04/11/2012

O gosto brasileiro

“Essa mistura de bom gosto com gosto atroz é bem brasileira.”
Elizabeth Bishop, poeta norte-americana que viveu no Brasil

Papos

“- Me disseram...
- Disseram-me
- Hein?
- O correto é ‘disseram-me’. Não ‘me disseram’.
- Eu falo como quero. E ti digo mais... Ou ‘digo-te’?
- O quê?
- Digo-te que você...
- O ‘te’ e o ‘você’ não combinam.
- Lhe digo?
- Também não. O que você ia me dizer?
- Que você tá sendo grosseiro, pedante e chato. E que vou ti partir a cara. Lhe partir a cara. Partir a sua cara. Como é que se diz?
- Partir-te a cara.
- Pois é. Partir-la hei de, se você não parar de me corrigir. Ou corrigir-me.
- É para o seu bem.
- Dispenso as suas correções. Vê se esquece-me. Falo como bem entender. Mas uma correção e eu...
- O quê?
- O mato.
- Que mato?
- Mato-o. Mato-lhe. Matar- lhe- ei- te. Ouviu bem?
- Eu só estava querendo...
- Pois esqueça-o e pára-te. Pronome no lugar certo é para elitismo.
- Se você prefere falar errado...
- Falo como todo mundo fala. O importante é me entenderem. Ou entenderem- me?
- No caso... Não sei.
- Ah, não sabes? Não o sabes? Sabes-lo não?
- Esquece.
- Não. Como ‘esquece’ ou ‘esqueça’? Ilumine-me. Mo diga. Ensines-lo-me, Vamos.
- Depende.
- Depende. Perfeito. Não o sabes. Ensinar-me-lo-ias se o soubesse, mas não sabes-o.
- Está bem, está bem. Desculpe. Fale como quiser.
- Agradeço-lhe a permissão para falar errado que me dás. Mas não posso mais dizer-lo-te o que dizer-te-eia.
- Por quê?
- Porque, como todo esse papo, esqueci-lo.”
Veríssimo, Luís Fernando Veríssimo, in Novas comédias da vida pública – a versão dos afogados

03/11/2012

Sangue novo na MPB: Tulipa Ruiz - Sushi


Pensei estar sendo esperta
Ao te dar meu coração
Falhei, deixei porta aberta
Você alegou: "foi rejeição"
É isso que dá contar com o certo
Nem sempre o amor se encontra tão perto
Cheguei a uma ilha deserta
A um atalho contramão
Eu sei que a resposta correta
Pode não ser a solução
Viver a teu lado não dá futuro
Fiquei deslumbrada a princípio, eu juro
Então vem, chega mais perto
Devolve já meu coração
Que tal sair deste aperto
E decretarmos solidão a dois
Querido, é mais fácil vivermos solteiros
Em festas confusões
Querido, é mais lindo juntarmos dinheiro
E embarcarmos pro Japão
Sushi, chá bar
E esse seu jeito de falar
Cantar, dançar, olhar pra mim
Viver é não ter que transplantar…
Doar sangrar trocar chamar pedir mostrar mentir falar justificar no cais chorando não sou eu quem vai ficar dizendo adeus batucada macaco no seu galho da roseira em flor da laranjeira amor é choradeira horror a vida inteira à beira da loucura e a dor e a dor e a dor e a dor…
"O importante é não parar de perguntar."
Albert Einstein

Hein, Mestre?!

HEIN-MESTRE
Fonte: www.willtirando.com.br

O poema

Um poema como um gole d’água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como uma pequenina moeda de prata perdida
Para sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia
Que a sua misteriosa condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.
Mário Quintana

A liberdade de escolha

“Um homem tem liberdade de escolha, e ela é de fato tríplice: em primeiro lugar, era livre quando planejou sua vida (embora não possa negar que muitas vezes já não seja mais o mesmo homem que a escolheu, apesar de estar realizando, pelo simples ato de viver, o que um dia concebeu); em segundo, quando determinou o caminho que pretendeu seguir e a forma pela qual iria percorrê-lo; em terceiro, quando admitiu que, como a entidade que um dia novamente voltará a ser, tem o desejo de realizar sua vida não importando o que lhe aconteça e assim acaba por entrar de moto próprio num labirinto tão complexo que nenhum centímetro de sua existência se verá intocado.
Eis aqui a tríplice liberdade de escolha, mas devemos compreendê-la simultaneamente como um todo, uma unidade tão compacta e indissolúvel que em verdade não deixa espaço para qualquer vontade, seja ela livre ou não.”
Franz Kafka, in Contos, fábulas e aforismos

