08/04/2020

A impressionante arte em cerâmica, acrílico, resina e polímero do escultor norte-americano Christopher David White











Acesse o site do artista aqui.

Uma oferta de espaço

Ouçamos Silvia Seoane evocar uma recordação de sua infância em Buenos Aires. Trata-se ainda do paraíso e da voz:

Quando eu era pequena, minha mãe me contava, à noite, com as luzes apagadas, a história de Alice no País das Maravilhas. Não sei se ela tinha lido o romance de Lewis Carroll; não sei se a sua mãe, um irmão mais velho ou uma freira do colégio interno onde ela estudou haviam contado a história para ela. Não sei se ela leu uma versão do romance no Tesouro da juventude, livro de cabeceira de sua infância (que eu imaginava quando criança como a fonte de todas as histórias). Quer dizer, não sei como esse clássico foi parar nas mãos, nos olhos ou nas orelhas de minha mãe.
[...] Sei que ela mantinha um pequeno comércio em nossa casa e que, provavelmente por essa razão, as aventuras daquela Alice, que me contava, aconteciam em um mundo de árvores de chocolate e de cascatas de Fanta Laranja e Coca-Cola. Sei que Alice chegava nesse paraíso depois de passar por um espelho (por isso, eu adorava o armário de remédios do banheiro) e sei que havia o Coelho e a Rainha de Copas.
[...] Eu não me lembro de muitos detalhes da história, mas lembro da voz da minha mãe na escuridão. Lembro, com bastante clareza, o que eu via enquanto ela falava. Lembro da emoção e da maravilhosa sensação alucinada. Sei que eu estava convencida de que, de certa forma, eu era Alice
[...]; todas as noites, um mundo paralelo nascia na voz da minha mãe. Com a sua narrativa, eu atravessava o espelho e entrava ritualmente na ficção. Assim como quando ela me contava a história do rei Davi ou do meu tataravô, soldado no sul da Itália; a história de Pedro e o Lobo e também a do meu tio Oreste, as histórias dos meus bisavós, professores primários na Patagônia no início do século, e a da pedra movediça de Tandil, ao lado da qual minha avó dava aulas (histórias graças às quais, tenho certeza, me tornei professora).
Tantos eram os relatos. Palavras trabalhadas artesanalmente por minha mãe para criar mundos para mim”.

Todas as noites, na escuridão, a voz da mãe de Silvia, alimentada pelo Tesouro da juventude e por algumas epopeias familiares, tecia narrações que encantavam o cotidiano, misturando-o a uma dimensão poética, com árvores de chocolate e cascatas de Fanta Laranja. Aí vemos como a leitura é uma questão de boca: tem a ver com a voz, mas também com os primeiros alimentos que a criança recebe. E sem dúvida por isso que nos hospitais na Colômbia, os mediadores de leitura intervém muito, sob solicitação médica, junto às crianças em estado de desnutrição. Pensemos também em Marc Soriano, salvando-se da anorexia graças a Pinóquio.
Porém, na cena descrita por Silvia, não é o prazer de retornar ao colo materno que predomina. Nem mesmo a fascinação recíproca da mãe e da criança. Por meio de suas palavras, sua mãe abre o lugar do Outro. O Outro são todas as pessoas das gerações passadas que se encontram na sua voz, o antepassado soldado, o tio Oreste, os bisavós professores, cujas proezas transmite, introduzindo a filha no tempo histórico do século passado como no tempo bíblico do rei Davi, e em um espaço imenso que se estende até a Patagônia e o sul da Itália. As histórias contadas fazem com que ela corra para além do espelho, atravesse outras terras; engrandecem sua vida.
Oral ou escrita, a literatura é uma oferta de espaço. As palavras não cansam de revelar paisagens, passagens, “como se a sua essência fosse bem mais espacial do que verbal, como se o seu fundamento geográfico formasse o seu alicerce de sentido”, escreve Georges-Arthur Goldschmidt. Antes de tudo, é talvez um espaço que é encontrado nas palavras lidas, de modo vital, ainda mais para quem não dispõe de nenhum lugar, nenhum território pessoal, nenhuma margem de manobra.
Michèle Petit, in A arte de ler: ou como resistir à adversidade

07/04/2020

Empobrecimento da imagem

O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa era a
imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás
de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta que o
rio faz por trás de sua casa se chama enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que
fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.
Manoel de Barros

Janela de abril

Tudo tão nítido! O céu rentinho às pedras. Pode-se enxergar até os nomes que andaram traçando a carvão naquele muro. Mas, mesmo que o céu soubesse ler, isso não teria agora a mínima importância. E sente-se que Nosso Senhor, em comemoração de abril, instituirá hoje valiosos prêmios para o riso mais despreocupado, para o sapato mais rinchador, para a pandorga mais alta sobre o morro.
Mário Quintana, in Sapato florido

