No octogésimo aniversário de Winston
Churchill, um jornal inglês de opinião enviou felicitações ao
“segundo maior inglês vivo”. A petulância e a impertinência do
elogio residiam na premissa oculta. Mas, para os lógicos e os
radicais, o nome omitido ressoou distintamente: era o de Bertrand
Russell. E essa avaliação implícita pode ser duradoura. Na
verdade, pode se estender muito além da vida inglesa. É possível
que a presença de Russell, mais do que qualquer outro, tenha moldado
a história da inteligência e da sensibilidade na civilização
europeia entre os anos 1890 e 1950. Mais do que qualquer outro,
talvez, desde Voltaire.
O paralelo é óbvio e profundo. Vem
da capa deste belo livro, The Autobiography of Bertrand Russell
(Little, Brown, 1967), com o retrato de Russell em 1916. Seu
cabelo é ondulado como uma peruca do século XVIII, o nariz é
aquilino e voltairiano, os lábios são sensuais, mas levemente
trocistas. Como Voltaire, Russell teve vida longeva e fez desse fato
uma afirmação de valores ao mesmo tempo alegres e estoicos. Sua
obra publicada é imensa, um insulto à frugalidade do estilo
moderno; são cerca de 45 livros. A correspondência é ainda mais
extensa. Como a de Voltaire, ela toca diretamente em todos os pontos
nevrálgicos de seu século. Russell discutiu filosofia com
Wittgenstein e literatura com Conrad e D. H. Lawrence; debateu
economia com Keynes e desobediência civil com Gandhi; suas cartas
abertas geraram uma resposta de Stálin e a exasperação de Lyndon
Johnson. E, como Voltaire, Russell procurou fazer da linguagem —
sua prosa é maleável e translúcida como as mais refinadas da época
clássica — uma salvaguarda contra as brutalidades e mentiras da
cultura de massa.
Pode ser que o leque de Russell seja
mais amplo do que o de Voltaire, mesmo que não tenha escrito nenhuma
obra que, por si só, cristalize toda uma percepção do mundo como
faz Cândido. Apenas os lógicos e os filósofos da ciência
estão capacitados para avaliar a contribuição de Introdução à
filosofia matemática e dos Principles of Mathematics, que
Russell concluiu em 1903. Junto com os Principia Mathematica,
publicados em colaboração com Whitehead entre 1910 e 1913, esses
livros conservam uma imponente vitalidade na história da
investigação lógica moderna. Antecipam várias das noções que
têm se mostrado muito fecundas na lógica simbólica e na teoria da
informação contemporâneas. Os lógicos puros constituem uma
espécie rara. Russell, em sua capacidade de profundo cálculo
analítico, em sua habilidade de utilizar códigos de ordem
significante não tão sobrecarregados com as opacidades e desgastes
da vida corrente quanto a linguagem comum, se emparelha com Descartes
e Kurt Gödel.
A História da filosofia ocidental,
de Russell, que estava em grande destaque quando ele recebeu um
Prêmio Nobel de Literatura em 1950, é haute vulgarisation no
melhor sentido. Avança rapidamente de Anaxágoras até Bergson.
Transborda de implícita confiança na mortalidade do absurdo. O
livro de Russell sobre Leibniz é datado, mas continua interessante
pois mostra as semelhanças entre seu próprio desejo de onisciência
e o do grande polímata e rival de Newton. Nosso conhecimento do
mundo exterior, baseado nas palestras Lowell que Russell deu em
Boston em 1914, continua a ser talvez a melhor introdução a seu
estilo filosófico e a seu sinuoso empirismo. Os problemas levantados
são antigos como Platão; isso significa que as soluções propostas
são menos vulneráveis a modismos do que em outros ramos da
filosofia. Somos animais epistemológicos, perguntando de onde viemos
e para onde vamos, mas jamais sabendo as respostas, incapazes de
provar se esta vida não é um longo sonho. Russell faz um belo
mapeamento de nossa estranha condição. E faz isso de novo, mas
menos incisivamente, em A análise da mente. Se tivesse
escrito apenas esses livros de filosofia e história das ideias, já
teria um lugar de destaque.
Mas o choque da guerra mundial e as
mudanças profundas em sua própria personalidade ampliaram e
complexificaram muito o campo de suas reflexões. Desde 1914, foram
poucas as áreas de política social, das relações internacionais,
da ética pessoal que ele não abordou. Sua crítica a nossos
costumes se inicia no mundo de William Morris e Tolstói; sobrevive
ao de Shaw e Freud; continua ativa e mais contundente do que nunca no
de Stokely Carmichael. Queria planejar “A conquista da felicidade”
— qualquer que fosse o título do discurso ou do ensaio específico.
