domingo, 22 de fevereiro de 2026

Roubo de livros



Estou prestes a me mudar novamente. Em torno de mim, na poeira secreta de cantos insuspeitos, revelados agora pelo deslocamento dos móveis, elevam-se pilhas instáveis de livros, como rochas desgastadas pelo vento numa paisagem desértica. Enquanto ergo pilha após pilha de volumes familiares (reconheço alguns pela cor, outros pela forma, muitos por detalhes nas capas, cujos títulos tento ler de cabeça para baixo ou de um ângulo esquisito), pergunto-me, como já fiz tantas vezes, por que guardo tantos livros que sei que não lerei novamente. Digo a mim mesmo que, sempre que me desfaço de um livro, descubro dias depois que era exatamente aquele que estava procurando. Digo a mim mesmo que, não existem livros (ou poucos, muito poucos) em que eu não tenha achado alguma coisa que me interessasse. Digo a mim mesmo que os trouxe para dentro de casa por algum motivo e que esse motivo pode surgir novamente no futuro. Invoco desculpas: meticulosidade, raridade, uma vaga erudição. Mas sei que a razão principal de me apegar a esse tesouro sempre crescente é uma espécie de ganância voluptuosa.
Adoro olhar para minhas prateleiras lotadas, cheias de nomes mais ou menos familiares.
Delicio-me ao saber que estou cercado por uma espécie de inventário da minha vida, com indicações do meu futuro. Gosto de descobrir, em volumes quase esquecidos, traços do leitor que já fui – rabiscos, passagens de ônibus, pedaços de papel com nomes e números misteriosos, às vezes uma data e um local na guarda do livro, levando-me de volta a um certo café, a um quarto de hotel distante, a um verão longínquo. Eu poderia, se precisasse, abandonar esses livros e começar de novo, em outro lugar; já fiz isso antes, várias vezes, por necessidade. Mas então tive de reconhecer também uma perda grave, irreparável. Sei que algo morre quando abandono meus livros e que minha memória insiste em voltar a eles com uma nostalgia pesarosa. E agora, com os anos, minha memória relembra cada vez menos e parece-me uma biblioteca saqueada: muitas das salas foram fechadas, e, nas que ainda continuam abertas para consulta, há enormes vazios nas estantes. Pego um dos livros remanescentes e percebo que várias páginas foram arrancadas por vândalos. Quanto mais decrépita minha memória, mais quero proteger esse repositório do que li, essa coleção de texturas, vozes e odores. A posse desses livros tornou-se fundamental para mim, porque agora sinto ciúme do passado.
A Revolução Francesa tentou abolir a noção de que o passado era propriedade de uma única classe. Teve sucesso pelo menos em um aspecto: de divertimento aristocrático, colecionar coisas antigas tornou-se um passatempo burguês, primeiro com Napoleão e seu amor pelos adornos da Roma Antiga, depois com a república. Na tirada do século XIX, a exibição de bricabraques bolorentos, de pinturas de mestres antigos, dos primeiros livros tornou-se uma moda europeia. Floresceram as lojas de curiosidades. Negociantes de antiguidades acumularam pilhas de tesouros pré-revolucionários que eram comprados e depois exibidos nos museus caseiros dos nouveaux riches. "O colecionador", escreveu Walter Benjamin, "sonha que está não apenas em um mundo distante ou passado, mas também, ao mesmo tempo, em um mundo melhor, onde os homens se acham tão desprovidos daquilo que necessitam quanto no mundo cotidiano, mas onde as coisas estão livres da obrigação de ser úteis".
Em 1792, o palácio do Louvre foi transformado em museu para o povo. Dando voz a uma arrogante queixa contra a noção de um passado comum, o romancista visconde François-René de Chateaubriand protestou que as obras de arte assim reunidas "não tinham mais nada a dizer à imaginação nem ao coração". Quando, poucos anos depois, o artista e antiquário Alexandre Lenoir fundou o Museu dos Monumentos Franceses para preservar as estátuas e as pedras de mansões, mosteiros, palácios e igrejas que a revolução saqueara, Chateaubriand descreveu-o com desprezo, como “uma coleção de ruínas e túmulos de todos os séculos, reunidos sem rima ou razão no claustro dos Petits-Augustins”. Tanto no mundo oficial como no mundo privado dos colecionadores de ruínas do passado, as críticas de Chateaubriand foram solenemente ignoradas.
