03/01/2018

O subsolo - 4

Ha, ha, ha! Depois disso, o senhor sentirá prazer até numa dor de dente! – exclamarão rindo os senhores.
E por que não? Existe mesmo prazer numa dor de dentes – responderei. – Um mês inteiro me doeram os dentes; sei o que é isso. Nessa situação, é lógico, a pessoa não se enfurece em silêncio, e sim põe-se a gemer. Mas tais gemidos não são sinceros, são gemidos sarcásticos, e no sarcasmo é que está a coisa toda. É nesses gemidos que se expressa o prazer do sofredor; se ele não sentisse prazer com isso, não gemeria. Este é um bom exemplo, senhores, vou desenvolvê-lo. Nesses gemidos se expressa, em primeiro lugar, toda a inutilidade de sua dor, humilhante para a nossa consciência; toda a legitimidade das leis da natureza, de que os senhores, certamente, podem fazer pouco caso, mas em consequência da qual os senhores sofrem, ao passo que ela não. Eles expressam a percepção de que é impossível encontrar para os senhores um inimigo, mas a dor está lá; a percepção de que os senhores, apesar de todos os Wagenheim, são inteiramente escravos de seus dentes; de que, se alguém quiser, seus dentes deixarão de doer; do contrário, doerão por mais três meses. E, finalmente, se os senhores ainda não aceitaram e continuam a protestar, só lhes resta, para seu consolo, surrar-se ou bater mais forte com os punhos na sua parede, e rigorosamente mais nada. Pois bem, é dessas ofensas sangrentas, dessas caçoadas anônimas, que se origina, por fim, um deleite que às vezes chega ao mais alto grau de voluptuosidade. Eu lhes peço, senhores, que, quando tiverem oportunidade, ouçam com atenção os gemidos do homem culto do século XIX sofrendo de dor de dente, lá pelo segundo ou terceiro dia do seu sofrimento, quando ele já começa a gemer de maneira diferente de como gemia no primeiro dia, isto é, não geme apenas porque lhe doem os dentes; ele não geme como um camponês grosseiro qualquer, e sim como um homem que foi atingido pelo desenvolvimento e pela civilização europeia, um homem “que renegou seu solo e as raízes populares”, como agora se diz. Seus gemidos tornam-se detestáveis, grosseiramente raivosos, e continuam por vários dias e noites. Mas ele mesmo sabe que os gemidos não terão utilidade alguma; sabe melhor do que ninguém que é em vão que ele tortura e irrita a si e aos demais; sabe que até a plateia que ele quer impressionar e toda a sua família já sentem repulsa ao ouvi-lo gemer, não acreditam nem um pouquinho na sua sinceridade e estão convencidas de que ele poderia gemer de outra maneira, mais simples, sem tremer a voz e sem bancar o original, de que ele está fazendo palhaçada de raiva, por pura maldade. Pois bem, a volúpia está precisamente em todas essas tomadas de consciência e nessas indignidades. “Estou incomodando todos vocês, arrebentando seus corações, não deixo ninguém dormir. Pois então não durmam, sintam também minuto a minuto que meus dentes estão doendo. Já não sou mais para vocês o herói que antes quis parecer, sou simplesmente um homenzinho desprezível, um chenapan. Que seja! Estou muito contente porque vocês me entenderam. Vocês acham terrível ouvir meus infames gemidos? Pois que seja terrível; e agora, para vocês, vou emitir uns garganteios ainda mais terríveis...” Ainda não entenderam, senhores? Não; pelo visto, é necessário desenvolver-se e adquirir consciência de maneira mais profunda e completa para compreender todos os meandros dessa volúpia. Estão rindo? Fico feliz, senhores. Naturalmente, minhas piadas são de mau gosto, irregulares, incompreensíveis e denotam minha falta de autoconfiança. Mas isso é porque eu mesmo não me respeito. Por acaso um homem com consciência pode ter algum respeito próprio?
Dostoievski, in Notas do subsolo