Foi tão caloroso em seu “Elogio ao ócio” quanto Montaigne, e
voltou várias vezes, com a sensação de um enigma não solucionado,
a “O casamento e a moral”. Contou ao mundo “Por que não sou
cristão”, mas escreveu com uma delicadeza poética estranha a
Voltaire sobre as pretensões do misticismo, daquela abrupta lógica
do espírito humano quando se encontra num estado de êxtase. Seus
estudos e ensaios mais imediatamente políticos encheriam toda uma
prateleira. Desde cedo examinou “A prática e a teoria do
bolchevismo” e demonstrou simpatia e preocupação pelo “Problema
da China” (outro interesse que partilhava com Voltaire) muito antes
da crise atual. Seu estudo das “Perspectivas da civilização
industrial” o aproxima do pensamento de R. H. Tawney, ao passo que
seus apelos constantes à resistência passiva e ao desarmamento
universal o aliam a Danilo Dolci. O sonhador e o engenheiro também
estão presentes na personalidade de Russell. É um utopista do curto
prazo, um homem que, mesmo aos 95 anos de idade, desperta das
simplicidades de seus sonhos e acredita convictamente que elas seriam
capazes de trazer uma melhora imediata, na mesma manhã. O título de
um dos ensaios de Russell, Tem futuro o homem?, sintetiza suas
buscas. O ponto de interrogação representa um ceticismo
persistente, um filão de tristeza resignada. Mas a vida inteira da
velha raposa, maravilhosa em sua diversidade e capacidade de criação,
tem sido uma luta constante para alcançar uma resposta afirmativa.
Ao que parece, Russell mantém
registros detalhados dessa vida desde o começo — certamente desde
que foi para Cambridge, em outubro de 1890, e percebeu que era dotado
de talentos extraordinários. Como Voltaire, Russell presenciou o
ingresso da própria pessoa na luz da história; o tempo e a
eminência lhe deram certa distância de si mesmo, e ele tem
observado esse processo com ironia e precisão. Meu
desenvolvimento filosófico, de leitura muito agradável, é o
registro de sua passagem do idealismo kantiano para uma espécie de
empirismo transcendental que eu chamaria de pitagórico (“Tenho
tentado entender o poder pitagórico que faz o número flutuar acima
do fluxo”). “Retratos de memória”, que se assemelha e às
vezes complementa os Essays in Biography [Ensaios de
biografia], de Keynes, narra alguns dos encontros mais luminosos na
carreira de Russell e reconstitui, até onde é possível para um
livro, a formalidade descontraída da vida intelectual na Cambridge
de G. M. Trevelyan e lorde Rutherford, de G. E. Moore e E. M.
