossas certezas dão o ar da graça. Há dias em que querem saber da nossa história, elogiam nosso sotaque e nossa coragem, fazem com que a gente se sinta bem-vindo. E talvez seja isso o que mais importa: sentir-se bem-vindo. Com o resto a gente vai lidando.
Ser estrangeiro é viver na corda bamba dos sentimentos, na saga eterna dos documentos, na incerteza dos olhares e nas graças dos braços abertos que compensam todo o resto.
E, no fundo, é boa a sensação de apresentar a música do Zambujo para os amigos de lá e a da Liniker para os amigos daqui. É bom levar azeitona boa para lá e trazer palmito de açaí para cá. Ensinar minhas amigas brasileiras a falarem “pirosa” e as amigas portuguesas a falarem “periguete”. É bom presentear meu sogro com um livro do Gregorio Duvivier e meu pai com um do Ricardo Araújo Pereira. É sorte beber a melhor cachaça e o melhor vinho. É bom carregar a alegria do samba e a emoção do fado no mesmo peito.
Ser estrangeiro dói, por mais confortável que a situação possa ser. Não, não é fácil. Mas vale a pena. Como dizia um simpático senhor português que mora nas minhas prateleiras, desde que a alma não seja pequena. Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor. Aos poucos vamos aprendendo.

Ruth Manus, in Um dia ainda vamos rir de tudo isso

Lembrança de uma primavera suiça

Essa primavera era bem seca, e o rádio estalava captando sua estática, a roupa se eriçava ao largar a eletricidade do corpo, o pente levantava os cabelos imantados, era uma dura primavera. E muito vazia. De qualquer ponto em que se estava, partia-se para o longe: nunca se viu tanto caminho. Falava-se pouco; o corpo pesava como seu sono; os olhos estavam grandes e inexpressivos. No terraço estava o peixe no aquário, tomamos refresco olhando para o campo. Com o vento, vem do campo o sonho das cabras. Na outra mesa do terraço, um fauno solitário. Olhamos o copo de refresco e sonhamos estáticos dentro do copo. “O que é que você disse?” “Eu não disse nada.” Passavam-se dias e mais dias. Mas bastava um instante de sintonização e de novo captava-se a estática farpada da primavera: o sonho imprudente das cabras, o peixe todo vazio, uma súbita tendência ao roubo de frutas, o fauno coroado em saltos solitários. “O quê?” “Nada, eu não disse nada.” Mas eu percebia um primeiro rumor, como um coração batendo embaixo da terra. Quieta, colava meu ouvido na terra e ouvia o verão abrir caminho por dentro, e meu coração embaixo da terra, oh nada! eu não disse nada! – e sentia a paciente brutalidade com que a terra fechada se abria por dentro em parto, e sabia com que peso de doçura o verão amadureceria 100 mil laranjas, e sabia que as laranjas eram minhas – só porque eu assim queria.

Clarice Lispector, in Todas as crônicas

Hagar, o Horrível

 