Cultura Pop: Your Choise!, de Zakeu


No primeiro dia do ano

São Paulo parecia uma metrópole-fantasma. No fim da tarde do dia 2 de janeiro telefonei para alguns amigos: queria saber o que eles tinham feito no primeiro dia de 2010. Para minha surpresa, alguns trabalharam. Um engenheiro me disse, sem ironia, que aproveitara o silêncio para fazer o cálculo da estrutura de um galpão.
O maldito arquiteto devia ter projetado um simples galpão e desenhou um disco voador”, ele disse. “Os arquitetos não aprendem mesmo.”
O engenheiro passou o dia calculando estruturas metálicas, mas Eliete, uma amiga cantora, passou a manhã deitada na rede, ouvindo bossa-nova e Pixinguinha; durante a tarde leu Nietzsche e Heráclito, e sonhou com um rio que não podia ser o Tietê nem o Pinheiros, que, na cidade de São Paulo, são caricaturas feias de um rio.
Quando acordei, levei um susto”, ela disse. “Amanhecia. Não senti a noite do primeiro dia do ano.”
E o rio?”, perguntei.
Era imenso como o mar, um rio sem margens, perigosíssimo. Acho que um rio assim só existe nos sonhos.”
Nem todos ouvem música, leem e sonham. Um amigo fotógrafo captou imagens do primeiro dia do ano em São Paulo.
Fiz um ensaio fotográfico sobre o lixo”, ele disse. “E também sobre os mendigos e catadores de papel. Passei o dia fotografando a cidade de ressaca. Fiz mais de trezentas fotos no centro e em alguns bairros. O título do ensaio é ‘Manhã depois da festa’.”
Já o meu amigo Guerra — um sobrenome que contraria o caráter pacifista da pessoa — passou o dia enviando mensagens contra os fabricantes de todo tipo de material bélico.
Guerra talvez seja o mais ingênuo dos pacifistas, e isso não é pouco. Não sabe ou não quer saber que as indústrias de armamentos são as mais poderosas do planeta. O lema de Guerra é: “Por um desarmamento universal”.
Guerra é um esperançoso. E eu admiro pessoas esperançosas.
Não é o caso de Vanda, que é mais cética e pessimista do que um eleitor latino-americano. Vanda passou o primeiro dia do ano vendo filmes de guerra.
É incrível como A batalha de Argel é atual”, ela disse, com uma voz seca. Ou seria uma voz de dry martíni? Isso porque, se bem a conheço, Vanda adora drinques. Ela viu em casa o filme de Gillo Pontecorvo, e depois viu um documentário sobre as bombas atômicas que destruíram Hiroshima e Nagasaki.
Vanda não conhece Guerra. Melhor assim: eu perderia um desses amigos se eles se encontrassem. Talvez perdesse ambos: o esperançoso e a cética.
Tomei coragem e telefonei para a minha dentista. Não a encontrei em casa, e sim no consultório.
Me liga daqui a meia hora”, ela disse, pensando que eu estava com dor de dente. Liguei e conversei brevemente com uma dentista exausta: quatro pacientes estavam desesperados de tanta dor. O primeiro tratamento de canal havia começado às dez da manhã do dia anterior.
Foi o Réveillon dos canais inflamados”, ela disse. “Ontem trabalhei o dia todo. Você também está sentindo dor?”
Não”, respondi. “Só queria saber o que você tinha feito no primeiro dia do ano.”
Então já sabe. Feliz 2010.”
Desligou de um modo precipitado. Imagino que tenha voltado a tratar o penúltimo canal da tarde.
Mais sereno, talvez mais melancólico, foi o dia de um amigo artista.
Ontem acordei às sete e comecei a desenhar o rosto de minha mãe”, ele disse. “Senti saudades dela e fiz várias aquarelas de um rosto que não vejo há mais de quatro anos. Desenhei de memória, sem olhar para fotografias.”
Lembrei de minha mãe: foi o primeiro Ano-Novo em que acordei órfão. Sem talento para a arte, não desenhei nada, e por algum tempo recordei um rosto que não vejo há bastante tempo.
Telefonei para Virginia, com quem não falava havia meses.
Você me ligou no dia certo”, ela disse, com uma voz animada.
Por quê?”
Ontem encontrei por acaso meu primeiro namorado. Ele estava casado com uma mulher… Bom, não interessa. O fato é que nós dois estávamos casados e nos separamos no ano retrasado. Adivinha…”
Nem é preciso”, eu disse. “Imagino que ontem vocês nem saíram de casa.”
Não saímos da cama. Ainda estamos deitados.”
Virginia foi a única que me fez uma pergunta indiscreta:
E você, o que fez hoje?”
Passei o dia telefonando aos amigos para saber o que eles tinham feito ontem.”
Por que você fez isso?”
Porque precisava de assunto para escrever uma crônica.”
Milton Hatoum, in Um solitário à espreita

O domínio do Bem

Há um limite a partir do qual a força visual do olho humano deixa de ser capaz de identificar o mau instinto tornado demasiado sutil para os seus fracos recursos; é aí que o homem faz começar o reino do bem; e a sensação de ter penetrado nesse reino desperta sincronicamente nele todos os instintos, os sentimentos de segurança, de bem-estar, e de benevolência, que o mal limitava e ameaçava. Por consequência: quanto mais o olhar é fraco, maior é o domínio do bem! Daí a eterna alegria do povo e das crianças! Daí o abatimento dos grandes pensadores, e o humor negro que é o seu, humor parente da má consciência.”
Friedrich Nietzsche, in A Gaia Ciência

02/01/2018

Uma leve brisa


Quando a Amanda começou a frequentar o bar da turma, levada pelo Anselmo, só notaram a sua beleza. Ela era linda. Olhos claros, nariz perfeito... Aos poucos foram descobrindo suas outras virtudes. Principalmente os homens.
Além de bonita, simpática.
E simples.
Mas não é burra.
Nada. Tem conteúdo.
E covinhas.
O quê? — Vocês não notaram? Duas covinhas. Quando ela sorri.
E que sorriso!
Que dentes!
E os cabelos?
Ó, Anselmo, de onde você descolou essa mulher?
O Anselmo contou que a tinha conhecido na academia. Além de tudo, era esportiva. Não, não sabia o que ela fazia. Pesquisa antropológica, análise de sistemas, qualquer coisa assim. Não tinha os detalhes.
As mulheres não estavam gostando de toda aquela atenção com a Amanda, mas não podiam protestar. Porque os homens tinham razão. A Amanda era fora do comum. E, segundo reconheceu a Michelle, a contragosto, “querida”.
Mas foi a Michelle quem notou pela primeira vez.
Vocês notaram que os cabelos dela se mexem com o vento?
E o que que tem isso? — perguntou o Marcão. — Os meus também se mexem.
Mas a Michelle completou:
Mesmo quando não tem vento...
Tá maluca.
Prestem atenção — disse a Michelle.

