03/12/2017

Da verdade, da mentira

Gosto da verdade. Acredito que a humanidade precisa dela; mas precisa ainda mais da mentira que a lisonjeia, a consola, lhe dá esperanças infinitas. Sem a mentira, a humanidade pereceria de desespero e de tédio.”
Anatole France, in A vida em flor

As caridades odiosas

Foi uma tarde de sensibilidade ou de suscetibilidade? Eu passava pela rua depressa, emaranhada nos meus pensamentos, como às vezes acontece. Foi quando meu vestido me reteve: alguma coisa se enganchara na minha saia. Voltei-me e vi que se tratava de uma mão pequena e escura.
Pertencia a um menino a que a sujeira e o sangue interno davam um tom quente de pele. O menino estava de pé no degrau da grande confeitaria. Seus olhos, mais do que suas palavras meio engolidas, informavam-me de sua paciente aflição. Paciente demais. Percebi vagamente um pedido, antes de compreender o seu sentido concreto. Um pouco aturdida eu o olhava, ainda em dúvida se fora a mão da criança o que me ceifara os pensamentos.
Um doce, moça, compre um doce para mim.
Acordei finalmente. O que estivera eu pensando antes de encontrar o menino? O fato é que o pedido deste pareceu cumular uma lacuna, dar uma resposta que podia servir para qualquer pergunta, assim como uma grande chuva pode matar a sede de quem queria uns goles de água.
Sem olhar para os lados, por pudor talvez, sem querer espiar as mesas da confeitaria onde possivelmente algum conhecido tomava sorvete, entrei, fui ao balcão e disse com uma dureza que só Deus sabe explicar: um doce para o menino.
De que tinha eu medo? Eu não olhava a criança, queria que a cena, humilhante para mim, terminasse logo. Perguntei-lhe: que doce você.
Antes de terminar, o menino disse apontando depressa com o dedo: aquelezinho ali, com chocolate por cima. Por um instante perplexa, eu me recompus logo e ordenei, com aspereza, à caixeira que o servisse.
Que outro doce você quer? perguntei ao menino escuro.
Este, que mexendo as mãos e a boca ainda esperava com ansiedade pelo primeiro, interrompeu-se, olhou-me um instante e disse com delicadeza insuportável, mostrando os dentes: não precisa de outro não. Ele poupava a minha bondade.
Precisa sim, cortei eu ofegante, empurrando-o para a frente. O menino hesitou e disse: aquele amarelo de ovo. Recebeu um doce em cada mão, levantando as duas acima da cabeça, com medo talvez de apertá-los. Mesmo os doces estavam tão acima do menino escuro. E foi sem olhar para mim que ele, mais do que foi embora, fugiu. A caixeirinha olhava tudo:
Afinal, uma alma caridosa apareceu. Esse menino estava nesta porta há mais de uma hora, puxando todas as pessoas que passavam, mas ninguém quis dar.
Fui embora, com o rosto corado de vergonha. De vergonha mesmo? Era inútil querer voltar aos pensamentos anteriores. Eu estava cheia de um sentimento de amor, gratidão, revolta e vergonha. Mas, como se costuma dizer, o Sol parecia brilhar com mais força. Eu tivera a oportunidade de. E para isso fora necessário um menino magro e escuro. E para isso fora necessário que outros não lhe tivessem dado um doce.
E as pessoas que tomavam sorvete? Agora, o que eu queria saber com autocrueldade era o seguinte: temera que os outros me vissem ou que os outros não me vissem? O fato é que, quando atravessei a rua, o que teria sido piedade já se estrangulara sob outros sentimentos. E, agora sozinha, meus pensamentos voltaram lentamente a ser os anteriores, só que inúteis. Em vez de tomar um táxi, tomei um ônibus. Sentei-me.
Os embrulhos estão incomodando? Era uma mulher com uma criança no colo e, aos pés, vários embrulhos de jornal. Ah não, disse-lhes eu. “Dá-dádá”, disse a menina no colo estendendo a mão e agarrando a manga de meu vestido. “Ela gostou da senhora”, disse a mulher rindo. Eu também sorri.
Estou desde manhã na rua, informou a mulher. Fui procurar umas amizades que não estavam em casa. Uma tinha ido almoçar fora, a outra foi com a família para fora.
E a menina?
É menino, corrigiu ela, está com roupa dada de menina mas é menino. O menino comeu por aí mesmo. Eu é que não almocei até agora.
É seu neto?
Filho, é filho, tenho mais três. Olhe só como ele está gostando da senhora. Brinca com a moça, meu filho! Imagine a senhora que moramos numa passagem de corredor e pagamos uma fortuna por mês. O aluguel passado não pagamos ainda. E este mês está vencendo. Ele quer despejar. Mas se Deus quiser, ainda arranjarei os dois mil cruzeiros que faltam. Já tenho o resto.
Mas ele não quer aceitar. Ele pensa que se receber uma parte eu fico descansada dizendo: alguma coisa já paguei e não penso em pagar o resto.
Como a mulher velha estava ciente dos caminhos da desconfiança. Sabia de tudo, só que tinha de agir como se não soubesse – raciocínio de grande banqueiro. Raciocinava como raciocinaria um senhorio desconfiado, e não se irritava.
Mas de repente fiquei fria: tinha entendido. A mulher continuava a falar. Então tirei da bolsa os dois mil cruzeiros e com horror de mim passei-os à mulher. Esta não hesitou um segundo, pegou-os, meteu-os num bolso invisível entre o que me pareceram inúmeras saias, quase derrubando na sua rapidez o menino-menina.
Deus nosso Senhor lhe favoreça, disse de repente com o automatismo de uma mendiga.
Vermelha, continuei sentada de braços cruzados. A mulher também continuava ao lado.
Só que não nos falávamos mais. Ela era mais digna do que eu havia pensado: conseguido o dinheiro, nada mais quis me contar. E nem eu pude mais fazer festas ao menino vestido de menina. Pois qualquer agrado seria agora de meu direito: eu o havia pago de antemão.
Um laço de mal-estar estabelecera-se agora entre nós duas, entre a mulher e eu, quero dizer.
Deixe a moça em paz, Zezinho, disse a mulher.
Evitávamos encostar os cotovelos. Nada mais havia a dizer, e a viagem era longa.
Perturbada, olhei-a de través: velha e suja, como se dizem das coisas. E a mulher sabia que eu a olhara.
Então uma ponta de raiva nasceu entre nós duas. Só o pequeno ser híbrido,radiante, enchia a tarde com o seu suave martelar: “dá dá dá.”
Cecília Meireles, in A descoberta do mundo

