03/01/2022

A Arte da chuva

Assim como se desencadeiam o frio, a chuva e o barro das ruas, quer dizer, o insolente e arrasador inverno do sul da América, o verão também chegava a estas regiões, amarelo e abrasador. Estávamos rodeados de montanhas virgens, porém eu queria conhecer o mar. Por sorte meu pai, voluntarioso, conseguiu uma casa emprestada de um de seus numerosos compadres ferroviários. Meu pai, o condutor, na escuridão completa das quatro da noite (nunca soube por que se diz quatro da manhã), despertava toda a casa com seu apito. Desse minuto em diante não havia mais paz nem tampouco havia luz, e entre velas, cujas chamazinhas bruxuleavam por causa das rajadas que se filtravam por toda parte, minha mãe, meus irmãos Laura e Rodolfo e a cozinheira corriam de um lado para o outro enrolando grandes colchões que se transformavam em bolas imensas envoltas em tecido de juta que eram despachadas às pressas pelas mulheres. Era preciso embarcar as camas no trem. Os colchões estavam ainda quentes quando partiam para a estação próxima. Enfermiço e fraco por natureza, sobressaltado na metade do sonho, eu sentia náuseas e calafrios. Entretanto, na casa os carregamentos continuavam sem terminar nunca. Não havia coisa que não levassem para essas férias de pobres. Até secadores de vime, que eram colocados sobre os fogareiros acesos para secar lençóis e a roupa perpetuamente umedecida pelo clima, eram etiquetados e colocados na carroça que esperava os volumes.
O trem percorria um pedaço daquela província fria desde Temuco até Carahue. Atravessava extensões imensas e desabitadas, sem cultivo, atravessava os bosques virgens, soava como um terremoto por túneis e pontes. As estações ficavam ilhadas no meio do campo, entre acácias e macieiras floridas. Os índios araucanos, com seus trajes rituais e sua majestade ancestral, esperavam nas estações para vender aos passageiros carneiros, galinhas, ovos e tecidos. Meu pai sempre comprava algo com interminável regateio. Com sua barbicha loura, erguia uma galinha em frente a uma araucana impenetrável que não baixava nem meio centavo o preço de sua mercadoria. Cada estação tinha um nome mais bonito, quase todos herdados das antigas possessões araucanas. Essa foi a região dos combates mais encarniçados entre os invasores espanhóis e os chilenos primitivos, filhos profundos daquela terra.
Labranza era a primeira estação, Boroa e Ranquilco a seguiam. Nomes com aroma de plantas selvagens, que me cativavam com suas sílabas. Sempre estes nomes araucanos significavam algo delicioso: mel escondido, lagoas ou rio perto de um bosque, ou monte com nome de pássaro. Passávamos pela pequena aldeia de Imperial, onde o poeta Dom Alonso de Ercilla quase foi executado pelo governador espanhol. Nos séculos XV e XVI aqui foi a capital dos conquistadores. Os araucanos, na guerra pela sua pátria, inventaram a tática de terra arrasada. Não deixaram pedra sobre pedra da cidade descrita por Ercilla como bela e soberba.
E, em seguida, a chegada à cidade fluvial. O trem dava seus apitos mais alegres, escurecia o campo e a estação com imensos penachos de fumaça de carvão, tilintavam os sinos e já se percebia o curso amplo, azul e tranqüilo do rio Imperial que se acercava do oceano. Descer as bagagens inumeráveis, organizar a pequena família e dirigirnos em carro de bois até o vapor que desceria pelo rio Imperial, era um espetáculo dirigido pelos olhos azuis e pelo apito ferroviário de meu pai. Metíamo-nos com as bagagens no barquinho que nos levava ao mar. Não havia camarotes. Eu me sentava perto da proa. As rodas moviam com suas pás a corrente fluvial, as máquinas da pequena embarcação resfolegavam e rangiam, a taciturna gente sulina ficava como mobílias imóveis dispersas pelo convés.
Um acordeão lançava seu lamento romântico, uma incitação ao amor. Não há nada mais envolvente para um coração de quinze anos que navegar por um rio amplo e desconhecido, entre ribeiras montanhosas, a caminho do mar misterioso.
Bajo Imperial era só uma fileira de casas de tetos vermelhos. Estava situada sobre a frente do rio. Da casa que nos esperava e, ainda antes, dos cais desconjuntados onde atracou o vaporzinho, escutei a distância o estrondo marinho, uma comoção distante. O marulhar entrava em minha vida.
A casa pertencia a Dom Horácio Pacheco, agricultor gigantesco que, durante esse mês de nossa estada em sua casa, ia e levava pelas colinas e pelos caminhos intransitáveis seu trator e sua debulhadora. Com a máquina colhia o trigo dos índios e dos camponeses, isolados na povoação costeira. Era um homenzarrão que de repente irrompia em nossa família ferroviária falando com voz estentórea e coberto de pó e palha de cereais. Depois, com o mesmo estrondo, voltava às suas tarefas nas montanhas. Foi para mim mais um exemplo das vidas duras de minha região austral.
Tudo era misterioso para mim naquela casa, nas ruas maltratadas, nas existências desconhecidas que me rodeavam, no som profundo da distância marinha. A casa tinha o que me pareceu um imenso jardim desordenado, com um caramanchão central castigado pela chuva, caramanchão de vigas brancas cobertas pelas trepadeiras. A não ser minha insignificante pessoa, ninguém entrava nunca na solidão sombria onde cresciam as heras, as madressilvas e minha poesia. É certo que havia naquele jardim estranho outro objeto fascinante: um bote, órfão de grande naufrágio, que jazia ali no jardim sem ondas nem tormentas, encalhado entre as amapolas.
O mais estranho naquele jardim selvagem era que, intencionalmente ou por descuido, havia somente amapolas. As outras plantas tinham-se retirado do lugar sombrio. Algumas eram grandes e brancas como pombas; outras, escarlates como gotas de sangue, ou cor de amora e negras como viúvas esquecidas. Eu nunca tinha visto tanta quantidade de amapolas e nunca mais voltei a ver. Ainda que as olhasse com muito respeito, com certo supersticioso temor que só elas infundem, entre todas as flores, não deixava de cortar de vez em quando alguma, cujo talo quebrado deixava um leite áspero em minhas mãos e uma lufada de perfume inumano. Acariciava e guardava em um livro as pétalas suntuosas de seda. Para mim eram asas de grandes mariposas que não sabiam voar.
Quando estive pela primeira vez diante do oceano fiquei atônito. Ali, entre duas grandes elevações (o Huilque e o Maule) desencadeava-se a fúria do grande mar. Não eram só as imensas ondas nevadas que se erguiam a muitos metros sobre nossas cabeças, como também um estrondo de coração colossal, a palpitação do universo.
Ali a família dispunha suas toalhas de mesa e seus bules de chá. Os alimentos chegavam à boca cobertos de areia, o que não importava muito. O que me assustava era o momento apocalíptico em que meu pai nos ordenava o banho de mar de cada dia. Longe das ondas gigantescas, a água nos salpicava, a minha irmã Laura e a mim, com seus látegos de frio. E acreditávamos, trêmulos, que o dedo de uma onda nos arrastaria até as montanhas do mar. Com os dentes batendo e as costelas arroxeadas nós dispúnhamos, minha irmã e eu, de mãos dadas, a morrer, quando soava o apito ferroviário e meu pai nos ordenava sair do martírio.
Contarei outros mistérios daquele lugar. Um eram os cavalos percherões e outro a casa das três mulheres encantadas.
No extremo da aldeola erguiam-se alguns casarões, provavelmente curtumes. Pertenciam a bascos franceses. Quase sempre estes bascos controlavam as indústrias de couro no sul do Chile. O que me interessava era ver como saíam dos portões, a certa hora do entardecer, grandes cavalos que atravessavam o vilarejo.
Eram cavalos percherões, potros e éguas de estatura gigantesca. Suas grandes crinas caíam como cabeleiras sobre os altíssimos lombos. Tinham patas imensas também cobertas de tufos de pêlos que, ao galopar, ondulavam como penachos. Eram alazões, brancos, rosilhos poderosos. Assim teriam andado os vulcões se pudessem trotar e galopar como aqueles cavalos colossais. Como um abalo de terremoto, caminhavam sobre as ruas poeirentas e pedregosas. Relinchavam asperamente, fazendo um ruído subterrâneo que estremecia a atmosfera tranquila. Arrogantes, incomensuráveis e estatuários, nunca voltei a ver cavalos como esses em minha vida, a não ser os que vi na China, talhados em pedra como monumentos tumulares da dinastia Ming. Porém a pedra mais venerável não pode dar o espetáculo daquelas tremendas vidas animais que pareciam, aos meus olhos de menino, sair da escuridão dos sonhos em direção a outro mundo de gigantes.
Em realidade, aquele mundo silvestre estava cheio de cavalos. Pelas mas, cavaleiros chilenos, alemães e mapuches, todos com ponchos de lã negra, subiam ou desciam de suas montarias. Os animais, magros ou bem tratados, esquálidos ou opulentos, ficavam ali onde os cavaleiros os deixavam, ruminando o capim dos caminhos e deitando fumaça pelas ventas. Estavam acostumados a seus amos e a vida solitária do povoado. Voltavam mais tarde, carregados com bolsas de mantimentos ou de ferramentas, para as intrincadas alturas, subindo por caminhos péssimos ou galopando infinitamente pela areia junto ao mar.
De vez em quando saía de uma casa de penhores ou de uma taberna sombria algum cavaleiro araucano que, com dificuldade, montava o seu cavalo imutável e logo tomava o caminho de regresso à sua casa entre os montes, cambaleando de um lado para o outro, bêbado até à inconsciência. Ao vê-lo começar e continuar seu caminho me parecia que o centauro alcoolizado ia cair ao solo cada vez que se inclinava perigosamente, mas me enganava: sempre voltava a erguer-se para logo inclinar-se outra vez dobrando-se até o outro lado e sempre se recuperando, grudado à montaria. Continuaria assim montado sobre o cavalo por quilômetros e quilômetros, até fundir-se na natureza selvagem como um animal vacilante, obscuramente invulnerável.
Voltamos em outros verões, com as mesmas cerimônias domésticas, à região fascinante. Fui crescendo, lendo, enamorando-me e escrevendo com o passar do tempo, entre os amargos invernos de Temuco e a misteriosa estiagem do litoral.
Acostumei-me a andar a cavalo. Minha vida foi ficando mais elevada e ampla pelas rotas de barro íngreme, por caminhos de curvas imprevistas. Ao meu encontro saíam os vegetais emaranhados, o silêncio e o som dos pássaros selvagens, o estalido súbito de uma árvore florida, vestida de escarlate como um arcebispo imenso das montanhas ou nevada por uma batalha de flores desconhecidas. Ou de vez em quando também inesperada, a flor do copihue, selvagem, indomável, irredutível, pendente das matas como uma gota fresca de sangue. Fui me habituando ao cavalo, à montaria, aos duros e complicados arreios, às esporas cruéis que tilintavam em meus calcanhares. Começou por praias infinitas e montes emaranhados uma comunicação entre minha alma, quer dizer, entre minha poesia e a terra mais solitária do mundo. Isto foi há muitos anos, mas essa comunicação, essa revelação, esse pacto com o espaço, tem continuado ao longo de minha vida.

