05/01/2013

O pavão

Imagem: Google

Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.
Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.
Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.
Rubem Braga, in Ai de ti, Copacabana

Vida gazeada

“A gente deve atravessar a vida como quem está gazeando a aula, e não como quem vai para a escola.”
Mário Quintana

O foco

brilliant
Fonte: pinterest.com

Bandeira nordestina



A bandeira nordestina
É uma planta iluminada
É qualquer raiz plantada
Mostrando o caule maduro.

É quando o sol varre o escuro
Com luz e sombra no chão
É quando germina o grão
É quando esbarra o machado
É quando o tronco hasteado
É sombra pra o polegar
É sombra pro fura-bolo
É sombra pro seu-vizinho
É sombra para o mindinho
É sombra prum passarinho
É sombra prum meninote
É sombra prum rapazote
É sombra prum cidadão
É sombra para um terreiro
É sombra pro povo inteiro
Do litoral ao sertão.

Essa bandeira que eu falo
Tem cores de poesia
Tem verde-folha-voada
Amarelo jaca-aberta…

Em tudo que é vegetal
Tem bandeira desfraldada
No duro da baraúna
No forte da aroeira
No panejar buliçoso
Das frondosas bananeiras
Nas bandeirolas dos coentros
E na marca sertaneja:
O rijo e forte umbuzeiro.
Jessier Quirino

Ciência e religião

“Chegamos assim a uma concepção de relação entre ciência e religião muito diferente da usual... Sustento que o sentimento religioso cósmico é a mais forte motivação da pesquisa científica.”
Albert Einstein

04/01/2013

Batismo de João


João Pedro com a tia Sandra, minha esposa
Fotos: Elilson Batista

Acerca dos grandes heróis

“Mudai os tempos, os lugares, as opiniões e circunstâncias, e os grandes heróis se tornarão pequenos e insignificantes homens.”
Marquês de Maricá

Toca Raul!!!

foto-prefeito
www.willtirando.com.br

A nudez comum por Matt Blum

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“Um corpo nu na frente do espelho. Aquelas dobrinhas adoráveis, a celulite saltando aos olhos e pintas espalhadas em toda sua extensão. Sem maquiagem, nem truques, ali, exposta, pronta para mostrar toda sua beleza natural.” Esse poderia certamente ser o pensamento de uma mulher prestes a ser fotografada por Matt Blum, o fotógrafo da nudez comum. Conheça agora um pouco desse trabalho que faz bem aos olhos mas, principalmente, nos faz valorizar o corpo que temos como ele realmente é.

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Amar o próprio corpo não tem sido uma tarefa muito fácil atualmente. A cada dia que passa, a artificialidade tem sido mais valorizada, e o que vemos são mulheres de plástico, sambando orgulhosamente com seus silicones em nossa cara. Isso não é necessariamente uma crítica - cada um faz suas escolhas e se ter um corpinho esculpido à base de cirurgias plásticas é sinônimo de felicidade para alguém, não há o que dizer. Mas é fato que a beleza natural anda realmente desvalorizada. Não há como negar.

Matéria completa aqui.

A fogueira para o inimigo

“Cuidado para com a fogueira que acendes contra teu inimigo; ela poderá chamuscar a ti mesmo.”
William Shakespeare

Galerias do país apostam cada vez mais em obras caras, efêmeras e invendáveis

Detalhes dos objetos quebrados durante a performance "O Globo da Morte de Tudo", de Nuno Ramos e Eduardo Climachauska, na galeria Anita Schwartz, no Rio
Objetos quebrados durante a performance "O Globo da Morte de Tudo", de Nuno Ramos e Eduardo Climachauska - foto: Leonardo Wen/Folhapress

