quinta-feira, 5 de março de 2026
Os ombros suportam o mundo
Chega um tempo em que não se diz
mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu
amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude
trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não
abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem
enormes.
És todo certeza, já não sabes
sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é
a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma
criança.
As guerras, as fomes, as discussões
dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta
morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma
ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
Carlos Drummond de Andrade, em Sentimento do Mundo
A bela cena
Tomas, personagem de A
insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, não conhecia a
experiência da paixão. O que ele conhecia eram os prazeres do sexo.
Esgotada a orgia, o seu desejo era se livrar da mulher. A ideia de
acordar com uma mulher ao lado o horrorizava. O seu horror ao amor
era tal que nunca permitia que uma mulher dormisse na sua cama.
Encontrava sempre uma desculpa para se livrar da companheira,
levando-a de volta à casa dela. Ele se parecia com o sultão de As
mil e uma noites, que, depois de uma noite de prazeres carnais,
quando o sol iluminava o horizonte, fazia com que a amante fosse
decapitada... Era assim que Tomas agia, como um animal caçador que
abandona a caça tão logo sua fome é satisfeita.
Mas com Tereza tudo foi diferente. Não
que ela tivesse algum traço especial, que a distinguisse das outras.
Não era mais bonita. Por que Tomas a amou e deixou que ela passasse
a noite na cama dele? Por mais que a examinasse, nada encontrava nela
que pudesse ser apontado como a razão do seu amor. Eles se conheciam
por um tempo tão curto! Mas, sem razões e contra a sua vontade, o
fato era que ele estava apaixonado por ela.
Sua aventura com Tereza havia começado
exatamente onde terminavam suas aventuras com as outras mulheres. Ela
acontecera do outro lado do impulso que o levava às conquistas.
Conhecera Tereza acidentalmente, num bar de uma cidadezinha do
interior. Dissera-lhe, quase como brincadeira, que o procurasse se
fosse à capital. E lhe dera o seu endereço. Tereza chegou à
capital doente, sentindo-se perdida. Não tinha para onde ir. Foi
isso que a levou a procurar Tomas. E foi aí que a história de amor
começou.
Ela ardia em febre. Ele não podia
fazer com ela aquilo que fazia com as outras. Não podia levá-la de
volta para casa, porque ela não tinha casa. Ajoelhado à sua
cabeceira, “ocorrera-lhe a ideia de que ela viera para ele numa
cesta sobre as águas”.
Agora, a distância, pensava sobre as
razões do seu amor e fazia, sem que disso se desse conta, a insólita
pergunta de Santo Agostinho: “o que é que amo quando amo Tereza?”.
Tudo se tornou claro de repente. Ele ficou comovido pela fragilidade
de Tereza adormecida – criança amedrontada, chegando aos seus
braços com um pedido de socorro.
A mulher não resiste à voz do que
chama sua alma amedrontada; o homem não resiste à mulher cuja alma
se torna atenta à sua voz. Parece que existe no cérebro uma zona
específica, que poderíamos chamar de memória poética, que
registra o que nos encantou, o que nos comoveu, o que dá beleza à
nossa vida. Desde que Tomas conhecera Tereza, nenhuma outra mulher
tinha o direito de deixar a marca, por efêmera que fosse, nessa zona
do seu cérebro.
Agora, na memória poética de Tomas,
aquela cena permanecia imóvel, imperturbável, fora do tempo. Era
uma parte da sua alma. Não morreria jamais.
“O que é que amo quando te amo?”
Tomas amava Tereza porque amava nela uma outra coisa: aquela cena que
repentinamente brilhara em sua imaginação. Na cena, Tereza não era
Tereza; era uma criança abandonada, levada pelas águas de um rio.
E, de repente, ele deixou de ser Tomas, o caçador – tornou-se um
homem forte, que tomava aquela criança nos braços. Tereza poderia
deteriorar-se ou morrer. Mas a cena permaneceria inalterada, suspensa
na memória poética, como objeto de amor.
Amamos a bela cena antes de amar a
pessoa. Amamos a pessoa porque ela completa a bela cena. Por isso
Santo Agostinho, antecedendo os versos de Fernando Pessoa, escreveu
em suas Confissões: “antes que te conhecesse eu já te
amava”. Somos amantes antes de nos encontrar com a mulher ou com o
homem que será o objeto do nosso amor. A alma é uma coleção de
belos quadros adormecidos, seus rostos envoltos pelas sombras. Sua
beleza é triste e nostálgica porque, sendo moradores da alma ao
lado dos sonhos, eles não existem do lado de fora. Vez por outra,
entretanto, defrontamo-nos com um rosto – ou apenas uma voz, um
olhar, um gesto com a mão... – que, sem razões, ilumina um dos
quadros que estava no escuro. Somos então possuídos pela certeza de
que esse rosto que os olhos veem é o mesmo que está no quadro que
mora nas sombras da alma. O corpo estremece. A paixão está
nascendo.
Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado
A borboleta
Cada vez que o poeta cria uma borboleta, o leitor exclama: “Olha uma borboleta!” O crítico ajusta os nasóculos e, ante aquele pedaço esvoaçante de vida, murmura: — Ah! sim, um lepidóptero.
Mário Quintana, em Caderno H
Capítulo 15 – O Despertar (excerto)
Garota, acorde! Garota, volte para
a sua luta! Garota, recupere o seu poder! Garota, comece a agir como
se fosse a filha de um Rei e houvesse sempre uma coroa na sua cabeça.
Mesmo doente, eu ainda era Dele! Mesmo morta, eu ainda era Dele. Você
sabe quem eu sou?