Calvin e Haroldo


Papo cabeça

Então, no meio daquele coquetel de inauguração de qualquer coisa, entre uma mulher que insistia em falar no Uri Geller e um homem que citava Peter Drucker sem parar (ah, os novos profetas!), e fazendo o possível para não ser visto pela grande senhora que há pouco o ameaçara com uma nova teoria da comunicação que trazia escondida entre os seios, ele procurou alívio numa bandeja que passava. Confortai-me com canapés que desfaleço de banalidades.
E pensar que aquela mesma espécie já dera tantos gênios. Compositores, pintores, escritores, pensadores... se fosse possível reuni-los todos num imenso coquetel. Que vitalidade. Que brilho. Principalmente, que conversas!
Imaginemos que aqueles dois ali, em vez de serem um empresário notoriamente analfabeto e um político que fala português de anedota, fossem, digamos, Beethoven e Vincent van Gogh. Aproximemo-nos para ouvir o que dizem os gênios.
Van Gogh aponta para um dos seus ouvidos.
Fala neste aqui que com o outro eu não ouço.
E Beethoven:
Hein? — Fala no outro ouvido. Desse lado não escuto nada.
O quê?
Hein?
Como?
O outro ouvido! O outro ouvido!
Está bem, não é um bom exemplo. O Picasso chegaria de bermuda e beliscando as mulheres, também não serve. De repente bateriam à porta, o mordomo iria abrir e não veria ninguém. Fecharia a porta, intrigado, e ouviria batidas outra vez. Abriria de novo, sem ver ninguém. E então ouviria uma voz vindo de baixo:
Sou eu, seu filho de um cão sarnento com uma faxineira da Antuérpia!
É Toulouse-Lautrec. Mais tarde William Faulkner, a caminho do seu décimo sétimo bourbon, tropeçará nele e cairá ao comprido no tapete diante de Oscar Wilde que, girando seu absinto no copo, dirá:
Eu gosto de ter admiradores, mas isso é ridículo.
Aposto que eles ensaiaram antes só para ele poder dizer a frase — dirá George Bernard Shaw para Sócrates, a seu lado. Este olha com desconfiança para o copo que tem na mão.
O que será que estão me dando? — pergunta Sócrates.
Se não é scotch é porcaria — setencia Shaw.
A última bebida que me deram era cicuta.
O rosto de Shaw se ilumina com a deixa.
Cicuta, pra mim, é um veneno...
Shaw sai de grupo em grupo para contar a própria frase, às gargalhadas, mas a repercussão não é boa. Kant e Victor Hugo se desentenderam por alguma razão, trocaram insultos e o ambiente ficou pesado. E Wagner martelando no piano com as duas mãos abertas não está ajudando nada. Beethoven é o único que não se incomoda. Van Gogh tapa uma orelha. Salvador Dali tapa os olhos para não ouvir.
Ouve-se um grito vindo de trás de uma porta fechada. A porta se abre e uma mulher seminua sai correndo. Minutos depois, pela mesma porta, ajeitando a gravata, aparece o Marquês de Sade e explica:
Não é o que vocês estão pensando. Nós estávamos tendo uma discussão filosófica na cama e aí surgiu um hindu louco e puxou o lençol.
Por trás do marquês aparece Mahatma Ghandi, envolto no lençol e pedindo desculpas.
É que derramei Coca-cola na minha outra roupa e...
Hemingway, rodeado por simbolistas franceses e segurando o copo como uma granada, argumenta:
Eu (obscenidade) no leite do simbolismo. Eu (obscenidade) no leite das proparoxítonas maricas.
Aristóteles, que tem um copo de leite na mão, afasta-se do grupo prudentemente. A tensão na sala é enorme. Alguém pede silêncio. Vai haver um discurso. O orador é Rui Barbosa. Ouvem-se murmúrios e gemidos. Muita gente começa a se dirigir para a porta de saída tentando não dar na vista.
Não, pensou ele, mastigando um quadradinho de pão coberto com uma pasta vagamente marinha. Seria ótimo reunir os gênios. Mas não num coquetel. Definitivamente, não num coquetel.
Luís Fernando Veríssimo, in Banquete com os deuses

