03/01/2019

Premonição

Todo mundo já ouviu falar sobre premonição, já viu um ou dois filmes sobre o assunto ― eu vi um em que o personagem principal é um áugure, um sacerdote da antiga Roma que fazia presságios, previa o futuro a partir do canto e do voo das aves. Intuição, pressentimento, presságio, agouro, é tudo a mesma coisa, isto é, porra nenhuma, pura superstição.
Eu namorava ― quer dizer, comia ― uma garota chamada Madeleine. No dia em que a conheci, eu estava no ponto do ônibus e ela passou dirigindo seu carro e perguntou “quer carona?” e eu aceitei. O ônibus da ilha para a cidade demora um tempão para passar. Dentro do carro me apresentei, “meu nome é José”, e ela respondeu, “o meu é Madeleine”.
Brinquei com ela, “você é a Madeleine do Proust?”. Ela não entendeu a piada. Não gosto de mulher burra, mas perdoei a ignorância dela, ninguém lê Proust e, para falar a verdade, ele é um chato.
Você não vai explicar essa história da Madeleine do… do… como é o nome?”
Proust. É um escritor que num dos seus livros, Em busca do tempo perdido, no original À la recherche du temps perdu ― confesso que eu sou um pouco exibicionista, sou bibliotecário e quando o assunto é livro eu gosto de ostentar os meus conhecimentos, mas creio que todo mundo é assim ―, mas como eu dizia, nesse livro o Proust fala do prazer que invadiu os seus sentidos ao comer uns bolinhos que ele chama de petites madeleines. Assim que comeu, imediatamente as vicissitudes da vida deixaram de incomodá-lo, uma nova sensação o dominou, como se o amor o tivesse enchido com uma essência preciosa, e ele deixou de se sentir medíocre, mortal. De onde vinha aquela alegria tão poderosa, o que significava, como defini-la?”
Que história linda”, disse a Madeleine ao meu lado. (É claro que eu não contei o desenlace desta história, isso fica para depois.)
Foi assim que o nosso romance começou. Em pouco tempo Madeleine estava louca por mim, mas eu sabia que o meu interesse por ela ia durar pouco. Isso nada tem a ver com premonição, eu sabia tudo que ia acontecer porque sempre, depois de comer algumas vezes a dona, eu perco o interesse nela.
Esse é o carma das Madeleines. A do Proust, todos sabem, depois que o francês comeu a segunda, o prazer foi menor, e depois de comer a terceira, ainda menor. Era tempo de parar, ele pensou, a poção perdeu a sua magia. É assim com mulher, depois que você comeu várias vezes, a trepada perde o encanto.
A minha Madeleine é muito bonita, é loura, tem olhos azuis e um corpo perfeito. Eu queria dar o bilhete azul a ela, mas não conseguia, não por ela ser bonita, mas devido à viagem diária para a cidade que fazia no seu carro.
Então, ela me perguntou: “Você não gosta mais de mim?”
Por que você pergunta isso?”
Há mais de um mês que nós… que nós…”
Meu amorzinho, a culpa não é sua, você é a mulher mais atraente do mundo, o problema é que eu não estou bem… Alguma doença… não sei…”
Já foi ao médico?”
Claro.”
O que foi que ele disse?”
O que foi que ele disse?”, repeti a frase dela.
Sim, o que foi que ele disse?”
Fiquei em silêncio, sentindo-me um crápula.
O que foi que ele disse?”
Num arroubo, resolvi confessar tudo.
Eu sou assim, perco o interesse depois de algum tempo e não consigo fazer amor com a mesma mulher…”
Não consegue mais fazer amor comigo?”
Não. Me perdoa.”
Foi então que tive a premonição. Estávamos atravessando a ponte, indo para a cidade, e eu vi, como um áugure romano, que ela ia bater na mureta e jogar o carro no mar.
Ouvi o fragor do violento impacto.
Rubem Fonseca, in Amálgama

