Estou prestes a me mudar novamente. Em
torno de mim, na poeira secreta de cantos insuspeitos, revelados
agora pelo deslocamento dos móveis, elevam-se pilhas instáveis de
livros, como rochas desgastadas pelo vento numa paisagem desértica.
Enquanto ergo pilha após pilha de volumes familiares (reconheço
alguns pela cor, outros pela forma, muitos por detalhes nas capas,
cujos títulos tento ler de cabeça para baixo ou de um ângulo
esquisito), pergunto-me, como já fiz tantas vezes, por que guardo
tantos livros que sei que não lerei novamente. Digo a mim mesmo que,
sempre que me desfaço de um livro, descubro dias depois que era
exatamente aquele que estava procurando. Digo a mim mesmo que, não
existem livros (ou poucos, muito poucos) em que eu não tenha achado
alguma coisa que me interessasse. Digo a mim mesmo que os trouxe para
dentro de casa por algum motivo e que esse motivo pode surgir
novamente no futuro. Invoco desculpas: meticulosidade, raridade, uma
vaga erudição. Mas sei que a razão principal de me apegar a esse
tesouro sempre crescente é uma espécie de ganância voluptuosa.
Adoro olhar para minhas prateleiras
lotadas, cheias de nomes mais ou menos familiares.
Delicio-me ao saber que estou cercado
por uma espécie de inventário da minha vida, com indicações do
meu futuro. Gosto de descobrir, em volumes quase esquecidos, traços
do leitor que já fui – rabiscos, passagens de ônibus, pedaços de
papel com nomes e números misteriosos, às vezes uma data e um local
na guarda do livro, levando-me de volta a um certo café, a um quarto
de hotel distante, a um verão longínquo. Eu poderia, se precisasse,
abandonar esses livros e começar de novo, em outro lugar; já fiz
isso antes, várias vezes, por necessidade. Mas então tive de
reconhecer também uma perda grave, irreparável. Sei que algo morre
quando abandono meus livros e que minha memória insiste em voltar a
eles com uma nostalgia pesarosa. E agora, com os anos, minha memória
relembra cada vez menos e parece-me uma biblioteca saqueada: muitas
das salas foram fechadas, e, nas que ainda continuam abertas para
consulta, há enormes vazios nas estantes. Pego um dos livros
remanescentes e percebo que várias páginas foram arrancadas por
vândalos. Quanto mais decrépita minha memória, mais quero proteger
esse repositório do que li, essa coleção de texturas, vozes e
odores. A posse desses livros tornou-se fundamental para mim, porque
agora sinto ciúme do passado.
A Revolução Francesa tentou abolir a
noção de que o passado era propriedade de uma única classe. Teve
sucesso pelo menos em um aspecto: de divertimento aristocrático,
colecionar coisas antigas tornou-se um passatempo burguês, primeiro
com Napoleão e seu amor pelos adornos da Roma Antiga, depois com a
república. Na tirada do século XIX, a exibição de bricabraques
bolorentos, de pinturas de mestres antigos, dos primeiros livros
tornou-se uma moda europeia. Floresceram as lojas de curiosidades.
Negociantes de antiguidades acumularam pilhas de tesouros
pré-revolucionários que eram comprados e depois exibidos nos museus
caseiros dos nouveaux riches. "O colecionador",
escreveu Walter Benjamin, "sonha que está não apenas em um
mundo distante ou passado, mas também, ao mesmo tempo, em um mundo
melhor, onde os homens se acham tão desprovidos daquilo que
necessitam quanto no mundo cotidiano, mas onde as coisas estão
livres da obrigação de ser úteis".
Em 1792, o palácio do Louvre foi
transformado em museu para o povo. Dando voz a uma arrogante queixa
contra a noção de um passado comum, o romancista visconde
François-René de Chateaubriand protestou que as obras de arte assim
reunidas "não tinham mais nada a dizer à imaginação nem ao
coração". Quando, poucos anos depois, o artista e antiquário
Alexandre Lenoir fundou o Museu dos Monumentos Franceses para
preservar as estátuas e as pedras de mansões, mosteiros, palácios
e igrejas que a revolução saqueara, Chateaubriand descreveu-o com
desprezo, como “uma coleção de ruínas e túmulos de todos os
séculos, reunidos sem rima ou razão no claustro dos
Petits-Augustins”. Tanto no mundo oficial como no mundo privado dos
colecionadores de ruínas do passado, as críticas de Chateaubriand
foram solenemente ignoradas.