Yatao | Phoenix | Handpan&Didge

Um enterro

Naquele dia feriamos. Encontrei à porta da escola os meninos em alvoroço, e alguém nos guiou a uma casa distante, onde mulheres chorosas punham estrelinhas no manto que adornava um cadáver pequeno, transformado em anjo. Findo esses retoques, o choro aumentou e quatro alunos seguraram as alças do caixão azul. Saímos, andamos caminhos esburacados, lamacentos, subimos uma ladeira íngreme e, escorregando no barro vermelho, alcançamos paredes brancas, simples manchas vistas lá debaixo, agora altas e largas, zebradas de verde. Atravessei o portão.
Nunca havia entrado em cemitérios e habituara-me a receá-los, por causa dos espectros que me descreviam na cozinha. À noite essas narrações davam-me tremuras, arrepiavam-me os cabelos. A treva se enchia de mistérios, as labaredas fumacentas do fogão viviam, acompanhavam a dança das bruxas. Ali, porém, na claridade forte do sol, os terrores se dissipavam. O bando de crianças ria, espalhava-se nas ruas estreitas, galgava montículos fofos, alinhados. Largou-se à beira de uma cova o caixão azul, o velho Simeão escondeu-o, tomou a pá e cobriu-o de terra, fabricou uma espécie de canteiro. Ouvi as pancadas ocas, indiferente à cerimônia. Lembrava-me do que se dizia do coveiro, lento, de mãos trêmulas.
Perdera a família, despojara-se de todos os interesses que o prendiam à vida e, quase na decrepitude, só estimava a companhia dos mortos. Calejara no ofício.
Como as pernas trôpegas exigiam repouso, descia raro à cidade. Consumia o resto das forças à sombra dos túmulos, arrancando ervas nocivas, podando roseiras. E concluída a tarefa, sossegava em cima de uma catacumba e dormia.
Quando o achassem teso, não seria preciso transportá-lo em viagem difícil: deixá-lo-iam entre as suas plantas. Essa figura engelhada me tranquilizava.
Simeão vivia com defuntos — e nunca um deles o incomodara. Homem poderoso. Ou então os defuntos eram bem fracos.
Distanciei-me, fui examinar flores roxas de louça, cabeças de lagartixas nas rachaduras dos sepulcros. As narrativas noturnas — diabos com olhos de brasas, cachorros mastigando pedaços de carne podre — sumiam-se. E o medo também cessava, no trabalho de adivinhar nomes e datas que desbotavam nas lousas. O que eu sentia era nojo. Nojo das pedras, dos tijolos, dos garranchos, certamente impregnados de óleo. Receava tocar em objetos sujos de gordura fúnebre, indelével. Farrapos sem cor, folhas secas, pétalas murchas, fragmentos vagos, juntos em lixo, nauseavam-me: apesar de lavados pelo inverno, queimados pelo verão, deviam conter pus ou tutano.
Arredei-me para um canto, onde o muro se abria. Era um ossuário. Vi esqueletos em desordem, arcarias de costelas emaranhando-se umas às outras, rosários de vértebras. No monte lúgubre, uma caveira me espiava e parecia zombar de mim. Nunca me viera à idéia semelhante horror. Um acervo de porcarias. Difícil imaginá-las frações de pessoas, misturadas, decompondo-se num monturo. O crânio avultava, para bem dizer adquiria feições, tinha vontade de falar. As minhas mãos se umedeceram, a vista se turvou. Zangava-me por não conseguir afastar-me, correr na relva com os garotos, ver, de espírito leve, os pássaros, as roseiras do velho Simeão. Preso ao depósito sinistro, um nó a apertar-me as goelas, senti desejo de chorar. Sentimento diverso do que me assaltava quando ouvia histórias de casas mal-assombradas. O desespero me paralisava. Asco, a sensação de me achar caído numa estrumeira, sem poder limpar-me, e a certeza de haver em qualquer parte irremediável estrago. Aquilo era feio e triste. E a feiúra e a tristeza se animavam, arreganhavam dentes fortes e queriam morder-me. Engano: indiferença, imobilidade. A imobilidade e a indiferença me atraíam. Tentei invocar as almas penadas, os diabos que se agitam nas chamas eternas. Essas criaturas me inspiravam piedade ou terror.
Diante das carcaças nuas, era impossível comover-me. Loucura supor que mangassem de mim.
Longamente estive a contemplar as ruínas, ignoro como e quando me retirei. Decerto os colegas foram buscar-me. Não me recordo.
Entrei em casa mergulhado numa sombra espessa. À mesa, repeli a comida. Meus parentes não perceberam o fastio, deixaram-me só, os cotovelos sobre a tábua, reparando nas laranjeiras da vizinhança. Anoiteceu, um negrume tingiu a folhagem, não trouxeram luz, os pequenos se recolheram. Deitei-me num banco, as juntas estalaram. A escuridão cresceu. Fechei os olhos. Mexi os dedos, procurei as falanges, apalpei os braços, o tronco, o pescoço. Tateei o couro cabeludo, forcejando por descobrir lá embaixo as suturas e as saliências.
Toquei as maxilas e os zigomas. Contornei as órbitas, esfreguei as pálpebras: o globo se deslocava devagar. Imundície. As pálpebras e o globo iam apodrecer, estavam apodrecendo. Só o esqueleto resistiria. Ossos. Aquela miséria segurava-se a mim, e não havia jeito de eliminá-la. Uma caveira me acompanharia por toda a parte, estaria comigo na cama, nas horas de brinquedo, nos desalentos, curvar-se-ia sobre páginas enfadonhas e aguentaria cocorotes. Ia encher-se de noções e de sonhos, esvaziar-se, descansar num ossuário, ao sol, à chuva, mostrar os dentes às crianças. Acabar-me-ia assim. Não interrompia o exame das órbitas, e as cavidades horríveis se alargavam e aprofundavam, semelhantes aos dois buracos que me haviam observado no cemitério. Os moleques pairavam na cozinha, certamente sentados no pilão, aquecendo-se ao fogo, embebendo-se em maravilhas extraterrenas. Em momentos ordinários teria ido entender-me com eles, afrontar duendes e gigantes ferozes. Ali deitado no banco, não me vinha a necessidade de comunicar-me, fortalecer-me na companhia dos negrinhos. Os duendes e os gigantes eram só palavras, os inimigos indeterminados que vivem na treva se dispersaram. Intentei recordar-me deles, assustar-me. Debalde. Lá fora cantavam grilos, o vento zumbia nos ramos das laranjeiras e na cerca de pau-a-pique, vaga-lumes e baratas começavam a manifestar-se, os moleques cochichavam. Apenas. E cá dentro — um feixe de ossos. Apenas. A carne se eriçava, o sangue badalava na artéria.
Isso tudo seria gasto pelos vermes. A imagem horrorosa se obstinava. As imagens também seriam gastas pelos vermes. Então para que me fatigar, rezar, ir à loja e à escola, receber castigos da mestra, escaldar os miolos na soma e na diminuição? Para que, se os miolos iam derreter-se, abandonar a caixa inútil? O que mais me impressionava eram as órbitas: a pesquisa minuciosa prosseguia e achava-as desertas. Ocas e sombrias, como as outras. E o resto? Não havia resto. Ali não havia nada. Aqui não haveria nada. O velho Simeão habituara-se a dormir à luz dos fogos-fátuos, que já não eram amantes falecidos em incesto, perseguindo-se, repelindo-se, entre as sepulturas. Libertara-se de crenças, fugira ao sobrenatural. E resignava-se. Eu não podia resignar-me. As almas do outro mundo e os lobisomens adquiriam muito valor, faziam-me falta.
Estas letras me pareceriam naquele tempo confusas e pedantes. Mas o artifício da composição não exclui a substância do fato. Esforcei-me por destrinçar as coisas inomináveis existentes no meu espírito infantil, numa balbúrdia. É por terem sido inomináveis que agora se apresentam duvidosas.
Afinal não me surgiam dificuldades. Haviam-me exposto várias lendas. Vencida a resistência inicial, pusera-me a confirmá-las. Negava-as de repente em globo, sem análises. Não me embaraçava em dúvidas. Tinha dito sim; entrava a dizer não: uma caveira motivava o desmoronamento.
Não pretendo insinuar, porém, que me haja encerrado no ateísmo, diferençando-me dos meninos vulgares. Nem sequer pensei em Deus.
O que me inquietava eram as almas. E a minha não morreu de todo. Aquele enorme desengano passou. Os fantasmas voltaram, abrandaram-me a solidão.
Sumiram-se pouco a pouco e foram substituídos por outros fantasmas.
Graciliano Ramos, in Infância

06/04/2020

O esmagamento das gotas

Eu não sei, olhe, é terrível como chove. Chove o tempo todo, lá fora fechado e cinza, aqui contra a sacada com gotões coalhados e duros que fazem plaf e se esmagam como bofetadas um atrás do outro, que tédio. Agora aparece a gotinha no alto da esquadria da janela, fica tremelicando contra o céu que esmigalha em mil brilhos apagados, vai crescendo e balouça, já vai cair e não cai, não cai ainda. Está segura com todas as unhas, não quer cair e se vê que ela se agarra com os dentes enquanto lhe cresce a barriga, já é uma gotona que pende majestosa e de repente zup, lá vai ela, plaf, desmanchada, nada, uma viscosidade no mármore. Mas há as que se suicidam e logo se entregam, brotam na esquadria e de lá mesmo se jogam, parece-me ver a vibração do salto, suas perninhas desprendendo-se e o grito que as embriaga nesse nada do cair e aniquilar-se.
Júlio Cortázar, in Histórias de Cronópios e de Famas

