04/04/2011

Aço e Flor

Quem nunca viu 
que a flor, a faca e a fera 
tanto fez como tanto faz, 
e a forte flor que a faca faz 
na fraca carne, 
um pouco menos, um pouco mais, 
quem nunca viu 
a ternura que vai 
no fio da lâmina samurai, 
esse, nunca vai ser capaz.


Paulo Leminsk

Pequeno Conto Roseano

Deveras


A juriti já julhou? O frofrou do susto é de perder o tiro do caçador desprecavido: a jitirana fechada, de escurecer a verdura e de se perder a vereda.
A pós.
E era pra menos? A afoiteza nos sorvos do mel e da água ardente na garganta o embebedeu.
E apois? Não arrenego o que vi. Aconteceu do jeito do acontecido. Não nego nem disnego - as acontecências foram vindo, e deu no que deu: o menos indicado, o meu pacato compadre Teotonho rasgou o cujo com a faca cega a propósito, para a empreitada, e o sujeito com a rodilha de fatos nas mãos, a se debater, mas o ror de gente nem não aí estava para a dor daquele danho, tão mequetrefe o coiso em suas desmesuradas maldades.
O outrora valentão, a choramingar, com os olhos embaçado ainda viu a Dama da Foice se aproximar e desfaleceu pela última vez, para nunca mais.


 Elilson José Batista (inédito).

03/04/2011

Dr. Hamilton Naki, O Cirurgião Clandestino

Nunca apareceu nos noticiários, mas sua história é uma das mais extraordinárias do século XX.

Hamilton Naki, Um negro sul-africano de 78 anos, morreu em maio de 2005. A notícia não apareceu nos periódicos, porém, sua história é uma das mais extraordinárias do século XX.

Naki era um grande cirugião. Foi ele quem retirou do corpo da doadora o coração que foi transplantado em Louis Washkansky em 1967 na Cidade do Cabo, na primeira operação de transplante cardíaco realizada com êxito. Era um trabalho muito delicado. O coração doado teria que ser retirado e preservado com o máximo cuidado.
Naki era o segundo homem mais importante na equipe que fez o primeiro transplante cardíaco da história. Porém, não podia aparecer porque era um negro no país do apartheid. O cirurgião chefe do grupo, o branco Christian Barnard, se transformou em uma celebridade instantânea. Porém Hamilton Naki não podia sair nas fotografias da equipe.

Quando apareceu em uma por descuido, o hospital informou que era um empregado do serviço de limpeza.

Naki usava bata e máscara, porém jamais estudou medicina ou cirurgia. Havia abandonado a escola aos 14 anos. Era jardineiro na Escola de Medicina da Cidade do Cabo. Começou limpando as jaulas, porém era curioso e aprendia depressa. Aprendeu a técnica cirúrgica, vendo os médicos brancos que praticavam transplantes em cachorros e porcos.

Se transformou em um cirurgião tão excepcional, que o Dr. Barnard o requisitou para sua equipe. Era um problema para as leis sul-africanas. Naki, negro, não podia operar pacientes ou tocar sangue de brancos. Porém o hospital o considerava tão valioso, que fez uma exceção e o transformou em um cirurgião... clandestino.

Mas  isso não o importunava e ele seguiu estudando e dando o melhor de si, apesar da discriminação. Era o melhor. Dava aulas aos estudantes brancos, porém ganhava salário de técnico de laboratório, o máximo que o hospital podia pagar a um negro. Vivia em uma barraca sem luz elétrica nem água corrente, em um güeto da periferia, como correspondia a um negro.

Hamilton Naki ensinou cirurgia durante 40 anos e se retirou com uma pensão de jardineiro, de 275 dólares por mês. Quando o apartheid terminou, concederam-lhe uma condecoração e o título de médico honoris causa. Nunca reclamou das injustiças que sofreu ao longo de toda sua vida. Apesar da clandestinidade e discriminação, jamais deixou de dar o melhor de si em sua paixão por ajudar a viver.

Dr. Naki, por tudo quanto contribuístes para a humanidade em detrimento de seus próprios interesses, agradecemos. Hamilton Naki, médico magnífico e um ser humano excepcional.
  Me enganei com minha noiva*
  Poema: Luiz Campos
  Música: Genildo Costa


  Quando sôrtero eu vivia
  Era o maior aperrei
  Divido ser muito fei
  As moças num mi quiria
  Quando prum forró eu ia
  Cum quarqué colega meu
  Eles confiava neu
  Ia beber e brincar
  No fim da festaia arengá
  Quem ia preso era eu.