— SARAH JAKES ROBERTS
[...]
Morte, vida adulta, responsabilidades.
Todas as coisas que nunca estudei na faculdade e sobre as quais
ninguém fala. E em meio a tudo isso, o trabalho e os testes aos
poucos começaram a aparecer. Não há páginas ou capacidade de
memória suficientes para explicar os testes. O produtor de elenco
contratado liga para um agente de acordo com as necessidades do
filme, do programa de TV ou da peça em questão. Caso você se
encaixe na descrição, se tiver a visibilidade que o projeto requer
e se a sua agência for poderosa o bastante, será chamado para um
teste.
Naquela época, quase todos os papéis
para os quais eu me encaixava eram de mães com alguma dependência
química. Meu agente me enviava outros. Papéis de atriz negra
descrita como “bonita” ou “atraente”. Eu usava maquiagem,
arrumava meu cabelo e nunca conseguia os papéis, mesmo que os
produtores fossem negros. Aceitava os trabalhos que me eram dados.
Voltei à Trinity Rep e atuei em duas peças. Fui trabalhar no
Guthrie Theater com a famosa diretora JoAnne Akalaitis em uma peça
chamada The Rover, de Aphra Behn. Voltei à Trinity Rep para
atuar em Um conto de Natal, de Dickens, e em Red Noses,
de Peter Barnes. Foi durante Red Noses que recebi uma ligação
do meu agente em Nova York a respeito de Seven Guitars, de
August Wilson. O incrível Lloyd Richards ia dirigir. Fiquei muito
animada. A peça seria exibida na Broadway, mas, antes seria
desenvolvida no Goodman Theatre, em Chicago, na Huntington Theatre
Company, em Boston, no A.C.T. (American Conservatory Theater), em São
Francisco, e no Ahmanson Theatre, em Los Angeles. Estrearíamos um
ano depois no Walter Kerr Theatre, em Nova York.
Estudei o roteiro à exaustão. A
personagem era Vera. Ela tinha levado um fora do namorado, Floyd
Barton, que, enquanto estava na cadeia, gravou uma canção que virou
um sucesso. Agora ele estava saindo da prisão e me queria ao seu
lado. Era uma linda cena de mágoa, dor, saudade, amor. Era eu. Não
foi preciso muito para me conectar àquela parte de mim mesma. Estava
bastante nervosa para o teste, mas ao mesmo tempo muito empolgada.
Era algo importante. Peguei o trem para Nova York. Já tinha tudo
memorizado. Na época, não decorava todas as falas da maioria dos
testes de teatro porque as cenas tinham muitas páginas.
Uma audição de TV/cinema costumava
ter uma página ou duas. Uma audição de teatro podia ter nove, dez
ou mais. Quando eu recebia o roteiro de última hora, precisando
estudar o personagem, a peça e o contexto, às vezes sobrava pouco
tempo para decorar o texto. Mas aquela foi uma das raras ocasiões em
que eu sabia as falas de cor. Desde o início, elas faziam parte de
mim.
Lloyd Richards, o diretor, era um
homem baixinho e calado. Ele tinha dirigido a produção original de
O sol tornará a brilhar, com Sidney Poitier, Ruby Dee, Diana
Sands e Glynn Turman. Eu queria muito aquele trabalho. Nunca fui uma
atriz supercompetitiva, nem tinha coragem de admitir quando queria
alguma coisa. Deixava a vida me levar. Ficava feliz em dizer
simplesmente: “Oi! Isso, meu nome é Viola Davis e sou atriz.”
Mas, naquele dia, eu queria o trabalho. E a produtora de elenco, Meg
Simon, queria que eu conseguisse. Ela me vira entrar e sair de testes
para muitos papéis ao longo dos anos, sem nunca conseguir nada. A
audição começou e eu me sentia bem, mas não incrível. Era uma
cena que terminava com um monólogo sobre como Vera estava raivosa
por ter sido deixada e como Floyd lhe fazia falta. Começava com
raiva e aos poucos se transformava nela se lembrando do quanto sentia
falta dele, do seu toque.
Houve um silêncio.
Lloyd sorriu para mim e disse em tom
suave:
— Quero que você repita a cena.
Desta vez, gostaria que pensasse que ela não quer lidar com esses
sentimentos.
Ele estava me pedindo para segurar a
emoção até que eu não pudesse mais, como naqueles momentos da
vida em que você tenta comunicar um pensamento a uma pessoa querida
e, de repente, uma grande onda de mágoa e vulnerabilidade emerge e a
surpreende. Então repeti a cena. Foi um momento mágico. O momento
que requer preparação, mas também sorte, destino, Deus. É ali que
tudo se alinha. Terminei a cena e Lloyd disse:
— Obrigado.
Peguei o trem de volta para Providence
depois de falar com meu agente e anunciar: “Acho que fui muito
bem.” Tenho a tendência de subestimar meu desempenho em testes. Às
vezes, você acha que fez um ótimo teste, recebe um retorno ótimo,
mas não consegue o papel. Ou descobre que foi bom, mas não
excelente. Ou descobre que, aos olhos do produtor, do diretor, você
foi simplesmente péssimo. É como disse Whoopi Goldberg: “Fui mal
muitas vezes. Fui bem algumas vezes e fui ótima apenas de vez em
quando.”
No dia seguinte, descobri que tinha
conseguido o papel. Chorei. Só chorei duas vezes ao saber que tinha
conseguido um papel. Mas caramba, caramba. Foi o primeiro trabalho
realmente grande da minha carreira, e fiquei feliz demais.