Celebridades, personagens e bananas

Um leitor me perguntou se era possível transformar uma celebridade em personagem de ficção.
Claro que sim. Quando se trata de ficção, tudo é possível. Depende menos da celebridade e muito mais do talento do escritor. Há celebridades extraordinárias: artistas, poetas, cantores, escritores, empresários, dançarinos, jornalistas. E, por que não dizer, políticos, mas estes são celebridades cada vez menos extraordinárias. Ou mais ordinárias.
Vários romancistas e cineastas se inspiraram em celebridades para compor uma obra. Cidadão Kane, o clássico dirigido por Orson Welles, é um grande filme sobre esse tema. Mas o leitor referia-se a outro tipo de celebridade, a mais vulgar e efêmera de todas, do tipo Big Brother. Aí desconfio quando alguém afirma: “Tal celebridade parece uma personagem”. No máximo, personagens bufos, caricatos: figuras planas e chapadas dotadas de um pensamento rasteiro, de uma felicidade ou infelicidade que nunca convence. Pessoas, enfim, que mascaram seus próprios sentimentos e apenas representam uma vida superficial, ou representam superficialmente um modo de viver. Mas como tudo o que é vulgar é humano, podem muito bem ser personagens. De algum modo, já são diante da câmera. A passagem para a ficção é outra história.
Mas não queria falar dessas celebridades, que lembram frutas da estação. Algumas apodrecem antes do tempo; ou, mastigadas ainda verdes, são um convite à indigestão. Muitas desaparecem no outono, ressurgem no verão e são esquecidas no inverno. Daqui a algum tempo, todas se tornam casca de banana.
Passei da celebridade vulgar à casca de uma fruta. Então vamos à fruta, que é saborosa, milagrosa para a saúde e custa uma mixaria. Sim, leitor. Banana é coisa séria. Li em algum lugar que os mortais viciados em bananas livram-se da depressão. A banana tornou-se uma verdadeira celebridade nas Filipinas. Dizem até que já não há mais asiáticos deprimidos. Isso porque um estudo de laboratório revelou uma alta dose de um antidepressivo natural nesta fruta cuja casca tem duas cores da bandeira do Brasil. Duas? Com um pouco de imaginação, todas as cores, pois há bananas azuladas e embranquecidas. E não geram apenas bom humor. A fruta é rica em vitaminas K, C, A e B6, reduz o risco de lesão cardíaca e aumenta a massa muscular de adultos e crianças.
Mal acabei de ler o artigo científico, corri até a quitanda mais próxima e comprei uma dúzia de bananas. Tracei três antes de dormir. Eu, que sofro de insônia mórbida, dormi como um anjo. O dia amanheceu nublado em São Paulo, mas acordei saltitante, sem sinal de irritação. Depois folheei os jornais e li de relance um bate-boca entre políticos. Era tanto insulto, tanta agressão verbal, que pensei: Por que eles não comem bananas? Falta-lhes uma bananinha na boca, no estômago. Ou na vida. Só uma banana? Um cacho, uma bananada a cada hora do dia com sua noite. É claro que lhes faltam também um naco de compostura, mas seria pedir muito a celebridades tão ordinárias.
Depois li as coisas mais absurdas do mundo, deste mundo insano que nos tocou viver. Mas não me descabelei. Fui às bananas, reli uns poemas de Drummond e escrevi esta crônica sobre uma fruta célebre.
Milton Hatoum, in Um solitário à espreita

02/01/2019

Pensamentos noturnos

Lastimo-vos, ó estrelas infelizes,
Que sois belas e brilhais tão radiosas,
Guiando de bom grado o marinheiro aflito,
Sem recompensa dos deuses ou dos homens:
Pois não amais, nunca conhecestes o amor!
Continuamente horas eternas levam
As vossas rondas pelo vasto céu.
Que viagem levastes já a cabo!,
Enquanto eu, entre os braços da amada,
De vós me esqueço e da meia-noite.
Johann Wolfgang von Goethe

Malandro - Elza Soares, Baby do Brasil e Orquestra Jazz Sinfônica

Silêncio

O silêncio, ainda que mudo, é frequentes vezes tão venal como a palavra.”
Marquês de Maricá, in Máximas

Um pote de chá chinês

Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos céticos refutar os dogmas apresentados — em vez de os dogmáticos terem de prová-los. Essa ideia, obviamente, é um erro. De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um pote de chá chinês girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o pote de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos. Mas se afirmasse que, devido à minha asserção não poder ser refutada, seria uma presunção intolerável da razão humana duvidar dela, com razão pensariam que estou falando uma tolice. Entretanto, se a existência de tal pote de chá fosse afirmada em livros antigos, ensinada como a verdade sagrada todo domingo e instilada nas mentes das crianças na escola, a hesitação de crer em sua existência seria sinal de excentricidade e levaria o cético às atenções de um psiquiatra, numa época esclarecida, ou às atenções de um inquisidor, numa época passada. É costumeiro supor que, se uma crença é bastante difundida, então deve haver algo de razoável nela. Não penso que tal visão possa ser defendida por qualquer indivíduo que tenha estudado História. Praticamente todas as crenças de selvagens são absurdas. Nas civilizações antigas, talvez exista algo em torno de um por certo a respeito do qual haja algo a ser dito. Em nossos próprios dias… neste ponto preciso ser cauteloso. Todos sabemos que há crenças absurdas na URSS. Se formos protestantes, saberemos que há crenças absurdas entre os católicos. Se formos católicos, saberemos que há crenças absurdas entre os protestantes. Se formos conservadores, ficaremos pasmos com as superstições do partido trabalhista. Se formos socialistas, ficaremos espantados com a credulidade dos conservadores. Não sei, caro leitor, quais são suas crenças; mas, sejam quais forem, temos de admitir que nove décimos das crenças de nove décimos da humanidade são completamente irracionais. As crenças em questão são, obviamente, aquelas que você não possui. Não posso, deste modo, pensar que é presunçoso duvidar de algo que foi longamente tido como verdadeiro, especialmente quando esta opinião apenas prevaleceu em certas regiões geográficas, como é o caso de todas as opiniões teológicas.
Minha conclusão é que não há qualquer motivo para julgar que os dogmas da teologia tradicional são verdadeiros — e também nenhum motivo para desejar que fossem. O homem, desde que não esteja subjugado por forças naturais, é livre para construir seu próprio destino. A responsabilidade é sua, assim como a oportunidade.
Bertrand Russell, in Existe um Deus?