Ilha

Saturnino Vieira não conseguia dormir, saiu da cama e foi à cozinha encher um copo com água para tomar o seu comprimido. Sentia-se infeliz, sabia que se não tomasse um comprimido seria dominado por pensamentos soturnos. Todo homem é uma ilha, você não vai ouvir sinos tocarem, ele pensava, olhando o copo em sua mão. Por alguma razão devia tomar o comprimido com água, ainda que eles, pequenos e cobertos por uma camada lisa e adocicada, não precisassem de ajuda para escorregar pela sua garganta. Ele era uma ilha, o resto era conversa fiada. Enquanto fosse vivo, ficaria sozinho na ilha. Morto, não sabia o que aconteceria. Provavelmente nada.
Claro que era melhor estar vivo que morto. Por enquanto. Mas sabia que seu insulamento não tinha fim, comprimidos e mulheres faziam efeito apenas por algum tempo. Todos os prazeres eram fugazes. Todo diálogo era de surdos. Ninguém entendia ninguém.
Passou pelo quarto, o copo com água na mão, para ir ao banheiro, onde os comprimidos estavam guardados, numa gaveta do armário sob a pia.
Essa água é para mim, Saturnino?”
Pensei que você estava dormindo.”
Acordei quando você levantou. Tenho o sono muito leve. Essa água é para mim?”
É.”
Como é que você sabia que sempre ao acordar eu bebo um copo de água antes de sair da cama?”
Sabendo.”
Quando durmo fora de casa eu sempre esqueço de colocar o copo com água na mesinha de cabeceira. Obrigada.”
A moça estendeu a mão e pegou o copo. Bebeu a água toda.
Você é danado. Nunca ninguém fez isso, me trazer um copo com água quando acordo de manhã. O que mais você sabe sobre mim que eu não lhe contei?”
Sei tudo sobre você.”
Mas eu não lhe contei nada. Só o meu nome.”
Mas eu sei.”
Diz uma coisa.”
O quê?”
Quantos anos eu tenho?”
Vinte e dois.”
Errou. Tenho vinte.”
Você tem vinte e dois. Não adianta mentir para mim.”
Está bem, tenho vinte e dois. Onde foi que eu nasci?”
Tenho que botar a mão sobre a sua cabeça.”
Qual o problema? Você botou a mão em outros lugares piores. Anda, põe a mão na minha cabeça.”
Minas Gerais. Mas veio para o Rio muito pequena.”
Como é que você sabe onde eu nasci e que eu vim para aqui muito pequena?”
Vi quando botei a mão na sua cabeça. E também que o seu nome verdadeiro não é Luana.”
Qual é o meu nome?”
Maria da Conceição. É mais bonito que Luana.”
Você é um bruxo. Não quero saber mais nada.”
Está bem.”
Se tivesse esse dom eu ganhava toda semana na loteria.”
Loteria não tem cabeça para eu botar a mão.”
E café? Você também traz café na cama para as moças?”
Não.”
Quer que eu faça o café? É só me mostrar onde estão as coisas.”
Eu tenho um encontro com um sujeito. Negócios. Tenho que sair logo.”
Hoje é domingo. Dia de descanso. Você não quer transar comigo outra vez? Não gostou?”
Gostei. Mas vou ter que sair.”
Você me chama novamente?”
Chamo.”
Não vai perder o meu telefone.”
Não perco. É melhor você se vestir.”
A moça andou nua pelo quarto na frente de Saturnino, fingindo que procurava as suas roupas que estavam sobre uma cadeira. Saturnino olhava para ela pensando no comprimido que iria tomar.
Você acha o meu corpo bonito?”
Acho. É muito bonito. Mas eu tenho que sair. Anda, veste a sua roupa.”
E eu não faço nada, nem regime, nem malho. Olha a minha barriga. Meu bumbum. Não parece que vivo fazendo exercício? Nunca entrei numa academia, como a maioria das minhas colegas. Ei! em que você está pensando? Está com um olhar muito estranho. De um homem perdido numa ilha deserta.”
Olhar de quê?”
De um homem perdido numa ilha deserta.”
Como foi que você pensou nisso?”
Você ficou chateado? Por favor, não fica chateado comigo.”
Não estou chateado. Só quero saber como foi que você pensou nisso.”
Não sei. Veio na minha cabeça.”
Saturnino ficou calado enquanto a moça, desapontada, se vestia.
Desculpa qualquer coisa errada que eu fiz. Me telefona”, ela disse, dando um beijo de despedida no rosto de Saturnino.
Fica”, disse Saturnino. “Vamos para a cozinha. Vou te mostrar onde estão as coisas para fazer café.”
Você não tem que sair?”
Não. O sujeito que ia se encontrar comigo não vai aparecer.”
Como é que você sabe?”
Sabendo.”
Se um dia eu me casar, quero que seja com um homem mágico como você. Pode me chamar de Conceição, já estou gostando do nome.”
Saturnino contemplou o rosto desarmado da moça.
Mágica é você”, ele disse.
Mas o sono dela não era tão leve como dissera. Saturnino levantara no meio da noite sem que Conceição acordasse, e espiara a carteira de identidade na sua bolsa. Mas isso ele não disse para a moça, ao tomarem café com torradas.
Nem depois, quando voltaram para a cama.

Rubem Fonseca, in Pequenas Criaturas

Capítulo 42 | Que Escapou a Aristóteles

Outra coisa que também me parece metafísica é isto: – Dá-se movimento a uma bola, por exemplo; rola esta, encontra outra bola, transmite-lhe o impulso, e eis a segunda bola a rolar como a primeira rolou. Suponhamos que a primeira bola se chama... Marcela, – é uma simples suposição; a segunda, Brás Cubas; - a terceira, Virgília. Temos que Marcela, recebendo um piparote do passado rolou até tocar em Brás Cubas, – o qual, cedendo à força impulsiva, entrou a rolar também até esbarrar em Virgília, que não tinha nada com a primeira bola; e eis aí como, pela simples transmissão de uma força, se tocam os extremos sociais, e se estabelece uma coisa que poderemos chamar – solidariedade do aborrecimento humano. Como é que este capítulo escapou a Aristóteles?

Machado de Assis, in Memórias Póstumas de Brás Cubas

01/02/2023

Jorge Aragão | Encontro das águas (ft. Jorge Vercilo)

A alma e a geringonça

A Alma e a Geringonça, aí é que está o problema.
Seremos acaso uns autômatos cuja complexidade de reações nos faz acreditar num ilusório livre-arbítrio?
Essa coisa dos torpedos autodirigíveis dá para desconfiar um bocado... Acontece que somos muito mais complicados do que eles — eis tudo.
Mas este jogo de pensamentos em que nos comprazemos é tão limitado como um jogo de palavras.
Se não, já teríamos descoberto e resolvido tudo, em tantos e tantos séculos de funcionamento.
É verdade que temos tido jogadores hábeis como Platão, para apenas citar um craque da Antiguidade. Mas se nem Platão, muito menos eu e tu, leitor...
Nós só podemos ir movendo as peças, sem esquecer que, embora as partidas pareçam variar ao infinito, o movimento de cada peça é único e as regras do jogo são imutáveis, embora convencionais, como as de qualquer jogo.
E, se fôssemos infringir as regras, seria impossível jogarmos.
Continuemos, pois, a brincar com a máxima seriedade. Porque jogo é jogo.