Pablo Neruda, in Confesso que vivi

Gente ansiosa | 3

Um dia antes da véspera de Ano-Novo em uma cidade não muito grande. Um policial e uma corretora de imóveis estão sentados em uma sala de interrogatório na delegacia. O policial mal parece ter vinte anos, mas provavelmente é mais velho, e a corretora de imóveis parece ter mais de quarenta, mas provavelmente é mais jovem. O uniforme do policial é pequeno demais, o casaco da corretora de imóveis, um pouco grande demais.
A corretora de imóveis parece que prefere estar em outro lugar, e, após os últimos quinze minutos de conversa, o policial parece que gostaria que a corretora de imóveis estivesse mesmo em outro lugar. Quando a corretora de imóveis sorri nervosamente e abre a boca para dizer algo, o policial inspira e expira de uma forma que fica difícil saber se está suspirando ou tentando limpar o nariz.
Basta responder à pergunta — ele implora.
A corretora de imóveis assente rapidamente com um gesto de cabeça e deixa escapar:
Tudo nos trinques?
Eu disse, basta responder à pergunta! — o policial repete, com aquela expressão comum em homens adultos que se decepcionaram com a vida em algum momento da infância e nunca mais conseguiram deixar de se sentir assim.
Você me perguntou qual era o nome da minha imobiliária! — a corretora insiste, tamborilando os dedos no tampo da mesa de um jeito que faz o policial sentir vontade de atirar-lhe objetos perfurocortantes.
Não perguntei isso, eu perguntei se foi o criminoso que manteve a senhora como refém junto com...
Chama-se Nos Trinques! Entendeu? Porque quando uma pessoa compra um imóvel, ela quer comprar algo em bom estado, perfeito, não é?
Então, quando atendo o telefone, eu digo: “Olá, você ligou para a Imobiliária Nos Trinques! TUDO NOS TRINQUES?”
Obviamente, a corretora de imóveis acaba de passar por uma experiência traumática, foi ameaçada com uma arma de fogo e feita refém, e esse tipo de coisa pode fazer qualquer um falar baboseiras. O policial tenta ser paciente.
Ele leva os polegares até as sobrancelhas e pressiona com força, como se desejasse que fossem dois botões e que, se os mantivesse pressionados ao mesmo tempo por dez segundos, ele poderia restaurar a vida às configurações de fábrica.
Tuuudo bem… Mas agora preciso fazer algumas perguntas sobre o apartamento e o criminoso — ele diz em tom de lamento.
Também foi um dia difícil para ele. A delegacia é pequena, os recursos são escassos, mas a competência deles supera essas dificuldades. Ele tentou explicar isso por telefone ao chefe do chefe do chefe logo após o drama dos reféns, mas obviamente foi inútil. Eles vão enviar uma equipe investigativa especial de Estocolmo para cuidar de todo o caso. Ao dizer isso, o chefe não colocou ênfase nas palavras “equipe investigativa”, mas em “Estocolmo”, como se vir da capital fosse por si só uma espécie de superpoder. Mais parece uma condição clínica, pensa o policial. Seus polegares ainda pressionam as sobrancelhas, aquela era sua última chance de mostrar aos chefes que ele poderia cuidar do caso sozinho, mas como raios isso pode dar certo se só tivermos testemunhas como esta mulher?
Okaaay! — a corretora de imóveis entoa, como se estivesse pronunciando uma palavra puramente sueca.
O policial olha para suas anotações.
Não é um dia estranho para agendar uma visita a um apartamento? Um dia antes da véspera de Ano-Novo?
A corretora de imóveis balança a cabeça e sorri.
Não há dias ruins para a Imobiliária NOS TRINQUES!
O policial respira fundo, várias vezes.
Tá certo. Vamos em frente: quando a senhora viu o criminoso, qual foi sua primeira reação?
Você não disse que ia perguntar sobre o apartamento primeiro? Você disse “o apartamento e o criminoso”, então pensei que o apartamento seria o primeiro...
Ok! — o policial rosna.
Ok! — a corretora de imóveis gorjeia.
O apartamento, então: a senhora está familiarizada com o layout do imóvel?
Mas é claro, afinal de contas, eu sou a corretora de imóveis! — a corretora de imóveis diz, mas consegue conter-se para não acrescentar “da Imobiliária NOS TRINQUES! TUDO NOS TRINQUES?” ao ver que o policial já está com cara de quem queria que a munição do seu revólver não fosse tão fácil de rastrear.
Poderia descrevê-lo?
A corretora de imóveis se anima.
É um sonho! Estamos falando de uma oportunidade única de adquirir um apartamento exclusivo em uma área tranquila, com fácil acesso ao coração pulsante da cidade grande. Plano aberto! Com janelões que permitem a entrada de muita luz do dia!
O policial a interrompe:
Eu quero saber se tem closets, espaços de armazenamento ocultos, tem algo desse tipo?
Por quê? Você não gosta de apartamentos de plano aberto? Gosta de paredes? Bom, não há nada de errado em gostar de paredes! — a corretora responde de maneira encorajadora, mas com um tom que sugere que, por sua experiência, pessoas que gostam de paredes são o mesmo tipo de pessoas que gostam de outros tipos de barreiras.
Por exemplo, o apartamento tem closets que poderiam…?
Eu mencionei a quantidade de luz do dia?
Mencionou.
Há pesquisas científicas provando que a luz do dia nos faz sentir melhor! Você sabia disso?
O policial parece que realmente não quer ser forçado a pensar naquilo.
Algumas pessoas preferem decidir por si mesmas até que ponto desejam ser felizes.
Podemos ir direto ao assunto?
Okaaay!
Existe algum espaço no apartamento que não esteja assinalado na planta?
Também é um local muito bom para crianças!
