[…]
Se pudesse, abandonaria tudo e
recomeçaria as minhas viagens. Esta vida monótona, agarrada à
banca das nove horas ao meio-dia e das duas às cinco, é estúpida.
Vida de sururu. Estúpida. Quando a repartição se fecha, arrasto-me
até o relógio oficial, meto-me no primeiro bonde de Ponta-da-Terra.
Que estará fazendo Marina? Procuro
afastar de mim essa criatura. Uma viagem, embriaguez, suicídio...
Penso no meu cadáver, magríssimo,
com os dentes arreganhados, os olhos como duas jabuticabas sem casca,
os dedos pretos do cigarro cruzados no peito fundo.
Os conhecidos dirão que eu era um bom
tipo e conduzirão para o cemitério, num caixão barato, a minha
carcaça meio bichada. Enquanto pegarem e soltarem as alças,
revezando-se no mister piedoso e cacete de carregar defunto pobre,
procurarão saber quem será o meu substituto na diretoria da
fazenda.
Enxoto as imagens lúgubres. Vão e
voltam, sem vergonha, e com elas a lembrança de Julião Tavares.
Intolerável. Esforço-me por desviar o pensamento dessas coisas. Não
sou um rato, não quero ser um rato. Tento distrair-me olhando a rua.
À medida que o carro se afasta do
centro sinto que me vou desanuviando. Tenho a sensação de que viajo
para muito longe e não voltarei nunca. Do lado esquerdo são as
casas da gente rica, dos homens que me amedrontam, das mulheres que
usam peles de contos de réis. Diante delas, Marina é uma ratuína.
Do lado direito, navios. Às vezes há diversos ancorados. Rolam
bondes para a cidade, que está invisível, lá em cima, distante.
Vida de sururu.
Há quinze anos era diferente. O
barulho dos bondes não deixava a gente ouvir o sino da igreja. O meu
quarto, no primeiro andar, era um inferno de calor. Por isso, à hora
em que os outros hóspedes iam para a escola, estudar medicina, eu
dava um salto ao Passeio Público e lia, debaixo das árvores, o
noticiário da polícia. Naturalmente a pensão se fechou e d.
Aurora, que naquele tempo era velha, morreu.
O calor aqui também é grande demais.
E faltam plantas. Apenas, um pouco afastados, coqueiros macambúzios,
perfilados, como se esperassem ordens.
Cidade grande, falta de trabalho. O
meu quarto ficava junto à escada, e à noite o cheiro do gás era
insuportável. Quando escurecia, Dagoberto, estudante e repórter,
vinha despejar sobre a minha cama um compêndio de anatomia e uma
cesta de ossos.
O bonde chega ao fim da linha, volta.
Bairro miserável, casas de palha, crianças doentes. Barcos de
pescadores, as chaminés dos navios, longe.
D. Aurora, que tinha sobrenome inglês,
às seis horas encostava-se ao guarda-louça e rosnava, agitava os
caracóis brancos, pregava os óculos nos hóspedes que comiam demais
e nos que estavam em atraso. Havia um rapaz de Minas, dispéptico,
que ela adorava e queria casar com a neta. Enquanto os outros
mastigavam, Dagoberto esquecia o prato e falava sobre os discursos da
câmara.
Retorno à cidade. Os globos opalinos
do Aterro iluminam o gramado murcho e a praia branca. Os coqueiros
empertigados ficam para trás. Penso numa ditadura militar, em
paradas, em disciplina. Os navios também ficam para trás. A pensão,
o meu quarto abafado, o focinho de d. Aurora e a cesta de ossos de
Dagoberto somem-se.
O carro passa pelos fundos do tesouro.
É ali que trabalho. Ocupação estúpida e quinhentos mil-réis
de ordenado.
Rua do Comércio. Lá estão os grupos
que me desgostam. Conto as pessoas conhecidas: quase sempre até os
Martírios encontro umas vinte. Distraio-me, esqueço Marina, que
algumas ruas apenas separam de mim. Afasto-me outra vez da realidade,
mas agora não vejo os navios, a recordação da cidade grande
desapareceu completamente. O bonde roda para oeste, dirige-se ao
interior. Tenho a impressão de que ele me vai levar ao meu município
sertanejo. E nem percebo os casebres miseráveis que trepam o morro,
à direita, os palacetes que têm os pés na lama, junto ao mangue, à
esquerda. Quanto mais me aproximo de Bebedouro mais remoço. Marina,
Julião Tavares, as apoquentações que tenho experimentado estes
últimos tempos, nunca existiram.