Os livros estavam entre os restos mais copiosos deixados para trás pela Revolução. As bibliotecas particulares da França no século XVIII eram tesouros familiares que a nobreza preservara e ampliara de geração em geração, e os livros que continham eram tanto símbolos de posição social quanto de refinamento e postura. Pode-se imaginar o conde d'Hoym, um dos mais famosos bibliófilos de sua época (morreu aos quarenta anos, em 1736), tirando de uma de suas estantes abarrotadas um volume das Orações de Cícero, que ele olharia não como mais um entre as centenas ou milhares de exemplares idênticos impressos e espalhados por numerosas bibliotecas, mas como um objeto único, encadernado segundo suas especificações, anotado por seu próprio punho e marcado pelo brasão da família gravado em ouro.
A partir do final do século XII, os livros tornaram-se reconhecidos como objetos de comércio, e na Europa o valor comercial deles estava suficientemente estabelecido para que os emprestadores de dinheiro os aceitassem como caução; encontram-se notas registrando tais garantias em numerosos livros medievais, em especial os pertencentes a estudantes. No século XV, o negócio tornara-se importante a ponto de os livros serem incluídos no rol de bens vendidos nas feiras comerciais de Frankfurt e Nördligen.
Devido à sua raridade, alguns livros evidentemente eram únicos e alcançavam preços exorbitantes (o raro Epistolae de Petrus Delphinus, de 1524, foi vendido por mil livres em 1719 cerca de 30 mil dólares em moeda de hoje), mas a maioria tinha o valor de objeto pessoal - heranças familiares, objetos que somente as mãos do dono e de seus filhos jamais tocariam. Por esse motivo, as bibliotecas tornaram-se um dos alvos automáticos da Revolução.
As bibliotecas pilhadas do clero e da aristocracia, símbolos dos “inimigos da república”, acabaram em enormes depósitos em várias cidades francesas – Paris, Lyon, Dijon e outras, onde esperavam, sob o ataque da umidade, da poeira, de insetos e outras pragas, que as autoridades revolucionárias decidissem seus destinos. O problema de armazenar tamanha quantidade de livros tornou-se tão sério que as autoridades começaram a organizar vendas para se livrar de parte do butim. Porém, pelo menos até a criação do Banco da França como instituição privada, em 1800, a maioria dos bibliófilos franceses (os que não se encontravam mortos ou exilados) estava empobrecida demais para comprar os livros e somente estrangeiros, sobretudo ingleses e alemães, puderam lucrar com a situação.
Para satisfazer essa clientela de fora, os livreiros começaram a atuar como exploradores e agentes. Em uma das últimas vendas expurgatórias, feita em Paris em 1816, o livreiro e editor Jacques-Simon Merlin comprou livros suficientes para encher do porão ao sótão as duas casas de cinco andares que adquirira especialmente com esse objetivo. Os volumes, em muitos casos preciosos e raros, foram vendidos por peso, numa época em que os livros novos ainda eram muito caros. Por exemplo, nas primeiras décadas do século XIX, um romance recém-publicado custava um terço do salário mensal de um trabalhador rural, enquanto uma primeira edição de Le roman comique, de Paul Scarron (1651), poderia ser obtida por um décimo dessa quantia.
Os livros que a Revolução confiscara e que não foram destruídos ou vendidos no exterior acabaram distribuídos pelas bibliotecas públicas, mas poucos leitores faziam uso deles.
Durante a primeira metade do século XIX, as horas de acesso a essas bibliothèques publiques eram restritas, havia exigências quanto à maneira de trajar de seus frequentadores – e os livros preciosos novamente acumularam poeira nas estantes," esquecidos e fechados.
Mas não por muito tempo.