Forster. A rede formal da autobiografia se desenvolve naturalmente a
partir desse exame tão constante da própria vida. Algumas partes do
volume foram reunidas e ditadas em 1949, e outras provavelmente no
começo dos anos 1950. O material tratado se estende de fevereiro de
1876, quando o filho mais novo de lorde e lady Amberley chegou órfão,
aos quatro anos de idade, a Pembroke Lodge, casa dos avós, até
agosto de 1914, quando o lógico matemático de 42 anos, docente do
Trinity College e membro da Royal Society, estava prestes a optar por
um pacifismo intransigente e romper com grande parte do mundo a que
pertencia. A narrativa consiste em sete capítulos, cada qual
acompanhado por uma seleção de cartas relacionadas com aquele
momento. Esse recurso vitoriano funciona admiravelmente bem. Não
raro as cartas seguem com sutileza um rumo contrário à lembrança
muito posterior, e o diálogo entre carta e recordação às vezes
rende alguma nota de rodapé mordaz. Assim, Russell escrevia a Lucy
Martin Donnelly em 22 de abril de 1906, comentando alguns de seus
esforços mais abstrusos, mais tremendamente exigentes em lógica
matemática: “Meu trabalho avança a um ritmo fantástico, e sinto
intenso prazer com ele”, ao que, 45 anos depois, o conde Russell,
O. M., diria: “Acabou se mostrando uma asneira rematada”.
Bertrand Russell nasceu e foi criado
na aristocracia. Era neto de um primeiro-ministro, primo ou sobrinho
de toda uma linhagem de dignitários militares, diplomáticos e
eclesiásticos. As sombras de antepassados que tinham visitado
Napoleão em Elba ou defendido Gibraltar durante as guerras
americanas povoavam o quarto de brincar. Era a Inglaterra de alamedas
arborizadas e aveludadas, de senhores e servos. Nas páginas de
abertura, os panoramas temporais são vertiginosos. O autor e o
leitor desta resenha somos contemporâneos, no sentido possível da
palavra, de um homem que silenciou Browning durante um jantar e,
quando ficou a sós com William Gladstone, ouviu cascatear sobre si
um pronunciamento fatal: “É muito bom este porto que me deram, mas
por que me deram num cálice de clarete?”. Nós, os vivos, temos
aqui um homem, ainda lúcido e alerta, cujos criados e primeiros
conhecidos tinham frescas na lembrança as notícias de Waterloo.
Isso em si já é bastante assustador. Mas, no caso de Russell, o
fato de ter crescido num mundo quase totalmente extinto para nós, de
ter pertencido à elite mais confiante da história moderna (a
aristocracia whig da Inglaterra vitoriana), é mais do que um
artifício estilístico permitido pela longevidade. Russell traz as
marcas de suas origens nos próprios limites de seu radicalismo
posterior.
Essas memórias não se preocupam em
atenuar sua altivez de nascença. “Mas o que pode uma faxineira
saber dos espíritos dos grandes homens, ou dos anais dos impérios
desaparecidos, ou das visões assediantes da arte e da razão?”,
perguntou a Gilbert Murray em 1902. E prosseguia: “Não vamos nos
iludir com a esperança de que o melhor está ao alcance de todos, ou
que a emoção não moldada pelo pensamento pode algum dia alcançar
os níveis mais elevados”. Em fevereiro de 1904, Russell se
aventurou “em uma parte distante de Londres” para dar uma
palestra numa seccional da Sociedade Unida dos Engenheiros. Seu
comentário na época foi típico: “Pareciam pessoas excelentes,
muito respeitáveis — na verdade, eu nem imaginaria que eram
trabalhadores”. Russell se converteu num dos autênticos revoltosos
da história moderna; suas fuzilarias contra o capitalismo, contra a
política da grande potência e a hipocrisia do sistema são ferozes
e se sucedem faz tempo. A piedade pela condição humana arde nele
até quase consumir a razão: “Crianças passando fome, vítimas
torturadas pelos opressores, velhos desamparados e fardos odiados
pelos filhos, e o mundo inteiro de solidão, pobreza e dor escarnecem
do que deveria ser a vida humana”. Ele foi preso, perdeu cargos
acadêmicos, enfrentou o risco do ostracismo por causa de sua
profunda compaixão. Mas o jacobinismo de Russell é um alto
conservadorismo; nasce da certeza de que o berço e o talento impõem
o direito e o dever do preceito moral. “Os ecos dos gritos de dor
reverberam em meu coração”, diz Russell. Fica a dúvida se ele
não está enganando a si mesmo; a câmara de ressonância fica mais
acima: a piedade, como em Voltaire, é cerebral. Na essência, a
política de protesto de Russell quer materializar a esperança,
manifesta com tanta clareza no pequeno e entusiástico grupo dos
Apóstolos ao qual ele pertencia em Cambridge, de que a humanidade
possa ser elevada a um plano justo de saúde e bem-estar social, para
que os eleitos, os amantes da beleza e da verdade, possam se realizar
na vida sem má consciência. A democracia americana, afirma Russell,
é igualitária e filistina. Assim, não abre espaço nem para a
intensidade, nem para a elevação dos sentimentos: “Na verdade, a
elevação do sentimento parece depender essencialmente de uma
consciência reflexiva do passado e de seu terrível poderio”. A
verdadeira política é a arte de assegurar espaço para os melhores;
ela afastará a miséria do mundo em geral que estorva ou dissipa a
vida do espírito. A piedade de Russell muitas vezes é afiada, uma
arma para afastar os que poderiam se aglomerar perto demais de sua
sensibilidade.
Essa misericórdia aristocrática e
uma reveladora preferência pelo abstrato em detrimentoda desordem do
pessoal estão por trás do tom geral da Autobiografia. Elas ficam
explícitas em dois episódios que logo se tornaram os mais notórios.
“Procuro o amor, em primeiro lugar, porque traz êxtase”, escreve
Russell, “um êxtase tão grande que muitas vezes eu teria
sacrificado todo o resto da vida por algumas horas desta alegria.