* * *
Naquele dia a Amanda chegou, beijou todo mundo, sentou-se, pediu uma cocadáieti, e depois se surpreendeu: por que estavam todos olhando para ela daquele jeito? Nada, nada. Todos disfarçaram. “É porque tá todo mundo apaixonado”, brincou o Anselmo. Mas a Michelle estava certa. Uma leve brisa batia no rosto da Amanda e fazia seus cabelos esvoaçarem suavemente. Era como se ela estivesse de frente para o mar, em vez de uma mesa de bar. E durante o resto da noite Amanda não notou a movimentação da turma ao seu redor e, sorrateiramente, ao redor do bar, tentando descobrir a origem daquela brisa que ninguém mais sentia, a brisa que só esvoaçava os cabelos dela. Não era corrente de ar. O bar não tinha ar-condicionado. Pelas janelas não entrava vento nenhum. De onde vinha a leve brisa que só aumentava a beleza de Amanda?

* * *
Vento no rosto, não dá — decretou a Heleninha, quando a Amanda foi embora. — Eu aguento tudo. As covinhas, tudo. Mas com vento exclusivo no rosto não há competição. É covardia.
As outras concordaram. Brisa permanente nos cabelos era demais. Mas de onde vinha a brisa? Surgiram várias teses.
É truque. Ela tem um ventilador escondido em algum lugar.
Onde?
Sei lá. Ou tem alguém que segue ela, com um ventilador.
Ou então:
É mágica mesmo. Além de tudo, ela é mágica.
Bruxa, você quer dizer.
Mágica — insistiu o Marcão, com o olhar perdido.
A última palavra foi da Michelle.
Está bem que ela seja privilegiada. Mas brisa só no rosto dela, não!

* * *
As mulheres optaram por barrar a Amanda no grupo e ainda alertar o Anselmo, pois ninguém sabia de que outras bruxarias ela era capaz. Os homens discordaram com um voto em separado: a Amanda deveria continuar no grupo. Afinal, era só uma leve brisa. Se um dia o vento aumentasse, decidiriam o que fazer.
Luís Fernando Veríssimo, in Amor Veríssimo

Engano

Os homens geralmente preferem ser enganados com prazer a ser desenganados com dor e desgosto.”
Marquês de Maricá

O Impressionimo em Monet

La Gare Sain-Lazare (1877), de Claude Monet

Todas as armas

Na luta de classes
todas as armas são boas:
pedra,
noites,
poemas.
Paulo Leminski

Um solitário em busca de justiça social

O meu sentido ardente de justiça social e de dever social estiveram sempre em estranho desacordo com uma marcada carência de necessidade direta de ligação com os homens e com as comunidades humanas. Sou um verdadeiro solitário (Einspänner), que nunca pertenceu inteiramente e de todo o coração ao Estado, à Pátria, ao círculo dos amigos ou até mesmo à família mais chegada, mas antes pelo contrário experimentou sempre, em relação a todas essas ligações, um sentimento indomável de estranheza e de ânsia de isolamento, um sentimento que com a idade mais se intensifica. Apercebemo-nos nitidamente, mas sem o lamentarmos, que nos é limitada a convivência em sociedade com outros seres humanos. Um homem desta natureza perde, de certo modo, uma parte da sua maneira de ser inocente e despreocupada mas ganha em se sentir largamente independente das opiniões, dos hábitos e juízos dos homens, e não cai na tentação de estabelecer o seu equilíbrio numa base tão pouco sólida.”
Albert Einstein, in Como vejo o mundo