Guglielmo Bruto Icilio Timoleone, conde Libri-Carucci del a Sommaia, nasceu em Florença, em 1803, numa antiga e nobre família toscana. Estudou direito e matemática e tornou-se tão bem-sucedido nessa última matéria que, quando tinha vinte anos, ofereceram-lhe a cadeira de matemática na Universidade de Pisa. Em 1830, supostamente sob ameaças da organização nacionalista dos carbonários, emigrou para Paris e, pouco depois, tornou-se cidadão francês. Com seu nome retumbante reduzido então para conde Libri, foi recebido pelos acadêmicos franceses, eleito membro do Instituto da França, indicado como professor de ciências na Universidade de Paris e distinguido com a Legião de Honra por suas credenciais eruditas e intelectuais. Mas Libri tinha outros interesses além da ciência: desenvolvera uma paixão por livros; em 1840, já possuía uma coleção notável e comerciava com manuscritos e livros raros impressos.
Duas vezes tentou sem sucesso obter um cargo na Biblioteca Real. Então, em 1841, foi nomeado secretário de uma comissão encarregada de supervisionar oficialmente o “catálogo geral e detalhado de todos os manuscritos, em idiomas antigos e modernos, existentes hoje em todas as bibliotecas públicas departamentais”.
Sir Frederic Madden, curador do Departamento de Manuscritos do Museu Britânico, descreveu assim seu primeiro encontro com Libri, a 6 de maio de 1846, em Paris: “Pela aparência externa [ele], parecia jamais ter usado água, sabão ou escova. A sala na qual fomos introduzidos não tinha mais de cinco metros de largura, mas estava repleta de manuscritos em prateleiras que subiam até o teto. As janelas tinham vidraças duplas e um fogo de carvão e coque queimava na lareira, cujo calor, acrescentado ao cheiro das pilhas de pergaminhos em volta, era tão insuportável que me deixou ofegante. O sr. Libri percebeu o incômodo que sofríamos e abriu uma das janelas, mas dava para perceber que um sopro de ar lhe era desagradável, e seus ouvidos estavam cheios de algodão, como para protegê-los dele! O sr. Líbri é uma pessoa um tanto corpulenta, de feições bem-humoradas mas largas”. O que sir Frederic não sabia – na época – é que o conde Libri era um dos mais rematados ladrões de livros de todos os tempos.
De acordo com o mexeriqueiro do século XVII Tallemant des Réaux, roubar livros não é um crime, exceto se os livros forem vendidos. O prazer de segurar um volume raro nas mãos, de virar as páginas que ninguém virará sem nossa permissão, com certeza movia Libri até certo ponto. Se foi a visão de tantos livros lindos que inesperadamente tentou o culto bibliófilo, ou se foi antes o desejo incontrolável por livros que o levou a almejar o cargo, jamais saberemos. Armado das credenciais oficiais, vestindo uma enorme capa sob a qual escondia seus tesouros, Libri ganhou acesso a bibliotecas de toda a França, onde seu conhecimento especializado lhe permitia descobrir e colher as maravilhas escondidas. Em Carpentras, Dijon, Grenoble, Lyon, Montpellier, Orléans, Poitiers e Tours, não somente roubou volumes inteiros, como cortou páginas que depois exibiu e, às vezes, vendeu. Somente em Auxerre não concretizou a pilhagem. O obsequioso bibliotecário, ansioso por agradar o funcionário cujos documentos anunciavam-no como Monsieur le Secrétaire e Monsieur l'Inspecteur Général, autorizou de bom grado que Libri trabalhasse à noite na biblioteca, mas insistiu em colocar um guarda ao seu lado para atender a qualquer necessidade do cavalheiro.
As primeiras acusações contra Libri datam de 1846, mas – talvez porque parecessem tão improváveis – foram ignoradas, e Libri continuou a atacar as bibliotecas. Começou também a organizar vendas importantes de alguns dos livros roubados, vendas para as quais preparava catálogos excelentes e detalhados. Por que esse bibliófilo apaixonado vendia os livros que roubara correndo tantos riscos? Talvez acreditasse, como Proust, que “o desejo faz todas as coisas florescerem, a posse as faz murchar”. Talvez precisasse apenas de alguns poucos e preciosos, selecionados como as pérolas raras de seu butim. Talvez os tenha vendido por pura ganância – mas essa é uma suposição muito menos interessante. Quaisquer que fossem seus motivos, a venda de livros roubados não podia mais ser ignorada. As acusações acumularam-se e, um ano depois, o promotor público iniciou investigações discretas - que foram abafadas pelo presidente do Conselho Ministerial, o sr Guizot, amigo de Libri e testemunha de seu casamento. É provável que o assunto tivesse morrido se a Revolução de 1848, que acabou com a Monarquia de Julho e proclamou a Segunda República, não tivesse descoberto o dossiê de Libri escondido na escrivaninha de Guizot. Libri foi avisado e fugiu com a esposa para a Inglaterra, não sem levar consigo dezoito caixas de livros avaliados em 25 mil francos. Na época, um trabalhador especializado ganhava cerca de quatro francos por dia.