Procuro-o, em segundo lugar, porque alivia a solidão, aquela solidão
terrível na qual uma consciência tiritante fita na borda do mundo o
frio abismo insondável e sem vida.” Mas essa procura parece ter
acarretado, algumas vezes, a ruína de outrem. O primeiro casamento
de Russell com Alys, irmã de Logan Pearsall Smith, começou entre
arroubos. A lembrança de uma de suas primeiras visitas à amada, em
janeiro de 1894, quando Londres estava coberta de neve e “quase tão
silenciosa como o topo de uma colina solitária”, tem a força e a
suavidade da narrativa autobiográfica de Tolstói, quando Levin
visita Kitty no começo de Anna Kariênina. Mas o casamento se
construiu sobre um estranho código de reticência sexual que logo
gerou tensões dolorosas. Em março de 1911, Russell se apaixonou por
lady Ottoline Morrell, mulher celebrada na vida e na carreira de toda
uma geração de poetas e políticos ingleses. “Por uma noite”
com ela, Russell se sentiu disposto a pagar o preço do escândalo e
mesmo da morte. Assim ele conta o final de seu casamento com Alys:
Eu disse a Alys que ela poderia ter
o divórcio no momento em que quisesse, mas que não deveria envolver
o nome de Ottoline. Mesmo assim, ela insistiu que iria envolver o
nome de Ottoline. Com isso, disse-lhe com calma, mas com firmeza, ela
veria que era impossível, pois, caso desse algum passo nesse
sentido, eu me suicidaria para impedi-la. Falei a sério, e ela viu.
Com isso sua fúria se tornou insuportável. Depois de ficar
enfurecida durante algumas horas, dei uma aula sobre a filosofia de
Locke à sua sobrinha, Karin Costelloe, que estava para fazer seu
exame de bacharelado. Então saí em minha bicicleta, e assim
terminou meu primeiro casamento. Não voltei a ver Alys até 1950,
quando nos encontramos como bons conhecidos.
Depois de terminar o período letivo
em Harvard, Russell foi para Chicago, para ficar na casa de um
eminente ginecologista. Ele tinha conhecido rapidamente uma de suas
filhas em Oxford. “Passei duas noites sob o teto de seus pais, e a
segunda passei com ela.” Combinaram em segredo que a moça iria se
juntar a Russell na Inglaterra. Quando ela chegou, em agosto de 1914,
tinha estourado a guerra mundial. Aqui também cabe citar na íntegra
o relato de Russell:
Eu não conseguia pensar em nada
além da guerra, e, como tinha decidido me manifestar publicamente
contra ela, não quis complicar minha posição com um escândalo
privado, que tiraria qualquer peso do que eu pudesse dizer. Portanto,
achei impossível fazer o que havíamos planejado. Ela ficou na
Inglaterra e mantive relações com ela de tempos em tempos, mas o
choque da guerra matou minha paixão e parti seu coração. Por fim,
ela caiu vítima de uma doença rara, que a deixou primeiro
paralisada e depois demente. Em sua demência, ela contou ao pai tudo
o que havia acontecido. A última vez que a vi foi em 1924. […] Se
a guerra não tivesse intervindo, o plano que fizemos em Chicago
poderia ter trazido grande felicidade para nós dois. Ainda sinto a
dor dessa tragédia.
Há uma terrível frieza tanto no
estilo quanto nos sentimentos expressos — uma lucidez gélida,
descartando o assunto, ao estilo augusto clássico. Em certa medida,
pode ser por causa da velhice e do distanciamento das lembranças.
Mas certamente o problema tem raízes mais fundas. Como Voltaire ou
talvez Tolstói em seus anos finais, Bertrand Russell é um homem que
tem mais amor pela verdade ou pela apresentação clara de uma
possível verdade do que pelos seres humanos individuais. Tem um ego
de tanta riqueza e turbulência que o egocentrismo constitui todo um
mundo. A ele, qualquer outro ser humano, por mais íntimo que seja,
tem um acesso apenas provisório. Russell registrou pelo menos uma
experiência mística definitiva. Ocorreu em 1901, depois de ouvir
Gilbert Murray ler uma parte de sua tradução de Hipólito,
de Eurípides. Ele reconstitui o tremendo momento da iluminação, do
claro transe, que resultou algumas horas depois nas posições sobre
a guerra, a educação e a insuportabilidade da solidão humana que
iria manter ao longo da vida. Russell saiu do transe convencido de
“que nas relações humanas é preciso penetrar e falar ao próprio
âmago da solidão que existe em cada um”. Sem dúvida era uma
convicção sincera, mas não transparece muito nesta Autobiografia.
