05/06/2016

Na ferida do tempo

 

Escrevo poesia
Como uma criança
Que cola Band-Aid
Na ferida do tempo.
Diego Moraes

Fazendo a barba

O barbeiro acabou de ajeitar-lhe a toalha ao redor do pescoço. Encostou a mão:
Ele está quente ainda...
Que hora que foi? — perguntou o rapazinho.
O barbeiro não respondeu. Na camisa semi-aberta do morto alguns pêlos grisalhos apareciam. O rapazinho observava atentamente. Então o barbeiro olhou para ele.
Que hora que ele morreu? — o rapazinho tornou a perguntar.
De madrugada — disse o barbeiro; — ele morreu de madrugada.
Estendeu a mão:
O pincel e o creme.
O rapazinho pegou rápido o pincel e o creme na valise de couro sobre a mesinha. Depois pegou a jarra de água que havia trazido ao entrarem no quarto: derramou um pouco na vasilhinha do creme e mexeu até fazer espuma.
O rapazinho era sempre rápido no serviço mas aquela hora sua rapidez parecia acompanhada de algum nervosismo: o pincel acabou escapulindo de sua mão e foi bater na perna do barbeiro, que estava sentado junto à cama. Ele pediu desculpas, muito sem-graça e mais descontrolado ainda.
Não foi nada — disse o barbeiro, limpando a mancha de espuma na calça; — isso acontece...
O rapaz, depois de catar o pincel, mexeu mais um pouco, e então entregou a vasilhinha ao barbeiro, que ainda deu uma mexida. Antes de começar o serviço, o barbeiro olhou para o rapaz:
Você acharia melhor esperar lá fora? — perguntou, de um modo muito educado.
Não, senhor.
A morte não é um espetáculo agradável para os jovens — disse. — Aliás, para ninguém…
Começou a pincelar o rosto do morto. A barba, de uns quatro dias, estava cerrada.
Através da porta fechada vinha um murmúrio abafado de vozes rezando um terço. Lá fora o céu ia acabando de clarear; um ar fresco entrava pela janela aberta do quarto.
O barbeiro devolveu o pincel e a vasilhinha; o rapaz já estava com a navalha e o afiador na mão: entregou-os ao barbeiro e pôs na mesa a vasilhinha com o pincel.
O barbeiro afiava a navalha. No salão, era conhecido seu estilo de afiar, acompanhando trechos alegres de música clássica, que ele ia assobiando. Ali, no quarto, ao lado de um morto, afiava num ritmo diferente, mais espaçado e lento: alguém poderia quase deduzir que ele, em sua cabeça, assobiava uma marcha fúnebre.
É tão esquisito — disse o rapazinho.
Esquisito? — o barbeiro parou de afiar.
A gente fazer a barba dele...
O barbeiro olhou para o morto:
O que não é esquisito? — disse. — Ele, nós, a morte, a vida, o que não é esquisito?
Começou a barbear. Firmava a cabeça do morto com a mão esquerda, e com a direita ia raspando.
Deus me ajude a morrer com a barba feita— disse o rapazinho, que já tinha alguma barba. — Assim eles não têm de fazer ela depois de eu morto. É tão esquisito...
O barbeiro se interrompeu, afastou a cabeça e olhou de novo para o rosto do morto — mas não tinha nada a ver com a observação do rapaz; estava apenas olhando como ia o seu trabalho.
Será que ele está vendo a gente de algum lugar? — perguntou o rapazinho.
Olhou para o alto — o teto ainda de luz acesa —, como se a alma do morto estivesse por ali, observando-os; não viu nada, mas sentia como se a alma estivesse por ali.
A navalha ia agora limpando debaixo do queixo. O rapazinho observava o rosto do morto, seus olhos fechados, a boca, a cor pálida: sem a barba, ele agora parecia mais um morto.
Por que a gente morre? — perguntou. — Por que a gente tem de morrer?
O barbeiro não disse nada. Tinha acabado de barbear. Limpou a navalha e fechou-a, deixando-a na beirada da cama.
Me dá a outra toalha — pediu; — e molhe o paninho.
O rapaz molhou o paninho na jarra; apertou-o para escorrer, e então entregou ao barbeiro, junto com a toalha.
O barbeiro foi limpando e enxugando cuidadosamente o rosto do morto. Com a ponta do pano, tirou um pouco de espuma que tinha entrado no ouvido.
Por que será que a gente não acostuma com a morte? — perguntou o rapazinho. — A gente não tem de morrer um dia? Todo mundo não morre? Então por que a gente não acostuma?
O barbeiro fixou-o um segundo:
É — disse, e se voltou para o morto. Começou a fazer o bigode.
Não é esquisito? — perguntou o rapazinho. — Eu não entendo.
Há muita coisa que a gente não entende — disse o barbeiro.
Estendeu a mão:
A tesourinha.
Na casa, o movimento e o barulho de vozes pareciam aumentar; de vez em quando um choro. O rapazinho pensou alegre que já estavam quase acabando e que dentro de mais alguns minutos ele estaria lá fora, na rua, caminhando no ar fresco da manhã.
O pente — disse o barbeiro. — Pode ir guardando as coisas.
Quando acabou de pentear, o barbeiro se ergueu da cadeira e contemplou o rosto do morto.
A tesourinha de novo — pediu.
O rapaz tornou a abrir a valise e a pegar a tesourinha.
O barbeiro se curvou e cortou a pontinha de um fio de cabelo do bigode. Os dois ficaram olhando.
A morte é uma coisa muito estranha — disse o barbeiro.
Lá fora o sol já iluminava a cidade, que ia se movimentando para mais um dia de trabalho: lojas abrindo, estudantes andando para a escola, carros passando.
Os dois caminharam um bom tempo em silêncio; até que, à porta de um boteco, o barbeiro parou:
Vamos tomar uma pinguinha?
O rapaz olhou meio sem jeito para ele; só bebia escondido, e não sabia o que responder.
Uma pinguinha é bom para retemperar os nervos — disse o barbeiro, olhando-o com um sorriso bondoso.
Bem... — disse o rapaz.
O barbeiro pôs a mão em seu ombro, e os dois entraram no boteco.
Luiz Vilela, in Os cem melhores contos brasileiros do século

Sujou!

Ainda não nos gostamos

Os dilemas morais de hoje são os mesmos do início dos tempos. As pessoas são predadoras e competitivas. Os problemas atuais podem ser o aquecimento global e a guerra em Darfur, mas é tudo a mesma coisa. Ainda não nos gostamos. Sempre achei que, se as pessoas intolerantes conseguissem por em prática suas ideias e eliminassem todos os negros e todos os judeus, depois atacariam outro grupo de gente, depois mais outro. Por fim, quando só houvesse duas pessoas na face da Terra, o destro se voltaria contra o canhoto.”
Woody Allen

O múltiplo e o simples

O Tao-Te-Ching, livro sagrado do taoísmo, já dizia há mais de um milênio que temos dois lados. Há um lado que olha para fora. Olhando para fora defrontamo-nos com o mundo da multiplicidade, 10 mil coisas que se impõem aos nossos sentidos, nos dão ordens, nos atropelam, e nos enrolam aos trambolhões, como aquelas ondas de praias de tombo. Mas há um outro lado que olha para dentro. Aí nos defrontamos com uma única coisa, o desejo mais profundo do nosso coração, aquela coisa que, se a tivéssemos, nos traria alegria. Jesus contou a parábola de um homem que tinha muitas joias e que, ao encontrar uma única pérola maravilhosa, vendeu as muitas para comprar uma única. No primeiro lado mora o conhecimento, a ciência, a bolsa de valores, a cotação do dólar, as coisas que se podem comprar, e todas as coisas que compõem a nossa vida de fora. Essas coisas são “meios para se viver” – ferramentas que podemos usar. No segundo lado mora a sabedoria, que é a capacidade para discernir as coisas que valem a pena. Num bufê, você encheria o seu prato com tudo o que está na mesa? Somente um tolo faria isso. Você consultaria o seu desejo: “De tudo isso que está à minha frente, o que é que realmente desejo comer?”. Tolos são aqueles que, seduzidos pela multiplicidade, se entregam vorazmente a ela. Eles acabam tendo uma terrível indigestão... Sábios são aqueles que, da multiplicidade, escolhem o essencial. Simplicidade é isso: escolher o essencial.
Rubem Alves, in Ostra feliz não faz pérola

04/06/2016

Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada - V

Escrever nem uma coisa
Nem outra —
A fim de dizer todas —
Ou, pelo menos, nenhumas.

Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar —
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.
Manoel de Barros

O Rappa - Uma Vida Só

Bem governado

Quando os sabres estão enferrujados, e as enxadas polidas; quando as prisões estão vazias e os celeiros cheios; quando os degraus dos templos estão gastos pelo caminhar dos fiéis e as entradas dos tribunais cobertas de ervas; quando os médicos andam a pé e os pedreiros a cavalo, o Império é bem governado.”
Júlio Verne

Na crise, viaje!

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