Mário Quintana, in Caderno H

A brasilidade no traço de Portinari

Colheita de Cacau (1954), de Cândido Portinari

A Lua Vem da Ásia | Cosmogonia

D

Sentado à mesa de um bar, como é do meu hábito. Diante de mim um copo de cerveja, loiro e cheio de dignidade. No muro em frente um filósofo escreveu, em grandes letras, a palavra suprema: MERDA, que vibra ao sol da manhã como um grande sino convocando os infiéis a um sabbat sem precedentes, com baionetas caladas em vez de vassouras e o bode preto substituído pela face mansa e apostólica de um buda de marfim.
Estou mais lúcido do que uma nota tocada ao piano, e meus dedos são dez antenas voltadas para os dez mandamentos da lei antimosaica e que um dia dominarão o mundo, no verdadeiro dia do Juízo Final. Estou mais bíblico do que são João em Patmos, e o meu silêncio é uma harpa eólia que o vento da manhã só torna audível aos que sintam comigo a gravidade da hora presente, banhada de sangue inocente e do pranto das viúvas e dos órfãos.
A um passo de minha sombra, o rio dos transeuntes subindo e descendo a rua ardente, rumo ao sul, rumo ao norte, desorientados apesar do guarda de trânsito que na esquina lhes aponta o bom caminho, servindo-se para isso de um cassetete. Um cavalo cego, puxado por um velho de barbas proféticas, estaca por um instante diante dos meus dedos transformados em signos do zodíaco, mas o velho lhe dá com o chicote no meio da testa e ele se esquece de sua nobre condição de cavalo, seguindo o outro com o andar quase marcial que lhe impõem as pedras da rua. Seria tão mais fácil cair morto sobre as botinas do seu dono e algoz, aos olhos estupefatos dos sobreviventes da última mas não derradeira revolução, em vez de...
A cerveja sabe-me a urina de defunto, mas não sou suficientemente rico para jogá-la à cara do garçom e pedir em troca uma garrafa de champanha, com rolha e tudo, embora tenha vendido a um camelo de esquina meu fuzil-metralhadora com apenas uma cápsula deflagrada. Em tempos normais eu teria enriquecido facilmente, com um argumento tão bom como é e sempre foi um fuzil-metralhadora a tiracolo, mas o dia de hoje é claro e quase pacífico, e nem sequer é carnaval para eu andar vestido de anarquista feroz pelas ruas policiadas e dedetizadas de uma metrópole, muito embora...
Devo ter meus cinquenta anos, a julgar pela carne flácida que sinto quando passo as mãos pelo rosto e em volta do pescoço, num gesto muito meu e que também foi de meu pai. (Aliás, copio meu pai em muitos gestos e atitudes impensadas, e até mesmo na entonação da minha voz, como penso ocorrer com a maioria dos filhos legítimos e ilegítimos, inclusive entre os ratos e os gafanhotos.) Mas a minha idade não tem muita importância, contanto que eu não me olhe ao espelho, e o que vale é esta juventude perene e esse contínuo assombro em que me vejo diante das coisas do mundo, sobretudo das coisas invisíveis e mais certas, como Deus por exemplo e seu partenaire, o diabo. Com cinquenta ou cem anos sinto-me mais jovem do que uma criança recém-nascida, e disso dão prova minha gargalhada fácil e meus dedos ágeis sobre a mesa, mais ágeis do que as formigas de Maeterlinck. Só me sentirei velho depois de morto, e assim mesmo por causa dos vermes e das mãos atadas por sobre o ventre, esse mesmo ventre já não me pertencerá mais e sim ao diabo, ao qual vendi minha alma antes dos vinte anos. (De passagem: conheço velhos que têm apenas doze anos no registro civil e que se envergonhariam se vissem minha juventude cinquentenária e cheia de blasfêmias, eles que nunca blasfemaram em sua vida, nem mesmo em sonho.)
O garçom tem cara de mentecapto, mas isto não me afeta grande coisa, como de resto não me afeta nada de nada neste mundo, e espero também no outro. Cara de mentecapto tem todo mundo, com perdão da palavra, sobretudo se se está apaixonado ou simplesmente faminto, como é o meu caso nesta manhã azul. O homem é por natureza mentecapto, como o é o galo e mais precisamente ainda o zangão diante da abelha-rainha, e o que o faz assim é principalmente o seu poderoso sexo, com cabelo e tudo. Enquanto a fêmea for fêmea e o macho for macho, a inteligência do homem será apenas uma figura de retórica, e a sua imagem no espelho será isto que estou vendo na cara do garçom, por mais penoso que me seja dizê-lo. Resta o recurso do suicídio, se é que isso seja realmente uma solução.
Preciso escrever uma infinidade de livros para desintoxicar-me, e as minhas espinhas são os livros que não escrevi até hoje, embora já tenha escrito muitos. A palavra foi dada ao homem para blasfemar contra o seu destino, e a palavra escrita é a verdadeira palavra, como o defunto é o único homem verdadeiro, em sua mudez total. (Mudez ou nudez, leiam como quiserem).
O dia mais feliz da minha vida foi o dia em que escrevi minha primeira palavra feia no muro alto do colégio — exatamente essa bela palavra MERDA que agora me fita do outro lado da rua, como um desafio. MERDA é tudo que não seja a morte, que talvez também o seja, e disso sempre tiveram consciência os homens menos mentecaptos em seus momentos de maior lucidez, e que são poucos. Merda é a própria vida, mero eufemismo para uso dos salões elegantes e dos tratados diplomáticos, que também são uma merda como tudo mais, como sempre o foram e o serão até o fim dos tempos. Proponho mesmo que, em lugar dos nomes dos países, se diga simplesmente: Merda n.° 1, Merda n.° 2, e assim por diante, chamando-se aos Estados Unidos a capital de todas as merdas, como de fato eles o são.
Que o otimismo é uma grande coisa não resta a menor dúvida, como o é também a santidade, dentro ou fora da Igreja Católica Apostólica Romana. Só que não é otimista quem quer, ao contrário do que pregam os norte-americanos, como não se é santo pela simples extirpação dos testículos ou pelo desejo acirrado de servir ao próximo, mesmo quando se trate de nosso maior inimigo. Ou se nasce inocente ou não se nasce, e a inocência, que rima com inconsciência, é a chave de todo o segredo do santo como do otimista, e nem toda a riqueza do mundo é capaz de pagar o seu preço. Se não consigo ser otimista é porque igualmente não consigo ser menos calvo do que sou, ou menos baixo de estatura, ou ainda menos feio do que pareço diante do espelho. O resto é psicologia de ginásio e receita de milagreiros que nem sequer sabem do que é feita a alma do homem, confundindo-a com o ar dos seus pulmões ou dos seus intestinos, invisível aos raios X.
Se o otimismo se vendesse a peso de ouro, eu o compraria por todo o ouro do mundo e ainda daria de contrapeso o destino de minha alma imortal, já que por muito menos a entreguei um dia ao diabo, que tem fama de bom cobrador. O que me enfeia é justamente este ar de repugnância e tédio que, digam o que quiserem, já trago de nascença e que ficará estampado na face do meu cadáver, como o ficou em Leopardi e em outros cidadãos que nem depois de mortos se traíram. Ao sacerdote que me venha encomendar o corpo peço que respeite ao menos esse ricto de pura náusea que por certo lhe há de causar escândalo, e que os parentes, se os tenho, atribuirão ao lenço amarrado no queixo ou a simples ilusão de óptica, mesmo porque não lhes poderei cuspir no rosto em prova do contrário.
Mas a manhã é azul demais, e eu, sem o meu fuzil, sinto-me impotente diante da beleza do céu e da feiura dos homens que impudicamente se exibem aos meus olhos, sobretudo do guarda armado de cassetete e com ar de soberano pontífice, que dirige o trânsito das almas no meio da rua. E como o lugar do covarde é debaixo da cama, junto do urinol e das baratas, vou procurar um albergue da boa vontade onde me possa deitar no lugar que me compete, enquanto não passe este pessimismo doentio de que me sinto possuído, tal como um xifópago que de repente se dispusesse a meter uma bala na cabeça sem ao menos consultar seu companheiro adormecido.