Quando fui escalada para Seven
Guitars, eu tinha entregado meu apartamento em Nova York. Nunca
estava em casa. Estava sempre viajando. Esse é outro aspecto do ramo
sobre o qual ninguém fala. Estar longe de casa ou não ter uma. É
levar uma vida de nômade. A casa onde colocam você se torna seu lar
até não ser mais.
A primeira parada em Chicago foi muito
difícil. As temperaturas chegavam a três graus abaixo de zero.
Passei minhas folgas no sofá com o aquecedor no máximo, mais um
aquecedor portátil e um cobertor enorme por cima de mim. E eu ainda
tremia. Trabalhando em Chicago, minhas alegrias eram a Michigan
Avenue, ir ao supermercado, malhar durante o dia e atuar à noite. Eu
estava feliz. Senti que estava crescendo e mudando de uma forma
surpreendente. Eu me sentia independente e segura.
Seven Guitars teve uma
temporada longa. Fomos da Chicago congelante para a Huntington
Theatre Company, em Boston, que naquela época tinha problema com
ratos. Dá para acreditar? Estávamos relaxando na área comum e um
rato passava correndo! Caramba. O grande ator sul-africano Zakes
Mokae entrou para o elenco — e na época não sabíamos, mas ele
estava nos primeiros estágios do Alzheimer. Ele era um homem lindo,
mas não conseguia lembrar as falas de seu personagem. A coisa ficou
tão ruim em Boston que a produção posicionou quatro pessoas com o
roteiro em vários pontos perto do palco, prontas para gritar as
falas. E falo sério, gritar mesmo.
Até que ele passou a levar o roteiro
para o palco… durante a apresentação… com a plateia presente.
Foi uma situação cruel e difícil, que resume o dito popular de que
“o show não pode parar”. Também ilustra o pensamento de que
tudo pode acontecer em cena quando se está ao vivo no teatro. É uma
preparação que desafia a compreensão. E as coisas só pioraram.
Quando chegamos a São Francisco, Mokae tinha sido dispensado, o que
foi de partir o coração. E um ator chamado Roger Robinson, que era
maravilhoso, foi contratado.
Quando você está numa produção
pré-Broadway, o roteiro vai sofrendo alterações. Ainda há
mudanças no texto, ensaios. Quando estávamos no A.C.T., em São
Francisco, a peça tinha quatro horas de duração e nos
apresentávamos nove vezes por semana em vez de oito. Durante o dia,
ensaiávamos por oito horas. Estávamos exaustos. Nesse tempo,
aprendi a difícil lição do que significa ser um grande produtor. A
energia e a saúde do ator devem ser a prioridade. Ninguém do elenco
vinha dormindo o suficiente. Nós literalmente pegávamos no sono no
palco. Dormi no set enquanto esperava para subir no palco durante um
ensaio técnico. Acordei assustada, sem saber onde estava. Mas também
havia momentos bons, especiais e inesquecíveis. Tommy Hollis, que já
faleceu, interpretava o personagem de Red Carter na peça. Ele era um
verdadeiro homem do campo. Eu o amava.
Passávamos horas conversando à
noite. Falávamos sobre tudo. Reclamávamos do espetáculo.
Conversávamos sobre os comentários das pessoas que tinham ido
assistir. Falávamos dos medos, esperanças, sonhos. Ele me fazia
sanduíches de pescoço de porco com molho picante. Isso mesmo. E eu
comia. Ele deixava sanduíches de peru com farofa de pão de milho e
calda de cranberry na minha porta. Anos mais tarde, depois do 11 de
Setembro, tentei ligar para ele como sempre fazia, mas ninguém
atendeu. Alguns dias depois, tentei ligar para todas as pessoas que
conhecia em Nova York pedindo que alguém fosse ao apartamento dele.
Enfim, Roger Robinson foi até lá. Ele disse que dava para sentir o
cheiro do corpo de Tommy em decomposição quando chegou à porta.
Foi preciso chamar o porteiro para abri-la. Tommy estava morto havia
uma semana. Ele era uma alma linda e conflituosa. Fiquei arrasada.
Quando chegamos a Los Angeles para
apresentar Seven Guitars estávamos em êxtase. Ai, meu Deus.
Todo mundo foi ver o espetáculo — Halle Berry, Angela Bassett,
todo mundo. O caminho até lá foi um saco. Mas quando saímos de Los
Angeles e chegamos a Nova York, em um dia chuvoso no fim de março de
1996, tínhamos uma máquina em perfeito funcionamento. Muita coisa
nesse ramo é anticlimática.
Não é tão glamoroso quanto as
pessoas pensam, e é bem mais solitário. Mas, cara, Broadway? Faz
jus a tudo o que se acredita que esse ramo pode ser. Satisfaz tanto a
parte glamorosa quanto a profissional. Satisfaz a comunidade e a
camaradagem. É um sonho. Mais que o Oscar. Mais que o Emmy. Cada um
desses tem seu lado negativo. A Broadway é tudo o que se imagina;
faz jus a cada pedacinho do sonho.
Houve momentos na minha vida que
fizeram jus às expectativas, como adotar minha bebê — o amor que
você tem por um filho (mesmo quando ele o enlouquece) é tudo,
perfeição absoluta, na minha opinião. Tudo bem, esse é o número
um. O número dois: me casar. Eu amei! Não tive nenhum estresse. Por
isso fiz três cerimônias de casamento com meu marido. Cada uma
delas está entre os dias mais perfeitos de toda a minha vida. Ganhar
um Oscar, um prêmio da Screen Actors Guild — alguns momentos
perfeitos. Mas estrear na Broadway, no dia 28 de março de 1996,
certamente fez jus às expectativas. Foi perfeito. Foi tudo o que
sonhei.