Sobre os degraus da morte

(Na morte de Paul Éluard)

Ainda tenho no ouvido tua voz grave, feita metálica pelo interurbano, a me dizer do México para Los Angeles: “Alors, mon vieux, qu’est-ce que tu attends? Viens, donc... “ Tu me chamavas sem me conhecer, porque sabias que eu sou poeta, não tão grande quanto és, não tão bravo quanto foste, não tão necessário quanto serás; mas poeta, e poeta atento às necessidades do seu tempo. Tu me chamavas porque outros poetas, amigos nossos, te haviam falado de mim.
Eras tu, Di Cavalcanti, Neruda, Guillén, a me chamarem, a me mandarem cartas escritas em bares, cheias de fraternidade e palavrões, a me falarem da beleza do México e do gosto da tequilla, a me cativarem para o vosso convívio boêmio e grave.
E eu fui. Fui porque me “tutoiaste” sem me conhecer, nessa grande intimidade que só os poetas têm e só a poesia pode dar. Mas quando cheguei já havias partido para França, a compromissos urgentes. Conheci tua mulher, tua terceira mulher Dominique, que ficara por uns poucos dias mais, essa menina alta, de face lisa de campônia, que vivia ainda envolta na beleza das coisas que lhe deras e lhe disseras. Tinhas casado com ela dias antes, depois de um passeio louco em companhia de Siqueiros e sua mulher pelo México adentro. Ela só tinha na boca jovem um nome: o teu nome. Ela dizia Paul, Paul, Paul, Paul - com uma esperança simples no olhar. Seus braços traziam ainda as marcas de tuas carícias de homem. Tinhas dado um papagaio a ela, e ela o carregava alto no dedo e lhe falava de ti, dizia-lhe que breve estaríeis todos juntos na França, e que ele teria de ter juízo e não falar quando o poeta estivesse trabalhando, pois o poeta era um homem cheio de poemas a fazer. Ela lhe falava como a uma criança, a voz quente, e as penas da cabeça da ave eriçavam-se brandamente enquanto engrolava também doces absurdos.
Tua morte - como a de Mário de Andrade, de angina pectoris - chegou-me, tal a dele, como um teor vazio e abstrato. Inútil pensar que morreste. Mário morreu por acaso? Não vem ele visitar-me sempre que estou sozinho, sempre que estou sofrendo, o amigo fiel? - e não pousa como dantes a grande mão no meu ombro e se deixa horas comigo a discutir os velhos assuntos sentidos, poesia, amizade, beleza, amor, morte, vida, arte, povo, mulher, bebida - e poesia ainda, e ainda poesia, e mais poesia?
Loucura pensar que morreste. Sobre cada face viva, sobre cada coisa viva, sobre o coração da vida - escrevo o teu nome.
Escrevo o teu nome sobre os degraus da morte, gravo-o a fogo sobre os seios da aurora, pinto-o em luz sobre tudo o que é triste, escuro e trágico. Tu escolheste. Tu foste claro, ardente, digno. Delicado até os ossos de ti mesmo - esses que restarão de tua bela figura de homem - tu enfrentaste a brutalidade dos carrascos. Hoje eu digo o teu nome e digo-o sentindo-me melhor por ter participado do teu tempo humano. Teu nome é também Liberdade, Paul Éluard.
Vinicius de Moraes, in Para viver um grande amor

Cia Estadual de Jazz | Chovendo na roseira (Antônio Carlos Jobim)

O Gago

Um homem chamado de O Gago chegou à Media Luna e perguntou por Pedro Páramo.
Para que o senhor o solicita?
Quero faalar comcom ele.
Não está.
Diga aa ele, quanquando voltar, que venho da paparte de dom Fulgor.
Vou buscá-lo; mas espera umas tantas horas.
Diga a ele, é coooisa de urgência.
Vou dizer.
O homem que era chamado de O Gago esperou em cima do cavalo. Passado um tempo, Pedro Páramo, que ele nunca tinha visto, postou-se à sua frente:
Em que posso servi-lo?
Preciso fafalar diretamente com o patrão.
Sou eu. O que você quer?
Popois é só issso. Mataram dom Fulgor Sesedano. Eu lhe fazia companhia. Tínhamos vindo pelos lalados dos “desaguadouros” para averiguar por que a água andava escasseando. E estatávamos nisso quanquando vimos uma manada de homens que saíram ao nosso encontro. E no meio daquela mulmultidão brobrotou uma voz que disse: “Esse aí eu coconheço. É o administrador da Memedia Luna.”
Nenem ligaram para mimim. Mas mandaram dom Fulgor largar o animal. Disseram que eram revolucionários. Que vinham atrás das terras do sinhô. ‘Cooorra!’ disseram a dom Fulgor. ‘Vai lá dizer ao seu patrão que nos encontraremos.’ E ele largou o animal e saiu chispando, apavorado. Não muito depressa poporque era muito pesado; mas correu. Mamataram ele correendo. Momorreu com uma pata papara cima e outra para baixo.
Então eu nenem meme mexi. Esperei até dede nooite e aqui estou para anunciar o queque aconteceu.
E está esperando o quê? Por que não se mexe logo? Vai lá e diz a esses fulanos que estou aqui para o que eles quiserem. Que venham tratar comigo. Mas antes dê uma volta por La Consagración. Você conhece o Sucuri? Ele vai estar por lá. Diga a ele que preciso vê-lo. E avisa a esses fulanos que espero por eles assim que tiverem um tempo disponível. Que joça de revolucionários são?
Nãnão sei. Eles é que se chamaram ansim.
Diga ao Sucuri que preciso dele aqui mais do que depressa.
Popode deixar, papatrão.
Pedro Páramo tornou a se encerrar em seu escritório. Sentia-se velho e acabrunhado. Não se preocupava com Fulgor, que afinal de contas já estava “mais pra lá do que pra cá”. Havia dado de si tudo que tinha para dar; embora tenha sido muito serviçal, cada qual era cada um. “Seja como for, os ‘sucurizaços’ que esses loucos vão levar”, pensou.
Pensava mais em Susana San Juan, metida sempre em seu quarto, dormindo, e quando não, era como se dormisse. Tinha passado a noite anterior em pé, recostado na parede, observando através da pálida luz do candeeiro o corpo de Susana em movimento; a cara suarenta, as mãos agitando os lençóis, amassando o travesseiro até fazê-lo em pedaços.
Desde que tinha trazido Susana para morar aqui não sabia de outras noites passadas ao seu lado, a não ser aquelas noites doloridas, de interminável quietude. E se perguntava quando é que aquilo iria terminar.
Esperava que alguma vez. Nada pode durar tanto, não existe nenhuma recordação que, por intensa que seja, não se apague.
Se pelo menos tivesse sabido o que era aquilo que a maltratava por dentro, que fazia com que se debatesse insone, como se a despedaçassem.
Ele achava que a conhecia. E mesmo se não fosse assim, será que não bastava saber que ela era a criatura mais amada por ele sobre a terra? E que além do mais — e isso era o mais importante — serviria para que ele se fosse da vida alumbrando-se com aquela imagem que apagaria todas as outras recordações.
Mas qual era o mundo de Susana San Juan? Essa foi uma das coisas que Pedro Páramo jamais chegou a saber.
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