Menino a bico de pena

Como conhecer jamais o menino? Para conhecê-lo tenho que esperar que ele se deteriore, e só então ele estará ao meu alcance. Lá está ele, um ponto no infinito. Ninguém conhecerá o hoje dele. Nem ele próprio. Quanto a mim, olho, e é inútil: não consigo entender coisa apenas atual, totalmente atual. O que conheço dele é a sua situação: o menino é aquele em quem acabaram de nascer os primeiros dentes e é o mesmo que será médico ou carpinteiro. Enquanto isso - lá está ele sentado no chão, de um real que tenho de chamar de vegetativo para poder entender. Trinta mil desses meninos sentados no chão, teriam eles a chance de construir um mundo outro, um que levasse em conta a memória da atualidade absoluta a que um dia já pertencemos? A união faria a força. Lá está ele sentado, iniciando tudo de novo mas para a própria proteção futura dele, sem nenhuma chance verdadeira de realmente iniciar.
Não sei como desenhar o menino. Sei que é impossível desenhá-lo a carvão, pois até o bico de pena mancha o papel para além da finíssima linha de extrema atualidade em que ele vive. Um dia o domesticaremos em humano, e poderemos desenhá-lo. Pois assim fizemos conosco e com Deus. O próprio menino ajudará sua domesticação: ele é esforçado e coopera. Coopera sem saber que essa ajuda que lhe pedimos é para o seu auto-sacrifício. Ultimamente ele até tem treinado muito. E assim continuará progredindo até que, pouco a pouco - pela bondade necessária com que nos salvamos - ele passará do tempo atual ao tempo cotidiano, da meditação à expressão, da existência à vida. Fazendo o grande sacrifício de não ser louco. Eu não sou louco por solidariedade com os milhares de nós que, para construir o possível, também sacrificaram a verdade que seria uma loucura.
Mas por enquanto ei-lo sentado no chão, imerso num vazio profundo.
Da cozinha a mãe se certifica: você está quietinho aí? Chamado ao trabalho, o menino ergue-se com dificuldade. Cambaleia sobre as pernas, com a atenção inteira para dentro: todo o seu equilíbrio é interno. Conseguido isso, agora a inteira atenção para fora: ele observa o que o ato de se erguer provocou. Pois levantar-se teve consequências e consequências: o chão move-se incerto, uma cadeira o supera, a parede o delimita. E na parede tem o retrato de O Menino. É difícil olhar para o retrato alto sem apoiar-se num móvel, isso ele ainda não treinou. Mas eis que sua própria dificuldade lhe serve de apoio: o que o mantém de pé é exatamente prender a atenção ao retrato alto, olhar para cima lhe serve de guindaste. Mas ele comete um erro: pestaneja. Ter pestanejado desliga-o por uma fração de segundo do retrato que o sustentava. O equilíbrio se desfaz - num único gesto total, ele cai sentado. Da boca entreaberta pelo esforço de vida a baba clara escorre e pinga no chão. Olha o pingo bem de perto, como a uma formiga. O braço ergue-se, avança em árduo mecanismo de etapas. E de súbito, como para prender um inefável, com inesperada violência ele achata a baba com a palma da mão. Pestaneja, espera. Finalmente, passado o tempo necessário que se tem de esperar pelas coisas, ele destampa cuidadosamente a mão e olha no assoalho o fruto da experiência. O chão está vazio. Em nova brusca etapa, olha a mão: o pingo de baba está, pois, colado na palma. Agora ele sabe disso também. Então, de olhos bem abertos, lambe a baba que pertence ao menino. Ele pensa bem alto: menino.
Quem é que você está chamando? pergunta a mãe lá da cozinha.
Com esforço e gentileza ele olha pela sala, procura quem a mãe diz que ele está chamando, vira-se e cai para trás. Enquanto chora, vê a sala entortada e refratada pelas lágrimas, o volume branco cresce até ele - mãe! absorve-o com braços fortes, e eis que o menino está bem no alto do ar, bem no quente e no bom. O teto está mais perto, agora; a mesa, embaixo. E, como ele não pode mais de cansaço, começa a revirar as pupilas até que estas vã o mergulhando na linha de horizonte dos olhos. Fecha-os sobre a última imagem, as grades da cama. Adormece esgotado e sereno.
A água secou na boca. A mosca bate no vidro. O sono do menino é raiado de claridade e calor, o sono vibra no ar. Até que, em pesadelo súbito, uma das palavras que ele aprendeu lhe ocorre: ele estremece violentamente, abre os olhos. E para o seu terror vê apenas isto: o vazio quente e claro do ar, sem mãe. O que ele pensa estoura em choro pela casa toda. Enquanto chora, vai se reconhecendo, transformando-se naquele que a mãe reconhecerá. Quase desfalece em soluços, com urgência ele tem que se transformar numa coisa que pode ser vista e ouvida senão ele ficará só, tem que se transformar em compreensível senão ninguém o compreenderá, senão ninguém irá para o seu silêncio ninguém o conhece se ele não disser e contar, farei tudo o que for necessário para que eu seja dos outros e os outros sejam meus, pularei por cima de minha felicidade real que só me traria abandono, e serei popular, faço a barganha de ser amado, é inteiramente mágico chorar para ter em troca: mãe.
Até que o ruído familiar entra pela porta e o menino, mudo de interesse pelo que o poder de um menino provoca, pára de chorar: mãe. Mãe é: não morrer. E sua segurança é saber que tem um mundo para trair e vender, e que o venderá.
É mãe, sim é mãe com fralda na mão. A partir de ver a fralda, ele recomeça a chorar.
- Pois se você está todo molhado!
A notícia o espanta, sua curiosidade recomeça, mas agora uma curiosidade confortável e garantida. Olha com cegueira o próprio molhado, em nova etapa olha a mãe. Mas de repente se retesa e escuta com o corpo todo, o coração batendo pesado na barriga: fonfom!, reconhece ele de repente num grito de vitória e terror - o menino acaba de reconhecer!
- Isso mesmo! diz a mãe com orgulho, isso mesmo, meu amor, é fonfom que passou agora pela rua, vou contar para o papai que você já aprendeu, é assim mesmo que se diz: fonfom, meu amor! diz a mãe puxando-o de baixo para cima e depois de cima para baixo, levantando-o pelas pernas, inclinando-o para trás, puxando-o de novo de baixo para cima. Em todas as posições o menino conserva os olhos bem abertos. Secos como a fralda nova.
Clarice Lispector, in Felicidade clandestina

