08/02/2016

Dissimulação

Dissimular, enganar, fingir, fechar os olhos aos defeitos dos amigos, ao ponto de apreciar e admirar grandes vícios como grandes virtudes, não será, acaso, avizinhar-se da loucura? Beijar, num transporte, uma mancha da amiga, ou sentir com prazer o fedor do seu nariz, e pretender um pai que o filho zarolho tenha dois olhos de Vênus, não será isso uma verdadeira loucura? Bradem, pois, quando quiserem ser uma grande loucura, e acrescentarei que essa loucura é a única que cria e conserva a amizade. Falo aqui unicamente dos homens, dos quais não há um só que tenha nascido sem defeitos, e admitindo que, para nós, o homem melhor seja o que tem menores vícios.”
Erasmo de Rotterdam, in Elogio da loucura

Anésia, a Sincera

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Contigo

Ontem tinha um escritor conselheiro sentimental no bar falando que o amor é uma virtude e tal. Que é benevolente, magnânimo, eterno e outras porradas de frases feitas dos filmes da sessão da tarde. De vez em quando eu tomava uns goles e ria das coisas que ele falava. Uma porrada de porcarias para enganar leitoras da Revista Contigo. Aí uma hora fui ao banheiro cheirar meu pó e o vi molhando o cabelo e ajeitando a camisa por dentro da calça. Dei um chute no calcanhar dele e disse “sabe o que é o amor? É isso. Um chute no calcanhar.” Ele ficou sem reação. Não chutei com força. Chutei devagar para ele entender que o amor não avisa. O amor é marginal. Ele invade. Não pede licença. É o ladrão soturno. Aí continuei bebendo minha cerveja e cheirando tranquilo no banheiro até que o bar fechou e vi uma morena caminhando. A bunda mais linda que já vi na vida. Caminhei quase a Avenida Getúlio Vargas inteira olhando pra bunda dela até tropeçar e cair numa sarjeta. A viatura parou. Os caras me viram soltando gargalhadas olhando para as estrelas e me deram um baculejo: “cadê a maconha, filho da puta?! Tá rindo pra caralho de quê? fala! Cadê a porra da maconha?” continuei rindo e levando chutes e socos na costela. O amor também é engraçado.
Diego Moraes, in ursocongelado.tumblr.com

Ser feliz ou ser livre


Dizem que ainda vai chover muito no sul e fazer frio até outubro. Meleca. O jeito é se conformar tendo um bom livro nas mãos, como o delicioso Casados com Paris, de Paula McLain, que narra, numa biografia romanceada, como foi o primeiro casamento de Ernest Hemingway. Ele tinha 21 anos e sonhava em ser um escritor famoso quando conheceu Hadley Richardson, de 28, que só desejava viver um grande amor. Eram os efervescentes anos 20, pós-Primeira Guerra. Ambos viviam sonorizados pelo jazz, tendo como amigos Gertrude Stein e o casal Fitzgerald, e driblavam a Lei Seca com litros de uísque, vinho e absinto. O espírito é parecido com o do filme Meia-noite em Paris, de Woody Allen, mas o livro vai bem mais fundo no registro de época. Uma prosa escrita em tom de pileque, com direito a uma ressaca braba no final.
Hemingway era, ele próprio, um personagem fascinante: trazia à tona as contradições mais secretas do ser humano. Sensível e rude ao mesmo tempo, demonstrrava ser um homem com múltiplos talentos, menos o de se adaptar a uma felicidade de butique. Corria o mundo atrás de seus sonhos e, não os encontrando, empacotava suas coisas e voltava ao ponto de origem, até que a próxima aventura o chamasse. Amava os amigos, a bebida, o sexo oposto, a literatura e as touradas, não necessariamente nessa ordem: aliás, sem ordem alguma. Ele próprio era um animal belo, viril e destemido diante de uma arena perplexa. Havia sobrevivido a uma guerra que tentara lhe roubar a alma. Aprendera a se defender mesmo quando não era atacado.
Hadley acompanhava esse ritmo entre encantada e assustada. Não era fácil ser mulher de um homem que vivia aumentando as apostas: sentir mais, arriscar mais. Não fosse assim, seria a morte por indignidade, como ele definia a resignação. Ou seja, sua primeira esposa viveu no melhor dos mundos e no pior, quase simultaneamente.
O livro é narrado por ela, Hadley. É comovente ver sua luta interna para manter um casamento razoavelmente dentro dos padrões sem com isso podar o homem para o qual a felicidade não era um valor absoluto, mas a liberdade, sim. Hemingway nunca teve dúvida de que ser livre era bem mais necessário e menos complicado do que ser feliz.
Fácil para quem vivencia essa liberdade, difícil para quem tem que engoli-la. Hadley era tão encantadora e especial quanto Hemingway, ainda que sob outro ponto de vista. E é esse embate emocional que o livro narra de forma adorável e ao mesmo tempo angustiante: um homem que luta para não entregar sua alma em nome das conveniências, e uma mulher que também não abre mão da sua, apesar das perdas que vier a sofrer.
Quem ganha é o leitor.
Martha Medeiros, in A graça da coisa

Bom de ir: Rio da Prata, Goiás

Fonte: Climatologia Geográfica

Um lobo

Furtivo e cinzento na penumbra última,
vai deixando seus rastros na margem
deste rio sem nome que saciou
a sede de sua garganta e cujas águas
não repetem estrelas. Esta noite,
o lobo é uma sombra que está só
e que busca a fêmea e sente frio.
É o último lobo da Inglaterra.
Odin e Thor o sabem. Em sua alta
casa de pedra um rei decidiu
acabar com os lobos. Forjado
já foi o forte ferro de tua morte.
Lobo saxão, engendrastes em vão.
Não basta ser cruel. És o último.
Mil anos passarão e um homem
velho te sonhará na América. De nada
pode servir-te esse futuro sonho.
Hoje te cercam os homens que seguiram
pela selva os rastros que deixaste,
furtivo e cinzento na penumbra última.
Jorge Luis Borges

As línguas e as culturas

Moçambique é um extenso país, tão extenso quanto recente. Existem mais de 25 línguas distintas. Desde o ano da Independência, alcançada em 1975, o português é a língua oficial. Há trinta anos apenas, uma minoria absoluta falava essa língua ironicamente tomada de empréstimo do colonizador para negar o passado colonial. Há trinta anos, quase nenhum moçambicano tinha o português como língua materna. Agora, mais de 12% dos moçambicanos têm o português como seu primeiro idioma. E a grande maioria entende e fala português inculcando na norma portuguesa as marcas das culturas de raiz africana.
Esta tendência de mudança coloca em confronto mundos que não são apenas linguisticamente distintos. Os idiomas existem enquanto parte de universos culturais mais vastos. Há quem lute para manter vivos idiomas que estão em risco de extinção. Essa luta é absolutamente meritória e recorda a nossa batalha como biólogos para salvar do desaparecimento espécies de animais e plantas. Mas as línguas salvam-se se a cultura em que se inserem se mantiver dinâmica. Do mesmo modo, as espécies biológicas apenas se salvam se os seus habitats e os processos naturais forem preservados.
As culturas sobrevivem enquanto se mantiverem produtivas, enquanto forem sujeito de mudança e elas próprias dialogarem e se mestiçarem com outras culturas. As línguas e as culturas fazem como as criaturas: trocam genes e inventam simbioses como resposta aos desafios do tempo e do ambiente.
Em Moçambique vivemos um período em que encontros e desencontros se estão estreando num caldeirão de efervescências e paradoxos. Nem sempre as palavras servem de ponte na tradução desses mundos diversos. Por exemplo, conceitos que nos parecem universais como Natureza, Cultura e Sociedade são de difícil correspondência. Muitas vezes não existem palavras nas línguas locais para exprimir esses conceitos. Outras vezes é o inverso: não existem nas línguas europeias expressões que traduzam valores e categorias das culturas moçambicanas.
Mia Couto, in E se Obama fosse africano?

07/02/2016

Prefiro as pessoas aos seus princípios

Quando se expõe uma ideia a um verdadeiro inglês - o que é simplesmente temerário -, ele nunca procura saber se a ideia é boa ou má. A única coisa que considera importante é saber se acreditam nela. Pois bem, o valor de uma ideia nada tem a ver com a sinceridade da pessoa que a expressa. Na realidade, as probabilidades são de que, quanto mais insincero é o homem, mais puramente intelectual a ideia será, uma vez que, naquele caso não estará colorida por nenhuma das necessidades, dos desejos ou dos preconceitos dele. Contudo, não pretendo discutir política, sociologia ou metafísica com você. Prefiro as pessoas aos seus princípios, e prefiro, acima de tudo no mundo, as pessoas sem princípios.”
Oscar Wilde, in O retrato de Dorian Gray

Lamento Sertanejo, de Dominguinhos e Gilberto Gil

A existência cotidiana

Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair suas riquezas.”
Rainer Maria Rilke, in Cartas a um jovem poeta

Quase Nada 347

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A religião

A religião tem todas as coisas a seu favor: a revelação feita por Deus aos homens, as profecias, a proteção do governo, das figuras mais respeitáveis e importantes. Mais que isso, o enorme privilégio de poder gravar sua doutrina na mente das pessoas quando elas são crianças e, com isso, as ideias se tornam quase congênitas.”
Arthur Schopenhauer, in O mundo como vontade e representação

A dor do parto é também de quem nasce

Você não sabe que está em coma. Se tivesse morrido, não teria sabido. Quando voltei, soube que havia ficado em coma sessenta e nove dias. Viver, para mim, é um espanto muito grande. Depois desse período, fiquei muito espantado com a vida. Nascer é um ato extremamente arbitrário. Não fui consultado se queria nascer e isso me pesa muito. Ninguém me perguntou se eu queria nascer, depois não escolhi nem mãe nem pai. Não escolhi o país, nem o idioma que queria falar, nem a cor que queria ter. Ninguém me perguntou nada. É um dos fatos mais arbitrários do mundo. Escrevo neste livro  (Vermelho amargo) que a dor do parto é também de quem nasce. Outra coisa arbitrária é morrer, porque você não pediu para nascer. E quando vê a luz do mundo, a cor, a alegria do mundo, alguém fala que você vai morrer. Morrer é outra coisa arbitrária. Saber que é uma experiência individual. Só posso nascer do meu parto e só posso morrer da minha morte. Por mais que ame o outro, são coisas que não posso fazer no lugar dele. Não poder morrer no lugar de ninguém é uma coisa tão arbitrária. Uma educação que não trabalha com isso passa ao largo. Perde o cuidado com a vida. A educação que não tem esse cuidado, que nascer é ganhar o abandono. Nascer é ser expulso do paraíso, é andar com a própria perna, é falar com a própria boca, é ouvir com o próprio ouvido. Nascer é o abandono e é isso que nos faz ter compaixão pelo outro. A compaixão surge com a consciência desse abandono, com o medo da morte. É aí que criamos uma paixão pelo outro. Essa compaixão surge dessa nossa fragilidade, que é absoluta. E nós não falamos mais nisso. A literatura para criança, às vezes, não fala disso. Tenho um livro — Até passarinho passa — que fala da morte. A morte nos espanta tanto que não queremos nem pensar. Mas é o que nos segura.”
Bartolomeu Campos de Queirós, in Palestra no Teatro do Paiol, Curitiba – PR 

Sexo e amor

O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança.”
Gabriel García Márquez, in Memórias de minhas putas tristes

01/02/2016

Emicida - Aos olhos de uma criança (trilha sonora de O Menino e o Mundo)

O desejo do pecado

De acordo com os psicólogos, há momentos em que o desejo do pecado, domina de tal modo a nossa natureza, que cada fibra do corpo e cada célula do cérebro parecem ser movidos por impulsos terríveis. Em tais momentos, os homens e as mulheres perdem a sua liberdade e seu arbítrio. Dirigem-se como autômatos para seu fatal objetivo. O direito de escolher lhes é recusado e sua consciência está morta, ou, se ainda vive, é somente para emprestar atrativos à rebelião e encanto à desobediência.”
Oscar Wilde, in O retrato de Dorian Gray

A súbita turbulência do amor


As árvores eram altas e triangulares. Permaneceram caladas.
Liesel tirou da bolsa A Sacudidora de Palavras e mostrou uma página a Rudy. Nela havia um menino com três medalhas penduradas no pescoço.
— “Cabelos da cor de limões” — leu Rudy. Seus dedos tocaram as palavras. — Você falou de mim com ele?
No começo, Liesel não conseguiu dizer nada. Talvez fosse a súbita turbulência do amor que sentiu por ele. Ou será que sempre o tinha amado? Era provável. Impedida como estava de falar, desejou que ele a beijasse. Quis que ele arrastasse sua mão e a puxasse para si. Não importava onde a beijasse. Na boca, no pescoço, na face. Sua pele estava vazia para o beijo, esperando.
Anos antes, quando os dois haviam apostado corrida num campo lamacento, Rudy era um conjunto de ossos montado às pressas, com um riso irregular e hesitante. Sob o arvoredo, nessa tarde, era um doador de pão e Ursinhos de pelúcia. Um tríplice campeão de atletismo da Juventude Hitlerista. Era seu melhor amigo. E estava a um mês de sua morte.
É claro que falei de você com ele — disse Liesel.
Estava se despedindo, e nem sabia.”
Markus Zusak, in A menina que roubava livros

E o prêmio vai para...

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Manipulação

Schopenhauer disse que, usando um pouco de amizade e afeto, é possível manipular as pessoas da mesma forma que é preciso aquecer a cera para usá-la.”
Irvin D. Yalom, in A cura de Schopenhauer

Vivemos num mundo de imagens deterioradas

Não, as pessoas não se modificam tanto. Se à medida que envelhecemos, verificamos o quanto são diversas entre si, quanto mais aprofundamos nosso conhecimento, mais decepcionados ficamos. É que as qualidades, os traços que admirávamos antes, se são vincados posteriormente, não delineiam mais uma personalidade forte, e sim uma caricatura. (Exemplo clássico: o Barão de Charlus. Feito o retrato desde o início, Proust vincou de tal modo o seu esboço, que ele se tornou um tipo hors série, um puro monstro caricaturado. Com feroz alegria, é certo, com esse brilho e essa feérica decisão com que Beethoven atinge finalmente o apogeu de um motivo insistentemente manuseado ao longo de um dos seus grandes quartetos, mas de qualquer modo endeusado pelo grotesco e retalhado pelo excesso de suas linhas até a majestosa aparição do último volume…). Os retratos em tom natural são raros; o tempo é uma espécie de lente de aproximação que engrossa os detalhes e deforma a nitidez das linhas. Vivemos num mundo de imagens deterioradas, o que não resta dúvida, é mais do que uma simples verdade.
Lúcio Cardoso, in Diários