04/04/2018

E Damiana não abriu a porta

Faltava muito para o amanhecer. O céu estava cheio de estrelas, gordas, inchadas de tanta noite. A lua havia saído um pouco e depois tinha ido embora. Era uma dessas luas tristes que ninguém olha, que ninguém faz caso. Ficou um tempinho lá, desfigurada, sem dar nenhuma luz, e depois foi se esconder atrás dos morros.
Longe, perdido na escuridão, ouvia-se o bramido dos touros.
Esses animais não dormem nunca” disse Damiana Cisneros. “Nunca dormem. São como o diabo, que anda sempre buscando almas para levar para o inferno.”
Deu voltas na cama, aproximando a cara da parede. Então ouviu as batidas.
Deteve a respiração e abriu os olhos. Tornou a ouvir três batidas secas, como se alguém golpeasse a parede com os nós dos dedos. Não aqui, ao lado dela, e sim mais longe; mas na mesma parede.
Valha-me! Será que serão as três batidas de São Pascual Bailón, que vem avisar a algum devoto que chegou a hora da sua morte?”
E como ela havia perdido a novena fazia tempo, por causa de seus reumatismos, não se preocupou; mas sentiu medo, e mais do que medo, curiosidade.
Levantou-se do catre sem fazer ruído e foi espiar pela janela.
Os campos estavam negros. No entanto conhecia ele tão bem, que reconheceu o corpo enorme de Pedro Páramo entrando pela janela da moça Margarita.
Ah!, esse dom Pedro — disse Damiana. — Não perde a mania. O que não entendo é por que gosta de fazer as coisas tão às escondidas; se tivesse me avisado, eu teria dito para a Margarita que o patrão ia necessitá-la esta noite, e ele não teria tido nem o trabalho de sair da sua cama.
Fechou a janela ao ouvir o mugido dos touros. Jogou-se sobre o catre cobrindo-se até as orelhas, e depois se pôs a pensar no que estaria acontecendo com a Margarita tão formosa.
Mais tarde teve de tirar a camisola porque a noite começou a ficar abafada demais...
Damiana! — ouviu.
Naquele tempo era ela moça.
Abra essa porta, Damiana!
Seu coração tremia como se fosse um sapo saltando entre suas costelas.
Mas para quê, patrão?
Abra, Damiana!
Mas é que estou dormindo, patrão!
Depois sentiu que dom Pedro ia embora pelos corredores compridos, dando aquelas pisadas que sabia dar quando estava irritado.
Na noite seguinte, ela, para evitar aborrecê-lo, deixou a porta encostada e até se despiu para que ele não encontrasse nenhuma dificuldade.
Mas Pedro Páramo jamais a procurou de novo.
Por isso agora, quando era a chefe de todas as serventas da Media Luna, por ter-se dado ao respeito, agora, que já estava velha, ainda pensava naquela noite quando o patrão disse:
Abra essa porta, Damiana!”
E deitou-se pensando em como naquela hora seria feliz a criada Margarita.
Depois tomou a ouvir outras batidas; mas contra a porta grande, como se estivessem arrebentando-a a golpes de fuzil.
Outra vez abriu a janela e espiou a noite. Não se via nada; mas ainda assim achou que a terra estava cheia de ardores, como quando chove e ela se pavimenta de minhocas. Sentia que se levantava uma coisa parecida ao calor de muitos homens. Ouviu o croar das rãs; os grilos; a noite quieta do tempo das águas. Depois tornou a ouvir os golpes de fuzil contra a porta.
Uma lamparina regou sua luz sobre a cara de alguns homens. Depois se apagou.
São coisas que não me interessam”, disse Damiana Cisneros, e fechou a janela.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

