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08/04/2020
Uma oferta de espaço
Ouçamos
Silvia Seoane evocar uma recordação de sua infância em Buenos
Aires. Trata-se ainda do paraíso e da voz:
“Quando
eu era pequena, minha mãe me contava, à noite, com as luzes
apagadas, a história de Alice no País das Maravilhas. Não sei se
ela tinha lido o romance de Lewis Carroll; não sei se a sua mãe, um
irmão mais velho ou uma freira do colégio interno onde ela estudou
haviam contado a história para ela. Não sei se ela leu uma versão
do romance no Tesouro da juventude, livro de cabeceira de sua
infância (que eu imaginava quando criança como a fonte de todas as
histórias). Quer dizer, não sei como esse clássico foi parar nas
mãos, nos olhos ou nas orelhas de minha mãe.
[...]
Sei que ela mantinha um pequeno comércio em nossa casa e que,
provavelmente por essa razão, as aventuras daquela Alice, que me
contava, aconteciam em um mundo de árvores de chocolate e de
cascatas de Fanta Laranja e Coca-Cola. Sei que Alice chegava nesse
paraíso depois de passar por um espelho (por isso, eu adorava o
armário de remédios do banheiro) e sei que havia o Coelho e a
Rainha de Copas.
[...]
Eu não me lembro de muitos detalhes da história, mas lembro da voz
da minha mãe na escuridão. Lembro, com bastante clareza, o que eu
via enquanto ela falava. Lembro da emoção e da maravilhosa sensação
alucinada. Sei que eu estava convencida de que, de certa forma, eu
era Alice
[...];
todas as noites, um mundo paralelo nascia na voz da minha mãe. Com a
sua narrativa, eu atravessava o espelho e entrava ritualmente na
ficção. Assim como quando ela me contava a história do rei Davi ou
do meu tataravô, soldado no sul da Itália; a história de Pedro e o
Lobo e também a do meu tio Oreste, as histórias dos meus bisavós,
professores primários na Patagônia no início do século, e a da
pedra movediça de Tandil, ao lado da qual minha avó dava aulas
(histórias graças às quais, tenho certeza, me tornei professora).
Tantos
eram os relatos. Palavras trabalhadas artesanalmente por minha mãe
para criar mundos para mim”.
Todas
as noites, na escuridão, a voz da mãe de Silvia, alimentada pelo
Tesouro da juventude e por algumas epopeias familiares, tecia
narrações que encantavam o cotidiano, misturando-o a uma dimensão
poética, com árvores de chocolate e cascatas de Fanta Laranja. Aí
vemos como a leitura é uma questão de boca: tem a ver com a voz,
mas também com os primeiros alimentos que a criança recebe. E sem
dúvida por isso que nos hospitais na Colômbia, os mediadores de
leitura intervém muito, sob solicitação médica, junto às
crianças em estado de desnutrição. Pensemos também em Marc
Soriano, salvando-se da anorexia graças a Pinóquio.
Porém,
na cena descrita por Silvia, não é o prazer de retornar ao colo
materno que predomina. Nem mesmo a fascinação recíproca da mãe e
da criança. Por meio de suas palavras, sua mãe abre o lugar do
Outro. O Outro são todas as pessoas das gerações passadas que se
encontram na sua voz, o antepassado soldado, o tio Oreste, os bisavós
professores, cujas proezas transmite, introduzindo a filha no tempo
histórico do século passado como no tempo bíblico do rei Davi, e
em um espaço imenso que se estende até a Patagônia e o sul da
Itália. As histórias contadas fazem com que ela corra para além do
espelho, atravesse outras terras; engrandecem sua vida.
Oral
ou escrita, a literatura é uma oferta de espaço. As palavras não
cansam de revelar paisagens, passagens, “como se a sua essência
fosse bem mais espacial do que verbal, como se o seu fundamento
geográfico formasse o seu alicerce de sentido”, escreve
Georges-Arthur Goldschmidt. Antes de tudo, é talvez um espaço que é
encontrado nas palavras lidas, de modo vital, ainda mais para quem
não dispõe de nenhum lugar, nenhum território pessoal, nenhuma
margem de manobra.
Michèle
Petit, in A arte de ler: ou como resistir à adversidade
07/04/2020
Empobrecimento da imagem
O
rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a
imagem
de um vidro mole que fazia uma volta atrás
de
casa.
Passou
um homem depois e disse: Essa volta que o
rio
faz por trás de sua casa se chama enseada.
Não
era mais a imagem de uma cobra de vidro que
fazia
uma volta atrás de casa.
Era
uma enseada.
Acho
que o nome empobreceu a imagem.
Manoel
de Barros
Janela de abril
Tudo
tão nítido! O céu rentinho às pedras. Pode-se enxergar até os
nomes que andaram traçando a carvão naquele muro. Mas, mesmo que o
céu soubesse ler, isso não teria agora a mínima importância. E
sente-se que Nosso Senhor, em comemoração de abril, instituirá
hoje valiosos prêmios para o riso mais despreocupado, para o sapato
mais rinchador, para a pandorga mais alta sobre o morro.
Mário
Quintana, in Sapato florido
Papo cabeça
Então,
no meio daquele coquetel de inauguração de qualquer coisa, entre
uma mulher que insistia em falar no Uri Geller e um homem que citava
Peter Drucker sem parar (ah, os novos profetas!), e fazendo o
possível para não ser visto pela grande senhora que há pouco o
ameaçara com uma nova teoria da comunicação que trazia escondida
entre os seios, ele procurou alívio numa bandeja que passava.
Confortai-me com canapés que desfaleço de banalidades.
E
pensar que aquela mesma espécie já dera tantos gênios.
Compositores, pintores, escritores, pensadores... se fosse possível
reuni-los todos num imenso coquetel. Que vitalidade. Que brilho.
Principalmente, que conversas!
Imaginemos
que aqueles dois ali, em vez de serem um empresário notoriamente
analfabeto e um político que fala português de anedota, fossem,
digamos, Beethoven e Vincent van Gogh. Aproximemo-nos para ouvir o
que dizem os gênios.
Van
Gogh aponta para um dos seus ouvidos.
— Fala
neste aqui que com o outro eu não ouço.
E
Beethoven:
— Hein?
— Fala no outro ouvido. Desse lado não escuto nada.
— O
quê?
— Hein?
— Como?
— O
outro ouvido! O outro ouvido!
Está
bem, não é um bom exemplo. O Picasso chegaria de bermuda e
beliscando as mulheres, também não serve. De repente bateriam à
porta, o mordomo iria abrir e não veria ninguém. Fecharia a porta,
intrigado, e ouviria batidas outra vez. Abriria de novo, sem ver
ninguém. E então ouviria uma voz vindo de baixo:
— Sou
eu, seu filho de um cão sarnento com uma faxineira da Antuérpia!