  E pra arranjá namoro
  Eu toda vida fui mole
  Eu cantei samba, puxei fole
  Usei um cabelo louro
  A boca cheia de ouro
  Chega briiava de dia
  Quando prum forró eu ia
  Cherava que nem uma rosa
  Mas se eu caçava umas prosa
  As moças num mi quiria.


  Aí eu dizia: é catimbó
  Que alguém botou mas não sai
  Que mamãe casou com papai
  Vovô casou com vovó
  Inté meu irmão Chicó
  Que é muito mais fei do que eu
  Namorou, casou, viveu
  Com duas muié inté
  Só eu não acho muié
  Que queira se esfregá neu.


  Um dia Deus descuidou-se
  E o Satanás se esqueceu
  Que Vicença oiou pra eu
  Com um olhar de bico-doce
  Nossos oios se amisturou-se
  Cuma feijão com arroz
  Se abufelemos nós dois
  Num amor tão violento
  Que marquemo o casamento
  Pra quatro dias dispois.


  No dia de se amarrar
  Se arrumou eu e ela
  Dei de garra da mão dela
  Fui pra igreja casá
  Cheguei nos pés do altá
  Recebi a santa bença
  Jurei num ter disavença
  Entre eu e minha esposa
  O padre disse umas coisa
  E eu fui viver com Vicença!


  Cheguei em casa mais ela
  Fui logo me agazaiando
  Que mermo que eu ia pensando
  Que ia dormi na costela
  Vicença fez uma novela
  Por dentro da camarinha
  Quebrou uns trocim que eu tinha
  Mi amiaçou na bala
  Ela foi dormir na sala
  E eu dormir na cozinha.


  De Deus eu perdi a crença
  De nome chamei uns trinta
  Botei uma faca na cinta
  E fui conversá com Vicença
  Vicença deu a doença
  Quando eu falei em amor
  Aí me perguntou:
  Sê pensa que eu sou o quê?
  Eu me casei com você
  Pra le fazê um favor.


  Bati cum ela no chão
  Puxei a lapa de faca
  Cortei os cós da casaca
  E o elastro do calção
  Vicença tinha razão
  De não querer bem a eu
  Num era cum nojo deu
  Nem porque não fosse séra
  Sabe Vicença quem era?
  Era macho que nem eu.


  Eu muito me arrependi
  Porque me casei com ela
  Falei logo cum pai dela
  E de manhã devolvi
  Muito desgosto eu senti
  Que quase morri inté
  Home em traje de muié
  Tem muito de mundo afora
  Só caso cum outra agora
  Logo sabendo quem é.


*Do CD Cores e Caminhos, de Genildo Costa.

“Os dilemas morais de hoje são os mesmos do início dos tempos. As pessoas são predadoras e competitivas. Os problemas atuais podem ser o aquecimento global e a guerra em Darfur, mas é tudo a mesma coisa. Ainda não nos gostamos. Sempre achei que, se as pessoas intolerantes conseguissem pôr em prática suas ideias e eliminassem todos os negros e todos os judeus, depois atacariam outro grupo de gente, depois mais outro. Por fim, quando só houvesse duas pessoas na face da Terra, o destro se voltaria contra o canhoto”.
                             Woody Allen

Poema/Canção*

Grão
Poema: Rogério Dias
Música: Elilson Batista


    Am7     Am7/G    Dm7
Diminuto, pequenino
    G/F       G7       C7M/9
Areia, minúsculo grão
         F7+               Bm7/5-
Carregado pelo Vento
          E7            Am7
Rastejando pelo chão.


             Am7/G           Dm7
Migrando de Gado Bravo,
          G/F           G7     C7M/9
Às praias de qualquer porto,
           F7+             Bm7/5-
O grãozinho vai rolando
             E7                Am7
À procura do seu horto.


          Am/G               Dm7
Passa em terrenos baldios,
               G/F  G7   C7M/9
Sobe morro, desce chão
            F7+                   Bm7/5-
As correntes não dão trégua
            E7                 Am7
Nem sequer na escuridão.