Quando era uma garotinha que sonhava
em ser atriz, eu dizia: “Quero que as pessoas joguem flores para
mim no palco.” Aquela noite de estreia de Seven Guitars na
Broadway foi muito além de fantástica pra caralho. Foi como se
alguém me desse uma grande injeção de adrenalina e da droga mais
feliz do mundo. Há flores no camarim. Você ganha presentes. E então
entra em cena! Nunca vou muito bem na noite de estreia na Broadway.
Estou sempre nervosa demais. Mas não importa. Quando a peça
estreia, os críticos já assistiram. E todas as críticas saem
depois da noite de estreia.
Eu me lembro de estar muito nervosa
devido à ansiedade por tudo que aquilo envolvia. Esperar pelas
críticas e pela forma como a peça será recebida gera essa
sensação. Principalmente quando você trabalhou no espetáculo por
um ano, desenvolvendo-o, fazendo cortes, substituindo atores… etc.
Seven Guitars era exatamente isso, sete personagens em
harmonia. Vera chega ao seu monólogo final. Ela fala sobre uma visão
que teve depois de enterrar Floyd “Schoolboy” Barton, o amor de
sua vida: “(…) Tentei chamar o nome de Floyd, mas nada saía da
minha boca. Parecia que ele havia começado a andar mais rápido. A
única coisa que posso fazer aqui é dizer adeus. Acenei para ele e
ele subiu aos céus.”
Um texto chocante e que eu sabia que
afetaria meus pais, que acreditavam em mitos, espíritos e rituais.
Era uma peça em que não apenas poderiam ver meu trabalho, mas que
tinha uma escrita que era sobre ELES. Ao fim da noite de estreia de
Seven Guitars na Broadway, quando estávamos todos no palco e
as luzes se acenderam, câmeras de televisão focadas no meu rosto,
todos usando smokings e vestidos de gala de pé gritando e aplaudindo
estrondosamente, vi MaMama e papai. Meu pai estava chorando,
aplaudindo, olhando para todo mundo, e eu sabia que seu coração
batia forte no peito. Ele estava lindo, com um smoking preto; sempre
conseguia se arrumar bem. Minha mãe batia palmas descontroladamente.
Eu os hospedara em um hotel em frente ao teatro, e eles estavam muito
felizes. Era um Best Western, mas para eles era como o Four Seasons.
Ter minha família e amigos lá foi tudo com que eu sonhara.
A festa aconteceu no grande salão de
festas no Marriott Marquis. Halle Berry, Laurence Fishburne e outros
atores maravilhosos que sempre admirei estavam lá.
Todo mundo vai à Broadway. Havia um
interfone em cada camarim. Após cada apresentação, o gerente de
palco lá embaixo dizia pelo interfone: “Vanessa Redgrave está
aqui para ver o elenco de Seven Guitars. Denzel e Pauletta
Washington estão aqui para ver o elenco. Barbra Streisand está aqui
para ver Viola Davis, Rosalyn Coleman, Ruben Santiago-Hudson,
Michelle Shay, Tommy Hollis e Keith David.” Todo mundo vai se
encontrar com você. Literalmente. Perdi a conta de com quantas
pessoas falei — produtores, diretores, agentes — enquanto atuei
em Seven Guitars.
Mas antes da noite de estreia, temos
que botar a mão na massa. A recompensa do trabalho vem depois. Lloyd
Richards era muito bom em organizar tudo, em transformar os atores
numa companhia. Ele não se importava com quem tinha o nome anunciado
na fachada, com quem era o ator principal; a atuação enquanto um
negócio não lhe interessava. Ele acreditava que levava muito tempo
para um elenco se tornar uma companhia de atores sincronizados.
Somente no último ensaio em Nova York, quando nos reuniu no palco,
foi que falou sobre sua experiência e como era incrível trabalhar
conosco. Ele enfim nos olhou intensamente e disse, após uma longa
pausa: “Agora vocês são uma companhia!” Lloyd representava os
últimos vestígios da mentalidade vanguardista. Uma mentalidade que
de fato se tornou rara.
Tudo foi merecido. Seven Guitars
foi uma etapa significativa do meu crescimento como atriz. Fez
diferença para então tomar a decisão de me tornar atriz, depois
trabalhar para ser a melhor profissional possível, e enfim pôr à
prova tudo o que eu aprendera. Também me ensinou muito sobre a vida.
Não há palavras para descrever “a porta do palco”. É a porta
do teatro por onde o ator sai depois da performance. Geralmente, as
pessoas da plateia esperam ali para falar com você. Isso não
acontece quando você faz televisão ou cinema.
Muitas vezes só encontramos os fãs
ou críticos quando vamos ao supermercado ou ao shopping. No teatro,
você fica cara a cara com eles toda noite. Aprendi sobre a
generosidade de outros atores, o comprometimento e o apoio da
comunidade. E também já conheci o outro lado. A crueldade e a
inveja sem limites em um ramo de muita corrupção. A inveja é a
mais cruel das emoções. E o que a torna tão cruel é a falta de
domínio.
Apesar do lado bom e do ruim, fui
indicada para os prêmios Tony. Eu assistia à premiação todo ano.
Corria para a escola no dia seguinte e perguntava a todo mundo: “Você
assistiu à cerimônia do Tony ontem à noite?” Mas quase sempre
ficava sozinha nessa; geralmente só eu e meu amigo do ensino médio,
Angelo, é que víamos. Bem, lá estava eu recebendo uma indicação
para um Tony. Fiquei sabendo ao conferir a caixa postal do meu
telefone. Isso foi na época em que precisávamos pagar para ouvir
nossas mensagens. Custava uns seis ou dez dólares por mês. Podíamos
ligar de qualquer número a qualquer hora e ouvir nossas mensagens.