O que isso tem a ver com o nosso assunto aqui?
Eu só queria apontar o fato. A localização, sabe. Muito amigável para crianças! Na verdade, bem… apesar de todo esse problema dos reféns hoje.
Tirando isso, é uma área fantástica para crianças! E é claro que você sabe que as crianças adoram viaturas policiais!
A corretora de imóveis gira alegremente o braço no ar e imita o som de uma sirene.
Acho que isso é o som de um caminhão de sorvete — diz o policial.
Mas você entendeu o que eu quis dizer — insiste a corretora de imóveis.
Vou ter que pedir que a senhora limite-se a responder à pergunta.
Desculpe. Qual foi a pergunta mesmo?
Qual é o tamanho exato do apartamento?
A corretora de imóveis sorri, meio confusa.
Você não queria falar do assaltante? Achei que íamos falar do assalto...
O policial trinca os dentes com tanta força que parece estar tentando respirar pelas unhas dos pés.
Claro. Ok. Conte-me sobre o homem. Qual foi sua primeira reação quando ele…
A corretora de imóveis o interrompe, ansiosa:
O assaltante de banco? Sim! O assaltante de banco entrou correndo no apartamento, ficou no meio da sala e apontou uma arma para todos nós! E você sabe por quê?
Não.
Porque era um plano aberto! Caso contrário, o assaltante nunca teria sido capaz de mirar em todos nós ao mesmo tempo!
O policial massageia as sobrancelhas.
Tudo bem, vamos tentar de outra forma: existem bons esconderijos dentro do apartamento?
A corretora pisca tão devagar que parece que acabou de aprender a piscar.
Esconderijos?
O policial inclina a cabeça para trás e fixa o olhar no teto. Sua mãe sempre dizia que os policiais são apenas meninos que nunca se deram ao trabalho de procurar um novo sonho. Todos os meninos ouvem a mesma pergunta, “O que você quer ser quando crescer?”, e em algum momento quase todos respondem, “Policial!”, mas a maioria deles amadurece e encontra coisa melhor. Por um instante, ele se vê desejando ter feito isso também, porque assim seus dias poderiam ter sido menos complicados, e possivelmente também seu relacionamento com a família. Vale ressaltar que sua mãe sempre teve orgulho dele, ela nunca manifestou nenhum desapreço pela carreira que ele escolheu. A mãe era uma pastora da igreja, outro trabalho que é mais do que apenas uma forma de ganhar a vida, então ela entendeu. Foi seu pai que nunca quis ver o filho de uniforme. Essa decepção ainda pode estar pesando nos ombros do jovem policial, porque ele parece exausto quando volta a fixar o olhar na corretora de imóveis.
Sim. É isso que estou tentando explicar à senhora: acreditamos que o criminoso ainda esteja no apartamento.

Fredrik Backman, in Gente ansiosa

Evolução, por Montt

Uma criança chora

O mundo me espantava. Tanta coisa interessante! Tanta coisa pra fazer! Se houvesse psicologia naqueles tempos acho que me classificariam como hiperativo. Sem psicologia para complicar, explicavam a minha agitação como sendo “a crise dos sete anos”. Falava sem parar. Falava tanto que meu irmão Ismael chegou a pagar-me uma pratinha de dois mil-réis para que eu ficasse calado por dez minutos. Fiquei. Mas, enquanto o tempo passava, fui ficando indignado com aquela humilhação, o meu silêncio comprado. Passados os dez minutos me disseram: “Pode falar. Os dez minutos já passaram”. Não falei. De birra continuei mudo. Aí eles insistiam: “Fale!”. Eu não falava. Começaram a ficar aflitos, com medo de que algo grave tivesse acontecido comigo, que eu tivesse ficado mudo. Foi então que o Ismael ofereceu-me outra pratinha para que eu falasse. Falei.
Eu acordava antes de o sol nascer e me punha a andar pela casa fazendo barulho para ver se os grandes acordavam. Eu não entendia as razões por que eles preferiam o sono ao mundo.
Mas de noite vinha a escuridão, o mundo sumia, tudo virava sombra, as coisas interessantes do dia me abandonavam. Era então que a égua noturna começava a sua correria. Sempre o menino da mata, “ô menino”, e o eco respondendo “ô menino”, e o menino sozinho na noite escura anunciando “Olha os pastéis de carne e de queijo...” . E eu? Eu ficava triste e começava a chorar baixinho. Não adiantaria chorar alto. Os grandes não entenderiam. Eles se ririam do meu sofrimento. Os grandes não entendem os sofrimentos das crianças.
Numa dessas noites de choro baixinho eu pensava: “O que será de mim quando eu estiver sozinho no mundo? O que será de mim quando eu crescer?”.
Acho que eu chorava porque a solidão da cama deve me ter feito pensar que um dia eu estaria sozinho no mundo, sem ninguém para cuidar de mim. Eu era o menino da mata, o menino que vendia pastéis.
Minha mãe ouviu o meu choro. Assentou-se na cama e quis saber as razões. Aí eu criei coragem: “Mãe, quando eu crescer, como é que eu vou arranjar dinheiro? Como é que eu vou viver?”.
Ela tentou tranqüilizar-me. Não conseguiu. E aí me surgiu uma solução. “Já sei!”, eu disse. “Poderei ganhar a vida rachando lenha ou mexendo com meus papéis...” Quem rachava lenha para nós era o seu Zé, que trabalhava o dia inteiro, suando com machado e enxada, e ao final do dia ganhava uma pratinha de dois mil-réis. Quem mexia com papéis era meu pai, viajante, que estava sempre às voltas com pedidos que ele “daquitilografava” (era assim que ele falava, “daquitilografar”) em sua Smith-Corona portátil. Essas perspectivas me tranquilizavam.
Aí comecei a chorar de novo. “E, mãe, quando eu crescer, como é que vou arranjar uma mulher para mim?”