Volto a ser criança, revejo a figura
de meu avô, Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva, que
alcancei velhíssimo. Os negócios na fazenda andavam mal. E meu pai,
reduzido a Camilo Pereira da Silva, ficava dias inteiros manzanzando
numa rede armada nos esteios do copiar, cortando palha de milho para
cigarros, lendo o Carlos Magno, sonhando com a vitória do partido
que padre Inácio chefiava. Dez ou doze reses, arrepiadas no
carrapato e na varejeira, envergavam o espinhaço e comiam o
mandacaru que Amaro vaqueiro cortava nos cestos. O cupim devorava os
mourões do curral e as linhas da casa. No chiqueiro alguns bichos
bodejavam. Um carro de bois apodrecia debaixo das catingueiras sem
folhas. Tinham amarrado no pescoço da cachorra Moqueca um rosário
de sabugos de milho queimados. Quitéria, na cozinha, mexia em
cumbucos cheios de miudezas, escondia peles de fumo no caritó.
Eu andava no pátio, arrastando um
chocalho, brincando de boi. Minha avó, sinha Germana, passava os
dias falando só, xingando as escravas, que não existiam. Trajano
Pereira de Aquino Cavalcante e Silva tomava pileques tremendos. Às
vezes subia à vila, descomposto, um camisão vermelho por cima da
ceroula de algodão encaroçado, chapéu de ouricuri, alpercatas e
varapau. Nos dias santos, de volta da igreja, mestre Domingos, que
havia sido escravo dele e agora possuía venda sortida, encontrava o
antigo senhor escorado no balcão de Teotoninho Sabiá, bebendo
cachaça e jogando três-setes com os soldados. O preto era um
sujeito perfeitamente respeitável. Em horas de solenidade usava
sobrecasaca de chita, correntão de ouro atravessado de um bolso a
outro do colete, chinelos de trança, por causa dos calos, que não
aguentavam sapatos. Por baixo do chapéu duro, a testa retinta, úmida
de suor, brilhava como um espelho. Pois, apesar de tantas vantagens,
mestre Domingos, quando via meu avô naquela desordem, dava-lhe o
braço, levava-o para casa, curava-lhe a bebedeira com amoníaco.
Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva vomitava na sobrecasaca
de mestre Domingos e gritava:
— Negro, tu não respeitas teu
senhor não, negro!
Quando o carro para, essas sombras
antigas desaparecem de supetão — e vejo coisas que não me excitam
nenhum interesse: os focos da iluminação pública, espaçados,
cochilando, piongos, tão piongos como luzes de cemitério; um
palácio transformado em albergue de vagabundos; escuridões,
capoeiras, barreiras cortadas a pique no monte; a frontaria de uma
fábrica de tecidos; e, de longe em longe, através de ramagens,
pedaços de mangue, cinzentos. À medida que nos aproximamos do fim
da linha as paradas são menos frequentes. Os postes cintados de
branco passam correndo, o carro está quase vazio, as recordações
da minha infância precipitam-se. E a decadência de Trajano Pereira
de Aquino Cavalcante e Silva precipita-se também.
Estava pegando um século quando
entrou a caducar. Encolhido na cama de couro cru, mijava-se todo,
contava os dedos dos pés e caía na madorna. De repente acordava
sobressaltado:
— Sinha Germana!
Meu pai largava o Carlos Magno, abria
o tabaqueiro, deixava a rede, impaciente:
— Que é que há?
— Homem, você não me dirá onde
está sua mãe? Aqui mais de uma hora chamando essa mulher!
— Morreu.
— Que está me dizendo? estranhava o
velho arregalando os olhos quase cegos. Quando foi isso?
Camilo Pereira da Silva amolava-se:
— Deixe de arrelia. Morreu o ano
passado.
— Tanto tempo! dizia Trajano. E
vocês calados...
Punha-se a folgar com os dedos e
pegava no sono. Quinze minutos depois estava berrando:
— Sinha Germana!
Acabou-se numa agonia leve que não
queria ter fim. E enterrou-se na catacumba desmantelada que nossa
família tinha no cemitério da vila. Mestre Domingos pegou na alça
do caixão e declarou a meu pai que a morte é um mundéu. Fomos
morar na vila. Meteram-me na escola de seu Antônio Justino, para
desasnar, pois, como disse Camilo quando me apresentou ao mestre, eu
era um cavalo de dez anos e não conhecia a mão direita. Aprendi
leitura, o catecismo, a conjugação dos verbos. O professor dormia
durante as lições. E a gente bocejava olhando as paredes, esperando
que uma réstia chegasse ao risco de lápis que marcava duas horas.
Saíamos em algazarra. Eu ia jogar pião, sozinho, ou empinar
papagaio. Sempre brinquei só.
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Graciliano Ramos, em Angústia

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