06/07/2016

Street art, em Krakow, Polônia

I´m happy again - Street Art in Krakow, Poland

João Nicolau

João Nicolau se fez homem: mascou fumo e cuspiu negro. Calçou as botas de cano alto, herança do pai, beijou os cabelos brancos da mãe e, sem dinheiro para o trem, seguiu rumo da cidade. Na metade do caminho pediu um copo d'água à moça na varanda com trepadeira de glicínia. O pai Bortolão ofereceu-lhe casa e comida para consertar um velho paiol.
À noite, de botas, conversava na varanda Negrinha, o perfume não sabia se dela ou da glicínia. Coberto o paiol, morreu de nó-nas-tripas uma tia de Negrinha. No guardamento, ele emborcou dois copos de cachaça, por insistência do pai. Negrinha foi procurá-lo no paiol, deitada com ele na cama de palha. Madrugada, ela dormia, João sumiu sem esperar pelo enterro.
Ao ouvir tropel de cavalos, saía da estrada. Embora sedento, não bateu a nenhuma porta. As botas lhe feriam os pés, cada vez mais longe a cidade. Descalçava-as para se cocar.
Negrinha as esfregara com pó-de-mico a fim de lhe impedir a fuga.
Os pés em fogo, arrastou-se até o casarão com a tabuleta na porta — Ao Grito da Independência, onde pediu pouso. Dia seguinte esquecia-se de partir: os seus olhos azuis estavam vermelhos de tanto seguir a filha do hoteleiro. Cristina enrolava o cabelo loiro em duas trancas, uma fita encarnada nas pontas. Seu corpo, tão branco, de noite era peixe fosforescente na água escura.
Ela mesma costurou o vestido de noiva, João envergou o terno azul do sogro. Nas últimas forças, o velho doente pediu-lhe uma água milagrosa. Primeira vez viajou de trem, a pasta de couro marrom no braço.
Na cidade foi preso por um investigador, compadre de Bortolão. Passou a noite entre bêbados e ladrões, com sede bebeu a água milagrosa da garrafa. Dia seguinte conduzido ao cartório mais Negrinha e o pai, ela grávida de três meses. Se não reparasse o mal, sete anos de prisão. João Nicolau jurou que a amava e casou-se diante do juiz.
Despediu-se do sogro e do investigador, a promessa de bem cuidar da moça. Bortolão deu-lhe um dinheirinho e os acompanhou à estação. O herói, ausente meia hora, voltou com a pasta abarrotada —, além do farnel, uma corda, uma garrucha, um punhal. Embarcou no trem com Negrinha e, ao cair da noite, desceram na estação deserta.
Na estrada convidou-a para fazerem a merenda sobre um toco de pinheiro. Negrinha comia pão e linguiça, quando a atacou pelas costas, ferindo-lhe o pescoço com o punhal. Deu um grito e rolou desmaiada. João Nicolau, a garrucha no peito, viu-a cair e, ao acreditá-la morta, guardou a arma. Com a corda pendurou-a de cabeça para baixo a uma pitangueira, assim perderia todo o sangue.
Às perguntas da velha mãe respondeu que, no caminho, ajudou a sangrar um porco.
Mal se afastara, Negrinha tornou a si e, livrando os pés, arrastou-se a uma casa. João Nicolau foi preso: delirava com peixes fosforescentes. Na cadeia chorou arrependido e batia a cabeça na parede. O carcereiro deu-lhe fuga em troca das famosas botas.
Cristina de luto do pai que, na agonia, tateava a garrafa salvadora. João inventou um assalto ao trem por dois bandidos mascarados. A outra, Negrinha, ficou boa e voltou para casa.
João Nicolau escreveu-lhe carta apaixonada, anunciando o regresso e remetendo a sobra do dinheiro para o enxoval da criança. Esta nasceu morta e Negrinha, coitada, não resistiu ao parto.
Em despedida cortou para ele um anel dos cabelos. João Nicolau recebeu-o na cadeia, mais uma vez denunciado pelo Bortolão. Lá ficou Cristina, grávida por sua vez e sem recurso.
