O que apanha bate
O símbolo da autoridade, trança de
couro, ponta de corda, assovia no ar e morde. Arranca em tiras a pele
e rasga a carne.
Despido, amarrado à pedra do
suplício, aguenta o castigo Cristóbal de León Mullohuamani,
cacique da comunidade de Omapacha. Os gemidos se sucedem no ritmo do
chicote.
Da cela ao cepo, do cepo ao açoite,
vive o cacique em agonia. Ele ousou protestar ante o vice-rei de Lima
e não entregou os índios que devia: por sua culpa faltaram braços
para levar vinho das planícies a Cuzco e para fiar e tecer roupa
como o corregedor mandou.
O verdugo, um escravo negro,
descarrega o chicote com vontade. Essas costas não são piores nem
melhores que qualquer outra.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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