Calvin e Haroldo


Beverly Hills e a mãe da Rua Sumidouro

É essa rua?”, perguntei ao motorista.
Duas décadas atrás era uma das ruas mais bucólicas da zona oeste. Observei o que restava do casario baixo, um e outro sobrado sobrevivente, e notei, sem surpresa, a ausência de árvores. Um parque próximo à marginal do rio Pinheiros é um oásis no bairro barulhento.
Aquela rua não estava no meu itinerário, nem era o meu destino. Nosso itinerário mudou quando o motorista começou a contar sua história. Uma história de um brasileiro que atravessou o oceano atrás de emprego, de grana, de uma vida melhor.
Abrantes teve tudo isso quando chegou à Califórnia. Primeiro ele trabalhou como jornaleiro: acordava às cinco da manhã e deixava pilhas de jornal em dezenas de lugares, mas esse emprego dava pouco dinheiro. Morava num bairro latino de Compton, subúrbio paupérrimo de Los Angeles.
Em Compton tem gente de toda parte, até da Ásia”, ele disse. “A violência lá é brasileira, gangues mexicanas pra dar com pau. Os caras só andam armados, são loucos por armas, nunca vi tanta arma. Mas quando eles sabem que você é brasileiro e não quer encrenca, a coisa fica mais fácil.”
Abrantes conheceu um mexicano, entregador de pizza, e se apresentou ao gerente da pizzaria. Disse que na América o destino de brasileiros pobres é ser entregador de pizza. Ele ganhava em cinco dias o que ganharia em um mês de trabalho no Brasil. Mas ralava dia e noite, só descansava uma segunda-feira por mês. Um ano depois, a namorada viajou para Compton.
Não aguentou três semanas”, ele disse. “Voltou para São Paulo com os quatro mil dólares que eu tinha economizado. Disse pra ela: ‘Dá a metade pra minha mãe’. Me deixou sozinho na batalha, e eu morria de saudade dela e da velha. Quando tirei uma semana de férias, fui a Las Vegas, fiquei num hotel barato, uns trinta dólares a diária. Joguei, me diverti, perdi quatrocentos dólares na jogatina e voltei para a pizzaria. Uma noite, eu ia sair para fazer uma entrega em Beverly Hills, quando vi um monumento na porta da pizzaria. Sabe quem era? Raquel Welch, doutor.”
Não sou doutor”, eu disse.
A própria, doutor. A pizza dançou nos meus braços. Meu amigo mexicano me disse: ‘Es la mujer del patrón, hombre’. Aí eu soube que o meu patrão tinha dezenas de pizzarias na Califórnia. Raquel usava um vestido prateado, muito chique, parecia uma serpente.”
Que maravilha, eu disse. Mas não era a filha dela?”
Não, era ela, a Raquel, de carne e osso. Ia pedir um autógrafo, mas achei que o patrão não ia gostar e desisti. Depois veio a crise econômica… E a saudade aumentou. Era pizza demais na minha vida. Comia e entregava pizza, meu corpo cheirava a pizza. Meu mundo era só pizza…”
Pizza e muita saudade”, eu disse.
De minha mãe, aquela senhora que o doutor está vendo na janela. Também sentia saudade dessa rua, dos botecos, da loucura de São Paulo.”
E de sua namorada, é claro.”
Uma safada, doutor. Embolsou os quatro mil dólares, deixou minha mãe a pão e água, coitada. Diz que abriu um salão de beleza em Vila Esperança. Era o sonho dela. Mas consegui juntar uma grana e comprei este carro. Rodo dia e noite, mas venho jantar com a minha velha, durmo de meia-noite às seis da manhã e saio de novo. Vamos tomar um café?”
Saltamos e entramos na casa. Uma casinha modesta, com um pequeno jardim na entrada: bananeiras malcuidadas, sem flores, as folhas queimadas pelo frio, aqui e ali umas avencas pálidas espremidas em latas enferrujadas.
A mãe era uma mulher gorda, simpática e tão vesga que eu ficava desnorteado quando olhava para mim. Me abraçou como se eu fosse um velho amigo de Abrantes. Serviu-nos café e bolo de fubá, disse que o filho era um rapaz lutador, falava inglês e espanhol, e ganhara um dinheirinho nos Estados Unidos.
Um cachorro vira-lata, já velho, veio lamber meus sapatos; depois cheirou minha calça, rondou meu corpo, deu um salto capenga e caiu na minha barriga. Me levantei para me livrar do bicho fedorento.
Ele também conheceu Beverly Hills”, disse a mãe.
O cachorro?”
Não, o cachorro nunca saiu daqui. Meu filho é que entrou em muitas mansões de Beverly Hills. Mas o bom mesmo é a rua Sumidouro. Não é, filho? É aqui que mora a mamãe.”
O doutor já sabe disso, mãe.”
De vez em quando meu filho traz um passageiro pra me conhecer”, ela disse. “Fico tão orgulhosa…”
Agradeci o café e o bolo, tirei a carteira para pagar a corrida, mas Abrantes recusou. Insisti em pagar.
De jeito nenhum. Na próxima o doutor paga”, ele disse. E me entregou um cartão.
Fui a pé para casa. Minha roupa cheirava a vira-lata sujo. Isso é o de menos, pensei. Porque não é todo dia que você pega um táxi, conhece um brasileiro que regressou à pátria para morar com a mãe, come dois pedaços de um delicioso bolo de fubá e ainda encontra assunto para escrever uma crônica.
Milton Hatoum, in Um solitário à espreita