Os livros estavam entre os restos mais
copiosos deixados para trás pela Revolução. As bibliotecas
particulares da França no século XVIII eram tesouros familiares que
a nobreza preservara e ampliara de geração em geração, e os
livros que continham eram tanto símbolos de posição social quanto
de refinamento e postura. Pode-se imaginar o conde d'Hoym, um dos
mais famosos bibliófilos de sua época (morreu aos quarenta anos, em
1736), tirando de uma de suas estantes abarrotadas um volume das
Orações de Cícero, que ele olharia não como mais um entre
as centenas ou milhares de exemplares idênticos impressos e
espalhados por numerosas bibliotecas, mas como um objeto único,
encadernado segundo suas especificações, anotado por seu próprio
punho e marcado pelo brasão da família gravado em ouro.
A partir do final do século XII, os
livros tornaram-se reconhecidos como objetos de comércio, e na
Europa o valor comercial deles estava suficientemente estabelecido
para que os emprestadores de dinheiro os aceitassem como caução;
encontram-se notas registrando tais garantias em numerosos livros
medievais, em especial os pertencentes a estudantes. No século XV, o
negócio tornara-se importante a ponto de os livros serem incluídos
no rol de bens vendidos nas feiras comerciais de Frankfurt e
Nördligen.
Devido à sua raridade, alguns livros
evidentemente eram únicos e alcançavam preços exorbitantes (o raro
Epistolae de Petrus Delphinus, de 1524, foi vendido por mil
livres em 1719 cerca de 30 mil dólares em moeda de hoje), mas a
maioria tinha o valor de objeto pessoal - heranças familiares,
objetos que somente as mãos do dono e de seus filhos jamais
tocariam. Por esse motivo, as bibliotecas tornaram-se um dos alvos
automáticos da Revolução.
As bibliotecas pilhadas do clero e da
aristocracia, símbolos dos “inimigos da república”, acabaram em
enormes depósitos em várias cidades francesas – Paris, Lyon,
Dijon e outras, onde esperavam, sob o ataque da umidade, da poeira,
de insetos e outras pragas, que as autoridades revolucionárias
decidissem seus destinos. O problema de armazenar tamanha quantidade
de livros tornou-se tão sério que as autoridades começaram a
organizar vendas para se livrar de parte do butim. Porém, pelo menos
até a criação do Banco da França como instituição privada, em
1800, a maioria dos bibliófilos franceses (os que não se
encontravam mortos ou exilados) estava empobrecida demais para
comprar os livros e somente estrangeiros, sobretudo ingleses e
alemães, puderam lucrar com a situação.
Para satisfazer essa clientela de
fora, os livreiros começaram a atuar como exploradores e agentes. Em
uma das últimas vendas expurgatórias, feita em Paris em 1816, o
livreiro e editor Jacques-Simon Merlin comprou livros suficientes
para encher do porão ao sótão as duas casas de cinco andares que
adquirira especialmente com esse objetivo. Os volumes, em muitos
casos preciosos e raros, foram vendidos por peso, numa época em que
os livros novos ainda eram muito caros. Por exemplo, nas primeiras
décadas do século XIX, um romance recém-publicado custava um terço
do salário mensal de um trabalhador rural, enquanto uma primeira
edição de Le roman comique, de Paul Scarron (1651), poderia
ser obtida por um décimo dessa quantia.
Os livros que a Revolução confiscara
e que não foram destruídos ou vendidos no exterior acabaram
distribuídos pelas bibliotecas públicas, mas poucos leitores faziam
uso deles.
Durante a primeira metade do século
XIX, as horas de acesso a essas bibliothèques publiques eram
restritas, havia exigências quanto à maneira de trajar de seus
frequentadores – e os livros preciosos novamente acumularam poeira
nas estantes," esquecidos e fechados.
Mas não por muito tempo.