É
Toulouse-Lautrec. Mais tarde William Faulkner, a caminho do seu
décimo sétimo bourbon, tropeçará nele e cairá ao comprido
no tapete diante de Oscar Wilde que, girando seu absinto no copo,
dirá:
— Eu
gosto de ter admiradores, mas isso é ridículo.
— Aposto
que eles ensaiaram antes só para ele poder dizer a frase — dirá
George Bernard Shaw para Sócrates, a seu lado. Este olha com
desconfiança para o copo que tem na mão.
— O
que será que estão me dando? — pergunta Sócrates.
— Se
não é scotch é porcaria — setencia Shaw.
— A
última bebida que me deram era cicuta.
O
rosto de Shaw se ilumina com a deixa.
— Cicuta,
pra mim, é um veneno...
Shaw
sai de grupo em grupo para contar a própria frase, às gargalhadas,
mas a repercussão não é boa. Kant e Victor Hugo se desentenderam
por alguma razão, trocaram insultos e o ambiente ficou pesado. E
Wagner martelando no piano com as duas mãos abertas não está
ajudando nada. Beethoven é o único que não se incomoda. Van Gogh
tapa uma orelha. Salvador Dali tapa os olhos para não ouvir.
Ouve-se
um grito vindo de trás de uma porta fechada. A porta se abre e uma
mulher seminua sai correndo. Minutos depois, pela mesma porta,
ajeitando a gravata, aparece o Marquês de Sade e explica:
— Não
é o que vocês estão pensando. Nós estávamos tendo uma discussão
filosófica na cama e aí surgiu um hindu louco e puxou o lençol.
Por
trás do marquês aparece Mahatma Ghandi, envolto no lençol e
pedindo desculpas.
— É
que derramei Coca-cola na minha outra roupa e...
Hemingway,
rodeado por simbolistas franceses e segurando o copo como uma
granada, argumenta:
— Eu
(obscenidade) no leite do simbolismo. Eu (obscenidade) no leite das
proparoxítonas maricas.
Aristóteles,
que tem um copo de leite na mão, afasta-se do grupo prudentemente. A
tensão na sala é enorme. Alguém pede silêncio. Vai haver um
discurso. O orador é Rui Barbosa. Ouvem-se murmúrios e gemidos.
Muita gente começa a se dirigir para a porta de saída tentando não
dar na vista.
Não,
pensou ele, mastigando um quadradinho de pão coberto com uma pasta
vagamente marinha. Seria ótimo reunir os gênios. Mas não num
coquetel. Definitivamente, não num coquetel.
Luís
Fernando Veríssimo, in Banquete com os deuses
Um enterro
Naquele
dia feriamos. Encontrei à porta da escola os meninos em alvoroço, e
alguém nos guiou a uma casa distante, onde mulheres chorosas punham
estrelinhas no manto que adornava um cadáver pequeno, transformado
em anjo. Findo esses retoques, o choro aumentou e quatro alunos
seguraram as alças do caixão azul. Saímos, andamos caminhos
esburacados, lamacentos, subimos uma ladeira íngreme e, escorregando
no barro vermelho, alcançamos paredes brancas, simples manchas
vistas lá debaixo, agora altas e largas, zebradas de verde.
Atravessei o portão.
Nunca
havia entrado em cemitérios e habituara-me a receá-los, por causa
dos espectros que me descreviam na cozinha. À noite essas narrações
davam-me tremuras, arrepiavam-me os cabelos. A treva se enchia de
mistérios, as labaredas fumacentas do fogão viviam, acompanhavam a
dança das bruxas. Ali, porém, na claridade forte do sol, os
terrores se dissipavam. O bando de crianças ria, espalhava-se nas
ruas estreitas, galgava montículos fofos, alinhados. Largou-se à
beira de uma cova o caixão azul, o velho Simeão escondeu-o, tomou a
pá e cobriu-o de terra, fabricou uma espécie de canteiro. Ouvi as
pancadas ocas, indiferente à cerimônia. Lembrava-me do que se dizia
do coveiro, lento, de mãos trêmulas.
Perdera
a família, despojara-se de todos os interesses que o prendiam à
vida e, quase na decrepitude, só estimava a companhia dos mortos.
Calejara no ofício.
Como
as pernas trôpegas exigiam repouso, descia raro à cidade. Consumia
o resto das forças à sombra dos túmulos, arrancando ervas nocivas,
podando roseiras. E concluída a tarefa, sossegava em cima de uma
catacumba e dormia.
Quando
o achassem teso, não seria preciso transportá-lo em viagem difícil:
deixá-lo-iam entre as suas plantas. Essa figura engelhada me
tranquilizava.
Simeão
vivia com defuntos — e nunca um deles o incomodara. Homem poderoso.
Ou então os defuntos eram bem fracos.
Distanciei-me,
fui examinar flores roxas de louça, cabeças de lagartixas nas
rachaduras dos sepulcros. As narrativas noturnas — diabos com olhos
de brasas, cachorros mastigando pedaços de carne podre —
sumiam-se. E o medo também cessava, no trabalho de adivinhar nomes e
datas que desbotavam nas lousas. O que eu sentia era nojo. Nojo das
pedras, dos tijolos, dos garranchos, certamente impregnados de óleo.
Receava tocar em objetos sujos de gordura fúnebre, indelével.
Farrapos sem cor, folhas secas, pétalas murchas, fragmentos vagos,
juntos em lixo, nauseavam-me: apesar de lavados pelo inverno,
queimados pelo verão, deviam conter pus ou tutano.
Arredei-me
para um canto, onde o muro se abria. Era um ossuário. Vi esqueletos
em desordem, arcarias de costelas emaranhando-se umas às outras,
rosários de vértebras. No monte lúgubre, uma caveira me espiava e
parecia zombar de mim. Nunca me viera à idéia semelhante horror. Um
acervo de porcarias. Difícil imaginá-las frações de pessoas,
misturadas, decompondo-se num monturo. O crânio avultava, para bem
dizer adquiria feições, tinha vontade de falar. As minhas mãos se
umedeceram, a vista se turvou. Zangava-me por não conseguir
afastar-me, correr na relva com os garotos, ver, de espírito leve,
os pássaros, as roseiras do velho Simeão. Preso ao depósito
sinistro, um nó a apertar-me as goelas, senti desejo de chorar.
