Atirei meu coração às areias do
circo como se atira ao
mar uma âncora aflita. Ninguém bateu
palmas.
O trapezista sorriu, o leão
farejou-me desdenhosamente,
o palhaço zombou de minha sombra
fatídica.
Só a pequena bailarina compreendeu.
Em sua mãos
de opala, meu coração refletia as
nuvens de outono,
os jogos de infância, as vozes
populares.
Depois de muitas quedas, aprendi. Sei
agora vestir,
com razoável destreza, os risos da
hiena, a frágil polidez
dos elefantes, a elegância marinha
dos corcéis.
Todavia, quando as luzes se apagam,
readquiro antigos
poderes e voo. Voo para um mundo sem
espelhos falsos,
onde o sol devolve a cada coisa a
sombra natural
e onde não há aplausos,
porque tudo
é justo, porque tudo é bom.
José Paulo Paes, em Melhores poemas
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