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04/10/2012
Cavalete Parade
Já que os
políticos brasileiros não respeitam o espaço público e o poluem com seus
cavaletes, foi uma bela a iniciativa Vamos deixar a cidade mais bonita com a Cavalete Parade, em várias cidades do Brasil, dia 29 de setembro.


Gestos certos
Faça os gestos certos,
o destino vai ser teu aliado,
ouço uma voz dizendo
do fundo mais fundo do passado.
Hoje, não faço nada direito,
que é preciso muito mais peito
pra fazer tudo de qualquer jeito.
Ai do acaso,
se não ficar do meu lado.
Paulo
Leminski
Os senhores sábios
“De quando em
quando, os senhores sábios demonstram infalivelmente que tudo não passa de uma
ilusão. Antigamente, eu também lia livros do gênero e só posso dizer-te é que
não servem para nada, absolutamente nada. Tudo o que esses filósofos escrevem é
uma brincadeira; talvez seja um modo de se consolarem a si mesmos. Um, inventa
o individualismo, porque não suporta os seus contemporâneos, e o outro, o
socialismo, porque não aguenta sentir-se sozinho. É possível que o nosso
sentimento de solidão seja uma doença. O que, porém, não muda nada.”
Hermann Hesse, in Gertrud
03/10/2012
Manifesto Bazofiano
Atentos aos maneirismos
e rococós da literatura oficial, ao parasitismo de institutos e academias,
dizemos BASTA. À ostentação falha. À rabugice tétrica e petrificada. Ao desuso.
Queremos o mundano, mas oxigenado. Títulos, só ostentações, chega! Sérgio
Sampaio - cada lugar na sua coisa: um livro de poesia na gaveta não adianta
nada/lugar de poesia é na calçada/lugar de quadro é na exposição/lugar de
música é no rádio. Produzir, enfim. Mostrar, afinal. E dizemos NÃO: aos estatutos
que curralizam; às normas que engessam; aos regimentos estanques; às ordenações
doutrinárias. A Arte pode ser santa, mas não é Santo Ofício. Gerir a arte...
antes, Gerar! Um fardo, os Fardões. Medalhões. A postos, pois os postos de
comandos estão cheios de tentações. Que o fazer artístico seja quotidiano como
o pão nosso de cada dia. O sol, lá fora. A vida afora. Fora! À Liberdade! A
liberArte é a própria face da vida. Comida e Arte. Ser: eis a questão. Ser tão
amplo, sertão encantado. Acompanhar Drummond a ser gauche na vida. Tempo. Ócio
criador. Bandeira: Não quero saber do lirismo que não é libertação. As cercas.
As cercanias de um novo fazer. A Arte em toda parte. Libertas quae sera tamen. Reviver Quintana com seu Poeminho do
contra: Todos estes que aí estão/atravancando o meu caminho,/eles
passarão.../eu passarinho! Por isso, proclamamos que:
1º. Está fundada
a Confraria Bazofiana de Leros e Malassombros.
2º. Só serão
aceitos membros que demonstrarem notória sapiência em bazófias e leros, com proficiência
em malassombrismo.
3º. Os
confrareiros estão isentos de mensalidades, taxas e emolumentos, salvo se
graciosos, para a mantença do FMI (Fundo Mútuo e Indenizatório).
4º. Os encontros
serão a paisano.
5º. Os títulos,
comendas, honrarias, condecorações etc, serão depositados em uma cumbuca. Quem
quiser recuperá-los, que meta a mão na cumbuca.
6º. Os Iniciados
manterão com zelo e cuidados os kits de Primeiros Socorros - e seus correlatos
-, quer individual ou coletivo.
7º. A religião,
a política, o futebol, a filosofia, o judiciário, a mulher terão a mesma
primazia com que se tratará o triângulo das Bermudas ou a existência de
Pasárgada.
8º. Pede-se o
não uso de expressões como “Eu vi primeiro”; “Dê cá o meu”; e “Mamãe passou
açúcar em mim”.
9º. Todos serão
iguais perante a LAI (Lei Alguma, Inclusive).
10º. Os
Bazofianos não querem mudar as instituições, os poderes, visto que esses já são
naturalmente malassombrados.
11º. Seguindo
uma nova visão acadêmica, a Confraria terá como lema: “Estrambótico, ainda que
tardio”.