João condenado pelo juiz a dezoito anos. Cristina vendeu os trastes de Ao Grito da Independência, cozinheira na pensão vizinha à penitenciária. Com o esforço e os maus tratos abortou. Quando ele soube, incendiou o colchão e atirou-se no fogo, recolhido à enfermaria com queimaduras de segundo grau. Um dos guardas achou graça em Cristina, acenou-lhe com a fuga do marido. Tornou-se amásia do guarda, transferido para outro presídio. Ela grávida de cinco meses. No tempo deu à luz uma menina, que recebeu o nome de Augusta, em memória da avó.
João Nicolau bebeu água de valeta e contraiu tifo. Para sustentar a filha, Cristina foi mulher da vida.
Com o tifo João Nicolau ficou triste e calvo. À noite, sem dormir, lembrava-se ora de Negrinha ora de Cristina. Apalpava o anel de cabelos no barbante encardido. Viva estivesse, com os anos ficariam brancos — naquele cacho sempre moça, negros como no primeiro dia. Tão fresquinha a água que lhe serviu, ali na cela o odor adocicado de glicínia. A outra, Cristina, dera-lhe uma fotografia do casamento e, nítido na roupa azul, por que o rosto dela se apagava?
Rasgando o retrato, guardou a imagem da noiva: na mancha branca da cabeça distinguia apenas a grinalda e o véu.
No décimo ano perdeu todos os dentes. Sem poder mastigar, gemia dores de estômago.
Sua distração, além da visita de Cristina, era observar os corvos, imaginando onde se abrigavam da chuva. Havia uma palmeira diante da janela: surgiam os botões Brancos, e deles, os coquinhos verdes, depois amarelos e, os que o vento não derrubava, negros murchavam na penca. Fruto algum seria tão doce como os; tais coquinhos. Por mais que chovesse, um lado da palmeira sempre enxuto. Vez por outra, ele respirava na cela o perfume de glicínia.
Foi libertado aos quarenta e quatro anos. Cristina esperava-o no portão. Abandonara a pensão de mulheres, velha, feia e doente. A filha dava-lhe o braço, não é que bonitinha?
De volta à casa da falecida mãe de João Nicolau.. Grande preguiçoso, qualquer incidente o divertia: um corvo que circulava no céu (para onde voa? por que desaparece quando chove?), os cachos dourados de Augusta.
Cristina trabalhava para fora como lavadeira, a filha atendia os desejos de João Nicolau. Machado no ombro, em vez de partir lenha, contava as vezes que os caracóis batiam na nuca de Augusta — o seu rosto cabia no espaço apagado do retrato.
Cristina deu com a filha na cama de João Nicolau. De noitinha, esquentava a água, trazia a gamela: e lavava-lhe os pés. Depois que os enxugava, a vez dele banhar na mesma água os pés gordinhos de Augusta. Beijava-os na frente de Cristina — a moça torcia-se de cócega.
Cristina serviu-lhe vidro moído no feijão, sem: que desconfiasse; cólicas tão fortes que rolava no chão, língua de fora. João dormia só na cama de casal. Certa noite procurou o anel de cabelos de Negrinha, não achou. Cristina o queimara e, além dele, o próprio retrato, só vislumbrava o véu e a grinalda.
João Nicolau queixava-se do perfume sufocante de glicínia. Cada vez uma das donas misturava pó de vidro no prato de feijão que lhe levavam na cama..
Urrava de dor e elas cobriam os ouvidos, em fuga para o quintal.
Um dia ele morreu. Foi enterrado pelas mulheres e nem uma chorou. Sem dinheiro para o trem, seguiram a pé rumo à cidade. Deu um pulo a barriga de Augusta, estava para ser mãe.
Dalton Trevisan, in Novelas nada exemplares