Walter Campos de Carvalho, in A Lua Vem da Ásia

Ceia | Dia 25 de dezembro de 2008

Há muitos anos, nada menos que em 1993, escrevi nos Cadernos de Lanzarote umas quantas palavras que fizeram as delícias de alguns teólogos desta parte da Ibéria, especialmente Juan José Tamayo, que desde aí, generosamente, me deu a sua amizade. Foram elas: “Deus é o silêncio do universo, e o homem o grito que dá sentido a esse silêncio”. Reconheça-se que a ideia não está mal formulada, com o seu quantum satis de poesia, a sua intenção levemente provocadora e o subentendido de que os ateus são muito capazes de aventurar-se pelos escabrosos caminhos da teologia, ainda que a mais elementar. Nestes dias em que se celebra o nascimento do Cristo, outra ideia me acudiu, talvez mais provocadora ainda, direi mesmo que revolucionária, e que em pouquíssimas palavras se enuncia. Ei-las. Se é verdade que Jesus, na última ceia, disse aos discípulos, referindo-se ao pão e ao vinho que estavam sobre a mesa: “Este é o meu corpo, este é o meu sangue”, então não será ilegítimo concluir que as inumeráveis ceias, as pantagruélicas comezainas, as empanturradelas homéricas com que milhões e milhões de estômagos têm de haver-se para iludir os perigos de uma congestão fatal, não serão mais que a multitudinária cópia, ao mesmo tempo efectiva e simbólica, da última ceia: os crentes alimentam-se do seu deus, devoram-no, digerem-no, eliminam-no, até ao próximo natal, até à próxima ceia, ao ritual de uma fome material e mística sempre insatisfeita. A ver agora que dizem os teólogos.