12º. Contrariando
os cânones acadêmicos, os bazofianos serão considerados mortais, até prova em
contrário.
Mossoró, 03 de outubro de 2012.
Elilson José Batista
Vamos evitar o estresse!
Minha mangueira
Foi
um caos generalizado no abastecimento d’água em Mossoró na última quinzena do
mês de setembro.
Nesse
período, o meu sogro, Ismar Marinho, veio de Pau dos Ferros nos visitar. Quando
chegou, foi logo ao quintal rever o pé de mangueira. Retornou à sala e,
doutoral, recomendou:
-
Elilson, a mangueira está florando e você precisa dar um estresse nela.
Sem
conhecer essa nova técnica agronômica, perguntei:
-
Estresse, que estresse é esse, Ismar?
Com
tom professoral, respondeu:
-
É você deixar de aguar a mangueira por uns dias para ela frutificar melhor.
Ah,
ele não estava sabendo da falta d’água em Mossoró. E retruquei:
- Homem, ela já está estressada por conta da CAERN. Faz mais de uma semana que não boto um copo d’água nas plantas. E eu
mais estressado ainda, pois tenho que comprar uma pipa d’água por setenta
reais, pois a caixa e a cisterna já estão vazias!
Elilson
José Batista, in Inédito & Afins
Sinais, com Zé Ramalho
Sinais de que os tempos passaram
Passaram e mudaram demais
Sinais de que tudo mudaram
Viraram para frente e pra trás
Sinais de que não temos culpa
De ficarmos assim
Como simples mortais
Sinais de que não conhecemos
O valor dessa vida voraz
Sinais no teu rosto cansado
Calado, mesmo quando falais
Sinais de que vamos agora
Na hora desse sonho audaz
Sinais de que ainda dá tempo
De chamar tua irmã
Que perdeu-se no tempo
De falar com a outra
Com teu homem querido
Teu ator preferido
Quem mais?
Sinais de algum alienígena
Que faz sobre os campos, sinais
Sinais que parimos um clone
Capaz de sermos imortais
Sinais que marcaram teu corpo
Que tiraram as mãos
Do destino que vais
Sinais de que ainda nascemos
E não temos ao menos
A paz!
Oh, oh, oh sinais!
Passaram e mudaram demais
Sinais de que tudo mudaram
Viraram para frente e pra trás
Sinais de que não temos culpa
De ficarmos assim
Como simples mortais
Sinais de que não conhecemos
O valor dessa vida voraz
Sinais no teu rosto cansado
Calado, mesmo quando falais
Sinais de que vamos agora
Na hora desse sonho audaz
Sinais de que ainda dá tempo
De chamar tua irmã
Que perdeu-se no tempo
De falar com a outra
Com teu homem querido
Teu ator preferido
Quem mais?
Sinais de algum alienígena
Que faz sobre os campos, sinais
Sinais que parimos um clone
Capaz de sermos imortais
Sinais que marcaram teu corpo
Que tiraram as mãos
Do destino que vais
Sinais de que ainda nascemos
E não temos ao menos
A paz!
Oh, oh, oh sinais!
Eh,
oh, oh.
Composição: Zé Ramalho
Atentem
para o arranjo e a guitarra de Robertinho
de RecifeO senhor
Carta
a uma jovem que, estando em uma roda em que dava aos presentes o tratamento de
“você”, se dirigiu ao autor chamando-o de “o senhor”:
Senhora
–
Aquele
a quem chamastes senhor aqui está, de peito magoado e cara triste, para vos
dizer que senhor ele não é, de nada nem ninguém. Bem o sabeis, por certo, que a única nobreza do plebeu está em não querer
esconder sua condição e esta nobreza tenho eu. Assim, se entre tantos senhores
ricos e nobres a quem chamáveis “você” escolhestes a mim para tratar de
“senhor”, é bem de ver que só poderíeis ter encontrado essa senhoria nas rugas
de minha testa e na prata de meus cabelos. Senhor de muitos anos, eis aí, o território
onde eu mando é no país do tempo que foi. Essa palavra “senhor”, no meio de uma
frase, ergueu entre nós dois um muro frio e triste.
Vi
o muro e calei. Não é de muito, eu juro, que me acontece essa tristeza; mas
também não era a vez primeira. De começo eram apenas os “brotos” ainda mal
núbeis que me davam senhoria; depois assim começaram a me tratar as moças de
dezoito a vinte, com essa mistura de respeito, confiança, distância e desprezo
que é o sabor dessa palavra melancólica. Sim, eu vi o muro; e, astuto ou
desanimado, calei. Mas havia na roda um rapaz de ouvido fino e coração cruel;
ele instou para que repetísseis a palavra; fingistes não entender o que ele
pedia e voltastes a dizer a frase sem usar nem “senhor”, nem “você”. Mas o
danado insistiu e denunciou o que ouvira e que, no embaraço de vossa
delicadeza, evitáveis repetir. Todos riram, inclusive nós dois. A roda era
íntima e o caso era de riso.
O
que não quer dizer que fosse alegre; é das tristezas que rimos de coração mais
leve. Vim para casa e como sou um homem forte, olhei-me ao espelho; e como
tenho minhas fraquezas, fiz um soneto. Para vos dar o tom, direi que no fim do
segundo quarteto eu confesso que às vezes já me falece valor “para enfrentar o
tédio dos espelhos”; e no último terceto digo a mim mesmo: “Volta, portanto, a
cara e vê de perto – a cara, a tua cara verdadeira – ó Braga envelhecido,
envelhecido.”
Sim,
a velhice é coisa vil; Bilac o disse em prosa, numa crônica, ainda que nos
sonetos ele almejasse envelhecer sorrindo. Não sou Bilac; e nem me dá consolo,
mas, tristeza pensar que as musas desse poeta andam por aí encanecidas e
murchas, se é que ainda andam e já não desceram todas à escuridão do túmulo.
Vivem apenas, eternamente moças e lindas, na música de seus versos, cheios de
sol e outras estrelas. Mas a verdade (ouvi, senhora, esta confissão de um
senhor ido e vivido, ainda que mal e tristemente), a verdade não é o tempo que
passa, a verdade é o instante. E vosso instante é desgraça, juventude e
extraordinária beleza. Tendes todos os direitos; sois um belo momento da
aventura do gênero humano sobre a terra. Detrás do meu muro frio eu vos saúdo e
canto. Mas ser senhor é triste; eu sou, senhora, e humildemente, o vosso servo
– RB.
Rubem
Braga, in 200 crônicas escolhidas
Que país é esse?
“Três entre
quatro políticos sabem que país é este. O quarto acha que é a suíça.”
Ivan
Lessa
-Me
Gargal(h)o de
mim
Lúcido-me tolo.
Olhos de
análise, tudo sei
Menos o mim
Desminto-me.
Me mito ou me mato
Em suor e de
lírio
Não sei se sei,
se sou ou suo.
Cego, só ego sou
Cogito ergo sum.
In ciente de mim
Não posso verme.
Imparcial,
petulante,
Soslaio-me,
infrutífero
E fero, voraz,
implacável,
Tombo,
incapaz-me
Delirante
luz.
Artur da Távola, in Calentura
02/10/2012
Impaciência
“Talvez haja apenas um pecado capital: a
impaciência. Devido à impaciência, fomos expulsos do Paraíso; devido à
impaciência, não podemos voltar.”
Franz
Kafka
Desertão, saartão, sertão…
Imagem: Wikipédia
Andando esses dias, Senhor Redator, pelo
sertão mundo afora, levando na bruaca enfeitada com arte de pregaria a fortuna
das palavras de gente importante como Felipe Guerra, Eloy de Souza, Câmara
Cascudo, Juvenal e Oswaldo Lamartine – fachos luminosos do sertão à luz das
lamparinas feito – olhei o mato esturricado, e pensei cá comigo: a estética da
civilização sertaneja é a caatinga seca. No inverno, os verdes se parecem. Na
fartura, a paisagem épica cede lugar ao dionisíaco. Tudo é festa para os olhos.
Foi
ali, na secura daquele mundo sem brandura e sem amavio que floresceu a
sociedade rude dos vaqueiros, no dizer bonito de Euclydes da Cunha. Longe da
civilização do açúcar, de senhores de engenho aristocráticos, ricos de escravos
pobres de tudo. O compadrio não nasce entre dominadores e dominados. Ao
contrário do sertão, onde o senhor de terras e de gados divide a cria dos
bezerros com os seus vaqueiros, é padrinho dos seus filhos e, juntos, seja na
seca ou no inverno, dividem a vida e a lida.
Nem
citei nas minhas conversas com os alunos do Sesc, sempre tão atenciosos e que
encontrei naqueles vastos auditórios, a Conferência de Lajes que Eloy de Souza
fez para tão poucos ouvidos e passou anos perdida. Foi Vingt-Un Rosado que um
dia encontrou nos guardados de um sertanejo velho e zeloso do que ouvira no
tempo de moço. Não falei do alvoroço do seu coração, mas contei lembranças
antigas de Juvenal Lamartine puxando o fio da memória dos velhos costumes do
seu grande sertão.
Como
foi bom repetir a belíssima e lúdica descrição de Câmara Cascudo a projetar no
plano infantil os traços e costumes da tradição na vida real. A imaginação
recriando no quintal da infância o sertão do menino: dos bois de osso, dos
açudes feitos com cacos de louça, da água escorrendo nas valas abertas a unha.
Um sertão em miniatura, mas, na repetição mágica de cada gesto, o concerto
maquinal de um mundo real, embora vivido num sopro de vida que reinventa,
alegoricamente, o tempo morto.
Olhando
aquela gente ouvindo cada palavra num silêncio monástico fiquei convencido da
velha certeza que tantas vezes aprendi com Oswaldo Lamartine: há qualquer coisa
de bíblico no sertão. Na pastoral dos seus lajedos. Na solidão das suas pedras.
Na tristeza dos bichos no cantochão do aboio a apascentar os rebanhos. Um rio
cheio é um deslumbramento, avisa Câmara Cascudo. E o açude, no sono das suas
águas mansas quando acorda no quebrar da barra para repetir, a cada dia, o
milagre da criação.
Seja como for, é um mundo inteiro que
vive ali encantado naqueles mundos de lonjura e solidão, feitos de abandono,
mas espiados por olhos que ninguém vê. Mundo que nasce e morre a cada inverno e
a cada seca. Morre até que as primeiras chuvas acordem no seu chão velho a
babugem que dormia e que volta para reinaugurar nos homens e nos bichos a
alegria da vida. Sertão vazio, perdido entre caminhos sem ninguém, e que um dia
se levanta depois do sono das horas sem vida. Desertão, saartão, sertão…
Vicente
Serejo, in O Jornal de
Hoje, 28/08/2012
01/10/2012
Rural Willys verde e branca
Imagem: Google
Quanta saudade cabe numa Rural Willys
verde e branca, marcha Royal, com dois espelhinhos acima
dos paralamas dianteiros? Nela aprendi a dirigir pelas ruas de uma Fortaleza
num tempo em que se ouvia Beatles e as ruas, estreitas como ainda hoje são,
pareciam largas e comportavam os carros que existiam sem precisar pisar no
freio a cada 5 metros. Quando a lua engolia a sombra do que restava do dia
chegava a hora do aprendizado. À tardinha era mais tranquilo, sem calor. Ainda
assim, após a aula, as mãos estavam úmidas e as costas molhadas, sensações que
até hoje não sei explicar. Mas assim foi. Hoje eu vi uma Rural Willis, verde,
com muito boa aparência e igualzinha a do meu Pai. Faltavam, apenas, os
espelhinhos sobre os paralamas. Se lá estivessem eu iria tentar ver refletidas
as marcas de um tempo em que ouvir Beatles pelas ruas estreitas de Fortaleza no
comando de uma Rural Willis verde e branca, marcha Royal, bastava pra fazer um
ainda menino tão feliz.
Xico
Bizerra, in
www.bestafubana.com.br
Sonhos
"O que mais nos incomoda é ver
nossos sonhos frustrados. Mas permanecer no desânimo não ajuda em nada para a
concretização desses sonhos. Se ficarmos assim, nem vamos em busca dos nossos
sonhos, nem recuperamos o bom humor! Este estado de confusão propício ao
crescimento da ira, é muito perigoso. Temos de nos esforçar e não permitir que
a nossa serenidade seja perturbada."
Dalai
Lama
Amor e Arte
"Não, positivamente não há nada
neste mundo ‘worth to live for’ senão um cantinho
de fogão doméstico, muito Amor junto dele, e muita Arte em torno, para tornar a
vida interessante, poética e distinta. Possa Deus, na sua infinita bondade,
permitir que seja esse o nosso Destino. Arte e Amor - com A grande! Eles
merecem-no; são as duas expressões supremas da vida, completam-se um pelo
outro, e fora deles tudo é nada!"
Eça
de Queiroz
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