02/12/2017

Poesia e terror

Ano de 1958. Já no fim da noite estalinista, chega às livrarias de Moscou a primeira antologia poética de Anna Akhmátova, uma das mais notáveis poetas da Rússia. Anna tem quase 70 anos. Sua poesia solar, em que o silêncio importa tanto quanto a palavra, seduz os leitores russos. Três anos depois, os 50 mil exemplares da segunda edição são vendidos em poucas horas.
Durante três décadas, o regime de Joseph Stalin proibiu as edições da poesia de Anna (1889-1966). Em 1921, seu primeiro marido, Nikolas Goumilev, é fuzilado. Em 1923, seus livros são banidos. Seu único filho, Lev, é perseguido e deportado. Sua poesia carrega, desde a origem, o veneno do terror.
Meio século se passa. Estamos no Recife. Uma foto esmaecida de Anna Akhmátova aparece na capa de um livro de Fernando Monteiro. A imagem é o primeiro golpe desferido por Vi uma foto de Anna Akhmátova (Fundação de Cultura Cidade do Recife). Os olhos distorcidos pela penúria, uma expressão em que o desespero se mistura com a bondade, as franjas antigas a decorar um rosto sensual e morto.
Escreve Fernando, sem nos poupar de nada: “Vi essa mulher, com meus olhos cegos./ Vi sua vontade de morrer”. O poeta assume, desde logo, sua cegueira – limitação que é, também, potência. Através dos versos (dos olhos foscos de Anna), ele contempla o crepúsculo de um mundo. Não apenas a censura e a perseguição política, mas uma dor muito maior, que só a poesia pode ver.
Os versos de Anna desmentem a rispidez da burocracia de Estado. Neles, as palavras são maleáveis e se deixam revirar. Aliás: é para isso que estão ali. O terror não é só o pavor que os poetas experimentam durante o império de Stalin. Terror – o poema hoje me permite ler – é, também, espanto. Os agentes que perseguiram Anna, os mesmos que fizeram do terror político um instrumento de dominação, sofreram de outro tipo, mais sutil e fértil de terror (estupor): o da beleza. Por isso amordaçaram Anna Akhmátova.
No poema de Fernando, beleza e espanto se igualam. Versos que são também “a receita para enlouquecer um poema”. Todo grande poema, na medida em que assassina a poesia que o precede, se torna, sempre, um crime. Poema que leio com dificuldades, porque me dói, mas que também me desperta. Nele, o sofrimento vitaliza o presente.
A cada verso, as imagens explodem. Leio, penso e anoto – o livro, em pouco tempo, está imprestável. Mas é assim: ler é lutar com a escrita. Não é fácil duelar com um poeta hábil e de peito nu, um poeta que não se esquiva da dor. A fotografia de Anna Akhmátova chega às mãos de Fernando Monteiro durante um segundo crepúsculo: o da escrita. E escrever, para ele, é resistir.
Também em nosso mundo pragmático e “de resultados”– tanto quanto no mundo burocrático e “de ordens” de Josef Stalin – Anna Akhmátova se torna distante e irreal. Nem chega a ser uma mulher, é só um vulto. Vi uma foto de Anna Akhmátova ultrapassa os acontecimentos dessa ou daquela noite. Fernando escreve naquele ponto em que a poesia, ao recolocar em cena o que não queremos ver, desperta, sim – a palavra é essa –, outro tipo de terror. Acostumados com as facilidades do virtual e da pronta-entrega, nem sempre suportamos.
Nas circunstâncias dolorosas do stalinismo, a poesia custou a Anna Akhmátova um alto preço. Não lutou só contra um regime de força. Em outra frente, combateu os vanguardistas que, manejando novas algemas, aprisionaram a literatura em manifestos, obrigações, dogmas. Contra a palavra implacável e estreita, Anna defendeu o frescor da palavra plena. A palavra insubstituível que, em cada poeta, tem um rosto.
A tristeza é o pano de fundo, o contraste necessário contra o qual o poema se impõe. É preciso sustentá-la. Escreve Fernando: “Você pensa, então, que não está só – mas está”. Todo leitor está sozinho. Assim é a foto de Anna: bela, justamente porque insuportável. Carregada de segredos, porque direta e simples. Uma fotografia que me leva para além da imagem; e que (como um poema) aumenta minha solidão.
Corajoso, Fernando Monteiro se assume como um poeta “que se desgoverna”. Está cansado dos pedidos de que “se acalme”, “não diga isso”, “tenha cuidado”, “meça as palavras”. A poesia é o mar da intranquilidade. Nela tocamos nas piores coisas porque a beleza sempre nos salva. Zona de perigo, em que as precauções são inúteis. Terreno de liberdade no qual a escrita não se submete a medidas e não se amedronta.
Assim é o longo poema de Fernando: irregular (mas, por isso, magnífico); doloroso (e, por isso, comovente). Quanto a Anna, é só uma mulher que olha para a morte. Está em seu rosto: “Tudo tão dramático e tão breve que punge”. Dor que enlouquece, imitando a história do professor de violino que, depois da prisão da mulher, perde o juízo e afunda em um mundo parecido com “o crepúsculo indeciso de um quadro de K.A. Somov”. Sim: enlouquecer é o mesmo que se perder no interior de uma tela. Ou de um poema.
A foto de Anna Akhmátova surge no Recife. Mas podia estar em um bazar de Nova York. A lógica do terror, mesmo carregada de novos conteúdos, sobrevive. Terror que assim se define: “Não escolher as vítimas,/ não se compadecer delas,/ não poupá-las, nem deixá-las fugir”. Não se trata dessa ou daquela bandeira, desse ou daquele dogma. Há uma parede de granito contra a qual os mortos são derrubados. Contra ela a beleza se choca.
Também Fernando – ao contrário de Ivan Turguêniev, o primeiro escritor russo a conquistar a Europa – recusa “a língua elegante do Ocidente”. Aproxima-se, mais, de Fiodor Dostoiévski, um escritor em descompasso com o mundo, sempre empurrado para a sarjeta. Esse é o espanto (terror) que a poesia causa: ela nos escava e nos expõe; em um mundo de superfícies, brilhos e padrões, isso se parece com um crime.
Escrita com sangue, a poesia de Fernando Monteiro (como a de Ana Akhmátova) imita a Natureza, que “é sem justiça e sem perdão,/ acende-se nos vulcões e nos corações”. Natureza que, se soubermos olhar, expõe nosso interior. Escreve Fernando: “Vi uma foto de Anna Akhmátova/ que me permitiu ver a alma na carne”.
José Castello, in Sábados inquietos