01/01/2018

Ivan Lins - Novo Tempo

Requerimento

Caro Senhor Tempo,
Espero que esta lhe encontre passando bem, ou melhor, passando o mais devagar possível.
Por aqui vai-se indo, como o Senhor quer e consente, meio rápido demais para o meu gosto, e quando vi já era dezembro.
Foi-se mais um ano.
E com ele se foi uma quantidade incalculável de amores, cores, idades, alguns amigos, não sei quantos neurônios, memórias, remorsos, desvarios, cabelos, ilusões, alegrias, tristezas, várias certezas (se não me engano, treze), algumas verdades indiscutíveis, umas calças que não fecham mais e aquele vestido de que eu gostava tanto.
Foi-se o meu gosto por vitrine.
Foi-se quase todo meu vidro de perfume.
Foi-se meu costume de imaginar asneiras à noite.
Foi-se meu forte instinto de acreditar no que me dizem.
Foi-se meu açucareiro de porcelana.
Que pena.
Foi-se o tempo em que uma simples farra não significava necessariamente uma condenação sumária do dia subsequente.
Foi-se a poupança.
O troquinho da gaveta.
Foi-se aquele antigo projeto.
Foram-se exatamente nove vírgula seis por cento de todas as minhas esperanças.
Será que o Senhor não cansa, seu Tempo?
Não pensa em tirar umas férias, dar uma pausa, respirar um pouco? Não lhe agrada a ideia de mudar o andamento? Diminuir o ritmo? Em vez de tique-taque, inventar uma palavra mais comprida para compasso, mantra, ícone, diagrama?
Me diz sinceramente: para que tanta pressa?
Anda difícil acompanhar seus passos ultimamente.
Não precisa dar meia-volta, eu não espero tanto. Eternidade? Não. Só queria sua amizade.
Mas já é dezembro.
Foi-se mais um ano.
E o Senhor passou voando, rebocou os meus momentos, foi desbotando minhas lembranças, carregou mais doze meses inteiros levando cada instante meu de carona.
Tentei voltar atrás em algumas decisões. Já era tarde.
Não deixei nada para amanhã. Mesmo assim, não fiz sequer metade do que pretendia. Imaginei várias maneiras de estancar os dias, segunda, terça, quarta, quando via já era quinta. Sexta. Sábado. Domingo. Pronto.
Pensei em fuga. Será que existe algum lugar deste mundo onde as horas não me encontrem? Fiquei meses trancada em casa. Foi inútil. Lá fora, o Senhor continua passando.
E já passou mais um pouquinho.
Calma, Tempo! Espera só um minutinho para eu explicar melhor meu ponto de vista.
Nem todo mundo é pedra, concorda? Dito isso, imagine então quantos pobres mortais sofrem da mesma agonia diária: giros e mais giros nos ponteiros, os cantos dos cucos, as denúncias das sombras, os grãos de areia escorrendo (parece até hemorragia crônica), tudo escapulindo, descendo, subindo, o frenesi dos dígitos, um, dois, três, quatro, cinco, cem, o Senhor vai tirar o pai da forca? Está fugindo de alguém? De quem? De mim? De ontem?
Eu conheço de cor suas obrigações.
Estou convencida de suas utilidades.
Não fosse o senhor, não existiria saudade, retrato, suvenir, antiguidade, história, época, período, calendário, outrora, passatempo, novidade, creme antirrugas, disputa por pênaltis, antepassado, descendente, dia, noite, nada, não existiria sabedoria, eu sei disso.
Adriana Falcão, in O doido da garrafa

As penas que prevalecem

Eu não sei como não treme a mão a todos os ministros de pena, e muito mais àqueles que sobre um joelho aos pés do rei recebem os seus oráculos, e os interpretam, e estendem. Eles são os que com um advérbio podem limitar ou ampliar as fortunas; eles os que com uma cifra podem adiantar direitos, e atrasar preferências; eles os que com uma palavra podem dar ou tirar peso à balança da justiça; eles os que com uma cláusula equívoca ou menos clara, podem deixar duvidoso, e em questão, o que havia de ser certo e efetivo; eles os que com meter ou não meter um papel, podem chegar a introduzir a quem quiserem, e desviar e excluir a quem não quiserem; eles, finalmente, os que dão a última forma às resoluções soberanas, de que depende o ser ou não ser de tudo. Todas as penas, como as ervas, têm a sua virtude; mas as que estão mais chegadas à fonte do poder são as que prevalecem sempre a todas as outras. São por ofício, ou artifício, como as penas da águia, das quais dizem os naturais, que postas entre as penas das outras aves, a todas comem e desfazem.”
Padre Antônio Vieira, in Sermões