Street Art - homenagem de Eduardo Kobra a Bob Dylan, em Minneapolis, EUA


O argumento do plano divino

O próximo passo neste processo nos leva ao argumento do plano divino. Todos conhecem o argumento do plano divino: tudo no mundo é feito para que consigamos viver nele, e, se o mundo fosse mesmo que só um pouquinho diferente, não conseguiríamos habitá-lo. Esse é o argumento do plano divino. Às vezes ele toma uma forma bastante curiosa; por exemplo, argumenta-se que as lebres têm cauda branca para serem alvo fácil dos caçadores. Não sei o que as lebres achariam dessa aplicação. Trata-se de um argumento realmente fácil de parodiar. Todos os senhores conhecem a observação de Voltaire de que o nariz obviamente foi desenhado de modo que pudesse segurar os óculos. Esse tipo de paródia revelou-se nem de perto estar tão distante da verdade quanto podia parecer no século XVIII, porque desde a época de Darwin compreendemos de um modo muito melhor por que as criaturas vivas se adaptam a seu ambiente. Não que o ambiente seja feito para se adequar a elas, mas elas é que se modificam para adequar-se a ele, e essa é a base da adaptação. Não existe evidência de plano divino em relação a isso.
Quando se examina esse argumento do plano divino, parece surpreendente que as pessoas possam acreditar que este mundo, com todas as coisas que ele contém, com todos os seus defeitos, deve ser o melhor que a onipotência e a onisciência conseguiram produzir em milhões de anos. Eu realmente não consigo acreditar nisso. Os senhores acham que, se tivessem a onipotência e a onisciência e milhões de anos para aperfeiçoar seu mundo, não seriam capazes de produzir nada melhor do que a Ku-Klux-Klan ou os fascistas? Ademais, quando se aceitam as leis comuns da ciência, é necessário supor que a vida humana e a vida em geral neste planeta morrerão a seu tempo: trata-se de um estágio de decadência do sistema solar; em um certo estágio dessa decadência, obtêm-se o tipo de condições de temperatura, e assim por diante, que são adequadas ao protoplasma, sendo que existe vida, durante um curto espaço de tempo, na vida de todo o sistema solar. Vê-se na lua o tipo de coisa que é a tendência da Terra – transformar-se em algo morto, frio e sem vida.
Disseram-me que esse tipo de visão é deprimente, e as pessoas às vezes afirmam que, se acreditassem nisso, não seriam capazes de continuar vivendo. Não acreditem nisso; não passa de disparate. Ninguém realmente se preocupa com o que irá acontecer daqui a milhões de anos. Mesmo que achem que se preocupam muito com isso, na verdade só estão se enganando. A preocupação delas diz respeito a algo muito mais mundano, ou pode tratar-se meramente de má digestão; mas ninguém de fato fica seriamente infeliz por pensar que algo de ruim vai acontecer com este mundo daqui a milhões de anos. Assim, apesar de obviamente ser uma visão fúnebre supor que a vida morrerá – pelo menos suponho que possamos fazer essa afirmação, apesar de às vezes eu achar que isso é quase um consolo, quando vejo as coisas que as pessoas fazem com a própria vida –, isso não é tão terrível a ponto de transformar a vida em um tormento. Essa questão simplesmente faz com que se volte a atenção para outras coisas.
Bertrand Russell, in Por que não sou cristão

03/04/2018

A palavra dita

No fundo, a palavra autêntica, a palavra verdadeira é a palavra dita. A palavra escrita é apenas uma coisinha morta que está ali, à espera de que a ressuscitem. E é no dizer da palavra que a palavra é efetivamente palavra. Por isso, às vezes eu digo que convém a um leitor que está a ler um romance meu que ele seja capaz de ouvir dentro da cabeça a voz que está a dizer aquilo que ele está a ler. Ele está a fazer uma leitura silenciosa, como é normal. O que peço, alguma coisa posso pedir aos leitores, mesmo no sentido de uma compreensão mais exata daquilo que está escrito, é que tente ouvir dentro de sua cabeça essa voz.
José Saramago, in As palavras de Saramago

Jacob Collier & Big Ed Lee - "Don't You Know"