Na manhã das indicações do Tony, fui a Rhode Island relaxar. Mais
tarde, chequei minhas mensagens e havia uma do meu agente, Mark
Schlegel, pedindo que eu ligasse de volta. Quando liguei, ele disse:
— Viola. Você foi indicada ao Tony!
Eu vibrei. Estava em um telefone
público. Vibrei! Peguei um ônibus até a casa dos meus pais e
entrei gritando:
— FUI INDICADA PARA O TONY!
Meus pais e minhas sobrinhas começaram
a gritar:
— Uhuuu, tia!
Eles não sabiam o que aquilo
significava, mas estavam felizes por mim. Pularam ao meu redor. Em um
mundo e em um ramo em que as amizades se transformam, mudam, em que
confiança, amor e lealdade são efêmeros, essa lembrança se
destaca como uma pérola.
Mark, meu agente, me disse:
— Viola, você tem pais incríveis.
Essa afirmação me chocou.
— Tenho?
— Tem, sim — confirmou ele. —
Eles são incríveis.
Perguntei por que ele estava dizendo
isso.
— Estou neste ramo há algum tempo e
já vi muitos pais de atores. Eles acabam se importando mais com eles
mesmos do que com os filhos. Seus pais não são assim nem de longe.
Eles só querem te ver voar. Estão felizes por você.
Foi uma semente plantada que me fez
olhar para os meus pais sob uma luz totalmente diferente. Essa
observação me acordou.
[…]
Viola Davis, in Em Busca de Mim
A criada
Seu nome era Eremita. Tinha dezenove
anos. Rosto confiante, algumas espinhas. Onde estava a sua beleza?
Havia beleza nesse corpo que não era feio nem bonito, nesse rosto
onde uma doçura ansiosa de doçuras maiores era o sinal da vida.
Beleza, não sei. Possivelmente não
havia, se bem que os traços indecisos atraíssem como água atrai.
Havia, sim, substância viva, unhas, carnes, dentes, mistura de
resistências e fraquezas, constituindo vaga presença que se
concretizava porém imediatamente numa cabeça interrogativa e já
prestimosa, mal se pronunciava um nome: Eremita. Os olhos castanhos
eram intraduzíveis, sem correspondência com o conjunto do rosto.
Tão independentes como se fossem plantados na carne de um braço, e
de lá nos olhassem – abertos, úmidos. Ela toda era de uma doçura
próxima a lágrimas.
Às vezes respondia com má-criação
de criada mesmo. Desde pequena fora assim, explicou. Sem que isso
viesse de seu caráter. Pois não havia no seu espírito nenhum
endurecimento, nenhuma lei perceptível. “Eu tive medo”, dizia
com naturalidade. “Me deu uma fome”, dizia, e era sempre
incontestável o que dizia, não se sabe por quê. “Ele me respeita
muito”, dizia do noivo e, apesar da expressão emprestada e
convencional, a pessoa que ouvia entrava num mundo delicado de bichos
e aves, onde todos se respeitam. “Eu tenho vergonha”, dizia, e
sorria enredada nas próprias sombras. Se a fome era de pão – que
ela comia depressa como se pudessem tirá-lo – o medo era de
trovoadas, a vergonha era de falar. Ela era gentil, honesta. “Deus
me livre, não é?”, dizia ausente.
Porque tinha suas ausências. O rosto
se perdia numa tristeza impessoal e sem rugas. Uma tristeza mais
antiga que o seu espírito. Os olhos paravam vazios; diria mesmo um
pouco ásperos. A pessoa que estivesse a seu lado sofria e nada podia
fazer. Só esperar.
Pois ela estava entregue a alguma
coisa, a misteriosa infante. Ninguém ousaria tocá-la nesse momento.
Esperava-se um pouco grave, de coração apertado, velando-a. Nada se
poderia fazer por ela senão desejar que o perigo passasse. Até que
num movimento sem pressa, quase um suspiro, ela acordava como um
cabrito recém-nascido se ergue sobre as pernas. Voltara de seu
repouso na tristeza.
Voltava, não se pode dizer mais rica,
porém mais garantida depois de ter bebido em não se sabe que fonte.
O que se sabe é que a fonte devia ser antiga e pura. Sim, havia
profundeza nela. Mas ninguém encontraria nada se descesse nas suas
profundezas – senão a própria profundeza, como na escuridão se
acha a escuridão. É possível que, se alguém prosseguisse mais,
encontrasse, depois de andar léguas nas trevas, um indício de
caminho, guiado talvez por um bater de asas, por algum rastro de
bicho. E – de repente – a floresta.
Ah, então devia ser esse o seu
mistério: ela descobrira um atalho para a floresta. Decerto nas suas
ausências era para lá que ia. Regressando com os olhos cheios de
brandura e ignorância, olhos completos. Ignorância tão vasta que
nela caberia e se perderia toda a sabedoria do mundo.
Assim era Eremita. Que se subisse à
tona com tudo o que encontrara na floresta seria queimada em
fogueira. Mas o que vira – em que raízes mordera, com que espinhos
sangrara, em que águas banhara os pés, que escuridão de ouro fora
a luz que a envolvera – tudo isso ela não contava porque ignorava:
fora percebido num só olhar, rápido demais para não ser senão um
mistério.
Assim, quando emergia, era uma criada.
A quem chamavam constantemente da escuridão de seu atalho para
funções menores, para lavar roupa, enxugar o chão, servir a uns e
outros.