Sentimento diverso do que me assaltava quando ouvia histórias de
casas mal-assombradas. O desespero me paralisava. Asco, a sensação
de me achar caído numa estrumeira, sem poder limpar-me, e a certeza
de haver em qualquer parte irremediável estrago. Aquilo era feio e
triste. E a feiúra e a tristeza se animavam, arreganhavam dentes
fortes e queriam morder-me. Engano: indiferença, imobilidade. A
imobilidade e a indiferença me atraíam. Tentei invocar as almas
penadas, os diabos que se agitam nas chamas eternas. Essas criaturas
me inspiravam piedade ou terror.
Diante
das carcaças nuas, era impossível comover-me. Loucura supor que
mangassem de mim.
Longamente
estive a contemplar as ruínas, ignoro como e quando me retirei.
Decerto os colegas foram buscar-me. Não me recordo.
Entrei
em casa mergulhado numa sombra espessa. À mesa, repeli a comida.
Meus parentes não perceberam o fastio, deixaram-me só, os cotovelos
sobre a tábua, reparando nas laranjeiras da vizinhança. Anoiteceu,
um negrume tingiu a folhagem, não trouxeram luz, os pequenos se
recolheram. Deitei-me num banco, as juntas estalaram. A escuridão
cresceu. Fechei os olhos. Mexi os dedos, procurei as falanges,
apalpei os braços, o tronco, o pescoço. Tateei o couro cabeludo,
forcejando por descobrir lá embaixo as suturas e as saliências.
Toquei
as maxilas e os zigomas. Contornei as órbitas, esfreguei as
pálpebras: o globo se deslocava devagar. Imundície. As pálpebras e
o globo iam apodrecer, estavam apodrecendo. Só o esqueleto
resistiria. Ossos. Aquela miséria segurava-se a mim, e não havia
jeito de eliminá-la. Uma caveira me acompanharia por toda a parte,
estaria comigo na cama, nas horas de brinquedo, nos desalentos,
curvar-se-ia sobre páginas enfadonhas e aguentaria cocorotes. Ia
encher-se de noções e de sonhos, esvaziar-se, descansar num
ossuário, ao sol, à chuva, mostrar os dentes às crianças.
Acabar-me-ia assim. Não interrompia o exame das órbitas, e as
cavidades horríveis se alargavam e aprofundavam, semelhantes aos
dois buracos que me haviam observado no cemitério. Os moleques
pairavam na cozinha, certamente sentados no pilão, aquecendo-se ao
fogo, embebendo-se em maravilhas extraterrenas. Em momentos
ordinários teria ido entender-me com eles, afrontar duendes e
gigantes ferozes. Ali deitado no banco, não me vinha a necessidade
de comunicar-me, fortalecer-me na companhia dos negrinhos. Os duendes
e os gigantes eram só palavras, os inimigos indeterminados que vivem
na treva se dispersaram. Intentei recordar-me deles, assustar-me.
Debalde. Lá fora cantavam grilos, o vento zumbia nos ramos das
laranjeiras e na cerca de pau-a-pique, vaga-lumes e baratas começavam
a manifestar-se, os moleques cochichavam. Apenas. E cá dentro — um
feixe de ossos. Apenas. A carne se eriçava, o sangue badalava na
artéria.
Isso
tudo seria gasto pelos vermes. A imagem horrorosa se obstinava. As
imagens também seriam gastas pelos vermes. Então para que me
fatigar, rezar, ir à loja e à escola, receber castigos da mestra,
escaldar os miolos na soma e na diminuição? Para que, se os miolos
iam derreter-se, abandonar a caixa inútil? O que mais me
impressionava eram as órbitas: a pesquisa minuciosa prosseguia e
achava-as desertas. Ocas e sombrias, como as outras. E o resto? Não
havia resto. Ali não havia nada. Aqui não haveria nada. O velho
Simeão habituara-se a dormir à luz dos fogos-fátuos, que já não
eram amantes falecidos em incesto, perseguindo-se, repelindo-se,
entre as sepulturas. Libertara-se de crenças, fugira ao
sobrenatural. E resignava-se. Eu não podia resignar-me. As almas do
outro mundo e os lobisomens adquiriam muito valor, faziam-me falta.
Estas
letras me pareceriam naquele tempo confusas e pedantes. Mas o
artifício da composição não exclui a substância do fato.
Esforcei-me por destrinçar as coisas inomináveis existentes no meu
espírito infantil, numa balbúrdia. É por terem sido inomináveis
que agora se apresentam duvidosas.
Afinal
não me surgiam dificuldades. Haviam-me exposto várias lendas.
Vencida a resistência inicial, pusera-me a confirmá-las. Negava-as
de repente em globo, sem análises. Não me embaraçava em dúvidas.
Tinha dito sim; entrava a dizer não: uma caveira
motivava o desmoronamento.
Não
pretendo insinuar, porém, que me haja encerrado no ateísmo,
diferençando-me dos meninos vulgares. Nem sequer pensei em Deus.
O
que me inquietava eram as almas. E a minha não morreu de todo.
Aquele enorme desengano passou. Os fantasmas voltaram, abrandaram-me
a solidão.
Sumiram-se
pouco a pouco e foram substituídos por outros fantasmas.
Graciliano
Ramos, in Infância
06/04/2020
O esmagamento das gotas
Eu
não sei, olhe, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora
fechado e cinza, aqui contra a sacada com gotões coalhados e duros
que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um atrás do outro, que
tédio. Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica
tremelicando contra o céu que esmigalha em mil brilhos apagados, vai
crescendo e balouça, já vai cair e não cai, não cai ainda. Está
segura com todas as unhas, não quer cair e se vê que ela se agarra
com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que
pende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada,
nada, uma viscosidade no mármore. Mas há as que se suicidam e logo
se entregam, brotam na esquadria e de lá mesmo se jogam, parece-me
ver a vibração do salto, suas perninhas desprendendo-se e o grito
que as embriaga nesse nada do cair e aniquilar-se.