Rubem Alves, in O velho que acordou menino

Ponte

 “A coisa mais difícil de aprender na vida é qual ponte atravessar e qual queimar.”

Bertrand Russell, in 1001 frases de grandes pensadores

Morte e luto


Quando o estado de Mama piorou, sem esperança de melhora, ela foi sacrificada por um veterinário. Foi um dia imensamente triste, mas a decisão era inevitável. O zoológico então fez algo que raramente integra o protocolo da morte: ofereceu à colônia de símios a chance de ver e tocar o cadáver, deixando-o no abrigo noturno com as portas abertas. Todas as idas e vindas foram filmadas.
Os vídeos deixam claro que as fêmeas estavam mais interessadas que os machos. Os machos bateram no corpo de Mama algumas vezes e o arrastaram. Esse tratamento grosseiro pode parecer inadequado, mas já o havíamos visto antes: é provável que seja uma tentativa de despertar o morto. Como ter certeza de que um indivíduo está realmente morto, a menos que suas reações tenham sido exaustivamente testadas? Mesmo em salas de emergência do hospital uma pessoa só é declarada morta depois que os esforços de ressuscitação fracassaram. As fêmeas fizeram algo parecido, embora um pouco mais sutil: levantaram um braço ou um pé e o deixaram cair, ou olharam dentro da boca, talvez para verificar a ausência de respiração. Mas, quando uma das fêmeas puxou o corpo para movê-lo, levou uma bronca de Geisha, a filha adotiva de Mama. Ao contrário das outras, Geisha não fez nenhuma pausa para comer ou interagir com os outros chimpanzés e ficou com o cadáver o tempo todo. Ela agiu como as pessoas fazem num velório, durante o qual, originalmente, as pessoas mantinham vigília junto à pessoa morta, em casa. É provável que os seres humanos tenham criado o velório na esperança de que seu ente querido voltasse à vida, ou então para ter certeza de que ele estava morto antes de ser enterrado.
Geisha é filha de Kuif. Mama passara a cuidar dela após a morte da mãe. Isso era lógico, tendo em vista a relação íntima de Mama com Kuif. Agora, depois da morte de Mama, foi Geisha quem passou a maior parte do tempo com o cadáver, mais ainda do que a filha biológica e a neta de Mama. Todas as fêmeas visitaram o recinto em silêncio total, estado incomum para os chimpanzés. Elas cheiraram e inspecionaram o cadáver de várias maneiras, ou passaram um tempo catando o corpo morto de Mama.
Elas também trouxeram um cobertor de outro lugar, deixando-o perto de Mama. Isso foi mais difícil de interpretar, mas me lembrou de outra morte de chimpanzé.
Um dia, na Estação de Campo do Centro Nacional Yerkes de Pesquisas sobre Primatas, Amos, um popular ex-macho alfa, estava ofegando a uma velocidade de sessenta respirações por minuto. O suor escorria de seu rosto. Não tínhamos percebido seu estado de saúde precário antes porque, como a maioria dos machos, ele o escondera o máximo possível. Os machos evitam mostrar vulnerabilidades. Somente após sua morte, alguns dias depois, foi que soubemos que ele estava com o fígado enormemente inchado e tinha múltiplos cânceres. Uma vez que ele se recusava a sair com os outros, nós o mantivemos separado e entreabrimos uma porta para seu abrigo noturno. Sua amiga Daisy vinha frequentemente visitá-lo. Ela estendia o braço através da abertura para catar ternamente o ponto macio atrás das orelhas. Em algum momento, foi buscar maravalha e começou a empurrar grandes quantidades dela para Amos. Chimpanzés gostam de construir ninhos com esse material. Daisy empurrou várias vezes a maravalha entre as costas de Amos e a parede contra a qual ele estava encostado, como se percebesse que o amigo estava com dor e seria melhor se apoiar em algo macio. Parecia o jeito como arrumamos os travesseiros nas costas de um paciente no hospital.
Então, mesmo que não saibamos como aquele cobertor acabou perto dos restos mortais de Mama, não podemos descartar que alguém estava tentando fazê-la se sentir confortável, talvez em reação ao seu corpo gelado. O estudo de como os símios e outros animais reagem à morte de outros faz parte da tanatologia, nome derivado de Tânatos, o deus grego da morte não violenta. O luto após a morte é difícil de definir, porém a antropóloga norte-americana Barbara King propõe que um requisito mínimo é que os indivíduos próximos ao falecido alterem significativamente o comportamento, comendo menos, tornando-se apáticos ou guardando o local onde o morto foi visto pela última vez. Se o falecido é um filhote, a mãe pode ficar com o cadáver malcheiroso até que ele se desfaça, como já se observou muitas vezes. Numa floresta da África Ocidental, a mãe chimpanzé carregou seu bebê morto por nada menos que 27 dias. Essa reação é bastante natural nos primatas, que transportam filhotes na barriga ou nas costas, mas também foi observada em golfinhos. A mãe golfinho pode manter o corpo de seu filhote morto flutuando durante muitos dias.
Os indivíduos que não têm vínculo com o falecido não têm motivos para serem afetados por sua morte. Muitos animais de estimação, por exemplo, dificilmente reagem quando outro da mesma casa morre. O luto exige apego. Quanto mais forte o laço, mais forte a reação quando ele é cortado. Isso é válido para todos os mamíferos e aves, inclusive os corvídeos (membros da família dos corvos). Quando a fêmea de uma de minhas gralhas desapareceu, por razões desconhecidas, seu companheiro a chamou por dias a fio enquanto esquadrinhava o céu. Uma vez que ela não voltou, ele desistiu e morreu alguns dias depois. Então, foi a minha vez de lamentar a perda de duas aves que tinham me dado tanto afeto e alegria, e que me ensinaram que a vida emocional das aves está em pé de igualdade com a dos mamíferos.
O eminente etólogo austríaco Konrad Lorenz idealizava os vínculos de casal vitalícios de seus gansos. Quando uma de suas alunas disse que havia notado algumas infidelidades, ela suavizou o golpe acrescentando que isso tornava os gansos “humanos”. O vínculo de casal ou monogamia é mais típico das aves que dos mamíferos. Na verdade, pouquíssimos primatas são monogâmicos, e é discutível se os seres humanos o são de verdade. No entanto, as emoções associadas podem ser semelhantes entre as espécies, pois a oxitocina está envolvida em todos os mamíferos. Esse antigo neuropeptídio é liberado pela glândula pituitária durante o sexo, a amamentação e o parto (é administrado rotineiramente nas maternidades para induzir o parto), mas também serve para promover os laços entre os adultos. As pessoas que acabaram de se apaixonar têm mais oxitocina no sangue do que os solteiros, e sua alta concentração dura se o relacionamento durar. Mas a oxitocina também protege os casais monogâmicos de aventuras sexuais com estranhos. Quando se administra esse hormônio, em forma de spray nasal, a homens casados, eles se sentem desconfortáveis perto de mulheres atraentes e preferem manter distância.
Mesmo se considerarmos o amor romântico humano especial, as semelhanças neurais com outras espécies são impressionantes. Larry Young, um colega neurocientista da Universidade Emory, é conhecido por seus estudos de duas espécies de ratos silvestres. A ratazana do prado leva uma vida promíscua, ao passo que o arganaz do campo, de aparência semelhante, forma pares nos quais macho e fêmea se acasalam exclusivamente entre si e criam filhotes juntos. Os arganazes do campo possuem muito mais receptores de oxitocina nas vias de recompensa de seus cérebros do que as ratazanas do prado. Em consequência, têm uma associação intensamente positiva com o sexo, o que os torna “viciados” no parceiro com o qual o fazem. A oxitocina garante que eles se vincularão. Se perdem o(a) parceiro(a), esses ratos apresentam mudanças cerebrais químicas que sugerem estresse e depressão; tornam-se também passivos diante do perigo, como se viver ou morrer não lhes importasse mais. Portanto, até esses minúsculos roedores parecem conhecer o pesar da morte.
A zoóloga norte-americana Patricia McConnell descreve como sua cadela Lassie reagiu à morte do melhor amigo, o cão Luke. Os dois se adoravam e estavam sempre juntos. Após a morte de Luke, Lassie ficou um dia inteiro no quarto onde o corpo estivera, deitada de cabeça baixa, com os olhos melancolicamente tristes e as sobrancelhas franzidas. No dia seguinte, ela regrediu ao comportamento estereotipado de sua juventude, girando como louca, lambendo e chupando os brinquedos como se estivesse mamando. McConnell concluiu que Lassie havia compreendido o caráter definitivo da morte de Luke. Caso contrário, por que mudaria tão drasticamente de disposição?