Explicações que ofendem

O rei estava reunido com o seu ministério e tratava de dar explicações duvidosas para uns gastos com banquetes gastronômicos. Os ministros, sem acreditar, faziam de conta que acreditavam. Mas o bobo, um dos ministros do rei (todo governo deveria ter um bobo da corte...), deu uma risadinha e comentou em voz alta: “Majestade, há explicações que são piores que uma ofensa...”. O rei ficou furioso, expulsou o bobo e declarou que, se ele não explicasse essa declaração absurda até o fim do dia, iria passar uma semana no calabouço. O bobo sumiu. O rei, cansado, ao fim de um dia de explicações, ia sozinho por um corredor do palácio, corredor esse decorado com grandes colunas de mármore. Atrás de uma delas estava o bobo escondido, pronto a provar sua tese. Quando o rei passou, o bobo pulou e agarrou as nádegas do rei. O rei deu um grito de susto e raiva. E o bobo se desculpou: “Perdão, Majestade, eu pensei que fosse a rainha...”. Estava provada a tese de que há explicações que são piores que uma ofensa.
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola

05/07/2016

Combater a vilania

De fato, nós somos tais que nenhuma coisa desperta nossa admiração tanto quanto um homem forte na desventura. Quando, em Atenas, Aristides estava sendo levado ao suplício, quem quer que o encontrasse abaixava os olhos e gemia, como se tivesse sido condenado não um homem justo, mas a própria justiça; assim mesmo, houve quem lhe cuspisse no rosto. Teria podido sentir indignação, sabendo que ninguém que tivesse a boca pura teria ousado uma tal coisa: ele, ao contrário, limpou o rosto, e sorrindo disse ao magistrado, que o acompanhava: ‘Avise esse tal que de agora em diante não boceje mais tão indecentemente’. E foi esse o melhor modo de se fazer vilania à vilania.”
Sêneca, in Consolação a minha mãe Hélvia

Em dobro

EM-DOBRO 
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Bin Laden

Você deveria estar em casa enchendo o romance de lindezas, mas não. Tá com uma garrafa de uísque no meio-fio vendo os carros passar junto com famílias felizes que vivem somente para gozar e pagar as contas no fim do mês. O peito com duas torres pegando fogo a ponto de desabar feito o ataque de Bin Laden em 11 de setembro. Você deveria emagrecer. Cursar direito e ganhar dinheiro para casar com a ex-mulher do desembargador. Correr. “acaba logo esse livro e casa comigo. Assim não dá. Não vai dar certo sem dinheiro, di” e sua cabeça latejando poemas carregados de despedida em abraços desesperados em saguões de aeroportos. Você deveria estar em casa aplicando insulina na sua mãe diabética e com problemas com alcoolismo. Ela está tão perdida quanto você que se humilha por uma mulher que talvez não o queira mais. Tem se envolvido com taxistas viciados em bingos e drogados que a embriagam para roubar trocados da bolsa escondida atrás da penteadeira. E todos pensam que minha vida é uma maravilha. Que sou um sujeito digno para ser invejado, mas nenhum universitário ou escritor que trata a literatura como hobby aguentaria um dia na minha pele de recaídas punks de cocaína e choros intermináveis em fundo de barzinhos escuros do centro da cidade. Ela quer me assumir. Quer dizer pra todo mundo que vive com um escritor fodão, mas o saldo da minha conta no Itaú está negativo e talvez eu abandone tudo e mude para São Paulo quando ela sacar que é melhor deitar com um advogado com iate e apartamento na estrada da ponta negra que comigo. Onde já se viu um sujeito achar que pode mudar o mundo só com amor e lirismo? Você deveria frequentar os narcóticos anônimos e repetir a oração da serenidade constantemente. Deveria se tornar um sujeito boçal e altivo que se acha mais importante que os outros só por ter um carro do ano e um aparelho reluzente nos dentes. E o sol deita no rio negro e índias atravessam a rua exalando cheiro de bocetinhas virgens. Manaus é uma puta mal amada. Você deveria fazer um último assalto. Estourar só mais um caixa eletrônico e convidá-la para conhecer o nordeste. “cê precisa conhecer João Pessoa, amor. Dizem que é linda a praia de Manaíra”. Você deveria estar em casa pensando em como se tornar um escritor sério e chato que todos respeitam e levam a sério. Um cara que cruza as pernas em eventos e decora palavras difíceis para confundir homens e mulheres que não entendem bulhufas de literatura. Assim como quem as pronuncia também não entende. Deveria fingir. Vestir um personagem intelectual como aquele escritor esquerdista que camufla a péssima escrita com militância política. Você deveria se tornar um advogado, Diego. Um advogado e jornalista chato pra caralho com coluna na veja, estadão ou folha de São Paulo. Comprar uma casa no Leblon e comer comida ruim e cara em restaurantes 5 estrelas. Fazer Cooper em Ipanema e tirar fotografias bebendo água de coco. Vai pra casa. Vai que um carro perde o controle e suba o canteiro. Vai que você morre sem deixar sua obra-prima e fazer um filho na negra que o traiu uma porrada de vezes, mas que ainda te esquenta por dentro. Vai assobiando aquela canção do Caetano e finja pelo menos uma vez que você é feliz.
Diego Moraes, in ursocongelado.tumblr.com

