E era verdade. Entrei apressado, achei
Virgília ansiosa, mau humor, fronte nublada. A mãe, que era surda,
estava na sala com ela. No fim dos cumprimentos disse-me a moça com
sequidão:
– Esperávamos que viesse mais cedo.
Defendi-me do melhor modo; falei do
cavalo que empacara, e de um amigo, que me detivera. De repente
morre-me a voz nos lábios, fico tolhido de assombro. Virgília...
Seria Virgília aquela moça? Fitei-a
muito, e a sensação foi tão penosa, que recuei um passo e desviei
a vista. Tomei a olhá-la. As bexigas tinham-lhe comido o rosto; a
pele, ainda na véspera tão fina, rosada e pura, aparecia-me agora
amarela, estigmada pelo mesmo flagelo que devastara o rosto da
espanhola. Os olhos, que eram travessos, fizeram-se murchos; tinha o
lábio triste e a atitude cansada. Olhei-a bem; peguei-lhe na mão, e
chamei-a brandamente a mim.
Não me enganava; eram as bexigas.
Creio que fiz um gesto de repulsa.
Virgília afastou-se, e foi sentar-se
no sofá. Eu fiquei algum tempo a olhar para os meus próprios pés.
Devia sair ou ficar?
Rejeitei o primeiro alvitre, que era
simplesmente absurdo, e encaminhei-me para Virgília, que lá estava
sentada e calada.
Céus! Era outra vez a fresca, a
juvenil, a florida Virgília. Em vão procurei no rosto dela algum
vestígio da doença; nenhum havia; era a pele fina e branca do
costume.
– Nunca me viu? perguntou Virgília,
vendo que a encarava com insistência.
– Tão bonita, nunca.
Sentei-me, enquanto Virgília, calada,
fazia estalar as unhas. Seguiram-se alguns segundos de pausa.
Falei-lhe de coisas estranhas ao incidente; ela porém não me
respondia nada, nem olhava para mim. Menos o estalido, era a estátua
do Silêncio. Uma só vez me deitou os olhos, mas muito de cima,
soerguendo a pontinha esquerda do lábio, contraindo as sobrancelhas,
ao ponto de as unir; e todo esse conjunto de coisas dava-lhe ao rosto
uma expressão média entre cômica e trágica.
Havia alguma afetação naquele
desdém; era um arrebique do gesto. Lá dentro, ela padecia, e não
pouco, – ou fosse mágoa pura, ou só despeito; e porque a dor que
se dissimula dói mais, é mui provável que Virgília padecesse em
dobro do que realmente devia padecer. Creio que isto é metafísica.
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

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