O papel dos intelectuais

Não sei qual papel os intelectuais de hoje devem ter no mundo. A questão é saber se eles de fato querem ter algum papel, e a minha impressão, a partir dos fatos, é que eles não querem ter papel algum. Abriram mão de sua tarefa de consciência moral que tiveram em alguns momentos. Hoje, o escritor, diante da televisão, diante dos grandes meios de comunicação social, praticamente não tem mais voz e, mais do que isso, muitas vezes condiciona sua própria voz aos interesses e às necessidades desses meios. Cada vez mais, somos meros atores de livros, e contribuímos cada vez menos para a formação de uma consciência.
José Saramago, in As palavras de Saramago

O pôr-do-sol

[A cabine; junto às janelas da popa; Ahab, sentado sozinho; e olhando para fora.]
Deixo uma esteira inquieta e branca; águas pálidas; faces mais pálidas, por onde navego. Os vagalhões invejosos crescem pelos flancos para cobrir minha trilha; e que assim seja; mas primeiro eu passo.
Lá longe, na borda da taça sempre cheia, as ondas quentes enrubescem como o vinho. O rosto dourado afunda no azul. O sol mergulhador – mergulha lentamente desde o meio-dia – desce; meu espírito começa a escalada! Fatiga-se com sua colina interminável. Será, então, demasiado pesada a coroa que uso? Essa Coroa de Ferro da Lombardia. Contudo, cintila com suas várias gemas; eu, que a uso, não sei o alcance de seus lampejos; mas sinto obscuramente que o que uso é fascinante e desconcerta. É de ferro – eu sei –, não é de ouro. Está rachada, também – eu sinto; a borda pontiaguda me atormenta tanto que meu cérebro parece se bater contra o sólido metal; sim, crânio de aço, o meu; do tipo que não precisa de elmo na mais sangrenta batalha de cérebros!
Um calor árido sobre a minha fronte? Oh! Foi-se o tempo em que a alvorada nobremente me animava, e o poente me acalmava. Não mais. Esta luz encantadora não me ilumina; todo o encanto significa angústia para mim, porque nada posso apreciar. Dotado da percepção mais aguda, falta-me a humilde capacidade de apreciar; amaldiçoado, da maneira mais sutil e maligna! Amaldiçoado em pleno Paraíso! Boa noite – Boa noite! [Acenando com a mão, afasta-se da janela.]
Não foi uma tarefa tão complicada. Esperava encontrar alguns teimosos, pelo menos; mas minha correia dentada se encaixa em todas as suas variadas polias; e elas giram. Ou, se quiserdes, como outros tantos montes de pólvora, eles todos estão diante de mim; e sou o fósforo. Como é duro! Que, para incendiar os outros, o fósforo se consuma. O que ousei, desejei; e o que desejei, fiz! Pensam que sou louco – Starbuck pensa; mas sou demoníaco, sou a própria loucura enlouquecida! A loucura varrida, que só se acalma para entender a si mesma! Dizia a profecia que eu seria destroçado; e – é isso! Perdi esta perna. Agora profetizo – mutilarei meu mutilador. E, assim, profeta e executor serão um só. É mais do que vós, grandes deuses, jamais fostes. Faço pouco e rio de vós, jogadores de críquete, pugilistas, surdos Burkes e cegos Bendigoes! Não farei como as crianças quando falam com os valentões, – Vá procurar alguém do seu tamanho; não me espanque! Não, vós me derrubastes, e estou em pé outra vez; mas vós fugistes, vós vos escondestes. Saí de trás de vossos sacos de algodão! Não tenho uma arma comprida para vos alcançar! Vinde, Ahab vos saúda; vinde para ver se podeis me desviar! Desviar-me? Não, não me podeis desviar, a não ser que vos desvieis antes! Eis aqui o homem. Desviar-me? O caminho de minha resolução é feito com trilhos de ferro, onde minha alma está encarrilhada. Sobre desfiladeiros insondáveis, através dos interiores áridos das montanhas, sob o leito das torrentes, avanço infalivelmente! Nada é obstáculo, nada me detém nessa estrada de ferro!
Herman Melville, in Moby Dick

