segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

1612 – São Pedro de Omapacha

O que apanha bate

O símbolo da autoridade, trança de couro, ponta de corda, assovia no ar e morde. Arranca em tiras a pele e rasga a carne.
Despido, amarrado à pedra do suplício, aguenta o castigo Cristóbal de León Mullohuamani, cacique da comunidade de Omapacha. Os gemidos se sucedem no ritmo do chicote.
Da cela ao cepo, do cepo ao açoite, vive o cacique em agonia. Ele ousou protestar ante o vice-rei de Lima e não entregou os índios que devia: por sua culpa faltaram braços para levar vinho das planícies a Cuzco e para fiar e tecer roupa como o corregedor mandou.
O verdugo, um escravo negro, descarrega o chicote com vontade. Essas costas não são piores nem melhores que qualquer outra.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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