Jenny Wren | Paul McCartney
Like so many girls
Jenny Wren could sing
But a broken heart
Took her song away
Like the other girls
Jenny Wren took wing
She could see the world
And its foolish ways
How we spend our days
Casting love aside
Losing sight of life
Day by day
She saw poverty
Breaking up a home
Wounded warriors
Took her song away
But the day will come
Jenny Wren will sing
When this broken world
Mends its foolish ways
Then we’ll spend our days
Catching up on life
All because of you
Jenny Wren
You saw who we are
Jenny Wren
Em Los Angeles, há um cânion onde eu
adoro fazer caminhadas. Tem que ir de carro para chegar lá, então
muitas vezes vou sozinho. No dia em que escrevi esta canção,
encontrei um lugar tranquilo para estacionar à beira da estrada, em
uma área bem rural e, em vez de fazer uma caminhada, pensei: “Vou
compor uma canção”.
As pessoas costumam pensar que
Liverpool é uma cidade industrial, mas não tive problemas para
praticar a observação de pássaros quando eu era menino. Eu gostava
de me desligar do corre-corre do mundo, e isso era permitido pelo
simples fato de que morávamos em Speke, no sul de Liverpool, a
apenas um quilômetro e meio da área rural. Eu tinha um livrinho de
bolso, The Observer’s Book of Birds, e costumava sair
sozinho para fazer caminhadas no campo, em busca de um pouco de
solidão. Eu curtia me distanciar das coisas normais – escola, vida
familiar, rádio, televisão, incumbências, seja lá o que fosse –
e só ficar na minha, capaz de perambular e meditar. Logo aprendi a
identificar os pássaros, e a corruíra (“wren”)
provavelmente se tornou a minha ave favorita – pequenina, muito
reservada, uma coisinha tão delicada. Não é fácil de avistá-la,
mas súbito ela surge, pulando de arbusto em arbusto. Por isso, se o
assunto é passarinho – os melros-pretos, também entre os meus
favoritos, ou as cotovias, ou as Jenny Wrens –, estamos falando de
uma coisa pela qual há muito tempo eu cultivo uma afeição.
Sempre é bom, quando você está
escrevendo algo, escrever sobre um mundo de que você gosta. Então,
quando estou falando sobre Jenny Wren, primeiro estou me lembrando da
ficção, da corajosa moça de Our Mutual Friend (O amigo comum),
de Dickens, cuja atitude positiva lhe permitiu superar suas
deformidades dolorosas, mas num átimo me vem à mente a corruíra, e
em seguida estou vendo de novo uma personagem, e nessa história ela
canta como ninguém. A criançada talvez não tenha mais ouvido falar
nela, mas as gerações de meus pais e avós conheciam a grande
cantora de ópera sueca Jenny Lind, que tinha o cognome de “Jenny
Wren”.
Na minha narrativa, eis que Jenny
Wren, tendo sido privada de sua alma, parou de cantar como forma de
protesto. Por isso, a canção se torna um pouco reflexiva sobre
nossa sociedade – como nós colocamos as coisas a perder e como nos
solidarizamos com a pessoa que protesta. Ela presenciou as nossas
tolas decisões, a maneira como deixamos o amor de lado, a maneira
como perdemos de perspectiva as nossas vidas – a pobreza destruindo
lares, criando guerreiros feridos. Ela percebeu quem somos e, como
todo mundo, só está buscando um caminho melhor. E se estivermos,
digamos, num ano de eleição, e isso pode ser em qualquer lugar do
mundo, você espera que a perturbação, este mundo fraturado (“this
broken world”) em que estamos no momento – vá embora, assim
como as pessoas que criaram isso, e alguém melhor virá para que
consigamos retomar o nosso lado melhor, consertar as nossas tolas
decisões (“foolish ways”). Você sabe que lá está o
nosso lado melhor, mas nem sempre é tão fácil de acessá-lo.
Mesmo assim, preciso manter o otimismo
– afinal de contas, eu nasci em plena Segunda
Guerra Mundial, e a Grã-Bretanha
conseguiu superar aqueles dias sombrios. Por isso, ainda estou
convencido de que é um bom velho mundo, de verdade, mas acho que
estamos pisando na bola. Por exemplo, o oceano se enchendo de
plástico é um caso óbvio; o plástico não chegou lá sozinho.
Pensar que a mudança climática é uma farsa é outro vacilo, e eu
espero que ainda consigamos consertar isso a tempo de beneficiar
nossos filhos e os filhos de nossos filhos.
Estou ciente de que estou cantando
para pessoas que podem estar passando por momentos difíceis, porque,
no meio onde eu cresci, muita gente passava por momentos difíceis
pela falta de dinheiro, e nunca me esqueci que há um monte de coisas
que você não consegue se não tiver dinheiro. Por isso, estou
sempre muito ciente do poder de uma bela canção, pois sei que
quando eu ouvia uma – mesmo uma canção sobre um passarinho – na
minha adolescência em Liverpool, isso me dava esperança e me
deixava feliz. Compreendi o quanto aquele sentimento era valioso para
mim. E agora sou eu o cara que diz: “Olha só, as coisas nem sempre
são ruins”. Isso me dá um lugar para ir na canção, e também me
dá um lugar onde eu gostaria de estar. Lembra muito a canção
“Smile”, de Charlie Chaplin. É a SCO – Síndrome da Canção
Otimista.
Muitas vezes, as canções estabelecem
um diálogo com outras canções, e esta obviamente conversa com
“Blackbird”. Acho que, se você está ali sentado com o violão,
pode seguir alguns caminhos. Em “Blackbird”, o canto responde ao
dedilhar dos acordes, e eu acho que “Jenny Wren” tem essa mesma
ideia. É provável que eu estivesse revisitando “Blackbird”,
talvez intencionalmente. Eu não admitiria isso pra ninguém caso eu
não estivesse trabalhando neste livro, que, como diz a letra de
“Jenny Wren”, está me permitindo pôr a vida em dia (“catching
up on life”).
Paul McCartney, em As Letras: 1956 até o presente

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