Curta: Smash and Grab

Lavoura Arcaica - 29

O tempo, o tempo, o tempo e suas águas inflamáveis, esse rio largo que não cansa de correr, lento e sinuoso, ele próprio conhecendo seus caminhos, recolhendo e filtrando de vária direção o caldo turvo dos afluentes e o sangue ruivo de outros canais para com eles construir a razão mística da história, sempre tolerante, pobres e confusos instrumentos, com a vaidade dos que reclamam o mérito de dar-lhe o curso, não cabendo contudo competir com ele o leito em que há de fluir, cabendo menos ainda a cada um correr contra a corrente, ai daquele, dizia o pai, que tenta deter com as mãos seu movimento: será consumido por suas águas; ai daquele, aprendiz de feiticeiro, que abre a camisa para um confronto: há de sucumbir em suas chamas, que toda mudança, antes de ousar proferir o nome, não pode ser mais que insinuada; o tempo, o tempo, o tempo e suas mudanças, sempre cioso da obra maior, e, atento ao acabamento, sempre zeloso do concerto menor, presente em cada sítio, em cada palmo, em cada grão, e presente também, com seus instantes, em cada letra desta minha história passional, transformando a noite escura do meu retorno numa manhã cheia de luz, armando desde cedo o cenário para celebrar a minha páscoa, retocando, arteiro e lúdico, a paisagem rústica lá de casa, perfumando nossas campinas ainda úmidas, carregando as cores de nossas flores, traçando com engenho as linhas do seu teorema, atraindo, debaixo de uma enorme peneira azul, muitas pombas em revoada, trazendo desde as primeiras horas para a fazenda nossos vizinhos e as famílias inteiras de nossos parentes e amigos lá da vila, entre eles divertidos tagarelas e crianças muito traquinas, tecendo agitações frívolas e ruídos muito propícios, Zuleika e Huda, ajudadas por amigas, já transportavam contentes garrafões de vinho, correndo sucessivas vezes todos os copos, despejando risonhas o sangue decantado e generoso em todos os corpos, recebido sempre com saudações efusivas que eram prenúncio de uma gorda alegria, e foi no bosque atrás da casa, debaixo das árvores mais altas que compunham com o sol o jogo alegre e suave de sombra e luz, depois que o cheiro da carne assada já tinha se perdido entre as muitas folhas das árvores mais copadas, foi então que se recolheu a toalha antes estendida por cima da relva calma, e eu pude acompanhar assim recolhido junto a um tronco mais distante os preparativos agitados para a dança, os movimentos irrequietos daquele bando de moços e moças, entre eles minhas irmãs com seu jeito de camponesas, nos seus vestidos claros e leves, cheias de promessas de amor suspensas na pureza de um amor maior, correndo com graça, cobrindo o bosque de risos, deslocando as cestas de frutas para o lugar onde antes se estendia a toalha, os melões e as melancias partidas aos gritos da alegria, as uvas e as laranjas colhidas dos pomares e nessas cestas com todo o viço bem dispostas sugerindo no centro do espaço o mote para a dança, e era sublime essa alegria com o sol descendo espremido entre as folhas e os galhos, se derramando às vezes na sombra calma através de um facho poroso de luz divina que reverberava intensamente naqueles rostos úmidos, e foi então a roda dos homens se formando primeiro, meu pai de mangas arregaçadas arrebanhando os mais jovens, todos eles se dando rijo os braços, cruzando os dedos firmes nos dedos da mão do outro, compondo ao redor das frutas o contorno sólido de um círculo como se fosse o contorno destacado e forte da roda de um carro de boi, e logo meu velho tio, velho imigrante, mas pastor na sua infância, puxou do bolso a flauta, um caule delicado nas suas mãos pesadas, e se pôs então a soprar nela como um pássaro, suas bochechas se inflando como as bochechas de uma criança, e elas inflavam tanto, tanto, e ele sanguíneo dava a impressão de que faria jorrar pelas orelhas, feito torneiras, todo o seu vinho, e ao som da flauta a roda começou, quase emperrada, a deslocar-se com lentidão, primeiro num sentido, depois no seu contrário, ensaiando devagar a sua força num vaivém duro e ritmado ao toque surdo e forte dos pés batidos virilmente contra o chão, até que a flauta voou de repente, cortando encantada o bosque, correndo na floração do capim e varando os pastos, e a roda então vibrante acelerou o movimento circunscrevendo todo o círculo, e já não era mais a roda de um carro de boi, antes a roda grande de um moinho girando célere num sentido e ao toque da flauta que reapanhava desvoltando sobre seu eixo, e os mais velhos que presenciavam, e mais as moças que aguardavam a sua vez, todos eles batiam palmas reforçando o novo ritmo, e quando menos se esperava, Ana (que todos julgavam sempre na capela) surgiu impaciente numa só lufada, os cabelos soltos espalhando lavas, ligeiramente apanhados num dos lados por um coalho de sangue (que assimetria mais provocadora!), toda ela ostentando um deboche exuberante, uma borra gordurosa no lugar da boca, uma pinta de carvão acima do queixo, a gargantilha de veludo roxo apertando-lhe o pescoço, um pano murcho caindo feito flor da fresta escancarada dos seios, pulseiras nos braços, anéis nos dedos, outros aros nos tornozelos, foi assim que Ana, coberta com as quinquilharias mundanas da minha caixa, tomou de assalto a minha festa, varando com a peste no corpo o círculo que dançava, introduzindo com segurança, ali no centro, sua petulante decadência, assombrando os olhares de espanto, suspendendo em cada boca o grito, paralisando os gestos por um instante, mas dominando a todos com seu violento ímpeto de vida, e logo eu pude adivinhar, apesar da graxa que me escureceu subitamente os olhos, seus passos precisos de cigana se deslocando no meio da roda, desenvolvendo com destreza gestos curvos entre as frutas e as flores dos cestos, só tocando a terra na ponta dos pés descalços, os braços erguidos acima da cabeça serpenteando lentamente ao trinado da flauta mais lento, mais ondulante, as mãos graciosas girando no alto, toda ela cheia de uma selvagem elegância, seus dedos canoros estalando como se