Calvin e Haroldo


Recados do Sirimim

Nosso riachinho vai, vai. Dou a vocês notícias dele, nesses tempos de amores. De lá, o mundo é lúcil, transparente. É julho. Neblina fria, por tudo, se você se levantar às seis da manhã: é toda na terra. Antes do sol, cedinho, ela está no chão, por toda a parte. Menos no leito do Sirimim, no caminhar da correnteza. Com o sol, ela já dá de se esfiapando e subindo — os penachos de neblina. Já está nos cajueiros e nos bambus, por cima. A beleza da manhã é esta: você não vê o sol, mas a claridade.
Depois, aquelas névoas vão sempre caminhando, encostadas nas pedreiras, nas grotas. Cheiro de de-manhã é tão gostoso! Amanhece tudo molhado, muito orvalho. Todos os pezinhos de mamão, você olhava, ficavam cintilando. Talvez porque as folhinhas são recortadas, nos biquinhos delas param as gotinhas, penduradas.
De madrugadinha, o sol ainda não estava forte. Do Sirimim, voaram dois patos-do-mato, quando eu ia pela estrada. Dois patos-bravos: eles levantaram voo, dos canais da horta, onde tem os muçuns. Estavam atrás do muçum, escorando o muçum? Porque é a hora do muçum tomar sol. Ele sai, das fundas locas, que escava, deixa um trilhozinho. Fica na água ralinha da beira. Ele vem à tona, para tomar sol. Seus sulcos, na lama, dão aquele desenho, sob um, dois dedos de água.
E o barulho do Sirimim ainda se ouve forte, desde a pontezinha, cicioso. Este ano, choveu passado da conta, a várzea ficou debaixo d’água, o verão inteiro. Foi uma cheia! Não se podia ir à horta, porque ela se encharcou demais. Morreram dois ou três mamoeiros. Morreram os pés de pimenta. As laranjeiras estão lá, padecendo, mas dando fruta. Viveram muitos olhos-d’água. Alguns, antigos, secos, voltaram a jorrar. Mas, diz o Pedro que os outros são miriquilhos novos, que ele nem conhecia. Brotou, um, mesmo no terreiro do Joaquim. O Pedro diz: — “Se eu não tomo cautela, e não soco o chão de terra, dá água até dentro de casa. Daqui a pouco, os pés das camas estão amolecendo...” Marejou água, de fato, em todas as moradas. Mas, por contra, saiu também um formigueiro de de-dentro do chão da casa do Antônio.
Vamos vir ao começo: àquela grande pedra, manânime, ninfal, donde o Sirimim primeiro nasce. As abelhas prosseguem lá, escutei o barulhinho delas, zumbindo, e vêm se apinhar nas flores vermelhas da cana-de-macaco. Parece que quando dão enxames, estes não viajam, mas vão-se arrastando ali por dentro, na mesma pedra, em rachas e lugares. Está-se na altura de tirar mel, de novo, diz o Pedro. Mas o Maninho não tem tempo, anda atrapalhado, com o casamento da irmã dele. Maninho é filho do Dudu. E os chuchuzeiros prosperam. Aqueles chuchus, que o Pedro plantou para mim, perto da pedra, das bananeiras e do mato. Teve de plantar dois, porque, se não, não nasce, não vinga a muda, se uma só: é preciso sempre o par.
O Pedro é que raiava feliz, porque estão fazendo para ele outra casinha, e de tijolo, telha francesa, emboçada por fora e por dentro. Também, a dele já está tão impossível — apodrecidamente, velha de se desmantelar. Assim mesmo, ele e Eva, sua filha mocinha, se acomodavam, com Deus, sozinhos ali dentro, quem sabe fazendo esperanças de coisa melhor. O Pedro, ainda que aleijadinho, trabalha o que pode, não pouco, quase o tanto que o velho Joaquim, seu irmão, vizinho; seu taciturno padrinho. O Pedro, a gente o avista, desde o princípio da manhã, atolado entre os verdes, do milho, do arroz. Assim meio entortado, meio agachado, apoiado à enxada ou à foice; ou só um seu mover-se, nesga de roupa, de camisa. O calor estando pesando forte, mais para a tarde, ele permanece então, um bocado, a dentro de portas, rezando sentado no jirau, feita a sua parte. Se a gente perguntar, ele declara: — “Agora eu estou esperando a chuva...” Ele nunca pensou em morar em “casa de luxo”, com janelas de venezianas. Diz: — “Chegou o dia das pessoas terem inveja do Pedro...”
A casinha, que se faz, será mesmo ali, pegada à velha, no mesmo recanto noruego — de pedra, da grota, das bananeiras, do mato. O Pedro, porém, gostaria de arredá-la um pouco da outra, cisma, tem dessas superstições: teme o novo superposto ao velho ou a ele contíguo, não dá sorte. E, com lábia e conversas, consegue mudar um tanto o lugar onde a casa vai ser, afasta-a: — “Chega um pouco mais para lá, compadre... Depois, eu desaterro aqui...” Os homens vão cedendo.
A biquinha se põe grossa, a primeira, dali donde o Pedro pegou o tatu. A água está tombando muita da pedra — porquanto as ditas chuvas — chuva que foi muita. Os mais pocinhos e biquinhas, sucessivos, estão e são os mesmos, só os bichinhos variam, por ali. O Pedro agora tem outra cachorra, a filha da Bolinha, quase da mesma bondade. Sem um cachorrinho, ao menos, a gente pobre não se pode.
Também a mangueira grande persiste: a maior de todas, caindo os galhos para todos os lados, e da qual desviaram o Siriminzinho, à força, para ele não atrapalhar as raízes da árvore. Debaixo dela, o Pedro depositou um urinol velho, plantado de avencas; é muda de avenca, para florescer, no lugar sombroso. Mas, a bacia de folha, que se vê, não está jogada fora. Isto é, alguém, há muito, muito tempo, jogou-a fora; e, o Pedro, que carece de utensílios, recolheu-a do monturo, pregou-lhe um fundo outro, de madeira, em pontos, se perfura, estragada, então o Pedro tem de aplicar-lhe remendos, de lata, aqui e ali. E havia, outrossim, ao pé da mangueira, um passarinho: o passarinho verdinho, se balançando no arroz. Nunca vi passarinho tão de costas, na beira d’água. Ele já teria bebido?
O arrozal do Pedro, aliás, está com o “arroz de passarinho”: o segundo arroz, do rebroto das touceiras após a colheita, mais baixinho, mais ralo, e que não se colhe mais, e fica para eles; já todo chocho, porque os passarinhos o comem ainda verde. São passarinhos de toda qualidade, que, decerto, vêm de longe, nuvenzinhas deles, quanto e quantos. As espécies não se misturam? Enquanto uns catam e comem, outros bandos esperam sua vez, férvidos nas árvores e nos arbustos. O arrozal do Pedro, de tudo em tudo, ainda se faz muito alagado.