Júlio
Cortázar, in Histórias de Cronópios e de Famas
Lavoura Arcaica - 29
O
tempo, o tempo, o tempo e suas águas inflamáveis, esse rio largo
que não cansa de correr, lento e sinuoso, ele próprio conhecendo
seus caminhos, recolhendo e filtrando de vária direção o caldo
turvo dos afluentes e o sangue ruivo de outros canais para com eles
construir a razão mística da história, sempre tolerante, pobres e
confusos instrumentos, com a vaidade dos que reclamam o mérito de
dar-lhe o curso, não cabendo contudo competir com ele o leito em que
há de fluir, cabendo menos ainda a cada um correr contra a corrente,
ai daquele, dizia o pai, que tenta deter com as mãos seu movimento:
será consumido por suas águas; ai daquele, aprendiz de feiticeiro,
que abre a camisa para um confronto: há de sucumbir em suas chamas,
que toda mudança, antes de ousar proferir o nome, não pode ser mais
que insinuada; o tempo, o tempo, o tempo e suas mudanças, sempre
cioso da obra maior, e, atento ao acabamento, sempre zeloso do
concerto menor, presente em cada sítio, em cada palmo, em cada grão,
e presente também, com seus instantes, em cada letra desta minha
história passional, transformando a noite escura do meu retorno numa
manhã cheia de luz, armando desde cedo o cenário para celebrar a
minha páscoa, retocando, arteiro e lúdico, a paisagem rústica lá
de casa, perfumando nossas campinas ainda úmidas, carregando as
cores de nossas flores, traçando com engenho as linhas do seu
teorema, atraindo, debaixo de uma enorme peneira azul, muitas pombas
em revoada, trazendo desde as primeiras horas para a fazenda nossos
vizinhos e as famílias inteiras de nossos parentes e amigos lá da
vila, entre eles divertidos tagarelas e crianças muito traquinas,
tecendo agitações frívolas e ruídos muito propícios, Zuleika e
Huda, ajudadas por amigas, já transportavam contentes garrafões de
vinho, correndo sucessivas vezes todos os copos, despejando risonhas
o sangue decantado e generoso em todos os corpos, recebido sempre com
saudações efusivas que eram prenúncio de uma gorda alegria, e foi
no bosque atrás da casa, debaixo das árvores mais altas que
compunham com o sol o jogo alegre e suave de sombra e luz, depois que
o cheiro da carne assada já tinha se perdido entre as muitas folhas
das árvores mais copadas, foi então que se recolheu a toalha antes
estendida por cima da relva calma, e eu pude acompanhar assim
recolhido junto a um tronco mais distante os preparativos agitados
para a dança, os movimentos irrequietos daquele bando de moços e
moças, entre eles minhas irmãs com seu jeito de camponesas, nos
seus vestidos claros e leves, cheias de promessas de amor suspensas
na pureza de um amor maior, correndo com graça, cobrindo o bosque de
risos, deslocando as cestas de frutas para o lugar onde antes se
estendia a toalha, os melões e as melancias partidas aos gritos da
alegria, as uvas e as laranjas colhidas dos pomares e nessas cestas
com todo o viço bem dispostas sugerindo no centro do espaço o mote
para a dança, e era sublime essa alegria com o sol descendo
espremido entre as folhas e os galhos, se derramando às vezes na
sombra calma através de um facho poroso de luz divina que
reverberava intensamente naqueles rostos úmidos, e foi então a roda
dos homens se formando primeiro, meu pai de mangas arregaçadas
arrebanhando os mais jovens, todos eles se dando rijo os braços,
cruzando os dedos firmes nos dedos da mão do outro, compondo ao
redor das frutas o contorno sólido de um círculo como se fosse o
contorno destacado e forte da roda de um carro de boi, e logo meu
velho tio, velho imigrante, mas pastor na sua infância, puxou do
bolso a flauta, um caule delicado nas suas mãos pesadas, e se pôs
então a soprar nela como um pássaro, suas bochechas se inflando
como as bochechas de uma criança, e elas inflavam tanto, tanto, e
ele sanguíneo dava a impressão de que faria jorrar pelas orelhas,
feito torneiras, todo o seu vinho, e ao som da flauta a roda começou,
quase emperrada, a deslocar-se com lentidão, primeiro num sentido,
depois no seu contrário, ensaiando devagar a sua força num vaivém
duro e ritmado ao toque surdo e forte dos pés batidos virilmente
contra o chão, até que a flauta voou de repente, cortando encantada
o bosque, correndo na floração do capim e varando os pastos, e a
roda então vibrante acelerou o movimento circunscrevendo todo o
círculo, e já não era mais a roda de um carro de boi, antes a roda
grande de um moinho girando célere num sentido e ao toque da flauta
que reapanhava desvoltando sobre seu eixo, e os mais velhos que
presenciavam, e mais as moças que aguardavam a sua vez, todos eles
batiam palmas reforçando o novo ritmo, e quando menos se esperava,
Ana (que todos julgavam sempre na capela) surgiu impaciente numa só
lufada, os cabelos soltos espalhando lavas, ligeiramente apanhados
num dos lados por um coalho de sangue (que assimetria mais
provocadora!), toda ela ostentando um deboche exuberante, uma borra
gordurosa no lugar da boca, uma pinta de carvão acima do queixo, a
gargantilha de veludo roxo apertando-lhe o pescoço, um pano murcho
caindo feito flor da fresta escancarada dos seios, pulseiras nos
braços, anéis nos dedos, outros aros nos tornozelos, foi assim que
Ana, coberta com as quinquilharias mundanas da minha caixa, tomou de
assalto a minha festa, varando com a peste no corpo o círculo que
dançava, introduzindo com segurança, ali no centro, sua petulante
decadência, assombrando os olhares de espanto, suspendendo em cada
boca o grito, paralisando os gestos por um instante, mas dominando a
todos com seu violento ímpeto de vida, e logo eu pude adivinhar,
apesar da graxa que me escureceu subitamente os olhos, seus passos
precisos de cigana se deslocando no meio da roda, desenvolvendo com
destreza gestos curvos entre as frutas e as flores dos cestos, só
tocando a terra na ponta dos pés descalços, os braços erguidos
acima da cabeça serpenteando lentamente ao trinado da flauta mais
lento, mais ondulante, as mãos graciosas girando no alto, toda ela
cheia de uma selvagem elegância, seus dedos canoros estalando como
se fossem, estava ali a origem das castanholas, e em torno dela a
roda passou a girar cada vez mais veloz, mais delirante, as palmas de
fora mais quentes e mais fortes, e mais intempestiva, e magnetizando
a todos, ela roubou de repente o lenço branco do bolso de um dos
moços, desfraldando-o com a mão erguida acima da cabeça enquanto
serpenteava o corpo, ela sabia fazer as coisas, essa minha irmã,
esconder primeiro bem escondido sob a língua sua peçonha e logo
morder o cacho de uva que pendia em bagos túmidos de saliva enquanto
dançava no centro de todos, fazendo a vida mais turbulenta,