fossem, estava ali a origem das castanholas, e em torno dela a roda passou a girar cada vez mais veloz, mais delirante, as palmas de fora mais quentes e mais fortes, e mais intempestiva, e magnetizando a todos, ela roubou de repente o lenço branco do bolso de um dos moços, desfraldando-o com a mão erguida acima da cabeça enquanto serpenteava o corpo, ela sabia fazer as coisas, essa minha irmã, esconder primeiro bem escondido sob a língua sua peçonha e logo morder o cacho de uva que pendia em bagos túmidos de saliva enquanto dançava no centro de todos, fazendo a vida mais turbulenta, tumultuando dores, arrancando gritos de exaltação, e logo entoados em língua estranha começaram a se elevar os versos simples, quase um cântico, nas vozes dos mais velhos, e um primo menor e mais gaiato, levado na corrente, pegou duas tampas de panelas fazendo os pratos estridentes, e ao som contagiante parecia que as garças e os marrecos tivessem voado da lagoa pra se juntarem a todos ali no bosque, e Ana, sempre mais ousada, mais petulante, inventou um novo lance alongando o braço, e, com graça calculada (que demônio mais versátil!), roubou de um circundante a sua taça, logo derramando sobre os ombros nus o vinho lento, obrigando a flauta a um apressado retrocesso lânguido, provocando a ovação dos que a cercavam, era a voz surda de um coro ao mesmo tempo sacro e profano que subia, era a comunhão confusa de alegria, anseios e tormentos, ela sabia surpreender, essa minha irmã, sabia molhar a sua dança, embeber a sua carne, castigar a minha língua no mel litúrgico daquele favo, me atirando sem piedade numa insólita embriaguez, me pondo convulso e antecedente, me fazendo ver com espantosa lucidez as minhas pernas de um lado, os braços de outro, todas as minhas partes amputadas se procurando na antiga unidade do meu corpo (eu me reconstruía nessa busca! que salmoura nas minhas chagas, que ardência mais salubre nos meus transportes!), eu que estava certo, mais certo do que nunca, de que era para mim, e só para mim, que ela dançava (que reviravoltas o tempo dava! que osso, que espinho virulento, que glória para o meu corpo!), e eu, sentado onde estava sobre uma raiz exposta, num canto do bosque mais sombrio, eu deixei que o vento que corria entre as árvores me entrasse pela camisa e me inflasse o peito, e na minha fronte eu sentia a carícia livre dos meus cabelos, e nessa postura aparentemente descontraída fiquei imaginando de longe a pele fresca do seu rosto cheirando a alfazema, a boca um doce gomo, cheia de meiguice, mistério e veneno nos olhos de tâmara, e os meus olhares não se continham, eu desamarrei os sapatos, tirei as meias e com os pés brancos e limpos fui afastando as folhas secas e alcançando abaixo delas a camada de espesso húmus, e a minha vontade incontida era de cavar o chão com as próprias unhas e nessa cova me deitar à superfície e me cobrir inteiro de terra úmida, e eu nessa senda oculta mal percebi de início o que se passava, notei confusamente Pedro, sempre taciturno até ali, buscando agora por todos os lados com os olhos alucinados, descrevendo passos cegos entre o povo imantado daquele mercado — a flauta desvairava freneticamente, a serpente desvairava no próprio ventre, e eu de pé vi meu irmão mais tresloucado ainda ao descobrir o pai, disparando até ele, agarrando-lhe o braço, puxando-o num arranco, sacudindo-o pelos ombros, vociferando uma sombria revelação, semeando nas suas ouças uma semente insana, era a ferida de tão doída, era o grito, era sua dor que supurava (pobre irmão!), e, para cumprir-se a trama do seu concerto, o tempo, jogando com requinte, travou os ponteiros: correntes corruptas instalaram-se comodamente entre vários pontos, enxugando de passagem a atmosfera, desfolhando as nossas árvores, estorricando mais rasteiras o verde das campinas, tingindo de ferrugem nossas pedras protuberantes, reservando espaços prematuros para logo erguer, em majestosa solidão, as torres de muitos cáctus: a testa nobre de meu pai, ele próprio ainda úmido de vinho, brilhou um instante à luz morna do sol enquanto o rosto inteiro se cobriu de um branco súbito e tenebroso, e a partir daí todas as rédeas cederam, desencadeando-se o raio numa velocidade fatal: o alfanje estava ao alcance de sua mão, e, fendendo o grupo com a rajada de sua ira, meu pai atingiu com um só golpe a dançarina oriental (que vermelho mais pressuposto, que silêncio mais cavo, que frieza mais torpe nos meus olhos!), não teria a mesma gravidade se uma ovelha se inflamasse, ou se outro membro qualquer do rebanho caísse exasperado, mas era o próprio patriarca, ferido nos seus preceitos, que fora possuído de cólera divina (pobre pai!), era o guia, era a tábua solene, era a lei que se incendiava — essa matéria fibrosa, palpável, tão concreta, não era descarnada como eu pensava, tinha substância, corria nela um vinho tinto, era sanguínea, resinosa, reinava drasticamente as nossas dores (pobre família nossa, prisioneira de fantasmas tão consistentes!), e do silêncio fúnebre que desabara atrás daquele gesto, surgiu primeiro, como de um parto, um vagido primitivo
Pai!
e de
outra voz, um uivo cavernoso, cheio de
desespero
Pai!
e de todos os lados, de Rosa, de Zuleika e de Huda, o mesmo gemido desamparado
Pai!
eram balidos estrangulados
Pai! Pai!
onde a nossa segurança? onde a nossa proteção?
Pai!
e de Pedro, prosternado na terra
Pai!
e vi Lula, essa criança tão cedo transtornada, rolando no chão
Pai! Pai!
onde a união da família?
Pai!
e vi a mãe, perdida no seu juízo, arrancando punhados de cabelo, descobrindo grotescamente as coxas, expondo as cordas roxas das varizes, batendo a pedra do punho contra o peito
Iohána! Iohána! Iohána!
e foram inúteis todos os socorros, e recusando qualquer consolo, andando entre aqueles grupos comprimidos em murmúrio como se vagasse entre escombros, a mãe passou a carpir em sua própria língua, puxando um lamento milenar que corre ainda hoje a costa pobre do Mediterrâneo: tinha cal, tinha sal, tinha naquele verbo áspero a dor arenosa do deserto.
Raduan Nassar, in Lavoura Arcaica

