Viviam José e Maria num lugarejo
chamado Nazaré, terra de pouco e de poucos, na região de Galileia,
em uma casa igual a quase todas, como um cubo torto feito de tijolos
e barro, pobre entre pobres. Invenções de arte arquitectónica,
nenhumas, apenas a banalidade uniforme de um modelo incansavelmente
repetido. Com o propósito de poupar alguma coisa nos materiais,
tinham-na construído na encosta da colina, apoiada ao declive,
escavado pelo lado de dentro, deste modo se criando uma parede
completa, a fundeira, com a vantagem adicional de ficar facilitado o
acesso à açoteia que formava o tecto. Já sabemos ser José
carpinteiro de ofício, regularmente hábil no mester, porém sem
talento para perfeições sempre que lhe encomendem obra de mais
finura. Estas insuficiências não deveriam escandalizar os
impacientes, pois o tempo e a experiência, cada um com seu vagar,
ainda não são bastantes para acrescentar, ao ponto de dar-se por
isso no trabalho de todos os dias, o saber oficinal e a sensibilidade
estética de um homem que mal passou dos vinte anos e vive em terra
de tão escassos recursos e ainda menores necessidades. Contudo, não
se devendo medir os méritos dos homens apenas pela bitola das suas
competências profissionais, convém dizer que, apesar da sua pouca
idade, é este José do mais piedoso e justo que em Nazaré se pode
encontrar, exacto na sinagoga, pontual no cumprimento dos deveres, e
não tendo sido a sua fortuna tanta que o tivesse dotado Deus duma
facúndia capaz de o distinguir dos mortais comuns, sabe discorrer
com propriedade e comentar com acerto, mormente se vem a propósito
introduzir no discurso alguma imagem ou metáfora relacionadas com o
seu ofício, por exemplo, a carpintaria do universo. Porém, porque
lhe tivesse faltado na origem o golpe de asa duma imaginação
verdadeiramente criadora, nunca na sua breve vida será capaz de
produzir parábola que se recorde, dito que merecesse ter ficado na
memória das gentes de Nazaré e ser legado aos vindouros, menos
ainda um daqueles certeiros remates em que a exemplaridade da lição
se percebe logo à transparência das palavras, tão luminosa que no
futuro rejeitará qualquer intrometida glosa, ou, pelo contrário,
suficientemente obscura, ou ambígua, para tornar-se nos dias de
amanhã em prato favorito de eruditos e outros especialistas.
Sobre os dotes de Maria, por enquanto,
só procurando muito, e mesmo assim não acharíamos mais do que é
legítimo esperar de quem não fez sequer dezasseis anos e, embora
mulher casada, não passa duma rapariguinha frágil, por assim dizer
dez--réis de gente, que também naquele tempo, sendo outros os
dinheiros, não faltavam destas moedas. Apesar da fraca figura, Maria
trabalha como as mais mulheres, cardando, fiando e tecendo as roupas
da casa, cozendo todos os santos dias o pão da família no forno
doméstico, descendo à fonte para acarretar a água, depois encosta
acima, pelos íngremes carreiros, um gordo cântaro à cabeça, uma
infusa apoiada no quadril, e indo depois, ao cair da tarde, por esses
caminhos e descampados do Senhor, a apanhar gravetos de lenha e a
rapar restolhos, levando por acrescento um cesto com que recolherá
as bostas secas do gado, e também esses cardos e espinhosas que
abundam nas declivosas alturas de Nazaré, do melhor que Deus foi
capaz de inventar para acender um lume e entrançar uma coroa. Todo
este arsenal reunido daria uma carga mais própria para ser trazida a
casa no lombo do burro, não fosse a poderosa circunstância de estar
a besta adstrita ao serviço de José e ao transporte das madeiras.
Descalça vai Maria à fonte, descalça vai ao campo, com os seus
vestidos pobres que no trabalho mais se sujam e gastam, e que é
preciso estar sempre a lavar e remendar, para o marido vão os panos
novos e os cuidados maiores, mulheres destas com qualquer coisa se
contentam. Maria vai à sinagoga, entra pela porta lateral, que a lei
impõe às mulheres, e se, é um supor, lá se encontram ela e trinta
companheiras, ou mesmo todas as fêmeas de Nazaré, ou toda a
população feminina de Galileia, ainda assim terão de esperar que
cheguem ao menos dez homens para que o serviço do culto, em que só
como passivas assistentes participarão, possa ser celebrado. Ao
contrário de José, seu marido, Maria não é piedosa nem justa,
porém não é sua a culpa dessas mazelas morais, a culpa é da
língua que fala, senão dos homens que a inventaram, pois nela as
palavras justo e piedoso, simplesmente, não têm feminino.