Maneira de olhar

Recomendaram-lhe que se deitasse cedo, para acordar à hora da passagem do ano. A julgar pela insistência da recomendação, o ano não passa se os garotos ficarem de vigília. E como havia de ser, se não passasse? Era a vida do mundo inteiro que se perturbava. Tudo que estava para acontecer a partir de meia-noite bruscamente ficaria retido em malas, pacotes, na escuridão. Seria complicar tanto a vida dos outros, e a sua própria, que o menino se decidiu a acatar a ordem ingrata. Ou a fingir acatamento. Iria deitar-se, que remédio? Fecharia os olhos, pois esse é o testemunho de sono que as mães procuram no rosto dos filhos. Mas dormir de verdade, isso não. Imóvel, como nas ocasiões em que brincava de morrer, continuaria atento ao que ocorresse noite afora, pelo mundo solto. Queria devassar o mistério da passagem do ano, que ninguém sabe explicar.
A bá falara numa faixa de luz, que corta o céu de lado a lado, verdadeiro arco-íris, tão intenso que ninguém pode botar-lhe os olhos em cima; corusca, ouve-se um coro de anjos, tudo some de repente: o ano velho se foi, chega o ano-novo. Mas seu tio, piloto da Varig, voou numa noite de 31 de dezembro e não confirmou a luz e os anjos; o ano-novo desce é de paraquedas, bem no centro da praça General Osório; traz na mochila talco, escova de dentes, pombas. “Pra que pombas?” “Pra soltar em sinal de alegria.” Quanto ao ano velho, acaba feito balão que perdeu gás, muito chocho.
Como as pessoas são mentirosas. A história certa eles não contam, e cada um vai inventando uma história que desmente a outra. Sua mãe, que lhe pede não mentir nunca, sua própria mãe não estaria mentindo? Por mais que lhe perguntasse como é a cara do ano velho, e a cara do novo, não tivera resposta. Ela respondera com um sorriso, desses de que a gente gosta, mas não esclarecem nada, são modos de esconder: “Você mesmo verá como é. Depende da maneira de olhar”. Conversa com outros garotos a respeito não adianta. Cada qual diz mais bobagem que o outro; aprendem a mentir com os grandes.
Cerrou a porta, determinado. Preparou-se, deitou-se, esperou o beijo suave. Quis ainda puxar conversa, a mãe passou-lhe os dedos na face, repuxando-lhe a pele num dengue: “Dorme, colaçãozinho de manteiga”. Ela apagou a luz e saiu, veludo andando. Será que aguento ficar acordado até meia-noite? Quanto tempo é meia-noite? Da cama não se vê nada. Tenho de ir para a janela. Claro que o ano passa no ar, fico espiando. Mas tem tanta gente na rua, tanto carro buzinando, ninguém olha para cima. Estão acostumados? É ruim ficar acostumado: não se vê mais nada, as coisas vão se apagando. Eles conversam demais, seria tão bom que todo mundo ficasse calado, pensando, sentindo; o quê? sentindo. Como vão perceber que o ano passou, se falam sobre outras coisas, riem, cantam, gritam? Depende mesmo da maneira de olhar — a mãe dissera. Agora estão sambando. As estrelas bem que continuam calmas. Elas sabem de tudo, veem aquilo que, cá de baixo, na confusão, uma criança só pode perceber se ficar de olhos arregalados, quietinha. Por maior que seja a boa vontade… E essa moleza que desce das estrelas e entra sorrateira nos braços, nas pernas, esse peso que faz baixar as pálpebras, como quem fecha cortina, devagar.
Acordou no chão, apavorado com o estrondo. Houve um desastre durante a passagem, o mundo acabou? Do salão vinham gritos, em que lhe parecia reconhecer vozes familiares. Seus pais estariam morrendo? Correu para a porta, abriu-a, atravessou o corredor, parou à entrada da sala. Teve uma imagem conjugada de garrafas, risos, cantos, beijos, copos. Estavam todos salvos, pais e amigos, mas tinham perdido o jeito comum, o jeito diurno. As vozes eram as mesmas e não eram. Arrastavam um pouco, palavras não terminavam, todas as pessoas manifestavam exagerada ternura umas pelas outras, abraçando-se ruidosamente.
A mãe viu-o de longe: “Filhinho!”, avançou com jeito engraçado, envolveu-o numa carícia, o pai tentou fazer o mesmo e não acertou, os outros bateram palmas. Seus olhos ainda não estavam abertos de todo, sentia vontade de chorar. “Ele passou?”, disse baixinho ao ouvido. Sim, tinha passado, então não vira? Quis perguntar como é que passara, não teve ânimo. Um pouco tonta, mas docemente, a mãe levou-o de volta para o quarto, agasalhou-o, encostou rosto no rosto — o bafo casava-se a perfume —, rogou-lhe que dormisse outra vez, colaçãozinho de manteiga. O ano passara sem que ele visse. Bem que a mãe prevenira: “Depende da maneira de olhar”. Ele não acertara com a maneira.
Carlos Drummond de Andrade, in 70 historinhas

Candeia às avessas

Velha locução vulgar em Portugal e ainda viva no Brasil, valendo inimizar-se, desajustar-se, afastar-se do convívio de alguém, estar “de mau”.
D. Francisco Manuel de Meio empregou-a: “Ando de candeyas às avessas com a gente” – Visita das fontes. “Até com o próprio João da Mena... estou de candeas às avessas” – Hospital das letras. Testemunhos da segunda metade do século XVII.
Candeia, candea, é o círio, vela, e não a candeia usual, de folha de flandres, lamparina, pequena lâmpada portátil, de querosene, sobrevivente nos sertões.
Castro Lopes (Origem de anexins, 201) e João Ribeiro (Frases feitas, I, 189) deram interpretações. Para o primeiro originar-se-ia do latim Cum deis aversis, com os deuses contrários. Para o segundo, trazer candeia às avessas valia queimar as mãos.
As soluções não parecem lógicas para a imagem do desavindo, distante das amizades, “rompido”, desafeto.
No processo da Excomunhão Maior, lida a bula papal qua quis excluditur a communione fidelium, interdição pessoal do réu à qualquer comunicação cristã, o Legado Pontifício apagava o grande círio pascal, figurando a Fé, derribando-o por terra. Ficava a candeia ao inverso da posição normal e litúrgica, então acesa e na vertical. O excomungado estava na situação idêntica, moral e fisicamente ao contrário de todos os fiéis. De candeia às avessas.
Jean-Paul Laurens expôs em 1875 L’Excomunication de Robert le Pieux (Museu do Luxemburgo), fixando o trágico cerimonial.
Não creio ser outra a origem da locução.
Luís da Câmara Cascudo, in Coisas que o povo diz