Mais pertinente parece ser o capítulo sobre “O ideal” nos
Principia Ethica, de G. E. Moore, obra que exerceu profunda
influência no desenvolvimento inicial de Russell; é “o amor ao
amor” que Moore recomenda “como o bem mais valioso que
conhecemos”. Ao lado dessa vívida percepção, o amor pelo ser
amado concreto parece uma alegria bastante pálida.
Mas seria injusto considerar apenas o
que há de altivo e inquietante nesse livro. Os “antigos olhos
faiscantes são alegres”. Russell rememora sua leitura dos Eminent
Victorians [Vitorianos célebres], de Lytton Strachey, na cadeia:
“Ele me fez rir tão alto que o guarda veio até minha cela,
dizendo que eu devia lembrar que a prisão é um lugar de castigo”.
Multiplicam-se extravagâncias e rudezas de outra era, numa linguagem
quase extinta:
Quando o vice-diretor da faculdade,
um clérigo que violentou a filha pequena e ficou paralisado pela
sífilis, teve de ser afastado em consequência disso, o diretor se
aprestou a declarar na Reunião da Congregação que aqueles dentre
nós que não frequentavam regularmente a capela não faziam ideia de
como tinham sido excelentes os sermões desse dignitário.
Russell, como muitos ingleses
distintos, é exímio nas estocadas. Uma vinheta cômica das
pomposidades filosóficas e pessoais em Cambridge, Massachusetts, de
1914, vem coroada com um polido arremate: “Havia limitações na
cultura de Harvard. Schofield, o professor de belas-artes,
considerava Alfred Noyes um ótimo poeta”. Keynes aparece em
rápidas pinceladas, “carregando por toda parte o sentimento de um
bispo in partibus”.
Além disso, as ironias não são
apenas apuradas. Elas cavam o leito de uma correnteza de dúvidas,
cuja força de erosão é tão grande que solapa os próprios valores
iniciais de Russell e arrasta em sua passagem a ciência na qual ele
alcançara a grandeza e o mundo onde se sentia mais à vontade. Essa
demolição interna é a grande aventura do primeiro volume (Russell
está trabalhando no segundo). O árduo trabalho de argumentação
abstrusa exigido pelos Principia Mathematica esgotou Russell.
Ele conta com toda a franqueza que sua capacidade de raciocínio
matemático denso se enfraqueceu depois de 1913. Mas não foi somente
a lógica matemática que se debilitou. Em fevereiro de 1913, Russell
escreveu a Lowes Dickinson a efetiva sentença de condenação aos
critérios da sensibilidade requintada, da comunhão acadêmica que
havia dominado sua vida até aquele momento: “Mas o intelecto,
exceto no momento de efervescência, é muito propenso a ser
trivial”. Por trás dessa declaração estão o malogro do
casamento e o exemplo de Tolstói. Mas há também uma circunstância
imediata precisa. Na mesma carta, Russell se refere a outra pessoa,
que o superava na filosofia e na análise do significado. Ele conta
que Ludwig Wittgenstein, recém-chegado de Viena e Manchester, fora
admitido entre os Apóstolos, “mas achou que era perda de tempo.
[…] Penso que ele estava coberto de razão, embora tenha tentado
dissuadi-lo”. Essa admissão era importante. Quando o longo verão
da civilização europeia chegou ao fim, Russell abandonou os luxos
do espírito que mais valorizara. Sairia da guerra abrindo o caminho
que, mais à frente, resultou no Tribunal Internacional Russell em
Estocolmo.
A miopia, a malícia frívola de
muitos pronunciamentos políticos recentes de lorde Russell são
revoltantes. As mudanças de posição — era Bertrand Russell que,
não muito tempo atrás, defendia um ataque nuclear preventivo contra
a União Soviética — são risíveis. Mas mesmo no erro e na
gárrula simplificação há um enorme gosto pela vida, uma entrega
total de si aos chamados das ideias e às demandas do conflito
humano. Quando tiver sido escrita toda a estória, provavelmente se
evidenciará que poucos indivíduos na história, e certamente poucos
em nossa era de gritante vulgaridade, contribuíram mais para
dignificar a imagem da vida apresentada por Russell 64 anos atrás:
Muitas vezes sinto que a religião,
como o sol, extinguiu as estrelas de menos brilho, mas não menos
beleza, que cintilam sobre nós na escuridão de um universo sem
deus. O esplendor da vida humana, tenho certeza, é maior para os que
não estão ofuscados pela irradiação divina; e a camaradagem
humana parece se tornar mais íntima e mais terna com a percepção
de que somos todos exilados numa margem inóspita.
19 de agosto de 1967
George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

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