O real e o ilusório no traço do italiano Marco Melgrati


O primeiro olhar pela janela de manhã

O primeiro olhar pela janela de manhã.
O velho livro redescoberto.
Rostos entusiasmados.
Neve, o câmbio das estações.
O jornal.
O cão.
A dialética.
Duchas, nadar.
Música antiga.
Sapatos cômodos.
Compreender.
Música nova.
Escrever, plantar.
Viajar, cantar.
Ser cordial.
Bertolt Brecht

05/04/2020

Da felicidade

A raiz do mal reside no fato de se insistir demasiadamente que no êxito da competição está a principal fonte da felicidade. Não nego que o sentimento do triunfo torna a vida mais agradável. Um pintor, por exemplo, que viveu obscuramente na juventude, decerto se sentirá feliz se o seu talento acabar por ser reconhecido. Não nego também que o dinheiro, até um certo limite, é capaz de aumentar a felicidade; para lá desse limite, julgo que não. O que eu afirmo é que o êxito só pode ser um dos vários elementos da felicidade e que é demasiado o preço pelo qual se obtém se a ele se sacrificam todos os outros.”
Bertrand Russell, in A conquista da felicidade

Areia Branca

O lotação ia de Copacabana para o centro, com lugares vazios, cada passageiro pensando em sua vida; é o gênero de transporte onde menos viceja a flor da comunicação humana. Quando, em Botafogo, ouviu-se a voz de um senhor lá atrás:
Olhe aqui, vou atender a você, mas não faça mais isso, ouviu? É muito feio pedir dinheiro aos outros. Na sua idade eu já dava duro e ajudava em casa.
E passou a nota ao rapazinho de quinze anos, se tanto, que a recolheu com humildade. O homem continuava, agora dirigindo-se a outro passageiro:
Está vendo? Fica essa garotada aí vivendo de expediente, encontra uns sujeitos como eu, que vão na conversa, e depois…
Isto é um país sem solução, comentou o vizinho. Não há escola profissional para os meninos, andam jogados ao deus-dará, enquanto o governo só faz besteira. Não vê o porta-aviões?
O rapazinho não parecia interessado na crítica ao governo, e mudou de lugar. Foi para junto de outro senhor e expôs-lhe o problema, baixinho.
Como é?
Areia Branca. Lá é minha terra. Tou querendo voltar, falta só 27 cruzeiros…
O homem puxou lentamente a carteira, lentamente extraiu uma nota, passou-a ao rapazinho.
Está vendo?, comentou o senhor do fundo. Aquele ali caiu também, quem é que não cai? Aposto que esse menino não vai pedir àquela senhora da esquerda. Mulher não vai na onda, só tem pena de aleijado e de velhinho.
De fato, o postulante deixou de lado a senhora e a moça que havia no carro, e foi contar a história mais adiante (com êxito) a outro representante do sexo frágil, isto é, masculino.
Oba! Já tenho vinte, daqui a pouco posso ir para Areia Branca.
E foi sentar-se ao lado de outro jovem, que, pelos cadernos de capa grossa na mão, se revelava colegial.
Quer me ajudar? Então inteire minha passagem para Areia Branca.
Não era pedido; era recomendação, em tom natural, tão natural que o estudante não discutiu. Sacou do bolso o macinho de notas miúdas — dinheiro do sorvete e da volta —, contou-as uma por uma e estendeu cinco.
Se você quer ajudar, inteira logo. Mais dois.
O outro passou-lhe os dois, que esperara inutilmente salvar da requisição, e à guisa de agradecimento o beneficiado esticou o dedo:
Espia só o mar: que estouro! Areia Branca é do outro lado.
E levantou-se mais uma vez, foi ao motorista, curvou-se, passou-lhe o braço nas costas, numa conversa particular e macia. O senhor de trás, moralista e observador implacável, ia-lhe acompanhando as evoluções:
Olha só o garoto. Aposto que cantou o motorista para uma carona.
O motorista — de queixo comprido, lembrando agradavelmente o velho Ademir — sem volver o rosto, foi dizendo:
Cai fora, coisinha.
Eu não disse? — comentou o de trás, satisfeito com a própria agudeza.
O lotação parou, o meninote desceu. Aí, intervém a senhora, até então muda e queda como penedo:
Garanto que agora ele vai tomar outro lotação para Copacabana e repetir o golpe.
Não duvido nada — secundou o moralista, meio desapontado porque não lhe havia ocorrido esse desenvolvimento.
O rapazinho atravessou a rua — era no contorno do Morro da Viúva — e parou à espera, na calçada.
Vejam só — continuava exclamando o homem. — Vem com essa conversa de Areia Branca, Areia Branca, um nome tão poético, lembra o Caymmi, a gente não resiste mesmo. Se ele dissesse que queria voltar para Areia Preta, essa não, eu pensava naquela praia do Espírito Santo, em reumatismo, não soltava um níquel. Mas Areia Branca, esse moleque é impossível!
Carlos Drummond de Andrade, in A bolsa & a vida

