30/06/2026

A medicina bate à porta



Tenho tanta raiva de telefone que costumo atender com um rosnado.
Blanc?
Infelizmente.
É o Baiano, meu nego. Mas se você vai escrever sobre isso, não esquece de registrar que meu nome é Wilson Flora, senão o pessoal lá na minha terra não acredita.
Tá.
Eu queria fazer uma rápida consulta médica, por telefone mesmo. É o seguinte:...
Baiano, você sabe que eu detesto esse troço. Parei de clinicar na década de 70. Logo, o máximo que sou, hoje em dia, é uma espécie de palpiteiro com curso superior, que, no meu caso específico, foi bastante inferior.
Mas é coisa simples. Andei bebendo demais e o médico me pediu tanto exame que eu comecei a passar mal só de ler a relação.
Hum... Que tipo de exame?
Glicídios, lipídios, adílios, otacílios...
Você já bebeu hoje?
Pra tomar coragem de ligar pra você. Eu tenho horror dessas conversas sobre doença.
Eu também, Baiano. Parei por causa disso.
Mas é diferente, Blanc. Você viveu durante anos essa dura realidade, eu diria mesmo heroica, nas condições em que se faz medicina em nosso país, e teve um papel preponderante, ainda que por pouco tempo...
Higiênico.
Hein?
O papel. Você tá tentando me vender outro carro? Se essa conversa acabar com a descrição de um modelo 88 de caminhonete, uma joia, que apareceu na agência, em perfeito estado, um milagre etc., na próxima vez que a gente se encontrar, eu vou armado.
Não, nada disso! Poxa, Blanc, até parece que eu, em minha honrada profissão, me comporto feito um escroto qualquer.
Errou só por um pequeno detalhe: um escroto qualquer vende carro com um mínimo de consideração pela vítima. Você, não. Você é Medalha de Ouro em todas as modalidades de escrotidão, 4 x 100, com ou sem vara, em distância, em altura... Você apronta sacanagem até em jogo de peteca.
Compreendo seu mau humor. O Vasco ainda não convenceu, o Edmundo é uma incógnita, e você...
Isso não tem nada que ver com o Vasco.
Tenho um favor pra te pedir. O cara que está monitorando meu quadro (gostou dessa?), quer... bem... sejamos diretos: um exame de próstata, e eu me recuso a permitir que um desconhecido me dede. Escolhi você.
Quer que seja no Canecão, com show de mulatas, noite de autógrafos etc.?
Só te peço que pense no meu caso com carinho. Bom, tenho que sair. Vou a uma dessas casas de instrumentos musicais.
???
O médico disse que vou fazer uma verdadeira bateria de exames. Tô indo comprar um surdo e um apito. O laboratório que se exploda, mas minha bateria sem surdo e sem apito, nem pensar.

Aldir Blanc, em Rua dos Artistas e Arredores

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