tumultuando dores, arrancando gritos de exaltação, e logo entoados
em língua estranha começaram a se elevar os versos simples, quase
um cântico, nas vozes dos mais velhos, e um primo menor e mais
gaiato, levado na corrente, pegou duas tampas de panelas fazendo os
pratos estridentes, e ao som contagiante parecia que as garças e os
marrecos tivessem voado da lagoa pra se juntarem a todos ali no
bosque, e Ana, sempre mais ousada, mais petulante, inventou um novo
lance alongando o braço, e, com graça calculada (que demônio mais
versátil!), roubou de um circundante a sua taça, logo derramando
sobre os ombros nus o vinho lento, obrigando a flauta a um apressado
retrocesso lânguido, provocando a ovação dos que a cercavam, era a
voz surda de um coro ao mesmo tempo sacro e profano que subia, era a
comunhão confusa de alegria, anseios e tormentos, ela sabia
surpreender, essa minha irmã, sabia molhar a sua dança, embeber a
sua carne, castigar a minha língua no mel litúrgico daquele favo,
me atirando sem piedade numa insólita embriaguez, me pondo convulso
e antecedente, me fazendo ver com espantosa lucidez as minhas pernas
de um lado, os braços de outro, todas as minhas partes amputadas se
procurando na antiga unidade do meu corpo (eu me reconstruía nessa
busca! que salmoura nas minhas chagas, que ardência mais salubre nos
meus transportes!), eu que estava certo, mais certo do que nunca, de
que era para mim, e só para mim, que ela dançava (que reviravoltas
o tempo dava! que osso, que espinho virulento, que glória para o meu
corpo!), e eu, sentado onde estava sobre uma raiz exposta, num canto
do bosque mais sombrio, eu deixei que o vento que corria entre as
árvores me entrasse pela camisa e me inflasse o peito, e na minha
fronte eu sentia a carícia livre dos meus cabelos, e nessa postura
aparentemente descontraída fiquei imaginando de longe a pele fresca
do seu rosto cheirando a alfazema, a boca um doce gomo, cheia de
meiguice, mistério e veneno nos olhos de tâmara, e os meus olhares
não se continham, eu desamarrei os sapatos, tirei as meias e com os
pés brancos e limpos fui afastando as folhas secas e alcançando
abaixo delas a camada de espesso húmus, e a minha vontade incontida
era de cavar o chão com as próprias unhas e nessa cova me deitar à
superfície e me cobrir inteiro de terra úmida, e eu nessa senda
oculta mal percebi de início o que se passava, notei confusamente
Pedro, sempre taciturno até ali, buscando agora por todos os lados
com os olhos alucinados, descrevendo passos cegos entre o povo
imantado daquele mercado — a flauta desvairava freneticamente, a
serpente desvairava no próprio ventre, e eu de pé vi meu irmão
mais tresloucado ainda ao descobrir o pai, disparando até ele,
agarrando-lhe o braço, puxando-o num arranco, sacudindo-o pelos
ombros, vociferando uma sombria revelação, semeando nas suas ouças
uma semente insana, era a ferida de tão doída, era o grito, era sua
dor que supurava (pobre irmão!), e, para cumprir-se a trama do seu
concerto, o tempo, jogando com requinte, travou os ponteiros:
correntes corruptas instalaram-se comodamente entre vários pontos,
enxugando de passagem a atmosfera, desfolhando as nossas árvores,
estorricando mais rasteiras o verde das campinas, tingindo de
ferrugem nossas pedras protuberantes, reservando espaços prematuros
para logo erguer, em majestosa solidão, as torres de muitos cáctus:
a testa nobre de meu pai, ele próprio ainda úmido de vinho, brilhou
um instante à luz morna do sol enquanto o rosto inteiro se cobriu de
um branco súbito e tenebroso, e a partir daí todas as rédeas
cederam, desencadeando-se o raio numa velocidade fatal: o alfanje
estava ao alcance de sua mão, e, fendendo o grupo com a rajada de
sua ira, meu pai atingiu com um só golpe a dançarina oriental (que
vermelho mais pressuposto, que silêncio mais cavo, que frieza mais
torpe nos meus olhos!), não teria a mesma gravidade se uma ovelha se
inflamasse, ou se outro membro qualquer do rebanho caísse
exasperado, mas era o próprio patriarca, ferido nos seus preceitos,
que fora possuído de cólera divina (pobre pai!), era o guia, era a
tábua solene, era a lei que se incendiava — essa matéria fibrosa,
palpável, tão concreta, não era descarnada como eu pensava, tinha
substância, corria nela um vinho tinto, era sanguínea, resinosa,
reinava drasticamente as nossas dores (pobre família nossa,
prisioneira de fantasmas tão consistentes!), e do silêncio fúnebre
que desabara atrás daquele gesto, surgiu primeiro, como de um parto,
um vagido primitivo
Pai!
e
de
outra
voz, um uivo cavernoso, cheio de
desespero
Pai!
e
de todos os lados, de Rosa, de Zuleika e de Huda, o mesmo gemido
desamparado
Pai!
eram
balidos estrangulados
Pai!
Pai!
onde
a nossa segurança? onde a nossa proteção?
Pai!
e
de Pedro, prosternado na terra
Pai!
e
vi Lula, essa criança tão cedo transtornada, rolando no chão
Pai!
Pai!
onde
a união da família?
Pai!
e
vi a mãe, perdida no seu juízo, arrancando punhados de cabelo,
descobrindo grotescamente as coxas, expondo as cordas roxas das
varizes, batendo a pedra do punho contra o peito
Iohána!
Iohána! Iohána!
e
foram inúteis todos os socorros, e recusando qualquer consolo,
andando entre aqueles grupos comprimidos em murmúrio como se vagasse
entre escombros, a mãe passou a carpir em sua própria língua,
puxando um lamento milenar que corre ainda hoje a costa pobre do
Mediterrâneo: tinha cal, tinha sal, tinha naquele verbo áspero a
dor arenosa do deserto.
Raduan
Nassar, in Lavoura Arcaica
O primeiro olhar pela janela de manhã
O
primeiro olhar pela janela de manhã.
O velho livro redescoberto.
Rostos entusiasmados.
Neve, o câmbio das estações.
O jornal.
O cão.
A dialética.
Duchas, nadar.
Música antiga.
Sapatos cômodos.
Compreender.
Música nova.
Escrever, plantar.
Viajar, cantar.
Ser cordial.
O velho livro redescoberto.
Rostos entusiasmados.
Neve, o câmbio das estações.
O jornal.
O cão.
A dialética.
Duchas, nadar.
Música antiga.
Sapatos cômodos.
Compreender.
Música nova.
Escrever, plantar.
Viajar, cantar.
Ser cordial.
Bertolt
Brecht
05/04/2020
Da felicidade
“A
raiz do mal reside no fato de se insistir demasiadamente que no
êxito da competição está a principal fonte da felicidade. Não
nego que o sentimento do triunfo torna a vida mais agradável. Um
pintor, por exemplo, que viveu obscuramente na juventude, decerto se
sentirá feliz se o seu talento acabar por ser reconhecido. Não nego
também que o dinheiro, até um certo limite, é capaz de aumentar a
felicidade; para lá desse limite, julgo que não. O que eu afirmo é
que o êxito só pode ser um dos vários elementos da felicidade e
que é demasiado o preço pelo qual se obtém se a ele se sacrificam
todos os outros.”