Tudo indica que ao menos alguns animais percebem que um companheiro morto nunca se moverá de novo. Quando um chimpanzé macho adulto caiu de uma árvore e quebrou o pescoço, uma fêmea adolescente selvagem fitou seu corpo imóvel por mais de uma hora, sem interrupção, enquanto os machos ao redor se abraçavam com sorrisos nervosos. Não haveria razão para essas reações dramáticas se os símios considerassem passageira a situação do outro. Além disso, a percepção da irreversibilidade implica uma expectativa em relação ao futuro. Temos muitas provas científicas da orientação para o futuro em primatas, baseadas no modo como eles planejam suas viagens ou preparam ferramentas para uma tarefa, mas raramente consideramos a previsão ligada à vida e à morte. Por razões óbvias, nos faltam experimentos sobre essa habilidade. Se chamarmos a consciência da própria morte de senso de mortalidade — de cuja existência não temos provas fora de nossa própria espécie —, podemos chamar o reconhecimento de Lassie de que Luke não retornará de senso de finitude. Este difere do senso de mortalidade, pois diz respeito ao outro, e não ao eu.
Há muitas histórias de luto semelhantes, também de gatos e, evidentemente, entre animais de estimação e seus donos. Sabe-se de cães que passam anos perto do túmulo de seu companheiro humano ou que voltam todos os dias à estação de trem onde costumavam buscá-lo. Em Edimburgo e Tóquio vi estátuas em homenagem a cães leais, chamados Bobby e Hachiko. A mesma lealdade post mortem pode vigorar entre outros animais. Os elefantes juntam o marfim ou os ossos de um membro da manada morto, seguram os pedaços com a tromba e os passam para os outros. Alguns elefantes retornam durante anos ao local onde um parente morreu, apenas para tocar e inspecionar as relíquias.
Um indício diferente do senso de finitude ocorreu um dia depois que uma víbora-do-gabão, uma cobra venenosa, entrou num santuário africano. A cobra despertou um medo intenso entre os bonobos, e todos saltaram para trás diante de seus movimentos. Os bonobos a cutucaram cautelosamente com uma vara, até que finalmente a fêmea alfa agarrou a cobra, ergueu-a no ar e bateu com ela contra o chão. Depois que a matou, ninguém deu qualquer indicação de esperar que a cobra voltasse à vida. O que está morto, está morto. Os jovens arrastaram alegremente o corpo sem vida como um brinquedo, enrolando-o no pescoço e até abrindo-lhe a boca para estudar as enormes presas. Esses símios devem ter considerado a morte da cobra irreversível.
Raramente testemunhamos o momento da morte de um membro de uma colônia de símios, mas isso aconteceu no Zoológico Burgers, quando Oortje literalmente caiu morta. Ela era uma das minhas preferidas, com seu caráter sempre despreocupado. Oortje estava tossindo e seu estado de saúde continuava a se deteriorar, apesar dos antibióticos que lhe demos. Um dia, vimos Kuif olhando de perto nos olhos de Oortje. Então, sem nenhuma razão aparente, Kuif começou a gritar com uma voz histérica enquanto se batia em movimentos espasmódicos dos braços, como fazem os chimpanzés frustrados. Ela parecia perturbada com algo que vira nos olhos de Oortje. A própria Oortje ficara em silêncio até aquele momento, mas passou a gritar fracamente em resposta. Ela tentou se deitar, caiu do tronco em que estava sentada e ficou imóvel no chão. Em outra parte, uma fêmea soltou gritos semelhantes aos de Kuif, embora não pudesse ter visto o que havia acontecido. Depois disso, 25 chimpanzés ficaram completamente silenciosos. O cuidador tirou todos os outros símios do caminho, depois tentou ressuscitar Oortje fazendo respiração boca a boca, sem sucesso. A autópsia revelou que Oortje tinha uma enorme infecção no coração e no abdômen.
Os primatas, como os que rodearam o corpo de Mama, reagem à morte da mesma maneira que os humanos cuidam dos mortos: tocando, lavando, untando e catando os corpos antes de deixá-los. Mas nós vamos além, pois enterramos os mortos e muitas vezes lhes damos algo para levar em sua “viagem”. Os antigos egípcios enchiam os túmulos dos faraós de comida, vinho, cães de caça, babuínos de estimação e embarcações a vela de grande porte. Para tornar uma perda suportável e para acalmar nosso próprio terror da mortalidade, os seres humanos frequentemente encaram a morte como transição para uma vida diferente. Não temos indícios dessa notável inovação mental em nenhum outro animal.
Uma discussão sobre essas distinções surgiu em torno da descoberta, em 2015, do Homo naledi, um parente humano primitivo. Seus restos fósseis foram encontrados dentro de uma caverna na África do Sul. Esse primata tinha quadris semelhantes aos dos australopitecos, porém pés e dentes mais típicos de nosso próprio gênero. É muito provável que o Homo naledi pertença a uma das dezenas de ramos laterais da gigantesca árvore que é a nossa ancestralidade, mas os paleontólogos não gostam dessa proposta. Eles sempre preferem que suas descobertas estejam assentadas no pequeno ramo que chega até nós, mesmo que as chances de isso ser verdade sejam mínimas. Desse modo, eles podem alegar que encontraram um ancestral humano. Mas como poderiam defender essa alegação no que dizia respeito ao Homo naledi, que tinha o cérebro do tamanho do de um chimpanzé? Quando descobriram restos fósseis numa parte quase inacessível do mesmo sistema de cavernas, os cientistas acharam que tinham a prova de que precisavam, pois aqueles restos deveriam ter sido colocados lá deliberadamente. Somente seres humanos seriam tão atenciosos com seus mortos, alegaram eles. A proposta era ao mesmo tempo altamente especulativa e fruto da ignorância sobre como outras espécies tratam os defuntos.
Como os chimpanzés e outros primatas nunca ficam em um lugar por muito tempo, eles não têm motivo para cobrir ou enterrar um cadáver. Se ficassem em um mesmo lugar, sem dúvida notariam que a carniça atrai carniceiros, inclusive predadores terríveis, como as hienas. De forma alguma excederia a capacidade mental de um símio resolver o problema cobrindo um cadáver malcheiroso ou movendo-o para fora do caminho. Esse comportamento dificilmente exigiria a crença em uma vida após a morte. O mesmo tipo de necessidade prática pode ter impulsionado o Homo naledi. A essa altura, nós simplesmente não sabemos se moveram seus mortos com cuidado e preocupação ou os jogaram sem cerimônia numa caverna distante para se livrar deles. Pode até ser pior: quem disse que os restos descobertos estavam mortos no momento em que foram parar na caverna?
É uma estranha coincidência que a palavra naledi (que significa “estrela” nas línguas sotho-tswana) seja um anagrama de denial [“negação”, em inglês]. Os descobridores do fóssil estavam ansiosos demais para enfatizar sua humanidade, ao mesmo tempo que negavam o quanto nossos ancestrais tinham em comum com os símios. Os seres humanos divergiram dos símios há tanto tempo quanto o elefante africano divergiu do asiático, e são geneticamente tão próximos ou distantes. No entanto, chamamos livremente essas duas espécies de “elefantes”, enquanto temos uma obsessão com o ponto específico em que a nossa própria linhagem mudou de símio para humano. Temos até palavras especiais para esse processo, como “hominização” e “antropogênese”. É uma ilusão generalizada que tenha havido tal momento no tempo, como tentar encontrar o comprimento de onda exato no espectro da luz em que o laranja se transforma em vermelho. Nosso desejo por divisões nítidas está em desacordo com o hábito da evolução de fazer transições extremamente suaves.
Não se sabe quão difundido é o senso de finitude e quanto ele se baseia numa projeção mental do futuro. Mas membros de pelo menos algumas espécies parecem perceber, depois de se assegurarem por olfato, tato e tentativas de reavivamento, que um ente querido se foi, que a relação entre eles migrou de forma permanente do presente para o passado. Como eles chegam a essa percepção é intrigante. Baseiam-se na experiência? Ou sabem intuitivamente que a morte faz parte da vida? Isso também nos lembra que todas as emoções estão misturadas com o conhecimento — elas não existiriam de outra forma. Quando os animais fazem algo interessante, os cientistas da cognição às vezes dizem que “isso é apenas uma emoção”, mas as emoções nunca são simples e nunca se separam de uma avaliação da situação. O luto, em particular, é muito mais complexo do que se sugere ao chamá-lo de emoção. Ele representa o avesso triste do laço social: a perda. Ele pode penetrar tão profundamente na alma de alguns animais quanto nas nossas, baseado em processos neurais compartilhados, como o sistema da oxitocina, e talvez uma consciência similar da vida e de suas vulnerabilidades.
Para mim, as visitas à colônia de Burgers nunca mais serão as mesmas. A morte de Mama deixou um buraco gigantesco para os chimpanzés, assim como para Jan, para mim e para seus outros amigos humanos. Ela representava o coração da colônia. A vida continua, como deve, mas os indivíduos são únicos. Não imagino que eu vá algum dia encontrar uma personalidade símia tão impressionante e inspiradora quanto a de Mama.