           Am7/G              Dm7
Corre por cima do asfalto,
      G/F  G7        C7M/9
Atravessa contramão,
          F7+         Bm7/5-
Entra no acostamento,
         E7               Am7
Do outro lado, sertão.


       Am7/G        Dm7
As teimosas ventanias
       G/F    G7      C7M/9
Açoitam o nosso grão
        F7+             Bm7/5-
Atravessando caatingas,
              E7            Am7
Veredas do meu rincão.


          Am7/G            Dm7
O grãozinho sem destino
       G/F  G7     C7M/9
Um dia pode parar,
          F7+                  Bm7/5-
Se juntar a ferro e cimento
                 E7            Am7
Numa construção morar.


*Do livro de poemas Êxtase da Omissão, de Rogério Dias.
Coleção Mossoroense, setembro de 2005.

Charge, de Millôr Fernandes

"Todo homem que aos quarenta anos não é um misantropo nunca amou os homens".
                             Chamfort


02/04/2011

Onde Alguém Vê Pobreza, Vejo Riqueza




Ecos do Ão
Na arte de versejar, chama-se rima pobre a igualdade, ou semelhança de sons, no final dos versos, como as rimas: amor/clamor; paixão/ilusão; cantar/sambar.
O cantor e compositor Pernambuco Lenine foi abusado em sua já reconhecida criatividade: o que era para ser algo pobre, sem elã (nada mais banal do que a rima com final ão), ele incrementa o seu discurso denunciativo da realidade brasileira com imagens fortes, embasado na batida e no ritmo nordestino. Vale a pena conferir o vídeo. Segue a letra.


Rebenta na febem rebelião
Um vem com um refém e um facão
             A mãe aflita grita logo: não!
             E gruda as mãos na grade do portão
             Aqui no caos total do cu do mundo cão
             Tal a pobreza, tal a podridão
             Que assim nosso destino na direção
             São um enigma, uma interrogação
             E se nos cabe apenas decepção
             Colapso, lapso, rapto, corrupção?
             E mais desgraça, mais degradação?
             Concentração, má distribuição?
             Então a nossa contribuição
             Não é senão canção, consolação?
             Não haverá então mais solução?
             Não, não, não, não, não...
             Pra transcender a densa dimensão
             Da mágoa imensa e tão somente então
             Passar além da dor, da condição
             De inferno e céu, nossa contradição
             Nós temos que fazer com precisão
             Entre projeto e sonho a distinção
             Para sonhar enfim sem ilusão
             O sonho luminoso da razão
             E se nos cabe só humilhação
             Impossibilidade de ascensão
             Um sentimento de desilusão
             E fantasias de compensação?
             E é só ruína tudo em construção?
             E a vasta selva só devastação?
             Não haverá então mais salvação?
             Não, não, não, não, não...
             Porque não somos só intuição
             Nem só pé de chinelo, pé no chão
             Nós temos violência e perversão
             Mas temos o talento e a invenção
             Desejos de beleza em profusão
             E idéias na cabeça coração
             A singeleza e a sofisticação
             O choro, a bossa, o samba e o violão
             Mas se nós temos planos, e eles são
             O fim da fome e da difamação
             Por que não pô-los logo em ação?
             Tal seja agora a inauguração
             Da nova nossa civilização
             Tão singular igual ao nosso ao
             E sejam belos, livres, luminosos
             Os nosso sonhos de nação.
              "A admiração é filha da ignorância, porque ninguém se admira senão das coisas que ignora, principalmente se são grandes; e mãe da ciência, porque admirados os homens das coisas que ignoram, inquirem e investigam as causas delas até as alcançar, e isto é o que se chama ciência".
                                  Antonio Gramsci

Tão Antiga, Tão Atual*

Sede de Destruir
Letra: Raimundo Medeiros
Música: Elilson Batista


G               C     D7            G
Folhas, frutas, flora e fauna
             C         D7        G
Quase todas estão mortas.
                                                  D7
Pois só quem lhes abrem as portas
             C               Em        D7
São curtumes e serrarias.

Em                  Em7+
A força de destruir,
                        Em7
Vontade de poluir,
                                  F
A sede de não ver mais.
Em                        Em7+
Força de não proteger,
                             C
De impedir de viver
                            D7
Rios, flora e animais.

G                                  C
Luxuosos guarda-roupas
                  D7                  G
Feitos em madeiras de lei.
G                               Am
Veja, lotados de vestes,
                                      C
São de animais silvestres,
Em                                    D7
Eu sei, infelizmente, eu sei.