Em 55 segundos, o caos tomou conta da galeria. Motociclistas rodaram a toda velocidade dentro de dois globos da morte presos a estantes cheias de objetos frágeis, de copos de cerveja a vidros de nanquim e tubos de talco.
Do lado de fora, Nuno Ramos e Eduardo Climachauska, autores da performance que aconteceu no mês passado na galeria Anita Schwartz, no Rio, dirigiam a equipe de filmagem que penou para registrar cada ângulo do terremoto artificial -uma ação que destruiu em menos de um minuto um trabalho que consumiu meses.
"Foi um Pollock, adorei", disse Ramos, comparando a ação que fez tremer o espaço da Gávea à técnica de pintura do expressionista abstrato norte-americano, que pingava tinta sobre suas telas em gestos bruscos das mãos.
Mas, ao contrário de Pollock, que no final da ação tinha um quadro para vender, o trabalho de Ramos e Climachauska virou ruína. Esse tipo de ação, que investe pesado em obras efêmeras e invendáveis, marcou o cenário das galerias do país no ano que acabou anteontem.
"Tem gente dizendo que eu sou maluca", diz a galerista Anita Schwartz, que investiu R$ 300 mil na performance. "Mas essas ações revelam outro lado do artista. Não é só aquilo que ele vende, mas também aquilo que pensa."
Antes da ação no Rio, Ramos enterrou réplicas em tamanho real das casas onde viveu em enormes poças de lama e barro escavadas no chão de concreto da galeria Celma Albuquerque, em Belo Horizonte, interditando o espaço por meses numa obra que removeu 300 toneladas de entulho da galeria e custou cerca de R$ 400 mil.
"É um projeto que não dá para repetir todo ano, mas a gente encarou porque tem horas que você precisa dar um passo adiante", diz Flávia Albuquerque, diretora da galeria mineira. "Nunca fizemos algo tão dramático."
Em São Paulo, galerias mantiveram esse drama. A Fortes Vilaça ocupou todo o espaço de seu galpão na Barra Funda com uma mega-instalação de Sara Ramo, uma espécie de labirinto de paredes brancas gigantescas.
A Millan deixou Henrique Oliveira transformar seu espaço na Vila Madalena com enormes saliências e reentrân-cias no chão, nas paredes e no teto, como se o prédio derretesse diante do público.
Essa mesma galeria também quebrou o piso do estacionamento para afundar um carro numa cratera de cimento molhado, uma instalação da artista Tatiana Blass.
"São exposições que têm um custo alto", diz Socorro de Andrade Lima, sócia da Millan. "Mas não é uma equação simples e direta. O retorno disso é mostrar que a galeria acredita no trabalho daquele artista. Uma obra sólida só consegue mostrar sua solidez nessas ocasiões."
Sólidas ou não, ações desse tipo se tornaram cada vez mais necessárias para garantir a liquidez de galerias num cenário que se tornou mais competitivo, com a abertura de novas casas que disputam o passe dos nomes de peso.
"Com o boom da arte brasileira, as galerias têm novas demandas, seus espaços precisam ser mais institucionais", diz Ivo Mesquita, diretor da Pinacoteca do Estado. "Galerias estão mais ambiciosas, e o fato de investirem nessas obras complementa o trabalho dos museus."
Mas as casas comerciais, dispostas a despejar dinheiro em ações que aumentam a visibilidade de seus artistas, também acabam expondo a fragilidade dos museus no país, que não conseguem bancar ações tão faraônicas.
"No circuito brasileiro, as galerias estão mais desenvolvidas do que os museus", afirma Marcia Fortes, sócia da Fortes Vilaça, acrescentando que mostras institucionais em galerias não são uma tendência atual. "Isso também faz parte do nosso objetivo e escopo. É representar um artista por inteiro, e não por meros interesses comerciais."
Fonte: www1.folha.uol.com.br, por Silas Martí

Desmoronando

O prédio de lata estava desmoronando e eu estava dentro dele, desmoronando também. Caía de bruços como um super-herói que esqueceu como voar, com a cara virada para o chão, ou para o saguão do prédio, que se aproximava rapidamente. Se eu me espatifasse no saguão, certamente morreria, pois seria soterrado pela lataria em decomposição que acompanhava meu voo. O fim do sonho seria o meu fim também. Mas a queda era interrompida, a intervalos, como naquelas “lojas de departamento” em que o elevador parava, o ascensorista abria a porta e anunciava: “Lingerie”, “adereços femininos” etc. Levei algum tempo para me dar conta que aquelas paradas não eram só para interromper o terror da queda. Eram oportunidades de fuga. O sonho me oferecia alternativas para a morte, se eu fizesse a escolha certa. Ou então me dava um minuto para pensar em todas as escolhas erradas que tinham me levado àquele momento e à morte certa: os exageros, os caminhos não tomados e as bebidas tomadas, as decisões equivocadas e as indecisões fatais, o excesso de açúcar e de sal, a falta de juízo e de moderação. Não posso afirmar com certeza, mas acho que ouvi o ascensorista fantasma dizer, em vez de “lingerie” e “adereços femininos”: “Desce aqui e salva a tua alma” ou “Pense no que poderia ter sido, pense no que poderia ter sido…” As paradas não eram para diminuir o terror, as paradas eram parte do terror! Eu não tinha tempo nem para a fuga nem para a contrição. E o saguão se aproximava. Decidi me resignar. É uma das maneiras que a morte nos pega, pensei: pela resignação, pela desistência. Meu corpo não me pertencia mais, era parte de uma representação da minha morte, o protagonista de um sonho, absurdo como todos os sonhos. Talvez a morte fosse sempre precedida de um sonho como aquele, uma súmula de entrega e renúncia à vida, mais ou menos dramática conforme a personalidade do morto. Um sonho com anjos e nuvens rosas ou um sonho de destruição, como eu merecia. Eu nunca saberia por que meu sonho terminal fora aquele, eu desmoronando junto com um prédio de lata. Mas nossas explicações morrem com a gente.
No fim do sonho me espatifei no chão do saguão e esperei que o prédio caísse nas minha costas. Em vez disso, ouvi a voz do dr. Alberto Augusto Rosa me perguntando se eu sabia onde estava. “Hospital Moinhos de Vento”, arrisquei. Acertei. Lá juntaram as minhas partes, me espanaram e me mandaram para casa. E eu não disse para ninguém que deveria estar morto.
Luís Fernando Veríssimo, in oglobo.globo.com, de 03/01/2013