Frans de Waal, in O último abraço da matriarca

02/01/2022

Otto | Seis Minutos

Último ato

mesmo que tivéssemos uma enorme luneta
a viajar por nossas veias
nunca nos enxergaríamos a olho nu
logo nós
seres tão vestidos

mas um dia o pano cai.

Miró da Muribeca

Colhões

Como qualquer um pode lhe dizer, não sou um homem muito bom. Não sei que palavra usar para me definir. Sempre admirei o vilão, o fora da lei, o filho da puta. Não gosto dos garotos bem-barbeados com gravatas e bons empregos. Gostos dos homens desesperados, homens com dentes rotos e mentes arruinadas e caminhos perdidos. São os que me interessam. Sempre cheios de surpresas e explosões. Também gosto de mulheres vis, cadelas bêbadas que não param de reclamar, que usam meias-calças grandes demais e maquiagens borradas. Estou mais interessado em pervertidos do que em santos. Posso relaxar com os imprestáveis, porque sou um imprestável. Não gosto de leis, morais, religiões, regras. Não gosto de ser moldado pela sociedade.
Certa noite, eu estava bebendo com Marty, o ex-presidiário, no meu quarto. Eu não tinha emprego e não queria ter um emprego. Queria tão-somente ficar sentado sem os meus sapatos e beber vinho e falar e rir, se possível. Marty era um pouco estúpido, mas tinha mãos de trabalhador, um nariz quebrado, olhos de toupeira, nada que lhe pesasse muito, ele tinha enfrentado de tudo.
Gosto de você, Hank – disse Marty –, você é um homem de verdade, um dos poucos homens de verdade que já conheci.
É – eu disse.
Você tem colhões.
É.
Uma vez trabalhei minerando pedra...
É?
Entrei em uma briga com um sujeito. Usamos machadinhas. Ele quebrou o meu braço esquerdo com seu primeiro golpe. Fui em frente para encará-lo. Afundei a porra da cabeça dele. Quando se recuperou daquela pancada, estava fora de si. Eu tinha esmagado seu cérebro. Mandaram ele pro hospício.
Isso é legal – eu disse.
Escute – disse Marty –, quero brigar com você.
Dê o primeiro soco. Vá em frente, me acerte.
Marty estava sentado em uma cadeira verde com encosto reto. Eu estava caminhando para a pia para me servir outro copo de vinho da garrafa. Virei e acertei um soco de direita bem na cara dele. Ele virou uma cambalhota para trás na cadeira, se levantou e veio em minha direção. Eu não estava esperando por um golpe de esquerda. Acertou-me no alto da testa e me derrubou. Espichei a mão para o saco cheio de vômito e garrafas vazias, tirei uma, me ergui sobre os joelhos e arremessei-a. Marty se esquivou e parti para cima dele com a cadeira que estava atrás de mim. Tinha-a sobre minha cabeça, quando a porta se abriu. Era nossa senhoria, uma loira jovem e bonita, na casa dos vinte. O que ela fazia gerenciando um lugar como aquele, nunca consegui descobrir. Coloquei a cadeira no chão.
Vá pro seu quarto, Marty.
Marty parecia envergonhado, como um menininho. Ele caminhou pelo corredor para o seu quarto, entrou e fechou a porta.
Sr. Chinaski – ela disse –, quero que você saiba...
Quero que você saiba – eu disse – que isso não adianta nada.
O que não adianta?
Você não faz o meu tipo. Não quero trepar com você.
Escute – ela disse –, quero lhe dizer algo. Vi você mijando no pátio na noite passada e, se fizer isso outra vez, vou expulsá-lo daqui. Alguém mijou no elevador também. Foi você?
Não mijo em elevadores.
Bem, esse negócio do pátio, na noite passada, foi você. Eu estava olhando.
Porra, claro que não!
Você estava muito bêbado para lembrar. Não faça mais isso.
Ela fechou a porta e se foi.
Eu estava sentado lá, tranquilamente, bebendo vinho alguns minutos mais tarde e tentando me lembrar se eu tinha mijado no vizinho, quando bateram à porta.
Entre – eu disse.
Era Marty.
Tenho que lhe dizer uma coisa.
Claro. Sente.
Servi um copo para Marty, e ele sentou.
Estou apaixonado – ele disse.
Não respondi. Fechei um cigarro.
Você acredita no amor? – ele perguntou.
Tenho que acreditar. Aconteceu comigo uma vez.
Onde ela está?
Ela se foi. Morreu.
Morreu? Como?
Álcool.
Essa também bebe. Isso me preocupa. Ela sempre bebe. Ela não consegue parar.
Nenhum de nós consegue.
Vou às reuniões dos Alcoólicos Anônimos com ela. Quando ela vai, está bêbada. Metade dos sujeitos que vão às reuniões dos Alcoólicos Anônimos está bêbada. Dá para sentir o cheiro saindo deles.
Não respondi.
Deus, ela é jovem. E que corpo! Eu amo ela, cara, realmente amo essa mulher!
Ah, que caralho, Marty, isso é só sexo.
Não, eu amo ela, Hank, realmente sinto que a amo.
Bem, talvez seja possível.
Cristo, eles a puseram num quarto no porão. Ela não consegue pagar o aluguel.
No porão?
Sim, próximo da caldeira e da sujeira.
Difícil de acreditar.
É, ela está lá embaixo. E eu amo ela, cara, e não tenho nenhum dinheiro pra ajudá-la.
Isso é triste. Já estive na mesma situação. Dói.
Se eu conseguisse me endireitar, se conseguisse parar de beber por dez dias e recuperasse a minha saúde... posso arranjar um emprego em algum lugar, posso ajudá-la.
Bem – eu disse –, você está bebendo agora. Se a ama, vai parar. Bem agora.
Por Deus – ele disse. – Vou! Vou derramar esse copo na pia!
Não seja melodramático. Passe esse copo pra cá.