Computando a felicidade

A importância das expectativas humanas tem implicações de longo alcance para entendermos a história da felicidade. Se a felicidade dependesse apenas de condições objetivas como riqueza, saúde e relações sociais, teria sido relativamente fácil investigar sua história. A descoberta de que ela depende de expectativas subjetivas torna a tarefa dos historiadores muito mais difícil. Hoje, temos um arsenal de tranquilizantes e analgésicos à disposição, mas nossas expectativas de alívio e prazer, e nossa intolerância à inconveniência e ao desconforto aumentaram a tal ponto que podemos muito bem sofrer muito mais com a dor do que nossos ancestrais sofreram.
É difícil aceitar essa linha de pensamento. O problema é uma falácia de raciocínio incrustada em nossa psique. Quando tentamos adivinhar ou imaginar quão felizes outras pessoas são hoje, ou quão felizes foram no passado, inevitavelmente nos imaginamos em sua pele. Mas isso não funciona, porque associa nossas expectativas com as condições materiais de outros. Nas sociedades afluentes modernas, é costume tomar um banho e trocar de roupa todos os dias. Os camponeses medievais ficavam sem se lavar por meses a fio e quase nunca trocavam de roupa. A mera ideia de viver dessa maneira, imundos e fedorentos, nos repugna. Mas os camponeses medievais não pareciam se importar. Eles estavam acostumados à sensação e ao odor de uma camisa há muito não lavada. Não é que quisessem uma troca de roupas, mas não pudessem obtê-la – eles tinham o que queriam. Então, pelo menos no que se refere a roupas, estavam contentes.
Pensando bem, isso não é tão surpreendente. Afinal, nossos primos chimpanzés raramente se lavam e nunca trocam de roupa. E tampouco nós ficamos incomodados pelo fato de que nossos cachorros e gatos de estimação não tomam banho nem trocam de pele todos os dias. Nós os acariciamos, abraçamos e beijamos da mesma forma. É comum, nas sociedades abastadas, que as crianças pequenas não gostem de tomar banho, e leva-se anos de educação e disciplina para que elas adotem esse costume supostamente atraente. É tudo uma questão de expectativas.
Se a felicidade é determinada por expectativas, então os dois pilares da nossa sociedade – os meios de comunicação de massa e a indústria da publicidade – podem, sem querer, estar esgotando as reservas de contentamento do planeta. Se você fosse um rapaz de 18 anos vivendo em uma pequena aldeia há 5 mil anos, provavelmente se consideraria atraente, pois só haveria uns 50 homens em sua aldeia, e a maioria deles seria composta de velhos com cicatrizes e rugas, ou ainda de meninos. Mas, se você é um adolescente nos dias de hoje, tem muito mais probabilidade de se sentir inadequado. Mesmo que os outros rapazes na escola sejam feios, você não se compara com eles, e sim com os astros de cinema, atletas e supermodelos que vê diariamente na televisão, no Facebook e nos outdoors gigantes.
Então, talvez o descontentamento do Terceiro Mundo seja fomentado não só pela pobreza, doença, corrupção e opressão política como também pela mera exposição aos padrões do Primeiro Mundo. O egípcio médio tinha muito menos probabilidade de morrer de fome, praga ou violência sob o regime de Hosni Mubarak do que sob Ramsés II ou Cleópatra. Nunca as condições materiais da maior parte dos egípcios foram tão boas. Seria de se esperar que eles estivessem dançando nas ruas em 2011, agradecendo a Alá por sua boa sorte. Em vez disso, eles se ergueram furiosamente para derrubar Mubarak. Não estavam se comparando com seus ancestrais sob os faraós, e sim com seus contemporâneos no rico Ocidente.
Se esse é o caso, até mesmo a mortalidade talvez leve ao descontentamento. Suponha que a ciência encontre cura para todas as doenças, terapias eficazes contra o envelhecimento e tratamentos regenerativos que mantêm as pessoas jovens por tempo indefinido. Com toda a probabilidade, o resultado imediato será uma epidemia sem precedentes de raiva e ansiedade.
Aqueles que não puderem pagar pelos novos tratamentos milagrosos – a grande maioria das pessoas – serão tomados por raiva. Ao longo da história, os pobres e oprimidos encontraram conforto na ideia de que pelo menos a morte é imparcial – os ricos e poderosos também morrem. Os pobres não ficarão confortáveis com a ideia de que têm de morrer, ao passo que os ricos continuarão jovens e bonitos para sempre.
Mas a ínfima minoria capaz de pagar pelos novos tratamentos também não ficará eufórica. Terá motivos de sobra para se sentir apreensiva. Embora as novas terapias possam prolongar a vida e a juventude, não podem ressuscitar cadáveres. Que assustador pensar que eu e meus entes queridos podemos viver para sempre, mas só se não formos atingidos por um caminhão ou explodidos em pedacinhos por um terrorista! É provável que as pessoas potencialmente amortais sejam avessas a correr os menores riscos, e a agonia de perder um esposo, filho ou amigo próximo será insuportável.
Yuval Noah Harari, in Sapiens: uma breve história da humanidade

02/04/2018

O dinossauro

Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá.”
Augusto Monterroso (considerado o microconto mais famoso do mundo)

Cuca Roseta - Balelas

Elisa

Eu amo os que me amam; e os que vigiam desde a manhã, por me buscarem, achar-me-ão. (Provérbios, VIII, 17)

Uma tarde — estávamos nos primeiros dias de abril — ela chegou à nossa casa. Empurrou com naturalidade o portão que vedava o acesso ao pequeno jardim, como se obedecesse a hábito antigo. Do alpendre, onde me encontrava, escapou-me uma observação desnecessária:
E se tivéssemos um cachorro?
Não me atemorizam os cães — retrucou aborrecida.
Com alguma dificuldade (devia ser pesada a mala que carregava), subiu a escada. Antes de entrar pela porta principal, voltou-se:
Nem os homens tampouco.
Surpreso por vê-la adivinhar meu pensamento, apressei-me em desfazer a situação cada vez mais embaraçosa:
Hoje o tempo está ruim. Se continuar assim...
Interrompi a série de bobagens que me ocorria e, encabulado, procurei evitar o seu olhar repreensivo.
Sorriu levemente, enquanto eu, nervoso, torcia as mãos.