A Arte provocante de Sidney Amaral

A ovelha e eu, de Sidney Amaral

A linguagem dos doutores do futebol

Vamos sintetizar nosso ponto de vista, formulando uma primeira aproximação da problemática tática, técnica e física do cotejo que foi disputado esta tarde no campo do Unidos Venceremos Futebol Clube, sem cair em simplificações incompatíveis com um tema que sem dúvida está exigindo análises mais profundas e detalhadas e sem incorrer em ambiguidades que foram, são e serão alheias à nossa pregação de toda uma vida a serviço do amor ao esporte.
Seria cômodo para nós ignorar nossa responsabilidade, atribuindo o revés da esquadra local à discreta performance de seus jogadores, mas a excessiva lentidão que indubitavelmente mostraram na jornada de hoje, na hora de devolver cada esférico recepcionado, não justifica de nenhuma maneira, entenda-se bem, senhoras e senhores, de nenhuma maneira, semelhante desqualificação generalizada e, portanto, injusta. Não, não e não. O conformismo não faz parte do nosso estilo, como bem sabem os que nos seguiram ao longo de nossa trajetória de tantos anos, aqui em nosso querido país e nos cenários do desporto internacional e inclusive mundial, onde fomos convocados a cumprir nossa modesta função. Portanto vamos dizê-lo com todas as letras, como é nosso costume: o êxito não coroou a potencialidade orgânica do esquema de jogo desta esforçada equipe, porque ela pura e simplesmente continua sendo incapaz de canalizar adequadamente suas expectativas de uma maior projeção ofensiva até o âmbito da meta rival.
Já o dizíamos no domingo próximo passado e assim o afirmamos hoje, com a cabeça erguida e sem papas na língua, porque sempre chamamos pão de pão, e queijo de queijo, e continuaremos denunciando a verdade, doa a quem doer, caia quem caia e custe o que custar.
Eduardo Galeano, in Futebol ao sol e à sombra

Os portugueses e os navios

Antonio Maria contou que uma vez ia num táxi guiado por um chofer português velho, bigodudo, calado, de cara triste. Quando o carro chegou à praia o chofer viu um barco e exclamou, apontando com o braço esticado, os olhos brilhantes, num tom de descoberta, desafio e alegria:
Olha o navio pequenino!
Essa fascinação dos portugueses pelos navios me salvou a tarde de ontem. Eu tinha de ir à Alfândega e, portanto, passar pela Praça Mauá. O português do volante vinha praguejando contra o calor, contra os outros carros, contra tudo. Antes dele eu vi o Vera Cruz encostado no cais, e disse: “Olhe o Vera Cruz, que navio bonito!” Ele recebeu isso como um elogio pessoal e começou a falar do navio com entusiasmo, até conhecia um maquinista de bordo e visitara todo o gigante: “tem oito andares, mas tem elevador!”
Pelas cinco e pouco, ao voltar para casa, me tocou outro volante português. Na altura do Flamengo divisei o navio, que marchava para a saída da barra, e resolvi elogiar novamente o barco, para ver o efeito. Foi maravilhoso. “É realmente, é realmente, é um belo navio!” Fiz notar que o Brasil não tinha nenhum navio de passageiros tão grande e tão bonito, e isso animou ainda mais o homem. Acabou confessando que em sua opinião não era somente o Brasil que não possuía um navio assim: país nenhum do mundo. Os ingleses, os americanos, os franceses, os italianos têm bons navios, sim, bons navios, mas nenhum tão bonito. “O senhor não acha?” Desconversei, “esse aí eu vou ver passar de minha janela em Ipanema”. Discordou: o navio tinha grande velocidade e cortava muito caminho por onde ia. Discutimos um pouco, eu jogando no táxi dele, e ele apostando no navio.
Em Copacabana voltamos a ver o barco, na altura da Cotunduba. Fiz-lhe ver que eu estava ganhando a aposta: “já passamos na frente”. Ele balançou a cabeça: “agora é que ele vai desenvolver a velocidade”.
Na Vieira Souto ele teve de se render à evidência: o navio mal apontava no Arpoador e nós já estávamos perto do Posto 8. Mas arrumou uma explicação: “o comandante mandou tocar devagar para os passageiros verem a paisagem”. Fiz uma reflexão:
Quer dizer que é assim: o navio a ver a paisagem e a paisagem a ver o navio.
E graças a isso, quando lhe paguei a corrida ele me perguntou se eu era poeta: “isto que o senhor disse eu vou repetir à patroa”.
O casal de portugueses da portaria conversava com o porteiro do lado e o zelador do edifício da frente, todos portugueses. Dei a notícia: “o Vera Cruz está passando lá no mar.”
O Vera Cruz! O Vera Cruz! E saíram todos para a praia; no caminho arrebanharam mais um português que passava:
O Vera Cruz, homem, venha depressa, venha!
E lá se foram a correr, os pedros álvares cabrais.
Rubem Braga, in Ai de ti, Copacabana

01/12/2017

Quem sai aos seus

Vozes a mais
vozes a menos
a máquina em nós
que gera provérbios
é a mesma que faz poemas,
somas com vida própria
que podem mais que podemos.
Paulo Leminski

Das injúrias

Se o próprio Epicuro, que tanto cedeu ao corpo, se insurgiu contra as injúrias, porque hão-de nos parecer estas coisas incríveis ou sobre-humanas? Epicuro disse que, para o sábio, as injúrias são toleráveis; nós dizemos que, para o sábio, não há injúrias. E não digas que isto é estar em desacordo com a natureza: não negamos que seja desagradável ser fustigado, agredido ou ficar privado de um membro, mas negamos que estas coisas sejam injúrias; não contestamos o caráter doloroso, mas sim o nome de “injúria”, o qual não podemos aceitar sem faltar à virtude. Veremos qual das duas doutrinas é mais verdadeira; mas, de qualquer forma, ambas desprezam a injúria.
Queres saber qual a diferença entre elas? É a mesma que existe entre dois gladiadores intrépidos: um que comprime a ferida e mantém-se em posição, o outro, virando-se para o público clamoroso, faz sinal de que nada se passou e pede para que não se pare o combate. Não julgues que aquilo em que discordamos é importante: no que diz respeito ao ponto principal, que é aquele que nos interessa, as duas doutrinas encorajam a desprezar as injúrias e o que eu chamaria sombras das injúrias e suspeições, que são as ofensas. Para desprezá-las não é preciso sermos sábios, mas sim sermos tão sensatos que possamos dizer para nós mesmos: “Mereci ou não que estas coisas me acontecessem? Se mereci, não é ofensa, é julgamento; se não mereci, aquele que está a ser injusto comigo deveria envergonhar-se disso”. E o que é aquilo a que chamamos ofensa? Um gracejo sobre a minha calvície, sobre a fraqueza da minha vista, sobre a magreza das minhas pernas ou sobre a minha estatura? É ofensa ouvir o que está à vista? Rimo-nos de uma coisa quando é dita por alguém que está a sós conosco, indignamo-nos quando ela é dita publicamente, e recusamos aos outros a liberdade de repetir as coisas que costumamos dizer; divertimo-nos com os gracejos moderados, com os imoderados irritamo-nos.
Sêneca, in Da constância do sábio