Bertrand
Russell, in A conquista da felicidade
Areia Branca
O
lotação ia de Copacabana para o centro, com lugares vazios, cada
passageiro pensando em sua vida; é o gênero de transporte onde
menos viceja a flor da comunicação humana. Quando, em Botafogo,
ouviu-se a voz de um senhor lá atrás:
— Olhe
aqui, vou atender a você, mas não faça mais isso, ouviu? É muito
feio pedir dinheiro aos outros. Na sua idade eu já dava duro e
ajudava em casa.
E
passou a nota ao rapazinho de quinze anos, se tanto, que a recolheu
com humildade. O homem continuava, agora dirigindo-se a outro
passageiro:
— Está
vendo? Fica essa garotada aí vivendo de expediente, encontra uns
sujeitos como eu, que vão na conversa, e depois…
— Isto
é um país sem solução, comentou o vizinho. Não há escola
profissional para os meninos, andam jogados ao deus-dará, enquanto o
governo só faz besteira. Não vê o porta-aviões?
O
rapazinho não parecia interessado na crítica ao governo, e mudou de
lugar. Foi para junto de outro senhor e expôs-lhe o problema,
baixinho.
— Como
é?
— Areia
Branca. Lá é minha terra. Tou querendo voltar, falta só 27
cruzeiros…
O
homem puxou lentamente a carteira, lentamente extraiu uma nota,
passou-a ao rapazinho.
— Está
vendo?, comentou o senhor do fundo. Aquele ali caiu também, quem é
que não cai? Aposto que esse menino não vai pedir àquela senhora
da esquerda. Mulher não vai na onda, só tem pena de aleijado e de
velhinho.
De
fato, o postulante deixou de lado a senhora e a moça que havia no
carro, e foi contar a história mais adiante (com êxito) a outro
representante do sexo frágil, isto é, masculino.
— Oba!
Já tenho vinte, daqui a pouco posso ir para Areia Branca.
E
foi sentar-se ao lado de outro jovem, que, pelos cadernos de capa
grossa na mão, se revelava colegial.
— Quer
me ajudar? Então inteire minha passagem para Areia Branca.
Não
era pedido; era recomendação, em tom natural, tão natural que o
estudante não discutiu. Sacou do bolso o macinho de notas miúdas —
dinheiro do sorvete e da volta —, contou-as uma por uma e estendeu
cinco.
— Se
você quer ajudar, inteira logo. Mais dois.
O
outro passou-lhe os dois, que esperara inutilmente salvar da
requisição, e à guisa de agradecimento o beneficiado esticou o
dedo:
— Espia
só o mar: que estouro! Areia Branca é do outro lado.
E
levantou-se mais uma vez, foi ao motorista, curvou-se, passou-lhe o
braço nas costas, numa conversa particular e macia. O senhor de
trás, moralista e observador implacável, ia-lhe acompanhando as
evoluções:
— Olha
só o garoto. Aposto que cantou o motorista para uma carona.
O
motorista — de queixo comprido, lembrando agradavelmente o velho
Ademir — sem volver o rosto, foi dizendo:
— Cai
fora, coisinha.
— Eu
não disse? — comentou o de trás, satisfeito com a própria
agudeza.
O
lotação parou, o meninote desceu. Aí, intervém a senhora, até
então muda e queda como penedo:
— Garanto
que agora ele vai tomar outro lotação para Copacabana e repetir o
golpe.
— Não
duvido nada — secundou o moralista, meio desapontado porque não
lhe havia ocorrido esse desenvolvimento.
O
rapazinho atravessou a rua — era no contorno do Morro da Viúva —
e parou à espera, na calçada.
— Vejam
só — continuava exclamando o homem. — Vem com essa conversa de
Areia Branca, Areia Branca, um nome tão poético, lembra o Caymmi, a
gente não resiste mesmo. Se ele dissesse que queria voltar para
Areia Preta, essa não, eu pensava naquela praia do Espírito Santo,
em reumatismo, não soltava um níquel. Mas Areia Branca, esse
moleque é impossível!
Carlos
Drummond de Andrade, in A bolsa & a vida
As cores
Maria
Alice abandonou o livro onde seus dedos longos liam uma história de
amor. Em seu pequeno mundo de volumes, de cheiros, de sons, todas
aquelas palavras eram a perpétua renovação dos mistérios em cujo
seio sua imaginação se perdia. Esboçou um sorriso... Sabia estar
só na casa que conhecia tão bem, em seus mínimos detalhes, casa
grande de vários quartos e salas onde se movia livremente, as mãos
olhando por ela, o passo calmo, firme e silencioso, casa cheia de
ecos de um mundo não seu, mundo em que a imagem e a cor pareciam a
nota mais viva das outras vidas de ilimitados horizontes.
Como
seria cor e o que seria? Conhecia todas pelos nomes, dava com elas a
cada passo nos seus livros, soavam aos seus ouvidos a todo momento,
verdadeira constante de todas as palestras. Era, com certeza, a nota
marcante de todas as coisas para aqueles cujos olhos viam, aqueles
olhos que tantas vezes palpara com inveja calada e que se fechavam,
quando os tocava, sensíveis como pássaros assustados, palpitantes
de vida, sob seus dedos trêmulos, que diziam ser claros. Que seria o
claro, afinal? Algo que aprendera, de há muito, ser igual ao branco.
Branco, o mesmo que alvo, característica de todos os seus, marca dos
amigos da casa, de todos os amigos, algo que os distinguia dos
humildes serviçais da copa e da cozinha, às vezes das entregas do
armazém. Conhecia o negro pela voz, o branco pela maneira de agir ou
falar. Seria uma condição social? Seguramente. Nos primeiros
tempos, perguntava. É preto? É branco? Raramente se enganava agora.
