I am going to pass around in a
minute some lovely, glossy-blue picture postcards.
Num minuto vou passar para vocês
vários cartões postais belos e brilhantes. Esta é a mala de couro
que contém a famosa coleção.
Reparem nas minhas mãos, vazias.
Meus bolsos também estão vazios.
Meu chapéu também está vazio.
Vejam. Minhas manga.
Viro de costa, dou uma volta intena.
Como todos podem ver, não há nenhum
truque, nenhum alçapão escondido, nem jogos de luz enganadores.
A mala repousa nesta cadeira aqui.
Abro a mala com esta chave mestra em
cerimônias do tipo, e me permitem a brincadeira.
A primeira coisa que encontramos na
mala, por cima de tudo, é - adivinhem - um par de luvas.
Ei-la.
Pelica.
Coisa fina.
Visto as luvas – mão esquerda...
mão direita...
corte... perfeito.
Isso me lembra...
Um jovem artista perdido na elegante
Berlim da Belle Époque, sozinho, em vão procurando por
prazer. Passa um grupo ruidoso de patinadores, e uma mulher de branco
deixa cair a sua luva, uma luva com seis botões forrados, branca,
longa, perfumada. O jovem corre, apanha a luva, mas reluta se deve
aceitar ou não o desafio. Afinal decide ignorá-lo, guarda a luva no
bolso e volta caminhando para o seu hotel por ruas mal iluminadas.
Mas assim me desvio do meu propósito
desta noite. Depois se houver tempo concluirei esta história
fantástica, onde entra até uma carruagem de Netuno, um morcego
gigantesco que sorri e foge sempre, e um oceano de folhagens.
Quem sabe esta não é exatamente
aquela luva?
No entanto temos aqui não apenas uma,
mas o par; é muito delicado e contrasta com este terno preto.
A valise de couro conterá objetos de
toucador?
Não, meus amigos.
Como todos podem ver, mediante uma
ligeira rotação que faço na cadeira sobre a qual ela se encontra,
a valise contém apenas papel... cartões... dezenas, talvez centenas
de cartões postais.
Estranha valise!
E agora, atenção.
Com minhas mãos enluvadas – um
momento enquanto abotoo uma... e depois outra cuidadosamente... não
há fraude... ajusto os punhos, assim... – agora com estas mãos,
ao acaso, apanho o primeiro cartão postal, que contemplo por um
instante sob a luz... há um reflexo... mas vejo aqui uma moça
afogada entre os juncos... passo o primeiro cartão, por favor passem
uns para os outros... segundo cartão: a Avenida Atlântica... vão
passando... cadilaque em Acapulco... Carmem... Centro Pompidou...
igreja no Alabama... castelo visto do levante... dois cupidos de
óculos escuros... o ladrão de joias e a duquesa... e este aqui...
Fred Astaire em Lady Be Good, ou não faz arte, menina...
nostálgica... e uma Marilyn, e aqui a praia em Clacton com bingo e
fish and chips... o Boeing da Air France... bondes subindo a
ladeira em São Francisco... um urso polar no zoo de Barcelona...
Salomé‚... Londres... outra Salomé ... vão passando, vão
passando.
Meus amigos, isto é uma valise, não
é uma cartola com coelhos.
Temos cartões para a noite inteira.
Alexandria... Beirute... Praga...
Sejam misteriosas, um quadro de
Paul...
Gauguin, seguido de O que, estás com
ciúme?, uma pergunta malandra em tom capcioso, assim tomando sol na
praia.
E outros de museu aqui:
O olho, como um balão bizarro, se
dirige para o infinito;
No horizonte, o anjo das certitudes, e
no céu sombrio, um olhar interrogador;
A dama em desespero;
O sangue da Medusa;
As mães malvadas;
Tranco a porta sobre mim;
O beijo;
Outro beijo;
O ciúme novamente,
e agora o verdadeiro Morro dos
Ventos Uivantes, seguido de uma curiosa competição esportiva, e
de alguma pornografia, e de um padrinho Cícero.
Meus amigos, eu não sei onde nós
vamos parar.
Continuo a passar mais rapidamente
estes cartões. Reparem nesses bolinhos presos com elástico, e aliás
ia me esquecendo de dizer, podem e devem verificar se no verso há
palavras rabiscadas, este aqui por exemplo, “Para quando serão
nossas próximas horas exquisitas?”, esquisitas com xis, ou este
aqui, “O Posto 6, onde passei minha infância e minha adolescência,
como está mudado!”, ou este outro, ouçam só, “Fico tentando te
mandar um pedacinho de onde estou mas fica faltando sempre”. E com
uma letra bem miúda: “Acalmei bem, me distraí, não penso tanto,
penso a te”. Acho que o final está em italiano. Vão lendo, vão
lendo, a maioria está em branco mesmo, com licença.
Eu preciso sair mas volto logo.
Um cisco no olho, um pequeno cisco; na
volta continuo a tirar os cartões da mala, e quem sabe, quando o
momento for propício, conto o resto daquela história verdadeira,
mas antes de sair tiro a luva, deixo aqui no espaldar desta cadeira.
Fin
Ana Cristina Cesar, em A Teus Pés
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