Mas serviria mesmo? Pois se alguém
prestasse atenção veria que ela lavava roupa – ao sol; que
enxugava o chão – molhado pela chuva; que estendia lençóis –
ao vento. Ela se arranjava para servir muito mais remotamente, e a
outros deuses. Sempre com a inteireza de espírito que trouxera da
floresta. Sem um pensamento: apenas corpo se movimentando calmo,
rosto pleno de uma suave esperança que ninguém dá e ninguém tira.
A única marca do perigo por que
passara era o seu modo fugitivo de comer pão. No resto era serena.
Mesmo quando tirava o dinheiro que a patroa esquecera sobre a mesa,
mesmo quando levava para o noivo em embrulho discreto alguns gêneros
da despensa. A roubar de leve ela também aprendera nas suas
florestas.
Clarice Lispector, em Todos os contos
domingo, 1 de março de 2026
O poeta, ao espelho, barbeando-se
o rito
do dia
o rictus
do dia
o risco
do dia
EU?
UE?
olho
por olho
dente
por dente
ruga
por ruga
EU?
UE?
o fio
da barba
o fio
da navalha
a vida
por um fio
EU?
UE?
mas a barba
feita
a máscara
refeita
mais um dia
aceita
EU
EU
José Paulo Paes, em Antologia Poética
Eu falando, ficava sendo
[...]
Real, mudando o propósito ― e para
que isto bem se entenda. Fio que me aprovaram. Divertidos, todos;
quem é que ia me contrariar? Eu era senhor dali e daqui! eu falando,
ficava sendo. Do Demo, mesmo, não tirei noção. Agora eu estava com
outra pressa. ― Desapeiem o homem, mandemos embora, que se vá! ―
em ato ordenei. Até porque ele se cessava sem entendimento das
coisas, sem ação. Transes que em instante temi! aquele homem
morresse, roqueado no medo, rebaixado dessa forma ― então, ah, aí,
então, o destino de lugar, para mim, estava definitivo! só sendo
nas extremas do fim do Inferno... Com jeito, com asco, uns dos meus
cumpriram meu mandado, desamontaram o homem, e o homem quase nem se
impunha de ficar em pé. ― Tu foge fora daqui, tu te vai embora! ―
eu disse, tive de gritar. Aí ele entendeu, e saíu. Por um momento,
pensei que fosse correr. Mas esbarrou, sem espiar para trás. Agora
era que achava pranto, com bem de choro: estava chorando soluços
fortes, igual se fosse criança pequena. Aquilo não tinha nenhuma
sensatez e me dava gastura, astúcia que remexia com minhas
resistências. Aborrecidos, os do meu pessoal gritaram com ele, que
tornou a pegar a correr, ao tom dos brados. Ainda esbarrou, outra
vez, devia de estar chorando, conforme os ombros dele se sacudiam.
Arrochei. Assim foi em arrebrusco: sobreveio em mim a estúrdia
arfagem de chorar também ― eu nas margens do mar. Não quis e nem
pude. Ânsia que meus olhos, para dentro, davam em escuro. As graças
d arte ― sabe o senhor ―: na escuridão, não se chora, por não
se ver, como não se pita cigarro... Com isso, desgostei de mim. Ah,
no final da vez, o que ria o riso principal era ele, o demo. O
Tisnado! Assim, por causa da judiação que eu, mesmo por querer
salvar a vida dele, eu tinha procedido de demorar assim, com aquele
homem. Antes tivesse logo matado. Como é que se podia desrespeitar
tudo desse jeito, numa desgraçada pessoa, roupeada? Como é? E o
homem não tinha vislumbrado de espiar para trás, para saber de sua
cachorrinha. E a cachorrinha estava ali, bem amarrada na dignidade.
Tanto ela não latia mais, que todos tinham se esquecido dela. Agora
eu colhi em mim um estado de desânimo. A ser, que, por conta daquele
homem, por meus desmandos, quem sabe eu ia ter, mais para adiante, de
pagar, com graves castigos?
Algum tempo estava se passando, daí
já tinham desarreado a égua, e o lombilho e os baixeiros botaram
dependurados num galho de árvore de beira estrada. Ali estava aquele
magro animal, preso somentemente no cabresto, que o Fafafa segurava;
assim esperavam que eu desse cabo dela, eu mesmo, ou que mandasse
outro fazer, segundo tinha sido a minha decisão. A cachorrinha,
essa, eu pensei! eu dava para Diadorim, que perto todo o tempo tinha
ficado, calado durante tudo. E, pois, era a hora de minha acertação,
mesmo com a contrariedade. Ao dito, porque eu tinha começado a
desastrada estória, que um final razoável carecia de ter.
Suficiente sacar garrucha, e mirar o tiro na testa da égua, que se
debruçava de pernas abertas, se acabando. A tanto, pois?
Ao que o Fafafa, que não teve poder
em si de se consentir silêncio, virou para mim, e disse! ― Nosso
Chefe, com vênia eu peço! o senhor aceite de eu pagar em dinheiro o
prêço deste inocente animal, que seja poupado... A eguinha não é
de todo ruim...
Aonde que ele disse, outros
secundaram! eu deixasse. Repente meu foi meio irado; porque até o
Fafafa me atravessava. Os demais, a ver que reprovavam minha decisão,
de que a égua se matasse. A gente revoltosa? Ah, não; que, em
seguida, gostei, eu mesmo. Instante em que me prazia ouvir o meu
pessoal discordar daquilo, com a égua, a frio e por fria razão. Do
demo era que eles discordavam! Rapaziada boa, solerte. Só que,
assim, como eles queriam, não estava em meu regulamento resolver.