Já sabia... Nas pessoas, sabia... Às vezes, pelo olfato, outras,
pelo tom de voz, quase sempre pela condição. Embora algumas vezes —
e aquilo a perturbava — encontrasse também a cor social mais nobre
no trato das panelas e na limpeza da casa. Nas paredes, porém, nos
objetos, já não sentia aquelas cores. E se ouvia geralmente um tom
de desprezo ou de superioridade, quando se falava no negro das
pessoas, que envolvia sempre a abstração deprimente da fealdade, o
mesmo negro nos gatos, nos cavalos, nas estatuetas, vinha sempre
conjugado à ideia de beleza, que ela sabia haver numa sonata de
Beethoven, numa fuga de Bach, numa polonaise de Chopin, na voz
de uma cantora, num gesto de ternura humana. Que seria a cor, detalhe
que fugia aos seus dedos, escapava ao seu olfato conhecedor das almas
e dos corpos, que o seu ouvido apurado não aprendia, e que era
vermelho nas cerejas, nos morangos e em certas gelatinas, mas nada
tinha em comum com o adocicado de outras frutas e se encontrava
também nos vestidos, nos lábios (seriam os seus vermelhos também e
convidariam ao beijo, como nos anúncios de rádio?), em certas
cortinas, naquele cinzeiro áspero da mesinha do centro, em
determinadas rosas (e havia brancas e amarelas), na pesada poltrona
que ficava à direita e onde se afundava feliz, para ouvir novelas?
Que
seria a cor, que definia as coisas e marcava os contrastes, e ora
agradava, ora desagradava? E como seria o amarelo, para alguns padrão
de mau gosto, mas que tantas vezes provocava entusiasmo nos
comentários do mundo onde os olhos viam? E que seria ver? Era o
sentido certamente que permitia evitar as pancadas, os tropeções,
sair à rua sozinho, sem apoio de bengala, e aquela inquieta procura
de mãos divinatórias que tantas vezes falhavam. Era o sentido que
permitia encontrar o bonito, sem tocar, nos vestidos, nos corpos, nas
feições, o bonito, variedade do belo e de outras palavras sempre
ouvidas e empregadas e que bem compreendia, porque o podia sentir na
voz e no caráter das pessoas, nas atitudes e nos gestos humanos, no
Rêve d’Amour, que executava ao piano, e em muita coisa mais... Ver
era saber que um quadro não constava apenas de uma superfície
estranha, áspera e desigual, sem nenhum sentido para o seu mundo
interior, por vezes bonita, ao seu tato, nas molduras, mas que para
os outros figurava casas, ruas, objetos, frutas, peixes, panelas de
cobre (tão gratas aos seus dedos), velhos mendigos, mulheres nuas e,
em certos casos, mesmo para os outros, não dizia nada...
Claro
que via muito pelos olhos dos outros. Sabia onde ficavam as coisas e
seria capaz de descrevê-las nos menores detalhes. Conhecia-lhes até
a cor... Se lhe pedissem o cinzeiro vermelho, iria buscá-lo sem
receio. E sabia dizer, quando tocava em Ana Beatriz, se estava com o
vestido bege ou com a blusa lilás. E de tal maneira a cor flutuava
em seus lábios, nas palestras diárias, que para todos os familiares
era como se a visse também. — Ponha hoje o vestido verde, Ana
Beatriz...
Dizia
aquilo um pouco para que não dessem conta da sua inferioridade, mais
ainda para não inspirar compaixão. Porque a piedade alheia a cada
passo a torturava e Maria Alice tinha pudor de seu estado. Seria mais
feliz se pudesse estar sempre sozinha como agora, movendo-se como
sombra muda pela casa, certa de não provocar exclamações
repentinas de pena, quando se contundia ou tropeçava nas idas e
vindas do cotidiano labor. — Machucou, meu bem?
Doía
mais a pergunta. Certa vez a testa sangrava, diante da família
assustada e do remorso de Jorge, que deixara um móvel fora do lugar,
mas teimava em dizer que não fora nada.
E
quando insistiam, com visita presente, para que tocasse piano, era
sistemática a recusa.
— Maria
Alice é modesta, odeia exibições...
Outro
era o motivo. Ela muita vez bem que ardia em desejos de se refugiar
no mundo dos sons, para escapar aos mexericos de toda a gente... Mas
como a remordia a admiração piedosa dos amigos... As palmas e os
louvores vinham sempre cheios de pena e havia grosserias trágicas em
certos entusiasmos, desde o espanto infantil por vê-la acertar
direitinho com as teclas à exclamação maravilhada de alguns:
— Muita
gente que enxerga se orgulharia de tocar assim...
Nunca
Maria Alice o dissera, mas seu coração tinha ternuras apenas para
os que não a avisavam de haver uma cadeira na frente ou não a
preveniam contra a posição do abajur.
— Eu
sei... eu já sei...
E
como tinha os outros sentidos mais apurados, sempre se antecipava na
descrição das pessoas e coisas. Sabia se era homem ou mulher o
recém— chegado, antes que se pusesse a falar. Pela maneira de
pisar, por mil e uma sutilezas. Sem que lhe dissessem, já sabia se
era gordo ou magro, bonito ou feio. E antes que qualquer outro,
lia-lhe o caráter e o temperamento. Àqueles pequeninos milagres de
sua intuição e de sua capacidade de observar, todos estavam
habituados em casa. Por isso lhe falavam sempre em termos de quem
via, para quem via. E nesses termos lhes falava também.
O
livro abandonado sobre a mesa, o pensamento de Maria Alice caminhava
liberto. Recordava agora o largo tempo que passara no Instituto, onde
a família julgara que lhe seria mais fácil aprender a ler.
Detestava o ambiente de humildade, raramente de revolta, que lá
encontrara. Vivendo em comunidade, sabia facilmente quais os que
enxergavam, sem que nenhum destes se desse conta disso ou dissesse
que enxergava. Pela simples linguagem, pela maneira de agir o sabia.
E ali começara a odiar os dois mundos diferentes, O seu, de humildes
e resignados, cônscios de sua inferioridade humana, o outro, o da
piedade e da cor. — Me dá o cinzeiro vermelho, Maria Alice...
Maria Alice dava.
— Vou
ao cinema com o vestido claro ou com aquele estampado, Maria Alice?
Maria
Alice aconselhava. Ninguém conseguia entender como sabia ela indicar
qual o sapato ou a bolsa que ia melhor com este ou aquele vestido.
Quase sempre acertava. Assim como ninguém sabia que, com o tempo,
Maria Alice fora identificando as cores com sentimentos e coisas. O
branco era como barulho de água de torneira aberta. Cor-de-rosa se
confundia com valsa. Verde, aprendera a identificá-lo com cheiro de
árvore. Cinza, com maciez de veludo. Azul, com serenidade. Diziam
que o céu era azul. Que seria o céu? Um lugar, com certeza. Tinha
mil e uma ideias sobre o céu. Deus, anjos, glória divina,
bem-aventurança, hinos e salmos. Hendel. Bach. Mas sabia haver um
outro, material, sobre as pessoas e casas, feito de nuvens, que
associava à ideia do veludo, mais própria do cinza, apesar de
insistirem em que o céu era azul. Aquelas associações materiais,
porém, não a satisfaziam. A cor realmente era o grande mistério.
