08/04/2011

A Máquina de Escrever (Frejat/Goffi/Ghiaron)

Mãe, se eu morrer 
De um repentino mal 
Vende meus bens 
À bem dos meus credores 
A fantasia de festivas cores que usei 
No derradeiro carnaval.
 
Vende esse rádio 
Que ganhei de prêmio 
Por um concurso 
Num jornal do povo 
E aquele terno novo 
Ou quase novo 
Com poucas manchas 
De café boêmio.
 
Vende também meus óculos antigos 
Que me davam ares inocentes 
Não precisarei de suas lentes 
Pra enxergar os corações amigos.
 
Sem ruído é mais provável 
Que eu alcance o céu 
Vou penetrar e então provar seu mel 
No paraíso só preciso de um olhar 
Sem teu sorriso, outro sorriso pra me enganar.
 
Mas poupa minha amiga de horas mortas 
Com teclas bambas, minha máquina de peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas 
Que eram o meu íntimo tesouro 
Mas não! ainda que ofereçam ouro 
Mas não! ainda que ofereçam ouro 
Não vendas o meu filtro de tristezas.

07/04/2011


"No início o mal é fácil de curar e difícil de diagnosticar. Mas, com o passar do tempo, não tendo sido nem reconhecido nem medicado, toma-se fácil de diagnosticar e difícil de curar".
               Maquiavel, in "O Príncipe" ­

“De fato, nós somos tais que nenhuma coisa desperta nossa admiração tanto quanto um homem forte na desventura. Quando, em Atenas, Aristides estava sendo levado ao suplício, quem quer que o encontrasse abaixava os olhos e gemia, como se tivesse sido condenado não um homem justo, mas a própria justiça; assim mesmo, houve quem lhe cuspisse no rosto. Teria podido sentir indignação, sabendo que ninguém que tivesse a boca pura teria ousado uma tal coisa: ele, ao contrário, limpou o rosto, e sorrindo disse ao magistrado, que o acompanhava: ‘Avise esse tal que de agora em diante não boceje mais tão indecentemente’. E foi esse o melhor modo de se fazer vilania à vilania”.

Sêneca, In Consolação a minha mãe Hélvia

Realengo, Rio: Armas para quê?!




Academia Mossoroense de Letras terá noite de posse e de autógrafos

Mário Gerson tomará posse como novo membro da entidade e lançará o livro A Noite de Luvas Brancas (poemas) pela Editora Queima-Bucha

No próximo dia 14 de abril, às 19h30, na Biblioteca Ney Pontes Duarte, o escritor e jornalista Mário Gerson tomará posse na Academia Mossoroense de Letras (AMOL), na cadeira 26, que tem como patrono Inácio Meira Pires, ocupada, anteriormente, pelo ator Lauro Monte Filho.

Além da posse, haverá o lançamento do livro: A Noite de Luvas Brancas (Poemas). A saudação de recepção, em nome da AMOL, será feita pelo acadêmico Filemon Rodrigues Pimenta.

De acordo com Elder Heronildes da Silva, na ocasião será anunciada como oficialmente vaga a cadeira 32, que tem como patrono Mário Negócio de Almeida e Silva e era ocupada pelo escritor João Batista Cascudo Rodrigues. Também será lançado o Concurso João Batista Cascudo Rodrigues (conto e poesia), da Amol em parceria com a Fundação Vingt-un Rosado.

O AUTOR - Mário Gerson Fernandes de Oliveira nasceu em Mossoró-RN, aos 16 de dezembro de 1981. É filho de Maria do Carmo Fernandes Oliveira e de Josias Faustino de Oliveira. Começou a produzir seus primeiros escritos aos quatorze anos de idade. Desde muito jovem teve contato com a literatura, as artes plásticas e, em especial, com a poesia. Juntamente com a Fundação Vingt-un Rosado, Coleção Mossoroense, em 1999 lançou o seu primeiro trabalho - um folheto intitulado: Traços Poéticos, por um projeto denominado Poema na Escola.

Juntamente com as poetisas Kalliane Sibelli, Graciele de Lima e o Grupo Apogeu, e logo a seguir com o projeto Pedagogia da Gestão, editou o jornal cultural mensal e literário Clandestino, jornal esse que contou com dezessete edições.