A pinguela — bem. Com água lhe passando pelos lados, quase por cima, enfeitada e cheia de florzinhas amarelas, de plantas aquáticas, de suas duas bandas e no meio dos paus. O primeiro afluente do Sirimim — o vindo daquela embaúba nova, no caminho da casa do Joaquim — e que todos os anos seca, como que este ano não secou; e canta, sim, sim.
A várzea grande deu muito peixe: os camboatás, com dois bigodinhos de cada lado: cascudos e traíras, poucas: e, principalmente, os barrigudinhos. E, depois que a Irene foi-se embora, deu uma fartura de rãs. Irene caçava-as e pegava-as, para comer. O Pedro e a Eva sempre escutam as rãs. As com espécie de assovio, de taquara, de grilo grande, ou a meio desafinada, rouca: — ... corrém, corrém, corréim! A mais, os sapos — de: tiplão! tiplão! pão!... e de: tum, tum, tum... — sapos de vários feitios e diversas sonoras batidas.
O arrozal do Joaquim, também, revive-se assim cheio de pássaros, em seu arroz-de-ninguém. De revoada em revoada, deles tem centenas. O Joaquim nem olha para eles.
O chupão é que ficou mais atoladiço, mais perigoso, se bem que deve de medir só metro-e-meio por dois metros, talvez nem tanto. Mas, estão lá, marcando-o, os bambus fincados em volta.
A biquinha do Joaquim ainda faz muito barulho, engrossada, no meio da palhada de milho. É um barulho de nino de água, rolando todo o tempo. Mas a Irene não está mais aqui, lavando roupa. Irene foi-se embora, para o Rio de Janeiro, veio se empregar lá, de todo serviço, como ela mesma diz: pau-para-toda-obra. Foi porque o namoro dela com o Maninho não deu certo. Ela namorava o Maninho, e o Maninho tirava o corpo fora. Foi no baile do Cristóvão. O Maninho dançou uma vez com ela, só, depois dançou com as outras todas. Ele acha a Irene muito boa moça, mas não queria pensar por ora em casamento, enquanto não acabar de casar todas as irmãs. Depois é que ficou sabendo que ela é muito geniosa. Ela saiu ao pai, o Joaquim. Mas, agora, na biquinha, quem lava a roupa é a mãe da Irene, mulher do Joaquim, por nome Maria: a Maria do Aarão.
Na horta, o Joaquim fez umas pontezinhas de bambu, nos canais. Daquele bambu bonito, imperial, amarelo-e-verde. Uns quatro, em cada ponte. Mas, calculadas pelo peso dele, pouco, de um tão velhinho; e, se passar por ali pessoa gorda, ou mais pesada, e não tomar cuidado, distribuindo o peso, pisando muito espalhado, molha os pés, entre os bambus, o bambu verga.
A horta está com muitas plantinhas d’água, gentis. As santas-luzias, que se alastram, com florinhas amarelinhas, elas dão remédio para a vista. O caldo-santo, de folha verde-muito-escuro, bonitinho, também se espalhando. Outras, outras. São cheiros do mato. Muitas variadas praguinhas, na água, puro em verdes. O Sirimim ainda anda cheio demais de moles folhagens, que quase o submergem, por todos os trechos. As mais, nos canais, são sorte de mínimas algas. Por ali perpassa a aranha aquática, pernuda. E os muçuns. O muçum bóia, mais ou menos. É um peixe enguia — roliço, preto, liso e gosmento; tem os de mais de dois palmos. O Joaquim mata-os, de enxada, no limpar os regos. A gente põe na brasa, para se tirar a casca. Quando ficam vermelhinhos, arranca-se a pele, e então esvaziam-se, por um corte na cauda. E se frita. Mas o Joaquim não gosta, porque gasta muita banha.
Os bambus, perto da ponte, cresceram muito, o bambu está sempre renovando, aumentando; só que os outros bambuais são tão grandes, que a gente nem nota seu crescer. Com a chuva, desmanchou-se o ninho velho do sabiá, mas ele já tinha tirado os filhotes. O bambu, lá, eram só uns tufos, porque, quando se fez a estradinha para a casa, tiveram de cortar. Agora, já estão enchendo. O bambu parece que entendeu: porque vai brotando para baixo. Ainda não é tempo do sabiá voltar.
Pela estradinha, aí, passo adiante, você acha a casinha nossa — que já ficou muito mais pronta: três amores! — lindazinha. A gente vai almoçar angu, feijão, torresmos, suã de porco; e doce de limãozinho verde em calda.
E agora tem é uma cabritinha pastando, na várzea pequena que era a da bezerrinha de pé quebrado. Cabritinha do Antônio, o colono novo, que pediu para se deixar. A bezerrinha ficou sarada, só que para sempre manca, com o pezinho virado para trás. Mas já acompanha as outras, no pasto. A cabritinha fica amarrada em uma corda, bebendo água do Sirimim e comendo o capim da beira dele. É branquinha, só com duas bolinhas pretas nas costas, uma de cada lado.
A foz, quando acabam as enchentes, resta mais arrumadinha toda, com a areia limpa, renovada.
Por lá, na enseadinha e no rio, debaixo dos bambus, nadava uma marreca, selvagem, com os seus marrequinhos. Outro dia, um deles veio subindo o Sirimim, se aventurou. Foi de manhã, e ele era pequenino, cor de ouro: o marreco, antes de ser branco — quando pequenininho — é dourado. Douradinho, já voava.
Parece que queria pegar uma libélula. O patinho veio nadando, subindo o Sirimim, por todas as retas e curvas, contra a correnteza, tão pequenino e douradinho, entrequequanto. Veio parar antes da ponte, no bambuzinho adonde o ninho do sabiá. Ali, estreita. Ali, ele gostou, nadava em volta de si, e parafusava com a cabeça, dentro d’água. No que estava, porém, entre capins, se assustou e voou. Se assustou, sem duas vezes, com algo no mato. Voou para baixo e por cima dos bambus. Voou para o rio, certeiro, voltou voando para perto da pata, sua mãe, na foz: e a marreca, com seus sete marrequinhos, mergulharam então para fugir, para o rio, além.
Enquanto o Sirimim por ali se vai sempre a sair — no oceano sonho. Nunca mais, mesmo que se acabe o mundo, deixará de haver, para vocês e em mim, o riachinho Sirimim.
Guimarães Rosa, in Ave, palavra

