I Lost My Little Girl – Paul
McCartney
(Composta em 1956, mas só gravada em
1991)
Well I woke up late this morning
My head was in a whirl
And only then I realised
I lost my little girl
Uh huh huh huh
Well her clothes were not expensive
Her hair didn’t always curl
I don’t know why I loved her
But I loved my little girl
Uh huh huh huh huh huh
Não é necessário ser um Sigmund
Freud para você reconhecer que a canção é uma resposta muito
direta à morte de minha mãe. Ela morreu em outubro de 1956, muito
jovem, aos 47 anos. Escrevi esta canção naquele mesmo ano. Na época
eu tinha quatorze anos.
Como o meu pai tocava trompete, eu
aprendi um pouco. Desisti porque não tinha como cantar com a
boquilha na boca. A questão é que a ideia de cantar me agradava e
eu estava vendo muita gente entrando em cena. Quando você olha para
trás e pensa nisso, o rock’n’roll estava só começando.
Já que o trompete era meio inviável
no rock’n’roll, acabei com um violãozinho improvisado. Um Zenith
acústico. Era um violão para destros, porque não vendiam violões
para canhotos, então tive que adaptar. Virei-o para que as cordas
grossas e graves ficassem nos buracos finos e as cordas finas e
agudas nos buracos largos. Tive de entalhar os buracos finos para
permitir que os fios grossos entrassem e, em seguida, encaixar um
pedaço de palito de fósforo em cada buraco largo para que o fio
fino passasse por cima. Agora eu tinha um violão para canhotos e
poucos acordes no repertório – acordes muito básicos,
recém-aprendidos.
Os acordes em “I Lost My Little
Girl” vão de Sol a Sol maior com sétima até chegar em Dó, então
temos um efeito decrescente. Eu queria que a melodia aumentasse à
medida que a progressão dos acordes diminuísse. Então, eu já
estava tentando pensar nessas coisas aos quatorze anos, talvez porque
sempre convivi com música em casa – meu pai tocava, ou um amigo
dele, ou as nossas tias, e eu provavelmente os via improvisando um
pouco. Por isso, decidi: enquanto o violão estivesse baixando, o meu
canto ia subir.
O verso de abertura, “Well I woke
up late this morning”, ou uma variação disso, é um elemento
básico do blues americano. Não sei ao certo se eu tinha uma canção
de blues em particular na minha cabeça. Era uma configuração bem
familiar. Blues 101, ou seja, as 101 progressões essenciais do
blues. O verso “Her hair didn’t always curl” me fez
encolher de vergonha ao longo dos anos, mas, puxa vida, eu tinha só
quatorze anos. E esse, como se diz, foi o primeiro passo.
Eu nem preciso falar, a coisa começou
para valer quando eu conheci John Lennon. Fomos apresentados por um
amigo em comum, Ivan Vaughan, que me levou para ver John tocar na
Woolton Village Fête, na Igreja de São Pedro. O palco era um
caminhão-plataforma, e eu achei que John era muito bom. Ele estava
cantando “Come Go With Me”, dos Del-Vikings, e eu só conhecia
vagamente essa canção. Para mim ficou claro que ele também a
conhecia apenas vagamente e estava inventando à medida que
prosseguia. Ele cantou algo como “Vem, vem, vem, venha comigo até
a penitenciária”. Sem dúvida, a letra não é essa, mas ele deve
ter tirado isso de Lead Belly ou de outra pessoa. Achei aquilo muito
inteligente da parte dele.
John e eu então nos encontramos no
intervalo entre o show diurno e o show noturno, que aconteceu no
salão da igreja – e ali tinha uma pequena área de bastidores. Eu
me lembro de que havia um piano e eu estava com o meu violão. Então,
toquei a canção “Twenty Flight Rock”, que era a minha peça
festiva, e ele aparentemente ficou muito impressionado porque eu
sabia a letra de cor e salteado.
Eu tive a sensação de que ele não
queria realmente fazer uma parceria comigo, porque eu era um pouco
mais jovem do que ele, mas ele tinha que admitir, bem, existia um
pouco de talento ali.
Compareci ao show naquela noite e
depois saí com Ivan e ele. A banda não era grande coisa, mas John
era bom. Cerca de uma semana depois, um dos amigos de John, Pete
Shotton, me alcançou quando eu estava na minha bicicleta e disse:
“Querem você na banda”. Fiz uma pausa e disse: “Vou pensar no
assunto”.
Eu não estava me fazendo de difícil.
Mas eu era um mocinho precavido. Eu me perguntei se eu realmente
queria fazer parte de uma banda. Era uma coisa boa ou seria melhor me
dedicar aos estudos?
Para o bem ou para o mal, eu os
procurei e disse: “Sim”.
Paul McCartney, em As Letras – 1956 até o presente

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