G                            D
A crueldade é demais:
                                    Am
Onde é fábrica de vidraça,
                                 C
De automóvel e cachaça,
                                          D
Antes de ser campo de caça
                                 G
Foi refúgio dos animais.


*Música feita no início de 90.
“Circunstância e decisão são os dois elementos essenciais de que se compõe a vida. A circunstância – as possibilidades – é o que nos é dado e imposto em nossa vida. Isso constitui o que chamamos o mundo. A vida não escolhe seu mundo, mas viver é encontrar-se, de início, num mundo determinado que não pode ser trocado: neste de agora. Nosso mundo é a dimensão de fatalidade que integra nossa vida. Mas essa fatalidade vital não é semelhante à mecânica. Não somos disparados sobre a existência como a bala de um fuzil, cuja trajetória já está absolutamente determinada. A fatalidade com que nos deparamos ao entrar neste mundo (...) consiste no contrário. Em vez de nos ser imposta uma trajetória, nos são impostas várias, o que conseqüentemente nos força... a escolher. (...) Viver é sentir-se fatalmente forçado a exercer a liberdade, a decidir o que vamos ser neste mundo. Não há um momento de descanso para nossa atividade de decisão. Inclusive quando, desesperados, nos abandonamos à sorte, decidimos não decidir”.
Ortega y Gasset, in A Rebelião das Massas
“A vida é tão imensamente vasta e profunda quanto este abismo estrelado acima de nós. Só se pode atirar um olhar a ele através desta minúscula abertura que é a nossa existência pessoal. E, por esta abertura, sentimos mais do que vemos. Por isso temos de nos certificar de que esta abertura está sempre limpa”.
                              Franz Kafka

01/04/2011

O Rio da Minha Infância

Rio Mossoró ou Apodi!
Que nome inadequado
para o rio da minha infância.
Esse rio era vários:
o poço de Napoleão Diógenes,
a pedra de Dedeca,
as Três Oiticicas,
o poço de Maurício Rêgo,
as Três Pedrinhas,
entre outros,
todos com suas particularidades:
largo, raso,
curto, profundo,
ao gosto dos fregueses, a meninada,
notadamente a da rua de Baixo.

Rio temporário,
só nas enchentes tornava-se uno,
para desespero da população ribeirinha
e deleite da gurizada afoita.
Depois das águas hibernais,
voltava a ser o que era:
um rio sertanejo.
E no seu leito
tínhamos campos de futebol,
as cacimbas d’água,
O poço das lavadeiras,
as caçadas na sua flora.

Hoje, revisito-o.
Os meus olhos cansados de adulto
não o reconhece, saudoso rio.
Não se pode percorrer
o seu leito loteado.
Isso é uma afronta
para minha saudade pueril.


Elilson José Batista, in Miscelânea Poética.
     

Ele se Acha!

Aos desavisados: quem "se acha" é o dono do chevette (e não o blogueiro). "Pérola" flagrada no Sapo da Lagoa, encerrando o Carnaval 2011 de Mossoró.

A Arte de Envelhecer

“Vêem-se pessoas de idade oprimidas pelo medo da morte. Entre os jovens, tal sentimento é justificado, pois temendo com justa razão serem mortos na guerra têm o direito de se amargurarem, ao pensamento de frustração, diante de que a vida pode oferecer de melhor. Mas, no homem velho, que conheceu as alegrias e os sofrimentos humanos, e realizou sua obra de acordo com as próprias possibilidades, o medo da morte parece um tanto abjeto e ignóbil. A melhor maneira de superá-lo, ao menos pelo que me parece, consiste em alargar progressivamente seus centros de interesse, recuando aos poucos as fronteiras do eu, até confundir sua vida pessoal com a vida universal. Uma existência individual é como um rio, pequeno em sua nascente, a correr estreitamente entre as margens, precipitando-se nos rochedos, recaindo em cascatas. Devagar, o rio se alarga, as margens desaparecem, as águas se acalmam e, no fim, sem ruptura aparente, elas se confundem com o mar e perdem insensivelmente a existência própria. Aquele que, na velhice, pode encarar assim o seu destino, não temerá a morte, porquanto sua obra será continuada. E, ao aumentar sua fraqueza, o pensamento do repouso ser-lhe-á suave. Eu gostaria de morrer no trabalho, sabendo que outros tentarão alcançar o mesmo objetivo que busquei, satisfeito com a idéia de que foi realizado o que era humanamente possível”.
                          Bertrand Russel
“A literatura é o fragmento dos fragmentos. Escreveu-se sobre a mínima parte do que aconteceu e foi dito. E do que se escreveu não restou quase nada".
                Goethe, Máximas e reflexões
“Viver com suas paixões é também viver com seus sofrimentos – que são delas o contrapeso, o corretivo, o equilíbrio e a compensação. Quando um homem aprendeu – e não no papel – a ficar sozinho na intimidade de seu sofrimento, a vencer seu desejo de fugir, a ilusão que outros podem partilhar, restam-lhes poucas coisas para aprender”.
                                Albert Camus  