Bobagem

Emocionado e um pouco bêbado, aos cinco minutos do ano novo ele resolveu telefonar para o velho desafeto. - Alô? - Alô. Sou eu.
- Eu quem?
- Eu, pô.
O outro fez silêncio. Depois disse:
- Ah. É você.
- Olha aqui, cara. Eu estou telefonando pra te desejar um feliz ano-novo. Entendeu?
- Obrigado. 
- Obrigado, não. Olha aqui. Sei lá, pô...
- Feliz ano-novo pra você também.
- Eu nem me lembro mais por que nós brigamos. Juro que não me lembro.
- Eu também não lembro.
- Então, grande. Como vai Vivinha?
- Bem, bem. Quer dizer, mais ou menos. As enxaquecas...
Ele ficou engasgado. De repente se deu conta de que tinha saudades até das enxaquecas da Vivinha. Como podiam ter passado tantos anos sem se ver?
Como tinham deixado uma bobagem afastá-los daquela maneira? As pessoas precisavam se reaproximar. Aquele seria o seu projeto para o fim do milênio.
Reaproximar-se das pessoas. Só dar importância ao que aproximava. Puxa?
Estava tão enternecido com as enxaquecas da Vivinha que mal podia falar.
- A vida é muito curta. Você está me entendendo? Assim não dá.
Era como se estivesse reclamando com o fornecedor. A vida vinha com a carga muito pequena. Era preciso um botijão maior, senão não dava mesmo.
E ainda desperdiçavam vida com bobagem.
Ele quis marcar um encontro para ontem. No Lucas, como antigamente. O outro foi mais sensato e contrapropôs hoje, prevendo que ontem seria um dia de ressaca e segundos pensamentos. E tinha razão. Ontem à noite, ele voltou a telefonar. Falou secamente. Pediu desculpas, disse que não poderia ir ao encontro e despediu-se com um formal “Melhoras para a Vivinha”.
Tinha se lembrado da bobagem que motivara a briga.
Luís Fernando Veríssimo, in Comédias para se ler na escola