Muitos políticos, artistas e escritores manifestaram-se (em vão) em defesa de Libri.
Alguns haviam lucrado com suas maquinações e não queriam se comprometer no escândalo; outros tinham reconhecido nele um estudioso honrado e não queriam passar por bobos. O escritor Prosper Mérimée, em particular, foi um defensor ardente de Libri. O conde mostrara-lhe, no apartamento de um amigo, o famoso Pentateuco de Tours, um volume iluminado do século VII; Mérimée, que viajara muito pela França e visitara inúmeras bibliotecas, observou que viu aquele Pentateuco em Tours; Libri mais que depressa explicou ao escritor que o que vira fora uma cópia francesa do original adquirido por ele na Itália. Mérimée acreditou; escrevendo a Edouard Delessert em 5 de junho de 1848, insistiu: "Para mim, que sempre disse que o amor por colecionar leva as pessoas ao crime, Libri é o mais honesto dos colecionadores, e não conheço ninguém, exceto Libri, que devolveria às bibliotecas os livros que outros roubaram.” Por fim, dois anos depois que Libri foi julgado culpado, Mérimée publicou na Revue des Deux Mondes, uma defesa tão ruidosa de seu amigo que o tribunal o convocou, acusando-o de desacato.
Sob o peso das provas, Libri foi condenado in absentia a dez anos de prisão e à perda de seus cargos públicos. Lorde Ashburnham, que comprara de Libri, por intermédio do livreiro Joseph Barrois, outro raro Pentateuco iluminado (este roubado da biblioteca pública de Lyon), aceitou as provas da culpa de Libri e devolveu o livro ao embaixador francês em Londres. O Pentateuco foi o único livro que lorde Ashburnham devolveu.
Porém, os cumprimentos que chegaram de todos os lados ao autor de ato tão liberal não o impeliram a repetir a experiência com outros manuscritos de sua biblioteca”, comentou Léopold Delisle, que em 1888 organizou um catálogo do espólio de Libri.
Mas então Libri já virara havia muito tempo a página final de seu último livro roubado. Da Inglaterra foi para a Itália e instalou-se em Fiesole, onde morreu em 28 de setembro de 1869, não reabilitado e pobre. Contudo, no final, teve sua vingança contra os que o acusavam. No ano de sua morte, o matemático Michel Chasles, que fora eleito para ocupar a cadeira de Libri no Instituto, comprou uma incrível coleção de autógrafos que, não tinha dúvida, causariam inveja e lhe dariam fama. Ela incluía cartas de Júlio César.
Pitágoras, Nero, Cleópatra e da esquiva Maria Madalena – todas falsas, revelou-se mais tarde: eram obra do famoso falsificador Vrain-Lucas, a quem Libri pedira que fizesse uma visita ao seu sucessor.
O roubo de livros não era novidade na época de Libri. Escreve Lawrence S. Thompson: “A história da bibliocleptomania remonta aos primórdios das bibliotecas na Europa ocidental e indiscutivelmente pode ser aprofundada no tempo até as bibliotecas gregas e orientais.”
As primeiras bibliotecas romanas eram compostas em larga medida por volumes gregos, pois os romanos haviam saqueado totalmente a Grécia. A Biblioteca Real Macedônia, a biblioteca de Mitridates do Ponto, a de Apelicão de Teos (mais tarde usada por Cícero) foram todas pilhadas pelos romanos e transferidas para solo romano. Os primeiros séculos cristãos não foram poupados: o monge copta Pacômio, que montara uma biblioteca em seu mosteiro de Tabennisi, no Egito, nas primeiras décadas do século III, fazia um inventário todas as noites para conferir se todos os livros tinham sido devolvidos.