Charge de Benett: A pirâmide social do capitalismo


A confissão do velho português

Como o mar se dá bem neste lugar!
Falei assim, naquela tarde. Falava com ninguém? Não, conversava com as ondas lá em baixo. Sou português, Domingos Mourão, nome de nascença. Aqui me chamam Xidimingo. Ganhei afeto desse rebatismo: um nome assim evita canseira de me lembrar de mim. O senhor inspetor me pede agora lembranças de curto alcance. Se quer saber, lhe conto. Tudo sempre se passou aqui, nesta varanda, por baixo desta árvore, a árvore do frangipani.
Minha vida se embebebeu do perfume de suas flores brancas, de coração amarelo. Agora não cheira a nada, agora não é tempo das flores. O senhor é negro, inspetor. Não pode entender como sempre amei essas árvores. É que aqui, na vossa terra, não há outras árvores que fiquem sem folhas. Só esta fica despida, faz conta está para chegar um Inverno. Quando vim para África, deixei de sentir o Outono. Era como se o tempo não andasse, como se fosse sempre a mesma estação. Só o frangipani me devolvia esse sentimento do passar do tempo. Não que eu hoje precise de sentir nenhuma passagem dos dias. Mas o perfume desta varanda me cura nostalgias dos tempos que vivi em Moçambique. E que tempos foram esses!
Quando veio a Independência, faz agora vinte anos, a minha mulher se retirou. Voltou para Portugal. E levou-me o miúdo que já estava em idade de tropear. Na despedida, minha esposa ainda me ralhou assim:
Você fica e eu nunca mais lhe quero ver.
Me sentia como se tivesse entrado num pântano. Minha vontade estava pegajosa, minhas querências estavam atoladas no matope. Sim, eu podia partir de Moçambique. Mas nunca poderia partir para uma nova vida. Sou o quê, uma réstia de nenhuma coisa?
Lhe conto uma história. Me contaram, é coisa antiga, dos tempos de Vasco da Gama. Dizem que havia, nesse tempo, um velho preto que andava pelas praias a apanhar destroços de navios. Recolhia restos de naufrágios e os enterrava. Acontece que uma dessas tábuas que ele espetou no chão ganhou raízes e reviveu em árvore.
Pois, senhor inspetor, eu sou essa árvore. Venho de uma tábua de outro mundo mas o meu chão é este, minhas raízes renasceram aqui. São estes pretos que todos os dias me semeiam. Converso-lhe, lengalengo-lhe? Vou chegando perto, como o besouro que dá duas voltas antes de entrar no buraco. Desculpe-me este meu português, já nem sei que língua falo, tenho a gramática toda suja, da cor desta terra. Não é só o falar que é já outro. É o pensar, inspetor. Até o velho Nhonhoso se entristece do modo como eu me desaportuguesei. Me lembro de, um dia, ele me ter dito:
Você, Xidimingo, pertence a Moçambique, este país lhe pertence. Isso nem é duvidável. Mas não lhe traz um arrepio ser enterrado aqui?
Aqui, onde?, perguntei.
Num cemitério daqui, de Moçambique?
Eu encolhi os ombros. Nem cemitério eu não teria, ali no asilo. Mas Nhonhoso insistiu:
É que os seus espíritos não pertencem a este lugar. Enterrado aqui, você será um morto sem sossego.
Enterrado ou vivo, a verdade é que não tenho sossego. O senhor vai ouvir muita coisa aqui sobre este velho português. Hão-de-lhe dizer que fiz e aconteci. Que até incendiei os campos, que se estendem desde lá atrás. Até que é verdade: sim, eu lancei fogo naqueles matos. Mas foi por motivo meu, a mando só meu. Sempre que olhava as traseiras da fortaleza eu via a savana a perder as vistas. Perante toda aquela devastidão me chegavam instintos de fogo e cinza.
Hoje eu sei: África rouba-nos o ser. E nos vaza de maneira inversa: enchendo-nos de alma. Por isso, ainda hoje me apetece lançar fogo nesses campos. Para que eles percam a eternidade. Para que saiam de mim. É que estou tão desterrado, tão exilado que já nem me sinto longe de nada, nem afastado de ninguém. Me entreguei a este país como quem se converte a uma religião. Agora já não me apetece mais nada senão ser uma pedra deste chão. Mas não uma qualquer, dessas que nunca ninguém há-de pisar. Eu quero ser uma pedra à beira dos caminhos.
Volto à minha história, não se preocupe. Estava onde? Na despedida de minha antiga esposa. Sim. Depois dela partir, vieram os distúrbios, a confusão. Digo-lhe com tristeza: o Moçambique que amei está morrendo. Nunca mais voltará. Resta-me só este espaçozito em que me sombreio de mar. Minha nação é uma varanda.
Nesta pequena pátria me venho espraiando todos estes anos, feito um estuário: vou fluindo, ensonado, meandrando sem atrito. Na sombra, me reiquintei, encostado àquele murmurinho como se fosse meu embalo de nascença. Apenas as cansadas pernas, certas vezes, me inconvinham. Mas os olhos andorinhavam o horizonte, compensando as dores da idade.
Você sabe, caro inspetor, em Portugal há muito mar mas não há tanto oceano. E eu amo tanto o mar que até me dá gosto ficar enjoado. Que faço? Emborco dessas bebidas deles, tradicionais, e me deixo zululuar. Assim, na tontura, eu ganho a ilusão de estar em pleno mar, vagueando sobre um barco. A mesma razão me prende ali, na varanda do frangipani: me abasteço de infinito, me vou embriaguando. Sim, eu sei o perigo disso: quem confunde céu e água acaba por não distinguir vida e morte.
Falo muito do mar? Me deixe explicar, senhor inspector: eu sou como o salmão. Vivo no mar mas estou sempre de regresso ao lugar da minha origem, vencendo a corrente, saltando cascata. Retorno ao rio onde nasci para deixar o meu sêmen e depois morrer. Todavia, eu sou peixe que perdeu a memória. À medida que subo o rio vou inventando uma outra nascente para mim. É então que morro com saudade do mar. Como se o mar fosse o ventre, o único ventre que me ainda faz nascer.
Demasio-me nesta palavreação. Lhe peço desculpa, já perdi hábitos de conviver com pessoas que têm urgências e serviços. É que aqui não existe ninguém que tenha função que seja. Fazer o quê? Digo com meu amigo Nhonhoso: ainda é cedo para fazermos alguma coisa; estamos à espera que seja demasiado tarde. Em todo este asilo sempre fui o único branco. Os restantes são velhos moçambicanos. Todos negros. Eu e eles só temos serviço de esperar. O quê? O senhor devia era se juntar a nós nestes vagares. Não se preocupe, deixe o relógio sossegado. A partir de agora vou mais a direito: recomeço onde fiquei, nesta mesma varanda onde estamos agora.
Pois, aconteceu numa certa tarde, em que aquele tanto azul me parecia derradeiro: a última gaivota, a última nuvem, o último suspiro.
Agora, sim: agora só me resta morrer.
Pensava assim porque, neste lugar, a gente definha, morrendo tão lentamente que nem damos conta. A velhice o que é senão a morte estagiando em nosso corpo? Sob o perfume doce da frangipaneira, invejava o mar que, sendo infinito, espera ainda em outra água se completar. Eu desfiava aquela conversa sozinho. Quando se é velho toda a hora é de conversa. Em voz alta, pedia licença a Deus para, naquele dia, me retirar da vida:
Deus: eu quero morrer hoje!
Ainda me arrepiam aquelas exatas palavras. É que me sentia em sossegada felicidade, nenhuma dor me atrapalhava. Me faltava, no entanto, competência para morrer. Meu peito obedecia à vaivência das ondas, como se tivesse lembranças de um tempo que só existe fora do tempo, lá onde o vento desenrosca a sua imensa cauda. Sorte têm estes meus amigos que acreditam que todo o dia é o terceiro, apto a ressuscitações.
Mas eu requeria morrer naquela tarde que não passava nuvem e o céu estava indeferido para gaivotas. Não era só o mar que me trazia esse desejo de me infindar. Eram as flores do frangipani. Como se me tivesse parenteado com a terra. Como se quem florescesse fosse eu mesmo.
É verdade, a morte não haveria de me doer hoje.
Vê lá que eu ainda te faço a vontade.
Eram palavras que não saíam de mim. Nem notei a chegada de Vasto Excelêncio, esse filho da maior puta. Excelêncio era um mulato, alto e constituído, sempre bem envergado. O tipo riu-se, ombros hasteados:
Queres mesmo morrer, velho? Ou não será que já morreste e, simplesmente, não foste informado?
Aquilo me arranhou, fossem palavras proferidas por garganta de bicho. O mulato prosseguiu, sempre me abestinhando:
Não tenha medo, velho rezingão. Amanhã já vou daqui embora.
Fiquei surpreso, inesparado: o sacana nos deixava, assim? E de que maneira ele se retirava?
Não acredita?
Sacudi a cabeça, em negação. Vasto rondou o tronco do frangipani como o toureiro estuda o pescoço do touro. Se apurava em me magoar:
E sabe que mais, velho? Vou levar comigo a minha mulher. Heim, vou carregar Ernestina. Está ouvir, velho? Não diz nada?
Que nada?
Sem Ernestina quem é que você vai espreitar? Heim? Como será, velho?
Eu me prescindi. Vasto me convidava para raivas e disputas. Eu só podia me escusar. Até que ele se levantou e me puxou com força pelos pulsos.
Quer saber por que sempre lhe tratei mal, Mourão? A você que é um anjo caído dos lusitanos céus?
Fingi pegar o céu com os olhos, apenas para evitar as fuças dele. Recordei os tantos castigos recebidos nesses anos. O diretor assentou os dois pés em cima do meu tornozelo.
Dói? Como pode ser? Os anjos não têm pés!
Assim, pisando-me onde o corpo mais me doía, o mulato me calcava acima de tudo a alma.
Está fingir de pedra? Pois, então: a pedra não é coisa de se pisar?
Aguentei, impestanejável. Os bafos do satanhoco me salpingavam. Um desfile de insultos se estribilhou da boca dele. Me segurou as orelhas e me cuspiu na cara. Foi saindo de cima de mim e se afastou. Então, dei azo a antigas fúrias: peguei numa pedra e apontei à cabeça do sacana. Uma inesperada mão me travou o gesto.
Não faça isso, Xidimingo.
Era Ernestina, a mulher de Excelêncio. Me puxou para o assento de pedra. Suas mãos me desenharam as costas.
Sente aqui. Obedeci.
Ernestina me passou os dedos pelos cabelos. Aspirei o ar em volta: nenhum cheiro me chegou. Era eu que inventava os perfumes dela?
Você não entende as maldades dele, não é?
Não.
É que você é branco. Ele precisa de o maltratar.
E porquê?
Tem medo que o acusem de racismo.
Eu, sinceramente, não entendi. Todavia, estando assim junto dela, eu não requeria nenhum entendimento. Única coisa que fiz foi levantar-me e colher umas tantas flores. Frágeis, as pétalas soltaram-se logo no gesto da oferta. Ernestina levou as mãos ao rosto.
Meu Deus, como eu gosto deste perfume.
Alisei compostura em meu fato de domingo. Eu já não fazia ideia nenhuma sobre os dias e as semanas. Para mim todos os dias tinham sabor de domingo. Talvez eu quisesse apressar o tempo que me restava. Ernestina me perguntou:
O senhor não sente saudade?
Eu?
Quando está assim, olhando o mar, não sente saudade?
Abanei a cabeça. Saudade? De quem? Ao contrário, me sabe bem, esta solidão. Juro, inspetor. Me sabe bem estar longe de todos os meus. Não sentir suas queixas, suas doenças. Não ver como envelhecem. E, mais que tudo, não ver morrer nenhum dos meus. Eu aqui estou longe da morte. É esse um pequenito gosto que me resta. A vantagem de estar longe, nesta distância toda, é não ter nenhuma família. Parentes e antigos amigos estão lá, depois desse mar todo. Os que morrem desaparecem tão longe, é como se fossem estrelas que tombam. Caem sem nenhum ruído, sem se saber onde nem quando.
Me leve a sério, inspetor: o senhor nunca há-de descobrir a verdade desse morto. Primeiro, esses meus amigos, pretos, nunca lhe vão contar realidades. Para eles o senhor é um mezungo, um branco como eu. E eles aprenderam, desde há séculos, a não se abrirem perante mezungos. Eles foram ensinados assim: se abrirem seu peito perante um branco eles acabam sem alma, roubados no mais íntimo. Eu sei o que vai dizer. Você é preto, como eles. Mas lhes pergunte a eles o que veem em si. Para eles você é um branco, um de fora, um que não merece as confianças. Ser branco não é assunto que venha da raça. O senhor sabe, não é verdade? Depois, há ainda mais. É o próprio regime da vida. Eu já não acredito na vida, inspetor. As coisas só fingem acontecer. Excelêncio morreu? Ou simplesmente mutou-se, deixou de se ver?
Termino, inspetor. Assassinei o diretor do asilo. Foi por ciúmes? Não sei. Acho que nunca sabemos o motivo quando matamos por paixão. Agora, já no esfriado do tempo encontro explicação: nessa tarde, ao me despedir de Ernestina, reparei que ela evitava ser olhada de ambos os lados. Percebi, por fim. O seu rosto estava marcado, tingido de ter sido sovado.
Vasto lhe bateu outra vez?
Ela desviou o rosto. Sua mão me alicateou o braço, recomendando-me sossego. Deixe, não é nada , disse. E saiu, cabeça na sombra dos ombros. Aquela mulher que eu tanto queria não era uma simples pessoa. Ela era todas as mulheres, todos os homens que foram derrotados pela vida. Tudo então me apareceu simples: Vasto deveria desaparecer, eu o devia matar o mais breve possível. Simplesmente, esperei pela noite. Nessa hora, ele sempre passava por um corredor estreito, sem tecto, que liga o quarto dele à cozinha. Lhe montei a armadilha lá em cima. Fiz subir uma grande pedra e a deixei, no alto, preparada para cair sobre Vasto Excelêncio.
E agora me deixe só, inspetor. Me custa chamar lembranças. Porque a memória me chega rasgada, em pedaços desencontrados. Eu quero a paz de pertencer a um só lugar, eu quero a tranquilidade de não dividir memórias. Ser todo de uma vida. E assim ter a certeza que morro de uma só única vez. Custa-me ir cumprindo tantas pequenas mortes, essas que apenas nós notamos, na íntima obscuridade de nós. Me deixe, inspetor, que eu acabei de morrer um bocadinho.
Mia Couto, in A varanda do Frangipani