Tintim

Durante alguns anos, o tintim me intrigou. Tintim por tintim: o que queria dizer aquilo? Imaginei que fosse alguma misteriosa medida de outros tempos que sobrevivera ao sistema métrico, como a braça, a légua, etc. Outro mistério era o triz. Qual a exata definição de um triz? É uma subdivisão de tempo ou de espaço. As coisas deixam de acontecer por um triz, por uma fração de segundo ou de milímetro. Mas que fração? O triz talvez correspondesse a meio tintim, ou o tintim a um décimo de triz.
Tanto o tintim quanto o triz pertenceriam ao obscuro mundo das microcoisas.
Há quem diga que não existe uma fração mínima de matéria, que tudo pode ser dividido e subdividido. Assim como existe o infinito para fora - isto e, o espaço sem fim, depois que o Universo acaba - existiria o infinito para dentro. A menor fração da menor partícula do último átomo ainda seria formada por dois trizes, e cada triz por dois tintins, e cada tintim por dois trizes, e assim por diante, até a loucura.
Descobri, finalmente, o que significa tintim. É verdade que, se tivesse me dado o trabalho de olhar no dicionário mais cedo, minha ignorância não teria durado tanto. Mas o óbvio, às vezes, e a última coisa que nos ocorre. Está no Aurelião. Tintim, vocábulo onomatopaico que evoca o tinido das moedas.
Originalmente, portanto, “tintim por tintim” indicava um pagamento feito minuciosamente, moeda por moeda. Isso no tempo em que as moedas, no Brasil, tiniam, ao contrário de hoje, quando são feitas de papelão e se chocam sem ruído. Numa investigação feita hoje da corrupção no país tintim por tintim ficaríamos tinindo sem parar e chegaríamos a uma nova concepção de infinito.
Tintim por tintim. A menina muito dada namoraria sim-sim por sim-sim. O gordo incontrolável progrediria pela vida quindim por quindim. O telespectador habitual viveria plim-plim por plim-plim. E você e eu vamos ganhando nosso salário tin por tin (olha aí, a inflação já levou dois tins).
Resolvido o mistério do tintim, que não é uma subdivisão nem de tempo nem de espaço nem de matéria, resta o triz. O Aurelião não nos ajuda. "Triz", diz ele, significa por pouco. Sim, mas que pouco? Queremos algarismos, vírgulas, zeros, definições para "triz". Substantivo feminino. Popular.
Icterícia.” Triz quer dizer icterícia. Ou teremos que mudar todas as nossas teorias sobre o Universo ou teremos que mudar de assunto. Acho melhor mudar de assunto. O Universo já tem problemas demais.
Luís Fernando Veríssimo, in Comédias para se ler na escola

Ivo Mozart - Mocinho Do Cinema

Manter uma conversa inteligente e interessante

- Que pena - diz ele devagar, suavemente, balançando a cabeça e sem fitar o interlocutor nos olhos (nunca encara as pessoas) -, que grande pena, meu respeitável Mikhail Avieriánitch, que na nossa cidade não haja absolutamente pessoas que saibam e gostem de manter uma conversa inteligente e interessante. Isso constitui para nós uma privação enorme. Mesmo os intelectuais de ofício não se elevam acima da vulgaridade; o grau da sua cultura, asseguro-lhe, não está de nenhum modo acima da classe inferior.
- Absolutamente certo.
- Você mesmo sabe – prossegue o medido, suave e pausadamente – que neste mundo tudo é sem importância e desinteressante, a não ser as manifestações espirituais superiores da razão humana. A inteligência traça uma fronteira nítida entre o animal e o homem, lembra a natureza divina do segundo e, de certa maneira, substitui para ele a imortalidade, que não existe. Partindo-se daí, a razão constitui a única fonte possível do prazer. Mas nós não vemos, não sentimos junto a nós a razão: quer dizer que estamos privados do prazer. É verdade, nós temos livros, mas isso não é de modo algum o mesmo que uma conversa viva, que o trato humano. Se me permite fazer uma comparação um tanto infeliz, os livros são as notas de música, e a conversa o canto.”
Anton Tchekhov, in Enfermaria nº 06

04/07/2016

O que é o que é?

Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto? Uma pessoa de quem não se gosta mais e que não gosta mais da gente – como se chama essa mágoa e esse rancor? Estar ocupado, e de repente parar por ter sido tomado por uma desocupação beata, milagrosa, sorridente e idiota – como se chama o que se sentiu? O único modo de chamar é perguntar: como se chama? Até hoje só consegui nomear com a própria pergunta. Qual é o nome? E este é o nome.
Clarice Lispector, in Aprendendo a viver