Logo a desconhecida se adaptou aos nossos hábitos. Raramente saía e nunca aparecia à janela.
Talvez não tivesse reparado no primeiro momento em sua beleza. Bela, mesmo no desencanto, no seu meio sorriso. Alta, a pele clara, de um branco pálido, quase transparente, e uma magreza que acusava profundo abatimento. Os olhos eram castanhos, mas não desejo falar deles. Jamais me abandonaram.

Cedo começou a engordar, a ganhar cores e, no rosto, já estampava uma alegria tranquila.
Não nos disse o nome, de onde viera e que acontecimentos lhe abalaram a vida. Respeitávamos, entretanto, o seu segredo. Para nós era ela, simplesmente ela. Alguém que necessitava de nossos cuidados, do nosso carinho.
Aceitei os seus longos silêncios, as suas repentinas perguntas. Uma noite, sem que eu esperasse, interrogou-me:
Já amou alguma vez? Por ser negativa a resposta, deixou transparecer a decepção. Pouco depois, abandonava a sala, sem nada acrescentar ao que dissera. Na manhã seguinte, encontramos vazio o seu quarto.

Todos os dias, mal começava a cair a tarde, eu ia para o alpendre, à espera de que ela surgisse a qualquer momento na esquina. Minha irmã Cordélia desaprovava-me:
É inútil, ela não voltará. Se você estivesse menos apaixonado, não teria tanta esperança.

Um ano após a sua fuga — estávamos novamente em abril — a vi aparecer no portão. Trazia mais triste a fisionomia, maiores as olheiras. Dos meus olhos, que se puseram alegres ao vê-la, desprendeu-se uma lágrima, e disse, esforçando-me para lhe tornar cordial a recepção:
Cuidado, agora temos uma cadelinha.
Mas o dono dela ainda é manso, não? Ou se tornou feroz na minha ausência?
Estendi-lhe as mãos, que ela segurou por algum tempo. E, sem conter a minha ansiedade, indaguei:
Por onde andou? O que fez esse tempo todo?
Andei por aí e nada fiz. Talvez amasse um pouco — concluiu, sacudindo a cabeça com tristeza.

A sua vida entre nós retomou o ritmo da outra vez. Mas eu estava intranquilo. Cordélia olhava-me penalizada, insinuava que eu não deveria ocultar mais a minha paixão.
Faltava-me, contudo, a coragem e adiava a minha primeira declaração de amor.
Meses depois, Elisa — sim, ela nos disse o nome — partiu de novo.
E como lhe ficasse sabendo o nome, sugeri à minha irmã que mudássemos de residência. Cordélia, apegada ao extremo à nossa casa, nada objetou. Limitou-se a perguntar:
E Elisa? Como poderá encontrar-nos ao regressar?
Refreei a custo a angústia e repeti completamente idiotizado:
Sim, como poderá?
Murilo Rubião, in Obra completa

Às vezes tenho ideias felizes

Às vezes tenho ideias felizes,
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam... 
 
Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto?
Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?
Fernando Pessoa

Pimentas

 Fonte: Google Imagens

Para provocar um incêndio, não é preciso fogo. Pimentas são frutinhas coloridas que têm poder para provocar incêndios na boca. Pois há ideias que se assemelham às pimentas: elas podem provocar incêndios nos pensamentos. Nietzsche era um especialista em ideias incendiárias. Um eremita que vivia na floresta, ao ver Zaratustra descer das montanhas para as planícies, percebeu que ele estava a fim de pôr fogo no mundo com as suas ideias. Zaratustra sabia que suas ideias queimavam e que muitas pessoas, ao lê-lo, “pensariam que estavam devorando fogo e queimariam suas bocas”. Mas, para se provocar um incêndio, não é preciso fogo. Basta uma única brasa. Um único pensamento-pimenta...
Essas pimentas; acrescentai-lhes asas e serão libélulas...” (Basho)
Rubem Alves, in Pimentas: Para provocar um incêndio, não é preciso fogo

01/04/2018

Feliz!

Deitado no alto do carro de feno... com os braços e as pernas abertos em X... e as nuvens, os voos passando por cima... Por que estradas de abril viajei assim um dia? De que tempos, de que terras guardei essa antiga lembrança, que talvez seja a mais feliz das minhas falsas recordações?
Mário Quintana, in Sapato florido

Deus me proteja - Chico César

Longe que só a gota pra trás

Lá, de onde Antônio vem é longe que só a gota. Longe que só a gota pra trás, o que é muito mais longe que só a gota do que longe que só a gota pros lados. Pois vir de longe pros lados é vir de longe no espaço, lonjura besta que qualquer bicho alado derrota. Já vir de longe pra trás é vir de longe no tempo, lonjura que pra ficar desimpossível demora.
Lá, de onde Antônio vem, era tanta coisa acontecendo que nem sei se vai dar pra contar tudo. Tomara que ninguém se tome por esquecido, pois a história que aqui vai ser contada tem de todas um pedaço, além dos outros pedaços que ficaram perdidos no caminho do tempo que Antônio andou até aqui trazendo com ele essa história.
Era o tempo de Antônio.
E lá o tempo passava diferente. Era uma coisa agora, com um pouco já era outra e logo depois não era mais essa. Era aquela.
O tempo de Antônio passava rápido demais.
É ali por volta do ano 2000 que começa a história do tempo de Antônio.
Mas o tempo de Antônio começou há mais tempo do que isso, vinte e tantos anos antes, quando Antônio veio ao mundo. Ou então ainda há mais tempo, bilhões de anos atrás quando o mundo foi criado.
Tudo era uma seca só.

