09/03/2013

Deliberações sobre mim

“Se os deuses deliberaram sobre mim e sobre o que deve acontecer-me, deliberaram bem, pois não é fácil de imaginar um deus que não delibere. Quanto a fazer-me mal, por que teriam eles qualquer desejo nesse sentido? Que vantagem resultaria disso para eles ou para o todo, que é o objeto principal de sua Providência? Se eles não deliberaram sobre mim como indivíduo, certamente determinaram ao menos sobre o todo, e o que acontece por via de consequência nessa ordenação geral eu devo aceitar de bom grado e dar-me por satisfeito. Mas se eles não deliberarem sobre coisa alguma (seria ímpio crer nisso; então, não deveríamos mais sacrificar, nem orar, nem jurar por eles, nem fazer mais nada do que fazíamos na crença de que os deuses estivessem presentes e ligados às nossas vidas), se, com efeito, eles não deliberam sobre aquilo que nos diz respeito, é a mim que cabe deliberar sobre mim mesmo e eu posso indagar sobre o que me é conveniente. E convém a cada um o que é conforme à sua própria constituição e natureza; e minha natureza é racional e associativa."
Marco Aurélio, in Meditações

08/03/2013

Natiruts [DVD Acústico] - Glamour Tropical


Quero estar a todo instante
Em teu calor contagiante
Pé na areia, água-viva
Esse mar é energia
Coração fica gigante
Paisagem estonteante
Cheiro de flor, alegria
Mil sorrisos, pura vida
Pensamentos tão distantes
Lindos olhos de brilhante
Colorida luz do dia
Seja como for, seja aonde for
É tanta paz que dá vontade de cantar
É tanto amor que dá vontade de voar
É isso tudo que devemos preservar
Por favor faça agora, não é tempo de esperar...
Anda na pedra, corre pro oceano
Pérola do Sol, te amo
Anda na pedra, corre pro oceano
Pérola do Sol, te amo
Anda na pedra, corre pro oceano
Pérola do Sol, te amo
Anda na pedra, corre pro oceano
Pérola do Sol, te amo.

Mãos marcantes e sofridas na obra do artista plástico equatoriano Oswaldo Guayasamín











Celebração da coragem - 3

Sérgio Vuskovic me conta os últimos dias de José Tohá. - Suicidou-se - disse o general Pinochet. O governo não pode garantir a imortalidade de ninguém - escreveu um jornalista da imprensa oficial.
- Estava magro por causa dos nervos - declarou o general Leigh.
Os generais chilenos odiavam-no. Tohá tinha sido ministro da Defesa no governo Allende, e conhecia os seus segredos.
Estava num campo de concentração, na ilha de Dawson, ao sul do sul.
Os prisioneiros estavam condenados a trabalhos forcados. Debaixo da chuva, metidos no barro ou na neve, os prisioneiros carregavam pedras, erguiam muros, colocavam encanamentos, pregavam postes e estendiam cercas de arame farpado.
Toha, que tinha um metro e noventa de altura, estava pesando cinquenta quilos. Nos interrogatórios, desmaiava. Era interrogado sentado numa cadeira, com os olhos vendados. Quando despertava, não tinha forcas para falar, mas sussurrava:
- Escute, oficial. Sussurrava:
- Viva os pobres do mundo.
Estava há algum tempo tombado na barraca, quando um dia levantou-se. Foi o ultimo dia em que se levantou.
Fazia muito frio, como sempre, mas havia sol. Alguém conseguiu café bem quente para ele e o negro Jorquera assoviou para ele um tango de Gardel, um daqueles velhos tangos dos quais ele tanto gostava.
As pernas tremiam, e a cada passo os joelhos se dobravam, mas Tohá dançou aquele tango. Dançou-o com uma vassoura, magra como ele, ele e a vassoura, ele encostando o cabo da vassoura em sua cara de fidalgo cavalheiro, os olhinhos fechados, até que numa volta caiu ao chão e já não conseguiu mais levantar. Nunca mais foi visto.
Eduardo Galeano, in O livro dos abraços

Mente aberta

Mente-Aberta
www.willtirando.com.br

Preparados

“O acaso favorece somente aos espíritos preparados”.
Louis Pasteur 

Amor à Terra


Imagem: Google
Laranja na mesa.
Bendita a árvore
que te pariu.
Clarice Lispector

Querer e poder

"Querer não é poder. Quem pôde, quis antes de poder só depois de poder. Quem quer nunca há-de poder, porque se perde em querer."
Fernando Pessoa

07/03/2013

A dúvida

Imagem: Google

O marido já não acreditava mais naquela história de dentista. Primeiro, era uma vez por semana, depois a três vezes e agora era todo dia.
A desculpa não variava nunca:
– Querido, hoje vou ao dentista.
Foi por isso que resolveu tirar tudo a limpo. Quando a esposa se arrumou e saiu, ele resolveu segui-la.  Meia hora depois entrava num prédio, pegava um elevador e entrava num consultório de dentista. Foi aí que ele passou a dormir calmamente e a viver tranquilo.  E foi aí que ela passou a ter mais liberdade de traí-lo com o dentista.
Leon Eliachar

A Arte da Ilustração do australiano Justin Maller











Mais aqui.

Aos amigos

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Herberto Helder

Perdas e ganhos

“Cada vez que a ciência deu um passo à frente, perguntou-se sempre se Deus com isso ganhava ou perdia. Mas, essas perdas e ganhos são mais aparentes do que reais, porque a angústia do homem diante de si mesmo e de seu destino é sempre a mesma”.
Paul-Arbusse Bastide

06/03/2013

Revista Formas n° 146


Prosseguimos mais uma vez com uma revista heterogênea, embora dentro do universo da arquitetura de interiores e o segmento empresarial. Iniciamos com a empresária Michelinne Bandeira comentando a qualidade unânime e reconhecida mundialmente das esquadrias da Veka, do qual é revendedora. A novidade fica por conta do novo empreendimento fincado no coração do chamado Plano Palumbo: o edifício Hermes 880, com projeto majestoso do arquiteto Felipe Bezerra.
Mais uma vez rendemos espaço a um ponto turístico do nosso Estado potiguar. Desta vez, tudo sobre os paradisíacos parrachos de Maracajaú, no Litoral Norte.
No segmento de interiores, a arquiteta Rosily Ribeiro e o designer Francisco Ribeiro mostra o lay out do novo e espaçoso escritório, mais amplo e confortável. Já Isnara Gurgel ambientou uma residência de 500 m², com dois pavimentos, situada em condomínio fechado, cujo norte foi a amplitude e a integração dos ambientes.
Já fechamos fevereiro e logo estaremos de volta em março.
Boa leitura!

Just a Perfect Day

"Talvez seja possível amar um homem ainda antes de o conhecer, por causa de um livro, de um poema sublinhado, de uma casa, de uma música. Lembrou-se vagamente de que em tempos procurara o poema, era de Stevenson, "My house", "my house, I say". Era muito tarde, quase noite fechada, e Katharine Hepburn tocava no escuro a terceira sinfonia de Brahms, e George chegava a correr, com medo de encontrar um fantasma.
Estava frio, muito frio, mas de manhã fizera um pouco de sol, ela levantara-se cedo, como sempre, gostava das manhãs, escolhera um vestido leve, um velho blusão de ganga, a pulseira de aço com pedras semipreciosas, o seu perfume, Hugo Boss, passara os dedos pelo cabelo curto em frente do espelho, os seus olhos estavam muito verdes e tinham um ar assustado. Tomara o pequeno-almoço no café do costume, folheara o bloco de notas onde tomava apontamentos para um livro e ao sair atirara-o para o cesto dos papéis. Passeara longamente, as mãos geladas metidas nos bolsos do blusão, a cidade estava azul, o mar, os jacarandás, os lilases, comprou um ramo de lírios azuis no mercado, alguma fruta, entrou num supermercado para comprar pão e uma garrafa de vinho, aquele estranho ascetismo, algo nela recusava qualquer comida mais elaborada, só conseguia comer pão, um pouco de queijo, fruta.
Quando chegou a casa começava a chover, correu pelas escadas acima e fechou a porta atrás de si, agora tinha medo da chuva, também tinha medo do escuro, com uma sensação de horror afastou as cortinas e ficou a olhar para a varanda, os vasos de plantas, uma camisola que deixara a secar, os pássaros que cantavam nas árvores próximas e não pareciam importar-se com a chuva. Respirou fundo e foi pôr as flores numa jarra, trocou o vestido por um roupão azul-forte e calçou umas peúgas, sentou-se na sala sentindo a presença dos objectos, os livros nas estantes, as pedras, o quadro sem título pintado por um amigo, a reprodução de um Bonnard, uma mulher na penumbra. Colada numa estante estava a página de uma revista de cinema, uma foto a preto e branco de Daniel Auteuil e Emmanuelle Béart, talvez do tempo em que ainda se amavam. Eles odiavam-se quando fizeram "Un Coeur en Hiver", o ódio dava ainda mais força ao filme, lembrou-se deles correndo debaixo da chuva. Mas ela não queria chuva, procurou outro filme para pôr no vídeo e aninhou-se no sofá. Katharine Hepburn sentada num alpendre com Fred MacMurray, o ramo de violetas que ela usava no baile, as violetas que roubara no parque, e as rosas mortas, uma rosa morta pelos teus pensamentos. Foi buscar uma fatia de pão e a garrafa de vinho à cozinha antes de começar a ver "The Philadelphia Story", Katharine Hepburn entre Cary Grant e James Stewart, não sou uma deusa, sou uma mulher de carne e osso, "there is a magnificence in you, Tracy, you're lit from within, like fires, and holocausts". Estava muito escuro lá fora, bebeu um copo de vinho e escolheu o último filme, "Undercurrent", sempre gostara de contos de fadas, e aquele era uma estranha mistura de Cinderela e a Bela e o Monstro, e sempre tivera um fraco por Robert Mitchum, talvez seja possível amar um homem por causa de um livro, de um poema, de uma música, de uma casa, do olhar de uma mulher quando fala dele, da forma como o seu cão o espera. E da sua voz quando fala da "undercurrent" no mar aparentemente calmo, onde se pode morrer.
Ficou imóvel durante muito tempo depois de o filme terminar; levantou-se, levou um copo de água e o frasco dos comprimidos para a mesa-de-cabeceira, sentou-se na cama e pensou que nunca encontrara o poema de Stevenson, mas talvez seja bom deixar algo de inacabado."
Ana Teresa Pereira 

O ajudado e o ajudador

Aconteceu que Luís Freijó se encontrou com Manuelzão de Terto, do Juazeiro-de-Dentro, na estrada que dava acesso à fazenda Panati.
Esse Manuelzão, homem espadaúdo, enorme, mas desinteligente, vinha em um reles cavalinho minguado, cadavérico até. Na lua da cela, trazia um volumoso saco de feijão, que dificultava ainda mais a andadura do debilitado animal.
Ambos pararam os seus cavalos e se cumprimentaram:
- Olá, Manuelzão, tudo bem? E a família como vai?
- A família vai bem. E a mulher e os meninos?
- Tão tudo bem também.
Luís, observando o repuxo de ar sôfrego do cavalinho, e aproveitando o mote e a ocasião, argumentou:
- Mas Manuelzão, esse cavalinho não está muito fraco para seu peso e o saco não?
- É, Luís, mas da cidade para casa é quase duas léguas...
- Então, homem, ajude o pobre do animal!
- De que jeito, criatura?
- Você é um homem forte e pode muito bem levar o saco na cabeça para aliviar essa carga do cavalo.
Manuelzão ainda titubeou, quis fazer uma reflexão, mas, num átimo, voltou a ser ele mesmo, o Manuelzão de sempre.  E concordou com a sugestão:
- É mesmo, não é, Luís? – colocando o saco na cabeça e se despedindo.
De vez em quando, Manuelzão se contorcia com esforço para ainda agradecer, com acenos, ao Luís Freijó. Este, por sua vez, volteava-se, folgazão, a confirmar a marcha vacilante do infeliz animal.
Lá se iam distanciando os dois cavaleiros: um, deliciando-se do dever de ajudar ao próximo; outro, degustando o prazer de ter sido ajudado.
E o sol tórrido por testemunha.
Elilson José Batista, in Revista Cruviana – 4ª edição
Acesse a revista: www.revistacruviana.blogspot.com

01/03/2013

Agente Castelo - Como dizia

contratemposmodernos.blogspot.com.br

Batata quente

Se eu te entregasse agora o meu amor
aceso como ele está,
como ele está, pesado,
você o trocaria rapidamente de mão,
você o guardaria um pouco na esquerda,
um pouco na direita,
por quanto tempo antes de o passar adiante?
Ana Martins Marques

Estou sempre cercado de mim mesmo

"Se tremo à opinião pública, como chamamos, ou à ameaça de assalto, ou a maus vizinhos, ou à pobreza, ou à mutilação, ou a boatos de revolução, ou de homicídio? Se tremo, que importa a causa? Os nossos próprios vícios tomam formas diversas, de acordo com o sexo, idade, ou temperamento, e, se tementes, prontamente nos alarmamos. A cobiça, ou a malícia que me entristecem, quando as atribuo à sociedade, pertencem-me. Estou sempre cercado de mim mesmo. Por outro lado, a retidão é uma vitória perpétua, celebrada não por gritos de alegria mas com serenidade, que é a alegria permanente ou habitual.
É uma desgraça recorrermos a fatos para confirmação da nossa palavra e dignidade. O capitalista não procura o seu corretor a cada instante para tomar conta dos seus lucros, em moeda corrente. Contenta-se em ler nas cotações da Bolsa que as suas ações subiram. O mesmo transporte que a ocorrência dos melhores acontecimentos me proporcionaria, devo aprender a experimentar, ainda mais puro, na verificação de que a minha posição melhora a cada passo e já comanda os acontecimentos que desejo. Tal exultação só se deteria diante da previsão de uma ordem de coisas tão singular que viesse a atirar nas sombras mais profundas todas as nossas conquistas."
Ralph Waldo Emerson, in O Caráter

O velho

Vocês não acreditam, mas também este cronista costuma ir ao Banco, e não só para pagar contas de luz, gás, telefone. Vai conversar com o Gerente - um gerente simpático, desses que não coçam a orelha quando a gente propõe uma reforma de título. Mas quem sou eu para pleitear tamanha mercê? Procuro o Gerente para conversar sobre amenidades, e ele me ouve com paciência e atenção. Até me conta coisas de seu filho, o Escritor. O Escritor tem três anos e escreve literalmente em todas as paredes da casa. Fareja livros com gravuras e sem gravuras e aprende coisas que eu, possivelmente, ignoro. A curiosidade intelectual do Escritor é insaciável. Assim fazemos do Banco, sem prejuízo dos interesses bancários (pois o Gerente é uma fera para trabalhar no meio das maiores apoquentações), um lugar de grato repouso.
Ontem o gerente estava tão assoberbado de clientes, papéis, telefonemas, recados, que não tive coragem de me aproximar. Fiquei à espera na poltrona, ao lado de dois rapazes que também esperavam. Esperavam e conversavam sobre política, inflação, Copa do Mundo.
– E como vai teu velho?
– Meu velho? Respondeu o outro. – Aquele vai sempre bem. Melhor do que eu, você e todo mundo.
– Qual a última dele?
– Não tem última. Todas são novas e contínuas. Aos sessent’anos – sessenta e lá vai fumaça – nada, corre, entra em pelada, monta, joga vôlei e só não rema porque não encontra companheiros com a mesma fibra, para disputar regata. Enquanto isso, fuma e bebe.
– E... no resto?
– No resto ele é ainda de goleada. Parece mentira, mas as mulheres adoram o Velho, e ele capricha para dar conta do serviço.
– Quantas vezes ele já casou?
– Perdi a conta. Quatro ou cinco, se não me engano. Ou seis. O extraordinário é que nenhuma das ex se queixa dele, todas que conheço continuaram suas amigas e, de um modo ou outro, dão a entender que o desempenho dele é cem por cento. Sabe de uma coisa?
– Sei. Você tem inveja dele.
– Tenho. Pra que mentir? Meu primeiro casamento não deu certo, o segundo menos ainda. Então desisti, agora sou free-lancer. Mas com o Velho é diferente. Todos os casamentos funcionaram.
– Então, por que acabaram?
– O Velho tem uma teoria que casamento não pode esfriar, vira rotina. Antes que isto aconteça, ele passa uma conversa manhosa na gatona – é especialista em gatonas – e o último episódio da novelinha é vivido sem choro nem briga. Um sábio.
– Um mestre.
– É como eu costumo chamá-lo. Ele responde que não tirou diploma e que todo mundo se for habilidoso, tira de letra. Tem dia que chego a me preocupar: “Mestre, olha essas coronárias!” Ele ri, não dá confiança em responder. “Mestre, não tem medo de negar fogo?” Aí então nem se dá ao trabalho de me olhar; faz que não ouviu. O Nuno, meu irmão mais velho – irmão de pai e mãe, do primeiro casamento -, fica besta de ver tanta resistência, e diz que o Velho não existe, que nosso pai é Energia Cósmica em pessoa.
– E teus outros irmãos?
– Os outros? Deixe ver... Somos quatorze irmãos, espalhados no mundo. Todos adoram o Velho, aliás o Nuno também. Falei quatorze, mas só Deus sabe quantos haverá por aí, desconhecidos da gente. Nem o Velho sabe.
– Algum de vocês puxou a ele na vitalidade?
– Uns fazem força, não creio que consigam. Esse negócio não comporta imitação. Ou bem que o cara nasceu com alegria de viver e gozar a vida, ou nasceu sem isso, e não tem vitamina que ajude. Claro que sempre há margem para performances individuais brilhantes, e o normal é a gente ser bem-sucedida – até certo ponto, o ponto X. Mas o Velho excede a marcação. Nunca vi ninguém tão identificado com o mundo, a mulher, as coisas agradáveis da vida. Sem contar vantagem – isso é importante. Não se vangloria de nada. Vive plenamente.
– Quer dizer que ele dá nó até em pingo d’água?
– Não faz outra coisa. Bem, vou indo. Nosso amigo Gerente ainda não se desvencilhou daquele cara, e eu prefiro voltar depois.
– Espera mais um pouco.
– Não posso. Tenho de ir a um batizado.
– Essa não!
– O Velho está me esperando. Me escolheu para padrinho do seu rebento mais novo. Tenho um irmãozinho de dois meses, não te contei ainda? Ciao.
Carlos Drummond de Andrade, in Boca de luar

Gonzaguinha- eu apenas queria que você soubesse




Eu apenas queria que você soubesse
Que aquela alegria ainda está comigo
E que a minha ternura não ficou na estrada
Não ficou no tempo presa na poeira

Eu apenas queria que você soubesse
Que esta menina hoje é uma mulher
E que esta mulher é uma menina
Que colheu seu fruto flor do seu carinho

Eu apenas queria dizer a todo mundo que me gosta
Que hoje eu me gosto muito mais
Porque me entendo muito mais também

E que a atitude de recomeçar é todo dia toda hora
É se respeitar na sua força e fé
E se olhar bem fundo até o dedão do pé

Eu apenas queria que você soubesse
Que essa criança brinca nesta roda
E não teme o corte de novas feridas
Pois tem a saúde que aprendeu com a vida

Eu apenas queria que você soubesse
Que aquela alegria ainda está comigo
E que a minha ternura não ficou na estrada
Não ficou no tempo presa na poeira.