Funk-se Quem Puder (Gilberto Gil) - 2GROOVE

O santo que não acreditava em Deus (trecho)

[…] Nisto que o silêncio aumenta e, pelo lado, eu sinto que tem alguma coisa em pé pelas biribas da torre velha e eu não tinha visto nada antes, não podendo também ser da aguardente, pois que muito mal tomei dois goles. Ele estava segurando uma biriba coberta de ostras com a mão direita, em pé numa escora, com as calças arregaçadas, um chapéu velho e um suspensório por cima da camisa. — Ai égua! — disse eu. — Veio nadando e está enxuto? — Eu não vim nadando — disse ele. — Muito peixe? — Carrapato miúdo.
Olhe ali — disse ele, mostrando um rebrilho na água mais para o lado da Ilha do Medo. — Peixe.
Ora, uma manta de azeiteiras vem vindo bendodela, costeando o perau. É conhecida porque quebra a água numa porção de pedacinhos pela flor e aquilo vai igual a muitas lâminas, bordejando e brilhando. Mas dessas azeiteiras, como as peixas chamadas solteiras, não se pode esperar que mordam anzol, nem mesmo morram de bomba.
Azeiteira — disse eu. — Só mesmo uma bela rede. E mais canoa e mais braço.
Mas eles ficam pulando — disse ele, que tinha um sorriso entusiasmado, possivelmente porque era difícil não perceber que a água em cima como que era o aço de um espelho, só que aço mole como o do termômetro, e então cada peixe que subia era um orador. Aí eu disse, meu compadre, se vosmecê botar um anzol e uma dessas meninas gordurentas morder esse tal anzol, eu dou uma festa para você no hotel — ainda que mal pergunte, como é a sua graça?
Assim levamos um certo tempo, porque ele se encabulou, me afirmando que não apreciava mentir, razão por que preferia não se apresentar, mas eu disse que não botava na minha canoa aquele de quem não saiba o nome e então ficasse ele ali o resto da manhã, a tarde e a noite pendurado nas biribas, esperando Deus dar bom tempo. Mas que coisa interessante, disse ele dando um suspiro, isso que você falou.
É o seguinte — disse ele, dando outro suspiro. — É porque eu sou Deus.
Ora, ora me veja-me. Mas foi o que ele disse e os carrapatinhos, que já gostam de fazer corrote-corrote com a garganta quando a gente tira a linha da água ficaram muitíssimo assanhados.
E mais o seguinte — continuou ele, com a expressão de quem está um pouco enfadado. — Está vendo aqui? Não tem nada. Está vendo alguma coisa aqui? Nada! Muito bem, daqui eu vou tirar uma porção de linhas e jogar no meio dessas azeiteiras. E dito e feito, mais ligeiro que o trovão, botou os braços para cima e tome tudo quanto foi tipo de linha saindo pelos dedos dele, parecia um arco-íris. Ele aí ficou todo monarca, olhando para mim com a cara de quem eu não sou nem principiante em peixe e pesca. Mas o que aconteceu? Aconteceu que, na mesma hora, cada um dos anzóis que ele botou foi mordido por um carrapato e, quando ele puxou, foi aquela carrapatada no meio da canoa. Eu fiz: quá-quá-quá, não está vendo tu que temos somente carrapatos? Carrapato, carrapato, disse eu, está vendo a cara do besta? Ele, porém, se retou.
Não se abra, não — disse ele — que eu mando o peixe lhe dar portada.
Portada dada, portada respostada — disse eu.
Para que eu disse isto, amigo, porque me saiu um mero que não tinha mais medida, saiu esse mero de junto assim da biriba, dando um pulo como somente cavacos dão e me passou uma rabanada na cara que minha cara ficou vermelha dois dias depois disto.
Donde saiu essa, sai mais uma grosa! — disse ele dando risada, e o mero ficou a umas três braças da canoa, mostrando as gengivas com uma cara de puxa-saco.
Não procure presepada, não — disse ele. — Senão eu mando dar um banho na sua cara.
Mande seu banho — disse eu, que às vezes penso que não tenho inteligência.
Pois não é que ele mandou esse banho, tendo saído uma onda da parte da Ponta de Nossa Senhora, curvando como uma alface aborrecida a ponta da coroa, a qual onda deu tamanha portada na canoa que fiquemos flutuando no ar vários momentos.
Então? — disse ele. — Eu sou Deus e estou aqui para tomar um par de providências, sabe vosmecê onde fica a feira de Maragogipe? — Qual é feira de Maragogipe nem feira de Gogiperama — disse eu, muito mais do que emputecido, e fui caindo de pau no elemento, nisso que ele se vira num verdadeiro azougue e me desce mais que quatrocentos sopapos bem medidos, equivalentemente a um catavento endoidado e, cada vez que eu levantava, nessa cada vez eu tomava uma portada encaixada. Terminou nós caindo das nuvens, não sei qual com mais poeira em torno da garupa. Ele, no meio da queda, me deu uns dois tabefes e me disse: está convertido, convencido, inteirado, percebido, assimilado, esclarecido, explicado, destrinchado, compreendido, filho de uma puta? E eu disse sim senhor, Deus é mais. Pare de falar em mim, sacaneta, disse ele, senão lhe quebro todo de portada. Reze aí um padre-nosso antes que eu me aborreça, disse ele. Cale essa matraca, disse ele.
Então eu fui me convencendo, mesmo porque ele não estava com essas paciências todas, embora se estivesse vendo que ele era boa pessoa. Esclareceu que, se quisesse, podia andar em cima do mar, mas era por demais escandaloso esse comportamento, podendo chamar a atenção. Que qualquer coisa que ele resolvesse fazer ele fazia e que eu não me fizesse de besta e que, se ele quisesse, transformava aqueles carrapatos todos em lindos robalos frescos. No que eu me queixei que dali para Maragogipe era um bom pedaço e que era mais fácil um boto aparecer para puxar a gente do que a gente conseguir chegar lá antes que a feira acabasse e aí ele mete dois dedos dentro da água e a canoa sai parecendo uma lancha da Marinha, ciscando por cima dos rasos e empinando a proa como se fosse coisa, homem ora. Achei falta de educação não oferecer um pouco do da quartinha, mas ele disse que não estava com vontade de beber.
Nisso vamos chegando muito rapidamente a Maragogipe e Deus puxa a poita desparramando muitos carrapatos pelos lados e fazendo a alegria dos siris que por ali pastejam e sai como que nem um peixe-voador. No meio do caminho, ele passa bastante desencalmado e salva duas almas com um toque só, uma coisa de relepada como somente quem tem muita prática consegue fazer, vem com a experiência. Porque ele nem estava olhando para essas duas almas, mas na passagem deu um toque na orelha de cada uma e as duas saíram voando ali mesmo, igual aos martins depois do mergulho. Mas aí ele ficou sem saber para onde ia, na beira da feira, e então eu cheguei perto dele. — Tem um rapaz aqui — disse Deus, coçando a gaforinha meio sem jeito — que eu preciso ver.
Mas por que vosmecê não faz um milagre e não acha logo essa pessoa? — perguntei eu, usando o vosmecê, porque não ia chamar Deus de você, mas também não queria passar por besta se ele não fosse.
Não suporto fazer milagre — disse ele. — Não sou mágico. E, em vez de me ajudar, por que é que fica aí falando besteira?