Mário Gerson, em 2002, lançou o seu primeiro livro, O Catador de Espumas. E, em 2001, foi terceiro lugar no Concurso Vingt-un Rosado de Poesia, promovido pela Prefeitura Municipal de Mossoró. Em 2006 foi o ganhador da primeira edição do Prêmio Dorian Jorge Freire de Jornalismo, organizado pela Prefeitura Municipal de Mossoró, tendo como jurados os jornalistas Adísia Sá, Woden Madruga, Osair Vasconcelos e o escritor Pablo Capistrano. O trabalho vencedor no prêmio de jornalismo foi publicado em livro pela Prefeitura Municipal de Mossoró e distribuído em escolas, bibliotecas e faculdades de jornalismo do Estado e do Nordeste. No ano seguinte foi ganhador do Prêmio de Poesia Maria Sylvia de Vasconcelos Câmara, também da PMM, com o poema "Mais que um Nome..."

Em 2008, Mário Gerson foi o vencedor da categoria Contos, do Prêmio Literário Rota Batida, um convênio entre a Coleção Mossoroense e a Petrobras, com o livro O Suspiro do Inimigo.

Em 2007, lançou o livro GAZETA DO OESTE, 30 anos, em que revela a história do maior jornal do interior do Estado e do Oeste potiguar. Já em 2008 publicou outra obra, A Morte do Pescador, uma novela, com prefácio do escritor e crítico literário Manoel Onofre Júnior.

Mário Gerson teve vários de seus poemas editados em jornais literários, como o extinto O Galo (da Fundação José Augusto), e colaborou com a revista Preá, no quadro "Escritura Potiguar", de Natal, e o Diário do Nordeste, na página de cultura, entre outros. A revista CULT, edição de fevereiro de 2004, destacou em seu quadro RADAR CULT alguns poemas do autor.

Foi editor e fundador dos jornais JJ do DR e Voz Noturna, ambos na Escola Estadual Governador Dix-sept Rosado, onde estudou.

Atualmente é editor do caderno Expressão, jornal GAZETA DO OESTE e Universitário do Curso de Comunicação Social - JORNALISMO - da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.

É conselheiro editorial da Editora Queima-Bucha, de propriedade do poeta Gustavo Luz, membro do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP), desde junho de 2005, sócio-correspondente da Academia Apodiense de Letras (AAPOL) e membro do Conselho Editorial do Jornal Plural do Conselho Municipal de Cultura.

Inéditos, no Rapadura Cult*

POEMAS PARA TONY SILVA

Suor

No suor
Do teu corpo
Me refaço,
               E em pedaços,
No teu
Dorso,
Me revolvo
Sobre a epiderme
               Manchada
               De saudade.

 

 

Decepção


Nunca saberei destroçar
Os homens que me acenam
Em plena rua...
Nunca saberei se por detrás
Daquele rosto morará meu outro rosto.
Também não saberei para que cometa
Arrastaram-me os sentidos...
As discussões,
Os dilúvios de amor,
As fortalezas sozinhas.

Da luz, apenas guardarei
A lembrança de sua claridade.
Do homem que me acenou –
O braço levantado ante o mundo –
E da vida, que se vai aos poucos,
E que é já gasta,
Levarei a lembrança
Daquele dia sem luz.

*Poemas gentilmente cedidos ao blog pelo poeta Mário Gerson, antes do lançamento do livro A Noite de Luvas Brancas, dia 14 de abril, às 19h30, na Biblioteca Ney Pontes Duarte.
              “Não se pode captar Deus a não ser pessoalmente. Cada homem tem sua vida e seu Deus. Seu advogado e seu juiz. Sacerdotes e ritos não passam de muletas paliativas de paralisia de uma alma cada vez mais incapaz de viver e experimentar”.

                                                 Franz Kafka

Declaração à Amada

Vaza-me os olhos e ainda poderei ver-te,
Obstrui-me o tímpano e poderei ouvir-te ainda...
Sem pés, posso ir ao teu encontro.
Sem língua, posso evocar-te sempre.
Corta-me os braços, poderei abraçar-te
E envolver-te com meu coração como se fosse uma  mão.
Detém meu coração e meu cérebro palpitará, 
do mesmo modo, fielmente,
E se incendeias meu cérebro
Então te conduzirei ao meu sangue.
Rilke a Lou-Andreas Salomé
“Uma vida feliz é impossível: o máximo que o homem pode atingir é um curso de vida heróico. Este o possui aquele que luta por um bem destinado a todos contra dificuldades gigantescas, vencendo por fim, mas recebendo pouca ou nenhuma recompensa por seu esforço”.
                                Schopenhauer  

06/04/2011

Epigrama

Que o salário
seja medido
pelo sal
do nosso esforço.

Elilson José Batista, do livro Miscelânea Poética.
“As palavras verdadeiras não são agradáveis e as agradáveis não são verdadeiras”.
                                    Lao-Tsé
“O cristão vive jurando que nunca fará aquilo de novo. O homem civilizado apenas resolve que será mais cuidadoso da próxima vez”.
  H. L. Mencken  

O Poeta tem Razão

Quem já passou no sertão
E viu o solo rachado,
A caatinga cor de cinza,
Duvido não ter parado
Pra ficar olhando o verde
Do juazeiro copado.


E sair dali pensando:
Como pode a natureza
Num clima tão quente e seco,
Numa terra indefesa
Com tanta adversidade
Criar tamanha beleza.


O juazeiro, seu moço,
É pra nós a resistência,
A força, a garra e a saga,
O grito da independência
Do sertanejo que luta
Na frente da Emergência.


Nos seus galhos se agasalham
Do periquito ao cancão. 
É hotel de retirante
Que anda de pé no chão,
O general da caatinga
E o vigia do sertão.


Vinha eu de Canindé
Com sono e muito cansado
Quando vi...


             Para saber o que o Poeta Antônio Francisco viu, leiam a continuidade dessa grande Saga no livro Os Animais Têm Razão (transcrição autorizada pelo autor)


    

José Paulo Paes: o Poeta da Brevidade

Dono de um refinado humor, o poeta, humilde, se considerava um poeta distrital... o mais importante de seu quarteirão. Foi um poeta do seu tempo e um observador irônico das contradições do vasto mundo. O resultado será uma poesia do dia-a-dia, crítica social e política do homem moderno, sempre com uma linguagem dentro da brevidade, a linguagem do chiste e do epigrama.

A ironia, aprendeu com Drummond, depois com Oswald de Andrade. Será uma das principais características recorrentes em sua obra: a crítica inteligente, sem preconceitos e graciosamente contundente.
O epigrama, segundo Davi Arrigucci Jr., José Paulo Paes retomou uma fórmula tradicional, tão velha como a nossa cultura. O epigrama é um poema breve, que muda de tom; pode marcar o lugar de um acontecimento, ser épico, lírico ou dramático. O poeta reutiliza essa antiga fórmula, já usada pelos romanos, para comentar ironicamente o mundo em que vive e revelar a sua intimidade que interferisse nesse mundo.
O chiste é uma forma de graça aguda, de talhe seco e exato. O poema-piada de influência oswaldiana.
Eis um poema seu que resume todas essas características:

Epitáfio para um banqueiro

Negócio
   ego
        ócio
           cio
               o

05/04/2011

Expressão de Fé

 Fitas do Senhor do Bonfim em meu Violão
Fitas do Senhor do Bonfim em meu Violão

Aquela Casa Simples

Am                  Am/C 
Naquela casa simples
 
                  Dm/F  Dm 
Você falou pra mim 

                   G7 
Que eu tivesse cuidado
 
                  G/B                C7M 
E não sofresse com as coisas desse mundo 

                       Bm7(b5)    E7 
Que eu fosse um bom menino
 
                     Am    Am/C 
Que eu trabalhasse muito
 
                    Dm      
Que o nome do meu pai soubesse honrar
 
    Dm/F               E7 
E nunca fosse um vagabundo 

               Am                Dm  Dm/C 
Ainda não era dia e você me dizia: 

                      G/B 
Deus te abençoe, te guarde,
 
              G7                 C7M 
Se mantenha sempre em sua companhia.
 
                   Bm7(b5) E7                 Am  Am/C                 
E eu te olhei nos olhos,      eu te beijei a mão 
         
Eu disse amém 

     Dm              E7                Am 
E o meu abraço fez você ouvir meu coração
 
    Dm  G7         C7M  F7M  Bm7(b5)  E7  Am 
Vida minha, vida minha 


Am                Am/C 
E andando pela rua
 
                     Dm  Dm/C 
Meu pai bem junto a mim 

               G/B 
Olhava com ternura
 
             G7                  C7M 
A lágrima molhar meu paletó de brim
 
                Bm7(b5)  E7 
Toda a minha bagagem
 
                  Am  Am/C 
Num banco da estação
 
               Dm 
Era de amor, coragem
 
                  Dm/F               E7 
As bênçãos do meu pai, a fé e um violão 


              Am   Am/C 
E na cidade grande
 
                Dm  Dm/C 
Tristeza e alegria
 
               G/B 
Uma saudade imensa
 
                G7                C7M 
E a solidão que eu ainda não conhecia
 
                   Bm7(b5)  E7 
E o tempo foi passando
 
                   Am  Am/C 
E então eu compreendi
 
              Dm 
Cada palavra sua
 
        E7                        Am 
Naquela manhã do dia em que eu parti 


    Dm  G7     C7M  F7M  Bm7(b5)  E7  Am  Bbm  
Vida minha, vida minha
 
    Ebm  Ab7    Db7M  Gb7M  Cm7(b5)  Bbm  
Vida minha,   vida minha 


                Bbm  Bbm/Db 
E veio a primavera
 
                  Ebm  Ebm/Db 
E as flores do jardim 

               Ab7 
Enchiam de perfume
 
                                    Db7M 
As cartas que chegavam de você pra mim
 
                  Cm7(b5)  F7 
Mas hoje com sorrisos
 
              Bbm  Bbm/Db 
Podemos recordar
 
                     Ebm 
Mas sempre que me lembro
 
            F7               Bbm 
A emoção e dá vontade de chorar 


    Ebm  Ab7    Db7M Eb7M  Cm7(b5)  F7  Bbm 
Vida minha, vida minha
 
    Ebm  Ab7    Db7M Eb7M  Cm7(b5)  F7 
Vida minha, vida minha
 
        Bbm 
Recordações.
Roberto Carlos 
 “Fizeram bem os Deuses em determinar que o pobre também soubesse dar grandes risadas. Nas cabanas não se ouve apenas lamento e choro, mas também muita gargalhada, vinda do coração. Até os pobres, cumpre confessá-lo, até os pobres riem muitas vezes, quando teriam antes motivo para chorar”.
Móricz Zsimond, escritor húngaro

Trecho de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, em que o autor disserta sobre o valor da mentira nas relações sociais

       "[...] Digo apenas que o homem mais probo que conheci em minha vida foi um certo Jacó Medeiros ou Jacó Valadares, não me recorda bem o nome. Talvez fosse Jacó Rodrigues ; em suma, Jacó. Era a probidade em pessoa; podia ser rico, violentando um pequenino escrúpulo, e não quis; deixou ir pelas mãos fora nada menos de uns quatrocentos contos; tinha a probidade tão exemplar, que chegava a ser miúda e cansativa. Um dia, como nos achássemos a sós, em casa dele, em boa palestra, vieram dizer que o procurava o Doutor B., um sujeito enfadonho. Jacó mandou dizer que não estava em casa.
       - Não pega, bradou uma voz do corredor; cá estou de dentro.
      E, com efeito, era o Doutor B., que apareceu logo à porta da sala. Jacó foi recebê-lo, afirmando que cuidava ser outra pessoa, e não ele, e acrescentando que tinha muito prazer com a visita, o que nos rendeu hora e meia de enfado mortal, e isto mesmo, porque Jacó tirou o relógio; o Doputor B. perguntou-lhe então se ia sair.
        - Com minha mulher, disse Jacó.
      Retirou-se o Doutor B. e respiramos. Uma vez respirados, disse eu ao Jacó que ele acabava de mentir quatro vezes, em menos de duas horas: a primeira, negando-se; a segunda, alegrando-se com a presença do importuno; a terceira, dizendo que ia sair; a quarta, acrescentando que com a mulher. Jacó refletiu um instante, depois confessou a justeza da minha observação, mas desculpou-se dizendo que a veracidade absoluta era incompatível com um estado social adiantado e que a paz das cidades só se podia obter à custa de embaçadelas recíprocas... Ah! lembra-me agora; chamava-se Jacó Tavares."
         

04/04/2011




          “Geralmente o indivíduo de procedência humilde, sentindo-se colocado em um plano superior, fica pretensioso, torna-se fátuo e pedante. Comigo dá-se exatamente o contrário; sempre que alguém elogia qualquer coisa que eu faço, julgo estar aquém do juízo feito a meu respeito. E daí tornar-me acanhado, tímido, medroso. Conseqüência talvez da educação, defeito orgânico talvez”.

  Graciliano Ramos  

Tão Antigo, Tão Atual*

“Desde os meus 20 anos me assaltou o pessimismo incurável com que vou atravessando esta existência no pior dos piores países possíveis e imagináveis... A atmosfera moral é magnífica para os batráquios... e é nefasta a política que nos desgoverna”.
*Trecho da carta de Euclides da Cunha a Petbion de Villar, de 15 de maio de 1900.