Guglielmo Bruto Icilio Timoleone,
conde Libri-Carucci del a Sommaia, nasceu em Florença, em 1803, numa
antiga e nobre família toscana. Estudou direito e matemática e
tornou-se tão bem-sucedido nessa última matéria que, quando tinha
vinte anos, ofereceram-lhe a cadeira de matemática na Universidade
de Pisa. Em 1830, supostamente sob ameaças da organização
nacionalista dos carbonários, emigrou para Paris e, pouco depois,
tornou-se cidadão francês. Com seu nome retumbante reduzido então
para conde Libri, foi recebido pelos acadêmicos franceses, eleito
membro do Instituto da França, indicado como professor de ciências
na Universidade de Paris e distinguido com a Legião de Honra por
suas credenciais eruditas e intelectuais. Mas Libri tinha outros
interesses além da ciência: desenvolvera uma paixão por livros; em
1840, já possuía uma coleção notável e comerciava com
manuscritos e livros raros impressos.
Duas vezes tentou sem sucesso obter um
cargo na Biblioteca Real. Então, em 1841, foi nomeado secretário de
uma comissão encarregada de supervisionar oficialmente o “catálogo
geral e detalhado de todos os manuscritos, em idiomas antigos e
modernos, existentes hoje em todas as bibliotecas públicas
departamentais”.
Sir Frederic Madden, curador do
Departamento de Manuscritos do Museu Britânico, descreveu assim seu
primeiro encontro com Libri, a 6 de maio de 1846, em Paris: “Pela
aparência externa [ele], parecia jamais ter usado água, sabão ou
escova. A sala na qual fomos introduzidos não tinha mais de cinco
metros de largura, mas estava repleta de manuscritos em prateleiras
que subiam até o teto. As janelas tinham vidraças duplas e um fogo
de carvão e coque queimava na lareira, cujo calor, acrescentado ao
cheiro das pilhas de pergaminhos em volta, era tão insuportável que
me deixou ofegante. O sr. Libri percebeu o incômodo que sofríamos e
abriu uma das janelas, mas dava para perceber que um sopro de ar lhe
era desagradável, e seus ouvidos estavam cheios de algodão, como
para protegê-los dele! O sr. Líbri é uma pessoa um tanto
corpulenta, de feições bem-humoradas mas largas”. O que sir
Frederic não sabia – na época – é que o conde Libri era um dos
mais rematados ladrões de livros de todos os tempos.
De acordo com o mexeriqueiro do século
XVII Tallemant des Réaux, roubar livros não é um crime, exceto se
os livros forem vendidos. O prazer de segurar um volume raro nas
mãos, de virar as páginas que ninguém virará sem nossa permissão,
com certeza movia Libri até certo ponto. Se foi a visão de tantos
livros lindos que inesperadamente tentou o culto bibliófilo, ou se
foi antes o desejo incontrolável por livros que o levou a almejar o
cargo, jamais saberemos. Armado das credenciais oficiais, vestindo
uma enorme capa sob a qual escondia seus tesouros, Libri ganhou
acesso a bibliotecas de toda a França, onde seu conhecimento
especializado lhe permitia descobrir e colher as maravilhas
escondidas. Em Carpentras, Dijon, Grenoble, Lyon, Montpellier,
Orléans, Poitiers e Tours, não somente roubou volumes inteiros,
como cortou páginas que depois exibiu e, às vezes, vendeu. Somente
em Auxerre não concretizou a pilhagem. O obsequioso bibliotecário,
ansioso por agradar o funcionário cujos documentos anunciavam-no
como Monsieur le Secrétaire e Monsieur l'Inspecteur
Général, autorizou de bom grado que Libri trabalhasse à noite
na biblioteca, mas insistiu em colocar um guarda ao seu lado para
atender a qualquer necessidade do cavalheiro.
As primeiras acusações contra Libri
datam de 1846, mas – talvez porque parecessem tão improváveis –
foram ignoradas, e Libri continuou a atacar as bibliotecas. Começou
também a organizar vendas importantes de alguns dos livros roubados,
vendas para as quais preparava catálogos excelentes e detalhados.
Por que esse bibliófilo apaixonado vendia os livros que roubara
correndo tantos riscos? Talvez acreditasse, como Proust, que “o
desejo faz todas as coisas florescerem, a posse as faz murchar”.
Talvez precisasse apenas de alguns poucos e preciosos, selecionados
como as pérolas raras de seu butim. Talvez os tenha vendido por pura
ganância – mas essa é uma suposição muito menos interessante.