Vender, não vendia a vida da égua ao Fafafa. Ah, não. Resumi um
recurso, por aí alerta. O que foi como pronunciei!
― Delibero o certo! o primeiro que
eu vi, foi essa égua. Ela tinha de receber a morte... Ah, mas égua
não é gente, não é pessoa que existe. E que? Ah, então, não é
cabível que se mate a égua, por tanto que a minha palavra decidida
era de se matar um homem! Não executo. A alçada da palavra se
perdeu por si e se gastou ― pois não está dito? Acho e dou que o
negócio veio ao terminado.
Verdadeiramente, com alegria, foi que
todos me aprovaram. Ou seja que me admiravam em real, pela esperteza
de toda solução que eu achava; e mesmo nem sabiam que essas minhas
espertezas eram cobradas da manha do Tentador. Contente, tanto, e
descontente, comigo, era que eu estava. Porque essas coisas, de certo
modo, me tiravam o poder do chão. Mas, uma na outra, eu limpei o
seco de minhas mãos.
― Aí , correr alguém, em tempo de
campear outra vez esse homem... ― eu disse. ― Trazer, a modo de
se dar a ele dinheiro, se dar de comer e um café, e tornar a
entregar a ele o que é dele…
Eu falava era por devolver a égua. E
o Suzarte, José Gervásio e Jiribibe, torcendo em galope, foram pelo
homem. A égua, que se soltou, caçava móitas de capim, para pastar.
Com o que, já que se estava por descanso e espera, e se tinha boa
aguada na vereda perto, o Jacaré armou a trempe e coou café.
Sentei, na sombra dum pau-dóce, fiquei ouvindo os gabos que os em
redor de mim me dessem, como arras de procedimentos maiores.
― Tal a tal, o Chefe tira mais
finíssimas artimanhas do que o Zé Bebelo próprio... ― um disse.
― A fé, que determina com a mesma
justiça que Medeiro Vaz... ― outro falou, mais aduloso.
Isso, bom louvo, sossegava a minha
perturbação. Aquela hora, eu estimava meus homens, que vivessem,
que falassem. Mas, para afirmar ideia e respeito de que eu estava em
minha chefia independente, mandei que aquietassem, pelo que eu ia
aproveitar para uma sesta de sonéques. Aprazia escutar o ventinho do
chapadão, com o suave rumor que assopra e faz, nas folhas do
bate-caixa. A cachorrinha, amarrada mesmo, se sujeitava de não
latir: figuro que alguém estava dando a ela pedaços de carne-seca.
Alembro que eu ainda podia caber nesse domingozinho de tranquilidade.
O melhor ― ah, pensei, o melhor de tudo! ― era que o Anhangão
não aparecesse, não se visse porfiando no meio de todos; e que
mesmo o mais certo era d ele, demo, não competir, por não ter
nenhuma existência.
Tirei minha madorna, a pouco. Suzarte,
Jiribibe e José Gervásio já retornavam, com o vazio tido, sem o
resultado algum.
― ...Sujeito se sumiu nesse mundo,
carregando com o rastro, medo dele era medonho... Só achamos o nada
dele... ― assim rendiam explicação. Que é que se podia
remediar? Seguir nossa marcha, sem mais tardanças. A gente largava a
égua ali, acaso algum dia o homem voltava, ou dela por boca de
outros tinha notícia. Amontamos. E a cachorrinha? ― Reinaldo, essa
tu quer? ― perguntei a Diadorim. Meante o que, ele melhor
respondeu! ― Só convém se soltar a coitadinha, de seguro ela vai
se encontrar com onde estiver o dono... E ele mesmo desatou. Valia o
senhor ver o raio de amor que tangeu a cachorrinhazinha! que latiu
suas alegrias e airada correu, sem nenhuma demora, feito fosse para
um pronto destino, há-de asas! Foi ela em longe desaparecer, e nós
tocamos, no caminho contrário. A égua ficou lá, pastando; e o
arreio do homem, como um espantalho, pendurado no ramo de árvore,
até as moscas do campo já se ajuntassem nele.
Do que acontecido, me senti muito
livre. Trotei, adiante. Eu ia, à meia-rédea, não me instava, não
pensava. Será ― mal pergunto eu ao senhor ― que viajei este
sertão com o Outro sendo meu sócio? Vá retro! Mas não tenho modo
de entender como Diadorim estranhou meus semblantes. E por via disso
é que tinha sido a nossa conversação ― por causa do de que agora
lhe dei conta miudamente.
Do que discuti com Diadorim, do que
derradeiro ele me disse, me ficou um retardo. Aquele passo me
envergonhava. Como ser? Eu queria e não queria ouvir ― não queria
e queria. Resto de toda resposta, que tivesse, tinha de ser acusação.
E eu quis. Deu o que me deu, e eu vim, perguntar forçado; sentido,
perguntei:
― O recado mandado, Diadorim, tu
diz.Teu falar no exato, dever de toda lealdade, é que eu a duras
exijo ― o que me reverte!...
― Sou teu amigo. O recado aquele,
Riobaldo, pedi ao arrieiro para dar a uma mulher...
― Ah, então foi para uma moça,
para a filha do fazendeiro da Santa Catarina, que Otacília é, e que
é minha nóiva; será?
― Riobaldo, pois foi. Em que é que
você malda?
Ao que, por praga, eu relutei no
freio. Até o campolino meu cavalo assumiu um espanto. Porque
surpreendi o mundo desequilibrado rústico, o que me pertencia e o
que não me pertencia. Se a vida coisas assim às horas arranja,
então que segurança de si é que a gente tem? Diadorim me olhava.