Peguei o elevador e desci para o primeiro andar com uma garrafa de uísque barato que eu tinha roubado da loja de bebidas do Sam, uma semana antes. Então tomei a escada para o porão. Havia uma pequena vela queimando lá embaixo. Caminhei pelo lugar procurando por uma porta.
Finalmente encontrei uma. Devia ser uma ou duas da madrugada. Bati na porta. Uma fresta se abriu, e lá estava uma mulher realmente bonita vestindo um roupão de dormir. Eu não esperava por isso. Jovem e com cabelos loiros avermelhados. Enfiei meu pé na porta, então forcei a minha entrada, fechei a porta e olhei ao redor. Não era um lugar de todo mau.
Quem é você? – ela perguntou. – Saia daqui.
Você arranjou um bom lugar aqui. É melhor do que o meu apartamento.
Saia daqui! Saia! Saia!
Puxei a garrafa de uísque do saco de papel. Ela a olhou.
Como você se chama? – perguntei.
Jeanie.
Olhe, Jeanie, onde você guarda os copos?
Ela apontou para uma prateleira na parede, caminhei até lá e peguei dois copos altos de água. Havia uma pia. Botei um pouco de água em cada um, caminhei de volta, coloquei-os sobre a mesa, abri o uísque e o misturei nos copos. Sentamos na ponta da cama dela e bebemos. Ela era jovem, atraente. Eu não podia acreditar. Esperei por uma crise neurótica, por um surto psicótico. Jeanie parecia normal, até mesmo saudável. Mas ela realmente gostava de uísque. Acompanhou-me bem. Eu tinha descido até ali em um ímpeto de ansiedade, mas agora não sentia mais essa ansiedade. Quero dizer, se ela fosse muito feia ou tivesse algo de indecente ou uma deficiência (lábio leporino, qualquer coisa), teria sentido mais vontade de fazer algo. Lembrei-me de uma história que eu tinha lido uma vez em Programa de corridas sobre um garanhão que ninguém conseguia fazer com que acasalasse com éguas. Trouxeram as éguas mais bonitas que puderam encontrar, mas o garanhão as refugava. Então alguém, que sabia das coisas, teve uma ideia. Cobriu de lama uma das belas éguas, e o garanhão imediatamente a montou. A teoria era de que o garanhão se sentia inferior a toda aquela beleza, mas que, diante da fêmea enlameada, pôde ao menos se sentir em pé de igualdade, quando não superior a ela, e assim funcionar. A mente dos cavalos e dos homens pode ser muito parecida.
De qualquer forma, Jeanie serviu o próximo copo e perguntou meu nome e onde eu dormia. Disse-lhe que eu estava em alguma parte dos andares de cima e que só queria beber com alguém.
Vi você no Clamber numa noite dessas, uma semana atrás – ela disse –, você estava muito engraçado, todos estavam rindo, você pagou bebidas para todo mundo.
Não me lembro.
Eu lembro. Você gosta do meu roupão?
Claro.
Por que você não tira as calças e fica mais confortável?
Tirei-as e me sentei outra vez na cama com ela. A coisa andava muito lentamente. Lembro de dizer-lhe que ela tinha peitos bonitos e logo eu estava mamando em um deles. A próxima coisa de que me lembro era que estávamos trepando. Eu estava por cima. Mas algo não estava dando certo, então rolei para o lado.
Sinto muito – eu disse.
Está tudo bem – ela disse –, ainda gosto de você.
Ficamos lá sentados, falando vagamente, liquidando com a garrafa de uísque.

Então ela se levantou e apagou as luzes. Sentia-me muito triste, então deitei na cama e me encostei em suas costas. Jeanie estava quente, plena, e eu podia sentir sua respiração e seus cabelos contra o meu rosto. Meu pênis começou a se erguer e eu a cutuquei com ele. Senti que ela espichou a mão e o guiou para dentro.
Agora – ela disse –, agora, isso...
Foi bom assim, durou muito e foi bom, e então gozamos e depois dormimos.

Quando acordei, ela ainda estava dormindo e eu me levantei e me vesti. Já estava completamente vestido quando ela se virou e me olhou:
A saideira.
Tudo bem.
Tirei a roupa outra vez e fui para a cama com ela. Ela virou-se de costas para mim e nós transamos de novo, do mesmo jeito. Depois que eu gozei, ela continuou de costas para mim.
Você virá me ver outra vez? – ela perguntou.
Claro.
Você mora lá em cima?
Sim. Trezentos e nove. Posso vir aqui ou você pode subir.
Prefiro que você venha me ver – ela disse.
Tudo bem – eu disse.
Eu me vesti, abri e fechei a porta, subi as escadas, entrei no elevador e apertei o botão com o número três.
Mais ou menos uma semana depois, à noite, eu bebia vinho com Marty. Falávamos de várias coisas sem importância e então ele disse:
Cristo, me sinto péssimo.
Outra vez?
É. Minha garota, Jeanie. Falei a ela sobre você.
Sim. Aquela que vive no porão. Você está apaixonado por ela.
É. Expulsaram ela de lá. Não conseguia pagar o aluguel reduzido.
Para onde ela foi?
Não sei. Ela se foi. Ouvi dizer que a expulsaram. Ninguém sabe o que ela fez, aonde ela foi. Fui na reunião dos Alcoólicos Anônimos. Ela não estava lá. Estou mal, Hank, muito mal. Eu a amava. Estou perdendo a cabeça.
Não respondi.
O que posso fazer, cara? Estou realmente estraçalhado...
Vamos beber à saúde dela, Marty, à saúde dela.
Bebemos um bom e longo gole em homenagem a ela.
Ela era ótima, Hank, você tem de acreditar em mim, ela era ótima.
Acredito em você, Marty.

Uma semana depois, Marty foi expulso por não pagar seu aluguel, e eu arranjei um emprego em uma empresa que empacotava carne, e havia alguns bares mexicanos do outro lado da rua. Eu gostava daqueles bares mexicanos. Depois do trabalho, eu fedia a sangue, mas ninguém parecia se importar. Era só quando entrava no ônibus para voltar ao meu quarto que aqueles narizes começavam a se erguer e eu recebia olhares de reprovação e começava a me sentir novamente um homem mau. Isso ajudava.

Charles Bukowski, in Ao Sul de Lugar Nenhum

O genial Quino

Fama póstuma

Quem deseja fervorosamente a fama póstuma desconsidera que aqueles que se lembram dele também falecerão em breve. Posteriormente, seus sucessores. Até que toda a lembrança — após ter sido transmitida por quem admira e perece de maneira tola — seja extinta.
Suponha que tanto aqueles quanto as lembranças sejam imortais. O que isso significa para você? Questiono o significado não para os mortos, mas para os vivos. O que é o louvor quando não carrega determinada utilidade? Você rejeita impropriamente o dom da natureza e se agarra a outra coisa…

Marco Aurélio, in Meditações do Imperador Marco Aurélio: Uma Nova Tradução

O álbum branco | 1

Contamos histórias para poder viver. A princesa está enjaulada no consulado. O homem com o doce vai levar as crianças para o mar. A mulher nua no beiral da janela do décimo sexto andar é uma vítima de apatia ou uma exibicionista? Dizemos a nós mesmos que faz diferença se ela está prestes a cometer um pecado mortal, se está prestes a iniciar um protesto político ou se está prestes a ser, a visão aristofânica, arrebatada de volta para a condição humana pelo bombeiro em roupa de padre, escondido na janela mais atrás, sorrindo para as lentes a distância. Buscamos o sermão no suicídio, a lição social ou moral no assassinato de cinco. Interpretamos o que vemos, selecionamos o que funciona melhor entre múltiplas escolhas. Vivemos, sobretudo se somos escritores, pela imposição de uma linha narrativa para imagens discrepantes, pelas “ideias” com as quais aprendemos a congelar a fantasmagoria que constitui nossa experiência real.
Ou, ao menos, fazemos isso por um tempo. Falo aqui de uma época em que comecei a duvidar das premissas de todas as histórias que já havia contado a mim mesma, uma condição comum, mas que achei perturbadora. Creio que esse período começou por volta de 1966 e durou até 1971. Ao longo daqueles cinco anos, eu me mostrei, à primeira vista, uma integrante relativamente capaz de uma ou outra comunidade, uma signatária de contratos e cartões de viagem, uma cidadã: escrevi algumas vezes por mês para uma ou outra revista, publiquei dois livros, trabalhei em vários filmes; me envolvi com a paranoia da época, com a criação de uma filha pequena, com o entretenimento de um grande número de pessoas que passaram por minha casa; fiz cortinas de algodão para os quartos de hóspedes, me lembrei de perguntar para os agentes se qualquer redução de pontos ia estar pari passu com o estúdio de financiamento, coloquei lentilhas de molho no sábado à noite para a sopa de domingo, fiz pagamentos de impostos trimestrais e renovei minha carteira de motorista a tempo, errando na prova escrita só a questão sobre a responsabilidade financeira dos motoristas da Califórnia. Foi uma época de minha vida em que eu era “nomeada” com frequência. Era nomeada madrinha de crianças. Era nomeada oradora, palestrante, debatedora e conferencista. Até fui nomeada, em 1968, “Mulher do Ano” do Los Angeles Times, junto com a sra. Ronald Reagan, a nadadora olímpica Debbie Meyer e dez outras mulheres da Califórnia que pareciam se manter atualizadas e praticar boas ações. Eu não praticava boas ações, mas tentava me manter atualizada. Era responsável. Reconhecia meu nome quando o via. De vez em quando, até respondia cartas endereçadas a mim. Não assim que as recebia, mas em algum momento. Respondia até as que vinham de estranhos. “Durante minha ausência do país nos últimos dezoito meses”: era assim que todas as minhas cartas começavam.
Era uma performance bastante satisfatória para uma improvisação. O único problema era que toda a minha educação, tudo que já tinham me dito ou que eu tinha dito a mim mesma, insistia que a produção não devia ser improvisada: eu devia ter um roteiro e o perdera. Devia ficar atenta às pistas, mas não fazia mais isso. Devia entender o enredo, mas tudo que entendia era o que via: imagens intermitentes em sequência variável, imagens sem “significado” além do arranjo temporário. Não um filme, mas uma experiência na sala de edição. No que provavelmente ia ser a metade de minha vida, eu ainda queria acreditar na narrativa e na inteligibilidade da narrativa, mas saber que dava para mudar o sentido a cada edição me fazia ver a experiência de forma mais elétrica do que ética.
Durante esse período, passei o que, para mim, eram porções habituais de tempo em Los Angeles, Nova York e Sacramento. Passei o que, para muita gente, pareceu tempo excessivo em Honolulu, cujo aspecto singular me dava a ilusão de que podia, a qualquer minuto, pedir ao serviço de quarto uma teoria revisionista de minha história, enfeitada com uma orquídea vanda. Assisti ao funeral de Robert Kennedy em uma varanda do hotel Royal Hawaiian, em Honolulu, e às primeiras notícias de Mỹ Lai. Reli tudo de George Orwell na praia do Royal Hawaiian. Também li, nos jornais que chegavam com um dia de atraso, a história de Betty Lansdown Fouquet, uma mulher de 26 anos com cabelo louro desbotado que abandonou a filha de 5 anos para morrer na divisória central da Rodovia 5, alguns quilômetros ao sul da última saída para Bakersfield. A criança, cujos dedos tiveram que ser desgrudados da cerca de arame quando foi resgatada pela polícia rodoviária da Califórnia doze horas depois, contou que correu atrás do carro da família por “um tempão”. Algumas dessas imagens não se encaixavam em nenhuma narrativa que eu conhecesse.
Outro corte rápido:

Em junho deste ano, a paciente experimentou um episódio de vertigem e náusea, com a sensação de que ia desmaiar. Uma avaliação médica completa não gerou resultado conclusivo e foi receitado Elavil de vinte miligramas, três vezes ao dia. […] O teste de Rorschach parece descrever uma personalidade no processo de deterioração, com sinais abundantes de defesas ruindo e inabilidade crescente do ego de mediar o mundo da realidade e de lidar com o estresse normal. […] Emocionalmente, a paciente se alienou quase por completo do mundo. A vida imaginária dela parece ter sido quase totalmente antecipada por preocupações libidinais primitivas e regressivas, muitas das quais são deturpadas e bizarras. […] Em um sentido técnico, controles afetivos básicos parecem estar intactos, mas é igualmente claro que são mantidos por ora de forma precária e tênue por uma série de mecanismos de defesa que incluem intelectualização, dispositivos obsessivo-compulsivos, projeção, formação reativa e somatização, todos os quais agora parecem inadequados para a tarefa de controlar ou conter um processo psicótico subjacente e se encontram, portanto, em processo de falência. O conteúdo das respostas da paciente é muito incomum e com frequência bizarro, repleto de preocupações sexuais e anatômicas. Às vezes, o contato básico com a realidade é bastante comprometido. Em qualidade e nível de sofisticação, as respostas da paciente são características de indivíduos de inteligência acima da média ou superior. Agora, porém, ela está funcionando em modo prejudicado intelectualmente, em nível apenas médio. As elaborações temáticas da paciente no Teste de Apercepção Temática enfatizam a visão pessimista, fatalista e depressiva do mundo à sua volta. É como se ela sentisse, de forma intensa, que todo esforço humano está fadado a fracassar, uma convicção que parece empurrá-la mais fundo em um afastamento dependente e passivo. Na visão da paciente, ela vive em um mundo de pessoas movidas por impulsos estranhos, conflitantes, mal compreendidos e, acima de tudo, tortuosos, que as levam ao conflito e o fracasso…”

A paciente a quem esse relatório psiquiátrico se refere sou eu. Os testes mencionados — o Rorschach, o Teste de Apercepção Temática, o teste da conclusão de frases e o Inventário Multifásico de Personalidade de Minnesota — foram aplicados a portas fechadas no ambulatório de psiquiatria do St. John Hospital, em Santa Monica, no verão de 1968, pouco depois de eu ter sofrido “um episódio de vertigem e náusea, com a sensação de que ia desmaiar”, como mencionados na primeira frase e pouco antes de ter sido nomeada “Mulher do Ano” pelo Los Angeles Times. A título de comentário, considero, hoje em dia, que um episódio de vertigem e náusea não me parece uma resposta inadequada ao verão de 1968.

Joan Didion, in O álbum branco