A teia de aranha


Bebeágua, sacerdote dos sioux, sonhou que seres jamais vistos teciam uma enorme teia de aranha ao redor de sua aldeia. Despertou sabendo que assim seria, e disse aos seus: Quando essa estranha raça termine sua teia de aranha, nos trancará em casas cinzentas e quadradas, sobre terra estéril, e nessas casas morreremos de fome.
Eduardo Galeano, in Memórias do fogo (I) - Nascimentos

Bem x mal

“Entre fazer o mal e fazer o bem não existe outra diferença que a paz da consciência ou a sua perturbação. O trabalho é o mesmo.”
Honoré de Balzac

02/11/2012

5 a Seco em "Feliz pra cachorro"


Pensa num cara que anda feliz pra cachorro
Mas pensa assim num cachorro pra lá de feliz 
Desde que te vi 

Que o chão não tem fundo, que o céu não tem forro,
cantarolo e morro de rir
Todo feliz como um gol numa Copa do Mundo 

No fim do segundo tempo da prorrogação 

Desde que te vi é farra pra tudo,
tem funk no morro do fundo do meu coração 
(Refrão) 2x 
Tão raro de se ver 
Param pra dizer para eu ser feliz para lá 

Peraí o que é que há 

Quero ver quem vai me impedir de sorrir do Pari até o Pará 

Pensa num cara que anda contente pra burro 

Mas pensa um burro contente que nem um sagui 

Desde que te vi, parei de dar murros em ponta de faca,
deu caca eu dou urros de rir 
Ando contente que nem são os gols de chaleira 

A zaga inteira batida e o goleiro no chão 

Desde que te vi, não tenho enjoeira, nem segunda-feira
ou canseira no meu coração 
Refrão 2x

Que Calor é esse?!

Dialética

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz

Mas acontece que sou triste...
Vinicius de Moraes

Uma coleção de escadas coloridas

Em Beirute, Líbano

Em Valparaíso, Chile

Em Beirute, Líbano

Em San Francisco, Estados Unidos

No Rio de Janeiro, Brasil

Em Beirute, Líbano

Em Valparaíso, Chile

Fonte: www.streetartutopia.com

Serenidade ante a morte

Júlio Cano, um dos maiores homens que já existiram e cuja glória nada sofreu, nem mesmo por ter nascido neste século, teve uma longa discussão com Caio Calígula. Como ele se retirasse, o novo Faláride lhe disse: “Para que não te iludas nem ao menos com uma vã esperança, ordenei que te executem.” “Agradeço-te, excelente príncipe”, respondeu Cano. Não sei qual era seu pensamento, porque essas palavras podem ser vários sentidos: queria ele ultrajar o príncipe e mostrar toda a crueldade de uma tirania sob a qual a morte era um benefício? Ou censurava-lhe o absurdo de obrigar todos os dias a agradecerem-lhe, aqueles cujos filhos ele matara, assim como aqueles de quem confiscara a fortuna? Ou enfim via ele na morte uma libertação, que aceitava com prazer? Qualquer que seja a resposta, ela provém de uma grande alma.
Dir-se-ia: Caio Calígula podia depois disso ordenar que o deixassem viver. Mas cano não tinha este receio: sabia-se que desde que ele dera semelhantes ordens, Calígula manteria sua palavra. Acreditarias tu que os dez dias que decorreram até seu suplício, Cano os passou sem nenhuma inquietude? Na verdade, não parece verossímil o que este grande homem disse, o que fez e a tranquilidade que manteve. Ele jogava o “jogo dos ladrões”, quando o centurião, passando com um grupo de condenados, o convidou a se levantar e a segui-lo: então ele contou seus pontos e disse a seu adversário: “Atenção! Depois de minha morte, não digas que ganhaste!” Depois, fazendo um sinal ao centurião: “Tu serás testemunha – disse-lhe – de que eu tenho a vantagem de um ponto.” Crê tu que Cano dava tanta importância ao seu jogo? Ele zombava do carrasco. Seus amigos estavam consternados em perder um tal homem. “Por que esta tristeza? – disse-lhes -  Vós vos perguntais se a alma é imortal; eu irei sabe-lo agora mesmo.” E até ao último instante ele não cessou de procurar a verdade e de perguntar à sua própria morte a solução do grande problema. Seu filósofo o acompanhava; já o aproximavam do túmulo, onde cada dia eram oferecidos sacrifícios a César, nosso deus; “Em que pensas neste momento, Cano? – perguntou-lhe o filósofo. – Em que disposição de espírito te encontras?” “Tenho – respondeu Cano – a intenção de observar neste instante tão breve se vou sentir minha alma elevar-se.” E ele prometeu, caso descobrisse alguma coisa, tornar a voltar, a fim de instruir seus amigos sobre  sorte das almas.
Eis a tranquilidade no meio da tempestade! Não é digno de imortalidade este homem que procura na sua própria morte uma prova da verdade; que nos últimos momentos de vida interroga sua alma exalante, e que não satisfeito de instruir-se até a morte, quer que a morte mesma lhe ensine alguma coisa? Pessoa alguma jamais filosofou por tão longo tempo. Não abandonemos depressa demais este grande homem, do qual não se pode falar a não ser com veneração; sim, nós transmitiremos teu nome até a posteridade mais afastada, ilustre vítima, cuja morte ocupa um tão grande lugar entre os crimes de Calígula!
Sêneca, in Da tranquilidade da alma
“A grande ilusão é a guerra. A paz, a grande desilusão.”
Marcel Achard