O pranto

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Na mina d’água as gotas caem uma atrás da outra. A gente ouve, saída da pedra, a água clara cair no cântaro. A gente ouve. Ouve rumores; pés que raspam o chão, que caminham, que vão e que vêm. As gotas continuam caindo sem parar. O cântaro transborda fazendo a água rodar sobre um solo molhado.
Acorda!”, dizem a ele.
Reconhece o som da voz. Trata de adivinhar quem é; mas o corpo afrouxa e cai adormecido, esmagado pelo peso do sono. Umas mãos esticam a coberta agarrando-se nela, e debaixo de seu calor o corpo se esconde procurando paz.
Acorda!”, tornam a dizer.
A voz sacode seus ombros. Faz o corpo se erguer. Entreabre os olhos. Ouvem-se as gotas de água que caem da mina d’água no cântaro raso. Ouvem-se passos que se arrastam... E o pranto.
Então ouviu o pranto. Aquilo o despertou: um pranto suave, delgado, que talvez por ser delgado tenha passado pela teia do sono, chegando ao lugar onde os sobressaltos se aninham.
Levantou-se devagar e viu a cara de uma mulher recostada contra o batente da porta, ainda escurecida pela noite, soluçando.
Por que você chora, mamãe? — perguntou, pois assim que pôs os pés no chão reconheceu o rosto de sua mãe.
Seu pai morreu — disse ela.
E depois, como se tivessem disparado os gatilhos de sua pena, deu volta sobre si mesma uma e outra vez, uma e outra vez, até que algumas mãos chegaram aos seus ombros e conseguiram deter o remexer de seu corpo.
Pela porta via-se o amanhecer no céu. Não havia estrelas. Só um céu de chumbo, cinzento, ainda não clareado pela luminosidade do sol. Uma luz parda, como se o dia não fosse começar, mas como se apenas estivesse chegando o princípio da noite.
Lá fora, no pátio, os passos, como de gente que ronda. Ruídos calados. E aqui, aquela mulher, de pé no umbral; seu corpo impedindo a chegada do dia; deixando aparecer, através dos seus braços, fiapos de céu, e debaixo de seus pés réstias de luz; uma luz borrifada como se o chão debaixo dela estivesse inundado de lágrimas. E depois o soluço. E outra vez o pranto suave mas agudo, e a dor fazendo seu corpo se contorcer.
Mataram seu pai.
E quem matou você, minha mãe?
Juan Rulfo, in Pedro Páramo

Quase Nada 362

Quase Nada 362 
www.10paezinhos.com.br

Para Al...

não se preocupe com rejeições, parceiro,
eu já fui rejeitado
antes.

algumas vezes você comete um erro, pegando
o poema errado
o mais comum para mim é cometer o erro
de escrevê-lo.

mas eu gosto de uma montaria em cada corrida
mesmo que o homem
que organiza a largada da manhã

a coloque pagando 30 por um.

tenho que pensar na morte mais e mais

senilidade

muletas

poltronas

escrevendo poesia púrpura com a
caneta pingando

quando mocinhas com bocas
de piranha
corpos como limoeiros
corpos como nuvens
corpos como flashes de luz
pararem de bater à minha porta.

não se preocupe com rejeições, parceiro.
fumei 25 cigarros esta noite
e você sabe sobre a cerveja.

o telefone tocou apenas uma vez:
era engano.
Charles Bukowski, in O amor é um dos diabos

Ensaios morais de Tolstói

QUINTA-FEIRA 19 – Li os ensaios morais de Tolstói e me contorci e lutei com a conclusão de que a moralidade, o conceito moral, é uma forma de melancolia. Não para mim, não para mim! O comportamento moral, sim, mas sem qualquer conceito. Há uma senilidade lúgubre na moralidade que é destituída de vida real. Vamos apenas dizer – a essência das coisas é boa, sua forma também é boa até que ela é exaurida, e assim, então, sendo má, inútil, gasta, a substância se vai e deixa ali a forma vazia. Tudo muito geral. Concluí que a sabedoria de Dostoiévski é a mais alta sabedoria do mundo, porque não é apenas a sabedoria de Cristo, mas um Cristo Karamazov de alegria e luxúria. Vamos ter uma moral que não exclua a vida simples – amar! Pobre Tolstói, angustiado por ter iniciado rico e libertino – mas quando um conde se retira para junto dos camponeses, isso é de alguma importância para o mundo (trocadilho intencional). Tolstói devia ser acanhado em relação à sua importância moral aos olhos do mundo. Mas Dostoiévski, Shakespeare – a moralidade deles cresce na terra, está ali escondida e se reproduzindo. Dostoiévski nunca precisou se retirar para a moralidade, ele sempre foi a moralidade, e tudo o mais também.
Jack Kerouac, in Diários de Jack Kerouac (1947-1954)

Perguntadeiras

Ele [Quintana] tinha que o maior chato é o “chato perguntativo”. E apesar de toda a admiração que nutria pelas mulheres, às vezes nem elas escapavam dessa classificação. Carlos Nejar lembra do dia em que ambos foram a Bento Gonçalves para autografar seus livros e conversar com estudantes. No pergunta daqui, pergunta dali, uma universitária, bonita e espevitada, não resistiu e quis saber:
Mario, por que não te casaste?
Deu uma de suas respostas feitas:
Porque as mulheres são muito perguntadeiras.
Juarez Fonseca, in Ora bolas – O humor de Mario Quintana

01/07/2016

De auroras boreais a constelações: as impressionantes imagens de concurso fotográfico de céus noturnos

Concurso especializado em paisagens da noite chama a atenção por mostrar ângulos e perspectivas de tirar o fôlego. Fotos de paisagens celestes foram selecionados como vencedores do prêmio anual Fotografia da Terra e do Céu - TWAN, na sigle em inglês.

Aurora boreal sobre Lofoten, Noruega 
A categoria Beleza do Céu Noturno foi vencida por pela chinesa Stephanie Ye, de China, com sua foto de uma aurora boreal fotografada em Tromso, Noruega.

Stockiness, Islândia 
O concurso estimula fotógrafos com imaginação a levar suas câmeras ao limite técnico para produzir imagens que pareçam naturais e sejam esteticamente agradáveis”, disse David Malin, do painel de jurados. A foto acima é de Nicholas Roemmelt, segundo colocado na categoria beleza: uma aurora boreal capturada em março de 2015 em Stockiness, na Islândia.

 La Cola de la Aurora 
Fotos de paisagens celestes foram selecionados como vencedores do prêmio anual Fotografia da Terra e do Céu - TWAN, na sigle em inglês. Na categoria principal, Alex Conu venceu com sua imagem de uma aurora boreal sobre a região de Lofoten, na Noruega.

 Acampanado debaixo das estrelas na Rússia. 
Essa foto de Boris Dmitriev, da Rússia, usa como pano de fundo o céu e a natureza da região central do país.

 Eclipse sobre Svalbard, Noruega 
Thanakrit Santikunaporn, da Tailândia, foi finalista do prêmio com essa sequência das fases de um eclipse solar, visto de Svalbard, na Noruega.

 Monte Liupan 
Na categoria Luz, essa longa exposição do chinês Sun Guocai levou o prêmio.

Orión sobre las luces y la niebla de la provincia de Treviso, en el noreste de Italia. 
Em segundo lugar na categoria Luz ficou Carlo Zanandrea, com a foto “Nem Tudo o que Reluz é Ouro”, que mostra a constelação de Órion sobre a névoa cobrindo a província de Treviso, no nordeste da Itália.

 Passárgada, no Irã. 
Pasárgada, no Irã, serviu de cenário para a foto de Amirreza Kamkar, que ficou em terceiro lugar na categoria Luz.

 O vencedor na categoria Beleza foi Adam Woodworth, dos EUA, com essa foto tirada em Newfoundland, no Canadá. 
O vencedor na categoria Beleza foi Adam Woodworth, dos EUA, com essa foto tirada em Newfoundland, no Canadá.

 Via Láctea vista do Havaí 
Outro fotógrafo chinês Alvin Wu, levou o prêmio na categoria Luz . O arco ascendente da Via Láctea foi observado em Mauna Kea, no Havaí.
Fonte: www.bbc.com.br

Nadir, Eurípedes e Yuri

Quando acontece de eu receber um e-mail sem ter certeza se quem assina é homem ou mulher, geralmente descubro uma pista dentro da mensagem mesmo. Ou a pessoa diz “sou sua fã” ou termina enviando “um abraço do... ”. O Nadir poderia ter feito isso, assinado “Um abraço do Nadir”, e eu não teria passado a vergonha de ter mandado uma resposta iniciando com “Querida Nadir”.
O Nadir, meu leitor, ficou bravo comigo. Disse que eu deveria saber que Nadir é um nome árabe masculino. Desculpe, Nadir. Mas é que há muitas Nadir também. Anos atrás, quando a Luiza Brunet pensou em se dedicar à carreira de atriz, ela fez um personagem de novela que se chamava Nadir. Tem coisa mais inquestionavelmente mulher do que a Luiza Brunet?
As Nadir e os Nadir talvez passem por esse tipo de engano com alguma frequência quando o contato não é visual. Por telefone, onde não raro confundimos voz de mulher e de homem, deve ser uma bola fora atrás da outra. Na hora de preencher cadastro, também. Como assim, Nadir, 1m89, 97 quilos, treinador de jiu-jitsu e casado com a Leila? Mas, ora, quem garante que uma Nadir não possa ser alta, forte e casada com uma moça? Ah, os tempos modernos. De qualquer forma, os pais, ao registrarem seus filhos, poderiam ser mais facilitadores.
Eurípedes concorda. A dona Eurípedes. Ela conta que seus três filhos já ouviram muita piada por terem como pais Roberto e Eurípedes. E a Donizete fica furiosa quando não reconhecem seu nome como sendo de mulher. Diz que a família das “etes” não deixa dúvida: Elizabete, Claudete, Bernadete, Janete. Pelo visto ela nunca ouviu falar daquele jogador que chegou à seleção e foi campeão brasileiro pelo Botafogo.
A Yuri, que é cabeleireira, também não gosta de dar explicação, mas se conformou. Sabe que existiu um Yuri Gagarin que foi mais famoso que ela. As Yuri passaram a ser confundidas com os rapazes.
Nomes estrangeiros, uma sinuca. Kim Novak, Kim Basinger, Kim Kardashian: várias gerações de Kim glamourosas, e aí surge o belo Kim Ricelli pra mostrar que é tão Kim quanto. Se for nome francês, então. Pergunte a um Renê ou a uma Etienne. Ou a uma Renê e a um Etienne.
Sasha, todos sabem, é filha da Xuxa, e não filho, mesmo com um nome russo masculino. E admito, envergonhada, que a primeira vez que ouvi falar de George Sand, nome expressivo da literatura francesa do século XIX, nem me passou pela cabeça que pudesse ser mulher. Chamava-se na verdade Amandine Aurore, mas passou a assinar seus livros como George Sand e assim ficou eternizada. O escritor moçambicano Mia Couto já recebeu vestidos e brincos de presente por conta do mesmo equívoco.
Do que se conclui que assinar e-mail com Abraço, Nadir é provocação. Por favor: do Nadir, da Nadir. E assim seremos todos felizes.
Martha Medeiros, in A graça da coisa

Complicado

O homem é infinitamente mais complicado que seus pensamentos.”
Paul Valéry

No algodoal

http://www.estantedelivros.com/wp-content/uploads/2011/03/As-Vinhas-da-Ira.jpg 

 
O céu estava ficando cinzento por entre as estrelas e o quarto crescente, pálido, distante, diluía-se no espaço. Tom Joad e o reverendo Casy caminhavam rapidamente pela estrada sulcada de rodas de caminhão e de trator, através de um algodoal. Somente o céu, de uma luz indefinível, um céu que não formava horizonte a Oeste e traçava uma linha apagada a Leste, denunciava a chegada da aurora. Os dois homens caminhavam em silêncio, aspirando a poeira que seus pés levantavam do chão.
Espero que você conheça bem o caminho — disse Jim Casy agora. — Seria o diabo a gente andar perdido ao nascer do sol.
No algodoal a vida despertava, fervilhando: pássaros alvoroçados precipitando-se ao chão e coelhos sobressaltados, esgueirando-se por cima dos torrões. Os passos suaves dos caminhantes na poeira, o estalido de torrões secos sob os pés sobrepujavam os ruídos secretos do alvorecer.
Eu até de olhos fechados podia andar por estas bandas — disse Joad. — Só erraria o caminho se ficasse pensando o tempo todo. Mas, se não pensar, vou direitinho. Diabo, pois se eu nasci aqui! Ali adiante deve ter uma árvore, ali, olhe, tá vendo? Bem, uma vez o meu pai pendurou um lobo morto naquela árvore. O bicho ficou pendurado na árvore até cair de podre; que coisa gozada ver a carne apodrecer. Puxa, por falar nisso, espero que a minha mãe tenha alguma coisa pra comer. Tô com uma fome de rachar!
Eu também — falou o pregador. — Que tal mascarmos fumo? Faz esquecer a fome. Seria melhor se a gente não tivesse partido tão cedo. Devíamos ter deixado clarear o dia. — estacou para enfiar um pedaço de fumo torcido na boca. — Estou com um sono danado.
Foi aquele maluco do Muley — disse Joad. — Ele me deu uma sacudidela. Me acordou e disse: “Bem, Tom, adeus, eu vou indo. Tenho que ir num lugar.” E disse depois: “É melhor cê ir também, pra estar o mais longe daqui quando for dia claro.” Ele tá ficando medroso que nem um coelho, com essa vida que tá levando. Parece que é perseguido por um bando de índios. Não acha o senhor que ele tá perdendo o juízo?
Bem, para falar a verdade, não sei. Você não viu aquele carro que chegou logo que nós acendemos a fogueira? Não viu como a casa estava escangalhada? As coisas estão parecendo bem feias. O Muley está coberto de razão em bancar o maluco. Correndo de medo, que nem um coelho; tudo aquilo faz a gente perder o juízo mesmo. Não demora, ele vai matar alguém e vão soltar cachorros no rastro dele. Estou vendo acontecer isso. Ele está indo de mal a pior. Não quis vir conosco, quis?
Não — disse Joad. — Acho que tá com medo de ver gente. Tô até admirado de como esteve conosco... Vamos chegar daqui a pouquinho à casa do tio John, antes do sol nascer.
Caminharam algum tempo em silêncio. As corujas retardatárias sobrevoavam os campos, em direção às árvores escavadas, aos celeiros, aos vãos dos telhados, fugindo da luz do dia. A leste, o sol ia clareando e já era possível ver-se os algodoeiros e a cor pardacenta da terra.
Quero ser mico se sei como eles conseguem dormir todos na casa do tio John. Lá só tem um quarto, uma cozinha imunda e um celeiro pequeno. Deve ser uma balbúrdia danada.
Não me lembro se o John é casado. Ele é solteiro, não é? — perguntou Casy. — Não me lembro muito bem dele.
É o sujeito mais solitário do mundo! — disse Joad. — É um maluco, é o que ele é; que nem o Muley, mas muito pior em algumas coisas. Às vezes vai a Shawnee, tomar um trago, ou então visita uma viúva que mora trinta quilômetros distante. Quando não, fica trabalhando na casa dele, à luz de uma lanterna. É maluco. Todo mundo pensou que ele não ia viver muito. Um sujeito assim, sozinho, não vive muito tempo. Mas o tio John já tá mais velho que meu pai. E tá ficando cada vez mais forte e mais esperto. Muito mais que meu avô.
Olhe, o sol está nascendo — disse o pregador. — Até parece prata. O John nunca teve família?
Bem, ele tinha, sim, e isso mostra que qualidade de sujeito ele é, e o modo como leva a vida. Meu pai contou uma vez. O tio John tinha mulher, bem moça. Eram casados há quatro meses. Ela ficou prenhe e então, uma noite, teve uma dor de barriga e diss’pro meu tio: olha, John, é bom cê chamar o médico. E o tio John nem se mexeu. Ele disse: qual, isso não é nada, passa logo. É uma dorzinha de estômago. Ocê comeu muito. Toma um comprimido. Encheu tanto a barriga que agora tá doendo. Pois na manhã seguinte não é que ela piorou e acabou morrendo às quatro da tarde?
Morreu de quê? — perguntou Casy. — Envenenou-se com alguma coisa que comeu?
Não, por qualquer coisa que arrebentou. Ap... apendricique ou qualquer coisa assim. Bem, o tio John, que era do tipo que não se importava com nada, ficou muito abalado com aquilo. Achou que tinha cometido um pecado. Por muito tempo, ele não falou com ninguém. Só vivia andando pra cima e pra baixo e às vezes parecia que rezava. Levou dois anos pra se recuperar, e até hoje não tá muito bom de todo. Ficou que nem um selvagem, difícil de aturar. Cada vez que uma das crianças lá em casa tinha lombriga ou dor de barriga, o tio John corria pra buscar o médico. Meu pai teve que dizer pra ele parar com isso. As crianças sempre têm dor de barriga. O tio John acha que teve a culpa da morte da mulher. É engraçado, ele. Tá sempre querendo ajudar os outros, dá doces às crianças e deixa sacos de comida na porta de gente mais necessitada. Dá quase tudo o que tem, mas parece que não vive nada feliz. Fica andando sozinho, de noite, às vezes. Mas é um bom lavrador; sabe cuidar da terra.
Coitado! — disse o pregador. — Coitado, tão sozinho! Ele foi à igreja mais vezes quando a mulher dele morreu?
Não foi, não senhor. Nunca quis meter-se no meio de gente. Queria estar sozinho. Mas as crianças, isso sim, nunca vi uma criança que não gostasse dele. Às vezes, ele vinha lá em casa, de noite, e quando vinha a gente sabia que ia encontrar ao pé da cama um pacote de balas. As crianças pensavam que era Jesus em pessoa.
O pregador foi caminhando de cabeça baixa. Não disse mais nada. E a luz da madrugada iluminava-lhe a testa larga e suas mãos, balançando ao ritmo de seus passos, surgiam à luz tão rapidamente como saíam dela.
John Steinbeck, in As vinhas da ira

Poucas coisas para aprender

Viver com suas paixões é também viver com seus sofrimentos – que são delas o contrapeso, o corretivo, o equilíbrio e a compensação. Quando um homem aprendeu – e não no papel – a ficar sozinho na intimidade de seu sofrimento, a vencer seu desejo de fugir, a ilusão que outros podem partilhar, restam-lhes poucas coisas para aprender.”
Albert Camus