Sentira muitas vezes que o cinza pertencia a substâncias ásperas ou
duras. Que o branco estava no mármore duro e na folha de papel, leve
e flexível. E que o negro estava num cavalo que relinchava inquieto,
com um sopro vigoroso de vida, e na suavidade e leveza de um vestido
de baile, mas era ao mesmo tempo a cor do ódio e da negação, a
marca inexplicável da inferioridade.
E
agora Maria Alice voltava outra vez ao Instituto. E ao grande amigo
que lá conhecera. Voltavam as longas horas em que falavam de Bach,
de Beethoven, dos mistérios para eles tão claros da música eterna.
Lembrava-se da ternura daquela voz, da beleza daquela voz. De como se
adivinhavam entre dezenas de outros e suas mãos se encontravam. De
como as palavras de amor tinham irrompido e suas bocas se
encontrado... De como um dia seus pais haviam surgido inesperadamente
no Instituto e a haviam levado à sala do diretor e se haviam
queixado da falta de vigilância e moralidade no estabelecimento. E
de como, no momento em que a retiravam e quando ela disse que
pretendia se despedir de um amigo pelo qual tinha grande afeição e
com quem se queria casar, o pai exclamara, horrorizado:
— Você
não tem juízo, criatura? Casar-se com um mulato? Nunca! Mulato era
cor.
Estava
longe aquele dia. Estava longe o Instituto, ao qual não saberia
voltar, do qual nunca mais tivera notícia, e do qual somente restara
o privilégio de caminhar sozinha pelo reino dos livros, tão
parecido com a vida dos outros, tão cheio de cores... Um rumor
familiar ouviu-se à porta. Era a volta do cinema. Ana Beatriz ia
contar-lhe o filme todo, com certeza. O rumor — passos e vozes —
encheu a casa.
— Tudo
azul? — perguntou Ana Beatriz, entrando na sala. — Tudo azul —
respondeu Maria Alice.
Orígenes
Lessa, in Os cem melhores contos brasileiros do século
Raízes
Ehrenburg,
que lia e traduzia meus versos, implicava:
– Raiz
demais, demasiadas raízes em teus versos. Por que tantas?
É
verdade. As terras da fronteira meteram suas raízes em minha poesia
e nunca puderam sair dela. Minha vida é uma longa peregrinação que
sempre dá voltas, que sempre retorna ao bosque austral, à selva
perdida.
Ali
as grandes árvores foram tombadas às vezes por setecentos anos de
vida poderosa ou desenraizadas pela turbulência ou queimadas pela
neve ou destruídas pelo incêndio. Senti cair na profundidade do
bosque as árvores titânicas: o carvalho que cai com um som de
catástrofe surda, como se golpeasse com uma mão colossal as portas
da terra pedindo sepultura.
Mas
as raízes ficam a descoberto, entregues ao tempo inimigo, à
umidade, aos líquens, à aniquilação sucessiva.
Nada
mais belo que essas grandes mãos abertas, feridas e queimadas, que
atravessando-se em uma senda do bosque nos dizem o segredo da árvore
enterrada, o enigma que sustentava a folhagem, os músculos profundos
da dominação vegetal. Trágicas e hirsutas, mostram-nos uma nova
beleza. São esculturas da profundidade, obras-primas e secretas da
natureza.
Certa
vez, andando com Rafael Alberti entre cascatas, matagais e bosques,
cerca de Osorno, ele me fazia observar que cada ramagem se
diferenciava da outra, que as folhas pareciam competir na infinita
variedade do estilo.
– Parecem
escolhidas por um paisagista botânico para um parque estupendo –
dizia.
Anos
depois, em Roma, Rafael recordava aquele passeio e a opulência
natural de nossos bosques.
Assim
era – e não é assim. Penso com melancolia em minhas andanças de
menino e de adolescente entre Boroa e Carahue ou até Toltén nas
elevações da costa. Quantos descobrimentos! O garbo da caneleira e
sua fragrância depois da chuva, os líquens cuja barba de inverno
fica suspensa dos rostos inumeráveis do bosque!
Eu
empurrava as folhas mortas, tratando de encontrar o relâmpago de
alguns coleópteros: os cárabos dourados vestidos de furta-cor para
dançar um minúsculo balé sob as raízes.
Ou
mais tarde, quando atravessei a cavalo a cordilheira até o lado
argentino, sob a abóbada verde das árvores gigantescas, surgiu um
obstáculo: a raiz de uma delas, mais alta do que nossas montarias,
cortando-nos o passo. Trabalho de força e de facas do mato tornaram
possível a travessia. Aquelas eram como catedrais tombadas: a
magnitude descoberta que nos impunha sua grandeza.
Pablo
Neruda, in Confesso que vivi
04/04/2020
Queijos
Será
inútil escrever um tratado sobre queijos e torná-lo leitura
obrigatória nas escolas de um país onde nunca se viu um queijo. A
palavra “queijo” só tem sentido para quem já comeu queijo. A
compreensão exige um antecedente de experiência. É preciso
primeiro ter a experiência do queijo para depois entender um texto
que fale de queijos. Só de brincadeira, vamos imaginar o que
passaria pela sua cabeça ao ler um texto em que o autor diz: “O
rato roeu o queijo do rei de Roma”, sem que você jamais tivesse
visto um queijo! Sua cabeça iria se esforçar por compreender. Mas,
como não tem experiência alguma de queijos, ela iria procurar no
estoque de experiências que a memória guarda das coisas que um rei
deve ter e que poderiam ser roídas por um rato: sapatos, chapéus,
livros, bolos, cuecas, camisas, cintos, meias... A única coisa que
não sairia do estoque de experiências que a memória guarda seria
um queijo. Daí a afirmação de Nietzsche de que, ao ler, os
leitores tiram do seu estoque de experiências... as suas próprias
experiências. Então estamos condenados a nunca sair das bolhas em
que vivemos? Podemos sair desde que usemos uma chave chamada “a
arte da desconfiança”... Ao ler sobre os queijos que nunca comeu,
você poderia, roído pela curiosidade, fazer uma pesquisa à procura
do país dos queijos. Você iria até lá, comeria um queijo e diria:
“Agora sei o que é um queijo...”. É preciso, antes de mais
nada, desconfiar do nosso estoque de experiências, colocar as nossas
certezas de lado. Aqueles que imaginam que o mundo é do tamanho de
suas experiências ficam autoritários. Frequentemente inquisidores.
É preciso rezar diariamente a reza que Karl Popper nos ensinou: “Nós
não temos a verdade. Nós só podemos dar palpites...”.
Rubem
Alves, in Ostra feliz não faz pérola
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