Em seus ataques à Inglaterra anglo-saxônica, os vikings roubavam manuscritos iluminados dos monges, provavelmente por causa do ouro nas encadernações. Um desses volumes, o Codex aureus, roubado em algum momento do século XI, foi resgatado pelos seus donos originais porque os ladrões não encontraram mercado para aquela preciosidade. Ladrões de livros eram uma praga na Idade Média e na Renascença; em 1752, o papa Benedito XIV lançou uma bula segundo a qual os ladrões de livros seriam excomungados.
Outras ameaças eram mais correntes, como prova esta advertência inscrita num valioso tomo renascentista:

O nome de meu senhor acima vês,
Cuida portanto para que não me roubes;
Pois, se o fizeres, sem demora
Teu pescoço... me pagará.
Olha para abaixo e verás
A figura da árvore da forca;
Cuida-te portanto em tempo,
Ou nesta árvore subiras!

Ou esta, inscrita na biblioteca do mosteiro de São Pedro, em Barcelona.

Para aquele que rouba ou toma emprestado e não devolve um livro de seu dono, que o livro se transforme em semente em suas mãos e o envenene.
Que seja atingido por paralisia e todos os seus membros murchem. Que definhe de dor, chorando alto por demência, e que não haja descanso em sua agonia até que mergulhe na desintegração. Que as traças corroam suas entranhas como sinal do Verme que não morreu. E quando finalmente for ao julgamento final, que as chamas do Inferno o sumam para sempre.

Contudo, nenhuma praga parece deter aqueles leitores que, como amantes enlouquecidos, estão decididos a se apropriar de certo livro. A ânsia de possuir um livro, ser seu único dono, é uma espécie de cobiça diferente de todas as outras. “Lemos melhor”, confessou Charles Lamb, contemporâneo de Libri, “um livro que é nosso e que nos é conhecido há tanto tempo que sabemos a topografia de suas manchas e de suas orelhas, e lembramos que ele se sujou quando o lemos durante o chá com bolinhos amanteigados.”
O ato de ler estabelece uma relação íntima, física, da qual todos os sentidos participam: os olhos colhendo as palavras na página, os ouvidos ecoando os sons que estão sendo lidos, o nariz inalando o cheiro familiar de papel, cola, tinta, papelão ou couro, o tato acariciando a página áspera ou suave, a encadernação macia ou dura, às vezes até mesmo o paladar, quando os dedos do leitor são umedecidos na língua (que é como o assassino envenena suas vítimas em O nome da rosa, de Umberto Eco). Tudo isso, muitos leitores não estão dispostos a compartilhar – e se o livro que desejam ler está em posse de outra pessoa, as leis da propriedade tornam-se difíceis de obedecer, assim como as da fidelidade no amor. Ocorre também que a posse física torna-se às vezes sinônimo de um sentimento de apreensão intelectual. Acabamos achando que os livros que possuímos são os livros que conhecemos, como se a posse fosse, em bibliotecas como nas cortes, nove décimos da lei; acabamos achando que olhar para a lombada dos livros que chamamos de nossos, os quais obedientemente montam guarda nas paredes de nossa sala, prontos a falar conosco e somente conosco ao mero adejar das páginas, nos permitisse dizer “tudo isso é meu”, como se a simples presença deles já nos enchesse de sabedoria, sem que precisássemos abrir caminho por seus conteúdos.
Nisso, tenho sido tão culpado quanto o conde Libri. Ainda hoje, afogados como somos em dezenas de edições e milhares de exemplares idênticos do mesmo livro, sei que o volume que tenho nas mãos, aquele volume e nenhum outro, torna-se o Livro. Anotações, manchas, marcas de um tipo ou de outro, um certo momento e lugar caracterizam aquele volume como se fosse um manuscrito inestimável. Podemos relutar em justificar os roubos de Libri, mas o desejo subjacente, o anseio de ser, ao menos por um momento, o único capaz de chamar um livro de meu, é comum a mais homens e mulheres honestos do que talvez estejamos dispostos a reconhecer.

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

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