Não tinha terra, não tinha céu, não tinha bicho, não tinha gente, não tinha nada.
Era só o breu.
Aí Deus foi ficando meio enjoado e resolveu criar o mundo.
Ele pensou assim: “Vê que besteira a minha, por que é que vai ficar tudo sem nada se eu posso inventar o que eu quiser?” Então saiu inventando. Primeiro Ele inventou o céu que era pra ter onde morar, mas como o céu tinha que ficar em cima de alguma coisa, Ele inventou a Terra pra ficar embaixo.
Então Ele pensou: “E a Terra vai ficar com um céu em cima e não vai ficar com nada embaixo não, é?” Daí Ele foi e botou o inferno embaixo da Terra. Ficou bem bonitinho aquele negócio assim azul em cima e aquele negócio assim vermelho embaixo.
No começo a Terra só servia pra isso. Pra ficar embaixo do céu e em cima do inferno. Era pouco, Deus concluiu assim: “Agora que tem a Terra, eu tenho que inventar gente pra botar lá.” Foi aí que Ele inventou a vida. E no que inventou a vida já inventou a morte junto, pois tudo que é vivo morre.
Diz-se que Ele soprou e apareceu Adão e que da costela de Adão Ele fez Eva.
Ficaram dois.
E ficaram os dois lá, só eles, e o tempo não passava. Como naquele tempo Deus ainda não tinha inventado o tempo, o antes, o agora, o depois, ficavam ali no meio, todos eles misturados. Até que um dia Adão se enfastiou: “Ô, meu Deus do céu, isso não acaba nunca não, é?” Por sorte, Deus teve a ideia de inventar o dia e a noite que era pro tempo passar.
No dia em que Deus inventou o dia, concluiu que, agora, que o tempo ia passar, ia ter um dia hoje, depois ia ter outro amanhã, e amanhã ainda ia ter o ontem que foi hoje. Desse modo, Ele inventou o passado, o presente e o futuro de uma vez só.
Então vinha a parte mais difícil.
Já que o povo todo tinha nariz, tinha boca, tinha orelha e tinha olho, aquilo tudo tinha que ter uma serventia. Os olhos e o nariz já tinham a deles, pois os olhos serviam pra olhar pro céu e o nariz pra pessoa respirar enquanto viva e parar de respirar pra poder morrer em paz. Mas carecia de arranjar utilidade pra boca e pras orelhas.
Pra encurtar a história, foi aí que Deus fez o verbo.
Verbo é como se chamam as palavras.
E como pra cada palavra tinha que ter uma coisa, Ele teve que inventar um monte de coisa pra poder ficar uma coisa pra cada palavra.
Era coisa que não acabava mais.
E os homens acharam pouco e se botaram a inventar mais coisa ainda.
Desde o começo do mundo até lá pelo ano 2000, quando começa esta história, muita coisa aconteceu. E todo esse acontecido foi tudo o tempo de Antônio, pois tudo que aconteceu só aconteceu pra um dia o tempo chegar no tempo dele. E só depois achou de acontecer mais um pouco pra um dia chegar no tempo de agora.
Mas o tempo de Antônio, chamado assim desse jeito, o tempo de Antônio, como ficou conhecido esse tempo, o tempo de Antônio começou em Nordestina.
Adriana Falcão, in A máquina

Viagem vazia

Quanto mais cavalos você atrela para o trabalho, tanto mais rápido ele anda, ou seja: não para arrancar os blocos de alicerce, o que é impossível, mas para rebentar as correias e, como resultado, a alegre viagem vazia.
Franz Kafka, in Aforismos reunidos