Selvagens à Procura de Lei - Intuição

As cores

Maria Alice abandonou o livro onde seus dedos longos liam uma história de amor. Em seu pequeno mundo de volumes, de cheiros, de sons, todas aquelas palavras eram a perpétua renovação dos mistérios em cujo seio sua imaginação se perdia. Esboçou um sorriso... Sabia estar só na casa que conhecia tão bem, em seus mínimos detalhes, casa grande de vários quartos e salas onde se movia livremente, as mãos olhando por ela, o passo calmo, firme e silencioso, casa cheia de ecos de um mundo não seu, mundo em que a imagem e a cor pareciam a nota mais viva das outras vidas de ilimitados horizontes.
Como seria cor e o que seria? Conhecia todas pelos nomes, dava com elas a cada passo nos seus livros, soavam aos seus ouvidos a todo momento, verdadeira constante de todas as palestras. Era, com certeza, a nota marcante de todas as coisas para aqueles cujos olhos viam, aqueles olhos que tantas vezes palpara com inveja calada e que se fechavam, quando os tocava, sensíveis como pássaros assustados, palpitantes de vida, sob seus dedos trêmulos, que diziam ser claros. Que seria o claro, afinal? Algo que aprendera, de há muito, ser igual ao branco. Branco, o mesmo que alvo, característica de todos os seus, marca dos amigos da casa, de todos os amigos, algo que os distinguia dos humildes serviçais da copa e da cozinha, às vezes das entregas do armazém. Conhecia o negro pela voz, o branco pela maneira de agir ou falar. Seria uma condição social? Seguramente. Nos primeiros tempos, perguntava. É preto? É branco? Raramente se enganava agora. Já sabia... Nas pessoas, sabia... Às vezes, pelo olfato, outras, pelo tom de voz, quase sempre pela condição. Embora algumas vezes — e aquilo a perturbava — encontrasse também a cor social mais nobre no trato das panelas e na limpeza da casa. Nas paredes, porém, nos objetos, já não sentia aquelas cores. E se ouvia geralmente um tom de desprezo ou de superioridade, quando se falava no negro das pessoas, que envolvia sempre a abstração deprimente da fealdade, o mesmo negro nos gatos, nos cavalos, nas estatuetas, vinha sempre conjugado à ideia de beleza, que ela sabia haver numa sonata de Beethoven, numa fuga de Bach, numa polonaise de Chopin, na voz de uma cantora, num gesto de ternura humana. Que seria a cor, detalhe que fugia aos seus dedos, escapava ao seu olfato conhecedor das almas e dos corpos, que o seu ouvido apurado não aprendia, e que era vermelho nas cerejas, nos morangos e em certas gelatinas, mas nada tinha em comum com o adocicado de outras frutas e se encontrava também nos vestidos, nos lábios (seriam os seus vermelhos também e convidariam ao beijo, como nos anúncios de rádio?), em certas cortinas, naquele cinzeiro áspero da mesinha do centro, em determinadas rosas (e havia brancas e amarelas), na pesada poltrona que ficava à direita e onde se afundava feliz, para ouvir novelas?
Que seria a cor, que definia as coisas e marcava os contrastes, e ora agradava, ora desagradava? E como seria o amarelo, para alguns padrão de mau gosto, mas que tantas vezes provocava entusiasmo nos comentários do mundo onde os olhos viam? E que seria ver? Era o sentido certamente que permitia evitar as pancadas, os tropeções, sair à rua sozinho, sem apoio de bengala, e aquela inquieta procura de mãos divinatórias que tantas vezes falhavam. Era o sentido que permitia encontrar o bonito, sem tocar, nos vestidos, nos corpos, nas feições, o bonito, variedade do belo e de outras palavras sempre ouvidas e empregadas e que bem compreendia, porque o podia sentir na voz e no caráter das pessoas, nas atitudes e nos gestos humanos, no Rêve d’Amour, que executava ao piano, e em muita coisa mais... Ver era saber que um quadro não constava apenas de uma superfície estranha, áspera e desigual, sem nenhum sentido para o seu mundo interior, por vezes bonita, ao seu tato, nas molduras, mas que para os outros figurava casas, ruas, objetos, frutas, peixes, panelas de cobre (tão gratas aos seus dedos), velhos mendigos, mulheres nuas e, em certos casos, mesmo para os outros, não dizia nada...
Claro que via muito pelos olhos dos outros. Sabia onde ficavam as coisas e seria capaz de descrevê-las nos menores detalhes. Conhecia-lhes até a cor... Se lhe pedissem o cinzeiro vermelho, iria buscá-lo sem receio. E sabia dizer, quando tocava em Ana Beatriz, se estava com o vestido bege ou com a blusa lilás. E de tal maneira a cor flutuava em seus lábios, nas palestras diárias, que para todos os familiares era como se a visse também. — Ponha hoje o vestido verde, Ana Beatriz...
Dizia aquilo um pouco para que não dessem conta da sua inferioridade, mais ainda para não inspirar compaixão. Porque a piedade alheia a cada passo a torturava e Maria Alice tinha pudor de seu estado. Seria mais feliz se pudesse estar sempre sozinha como agora, movendo-se como sombra muda pela casa, certa de não provocar exclamações repentinas de pena, quando se contundia ou tropeçava nas idas e vindas do cotidiano labor. — Machucou, meu bem?
Doía mais a pergunta. Certa vez a testa sangrava, diante da família assustada e do remorso de Jorge, que deixara um móvel fora do lugar, mas teimava em dizer que não fora nada.
E quando insistiam, com visita presente, para que tocasse piano, era sistemática a recusa.
Maria Alice é modesta, odeia exibições...
Outro era o motivo. Ela muita vez bem que ardia em desejos de se refugiar no mundo dos sons, para escapar aos mexericos de toda a gente... Mas como a remordia a admiração piedosa dos amigos... As palmas e os louvores vinham sempre cheios de pena e havia grosserias trágicas em certos entusiasmos, desde o espanto infantil por vê-la acertar direitinho com as teclas à exclamação maravilhada de alguns:
Muita gente que enxerga se orgulharia de tocar assim...
Nunca Maria Alice o dissera, mas seu coração tinha ternuras apenas para os que não a avisavam de haver uma cadeira na frente ou não a preveniam contra a posição do abajur.
Eu sei... eu já sei...
E como tinha os outros sentidos mais apurados, sempre se antecipava na descrição das pessoas e coisas. Sabia se era homem ou mulher o recém— chegado, antes que se pusesse a falar. Pela maneira de pisar, por mil e uma sutilezas. Sem que lhe dissessem, já sabia se era gordo ou magro, bonito ou feio. E antes que qualquer outro, lia-lhe o caráter e o temperamento. Àqueles pequeninos milagres de sua intuição e de sua capacidade de observar, todos estavam habituados em casa. Por isso lhe falavam sempre em termos de quem via, para quem via. E nesses termos lhes falava também.
O livro abandonado sobre a mesa, o pensamento de Maria Alice caminhava liberto. Recordava agora o largo tempo que passara no Instituto, onde a família julgara que lhe seria mais fácil aprender a ler. Detestava o ambiente de humildade, raramente de revolta, que lá encontrara. Vivendo em comunidade, sabia facilmente quais os que enxergavam, sem que nenhum destes se desse conta disso ou dissesse que enxergava. Pela simples linguagem, pela maneira de agir o sabia. E ali começara a odiar os dois mundos diferentes, O seu, de humildes e resignados, cônscios de sua inferioridade humana, o outro, o da piedade e da cor. — Me dá o cinzeiro vermelho, Maria Alice... Maria Alice dava.
Vou ao cinema com o vestido claro ou com aquele estampado, Maria Alice?
Maria Alice aconselhava. Ninguém conseguia entender como sabia ela indicar qual o sapato ou a bolsa que ia melhor com este ou aquele vestido. Quase sempre acertava. Assim como ninguém sabia que, com o tempo, Maria Alice fora identificando as cores com sentimentos e coisas. O branco era como barulho de água de torneira aberta. Cor-de-rosa se confundia com valsa. Verde, aprendera a identificá-lo com cheiro de árvore. Cinza, com maciez de veludo. Azul, com serenidade. Diziam que o céu era azul. Que seria o céu? Um lugar, com certeza. Tinha mil e uma ideias sobre o céu. Deus, anjos, glória divina, bem-aventurança, hinos e salmos. Hendel. Bach. Mas sabia haver um outro, material, sobre as pessoas e casas, feito de nuvens, que associava à ideia do veludo, mais própria do cinza, apesar de insistirem em que o céu era azul. Aquelas associações materiais, porém, não a satisfaziam. A cor realmente era o grande mistério. Sentira muitas vezes que o cinza pertencia a substâncias ásperas ou duras. Que o branco estava no mármore duro e na folha de papel, leve e flexível. E que o negro estava num cavalo que relinchava inquieto, com um sopro vigoroso de vida, e na suavidade e leveza de um vestido de baile, mas era ao mesmo tempo a cor do ódio e da negação, a marca inexplicável da inferioridade.
E agora Maria Alice voltava outra vez ao Instituto. E ao grande amigo que lá conhecera. Voltavam as longas horas em que falavam de Bach, de Beethoven, dos mistérios para eles tão claros da música eterna. Lembrava-se da ternura daquela voz, da beleza daquela voz. De como se adivinhavam entre dezenas de outros e suas mãos se encontravam. De como as palavras de amor tinham irrompido e suas bocas se encontrado... De como um dia seus pais haviam surgido inesperadamente no Instituto e a haviam levado à sala do diretor e se haviam queixado da falta de vigilância e moralidade no estabelecimento. E de como, no momento em que a retiravam e quando ela disse que pretendia se despedir de um amigo pelo qual tinha grande afeição e com quem se queria casar, o pai exclamara, horrorizado:
Você não tem juízo, criatura? Casar-se com um mulato? Nunca! Mulato era cor.
Estava longe aquele dia. Estava longe o Instituto, ao qual não saberia voltar, do qual nunca mais tivera notícia, e do qual somente restara o privilégio de caminhar sozinha pelo reino dos livros, tão parecido com a vida dos outros, tão cheio de cores... Um rumor familiar ouviu-se à porta. Era a volta do cinema. Ana Beatriz ia contar-lhe o filme todo, com certeza. O rumor — passos e vozes — encheu a casa.
Tudo azul? — perguntou Ana Beatriz, entrando na sala. — Tudo azul — respondeu Maria Alice.
Orígenes Lessa, in Os cem melhores contos brasileiros do século

O genial Quino

 

Raízes

Ehrenburg, que lia e traduzia meus versos, implicava:
Raiz demais, demasiadas raízes em teus versos. Por que tantas?
É verdade. As terras da fronteira meteram suas raízes em minha poesia e nunca puderam sair dela. Minha vida é uma longa peregrinação que sempre dá voltas, que sempre retorna ao bosque austral, à selva perdida.
Ali as grandes árvores foram tombadas às vezes por setecentos anos de vida poderosa ou desenraizadas pela turbulência ou queimadas pela neve ou destruídas pelo incêndio. Senti cair na profundidade do bosque as árvores titânicas: o carvalho que cai com um som de catástrofe surda, como se golpeasse com uma mão colossal as portas da terra pedindo sepultura.
Mas as raízes ficam a descoberto, entregues ao tempo inimigo, à umidade, aos líquens, à aniquilação sucessiva.
Nada mais belo que essas grandes mãos abertas, feridas e queimadas, que atravessando-se em uma senda do bosque nos dizem o segredo da árvore enterrada, o enigma que sustentava a folhagem, os músculos profundos da dominação vegetal. Trágicas e hirsutas, mostram-nos uma nova beleza. São esculturas da profundidade, obras-primas e secretas da natureza.
Certa vez, andando com Rafael Alberti entre cascatas, matagais e bosques, cerca de Osorno, ele me fazia observar que cada ramagem se diferenciava da outra, que as folhas pareciam competir na infinita variedade do estilo.
Parecem escolhidas por um paisagista botânico para um parque estupendo – dizia.
Anos depois, em Roma, Rafael recordava aquele passeio e a opulência natural de nossos bosques.
Assim era – e não é assim. Penso com melancolia em minhas andanças de menino e de adolescente entre Boroa e Carahue ou até Toltén nas elevações da costa. Quantos descobrimentos! O garbo da caneleira e sua fragrância depois da chuva, os líquens cuja barba de inverno fica suspensa dos rostos inumeráveis do bosque!
Eu empurrava as folhas mortas, tratando de encontrar o relâmpago de alguns coleópteros: os cárabos dourados vestidos de furta-cor para dançar um minúsculo balé sob as raízes.
Ou mais tarde, quando atravessei a cavalo a cordilheira até o lado argentino, sob a abóbada verde das árvores gigantescas, surgiu um obstáculo: a raiz de uma delas, mais alta do que nossas montarias, cortando-nos o passo. Trabalho de força e de facas do mato tornaram possível a travessia. Aquelas eram como catedrais tombadas: a magnitude descoberta que nos impunha sua grandeza.
Pablo Neruda, in Confesso que vivi

04/04/2020

Queijos

Será inútil escrever um tratado sobre queijos e torná-lo leitura obrigatória nas escolas de um país onde nunca se viu um queijo. A palavra “queijo” só tem sentido para quem já comeu queijo. A compreensão exige um antecedente de experiência. É preciso primeiro ter a experiência do queijo para depois entender um texto que fale de queijos. Só de brincadeira, vamos imaginar o que passaria pela sua cabeça ao ler um texto em que o autor diz: “O rato roeu o queijo do rei de Roma”, sem que você jamais tivesse visto um queijo! Sua cabeça iria se esforçar por compreender. Mas, como não tem experiência alguma de queijos, ela iria procurar no estoque de experiências que a memória guarda das coisas que um rei deve ter e que poderiam ser roídas por um rato: sapatos, chapéus, livros, bolos, cuecas, camisas, cintos, meias... A única coisa que não sairia do estoque de experiências que a memória guarda seria um queijo. Daí a afirmação de Nietzsche de que, ao ler, os leitores tiram do seu estoque de experiências... as suas próprias experiências. Então estamos condenados a nunca sair das bolhas em que vivemos? Podemos sair desde que usemos uma chave chamada “a arte da desconfiança”... Ao ler sobre os queijos que nunca comeu, você poderia, roído pela curiosidade, fazer uma pesquisa à procura do país dos queijos. Você iria até lá, comeria um queijo e diria: “Agora sei o que é um queijo...”. É preciso, antes de mais nada, desconfiar do nosso estoque de experiências, colocar as nossas certezas de lado. Aqueles que imaginam que o mundo é do tamanho de suas experiências ficam autoritários. Frequentemente inquisidores. É preciso rezar diariamente a reza que Karl Popper nos ensinou: “Nós não temos a verdade. Nós só podemos dar palpites...”.
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola