05/04/2014

Cena VI - (um bom "arranjo")

Limoeiro — Então o que diz do nosso doutor?
Chico Bento — Não é de todo desajeitado.
Limoeiro — Desajeitado! É um rapaz de muito talento!
Chico Bento — E diga-me cá uma coisa: a respeito de política, quais são as idéias dele?
Limoeiro — Tocou o tenente-coronel justamente no ponto que eu queria ferir.
Chico Bento — Omnibus tulit puntos, quis miscuit util et dolcet.
Limoeiro, gritando — Olá de dentro? Tragam duas cadeiras. O negócio é importante, devemos discutir com toda a calma.
Chico Bento — Estou às suas ordens (Entra um negro e põe as duas cadeiras em cena). Tem a palavra o suplicante. (Sentam-se.)
Limoeiro — Tenente-coronel, cartas na mesa e jogo franco. É preciso arrumar o rapaz; e não há negócio, neste país, como a política. Pela política cheguei a major e comendador, e o meu amigo a tenente-coronel e a inspetor da instrução pública cá da freguesia.
Chico Bento — Pela política, não, porque estava o parti-do contrário no poder; foi pelos meus merecimentos.
LIMOEIRO — Seja como for, o fato é que, apesar de estar o meu partido de cima, o tenente-coronel é e será sempre a primeira influência do lugar. Mas vamos ao caso. Como sabe, tenho algumas patacas, não tanto quanto se diz…
Chico Bento — Oxalá que eu tivesse só a metade do que possui o major.
LiMOEiRO — Ouro é o que ouro vale. Se a sorte não o presenteou com uma grande fortuna, tem-lhe dado, todavia, honras, considerações e amigos. Eu represento o dinheiro; o tenente-coronel a influência. O meu partido está escangalhado, e é preciso olhar seriamente para o futuro de Henrique, antes que a reforma eleitoral nos venha por aí.
Chico Bento — Quer então que.. .
Limoeiro — Que o tome sob a sua proteção quanto antes, apresentando-o seu candidato do peito nas próximas eleições.
Chico Bento — Essis modus in rebus.
Limoeiro — Deixemo-nos de latinónos. O rapaz é meu herdeiro universal, casa com a sua menina, e assim conciliam-se as coisas da melhor maneira possível.
Chico Bento (com alegria concentrada) — Confesso ao major que nunca pensei em tal; uma vez, porém, que este negócio lhe apraz…
Limoeiro — é um negócio, diz muito bem; porque, no fim de contas, estes casamentos por amor dão sempre em água de barreia. O tenente-coronel compreende… Eu sou liberal.. . o meu amigo conservador…
Chico Bento — Já atinei! Já atinei! Quando o partido conservador estiver no poder.. .
Limoeiro — Temos o governo em casa. E quando o partido liberal subir.. .
Chico Bento — Não nos saiu o governo de casa.
Limoeiro (batendo na coxa de Chico Bento) — Maganão!
Chico Bento (batendo-lhe no ombro) — Vivório! E se se formar um terceiro partido?.. . Sim, porque devemos prevenir todas as hipóteses. . .
Limoeiro — Ora, ora.. . Então o rapaz é algum bobo? Encaixa-se no terceiro partido, e ainda continuaremos com o
governo em casa. O tenente-coronel já não foi progressista no tempo da Liga?
Chico Bento — Nunca. Sempre protestei contra aquele estado de coisas; ajudei o governo, é verdade, mas no mesmo caso está também o major, que foi feito comendador naquela ocasião.
Limoeiro — é verdade, não o nego; mudei de ideias por altas conveniências sociais. Olhe, meu amigo, se o virar casaca fosse crime, as cadeias do Brasil seriam pequenas para conter os inúmeros criminosos, que por aí andam.
Chico Bento — Vejo que o major é homem de vistas largas.
Limoeiro — E eu vejo que o tenente-coronel não me fica atrás.
Chico Bento — Então casamos os pequenos… Limoeiro — Casam-se os nossos interesses… Chico Bento — Et cetera e tal…
Limoeiro — Pontinhos… (Vendo Henrique) Aí vem o rapaz, deixe-me só com ele.
Chico Bento — Fiam voluntatis tue. Vou mudar estas botas. (Sai).
França Júnior, in Como se fazia um deputado

04/04/2014

Penhor


Quanto pode valer um pássaro
de canto puro e goela solta
que gosta de carícia e se espreguiça
como qualquer amado amante?

O dono levou-o à penhora
por trinta e oito mil
cruzeiros. Diz
que vale o dobro.

Avaliado, não dá mais do que mil e quinhentos
diz o causídico do banco, e chama de brincadeira
esta causa de tão pessoal alcance.

Falando por seu advogado
o dono do pássaro diz
que o assunto é muito sério
e pede mesmo que o pássaro
seja tratado com carinho
pois cantando e recebendo amor
é que se prova valioso.

Neste poema, atentem, a palavra é tão banal,
mas o miolo é pura
poesia.
Difícil é contar como canta o pássaro.
Aí é que seríamos sublimes.
Walmir Ayala

Acerca da piedade

“A piedade é um sentimento natural, que, moderando em cada indivíduo a atividade do amor de si próprio, concorre para a conservação mútua de toda a espécie. É ela que nos leva sem reflexão em socorro daqueles que vemos sofrer; é ela que, no estado de natureza, faz às vezes de lei, de costume e de virtude, com a vantagem de que ninguém é tentado a desobedecer à sua doce voz; é ela que impede todo o selvagem robusto de arrebatar a uma criança fraca ou a um velho enfermo a sua subsistência adquirida com sacrifício, se ele mesmo espera poder encontrar a sua alhures; é ela que, em vez desta máxima sublime de justiça raciocinada, faz a outrem o que queres que te façam, inspira a todos os homens esta outra máxima de bondade natural, bem menos perfeita, porém mais útil, talvez, do que a precedente: faz o teu bem com o menor mal possível a outrem. Em uma palavra, é nesse sentimento natural, mais do que em argumentos subtis, que é preciso buscar a causa da repugnância que todo o homem experimentaria em fazer mal, mesmo independentemente das máximas da educação. Embora possa competir a Sócrates e aos espíritos da sua têmpera adquirir a virtude pela razão, há muito tempo que o gênero humano não mais existiria se a sua conservação tivesse dependido exclusivamente dos raciocínios dos que o compõem.”
Jean-Jacques Rousseau, in Discurso sobre a origem da desigualdade

Quase Nada 250

Quase Nada 250
www.10paezinhos.com.br

A inspiração

Eu não sei o que é a inspiração. Mas também a verdade é que às vezes nós usamos conceitos que nunca paramos a examinar. Vamos lá a ver: imaginemos que eu estou a pensar determinado tema e vou andando, no desenvolvimento do raciocínio sobre esse tema, até chegar a uma certa conclusão. Isto pode ser descrito, posso descrever os diversos passos desse trajeto, mas também pode acontecer que a razão, em certos momentos, avance por saltos; ela pode, sem deixar de ser razão, avançar tão rapidamente que eu não me aperceba disso, ou só me aperceba quando ela tiver chegado ao ponto a que, em circunstâncias diferentes, só chegaria depois de ter passado por todas essas fases.
Talvez, no fundo, isso seja inspiração, porque há algo que aparece subitamente; talvez isso possa chamar-se também intuição, qualquer coisa que não passa pelos pontos de apoio, que saltou de uma margem do rio para a outra, sem passar pelas pedrinhas que estão no meio e que ligam uma à outra. Que uma coisa a que nós chamamos razão funcione desta maneira ou daquela, que funcione com mais velocidade ou que funcione de forma mais lenta e que eu posso acompanhar o próprio processo, não deixa de ser um processo mental a que chamamos razão.
José Saramago

03/04/2014

Viajantes captam a beleza do mundo em concurso da National Geographic

Estão abertas até 30 de junho as inscrições para a 26ª edição do concurso fotográfico National Geographic Traveler.
Muitos concorrentes já enviaram fotos, e a BBC reuniu algumas delas nesta galeria.
São paisagens naturais e humanas retratadas por fotógrafos de diferentes países.

Um chalé nas ilhas Lofoten, na Noruega, fotografado por Sausse David

Um jovem monge lê com a ajuda de raios de luz que chegam a este templo de Mianmar, em foto de Marcelo Castro

Uma remota caverna de gelo no sudoeste da Islândia também de Marcelo Castro

Nicholas Roemmelt registrou um montanhista refletido na água, após uma tempestade

Roemmelt fotografou a Aurora Boreal na floresta do Parque Nacional Pyhae Luosto, na Finlândia

Um dos meus sonhos era fotografar o céu à noite durante minha viagem de férias à Nova Zelândia", diz Sebastian Warneke, autor desta imagem, ante à famosa pequena igreja de Tekapo 

Sam Morris registrou este iceberg no Atlântico Norte

Graham McGeorge achou que estava diante de um ninho vazio até que apareceu esta coruja, fotografada na Flórida

Esta foto das flores surgindo na primavera japonesa foi feita por Hideyuki Katagiri

Fonte: noticias.uol.com.br

Ocultar

“Um sábio não pode dizer quando o melhor é ocultar.”
Gotthold Ephraim Lessing

Trailer de "Mutum", o filme





Mutum quer dizer mudo. Mutum é uma ave negra que só canta à noite. E Mutum é também o nome de um lugar isolado no sertão de Minas Gerais, onde vivem Thiago e sua família. Thiago tem dez anos e é um menino diferente dos outros. É através do seu olhar que enxergamos o mundo nebuloso dos adultos, com suas traições, violências e silêncios. Ao lado de Felipe, seu irmão e único amigo, Thiago será confrontado com este mundo, descobrindo-o ao mesmo tempo em que terá que aprender a deixá-lo. Adaptado da obra de Guimarães Rosa.

Solidários na porta

Vivemos a civilização do automóvel, mas atrás do volante de um carro o homem se comporta como se ainda estivesse nas cavernas. Antes da roda. Luta com o seu semelhante pelo espaço na rua como se fosse o último mamute. Usando as mesmas táticas de intimidação, apenas buzinando em vez de rosnar ou rosnando em vez de morder.
O trânsito em qualquer lugar da cidade do mundo é uma metáfora para a vida competitiva que a gente leva, cada um dentro do seu próprio pequeno mundo de metal  tentando levar vantagem sobre o outro, ou pelo menos tentando  não se deixar intimidar. E provando que não há nada menos civilizado  que a civilização.
Mas há uma exceção. Uma pequena clareira de solidariedade na jângal. É a porta aberta. Quando o carro ao seu lado emparelha com o seu e alguém põe a cabeça para fora, você se prepara para o pior. Prepara a resposta. 'É a sua!' Mas você pode ter uma surpresa.
             - Porta aberta!
- O quê?
Você custa a acreditar que nem você nem ninguém da sua família está sendo xingado. Mas não, o inimigo está sinceramente preocupado com a possibilidade da porta se abrir e você cair do carro. A porta aberta determina uma espécie de trégua tácita. Todos a apontam. Vão atrás, buzinando freneticamente, se por acaso você não ouviu o primeiro aviso. 'Olha a porta aberta!' É como um código de honra, um intervalo nas hostilidades. Se a porta se abrir e você cair mesmo na rua, aí passam por cima. Mas avisaram.
Quer dizer, ainda não voltamos ao estado animal.
Luís Fernando Veríssimo, in O suicida e o computador

02/04/2014

Ler

“Ler não nos obriga em nenhuma medida a compreender.”
Jacques Lacan

A noite dissolve os homens

Imagem: Google

“A noite desceu. Que noite!
Já não enxergo meus irmãos.
E nem tão pouco os rumores que outrora me perturbavam.

A noite desceu. Nas casas, nas ruas onde se combate,
nos campos desfalecidos, a noite espalhou o medo e a total incompreensão.
A noite caiu. Tremenda, sem esperança…
Os suspiros acusam a presença negra que paralisa os guerreiros.

E o amor não abre caminho na noite.
A noite é mortal, completa, sem reticências,
a noite dissolve os homens, diz que é inútil sofrer,
a noite dissolve as pátrias, apagou os almirantes cintilantes!
nas suas fardas.

A noite anoiteceu tudo… O mundo não tem remédio…
Os suicidas tinham razão.

Aurora, entretanto eu te diviso,
ainda tímida, inexperiente das luzes que vais ascender
e dos bens que repartirás com todos os homens.

Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
adivinho-te que sobes,
vapor róseo, expulsando a treva noturna.

O triste mundo fascista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda se não modelaram mas que avançam
na escuridão
como um sinal verde e peremptório.

Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.

O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes
se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez, uma inocência, um perdão
simples e macio…

Havemos de amanhecer.
O mundo se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.”
Carlos Drummond de Andrade

O lobo e o cão

o cão eo lobo

Um lobo e um cão encontraram-se num caminho.
Disse o lobo:
- Companheiro, você está com ótimo aspecto: gordo, o pelo lustroso... Estou até com inveja...
- Ora, faça como eu - respondeu o cão. - Arranje um bom amo. Eu tenho comida na hora certa, sou bem tratado...Minha única obrigação é latir à noite quando aparecem ladrões. Venha comigo e você terá o mesmo tratamento.
O lobo achou ótima a ideia e se puseram a caminho. Mas de repente o lobo reparou numa coisa.
- O que é isso no seu pescoço? Parece um pouco esfolado... - observou ele.
- Bem – disse o cão - isso é da coleira. Sabe? Durante o dia meu amo me prende com uma coleira, que é para eu não assustar as pessoas que vêm visitá-lo.
O lobo despediu-se do amigo ali mesmo:
- Vamos esquecer – disse ele. – Prefiro minha liberdade à sua fartura.
Ruth Rocha, in Fábulas de Esopo

Estudar e viver

“Estudem como se vocês tivessem de viver para sempre; vivam como se tivessem de morrer amanhã.”
Santo Isidoro de Sevilha

Monte Roraima*

*Arte digital do meu guri Pablo Einstein Batista, postado no brazilwonders.tumblr.com aqui

A partida


Hoje, revendo minhas atitudes quando vim embora, reconheço que mudei bastante. Verifico também que estava aflito e que havia um fundo de mágoa ou desespero em minha impaciência. Eu queria deixar minha casa, minha avó e seus cuidados. Estava farto de chegar a horas certas, de ouvir reclamações; de ser vigiado, contemplado, querido. Sim, também a afeição de minha avó incomodava-me. Era quase palpável, quase como um objeto, uma túnica, um paletó justo que eu não pudesse despir.
Ela vivia a comprar-me remédios, a censurar minha falta de modos, a olhar-me, a repetir conselhos que eu já sabia de cor. Era boa demais, intoleravelmente boa e amorosa e justa.
Na véspera da viagem, enquanto eu a ajudava a arrumar as coisas na maleta, pensava que no dia seguinte estaria livre e imaginava o amplo mundo no qual iria desafogar-me: passeios, domingos sem missa, trabalho em vez de livros, mulheres nas praias, caras novas. Como tudo era fascinante! Que viesse logo. Que as horas corressem e eu me encontrasse imediatamente na posse de todos esses bens que me aguardavam. Que as horas voassem, voassem!
Percebi que minha avó não me olhava. A princípio, achei inexplicável ela fizesse isso, pois costumava fitar-me, longamente, com uma ternura que incomodava. Tive raiva do que me parecia um capricho e, como represália, fui para a cama.
Deixei a luz acesa. Sentia não sei que prazer em contar as vigas do teto, em olhar para a lâmpada. Desejava que nenhuma dessas coisas me afetasse e irritava-me por começar a entender que não conseguiria afastar-me delas sem emoção.
Minha avó fechara a maleta e agora se movia, devagar, calada, fiel ao seu hábito de fazer arrumações tardias. A quietude da casa parecia triste e ficava mais nítida com os poucos ruídos aos quais me fixava: manso arrastar de chinelos, cuidadoso abrir e lento fechar de gavetas, o tique-taque do relógio, tilintar de talheres, de xícaras.
Por fim, ela veio ao meu quarto, curvou-se:
— Acordado?
Apanhou o lençol e ia cobrir-me (gostava disto, ainda hoje o faz quando a visito); mas pretextei calor, beijei sua mão enrugada e, antes que ela saísse, dei-lhe as costas.
Não consegui dormir. Continuava preso a outros rumores. E quando estes se esvaíam, indistintas imagens me acossavam. Edifícios imensos, opressivos, barulho de trens, luzes, tudo a afligir-me, persistente, desagradável — imagens de febre.
Sentei-me na cama, as têmporas batendo, o coração inchado, retendo uma alegria dolorosa, que mais parecia um anúncio de morte. As horas passavam, cantavam grilos, minha avó tossia e voltava-se no leito, as molas duras rangiam ao peso de seu corpo. A tosse passou, emudeceram as molas; ficaram só os grilos e os relógios. Deitei-me.
Passava de meia-noite quando a velha cama gemeu: minha avó levantava-se. Abriu de leve a porta de seu quarto, sempre de leve entrou no meu, veio chegando e ficou de pé junto a mim. Com que finalidade? — perguntava eu. Cobrir-me ainda? Repetir-me conselhos? Ouvi-a então soluçar e quase fui sacudido por um acesso de raiva. Ela estava olhando para mim e chorando como se eu fosse um cadáver — pensei. Mas eu não me parecia em nada com um morto, senão no estar deitado. Estava vivo, bem vivo, não ia morrer. Sentia-me a ponto de gritar. Que me deixasse em paz e fosse chorar longe, na sala, na cozinha, no quintal, mas longe de mim. Eu não estava morto.
Afinal, ela beijou-me a fronte e se afastou, abafando os soluços. Eu crispei as mãos nas grades de ferro da cama, sobre as quais apoiei a testa ardente. E adormeci.
Acordei pela madrugada. A princípio com tranquilidade, e logo com obstinação, quis novamente dormir. Inútil, o sono esgotara-se. Com precaução, acendi um fósforo: passava das três. Restavam-me, portanto, menos de duas horas, pois o trem chegaria às cinco. Veio-me então o desejo de não passar nem uma hora mais naquela casa. Partir, sem dizer nada, deixar quanto antes minhas cadeias de disciplina e de amor.
Com receio de fazer barulho, dirigi-me à cozinha, lavei o rosto, os dentes, penteei-me e, voltando ao meu quarto, vesti-me. Calcei os sapatos, sentei-me um instante à beira da cama. Minha avó continuava dormindo. Deveria fugir ou falar com ela? Ora, algumas palavras... Que me custava acordá-la, dizer-lhe adeus?
Ela estava encolhida, pequenina, envolta numa coberta escura. Toquei-lhe no ombro, ela se moveu, descobriu-se. Quis levantar-se e eu procurei detê-la. Não era preciso, eu tomaria um café na estação. Esquecera de falar com um colega e, se fosse esperar, talvez não houvesse mais tempo. Ainda assim, levantou-se. Ralhava comigo por não tê-la despertado antes, acusava-se de ter dormido muito. Tentava sorrir.
Não sei por que motivo, retardei ainda a partida. Andei pela casa, cabisbaixo, à procura de objetos imaginários enquanto ela me seguia, abrigada em sua coberta. Eu sabia que desejava beijar-me, prender-se a mim, e à simples ideia desses gestos, estremeci. Como seria se, na hora do adeus, ela chorasse?
Enfim, beijei sua mão, bati-lhe de leve na cabeça. Creio mesmo que lhe surpreendi um gesto de aproximação, decerto na esperança de um abraço final. Esquivei-me, apanhei a maleta e, ao fazê-lo, lancei um rápido olhar para a mesa (cuidadosamente posta para dois, com a humilde louça dos grandes dias e a velha toalha branca, bordada, que só se usava em nossos aniversários).
Osman Lins, in Os gestos. Selecionado por Ítalo Moriconi entre os cem melhores contos brasileiro do século 20.

01/04/2014

Teus olhos

Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima,
silêncio que fala,
tempestades sem vento, mar sem ondas,
pássaros presos, douradas feras adormecidas,
topázios ímpios como a verdade,
outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro
             duma árvore e são pássaros todas as folhas,
praia que a manhã encontra constelada de olhos,
cesta de frutos de fogo,
mentira que alimenta,
espelhos deste mundo, portas do além,
pulsação tranquila do mar ao meio-dia,
universo que estremece,
paisagem solitária. 
Octavio Paz

O hábito

O hábito é o grande regulador da sensibilidade; ele determina a continuidade dos nossos atos, embota o prazer e a dor e nos familiariza com as fadigas e com os mais penosos esforços. O mineiro habitua-se tão bem à sua dura existência que dela se recorda saudoso quando a idade o obriga a abandoná-la e o condena a viver ao sol. O hábito, regulador da vida habitual, é também o verdadeiro sustentáculo da vida social. Pode-se compará-lo à inércia, que se opõe, em mecânica, às variações de movimento. A dificuldade para um povo consiste, primeiramente, em criar hábitos sociais, depois em não permanecer muito tempo neles. Quando o jugo dos hábitos pesou muito tempo num povo, ele só se liberta desse jugo por meio de revoluções violentas. O repouso na adaptação, que o hábito consiste, não se deve prolongar. Povos envelhecidos, civilizações adiantadas, indivíduos idosos tendem a sofrer demasiado o jugo do costume, isto é, do hábito.
Seria inútil dissertar longamente sobre o seu papel, que mereceu a atenção de todos os filósofos e se tornou um dogma da sabedoria popular.
“Que são os nossos princípios naturais”, diz Pascal, “senão os nossos princípios acostumados. E nas crianças, os princípios que elas receberam dos costumes dos pais... Um costume diferente dará outros princípios naturais. O costume é uma segunda natureza, que destrói a primeira. O costume explica os nossos atos mais fortes e mais violentos; torna autômato o homem, cujo espírito é involuntariamente acarretado... Foi o costume que fez tantos cristãos; foi ele que fez os turcos, os pagãos, os oficiais, os soldados, etc. Enfim, cumpre recorrer a ele, quando o espírito consegue ver o que é a verdade... É preciso adquirir uma crença mais fácil, que é a do hábito, o qual, sem violência, sem arte, sem argumento, nos fez admitir as coisas e conduz todas as nossas forças a essa crença, de modo que a nossa alma aí naturalmente imerge. Quando só se crê pela força da convicção... não é bastante”.
A existência de um indivíduo ou de um povo ficaria instantaneamente paralisada se, por um poder sobrenatural, ele se visse subtraído à influência do hábito. É ele que diariamente nos dita o que devemos dizer, fazer e pensar.
Gustave Le Bon, in As Opiniões e as Crenças

Visível


“A arte não reproduz o visível, ela torna visível.”
Paul Klee

Governantes: estais cegos

“Príncipes, Reis, Imperadores, Monarcas do Mundo: vedes a ruína dos vossos Reinos, vedes as aflições e misérias dos vossos vassalos, vedes as violências, vedes as opressões, vedes os tributos, vedes as pobrezas, vedes as fomes, vedes as guerras, vedes as mortes, vedes os cativeiros, vedes a assolação de tudo? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Príncipes, Eclesiásticos, grandes, maiores, supremos, e vós, ó Prelados, que estais em seu lugar: vedes as calamidades universais e particulares da Igreja, vedes os destroços da Fé, vedes o descaimento da Religião, vedes o desprezo das Leis Divinas, vedes o abuso do costumes, vedes os pecados públicos, vedes os escândalos, vedes as simonias, vedes os sacrilégios, vedes a falta da doutrina sã, vedes a condenação e perda de tantas almas, dentro e fora da Cristandade? Ou o vedes ou não o vedes. Se o vedes, como não o remediais, e se o não remediais, como o vedes? Estais cegos. Ministros da República, da Justiça, da Guerra, do Estado, do Mar, da Terra: vedes as obrigações que se descarregam sobre vosso cuidado, vedes o peso que carrega sobre vossas consciências, vedes as desatenções do governo, vedes as injustiças, vedes os roubos, vedes os descaminhos, vedes os enredos, vedes as dilações, vedes os subornos, vedes as potências dos grandes e as vexações dos pequenos, vedes as lágrimas dos pobres, os clamores e gemidos de todos? Ou o vedes ou o não vedes. Se o vedes, como o não remediais? E se o não remediais, como o vedes? Estais cegos.”
Padre Antônio Vieira, in Sermões

Ah, os críticos...!

“Não é necessário que um autor compreenda o que escreve. Os críticos se encarregarão de explicá-lo.”
Antoine François Prevost