Nessa hora eu quase ia me aborrecendo, mas uma coisa fez que eu não mandasse ele para algum lugar, por falar dessa maneira sem educação. É que, sendo ele Deus, a pessoa tem de respeitar. Minto: três coisas, duas além dessa. A segunda é que pensei que ele, sendo carpina por profissão, não estava acostumado a finuras, o carpina no geral não alimenta muita conversa nem gosta de relambórios. A terceira coisa é que, justamente por essa profissão e acho que pela extração dele mesmo, ele era bastante desenvolvidozinho, aliás, bem dizendo, um pau de homem enormíssimo, e quem era que estava esquecendo aquela chuva de sopapos e de repente ele me amaldiçoa feito a figueira e eu saio por aí de perna peca no mínimo, então vamos tratar ele bem, quem se incomoda com essas bobagens? Indaguei com grande gentileza como é que eu ia ajudar que ele achasse essa bendita dessa criatura que ele estava procurando logo na feira de Maragogipe, no meio dos cajus e das rapaduras, que ele me desculpasse, mas que pelo menos me dissesse o nome do homem e a finalidade da procura. Ele me olhou assim na cara, fez até quase que um sorriso e me explicou que ia contar tudo a mim, porque sentia que eu era um homem direito, embora mais cachaceiro do que pescador. Em outro caso, ele podia pedir segredo, mas em meu caso ele sabia que não adiantava e não queria me obrigar a fazer promessa vã. Que então, se eu quisesse, que contasse a todo mundo, que ninguém ia acreditar de qualquer jeito, de forma que tanto faz como tanto fez. E que escutasse tudo direito e entendesse de uma vez logo tudo, para ele não ter de repetir e não se aborrecer. Mas Deus, ah, você não sabe de nada, meu amigo, a situação de Deus não está boa. Você imagine como já é difícil ser santo, imagine ser Deus. Depois que eu fiz tudo isto aqui, todo mundo quer que eu resolva os problemas todos, mas a questão é que eu já ensinei como é que resolve e quem tem de resolver é vocês, senão, se fosse para eu resolver, que graça tinha? É homens ou não são? Se fosse para ser anjo, eu tinha feito todo mundo logo anjo, em vez de procurar tanta chateação com vocês, que eu entrego tudo de mão beijada e vocês aprontam a pior melança. Mas, não: fiz homem, fiz mulher, fiz menino, entreguei o destino: está aqui, vão em frente, tudo com liberdade. Aí fica formada por vocês mesmos a pior das situações, com todo mundo passando fome sem necessidade e cada qual mais ordinário do que o outro, e aí o culpado sou eu? Inclusive, toda hora ainda tenho de suportar ouvir conselhos: se eu fosse Deus, eu fazia isto, se eu fosse Deus eu fazia aquilo. Deus não existe porque essa injustiça e essa outra e eu planejava isso tudo muito melhor e por aí vai. Agora, você veja que quem fala assim é um pessoal que não acerta nem a resolver um problema de uma tabela de campeonato, eu sei porque estou cansado de escutar rezas de futebol, costumo mandar desligar o canal, só em certos casos não. Todo dia eu digo: chega, não me meto mais. Mas fico com pena, vou passando a mão pela cabeça, pai é pai, essas coisas. Agora, milagre só em último caso. Tinha graça eu sair fazendo milagres, aliás tem muitos que me arrependo por causa da propaganda besta que fazem, porque senão eu armava logo um milagre grande e todo mundo virava anjo e ia para o céu, mas eu não vou dar essa moleza, está todo mundo querendo moleza. A dar essa moleza, eu vou e descrio logo tudo e pronto e ninguém fica criado, ninguém tem alma, pensamento nem vontade, fico só eu sozinho por aí no meio das estrelas me distraindo, aliás tenho sentido muita falta. É porque eu não posso me aporrinhar assim, tenho que ter paciência. Senão, disse ele, senão... e fez uma menção que ia dar um murro com uma mão na palma da outra e eu aqui só torcendo para que ele não desse, porque, se ele desse, o mínimo que ia suceder era a refinaria de Mataripe pipocar pelos ares, mas felizmente ele não deu, graças a Deus. Então, explicou Deus, eu vivo procurando um santo aqui, um santo ali, parecendo até que sou eu quem estou precisando de ajuda, mas não sou eu, é vocês, mas tudo bem. Agora, é preciso que você me entenda: o santo é o que faz alguma coisa pelos outros, porque somente fazendo pelos outros é que se faz por si, ao contrário do que se pensa muito por aí. Graças a mim que de vez em quando aparece um santo, porque senão eu ia pensar que tinha errado nos cálculos todos. Fazer por si é o seguinte: é não me envergonhar de ter feito vocês igual a mim, é só o que eu peço, é pouco, é ou não é? Então quem colabora para arrumar essa situação eu tenho em grande apreço. Agora, sem milagre. Esse negócio de milagre é coisa para a providência, é negócio de emergência, uma correçãozinha que a gente dá. Esse pessoal não entende que, toda vez que eu faço um milagre, tem de reajustar tudo, é uma trabalheira que não acaba, a pessoa se afadiga. Buliu aqui, tem de bulir ali, é um inferno, com perdão da má palavra. O santo anda dificílimo. Quando eu acho um, boto as mãos para o céu.
Tendo eu perguntado como é que ele botava as mãos para o céu e tendo ele respondido que eu não entendia nada de Santíssima Trindade e calasse minha boca, esclareceu que estava procurando um certo Quinca, conhecido como Das Mulas, que por ali trabalhava. Mas como esse Quinca, perguntei, não pode ser o mesmo Quinca! Pois esse Quinca era chamado Das Mulas justamente por viver entre burros e mulas e antigamente podendo ter sido um rapaz rico, mas havendo dado tudo aos outros e passando o tempo causando perturbação, ensinando besteiras e fazendo questão de dar uma mão a todos que ele dizia que eram boas pessoas, sendo estas boas pessoas dele todas desqualificadas. Porém ninguém fazia nada com ele porque o povo gostava muito dele e, quando ele falava, todo mundo escutava. Além de tudo, gastava tudo com os outros e vivia dando risadas e tomava poucos banhos e era um homem desaforado e bebia bastante cana, se bem que só nas horas que escolhia, nunca em outras. E, para terminar, todo mundo sabia que ele não acreditava em Deus, inclusive brigava bastante com o padre Manuel, que é uma pessoa distintíssima e sempre releva.
Eu sei — respondeu Deus. — Isto é mais uma dificuldade.
E, de fato, fomos vendo que a vida de Deus e dos santos é muito dificultosa desde aí, porque tivemos de catar toda a feira atrás desse Quinca e sempre onde a gente passava ele já tinha passado. Ele foi encontrado numa barraca, falando coisas que a mulher de Lóide, aquela outra santa, fingia que achava besteira, mas estava se convencendo e então eu vi que aquilo ia acabar dando problema. Olha aí, mostrei eu, ele ali causando divergência. É isso mesmo, disse Deus com olhar de grande satisfação, certa feita eu também disse que tinha vindo separar homem e mulher. Não quero nem saber, me apresente.
E então tivemos um belo dia, porque depois da apresentação parece que Quinca já tinha tomado algumas e fomos comer um sarapatel, tudo na maior camaradagem, porque estava se vendo que Quinca tinha gostado de Deus e Deus tinha gostado dele, de maneira que ficaram logo muitíssimo amigos e foi uma conversa animada que até às vezes eu ficava meio de fora, eles tinham muita coisa a palestrar. Nisso tome sarapatel até as três e todo mundo já de barriga altamente estufada, quando que Quinca me resolve tomar uma saideira com Deus e essa saideira é nada mais nada menos do que na casa de Adalberta, a qual tem mulheres putas. Nessa hora, minha obrigação, porque estou vendo que Deus está muito distraído e possa ser que não esteja acostumado com essas aguardentes de Santo Amaro que ele tomou mais de uma vintena, é alertar. Chamei assim Deus para o canto da barraca enquanto Quinca urinava e disse olhe, você é novo por aqui, pelo menos só conhecíamos de missa, de maneira que essa Adalberta, não sei se você sabe, é cafetina, não deve ficar bem, não tenho nada com isso, mas não custa um amigo avisar. Ora, rapaz, você tem medo de mulher, disse Deus, que estava mais do que felicíssimo e, se não fosse Deus, eu até achava que era um pouco do efeito da bebida. Mas, se é ele que fala assim, não sou eu que fala assado, vá ver que temos lá alguma rapariga chamada Madalena, resolvi seguir e não perguntar mais nada.
João Ubaldo Ribeiro, in Os cem melhores contos brasileiros do século