01/01/2019

Preliminares

Chutar aquela pedra do caminho.
Em rua sem saída, dar marcha a ré.
Perder o trem, mas não perder o rebolado.
Apostar no bom humor contra todos os males.
Exercitar a palavra e o silêncio.
Abrir portas secretas.
Reverenciar o mistério.
Escutar conversa de vento, rio, mar, bananeira, passarinho, cachoeira…
Branca Maria de Paula

Calvin e Haroldo


Pequenos mundos de Valparaíso

Morei algumas semanas numa rua estreita de Valparaíso, em frente à casa de Dom Zoilo Escobar. Nossas sacadas quase se tocavam. Meu vizinho saía cedo para o balcão e praticava uma ginástica de anacoreta que revelava a harpa de suas costelas. Sempre vestido com um capote pobre ou com jaquetões surrados, meio marinho, meio arcanjo, havia se retirado faz tempo das navegações, da aduana, da marujada. Todos os dias escovava o traje de gala com perfeição meticulosa. Era uma roupa ilustre de fazenda negra que nunca, por longos anos, envergou, uma roupa que sempre guardou no armário vetusto entre seus tesouros.
Mas seu tesouro mais agudo e mais dilacerador era um violino Stradivarius, conservado zelosamente toda a vida, sem tocá-lo nem permitir que ninguém o tocasse. Dom Zoilo pensava vendê-lo em Nova Iorque, onde dariam uma fortuna pelo instrumento ilustre. Às vezes tirava-o do armário pobre e permitia que o contemplássemos com emoção religiosa. Um dia Dom Zoilo Escobar viajaria para o norte e voltaria sem violino mas carregado de anéis faustosos e com dentes de ouro que substituiriam em sua boca as falhas que o prolongado correr dos anos foi deixando.
Uma manhã não saiu à sacada para a ginástica. Nós o enterramos lá em cima, no cemitério da colina, com a roupa negra que pela primeira vez cobriu seu pequeno esqueleto de ermitão. As cordas do Stradivarius não puderam chorar-lhe a partida. Ninguém sabia tocá-lo. E, além de tudo, o violino não apareceu quando foi aberto o armário. Talvez voou até o mar ou até Nova Iorque para consumar os sonhos de Dom Zoilo.

Valparaíso é secreto, sinuoso, enovelado. A pobreza se derrama nos morros como uma cascata. Sabe-se quanto come e como veste (e também quanto não come e como não veste) a gente inumerável dos morros. A roupa secando embandeira cada casa e a proliferação incessante de pés descalços, que formam uma colmeia no barro, denuncia o amor inextinguível.
Mas perto do mar, na baixada, há casas com sacadas e janelas fechadas onde entra pouca gente. Entre elas a mansão do explorador. Bati muitas vezes seguidas com a aldraba de bronze até que me ouviram. Finalmente aproximaram-se passos leves e um rosto inquiridor entreabriu uma janelinha na porta com desconfiança, com intenção de me deixar de fora. Era a velha criada da casa, uma sombra com xale e avental que apenas sussurrava seus passos.
O explorador, muito velho também, vivia sozinho com a criada na casa espaçosa de janelas fechadas. Eu tinha vindo conhecer sua coleção de ídolos. Enchiam corredores e paredes as criaturas vermelhas, as máscaras estriadas de branco e cinza, as estátuas que reproduziam desaparecidas anatomias de deuses oceânicos, as ressequidas cabeleiras polinésias, os escudos hostis de madeira revestidos de pele de leopardo, colares de dentes ferozes, os remos de botes que cortaram talvez a espuma das águas tormentosas. Facas violentas estremeciam os muros com folhas prateadas que serpenteavam na sombra. Observei que os Deuses masculinos de madeira tinham sido censurados. Os falos estavam cuidadosamente cobertos com tangas de fazenda, a mesma fazenda que tinha servido de xale e avental à criada. Era fácil comprovar. O velho explorador se movia discretamente entre os troféus. Sala após sala, deu explicações - entre peremptórias e irônicas - de quem viveu muito e continua vivendo no rescaldo de suas imagens. Sua barbicha branca parecia a de um fetiche de Samoa. Mostrou as espingardas e as pistolas com as quais perseguiu o inimigo ou com que abateu o antiope e o tigre. Contava as aventuras sem alterar o tom de seu murmúrio. Era como se o sol entrasse, apesar das janelas fechadas, e deixasse somente um pequeno raio, uma pequena mariposa viva que revoluteasse entre os ídolos.
Ao partir, participei-lhe um projeto de viagem às Ilhas, o desejo de sair breve rumo às areias douradas. Então, depois de olhar para todos os lados, aproximou seus ralos bigodes brancos do meu ouvido e me confidenciou tremulamente: “Que ela não saiba nem que venha a saber mas eu também estou preparando uma viagem.”
Ficou assim um instante, com um dedo nos lábios, escutando a provável pisada de um tigre na selva. E logo a porta foi fechada, escura e súbita, como quando cai a noite sobre a África.
Perguntei aos vizinhos:
- Há algum excêntrico novo? Valeu a pena ter regressado a Valparaíso?
Responderam-me:
- Não temos quase nada de bom. Mas seguindo por esta rua toparás com Dom Bartolomé.
- E como vou conhecê-lo?
- Não tem como errar. Viaja sempre numa carroça.
Poucas horas depois eu comprava maçãs numa quitanda quando parou à porta um carro puxado a cavalos, e uma figura alta, desmazelada e vestida de negro desceu dele.
Vinha também comprar maçãs. Levava no ombro um papagaio totalmente verde que logo voou até mim e se empoleirou em minha cabeça sem nenhum constrangimento.
- O senhor é Dom Bartolomé?
- É a pura verdade. Chamo-me Bartolomé - e tirando uma espada longa que levava debaixo da capa passou-a para mim enquanto enchia a cesta com as maçãs e as uvas que comprou. Era uma espada antiga, longa e aguda, com cabo trabalhado por ourives famosos, um cabo que parecia uma rosa aberta.
Não o conhecia e nunca mais voltei a vê-lo. Mas acompanhei-o respeitosamente até a rua, abri em silêncio a porta de sua carruagem para que passasse com sua cesta de frutas e coloquei em suas mãos, com solenidade, o pássaro e a espada.

Pequenos mundos de Valparaíso, abandonados, sem razão e sem tempo, como caixas que ficaram no fundo de uma adega sem nunca ninguém reclamar, sem se saber de onde vieram nem se sairiam dali. Talvez que nestes domínios secretos, nestas almas de Valparaíso, ficaram guardadas para sempre a soberania perdida de uma onda, a tormenta, o sal, o mar que zumbe e estremece. O mar de cada um, ameaçador e contido: um som incomunicável, um movimento solitário que passou a ser farinha e espuma dos sonhos.
Nas vidas excêntricas que descobri me surpreendeu a unidade suprema que mostravam com o porto dilacerador. Acima, pelos morros floresce a miséria em borbotões frenéticos de alcatrão e alegria. Os guindastes, os embarcadouros, o trabalho do homem cobrem a cintura da costa com uma máscara pintada pela felicidade fugidia. Outros porém não chegaram lá em cima, pelas colinas, e nem embaixo pela faina. Guardaram em seu caixão o próprio infinito e seu fragmento de mar.
E o protegiam com as armas próprias enquanto o esquecimento se aproximava deles como a névoa.
Pablo Neruda, in Confesso que vivi