José Saramago, in O caderno

Capítulo onze | Acutilantes dúvidas, redondulantes mulheres


Eis a diferença: os que, antes, morriam de fome passaram a morrer por falta de comida.
Taberneira Tuzébio

Ma ria no! Marianôôô! Venha, Mariano! Era a voz antiga das mulheres, no tempo da minha infância. Chamavam-me para acender o lume. Cumpriam um preceito de antigamente: apenas um homem podia iniciar o fogo. As mulheres tinham a tarefa da água. E se refazia o eterno: na cozinha se afeiçoavam, sob gesto de mulher, o fogo e a água. Como nos céus, os deuses moldavam a chuva e o relâmpago.
A cozinha me transporta para distantes doçuras. Como se, no embaciado dos seus vapores, se fabricasse não o alimento, mas o próprio tempo. Foi naquele chão que inventei brinquedo e rabisquei os meus primeiros desenhos. Ali escutei falas e risos, ondulações de vestidos. Naquele lugar recebi os temperos do meu crescer.
Não era apenas a casa que nos distinguia em Luar-do-Chão. A nossa cozinha nos diferenciava dos outros. Em toda a Ilha, as cozinhas ficam fora, no meio dos quintais, separadas da restante casa. Nós vivíamos ao modo europeu, cozinhando dentro, comendo fechados. No princípio, ainda houve resistência. Lembro como minha Avó conduzia as bacias e panelas, dentro e fora, fora e dentro. Outras mulheres passavam equilibrando latas de água nas cabeças, como se escutassem o compasso da terra sob os pés descalços. E a porta de rede, num sonolento bater e rebater. O pilão fiel ao chão. E tum-tum-tum, a dança das mulheres pilando. Muito-muito era Tia Admirança quem eu gostava de ver esgrimindo o corpo contra o grão.
É ela agora quem está pilando, farelando os grãos de milho. Em cerimónia de morto há que alimentar os vivos. E parece que o apetite aumenta face à presença dos obituados. Já lhe ofereci ajuda, mas ela sorriu: pilar não é função de macho. Bastava que eu ficasse ali, olhando, que já ajudava o suficiente. O suor escorre-lhe na testa e, aos salpingos, goteja por cima do milho. Óptimo, pensei, a comida vai ter o sabor dela. A mão ajeita uma maqeixa, como se houvesse jeito para aquela cabeleira dela. Depois, numa ondulação, faz recurvar todo o corpo, esmerando a sua redondura.
Minha tia é mulher de mistério, com mal-contadas passagens no viver. Ela estivera fora, antes do meu nascimento. Não fora muita a distância mas era o além-margem, o outro lado do rio. E isso bastava para que nada soubéssemos dela. Que país é este que a pessoa se retira um meio-passo e já está no outro lado do mundo? Admirança só regressou anos mais tarde, quando eu ganhava olho de lambuzar a vida.
Sobre Admirança recaía o maior peso que, neste lado do mundo, uma mulher pode carregar: ser estéril. Dizia-se dela que o seu sangue não tinha germinado. A nossa tia preferia rodear o assunto.
Vou sendo mãe avulsa, deste e daquele. Biscateio maternidades. Por exemplo, agora sou mãe de Miserinha.
Não lhe faltava motivo para andar de olho na nossa hóspede. Lhe chegavam relatos de assustar sobre os desvarios de Miserinha. Dizia-se, por exemplo, que ela comia extracto de vidro. Acreditava que, ingerindo aqueles estilhaços, ficaria transparente. Admirança a tudo contemporizava, desculpando Miserinha: – Essa mulher sofreu desgostos que só eu conheço! O amor a castigara, a vida não lhe oferecera presentes. O amor nos pune de modo tão brando que acreditamos estar sendo acariciados. Miserinha perdera seu marido, ]orojo, não ganhara seu amante, Mariano. Agora, a velha gorda não era mais que uma sombra, alojada num quarto das dependências. Ali inventava seus panos, seus devaneios. Admirança a maternizava, condescendente.
Sou mãe disto tudo, da casa, da família, da Ilha. E até posso ser sua mãe, Mariano.
O seu riso não escondia um travo triste. No fundo, ela sabia que, com o desaparecimento do velho Mariano, todas as certezas ganhavam barro em seus alicerces. Se adivinhavam o desabar da família, o extinguir da casa, o desvanecer da terra.
Desaparece o velho Mariano e o que é que mais nos vai unir? Lhe afago o rosto, a espantar o desalento. Poucas vezes a tinha visto em flagrante de aflição.
Tia, lhe agradeço muito.
Me agradece o quê, sobrinho?
Por nunca mostrar tristeza. A Tia oferece tanto sorriso que parece uma pessoa feliz, sempre tão feliz.
Sou como a formiga de asas, sabe? A formiga de asas só tem um voo de viver. Pas sada essa breve viagem deixa tombar as asas, duas transparenciazinhas já sem uso. Desmaia no chão para ser rainha. Assim se sentia Admirança: a sua porção de céu já fora cumprida. E ela retoma para o pilão, os gestos vigorosos parecem moer não o milho, mas sofridas lembranças.
Reentro na cozinha e me sento junto à mesa. A Avó Dulcineusa canta a sua lengalenga enquanto vai vigiando a panela, no brandeamento do lume. Adormeço profundamente. Acordo depois sozinho, desconhecedor do tempo. A primeira coisa que vejo é a carta. Está pousada por cima do prato. Ao apanhá-la entorno um copo. Num segundo, a água cobre o papel. Rápido leio antes que as letras se dissolvam e a tinta desvaneça.
Meu neto, vejo que anda por aí a indagar o modo como faleci. Quer saber como começou a minha doença? A verdade é: nem por enquanto sei. Doença tem começo? Ou sendo como o amor: essas coisas que só existem depois de serem lembradas? Quem sabe a minha doença começou mesmo antes de acontecer? Ainda não sofria de nenhum declarado enjeito quando me dirigi ao hospital e me apresentei ao Doutor Amílcar Mascarenha. Não tendo ainda padecimento mas ansiando ser curado. Que queixa tinha? Não sabia. Talvez do sono, tão leve que nem me pousava. Dormia mal, sempre foi assim. O único tempo em que dormi foi quando não havia tempo: no ventre de minha mãe.
Não servia como queixa? Então, eu disse: espere, doutor, não me mande embora que eu preciso de escutar a sua palavra. Só escutar certeza igual à sua, já é praia em pé de náufrago. E que doença ele me aconselhava, na falta de me ocorrer uma apropriada? Mascarenha tinha medo de me receitar enfermidade. E lhe dei coragem: doutor, fale sem medo. Me destine uma doença qualquer, seja mesmo uma maleita de mulher. Até preferia, sinceramente. A mulher, doutor, a mulher para ser feliz não necessita de se acriançar. Mas nós, homens, temos essa dificuldade com a alegria. Para ganhar o total riso temos que amiudar o juízo. Me destine doença de mulher. Me avarie uma das intimidades delas que têm as entranhas cheias de órgãos.
O médico, na altura, não queria o gasto de conversa. O tempo dele contava e valia. Ergueu-se e calcorreou o gabinete, observando o soalho, como se meditasse. Não meditava, media era o rasto de matope deixado por meu desleixo. Desculpe, doutor, meus pés se comportam assim. É que eu venho da lama, pó molhado. É esta chuva, e apontei pela janela, esta chuva que não pára, já quase não nos resta mais céu. Lhe confessei um segredo, no momento: estou sempre ganhando esperteza com a chuva. Há coisas que só vejo através das gotas, em dia chuvoso. O senhor, disse eu a Amílcar Mascarenha, o senhor estudou nos livros e no estrangeiro.
O doutor me rectifica? Não foi lá fora que o senhor estudou? Está bem mas não está certo. Os livros são um estrangeiro, para mim. Porque eu estudo na chuva. Ela é minha ensinadora.
O médico escutou tudo isto, sem me interromper. E a mim, essa escuta que ele me ofereceu quase me curou. Então, eu disse: já estou tratado, só com o tempo que me cedeu, doutor. É isso que, em minha vida, me tem escasseado: me oferecerem escuta, orelhas postas em minhas confissões. Veja a minha mulher, passa a vida falando com Deus. E eu vou ficando calado. Mesmo aos domingos de manhã: fico calado. Assim, silencioso, vou rezando. Que a gente reza melhor é quando nem sabemos que estamos a rezar. O silêncio, doutor. O silêncio é a língua de Deus.
Era o silêncio que me assistia quando visitava meu primo Carlito Araldito, sapateiro de profissão. Eu permanecia sentado, contemplando seus ofícios. À saída, lhe dizia: minha vida, sabe, Araldito, minha vida é um sapato desses, usado de velho. A gente pode voltar a calçar, o cabedal pode voltar a brilhar, mas somos nós que já não brilhamos. Entendeu? Uma coisa assim em segunda mão. Em segundo pé, no caso. Ríamos, mas era sem vontade. Eu e Araldito. Falávamos de nós como se de amigos já falecidos. Estávamos assistindo ao nosso próprio funeral.
Assinado e reconhecido: Dito Ma ria no Na solidão da cozinha vou lendo enquanto as letras se vão esbatendo no papel molhado. Depois a folha murcha, a escrita já sem desenho nem memória. Estou retido em mim, sem aviso do tempo, quando escuto vozes. Há gente no salão de visitas. Vou espreitar, é Tio Ultímio que rodopia entre as quatro paredes. Não nota a minha presença. O que faz ele? Está conversando, debitando colóquio com o Avô. O tom é severo, quase de ameaça. Sou movido por maldades quando o flagranteio: – Está falando com o Avô, Tio Ultímio? Ele se surpreende e demora até retomar a voz.
Falar com o falecido? Quem, ele? Estava era falando sozinho, em segredo de boca e botão. Ultímio gagueja enquanto caminha em redor da mesa. Passa a mão pelas paredes, recolhe tinta levantada pela humidade.
Está ver o que fizeram? Destroem tudo, esta malta dá cabo de tudo. Quem mandou destruir esta merda do tecto? Ultímio sabia que era obediência de tradições.
Mas não aceitava que eu, moldado e educado na cidade, não me opusesse. Para ele, aquilo era obsoleto. Outros valores nele se avolumam.
É que isto assim desvaloriza a propriedade... Confessa, então, o fio de sua ambição. Ele quer desfazer-se da casa da família. E vender Nyumba-Kaya a investidores estrangeiros. Ali se faria um hotel.
Mas esta casa, Tio...
Aqui só mora o passado. Morrendo o Avô para que é que interessa manter esta porcaria? Além disso, a Ilha vai ficar cheia de futuro. Você não sabe mas tudo isto vai levar uma grande volta...