A velha contrabandista


Diz que era uma velhinha que sabia andar de lambreta. Todo dia ela passava na fronteira montada na lambreta, com um bruto saco atrás da lambreta. O pessoal da alfândega - tudo malandro velho - começou a desconfiar da velhinha.
Um dia, quando ela vinha na lambreta com o saco atrás, o fiscal da alfândega mandou ela parar. A velhinha parou e então o fiscal perguntou assim pra ela:
- Escuta aqui, vovozinha, a senhora passa por aqui todo dia, com esse saco aí atrás. Que diabo a senhora leva nesse saco?
A velhinha sorriu com os poucos dentes que lhe restavam e mais os outros, que ela adquirira no odontólogo, e respondeu:
- É areia!
Aí quem sorriu foi o fiscal. Achou que não era areia nenhuma e mandou a velhinha saltar da lambreta para examinar o saco. A velhinha saltou, o fiscal esvaziou o saco e dentro só tinha areia. Muito encabulado, ordenou à velhinha fosse em frente. Ela montou na lambreta e foi embora, com o saco de areia atrás.
Mas o fiscal ficou desconfiado ainda. Talvez a velhinha passasse um dia com areia e no outro com moamba, dentro daquele maldito saco. No dia seguinte, quando ela passou na lambreta com o saco atrás, o fiscal mandou parar outra vez. Perguntou o que é que ela levava no saco e ela respondeu que era areia, uai! O fiscal examinou e era mesmo. Durante um mês seguido o fiscal interceptou a velhinha e, todas as vezes, o que ela levava no saco era areia.
Diz que foi aí que o fiscal se chateou:
- Olha, vovozinha, eu sou fiscal de alfândega com quarenta anos de serviço. Manjo essa coisa de contrabando pra burro. Ninguém me tira da cabeça que a senhora é contrabandista.
- Mas no saco só tem areia! - insistiu a velhinha. E já ia tocar a lambreta, quando o fiscal propôs:
- Eu prometo à senhora que deixo a senhora passar. Não dou parte, não apreendo, não conto nada a ninguém, mas a senhora vai me dizer: qual é o contrabando que a senhora está passando por aqui todos os dias?
- O senhor promete que não "espáia"? - quis saber a velhinha.
- Juro - respondeu o fiscal.
- É lambreta.
Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta

01/11/2012

Lavoisier

Na poesia,
Natureza variável
Das palavras,
Nada se perde
Ou cria,
Tudo se transforma:
Cada poema,
No seu perfil
Incerto
E caligráfico,
Já sonha
Outra forma.
Carlos de Oliveira

O poeta e o silêncio

Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio – um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos e declamatórios. Um silêncio… Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês.
Mário Quintana

Anésia

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Fonte: www.willtirando.com.br

O provincianismo

"O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte do desenvolvimento superior dela - em segui-la pois mimeticamente com uma insubordinação inconsciente e feliz."
Fernando Pessoa