Benito Di Paula - Retalhos de cetim

Desavença italiana

Domingo. Deliciavam-se no café da manhã, dia da semana em que tudo era permitido: queijo gordo, geleias, croissant, ovos com salchicha, até bacon. Combinaram na lua de mel em Cancún que em todos os domingos teriam um café da manhã digno de um resort mexicano.
Liam o jornal e se esbaldavam. Mas de férias, de repente do nada, ela se virou para ele e sugeriu depois de ler o caderno de economia: “Vamos nos separar?”
Ele estava com a xícara erguida. Deteve o movimento. Olhou pensativo. Deu um gole no café. Delicioso. Era ele quem o preparava como um connaisseur. Depositou a xícara sobre o caderno de esporte e respondeu: “Bora.”
Ela estendeu a mão para firmar o pacto: “Promete?”
Ele estendeu a sua. Apertaram, olhos nos olhos: “Prometo.”
Voltaram a ler o jornal. Ele abriu o caderno de cultura, e ela leu os editoriais. Depois de um tempo, ela comentou:
Você aceitou tão rápido. Já tinha pensando nisso?”
Na verdade, não. Tá vendo como mesmo depois de tantos anos você não me conhece?”
Não conheço, mesmo. Achei que ia fazer um escândalo, tentar me convencer do contrário.”
Tô de boa. Você sugeriu com tanta convicção, que achei que é a coisa certa. Senti isso. Reparou como a gente sempre sabe o que o outro está pensando antes de ele falar?”
É o convívio.”
Como você quer fazer?”
Não pensei nisso ainda.”
Posso ir prum flat.”
De boa?”
Sempre quis morar num. Imagine… Você deixa o quarto uma zona, vai trabalhar, volta, e ele está arrumadinho.”
Posso ajudar a decorar?”
Lógico. Você tem um puta bom gosto. Por isso me casei com você. Entre outras coisas…”
Tipo?”
Ah, você é uma baita gostosa, linda…” “Cê acha, é?”
Puxa, agora que vou morar sozinho, vou falar palavrões. Acho tão avançado homem que fala palavrão, desprendido…”
Ela pegou na mão dele, colocou-a no seu rosto, beijou, abaixou para o peito. Ele fez carinhos nela, ela tirou e disse: “Achei que ia brigar pelo apê.”
Nada de separação litigiosa. Acho coisa de gente rancorosa, mal resolvida…”
Meu Deus, o que a gente fala pras crianças?!”
Hum, boa pergunta. Precisamos de um motivo.”
Bora dar um Google.”
Motivos mais comuns em divórcios? Elas não são mais crianças, estão já namorando, na faculdade, daqui a pouco vão morar com amigos, fazer intercâmbio na Espanha. Estão se lixando para nós. Vão até gostar. Terão duas contas bancárias para explorar.”
E pros amigos, o que a gente diz?”
Vamos falar da crise dos sete anos. Sempre tem a desculpa da crise dos sete anos.”
Mas nós somos casados há vinte.”
Vamos dizer que há treze anos a gente não superou a crise dos sete.”
Ninguém vai cair nessa.”
É verdade. Vou dar um Google. Olha, só não vale falar que decidimos por causa da falta de tesão, que com o tempo diminuiu a frequência. Acho muito baixo-astral casal que se separa e sai espalhando que não transava mais, que pareciam dois irmãos na cama…”
Até porque no nosso caso não é verdade. Nossa média é alta, comparada a de outros casais.”
Então, por que nos separamos?”
Boa pergunta. Deixa eu ver… O que diz o Google?”
A conexão tá lenta…”
E se a gente não disser nada?”
Como assim?!”
Ué, se perguntarem, a gente faz aquela cara dissimulada, sabe? De gente fechada que não gosta de falar das suas intimidades.”
Hum, você é tão esperto. Me dá um tesão. Por isso me casei com você.”
Ela o abraçou por trás e beijou o pescoço dele.
Pensei que fosse por causa da minha barriga tanquinho.”
Tanquinho industrial?”
Ela deu um apertão na gordura da cintura dele e começou a recolher a louça. Ele ficou se examinando, se apalpando, se olhou no reflexo da janela:
Preciso emagrecer. Agora que sou um divorciado de meia-idade disponível no mercado.”
Relaxa. Mulheres não ligam pra isso.”
Não? E do que elas gostam? Conta outra…”
De cara interessante.”
Será que sou um cara interessante?”
Você vai catar geral, será seletivo ou dará um tempo sozinho?”
Não me decidi. Posso catar geral?”
Por mim… Exceto minhas amigas, OK?”
Por que não?”
Nem vem!”
Estou pensando em partir pra outra geração.”
Que faixa?!”
Dez anos a menos, no máximo.”
Ufa, que susto. Tudo bem. Deve ser interessante pegar uma geração diferente, outros costumes, bandas, gírias, lugares, bares. Contanto que não seja a geração dos nossos filhos. É doente, isso.”
E você?”
Não planejei nada. Mas…”
Fala.”
Ai, tenho vergonha…”
Pode se abrir. A gente é amigo agora.”
Você não vai me zoar? Tá bom, eu falo. Eu queria pegar, sei lá… Outra mulher. Pronto, falei.”
Uau! Que legal.”
Ah, nunca fiquei. Me sinto uma careta. Hoje em dia é tão normal. Deve ser uma experiência diferente. Já levei cantadas de umas mulheres bem interessantes. Gatas.”
Você sente atração?”
Não sei explicar.”
Mas você não vai virar lésbica, nem coisa do tipo.”
Sei lá. Por quê?”
Porque daí teríamos o motivo. ‘Ah, se separaram porque ela é gay, sempre foi, desde pequena, ficou anos casada com aquele cara, mas no fundo gosta de mulher.’”
E daí? Deixa falar. Te incomoda? Antigamente até iam pensar, ‘Pô, o cara é tão devagar que a mulher trocou por outra, o cara nem sabe fazer direito’. Hoje em dia as pessoas estão mais abertas. Até a sua turma do clube.” “Dane-se. Eles vão é morrer de inveja quando me virem na piscina com uma gata dez anos mais nova com um baita corpão e um biquininho mínimo…”
Bobo. Você nem vai na piscina com medo de pegar doença de pele, seu hipocondríaco!”
Riram. Terminaram de lavar a louça. Começaram a enxugar.
O título do clube fica com quem?”, ela perguntou.
Se tiver algum entrave no estatuto, pode ficar pra você. Vou pegar um flat com piscina.”
Boa. Posso vender o meu carro? Não aguento mais esse trânsito. Tô pensando em andar só de bicicleta agora.”
Coisa de sapata.”
Hiii, começou a gozação.”
Ah, acho bacana. Alguém tem que fazer alguma coisa pelo planeta.”
E os livros?”
A gente divide: o que eu não li fica pra mim e vice-versa.”
Os móveis?”
Posso ficar com a LCW? É design do Charles Eames. Deve caber no flat.”
Olha só… Não sabia que você era ligado em design.”
Você não sabe muita coisa de mim, baby. Tem cem anos que o cara desenhou essa poltrona. É um clássico.”
Começaram a guardar a louça. Ele desmontou a cafeteira italiana, tirou o pó, limpou, segurou-a um instante. Perguntou:
Posso ficar com a cafeteira?”
Oi?”
Não consigo tomar café de outra.”
Foi tio Modesto quem me deu.”
Eu sei.”
É uma Moka legítima.”
Hoje em dia qualquer supermercado vende.”
Então compra uma.”
Só consigo fazer café nesta daqui.”
Não.”
Não o quê?”
A cafeteira não sai daqui.”
Me apeguei a ela. É a única coisa que estou pedindo, além da LCW.”
Disputaram a cafeteira.
Me dá aqui. Quer fazer cafezinho nela pra sua Lolita, seu pedófilo. Não vai!”
Solta! Você não vai usar a herança do tio Modesto com um sapatão, sua degenerada!”
Cada um segurou uma parte dela. Até ela se dividir, e ambos rolarem pelo chão. Cena patética presenciada pelos filhos recém-chegados à porta da cozinha.
O resultado foi óbvio. Não se separam, pois não queriam abrir mão daquele bem. Estão casados até hoje. Nunca mais tocaram no assunto. A única diferença é que ela ficou mais gostosa depois que começou a andar de bike, e ele perdeu a barriga proeminente graças à natação no clube. E começou a falar palavrão.
Marcelo Rubens Paiva, in As verdades que ela não diz