Ora, aconteceu que um belo dia,
passadas umas quatro semanas sobre aquela inesquecível madrugada em
que as nuvens do céu, de modo extraordinário, apareceram tingidas
de violeta, estava José em casa, era isto pela hora do sol-pôr, e
estava comendo o seu jantar, sentado no chão e metendo a mão no
prato como então era geral costume, e Maria, de pé, esperava que
ele acabasse para depois comer ela, e ambos calados, um porque não
tinha nada que dizer, outro porque não sabia como dizer o que tinha
em mente, aconteceu vir bater à cancela do pátio um pobre desses de
pedir, o que, não sendo raridade absoluta, era ali pouco frequente,
tendo em vista a humildade do lugar e do comum dos habitantes, sem
contar com a argúcia e a experiência da gente pedinchante, sempre
que é preciso recorrer ao cálculo de probabilidades, mínimas neste
caso. Contudo, das lentilhas com cebola picada e das papas de
grão-de-bico que estavam para ser o seu jantar, tirou Maria uma boa
porção para uma tigela e foi levá-la ao mendigo, que se sentou no
chão, a comer, de fora da porta, donde não passara. Não tinha
precisado Maria de pedir licença ao marido de viva voz, ele foi quem
lho permitiu ou ordenou com um aceno de cabeça, que já se sabe
serem supérfluas as palavras nestes tempos em que um simples gesto
basta para matar ou deixar viver, como nos jogos do circo se move o
polegar dos césares, apontando para baixo ou para cima. Embora em
diferente, também este crepúsculo estava que era uma beleza, com os
seus mil fiapos de nuvem esparsos pela amplidão, rosa, nácar,
salmão, cereja, são maneiras de falar da terra para que possamos
entender-nos, pois estas cores, e todas as outras, não têm, que se
saiba, nomes do céu. Sem dúvida estaria o mendigo com fome de três
dias, que essa, sim, é fome autêntica, para em tão poucos minutos
ter rapado e lambido o prato, e eis que já está batendo à porta
para devolver a escudela e agradecer a caridade. Maria veio abrir, o
pedinte ali estava, de pé, mas inesperadamente grande, muito mais
alto do que antes lhe tinha parecido, afinal é certo o que se diz,
que há uma enormíssima diferença entre comer e não ter comido,
porquanto a este homem era como se lhe resplandecesse a cara e
faiscassem os olhos, ao mesmo tempo que as roupas que vestia, velhas
e esfarrapadas, se agitavam sacudidas por um vento que não se sabia
donde vinha, e com esse contínuo movimento se nos confundia a vista,
a ponto de, em um instante, parecerem os farrapos finas e sumptuosas
telas, o que só estando presente se acredita. Estendeu Maria as mãos
para receber a tigela de barro, a qual, em consequência duma ilusão
de óptica em verdade assombrosa, porventura gerada pelas cambiantes
luzes do céu, era como se a tivessem transformado em vaso do mais
puro ouro, e, no mesmo instante em que a tigela passava dumas mãos
para as outras, disse o mendigo com poderosíssima voz, que até
nisto o pobre de Cristo tinha mudado, Que o Senhor te abençoe,
mulher, e te dê todos os filhos que a teu marido aprouver, mas não
permita o mesmo Senhor que os vejas como a mim me podes ver agora,
que não tenho, ó vida mil vezes dolorosa, onde descansar a cabeça.
Maria segurava a escudela no côncavo das duas mãos, taça sobre
taça, como quem esperava que o mendigo lhe depositasse algo dentro,
e ele sem explicação assim fez, que se baixou até ao chão e tomou
um punhado de terra, e depois erguendo a mão deixou-a escorregar
lentamente por entre os dedos, enquanto dizia em surda e ressoante
voz, O barro ao barro, o pó ao pó, a terra à terra, nada começa
que não tenha de acabar, tudo o que começa nasce do que acabou.
Turbou-se Maria e perguntou, Isso que quer dizer, e o mendigo
respondeu apenas, Mulher, tens um filho na barriga, e esse é o único
destino dos homens, começar e acabar, acabar e começar, Como
soubeste que estou grávida, Ainda a barriga não cresceu e já os
filhos brilham nos olhos das mães, Se assim é, deveria meu marido
ter visto nos meus olhos o filho que em mim gerou, Acaso não olha
ele para ti quando o olhas tu, E tu quem és, para não teres
precisado de ouvi-lo da minha boca, Sou um anjo, mas não o digas a
ninguém.
Naquele mesmo instante, as roupas
resplandecentes voltaram a ser farrapos, o que era figura de titânico
gigante encolheu-se e mirrou como se o tivesse lambido uma súbita
língua de fogo, e a prodigiosa transformação foi mesmo a tempo,
graças a Deus, e logo a seguir a prudente retirada, que do portal já
vinha acercando-se José, atraído pelo rumor das vozes, mais
abafadas do que o natural duma conversação lícita, mas sobretudo
pela exagerada demora da mulher, Que mais te queria o pobre,
perguntou, e Maria, sem saber que palavras suas poderia dizer, só
soube responder, Do barro ao barro, do pó ao pó, da terra à terra,
nada começa que não acabe, nada acaba que não comece, Foi isso que
ele disse, Sim, e também disse que os filhos dos homens brilham nos
olhos das mulheres, Olha para mim, Estou a olhar, Parece-me ver um
brilho nos teus olhos, foram palavras de José, e Maria respondeu,
Será o teu filho. O crepúsculo tornara-se azulado, ia tomando já a
primeira cor da noite, agora via-se que de dentro da tigela irradiava
como uma luz negra que desenhava sobre o rosto de Maria feições que
nunca haviam sido dela, os olhos pareciam pertencer a alguém muito
mais velho. Estás grávida, perguntou enfim José, Sim, estou,
respondeu Maria, Por que não mo disseste antes, Ia dizer-to hoje,
esperava que acabasses de comer, E então chegou esse pedinte, Sim,
De que mais falou, que o tempo deu sem dúvida para mais, Que o
Senhor me conceda todos os filhos que tu quiseres, Que tens aí na
tigela, para que dessa maneira brilhe, Terra tenho, O húmus é
negro, a argila verde, a areia branca, dos três só a areia brilha
se lhe dá o sol, e agora é noite, Sou mulher, não sei explicar,
ele tomou a terra do chão e lançou-a dentro, ao mesmo tempo disse
as palavras, A terra à terra, Sim.
José foi abrir a cancela, olhou a um
lado e a outro. Já não o vejo, sumiu-se, disse, mas Maria
afastava-se tranquila em direcção à casa, sabia que o mendigo, se
era realmente quem anunciara ser, só se quisesse é que deixaria que
o vissem. Pousou a tigela no poial do forno, tirou do borralho uma
brasa com que acendeu a candeia, soprando-a até levantar uma pequena
chama. José entrou, vinha com uma expressão interrogativa, uma
mirada perplexa e desconfiada que tentava disfarçar movendo-se com
vagares e solenidade de patriarca que não lhe assentavam bem, sendo
tão jovem. Discretamente, fazendo por não dar nas vistas, foi
espreitar a tigela, a terra luminosa, compondo na cara um ar de
cepticismo irónico, porém, se era uma demonstração de varonia o
que pretendia, não lhe valeu a pena, Maria tinha os olhos baixos,
estava como ausente. José, com um pauzito, remexeu a terra,
intrigado por vê-la escurecer quando a movia e depois retomar o
brilho, sobre a luz constante, como mortiça, serpenteavam rápidas
cintilações, Não compreendo, decerto há um mistério nisto, ou
então a terra trazia-a já ele consigo e tu julgaste que a apanhou
do chão, são embelecos de mágico, ninguém viu nunca brilhar a
terra de Nazaré. Maria não respondeu, comia o pouco que lhe restara
das lentilhas com cebola e das papas de grão-de-bico,
acompanhando-as com um pedaço de pão untado de azeite. Ao parti-lo,
dissera, como está escrito na lei, porém no tom modesto que convém
à mulher, Louvado sejas tu, Adonai, nosso Deus, rei do universo, que
fazes sair o pão da terra. Calada, comia, enquanto José, deixando
discorrer os pensamentos como se estivesse comentando na sinagoga um
versículo da Tora ou a palavra dos profetas, reconsiderava a frase
que acabara de ouvir à mulher, a que ele próprio recitara no mesmo
acto de partir o pão, e tentava imaginar que cevada seria a que
nascesse e frutificasse duma terra que brilhava, que pão daria ela,
que luz levaríamos dentro de nós se dele fizéssemos alimento. Tens
a certeza de que o mendigo apanhou a terra do chão, tornou a
perguntar, e Maria respondeu, Sim, tenho a certeza, E não brilhava
antes, No chão não brilhava. Tanta firmeza teria de abalar a
postura de desconfiança sistemática que deve ser a de qualquer
homem quando confrontado com os ditos e feitos das mulheres em geral
e da sua em particular, mas, para José, como para qualquer varão
daqueles tempos e lugares, era doutrina muito pertinente a que
definia o mais sábio dos homens como aquele que melhor saiba pôr-se
a coberto das artes e artimanhas femininas. Falar-lhes pouco e
ouvi-las ainda menos é a divisa de todo o homem prudente que não
tenha esquecido os avisos do rabi Josephat ben Yohanán, palavras
sábias entre as que mais o sejam, À hora da morte se hão-de pedir
contas ao varão por cada conversa desnecessária que tiver tido com
sua mulher. Interrogou-se José sobre se esta conversa com Maria
poderia ser contada no número das necessárias, e, tendo concluído
que sim, tomando em consideração a singularidade do acontecimento,
jurou no entanto a si mesmo não esquecer nunca as santas palavras do
rabi seu homónimo, convém dizer que Josephat é o mesmo que José,
para não ter de estar com remorsos tardios à hora da morte, praza a
Deus seja ela descansada. E, derradeiramente, tendo-se perguntado se
deveria levar ao conhecimento dos anciãos da sinagoga o suspeito
caso de mendigo desconhecido e terra luminosa, assentou que deveria
fazê-lo, para sossego da sua consciência e defesa da paz do lar.
Maria acabou de comer. Levou fora as
tigelas para as lavar, porém não, escusado seria dizê-lo, a que
tinha servido ao mendigo. Na casa havia agora duas luzes, a da
candeia, lutando trabalhosamente contra a noite que se instalara de
vez, e aquela aura luminescente, vibrátil mas constante, como de um
sol que não se decidisse a nascer. Sentada no chão, Maria esperava
ainda que o marido tornasse a dirigir-lhe a palavra, mas José já
não tem mais que dizer-lhe, agora está ocupado a compor mentalmente
as frases do discurso que amanhã irá fazer perante o conselho dos
anciãos. Aborrece-o não saber exactamente o que se passou entre a
mulher e o pedinte, que outras coisas teriam dito um ao outro, mas
não quer voltar a perguntar-lhe, porquanto, não sendo de esperar
que ela acrescente algo de novo ao que contou já, ele teria de
aceitar como verdadeiro o relato duas vezes feito, e se ela, afinal,
está a mentir, não o poderá ele saber, mas ela, sim, saberá que
mente e mentiu, e rir-se-á dele por baixo do manto, como há boas
razões para crer que riu Eva de Adão, de modo mais disfarçado,
claro está, pois nessa altura ainda não tinha um manto que a
tapasse. Tendo chegado a este ponto, o pensamento de José deu o
seguinte e inevitável passo, e eis que lhe está representando agora
o misterioso mendigo como um emissário do Tentador, o qual, tendo
mudado tanto os tempos e sendo as pessoas hoje mais avisadas, não
caiu na ingenuidade de repetir o oferecimento dum simples fruto
natural, antes parece que veio trazer a promessa duma terra
diferente, luminosa, para isso se servindo, como de costume, da
credulidade e da malícia das mulheres. José tem a cabeça em fogo,
mas está contente consigo mesmo e com as conclusões a que chegou.
Por seu lado, nada sabendo dos meandros de análise demonológica em
que se embrenhou a mente do marido, e outro tanto das
responsabilidades que lhe estão sendo atribuídas, Maria tenta
compreender a estranha sensação de carência que vem experimentando
desde que anunciou ao marido a sua gravidez. Não uma ausência
interior, por certo, porque de mais sabe ela que se encontra, a
partir de agora, e no sentido mais exacto do termo, ocupada, mas
precisamente uma ausência exterior, como se o mundo, de um momento
para outro, se tivesse apagado ou posto à distância. Recorda, mas é
como se estivesse recordando uma outra vida, que depois desta última
refeição, e antes de estender as esteiras para dormir, sempre tinha
algum trabalho para adiantar, com ele passava o tempo, e agora o que
está pensando é que não deveria mover-se do lugar onde se
encontra, sentada no chão, olhando a luz que a olha por cima do
rebordo da tigela e esperando que o filho nasça. Digamos agora, por
respeito à verdade, que o seu pensar não foi assim tão claro, o
pensamento, afinal de contas, já por outros, ou o mesmo, foi dito, é
como um grosso novelo de fio enrolado sobre si mesmo, frouxo nuns
pontos, noutros apertado até à sufocação e ao estrangulamento,
está aqui, dentro da cabeça, mas é impossível conhecer-lhe a
extensão toda, seria preciso desenrolá-lo, estendê-lo, e
finalmente medi-lo, mas isto, por mais que se intente, ou finja
intentar, parece que não o pode fazer o próprio sem ajudas, alguém
tem de vir um dia dizer por onde se deve cortar o cordão que liga o
homem ao seu umbigo, atar o pensamento à sua causa.
Na manhã seguinte, depois duma noite
mal dormida, sempre a acordar por obra de um pesadelo em que se via a
si mesmo caindo e tornando a cair para dentro de uma imensa tigela
invertida que era como o céu estrelado, José foi à sinagoga, a
pedir conselho e remédio aos anciãos. O seu insólito caso era de
tal maneira extraordinário, ainda que não pudesse imaginar até que
ponto, faltando-lhe, como sabemos, o melhor da história, isto é, o
conhecimento do essencial, que se não fosse a excelente opinião que
dele têm os veteranos de Nazaré, quiçá tivesse de voltar pelo
mesmo caminho, corrido, com as orelhas a arder, ouvindo, como um
ressoante som de bronze, a sentença do Eclesiástico com que o
teriam fulminado, Quem acredita levianamente, tem um coração
leviano, e ele, coitado, sem presença de espírito para retorquir,
armado do mesmo Eclesiástico, e a propósito do sonho que o
perseguira a noite inteira, O espelho e os sonhos são coisas
semelhantes, é como a imagem do homem diante de si próprio.
Terminado, pois, o relato, olharam os anciãos uns para os outros e
depois todos juntos para José, e o mais velho deles, traduzindo numa
pergunta directa a discreta suspicácia do conselho, disse, É
verdade, inteira verdade e só verdade o que acabas de contar-nos, e
o carpinteiro respondeu, Verdade, toda a verdade e nada mais que a
verdade, seja o Senhor minha testemunha. Debateram os anciãos
longamente entre eles, enquanto José esperava à parte, e ao fim
chamaram-no para anunciar-lhe que, por via de diferenças que
persistiam sobre os procedimentos mais convenientes, haviam decidido
enviar três emissários a interrogar Maria, directamente, sobre os
estranhos acontecimentos, averiguar quem era afinal esse pedinte que
ninguém mais vira, a figura que tinha, que exactas palavras
pronunciara, se aparecia regularmente por Nazaré a pedir esmola,
apurando-se, de passagem, que outras notícias poderia dar a
vizinhança acerca do misterioso personagem. Alegrou-se José em seu
coração porque, não querendo confessá-lo, intimidava-o a ideia de
ter de ir enfrentar-se sozinho com a mulher, por aquele seu modo
particular de estar agora, de olhos baixos, é certo, segundo manda a
discrição, mas também com uma indisfarçável expressão
provocadora, a expressão de quem sabe mais do que tenciona dizer,
mas quer que se note. Em verdade, em verdade vos digo, não há
limites para a malícia das mulheres, sobretudo as mais inocentes.
Saíram pois os emissários, com José
à frente, a indicar o caminho, e eram eles Abiatar, Dotaim e
Zaquias, nomes que aqui se deixam registados para estorvar qualquer
suspeita de fraude histórica que possa, acaso, perdurar no espírito
de todas aquelas pessoas que destes factos e suas versões tenham
obtido conhecimento através doutras fontes, porventura mais
acreditadas pela tradição, mas não por isso mais autênticas.
Enunciados os nomes, provada a existência efectiva de personagens
que os usaram, as dúvidas que restem perdem muito da sua força,
embora não a legitimidade. Não sendo isto de todos os dias, saírem
à rua três anciãos emissários, como se lhes descobria pela
dignidade particular da marcha, com as túnicas e as barbas ao vento,
em pouco se juntaram ao redor deles alguns garotos, que, cometendo os
excessos próprios da sua idade, uns risos, uns gritos, umas
correrias, acompanharam os delegados da sinagoga até à casa de
José, a quem o ruidoso e denunciador cortejo muito viera enfadando.
Atraídas pelo ruído, as mulheres das casas próximas apareceram às
portas e, pressentindo novidade, disseram aos filhos que fossem ver
que ajuntamento era aquele à porta da vizinha Maria. Penas perdidas
foram, que entraram só os homens. A porta fechou-se com autoridade,
nenhuma curiosa mulher de Nazaré veio a saber o que em casa do
carpinteiro José se passou, até aos dias de hoje.
[…]
José Saramago, em O evangelho segundo Jesus Cristo

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