Quaisquer que fossem seus motivos, a venda de livros roubados não
podia mais ser ignorada. As acusações acumularam-se e, um ano
depois, o promotor público iniciou investigações discretas - que
foram abafadas pelo presidente do Conselho Ministerial, o sr Guizot,
amigo de Libri e testemunha de seu casamento. É provável que o
assunto tivesse morrido se a Revolução de 1848, que acabou com a
Monarquia de Julho e proclamou a Segunda República, não tivesse
descoberto o dossiê de Libri escondido na escrivaninha de Guizot.
Libri foi avisado e fugiu com a esposa para a Inglaterra, não sem
levar consigo dezoito caixas de livros avaliados em 25 mil francos.
Na época, um trabalhador especializado ganhava cerca de quatro
francos por dia.
Muitos políticos, artistas e
escritores manifestaram-se (em vão) em defesa de Libri.
Alguns haviam lucrado com suas
maquinações e não queriam se comprometer no escândalo; outros
tinham reconhecido nele um estudioso honrado e não queriam passar
por bobos. O escritor Prosper Mérimée, em particular, foi um
defensor ardente de Libri. O conde mostrara-lhe, no apartamento de um
amigo, o famoso Pentateuco de Tours, um volume iluminado do século
VII; Mérimée, que viajara muito pela França e visitara inúmeras
bibliotecas, observou que viu aquele Pentateuco em Tours; Libri mais
que depressa explicou ao escritor que o que vira fora uma cópia
francesa do original adquirido por ele na Itália. Mérimée
acreditou; escrevendo a Edouard Delessert em 5 de junho de 1848,
insistiu: "Para mim, que sempre disse que o amor por colecionar
leva as pessoas ao crime, Libri é o mais honesto dos colecionadores,
e não conheço ninguém, exceto Libri, que devolveria às
bibliotecas os livros que outros roubaram.” Por fim, dois anos
depois que Libri foi julgado culpado, Mérimée publicou na Revue
des Deux Mondes, uma defesa tão ruidosa de seu amigo que o
tribunal o convocou, acusando-o de desacato.
Sob o peso das provas, Libri foi
condenado in absentia a dez anos de prisão e à perda de seus
cargos públicos. Lorde Ashburnham, que comprara de Libri, por
intermédio do livreiro Joseph Barrois, outro raro Pentateuco
iluminado (este roubado da biblioteca pública de Lyon), aceitou as
provas da culpa de Libri e devolveu o livro ao embaixador francês em
Londres. O Pentateuco foi o único livro que lorde Ashburnham
devolveu.
“Porém, os cumprimentos que
chegaram de todos os lados ao autor de ato tão liberal não o
impeliram a repetir a experiência com outros manuscritos de sua
biblioteca”, comentou Léopold Delisle, que em 1888 organizou um
catálogo do espólio de Libri.
Mas então Libri já virara havia
muito tempo a página final de seu último livro roubado. Da
Inglaterra foi para a Itália e instalou-se em Fiesole, onde morreu
em 28 de setembro de 1869, não reabilitado e pobre. Contudo, no
final, teve sua vingança contra os que o acusavam. No ano de sua
morte, o matemático Michel Chasles, que fora eleito para ocupar a
cadeira de Libri no Instituto, comprou uma incrível coleção de
autógrafos que, não tinha dúvida, causariam inveja e lhe dariam
fama. Ela incluía cartas de Júlio César.
Pitágoras, Nero, Cleópatra e da
esquiva Maria Madalena – todas falsas, revelou-se mais tarde: eram
obra do famoso falsificador Vrain-Lucas, a quem Libri pedira que
fizesse uma visita ao seu sucessor.
O roubo de livros não era novidade na
época de Libri. Escreve Lawrence S. Thompson: “A história da
bibliocleptomania remonta aos primórdios das bibliotecas na Europa
ocidental e indiscutivelmente pode ser aprofundada no tempo até as
bibliotecas gregas e orientais.”
As primeiras bibliotecas romanas eram
compostas em larga medida por volumes gregos, pois os romanos haviam
saqueado totalmente a Grécia. A Biblioteca Real Macedônia, a
biblioteca de Mitridates do Ponto, a de Apelicão de Teos (mais tarde
usada por Cícero) foram todas pilhadas pelos romanos e transferidas
para solo romano. Os primeiros séculos cristãos não foram
poupados: o monge copta Pacômio, que montara uma biblioteca em seu
mosteiro de Tabennisi, no Egito, nas primeiras décadas do século
III, fazia um inventário todas as noites para conferir se todos os
livros tinham sido devolvidos.
Em seus ataques à Inglaterra
anglo-saxônica, os vikings roubavam manuscritos iluminados dos
monges, provavelmente por causa do ouro nas encadernações. Um
desses volumes, o Codex aureus, roubado em algum momento do
século XI, foi resgatado pelos seus donos originais porque os
ladrões não encontraram mercado para aquela preciosidade. Ladrões
de livros eram uma praga na Idade Média e na Renascença; em 1752, o
papa Benedito XIV lançou uma bula segundo a qual os ladrões de
livros seriam excomungados.
Outras ameaças eram mais correntes,
como prova esta advertência inscrita num valioso tomo renascentista:
O nome de meu senhor acima vês,
Cuida portanto para que não me
roubes;
Pois, se o fizeres, sem demora
Teu pescoço... me pagará.
Olha para abaixo e verás
A figura da árvore da forca;
Cuida-te portanto em tempo,
Ou nesta árvore subiras!
Ou esta, inscrita na biblioteca do
mosteiro de São Pedro, em Barcelona.
Para aquele que rouba ou toma
emprestado e não devolve um livro de seu dono, que o livro se
transforme em semente em suas mãos e o envenene.
Que seja atingido por paralisia e
todos os seus membros murchem. Que definhe de dor, chorando alto por
demência, e que não haja descanso em sua agonia até que mergulhe
na desintegração. Que as traças corroam suas entranhas como sinal
do Verme que não morreu. E quando finalmente for ao julgamento
final, que as chamas do Inferno o sumam para sempre.
Contudo, nenhuma praga parece deter
aqueles leitores que, como amantes enlouquecidos, estão decididos a
se apropriar de certo livro. A ânsia de possuir um livro, ser seu
único dono, é uma espécie de cobiça diferente de todas as outras.
“Lemos melhor”, confessou Charles Lamb, contemporâneo de Libri,
“um livro que é nosso e que nos é conhecido há tanto tempo que
sabemos a topografia de suas manchas e de suas orelhas, e lembramos
que ele se sujou quando o lemos durante o chá com bolinhos
amanteigados.”
O ato de ler estabelece uma relação
íntima, física, da qual todos os sentidos participam: os olhos
colhendo as palavras na página, os ouvidos ecoando os sons que estão
sendo lidos, o nariz inalando o cheiro familiar de papel, cola,
tinta, papelão ou couro, o tato acariciando a página áspera ou
suave, a encadernação macia ou dura, às vezes até mesmo o
paladar, quando os dedos do leitor são umedecidos na língua (que é
como o assassino envenena suas vítimas em O nome da rosa, de
Umberto Eco). Tudo isso, muitos leitores não estão dispostos a
compartilhar – e se o livro que desejam ler está em posse de outra
pessoa, as leis da propriedade tornam-se difíceis de obedecer, assim
como as da fidelidade no amor. Ocorre também que a posse física
torna-se às vezes sinônimo de um sentimento de apreensão
intelectual. Acabamos achando que os livros que possuímos são os
livros que conhecemos, como se a posse fosse, em bibliotecas como nas
cortes, nove décimos da lei; acabamos achando que olhar para a
lombada dos livros que chamamos de nossos, os quais obedientemente
montam guarda nas paredes de nossa sala, prontos a falar conosco e
somente conosco ao mero adejar das páginas, nos permitisse dizer
“tudo isso é meu”, como se a simples presença deles já nos
enchesse de sabedoria, sem que precisássemos abrir caminho por seus
conteúdos.
Nisso, tenho sido tão culpado quanto
o conde Libri. Ainda hoje, afogados como somos em dezenas de edições
e milhares de exemplares idênticos do mesmo livro, sei que o volume
que tenho nas mãos, aquele volume e nenhum outro, torna-se o Livro.
Anotações, manchas, marcas de um tipo ou de outro, um certo momento
e lugar caracterizam aquele volume como se fosse um manuscrito
inestimável. Podemos relutar em justificar os roubos de Libri, mas o
desejo subjacente, o anseio de ser, ao menos por um momento, o único
capaz de chamar um livro de meu, é comum a mais homens e mulheres
honestos do que talvez estejamos dispostos a reconhecer.
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

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