93.
Em mim foi sempre menor a intensidade
das sensações que a intensidade da consciência delas. Sofri
sempre mais com a consciência de estar sofrendo que com o sofrimento
de que tinha consciência.
A vida das minhas emoções mudou-se,
de origem, para as salas do pensamento, e ali vivi sempre mais
amplamente o conhecimento emotivo da vida.
E como o pensamento, quando alberga a
emoção, se torna mais exigente que ela, o regime de consciência,
em que passei a viver o que sentia, tornava-me mais quotidiana, mais
epidérmica, mais titilante a maneira como sentia.
Criei-me eco e abismo, pensando.
Multipliquei-me aprofundando-me. O mais pequeno episódio — uma
alteração saindo da luz, a queda enrolada de uma folha seca, a
pétala que se despega amarelecida, a voz do outro lado do muro ou os
passos de quem a diz juntos aos de quem a deve escutar, o portão
entreaberto da quinta velha, o pátio abrindo com um arco das casas
aglomeradas ao luar — todas estas coisas, que me não pertencem,
prendem-me a meditação sensível com laços de ressonância e de
saudade. Em cada uma dessas sensações sou outro, renovo-me
dolorosamente em cada impressão indefinida. Vivo de impressões que
me não pertencem, perdulário de renúncias, outro no modo como sou
eu.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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