O rio da cólera
A multidão, que cobre toda a praça
maior e as ruas vizinhas, lança maldições e pedras ao palácio do
vice-rei. As pedradas e os gritos, traidor, ladrão, cachorro,
Judas, se arrebentam contra os portais e os portões, fechados a
pedra e cal. Os insultos ao vice-rei se misturam com os vivas ao
bispo, que o excomungou por ter especulado com o pão desta cidade.
Há tempos que o vice-rei vinha estocando todo o milho e o trigo em
seus celeiros privados; e assim brinca, a seu bel-prazer, com os
preços. A multidão está em brasa. Enforquem ele! Paulada! Matem
ele a pauladas! Uns pedem a cabeça do oficial que profanou a
igreja, arrastando para fora dela o arcebispo; outros exigem linchar
Mejía, testa de ferro do vice-rei em seus negócios; e dois querem
fritar em azeite o vice-rei estocador.
Aparecem picaretas, chuços,
alabardas; ouvem-se tiros de pistolas e mosquetões. Mãos invisíveis
hasteiam o pendão do rei, no teto do palácio, e pedem auxílio os
gritos das trombetas; mas ninguém acode para defender o vice-rei
encurralado. Os principais do reino fecharam-se em seus palácios e
juízes e oficiais escorreram pelos buracos. Nenhum soldado obedece
ordens.
As paredes da prisão da esquina não
aguentam o ataque. Os presos se incorporam à maré furiosa. Caem os
portões do palácio, o fogo devora as portas e a multidão invade os
salões, furacão que arranca cortinas, arrebenta baús e devora o
que encontra.
O vice rei, disfarçado de frade,
fugiu por um túnel secreto, rumo ao convento de São Francisco.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
Nenhum comentário:
Postar um comentário