03/01/2013

Nordestinês: Farnizim

Farnizim: incômodo, nervoso, agonia, no Piauí e na Paraíba. Corruptela de frenesi, segundo a Grande Enciclopédia internacional do piauiês, de Paulo José Cunha.
Fonte: Dicionário do Nordeste, de Fred Navarro, Estação Liberdade, 2004

O romance de Riobaldo e Diadorim


O romance de Riobaldo e Diadorim

Quando eu vi aqueles olhos,
Verdes como nenhum pasto,
Cortantes palhas de cana,
De lembrá-los não me gasto.
Desejei não fossem embora,
E deles nunca me afasto.

Vivemos a desventura
De um mal de amor oculto,
Que cresceu dentro de nós
Como sombra, feito um vulto.
Que não conheceu afago,
Só guerra, fogo e insulto.

Na noite-grande-fatal,
O meu amor encantou-se.
Desnudo corpo inteiro
Desencantado mostrou-se.
E o que era um segredo,
Sem mais nada revelou-se.

Sob as roupas de jagunço,
Corpo de mulher eu via.
A deus, já dada, sem vida,
O vau da minha alegria.
Diadorim, diadorim…
Minha incontida sangria.
Composição: Antonio Nóbrega e Wilson Freire



Diadorim e eu, nós dois. A gente dava passeios. Com assim, a gente se diferenciava dos outros – porque jagunço não é muito de conversa continuada nem de amizades estreitas: a bem eles se misturam e desmisturam, de acaso, mas cada um é feito um por si. De nós dois juntos, ninguém nada não falava. Tinham a boa prudência. Dissesse um, caçoasse, digo – podia morrer. Se acostumavam de ver a gente parmente. Que nem mais maldavam. E estávamos conversando, perto do rego – bicame de velha fazenda, onde o agrião dá flor. Desse lusfús, ia escurecendo. Diadorim acendeu um foguinho, eu fui buscar sabugos. Mariposas passavam muitas, por entre as nossas caras, e besouros graúdos esbarravam. Puxava uma brisbisa. O ianso do vento revinha com o cheiro de alguma chuva perto. E o chiim dos grilos ajuntava o campo, aos quadrados. Por mim, só, de tantas minúcias, não era o capaz de me alembrar, não sou de à parada pouca coisa; mas a saudade me alembra. Que se hoje fosse. Diadorim me pôs o rastro dele para sempre em todas essas quisquilhas da natureza. Sei como sei. Som como os sapos sorumbavam. Diadorim, duro sério, tão bonito, no relume das brasas. Quase que a gente não abria boca; mas era um delém que me tirava para ele – o irremediável extenso da vida. Por mim, não sei que tontura de vexame, com ele calado eu a ele estava obedecendo quieto.
Guimarães Rosa, in Grande Sertão: Veredas

Vou sair dessa zona de conforto!

www.ultimaquimera.com.br

A mulher e a sombra

Tentei, um dia, descrever o mistério da aurora marítima.

Às cinco da manhã a angústia se veste de branco
E fica como louca, sentada espiando o mar...

Eu a vira, essa aurora. Não havia cor nem som no mundo. Essa aurora, era a pura ausência. A ânsia de prendê-la, de compreendê-la, desde então me perseguiu. Era o que mais me faltava à Poesia:

E um grande túmulo veio
Se desvendando no mar...

Mas sempre em vão. Quem era ela de tão perfeita, de tão natural e de tão íntima que se me dava inteira e não me via; que me amava, ignorando-me a existência?

És tu, aurora?
Vejo-te nua
Teus olhos cegos
Se abrem, que frio!
Brilham na treva
Teus seios tímidos...

O desespero inútil das soluções... Nunca a verdade extrema da falta absoluta de tudo, daquele vácuo de Poesia:

Desfazendo-se em lágrimas azuis
Em mistério nascia a madrugada...


          Lembrava uma mulher me olhando do fundo da treva: 


Alguém que me espia do fundo da noite
Com olhos imóveis brilhando na noite
Me quer.


E fora essa a única verdade conseguida. A aurora é uma mulher que surge da noite, de qualquer noite - essa treva que adormece os homens e os faz tristes. Só a sua claridade é amiga e reveladora. Ao poeta mais pobre não seria dado desvendá-la em sua humildade extrema. O poeta Carlos, maior, mais simples, a revelaria em sua pulcritude, a aurora que unifica a expressão dos seres, dá a tudo o mesmo silêncio e faz bela a miséria da vida:

Aurora,
entretanto eu te diviso, ainda tímida,
inexperiente das luzes que vais acender
e dos bens que repartirás com todos os homens.
Sob o úmido véu de raivas, queixas e humilhações,
Adivinho-te que sobes, vapor róseo, expulsando a treva noturna.
O triste mundo facista se decompõe ao contato de teus dedos,
teus dedos frios, que ainda não se modelaram
mas que avançam na escuridão como um sinal verde e peremptório.
Minha fadiga encontrará em ti o seu termo,
minha carne estremece na certeza de tua vinda.
O suor é um óleo suave, as mãos dos sobreviventes se enlaçam,
os corpos hirtos adquirem uma fluidez,
uma inocência, um perdão simples e macio...
Havemos de amanhecer. O mundo
se tinge com as tintas da antemanhã
e o sangue que escorre é doce, de tão necessário
para colorir tuas pálidas faces, aurora.


A aurora dos que sofrem, a única aurora. Aquela mesma que eu vira um dia, mas cujo segredo não soubera revelar. Uma mulher que surge da sombra...
Bem haja aquele que envolveu sua poesia da luz piedosa e tímida da aurora!
Vinicius de Moraes

02/01/2013

Boca fechada

“Mais vale a um homem ter a boca fechada, e que os demais lhe achem tonto, que a abrir e que os demais se convençam de que o é.”
Pitágoras

Receba por e-mail o e-book Aves da Caatinga



A caatinga, palavra originária do tupi-guarani que significa "mata branca", é o único sistema ambiental exclusivamente brasileiro. Possui extensão territorial de 734.478 de quilômetros quadrados, correspondendo a cerca de 10% do território nacional, está presente nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas, Bahia, Piauí e norte de Minas Gerais.
A Editora Coqueiro e o portal www.onordeste.com  - através da Enciclopédia Nordeste - ao lançar o e-book "Aves da Caatinga" tem por objetivo iniciar a desvendar uma pequena parte da enorme diversidade que representa este único e rico bioma.
Para receber por e-mail, inteiramente grátis, o e-book "Aves da Caatinga" basta enviar um solitação para:  mauricio.ivan@uol.com.br
Quanto mais compreendermos caatinga, maior será o nosso orgulho de ser nordestino!

Ivan Maurício
Diretor de Conteúdo do portal
 www.onordeste.com

Esperando os bárbaros


Mas que esperamos nós aqui n'Ágora reunidos?

É que os bárbaros hoje vão chegar!

Mas porque reina no Senado tanta apatia?
Porque deixaram de fazer leis os nossos senadores?

É que os bárbaros hoje vão chegar.
Que leis hão­‑de fazer os senadores?
Os bárbaros que vêm, que as façam eles.

Mas porque tão cedo se ergueu hoje o nosso imperador,
E se sentou na magna porta da cidade à espera,
Oficial, no trono, co'a coroa na cabeça?

É que os bárbaros hoje vão chegar.
O nosso imperador espera receber
O chefe. E certamente preparou
Um pergaminho para lhe dar, onde
Inscreveu vários títulos e nomes.

Porque é que os nossos dois bons cônsules e os dois pretores
trouxeram hoje à rua as togas vermelhas bordadas?
E porque passeiam com pulseiras ricas de ametistas,
e porque trazem os anéis de esmeraldas refulgentes,
por que razão empunham hoje bastões preciosos
com tão finos ornatos de ouro e prata cravejados?

É que os bárbaros hoje vão chegar.
E tais coisas os deixam deslumbrados.

Porque é que os grandes oradores como é seu costume
Não vêm soltar os seus discursos, mostrar o seu verbo?

É que os bárbaros hoje vão chegar
E aborrecem arengas, belas frases.

Porque de súbito se instala tal inquietude
Tal comoção (Mas como os rostos ficaram tão graves)
E num repente se esvaziam as ruas, as praças,
E toda a gente volta a casa pensativa?

Caiu a noite, os bárbaros não vêm.
E chegaram pessoas da fronteira
E disseram que bárbaros não há.

Agora que será de nós sem esses bárbaros?
Essa gente talvez fosse uma solução.
Konstantinos Kaváfis
“Ele teve a sensação de ser. Não poderia explicar, tão profundo, nítido e largo que era. A sensação de ser era uma visão aguda, calma e instantânea de ser o próprio representante da vida e da morte. Então, ele não quis dormir, para não perder a sensação da vida.”
Clarice Lispector