Menino a bico de pena

Como conhecer jamais o menino? Para conhecê-lo tenho que esperar que ele se deteriore, e só então ele estará ao meu alcance. Lá está ele, um ponto no infinito. Ninguém conhecerá o hoje dele. Nem ele próprio. Quanto a mim, olho, e é inútil: não consigo entender coisa apenas atual, totalmente atual. O que conheço dele é a sua situação: o menino é aquele em quem acabaram de nascer os primeiros dentes e é o mesmo que será médico ou carpinteiro. Enquanto isso – lá está ele sentado no chão, de um real que tenho de chamar de vegetativo para poder entender. Trinta mil desses meninos sentados no chão, teriam eles a chance de construir um mundo outro, um que levasse em conta a memória da atualidade absoluta a que um dia já pertencemos? A união faria a força. Lá está ele sentado, iniciando tudo de novo mas para a própria proteção futura dele, sem nenhuma chance verdadeira de realmente iniciar.
Não sei como desenhar o menino. Sei que é impossível desenhá-lo a carvão, pois até o bico de pena mancha o papel para além da finíssima linha de extrema atualidade em que ele vive. Um dia o domesticaremos em humano, e poderemos desenhá-lo. Pois assim fizemos conosco e com Deus. O próprio menino ajudará sua domesticação: ele é esforçado e coopera. Coopera sem saber que essa ajuda que lhe pedimos é para o seu autossacrifício. Ultimamente ele até tem treinado muito. E assim continuará progredindo até que, pouco a pouco – pela bondade necessária com que nos salvamos – ele passará do tempo atual ao tempo cotidiano, da meditação à expressão, da existência à vida. Fazendo o grande sacrifício de não ser louco. Eu não sou louco por solidariedade com os milhares de nós que, para construir o possível, também sacrificaram a verdade que seria uma loucura.
Mas por enquanto ei-lo sentado no chão, imerso num vazio profundo.
Da cozinha a mãe se certifica: você está quietinho aí? Chamado ao trabalho, o menino ergue-se com dificuldade. Cambaleia sobre as pernas, com a atenção inteira para dentro: todo o seu equilíbrio é interno. Conseguido isso, agora a inteira atenção para fora: ele observa o que o ato de se erguer provocou. Pois levantar-se teve consequências e consequências: o chão move-se incerto, uma cadeira o supera, a parede o delimita. E na parede tem o retrato de O menino . É difícil olhar para o retrato alto sem apoiar-se num móvel, isso ele ainda não treinou. Mas eis que sua própria dificuldade lhe serve de apoio: o que o mantém de pé é exatamente prender a atenção ao retrato alto, olhar para cima lhe serve de guindaste. Mas ele comete um erro: pestaneja. Ter pestanejado desliga-o por uma fração de segundo do retrato que o sustentava. O equilíbrio se desfaz – num único gesto total, ele cai sentado. Da boca entreaberta pelo esforço de vida a baba clara escorre e pinga no chão. Olha o pingo bem de perto, como a uma formiga. O braço ergue-se, avança em árduo mecanismo de etapas. E de súbito, como para prender um inefável, com inesperada violência ele achata a baba com a palma da mão. Pestaneja, espera. Finalmente, passado o tempo necessário que se tem de esperar pelas coisas, ele destampa cuidadosamente a mão e olha no assoalho o fruto da experiência. O chão está vazio. Em nova brusca etapa, olha a mão: o pingo de baba está, pois, colado na palma. Agora ele sabe disso também. Então, de olhos bem abertos, lambe a baba que pertence ao menino. Ele pensa bem alto: menino.
Quem é que você está chamando? pergunta a mãe lá da cozinha.
Com esforço e gentileza ele olha pela sala, procura quem a mãe diz que ele está chamando, vira-se e cai para trás. Enquanto chora, vê a sala entortada e refratada pelas lágrimas, o volume branco cresce até ele – mãe! absorve-o com braços fortes, e eis que o menino está bem no alto do ar, bem no quente e no bom. O teto está mais perto, agora; a mesa, embaixo. E, como ele não pode mais de cansaço, começa a revirar as pupilas até que estas vão mergulhando na linha de horizonte dos olhos. Fecha-os sobre a última imagem, as grades da cama. Adormece esgotado e sereno.
A água secou na boca. A mosca bate no vidro. O sono do menino é raiado de claridade e calor, o sono vibra no ar. Até que, em pesadelo súbito, uma das palavras que ele aprendeu lhe ocorre: ele estremece violentamente, abre os olhos. E para o seu terror vê apenas isto: o vazio quente e claro do ar, sem mãe. O que ele pensa estoura em choro pela casa toda. Enquanto chora, vai se reconhecendo, transformando-se naquele que a mãe reconhecerá. Quase desfalece em soluços, com urgência ele tem que se transformar numa coisa que pode ser vista e ouvida senão ele ficará só, tem que se transformar em compreensível senão ninguém o compreenderá, senão ninguém irá para o seu silêncio ninguém o conhece se ele não disser e contar, farei tudo o que for necessário para que eu seja dos outros e os outros sejam meus, pularei por cima de minha felicidade real que só me traria abandono, e serei popular, faço a barganha de ser amado, é inteiramente mágico chorar para ter em troca: mãe.
Até que o ruído familiar entra pela porta e o menino, mudo de interesse pelo que o poder de um menino provoca, para de chorar: mãe. Mãe é: não morrer. E sua segurança é saber que tem um mundo para trair e vender, e que o venderá.
É mãe, sim é mãe com fralda na mão. A partir de ver a fralda, ele recomeça a chorar.
Pois se você está todo molhado!
A notícia o espanta, sua curiosidade recomeça, mas agora uma curiosidade confortável e garantida. Olha com cegueira o próprio molhado, em nova etapa olha a mãe. Mas de repente se retesa e escuta com o corpo todo, o coração batendo pesado na barriga: fonfom!, reconhece ele de repente num grito de vitória e terror – o menino acaba de reconhecer!
Isso mesmo! diz a mãe com orgulho, isso mesmo, meu amor, é fonfom que passou agora pela rua, vou contar para o papai que você já aprendeu, é assim mesmo que se diz: fonfom, meu amor! diz a mãe puxando-o de baixo para cima e depois de cima para baixo, levantando-o pelas pernas, inclinando-o para trás, puxando-o de novo de baixo para cima. Em todas as posições o menino conserva os olhos bem abertos. Secos como a fralda nova.
Clarice Lispector, in Todos os contos