Haicai

Um barco no mar.
Os homens indiferentes.
No céu o sol brilha.


Elilson José Batista, in Miscelânea Poética.

A Marquesa Saiu às Cinco Horas

Paul Valéry, com seu santo horror à vulgaridade literária, dizia-se incapaz de escrever um romance por não possuir a coragem de redigir uma frase como esta: A marquesa saiu às cinco horas. Pois se dá que, neste momento, em crise de frivolidade, fico pensando nas inúmeras maneiras de descrever um episódio tão banal. Tais como:
A marquesa talvez tenha saído às cinco horas, talvez um pouco antes, talvez um pouco depois, talvez nem tenha saído. Eu pelo menos não a vi. (Tipo mineiro à José Maria de Alkmin)
Ninguém poderia jurar que a marquesa saiu às cinco horas. (Tipo agnóstico)
Se a marquesa saiu às cinco horas, às cinco horas, logicamente, a marquesa não devia estar em casa. (Policial carioca)
A marquesa (que horror!) saiu às cinco horas! (Estranho)
A marquesa, ô lá lá, saiu às cinco horas! (Pichador)
A marquesa, brasileiros, a marquesa saiu às cinco horas. (Oratório)
A marquesa deu a saída às cinco horas. (Repórter esportivo)
A marquesinha, que gracinha, saiu às cinco horas. (Vinicinho)
A Exma. Sra. marquesa deixou os seus aposentos às cinco horas da tarde. (Monárquico)
A marquesa saiu às cinco horas. Uma pouca-vergonha. (Ressentido)
A marquesa saiu às dezessete horas. (Esclarecedor)
A Mas. Saiu às 5. (Sintético)
Venho pelo presente declarar, a quem interessar possa, que a marquesa saiu às cinco horas. (Comercial)
A marquesa saiu às cinco horas gozando o favor do preceito constitucional que lhe assegura o direito de ir e vir. (Bacharelesco)
Ó marquesa, por que saíste às cinco horas? (Angustiado)
A marquesa saiu às cinco horas quase nua. (Libidinoso)
Um dia – lá se vão muitos anos - a marquesa saiu às cinco horas. (Saudosista)
A marquesa saiu às cinco horas lançando pianos na tarde. (Murilo Mendes)
A marquesa saiu às cinco horas como um raio de sol belo e terrível. (Augusto Frederico Schmidt)
Poxa! A marquesa saiu às cinco horas! (Carioca)
A marquesa, tá um pavor, minha filha, saiu às cinco horas. (Amiga da marquesa)
De repente senti no âmago de meu ser conturbado uma voz qualquer a sussurrar-me, como uma música vaga que chegasse misteriosamente na tarde, que a marquesa tinha saído às cinco horas. (Subjetivo)
A marquesa saíra às cinco horas. (Mais-que-perfeito)
A marquesa saiu às cinco horas na tarde azul rumando ao Sul no barco em flor do meu amor. (Bossa nova)
Salve a marquesa, real turquesa do Brasil do céu de anil que saiu às cinco horas de reco-reco e tamborim, ai de mim. (Escola de samba)
Se me fora dado o dom mágico da palavra escrita, eu descreveria tudo que se relaciona (daria um romance) com o enredo maravilhoso que teve início quando a marquesa deixou sua linda residência às cinco horas de uma tarde de verão. (Tipo irremediável)

CAMPOS, Paulo Mendes. A marquesa saiu às cinco horas (adaptado). In: Balé do pato e outras crônicas. São Paulo, Ática, 1998.