Velha mesa

É uma velha mesa esta sobre a qual bato hoje a minha crônica. Pouco mais de um metro por uns quarenta centímetros de largura. Móvel digno, com duas gavetas laterais, um verniz escuro cobria em outros tempos seu jacarandá. Às vezes me dá vontade de parar de escrever, descansar minha cabeça no seu duro regaço e ficar lembrando a infância longínqua.
É uma velha querida mesa. Foi lixada para parecer mais nova, mas mostra ainda por toda parte as rugas que lhe causaram a minha inquietação juvenil. O canivete entalhou fundo em sua carne fibrosa e ainda é possível distinguir nomes de antigas amadas, quase esvanecidos. Lembro de que aqui à direita ficava o teu nome pequeno e louro, ó minha namorada de oito anos. Na ponta esquerda, lá onde existe um nódulo escuro, havia uma cruz assim:
A
AMOR
O
R
- como a prenunciar um eterno suplício. A palavra Poesia gravada em caracteres largos, não mais se vê, mas o pequeno violão desenhado a gilete, com uma clave de sol ao lado, resistiu ao carpinteiro.
Foi esta a única verdadeira mesa de trabalho que jamais tive. Na gaveta da direita guardava os versos de meu pai, minha primeira e maior influência. Meus cadernos de estudo, empilhava-os à esquerda - ah, cadernos meus de geografia com mapas tão cuidadosamente copiados! e do outro lado alinhava o grande caderno preto da Prefeitura, onde passava a limpo meus primeiros versos. A página de guarda mostrava, escrito a tinta, o título Foederis arca - “A arca da fé” - e levava, se não me engano, epígrafe de Vigny e um gosto à reticência...
J'écris... pourquoi?...
Je ne sais... parce qu'ilfaut..
Nessa mesa passou horas infindávéis de amor e poesia um menino com o meu rosto, labutando no verso uma forma ainda hoje não alcançada. E foi nela também que, uma madrugada, a suar sangue, um poetinha de 18 anos desencantou de uma página em branco o seu primeiro poema original - emoção tão grande como talvez nunca nenhuma.
Doce rever-te, velha mesa, depois de tanto, tanto tempo. Como a ti, andaram me polindo. Há também em mim nomes e símbolos quase indistinguíveis sob a lixa do tempo. Mas não és tu a mesa da infância e da juventude - aquela sobre que gotejaram, no pungente labor do verso e na angústia do amor sozinho, as primeiras lágrimas de um homem que nada sabia e nada sabe senão amar a mulher?
Vinicius de Moraes, in Prosa