O universo é música

Fonte: Google Imagens

Eu ia guiando o meu carro pelos caminhos de Minas Gerais enquanto ouvia o Messias, de Haendel. Percebi então, repentinamente (as revelações sempre acontecem de repente), as razões por que amo tanto aqueles lugares. É que lá eu retorno, ainda que por um curto espaço de tempo, ao mundo barroco, e experimento a felicidade da alienação... Tudo é harmonia. Os beija-flores flutuam. No campo verde, as vacas pastam tranquilamente. Ao lado direito, o rio escorre entre as pedras. O vento balança as árvores. As flores florescem como sempre floresceram. No céu azul, as nuvens navegam sem saber para onde vão. “As nuvens são dos rios seus claros pensamentos que um dia serão rios...”, assim viu o Heládio Brito. Será que as flores são os pensamentos da terra? Tudo gira, tudo volta ao início. O belo quer voltar, repetir-se, eternamente. Todos os seres são belos. Cada um deles é uma nota no coral de Bach que o universo entoa. Todos os seres são o que deviam ser. O universo é uma catedral. O céu é uma abóbada esférica onde o Sol, a Lua e as estrelas giram seu giro eterno à nossa volta. Do céu, Deus, que tudo vê, garante que as coisas serão sempre assim. Ah! Giordano Bruno! Você quis destruir esse mundo esférico dizendo que o universo era infinito... Mas o infinito é aquilo que não tem forma. Não tendo forma, não pode ser belo! Você não compreendeu que, ao afirmar que o universo era infinito, estava roubando dos homens a sua perfeição estética? Ouço Haendel. O universo é música.
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola