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09/01/2013
A escolha do ofício
“A coisa mais importante de toda a vida é
a escolha do ofício: o acaso prepara-a. O costume faz os pedreiros, soldados,
empalhadores. ‘É um excelente empalhado’, diz-se; e, falando dos soldados: ‘Eles
são loucos’, diz-se; e outros pelo contrário: ‘Não há nada maior do que a
guerra; o resto dos homens são uns covardes’. À força de ouvir louvar na
infância estes ofícios e desprezar todos os outros, escolhe-se; pois
naturalmente ama-se a virtude, e detesta-se a loucura; estas palavras
emocionam-nos: só se peca na aplicação. É tão grande a força do costume que,
daqueles que a natureza fez apenas homens, se fazem todas as condições dos
homens; pois há regiões onde são todos pedreiros, noutras todos soldados, etc.
Certamente que a natureza não é tão uniforme. É portanto o costume que faz
isto, porque constrange a natureza; e algumas vezes a natureza supera-o, e
conserva o homem no seu instinto, apesar do costume, bom ou mau.”
Blaise
Pascal, in Pensamentos
08/01/2013
Procura da Poesia
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou
de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
Carlos Drummond de Andrade
A ambição
“A ambição é como a bílis, humor que
torna os homens ativos ardentes, cheios de alacridade, e movimentados, se não
for obstruída. Mas se for obstruída e não tiver curso livre, começa a ser
adusta e portanto maligna e venenosa. Assim também os homens ambiciosos, se
encontram caminhos abertos para a sua ascensão e continuam a progredir, são
mais negociosos do que perigosos; mas se forem contrariados nos seus desejos,
tornam-se secretamente descontentes, e projetam mau-olhado sobre os outros
homens e sobre as coisas; alegram-se apenas quando as coisas correm mal, o que
é a pior condição no servidor de um príncipe ou de uma república.
Francis
Bacon, in Ensaios - Da Ambição
As fronteiras da alma
"Conhece alguém as fronteiras à sua
alma, para que possa dizer - eu sou eu?”
Fernando
Pessoa
07/01/2013
Cortar defeitos
“Até cortar os próprios defeitos pode ser
perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”
Clarice
Lispector
A natureza da alegria
“Embora a experiência me tenha ensinado
que se descobrem homens felizes em maior proporção nos desertos, nos mosteiros
e no sacrifício do que entre os sedentários dos oásis férteis ou das ilhas
ditas afortunadas, nem por isso cometi a asneira de concluir que a qualidade do
alimento se opusesse à natureza da felicidade. Acontece simplesmente que, onde
os bens são em maior número, oferecem-se aos homens mais possibilidades de se
enganarem quanto à natureza das suas alegrias: elas, efetivamente, parecem
provir das coisas, quando eles as recebem do sentido que essas coisas assumem
em tal império ou em tal morada ou em tal propriedade. Para já, pode acontecer
que eles, na abastança, se enganem com maior facilidade e façam circular mais
vezes riquezas vãs. Como os homens do deserto ou do mosteiro não possuem nada,
sabem muito bem donde lhes vêm as alegrias e é-lhes assim mais fácil salvarem a
própria fonte do seu fervor.”
Antoine
de Saint-Exupéry, in Cidadela
A obra de arte
Carregando
sob o braço um objeto embrulhado no número 223 do Mensageiro da Bolsa, Sacha
Smirnoff, filhinho de mamãe, assumiu uma expressão de tristeza e entrou no
consultório do doutor Kochelkoff.
—
Ah! meu grande jovem! — exclamou o médico. — Como vamos? O que há de novo?
Fechando
as pálpebras, Sacha pôs a mão no coração e, comovido, falou:
—
Mamãe lhe manda seus cumprimentos, Ivan Nicolaìevitch, e me encarregou de lhe
agradecer... Mamãe só tem a mim no mundo, e o senhor me salvou a vida...
curando-me de grave enfermidade e... não sabemos como lhe agradecer.
—
Ora! O que é isso, meu jovem! — atalhou o médico, realizado. — Não fiz mais do
que qualquer um no meu lugar teria feito...
Depois
de observar o presente, o médico coçou lentamente a orelha, bufou e suspirou,
confuso.
—
Sim — murmurou —, é algo realmente magnífico... como diria?... um tanto ou
quanto ousado... Não é apenas decotada; é... sei lá, que diabos!
—
Mas... por que diz isso?
—
Nem a serpente em pessoa poderia inventar alguma coisa de mais indecente. Se eu
colocasse esta fantasiazinha na mesa, iria contaminar a casa toda.
—
Que modo mais excêntrico tem o senhor de interpretar a arte! — disse Sacha,
ofendido. — É um objeto artístico!... Olhe! Que beleza! Que elegância! É de se
ficar com a alma inundada de piedade, e com lágrimas a subir aos olhos!
Contemplando-se tamanha beleza, nos esquecemos de tudo o que seja da Terra... Veja
bem... Que movimentos! Que harmonia! Que expressão!...
—
Compreendo muito bem tudo isso, meu caro — interrompeu o médico —, mas acontece
que eu sou pai de família. Meus filhos costumam vir aqui. Recebo senhoras...
—
É evidente — disse Sacha — que se a gente adotar o ponto de vista do povo, este
objeto, altamente artístico, causará uma impressão diferente... Sou o filho
único de mamãe... somos pobres, e por isso não podemos lhe recompensar os seus
cuidados; e não sabemos o que fazer; embora, apesar de tudo, mamãe e eu... seu
filho único... lhe suplicamos de todo o coração que aceite, como penhor de
gratidão... esta ninharia que... É um bronze antigo... uma obra rara... de
arte.
—
Mas não havia necessidade — disse o médico, franzindo as sobrancelhas. — Por
que razão?
—
Não, eu imploro ao senhor, não recuse! — continuou a murmurar Sacha,
desembrulhando de todo o pacote. — Seria uma ofensa, a mamãe e a mim...
Trata-se um objeto belíssimo... em bronze antigo. Foi herança de papai,
guardada como uma querida lembrança.. Papai comprava bronzes antigos e
revendia-os aos colecionadores... Já mamãe e eu não nos ocupamos disso...
Sacha
acabou de desembrulhar o objeto e colocou-o solenemente em cima mesa. Era um
pequeno candelabro de bronze antigo, de fina feitura. Representava duas figuras
femininas em trajes de Eva e em atitudes que não ousaria — nem tenho
temperamento para isso — descrever.
As
figuras sorriam ostensivamente, dando a impressão de que, não fossem retidas
pela obrigação de suster o castiçal, teriam imediatamente fugido do pedestal
dançado tal cancã que, amigo leitor, nem é bom imaginar.
—
O doutor, claro, está acima destas coisas todas e portanto sua recusa nos
daria, a mamãe e a mim, uma enorme frustração. Sou o filho único de mamãe; o
senhor me salvou a vida... Damos-lhe de presente o que de mais precioso
possuímos, e... só tenho a tristeza de não nos pertencer o par do candelabro!
—
Muito agradecido, meu jovem amigo. Fico-lhe muito grato... Minhas recomendações
à sua mãe, mas rogo-lhe, o senhor mesmo considere a questão! Meus garotos
costumam vir aqui... Aparecem muitas senhoras... Mas deixo-o aqui, já que me
parece impossível convencê-lo!
—
Ora, não há de que me convencer! — disse Sacha com habilidade. – Coloque o
candelabro do lado desta jarra. Que infelicidade não possuir o par!... Bem, vou
indo, adeus, doutor.
Depois
da saída de Sacha, o doutor observou bastante o candelabro, coço orelha e
concluiu:
“Não
se pode negar que é magnífico. É uma pena abrir mão dele. Ao mesmo tempo é
impossível deixá-lo aqui... Hum... Está criado o problema...
Poderia
dá-lo de presente a quem?” ·
Depois
desta reflexão, lembrou-se do advogado Ukhoff, seu amigo íntimo, que gostaria
de ter o objeto.
"Às
mil maravilhas!", decidiu. "Ukof Ukhoff não aceita receber dinheiro
de mim , mas ficará contente com esta lembrança... E assim me livrarei deste
incômodo. Além do mais, ele é solteiro e maroto...” ·
Rápido,
o médico se vestiu, pegou o candelabro e foi até a casa do advogado.
—
Bom dia, amigo — disse, ao encontrar Ukhoff em sua morada... — Venho lhe trazer
uma recompensa pela amolação... Já que não quer aceitar dinheiro meu, aceitará
um pequeno presente... Ei-lo, meu amigo! É um objeto magnífico!
Ao
ver o candelabro, o advogado viu-se tomado de inefável encantamento.
—
Isso sim é que é obra de arte — disse, rindo às gargalhadas. — Que o diabo
carregue os meliantes capazes de sequer imaginar alguma coisa de parecido... É
maravilhoso! Onde foi que você encontrou tal preciosidade?
Assim
que o entusiasmo se esgotou, o advogado lançou temerosos olhares para o lado da
porta e disse:
—
No entanto, meu velho amigo, é melhor levar de volta o seu presente. Não posso
aceitá-lo...
—
Por quê? — quis saber, espantado, o médico.
—
Porque... Mamãe vem aqui, meus clientes... e além do mais é constrangedor em
relação aos criados...
—
Ora, essa é boa!... Você não terá a ousadia de recusá-lo. (E o médico agitou as
mãos.) Eu ficaria ofendido!... Trata-se de um objeto de arte... Que movimentos!
Que expressão!... Não quero ouvir seus argumentos! Você me deixaria melindrado!
—
Se pelo menos tivesse alguma sutileza, ou se estivesse coberta...
O
médico, porém, ainda a agitar as mãos e contente por conseguir se desfazer do
presente, voltou para o seu consultório.
Sozinho
em casa, o advogado pôs-se a examinar o candelabro, apalpou-lhe todas as partes
e, da mesma forma que o médico, viu-se tentado a refletir sobre o que deveria
fazer com ele.
“É
um objeto belíssimo", pensou. "Seria uma pena se desfazer dele; ao
mesmo tempo, é inconveniente tê-lo em casa... Melhor seria oferecê-lo a
alguém... Já sei, vou levá-lo hoje à noite ao cômico Chachkine. O sacana adora
as coisas desse gênero, e hoje é justamente o dia de sua estreia..."
Foi
o que fez, tão rápido quanto pensou. À noite o candelabro, lindamente
embrulhado, era oferecido ao cômico Chachkine.
A
noite toda o camarim do artista foi invadido pelos homens que queriam admirar o
presente; a noite toda foi de murmúrios de aprovação e de risadas que mais
pareciam relinchos... Quando uma artista se aproximava do camarim e perguntava:
"Pode-se entrar?", logo a voz rouca do cômico retumbava:
—
Não, não, cara amiga! Estou sem roupa!
Terminado
o espetáculo, Chachkine dizia, dando de ombros e abrindo os braços:
—
Onde vou colocar tamanha indecência? Moro em casa de família e recebo muitos
artistas! E isso não é como fotografia, que a gente pode esconder dentro da
gaveta...
—
Ora, por que não o vende, senhor? — aconselhou o cabeleireiro, que o ajudava a
trocar de roupa. — Tem uma velha aqui no bairro que compra bronze antigo. Vá lá
e pergunte pela senhora Smirnoff... Todo mundo a conhece.
O
cômico resolveu seguir o conselho...
Dois
dias depois, o doutor Kochelkoff meditava sobre os ácidos biliosos, de dedo na
testa. Subitamente a porta se abriu e Sacha Smirnoff jogou-se a seu encontro.
Sorria exultante, e todo o seu ser transpirava felicidade... Trazia alguma
coisa embrulhada em jornal.
—
Doutor — disse, ofegante —, imagine só nossa alegria!... Para nossa felicidade,
encontramos o par do seu candelabro!... Mamãe está se sentindo tão feliz!... E
o senhor me salvou a vida...
E então, tremendo de gratidão, Sacha
colocou o candelabro diante dos olhos de Ivan Nicolaievitch. 0 médico quis
dizer alguma coisa mas não conseguiu. Perdera o uso da palavra.
Anton Tchecov
06/01/2013
O homem se torna vulnerável à Fortuna
“Das ocorrências indesejadas, falando de maneira genérica,
algumas acarretam naturalmente dor e vexação, mas, na maior parte dos casos, é
falsa a noção que nos habituou a nos enfadarmos com elas. Como específico
contra este tipo de ocorrência, é conveniente ter à mão um dito de Menandro: ‘Nada
te aconteceu de fato enquanto não te importares muito com o ocorrido’. Isso
quer dizer que não há motivo para o teu corpo e a tua alma se mostrarem afetados
se, por exemplo, o teu pai é de baixa extração, a tua mulher cometeu adultério,
tu mesmo te viste privado de alguma coroa honorífica ou privilégio especial,
pois nada disso te impede de prosperar de corpo ou alma.
Para a
primeira categoria - doenças, privações, a morte de amigos ou filhos -, que
parece acarretar naturalmente dor e vexação, esta linha de Eurípedes deve estar
à mão: ‘Ai! por que ai? É o quinhão da mortalidade que nos coube’. Nenhum outro
argumento lógico pode romper de forma tão efetiva a espiral descendente das
nossas emoções, do que a reflexão de que somente através da compulsão comum da
Natureza, um dos elementos da sua constituição física, é que o homem se torna
vulnerável à Fortuna; nos seus aspectos principais e essenciais, permanece
seguro.”
Plutarco, in Do
Contentamento
Diogo Nogueira e Hamilton de Holanda - Lama nas ruas
Deixa desaguar tempestade
E inundar a cidade
Porque arde um sol dentro de nós.
Queixas, sabe bem que não temos
E seremos serenos.
Sentiremos prazer no tom da nossa voz.
Veja o olhar de quem ama,
Não reflete um drama não,
É a expressão é sincera, sim.
Vim pra mostrar que o amor,
Quando é puro, desperta e alerta o mortal,
Aí é que o bem vence o mal.
Deixa a chuva cair
Que o bom tempo há de vir.
Quando o amor decidir
Mudar o visual trazendo a paz no sol,
Que importa se o tempo lá fora vai mal?
Que importa se há tantas lamas nas ruas
E o céu é deserto e sem brilho de luar?
Se o clarão da luz
Do deu olhar vem me guiar,
Conduz meus passos
Por onde quer que eu vá, se há.
E inundar a cidade
Porque arde um sol dentro de nós.
Queixas, sabe bem que não temos
E seremos serenos.
Sentiremos prazer no tom da nossa voz.
Veja o olhar de quem ama,
Não reflete um drama não,
É a expressão é sincera, sim.
Vim pra mostrar que o amor,
Quando é puro, desperta e alerta o mortal,
Aí é que o bem vence o mal.
Deixa a chuva cair
Que o bom tempo há de vir.
Quando o amor decidir
Mudar o visual trazendo a paz no sol,
Que importa se o tempo lá fora vai mal?
Que importa se há tantas lamas nas ruas
E o céu é deserto e sem brilho de luar?
Se o clarão da luz
Do deu olhar vem me guiar,
Conduz meus passos
Por onde quer que eu vá, se há.
Composição: Almir Guineto e Zeca Pagodinho
Surpresas
“Em um Universo que já tem 10 ou 15
bilhões de anos, estamos constantemente esbarrando em surpresas.”
Carl
Sagan
05/01/2013
Premiado "O Som ao Redor" captura contradições sociais do Brasil
Em "O Som
ao Redor", primeiro longa de ficção do crítico e cineasta pernambucano
Kleber Mendonça Filho, as tensões e contradições sociais do Brasil se
materializam nos barulhos que cada camada da sociedade é capaz de fazer.
O que nos
define é o som que somos capazes de produzir, e não aquele que somos obrigados
a ouvir. É nesse sentido que se dão a luta de classes e o abismo social.
Premiado em
diversos festivais - Roterdã, Rio, Gramado, entre outros - "O Som ao
Redor" foi escolhido pelo jornal norte-americano "The New York
Times" como um dos melhores filmes do ano passado, sendo definido, na
crítica no periódico, como "revelador".
Não é para
menos. O diretor, que também assina o roteiro, capta com sagacidade as
contradições de uma sociedade que vive sob os resquícios de um sistema
opressivo e desigual e resiste a superar o coronelismo.
O cenário é
Recife, mas poderia ser qualquer centro urbano brasileiro devorado por prédios
e especulação imobiliária, onde o Estado parece não ter mais função e a
sociedade civil toma para si algumas das obrigações do governo, como a
segurança.
A chegada de
um grupo de profissionais da área, liderado por Clodoaldo (interpretado com
perfeição por Irandhir Santos), traz a desestabilização da ordem, na qual o
rico proprietário Francisco (W. J. Solha, de "Era uma Vez Eu,
Veronica") exerce o mando como uma espécie de poderoso chefão do bairro.
De certa
forma, Francisco simboliza todos aqueles "coronéis" típicos de um
antigo Nordeste, que mandam e desmandam, passando por cima de tudo, afinal, têm
o dinheiro e, consequentemente, o poder. Uma cena, que poderia ser quase banal,
é a prova e o símbolo desse poder que tudo ignora e desafia, quando o
personagem, em um passeio noturno, entra no mar exatamente onde há uma placa
onde se lê: "Cuidado: área sujeita a tubarões".
Francisco
começa a dividir responsabilidades com seus descendentes. O mais indicado é o
neto mais velho, João (Gustavo Jahn, de "Os Residentes"), agente
imobiliário que começa um namoro com Sofia (Irma Brown).
O mais
revelador sobre o personagem é a peculiar relação dele com sua empregada. Há
uma autêntica amizade entre eles - ele nem se importa quando os netos pequenos
dela tomam conta de sua casa. Mas quais os limites dessa liberdade?
Outra camada
da sociedade que aparece no filme é representada por Bia (Maeve Jinkings), mãe
de família classe média, dona de casa cujo maior problema, além do calor
infernal, é o cachorro que não para de latir na casa ao lado. Ela vive no mesmo
bairro de Francisco e sua família. Mas uma clara delimitação social impede que
as narrativas se cruzem de verdade.
O que funciona
como elo entre as classes são os seguranças, que, paradoxalmente, aumentam a
vulnerabilidade de todos. Eles ficam ali, bem na esquina, o tempo todo, dia e
noite, observam a vida dos moradores da rua, quem entra, quem sai, a que horas
chegam. Também tomam conta da casa de quem viaja, ficam com a chave para regar
as plantas, mas também desfrutar da cama e das bebidas às escondidas.
E o que querem
essas pessoas? Do que são capazes? É aí, já no final, que as fotos iniciais
fazem todo sentido, e o ressentimento de classe ganha força.
Como se
antecipa a partir do título do longa, o som - cujo desenho é assinado por
Pablo Lamar, e o som direto por Nicolas Hallet e Simone Dourado - tem um papel
preponderante na narrativa: é um personagem.
O filme sugere
até um exercício: preste atenção aos sons que você é capaz de emitir, e também
naqueles que você ouve todos os dias. Qual a implicação social que existe em
cada um deles?
Os ruídos que
produzimos, diz "O Som ao Redor", revelam quem somos. Aqueles que
ouvimos, onde e como vivemos. É nesse plano - no embate entre os dois - que se
materializam as contradições sociais de nosso país.
É
uma percepção e um viés bastante original para abordar um assunto tão antigo
quanto a vida em sociedade. E assim, Kleber Mendonça Filho fez uma obra-prima,
um filme que tem muito a dizer sobre o estado de coisas contemporâneo do país.
Fonte: cinema.uol.com.br, por Alysson Oliveira
A última refeição, por James Reynold
O fotógrafo londrino James Reynold
registrou, a seu modo, o que seria a última refeição pedida por prisioneiros
norte-americanos condenados à pena de morte. Confira o trabalho a seguir.
Fonte: http://www.jwgreynolds.co.uk
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