Mãe, se eu morrer De um repentino mal Vende meus bens À bem dos meus credores A fantasia de festivas cores que usei No derradeiro carnaval. Vende esse rádio Que ganhei de prêmio Por um concurso Num jornal do povo E aquele terno novo Ou quase novo Com poucas manchas De café boêmio. Vende também meus óculos antigos Que me davam ares inocentes Não precisarei de suas lentes Pra enxergar os corações amigos. Sem ruído é mais provável Que eu alcance o céu Vou penetrar e então provar seu mel No paraíso só preciso de um olhar Sem teu sorriso, outro sorriso pra me enganar. Mas poupa minha amiga de horas mortas Com teclas bambas, minha máquina de peças tortas.
Vende todas as grandes pequenezas Que eram o meu íntimo tesouro Mas não! ainda que ofereçam ouro Mas não! ainda que ofereçam ouro Não vendas o meu filtro de tristezas.
08/04/2011
A Máquina de Escrever (Frejat/Goffi/Ghiaron)
07/04/2011
“De fato, nós somos tais que nenhuma coisa desperta nossa admiração tanto quanto um homem forte na desventura. Quando, em Atenas, Aristides estava sendo levado ao suplício, quem quer que o encontrasse abaixava os olhos e gemia, como se tivesse sido condenado não um homem justo, mas a própria justiça; assim mesmo, houve quem lhe cuspisse no rosto. Teria podido sentir indignação, sabendo que ninguém que tivesse a boca pura teria ousado uma tal coisa: ele, ao contrário, limpou o rosto, e sorrindo disse ao magistrado, que o acompanhava: ‘Avise esse tal que de agora em diante não boceje mais tão indecentemente’. E foi esse o melhor modo de se fazer vilania à vilania”.
Sêneca, In Consolação a minha mãe Hélvia
Academia Mossoroense de Letras terá noite de posse e de autógrafos
Mário Gerson tomará posse como novo membro da entidade e lançará o livro A Noite de Luvas Brancas (poemas) pela Editora Queima-Bucha
No próximo dia 14 de abril, às 19h30, na Biblioteca Ney Pontes Duarte, o escritor e jornalista Mário Gerson tomará posse na Academia Mossoroense de Letras (AMOL), na cadeira 26, que tem como patrono Inácio Meira Pires, ocupada, anteriormente, pelo ator Lauro Monte Filho.
Além da posse, haverá o lançamento do livro: A Noite de Luvas Brancas (Poemas). A saudação de recepção, em nome da AMOL, será feita pelo acadêmico Filemon Rodrigues Pimenta.
De acordo com Elder Heronildes da Silva, na ocasião será anunciada como oficialmente vaga a cadeira 32, que tem como patrono Mário Negócio de Almeida e Silva e era ocupada pelo escritor João Batista Cascudo Rodrigues. Também será lançado o Concurso João Batista Cascudo Rodrigues (conto e poesia), da Amol em parceria com a Fundação Vingt-un Rosado.
O AUTOR - Mário Gerson Fernandes de Oliveira nasceu em Mossoró-RN, aos 16 de dezembro de 1981. É filho de Maria do Carmo Fernandes Oliveira e de Josias Faustino de Oliveira. Começou a produzir seus primeiros escritos aos quatorze anos de idade. Desde muito jovem teve contato com a literatura, as artes plásticas e, em especial, com a poesia. Juntamente com a Fundação Vingt-un Rosado, Coleção Mossoroense, em 1999 lançou o seu primeiro trabalho - um folheto intitulado: Traços Poéticos, por um projeto denominado Poema na Escola.
Juntamente com as poetisas Kalliane Sibelli, Graciele de Lima e o Grupo Apogeu, e logo a seguir com o projeto Pedagogia da Gestão, editou o jornal cultural mensal e literário Clandestino, jornal esse que contou com dezessete edições.
Mário Gerson, em 2002, lançou o seu primeiro livro, O Catador de Espumas. E, em 2001, foi terceiro lugar no Concurso Vingt-un Rosado de Poesia, promovido pela Prefeitura Municipal de Mossoró. Em 2006 foi o ganhador da primeira edição do Prêmio Dorian Jorge Freire de Jornalismo, organizado pela Prefeitura Municipal de Mossoró, tendo como jurados os jornalistas Adísia Sá, Woden Madruga, Osair Vasconcelos e o escritor Pablo Capistrano. O trabalho vencedor no prêmio de jornalismo foi publicado em livro pela Prefeitura Municipal de Mossoró e distribuído em escolas, bibliotecas e faculdades de jornalismo do Estado e do Nordeste. No ano seguinte foi ganhador do Prêmio de Poesia Maria Sylvia de Vasconcelos Câmara, também da PMM, com o poema "Mais que um Nome..."
Em 2008, Mário Gerson foi o vencedor da categoria Contos, do Prêmio Literário Rota Batida, um convênio entre a Coleção Mossoroense e a Petrobras, com o livro O Suspiro do Inimigo.
Em 2007, lançou o livro GAZETA DO OESTE, 30 anos, em que revela a história do maior jornal do interior do Estado e do Oeste potiguar. Já em 2008 publicou outra obra, A Morte do Pescador, uma novela, com prefácio do escritor e crítico literário Manoel Onofre Júnior.
Mário Gerson teve vários de seus poemas editados em jornais literários, como o extinto O Galo (da Fundação José Augusto), e colaborou com a revista Preá, no quadro "Escritura Potiguar", de Natal, e o Diário do Nordeste, na página de cultura, entre outros. A revista CULT, edição de fevereiro de 2004, destacou em seu quadro RADAR CULT alguns poemas do autor.
Foi editor e fundador dos jornais JJ do DR e Voz Noturna, ambos na Escola Estadual Governador Dix-sept Rosado, onde estudou.
Atualmente é editor do caderno Expressão, jornal GAZETA DO OESTE e Universitário do Curso de Comunicação Social - JORNALISMO - da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.
É conselheiro editorial da Editora Queima-Bucha, de propriedade do poeta Gustavo Luz, membro do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP), desde junho de 2005, sócio-correspondente da Academia Apodiense de Letras (AAPOL) e membro do Conselho Editorial do Jornal Plural do Conselho Municipal de Cultura.
Inéditos, no Rapadura Cult*
POEMAS PARA TONY SILVA
Suor
No suor
Do teu corpo
Me refaço,
E em pedaços,
No teu
Dorso,
Me revolvo
Sobre a epiderme
Manchada
De saudade.
Decepção
Nunca saberei destroçar
Os homens que me acenam
Em plena rua...
Nunca saberei se por detrás
Daquele rosto morará meu outro rosto.
Também não saberei para que cometa
Arrastaram-me os sentidos...
As discussões,
Os dilúvios de amor,
As fortalezas sozinhas.
Da luz, apenas guardarei
A lembrança de sua claridade.
Do homem que me acenou –
O braço levantado ante o mundo –
E da vida, que se vai aos poucos,
E que é já gasta,
Levarei a lembrança
Daquele dia sem luz.
*Poemas gentilmente cedidos ao blog pelo poeta Mário Gerson, antes do lançamento do livro A Noite de Luvas Brancas, dia 14 de abril, às 19h30, na Biblioteca Ney Pontes Duarte.
Declaração à Amada
Vaza-me os olhos e ainda poderei ver-te,
Obstrui-me o tímpano e poderei ouvir-te ainda...
Sem pés, posso ir ao teu encontro.
Sem língua, posso evocar-te sempre.
Corta-me os braços, poderei abraçar-te
E envolver-te com meu coração como se fosse uma mão.
Detém meu coração e meu cérebro palpitará,
do mesmo modo, fielmente,
E se incendeias meu cérebro
Então te conduzirei ao meu sangue.
Rilke a Lou-Andreas Salomé
06/04/2011
Epigrama
Que o salário
seja medido
pelo sal
do nosso esforço.
Elilson José Batista, do livro Miscelânea Poética.
O Poeta tem Razão
Quem já passou no sertão
E viu o solo rachado,
A caatinga cor de cinza,
Duvido não ter parado
Pra ficar olhando o verde
Do juazeiro copado.
E sair dali pensando:
Como pode a natureza
Num clima tão quente e seco,
Numa terra indefesa
Com tanta adversidade
Criar tamanha beleza.
O juazeiro, seu moço,
É pra nós a resistência,
A força, a garra e a saga,
O grito da independência
Do sertanejo que luta
Na frente da Emergência.
Nos seus galhos se agasalham
Do periquito ao cancão.
É hotel de retirante
Que anda de pé no chão,
O general da caatinga
E o vigia do sertão.
Vinha eu de Canindé
Com sono e muito cansado
Quando vi...
E viu o solo rachado,
A caatinga cor de cinza,
Duvido não ter parado
Pra ficar olhando o verde
Do juazeiro copado.
E sair dali pensando:
Como pode a natureza
Num clima tão quente e seco,
Numa terra indefesa
Com tanta adversidade
Criar tamanha beleza.
O juazeiro, seu moço,
É pra nós a resistência,
A força, a garra e a saga,
O grito da independência
Do sertanejo que luta
Na frente da Emergência.
Nos seus galhos se agasalham
Do periquito ao cancão.
É hotel de retirante
Que anda de pé no chão,
O general da caatinga
E o vigia do sertão.
Vinha eu de Canindé
Com sono e muito cansado
Quando vi...
Para saber o que o Poeta Antônio Francisco viu, leiam a continuidade dessa grande Saga no livro Os Animais Têm Razão (transcrição autorizada pelo autor).
José Paulo Paes: o Poeta da Brevidade
Dono de um refinado humor, o poeta, humilde, se considerava um poeta distrital... o mais importante de seu quarteirão. Foi um poeta do seu tempo e um observador irônico das contradições do vasto mundo. O resultado será uma poesia do dia-a-dia, crítica social e política do homem moderno, sempre com uma linguagem dentro da brevidade, a linguagem do chiste e do epigrama.
A ironia, aprendeu com Drummond, depois com Oswald de Andrade. Será uma das principais características recorrentes em sua obra: a crítica inteligente, sem preconceitos e graciosamente contundente.
O epigrama, segundo Davi Arrigucci Jr., José Paulo Paes retomou uma fórmula tradicional, tão velha como a nossa cultura. O epigrama é um poema breve, que muda de tom; pode marcar o lugar de um acontecimento, ser épico, lírico ou dramático. O poeta reutiliza essa antiga fórmula, já usada pelos romanos, para comentar ironicamente o mundo em que vive e revelar a sua intimidade que interferisse nesse mundo.
O chiste é uma forma de graça aguda, de talhe seco e exato. O poema-piada de influência oswaldiana.
Eis um poema seu que resume todas essas características:
Epitáfio para um banqueiro
Negócio
ego
ócio
cio
o
05/04/2011
Aquela Casa Simples
Am Am/C
Naquela casa simples
Dm/F Dm
Você falou pra mim
G7
Que eu tivesse cuidado
G/B C7M
E não sofresse com as coisas desse mundo
Bm7(b5) E7
Que eu fosse um bom menino
Am Am/C
Que eu trabalhasse muito
Dm
Que o nome do meu pai soubesse honrar
Dm/F E7
E nunca fosse um vagabundo
Am Dm Dm/C
Ainda não era dia e você me dizia:
G/B
Deus te abençoe, te guarde,
G7 C7M
Se mantenha sempre em sua companhia.
Bm7(b5) E7 Am Am/C
E eu te olhei nos olhos, eu te beijei a mão
Eu disse amém
Dm E7 Am
E o meu abraço fez você ouvir meu coração
Dm G7 C7M F7M Bm7(b5) E7 Am
Vida minha, vida minha
Am Am/C
E andando pela rua
Dm Dm/C
Meu pai bem junto a mim
G/B
Olhava com ternura
G7 C7M
A lágrima molhar meu paletó de brim
Bm7(b5) E7
Toda a minha bagagem
Am Am/C
Num banco da estação
Dm
Era de amor, coragem
Dm/F E7
As bênçãos do meu pai, a fé e um violão
Am Am/C
E na cidade grande
Dm Dm/C
Tristeza e alegria
G/B
Uma saudade imensa
G7 C7M
E a solidão que eu ainda não conhecia
Bm7(b5) E7
E o tempo foi passando
Am Am/C
E então eu compreendi
Dm
Cada palavra sua
E7 Am
Naquela manhã do dia em que eu parti
Dm G7 C7M F7M Bm7(b5) E7 Am Bbm
Vida minha, vida minha
Ebm Ab7 Db7M Gb7M Cm7(b5) Bbm
Vida minha, vida minha
Bbm Bbm/Db
E veio a primavera
Ebm Ebm/Db
E as flores do jardim
Ab7
Enchiam de perfume
Db7M
As cartas que chegavam de você pra mim
Cm7(b5) F7
Mas hoje com sorrisos
Bbm Bbm/Db
Podemos recordar
Ebm
Mas sempre que me lembro
F7 Bbm
A emoção e dá vontade de chorar
Ebm Ab7 Db7M Eb7M Cm7(b5) F7 Bbm
Vida minha, vida minha
Ebm Ab7 Db7M Eb7M Cm7(b5) F7
Vida minha, vida minha
Bbm
Recordações.
“Fizeram bem os Deuses em determinar que o pobre também soubesse dar grandes risadas. Nas cabanas não se ouve apenas lamento e choro, mas também muita gargalhada, vinda do coração. Até os pobres, cumpre confessá-lo, até os pobres riem muitas vezes, quando teriam antes motivo para chorar”.
Móricz Zsimond, escritor húngaro
Trecho de "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis, em que o autor disserta sobre o valor da mentira nas relações sociais
"[...] Digo apenas que o homem mais probo que conheci em minha vida foi um certo Jacó Medeiros ou Jacó Valadares, não me recorda bem o nome. Talvez fosse Jacó Rodrigues ; em suma, Jacó. Era a probidade em pessoa; podia ser rico, violentando um pequenino escrúpulo, e não quis; deixou ir pelas mãos fora nada menos de uns quatrocentos contos; tinha a probidade tão exemplar, que chegava a ser miúda e cansativa. Um dia, como nos achássemos a sós, em casa dele, em boa palestra, vieram dizer que o procurava o Doutor B., um sujeito enfadonho. Jacó mandou dizer que não estava em casa.
- Não pega, bradou uma voz do corredor; cá estou de dentro.
E, com efeito, era o Doutor B., que apareceu logo à porta da sala. Jacó foi recebê-lo, afirmando que cuidava ser outra pessoa, e não ele, e acrescentando que tinha muito prazer com a visita, o que nos rendeu hora e meia de enfado mortal, e isto mesmo, porque Jacó tirou o relógio; o Doputor B. perguntou-lhe então se ia sair.
- Com minha mulher, disse Jacó.
Retirou-se o Doutor B. e respiramos. Uma vez respirados, disse eu ao Jacó que ele acabava de mentir quatro vezes, em menos de duas horas: a primeira, negando-se; a segunda, alegrando-se com a presença do importuno; a terceira, dizendo que ia sair; a quarta, acrescentando que com a mulher. Jacó refletiu um instante, depois confessou a justeza da minha observação, mas desculpou-se dizendo que a veracidade absoluta era incompatível com um estado social adiantado e que a paz das cidades só se podia obter à custa de embaçadelas recíprocas... Ah! lembra-me agora; chamava-se Jacó Tavares."
04/04/2011
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“Geralmente o indivíduo de procedência humilde, sentindo-se colocado em um plano superior, fica pretensioso, torna-se fátuo e pedante. Comigo dá-se exatamente o contrário; sempre que alguém elogia qualquer coisa que eu faço, julgo estar aquém do juízo feito a meu respeito. E daí tornar-me acanhado, tímido, medroso. Conseqüência talvez da educação, defeito orgânico talvez”.
Graciliano Ramos
Tão Antigo, Tão Atual*
“Desde os meus 20 anos me assaltou o pessimismo incurável com que vou atravessando esta existência no pior dos piores países possíveis e imagináveis... A atmosfera moral é magnífica para os batráquios... e é nefasta a política que nos desgoverna”.
*Trecho da carta de Euclides da Cunha a Petbion de Villar, de 15 de maio de 1900.
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