Resisto, opondo argumento contra intento. Nyumba-Kaya não poderia sair de nossas mãos, afastar-se de nossas vidas. Ultímio ri-se. Para ele não sou mais que o miúdo que ele sempre conhecera. Ainda porcima continuo recusando os convites que me faz para ser gestor dos seus negócios.
Problema é esse velho que não se despacha. E esse médico que não se decide.
Não é decisão do médico...
Sim, mas esse Mascarenha o que diz? O velho está morto ou continua clinicamente...
Mascarenha mantém o que sempre disse.
Esse indiano, não confio nesse gajo. Vou mandar vir um médico preto. Um médico da nossa raça, não quero aqui monhezadas a inteiferir...
Não é o senhor que escolhe sozinho, Tio Ultímio.
Mas sou eu que pago sozinho. Ou alguém mais vai pagar? E prossegue arrebatado. Que não entende os irmãos: por um lado, obedecem à tradição a ponto de destruir a porcaria do telhado; por outro, fazem fé na opinião de um médico. Ainda por cima indiano. Sorrio, incrédulo. Eu sabia que Ultímio tinha negócios com indianos e enriquecera à custa de negócios de terrenos com aqueles a que agora chamava de “monhés”. A raça contava para umas coisas, para outras não. Isso me apeteceu dizer, mas não tive boca para tanto.
Venha comigo, vamos sair por aí! – ordena meu tio.
Quer companhia num passeio pela Ilha. Quer mostrar-me esses territórios onde ele pensa fazer dinheiro. Pretende, sobretudo, mostrar-me a sua viatura, aquele todo-o-terreno, cheio de prateados.
Mais nenhum sacana me vai riscar esta máquina! Tinha mandado vir da cidade vidros e pneus novos. Aceito, quase que por preguiça. Uma tristeza funda me dilacera o peito: pela janela do carro vejo a casa se afastar. Até se afundar no cacimba. Ultímio está distante da minha tristeza. Seu empenho é explicar-me a valia do seu automóvel, acabado de ser lançado em África.
Aposto que não há mais nenhum carro destes no país. Sou eu o único dono, eu.
Tio Ultímio tem intenção de ficar com os terrenos, até quer instalar um casino na Ilha com vastos terrenos em redor.
Mas aqui há gente morando!
Gente? Ah, estes...
O que vai fazer com eles?
Vai-se ver, vai-se ver. Tudo se fará legalmente, na conformidade da lei. Para já vou colocar as propriedades em nome da minha esposa. Lembra-se dela, não lembra? – Claro que lembro. Já sei que está fora do país.
Foi visitar os miúdos, fica um tempo por lá.
A relação com a esposa estava, desde há muito, nas ruas da amargura. Mas os novos-ricos seguem o velho preceito: não se separam das esposas. O homem arranja, sim, novas namoradas, tantas quantos os apartamentos que vai alugando em diferentes bairros da cidade. Tinham-me falado dessas desavenças mas eu não sou de deitar tento em bocas-de-orelhas. Avisaram-me também que Ultímio estava muito magro, receando-se que estivesse doente. Mas não se confirma: o Tio está anafado e luzidio. Ele sabe que estou olhando para ele. Bate na barriga, enquanto me interroga.
Acha que eu engordei, sobrinho? Acha que tenho pança de ricalhaço?
Não disse nada, Tio.
Engano seu, Mariano: os pobres são quem mais engorda.
Chegamos ao cemitério, ele desliga a viatura. O tom de voz anuncia nova seriedade na conversa: me trouxera ali para me convencer a partilhar da sua opinião nas reuniões de família. Sermos uma só voz, era isso que se precisava. Para despachar aquele imbróglio e dar andamento a assuntos práticos. Ele é que conhecia o caminho do progresso, ele é que tinha influências e poderes.
O Avô estava senil quando lhe nomeou a si, um miúdo...
O Tio não espera resposta minha. De repente, vira costas, sai do carro e se esgueira por entre muros. O que iria ele fazer?, ainda me interrogo. Não passa um instante e reparo que regressa trazendo consigo uma jovem mulher. É talvez a mais bela moça que eu jamais vira. Vem acanhada, em passo acabrunhado. Está vestida de capulana verde, com cajus vermelhos pintados. Com a mesma capulana ela recobre o rosto, como se uma vergonha a obrigasse a esconder identidade. Ambos ficam encostados junto ao muro. Ultímio fala com ela, a miúda não responde. Já quando o Tio se está afastando em direcção ao carro, a moça grita. Um arrepio me engalinha: aquilo não é voz de humana pessoa mas de rasteira bicheza. As palavras surgem enlameadas como se a maxila estivesse solta, desobedecida do pensamento: – Mali!
Ni kumbela malil Ela se vira para mim e demora a engendrar, entre esgares e cuspos, as duplicadas palavras. Com gestos mostro-lhe que não entendo. Ultímio encolhe os ombros enquanto vai arrancando. Custa-lhe a aceitar o já não falar a sua língua de nascença.
A miúda não fala português, é pena.
Voltamos para casa, o carro resvalando pelas areias soltas. Quando trava o carro, frente ao nosso quintal, uma nuvem de poeira se levanta e isso parece agradar a Ultímio. Esta é a pobreza dos nossos novos-ricos. Não são ricos. Basta-lhes parecer. Meu tio se despede e anuncia, em tom de comunicado governamental: que se vai enterrar o morto, ele já encomendou cerimónia, pagou os serviços do covei ro. Quer se queira, quer não.
Mas eu sou o mestre-de-cerimónia, Tio.
Você estará lá, no seu lugar, no seu devido lugar.

Mia Couto, in Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra

Detalhes | Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1971


Faixa de abertura e principal destaque do disco que lançou em 1971, esta balada devastadora funcionou como um rito de passagem na carreira de Roberto Carlos (1941). Aos 30 anos, ele começava a deixar para trás o ídolo da Jovem Guarda para se transformar no maior cantor romântico brasileiro. Sucesso popular imediato e até hoje uma das mais amadas pelo seu público, a canção também ganhou aplausos unânimes da crítica, que na época ainda costumava desmerecer e subavaliar a obra de Roberto e Erasmo.
Mais um fruto da parceria com Erasmo Carlos (1941), a letra da música, em forma de list song, lembra os pequenos mas tão importantes detalhes que marcam as lembranças felizes de um amor passado, mas ainda vivo: “a velha calça desbotada”, “os erros do meu português ruim”, “o ronco barulhento do meu carro”… e a advertência irônica “não vá dizer meu nome à pessoa errada”.
Como conta o biógrafo proscrito Paulo Cesar de Araújo no livro proibido Roberto Carlos em detalhes, apesar de ter consciência de que acabara de criar um clássico, movido por seu lendário perfeccionismo, Roberto implicou com a palavra “ronco”, por sua sonoridade bruta e possíveis outros sentidos pouco poéticos. E, até entrar no estúdio, testou a letra com diversos amigos, mas, como ninguém estranhou, o ronco ficou na história da música brasileira.
Roberto começou a compor “Detalhes” sozinho, numa noite em março de 1971, em São Paulo, onde vivia na época. No dia seguinte, ao ouvir o rascunho que gravara, percebeu que estava diante de algo maior. Animado e ansioso, sem querer perder tempo e o momento da inspiração, ligou para Erasmo no Rio, que pegou o primeiro voo e naquela mesma tarde terminaram a canção.
A inspiração e a intuição de Roberto não falharam. “Detalhes” nasceu clássica e conquistou instantaneamente todos que a ouviram e, meses depois, abriu o seu álbum do ano. Um de seus melhores discos, seu poderoso repertório incluía uma composição que Caetano fez para ele (“Como dois e dois”) e outras pérolas com Erasmo, como “Amada amante”, “Todos estão surdos” e “Debaixo dos caracóis dos seus cabelos”, dedicada a Caetano, então exilado em Londres, mas “Detalhes” foi a que bateu mais forte.
A gravação de Roberto foi valorizada por um sofisticado arranjo do maestro americano Jimmy Wisner, e a levada rítmica e a estrutura harmônica de “Detalhes” lançaram um modelo de canção que depois foi infinitamente imitado e explorado no Brasil.

Nelson Motta, in 101 canções que tocaram o Brasil