Diadorim esperou, sempre com serenidade. O amor dele por mim era de
todo quilate: ele não tartameava mais, de ciúme nem de medo. Disse
assim:
― Pedi a ela que rezasse por você,
Riobaldo... Assim pela esperança de saudade que ela tivesse, que não
esbarrasse de rezar, o todo tempo, por costume antigo...
No argame, no esquisito desgosto de
meu espírito, vi que, mesmo antes dele falar, eu já sabia que
aquilo era ― o que ele não evitava de me dizer. Rude que ainda
reperguntei, mesmo assim:
― Ah, não! Ah, você acha que eu
careço de suas rezas orações, por minha ajuda, Diadorim?
― Acho, de manhã à noite,
Riobaldo... Demais. Nem sei mesmo se alguém te botou o malefício...
Tua mãe, mesma, que estivesse viva, achava...
Mor, mor, aí, recebi surto de meu
sangue, forte,no corpo da cara e na beira das orêlhas, e logo doeu
no meu beiço o que eu estava me mordendo, assim para não insultar
Diadorim com nomes que fossem da maior ofensa. Com um tapa na rédea,
eu tirei de perto dele a cara de meu cavalo.
― Acha tua vida, rapaz! Careço é
de menos amizades... ― ainda eu maldisse, me apartando. Ao que bem
pensei! ― Hás-de! Rezas essas, o contra? Atira, tu, em anta, com
chumbo fino... ― e ri mamente. O que era que me transtornava, do
meio para o fim, por essa fraseação?
Sendo que, depois logo, quando
esbarramos a caminhada do dia, eu fiz questão de não querer prosa
nem presenças de ninguém, para que vissem que eu estava pensativo
de projetos, e raivoso. Tristonho. A gente parava no findar do
Chapadão, longe do poente, segundo se ia indo, por meu comando. As
muitas sérias coisas referi comigo, quando eu estava provando a
fresca da tarde.
[…]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas
Uma Dupla do Barulho
Estou em casa, depois de um jogo da
Seleção Brasileira, com dor de cabeça, pensando na chatice em que
o nosso futebol se transformou. Toca o relefone. É Hermínio Bello
de Carvalho, diretamente de São Paulo, em companhia de Dona Neuma da
Mangueira. Conheci Dona Neuma quando tive a honra de desfilar na
Comissão de Frente da Mangueira, que homenageou Carlos Drummond de
Andrade. A escola sagrou-se bicampeã. Sou salgueirense de enfartar,
mas jamais esquecerei do abraço de Dona Neuma e de Dona Zica na
pista, o dia clareando, no Desfile das Campeãs.
Hermínio já me deixou em situações
dificílimas. Uma vez, também em São Paulo, estávamos Hermínio,
Mello Menezes e eu meio de porre, num fim de tarde, dispostos a
aprontar, quando o Mello notou três moças muito engraçadinhas (e,
na aparência, nada ordinárias) na mesa em frente. Paquera vai,
paquera vem, Hermínio fechou a cara:
– Já vi que essas peruas vão
estragar a boêmia.
Procuramos acalmá-lo: que nada,
bobagem, e coisa e tal. As moças vieram pra nossa mesa. O pedaço
que me coube naquele latifúndio mulherístico tinha uns dentes de
fazer botar óculos escuros, uma beleza. Fiz um galanteio. Comparando
os dentinhos dela com pérolas, troço muito original. A jovem
agradeceu e escancarou ainda mais o anúncio luminoso. Hermínio,
friamente, perguntou:
– São naturais ou prótese?
E quando Mello Menezes elogiou os
seios da moreninha, Hermínio repetiu a pergunta. Ora, diante desse
clima, uma delas procurou brincar. Pra descontrair, entende? Disse
pro Hermínio:
– Ainda não sei o seu nome.
Lembram do muxoxo das novelas de
antanho, aquelas bochechas de tédio e descaso e um bico assim, ó?
Pois, é. Hermínio fez uma careta dessas pra coitada e respondeu:
– Chamo-me Valéria.
Eu caí da cadeira e o Mello começou
a chorar. Elas bateram asas, amores paulistanos que poderiam ter
sido, mas não foram.
Pelo telefone, Dona Neuma me deu
várias informações confidenciais sobre, digamos, atributos
anatômicos de Noel Rosa, João da Baiana e de outros monstros
sagrados de nossa música popular. Minha dor de cabeça passou de
tanto rir. Quando o Hermínio apresentava suas despedidas misturadas
com o repertório de Nora Nei fui acometido de curiosidade pouco
elegante e perguntei:
– Estão em São Paulo por quê?
Pra um casamento de bacana, responde
Hermínio. E passou a descrever a festa: trombetas na entrada da
igreja, uma orquestra enorme lá dentro, coro, viadinhos.
– Viadinhos? – estranhei.
E o Hermínio, do alto de sua
sabedoria:
– Tem em todo lugar, meu filho.
Parece criança...
E eis o fecho de ouro: na recepção,
a noiva, uma verdadeira avalanche de rendas, aproximou-se da gloriosa
Dona Neuma.
– Dona Neuma, é uma honra ter a
Mangueira aqui representada pela senhora.
A resposta:
– Brigada, minha filha. Cê tá tão
linda que eu tou até com saudade do meu cabaço.
God save a Estação Primeira!
Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo
Condizente com a razão
Dado esse material, o que pode ser
falado ou feito da maneira mais condizente com a razão? Seja o que
for, falar ou fazer depende de você. Não se justifique dizendo que
foi impedido.
Não suspenderá as lamentações até
que o material que lhe é submetido e apresentado seja tão
valorizado pela sua mente quanto o luxo o é pelos lascivos. Até que
julgue prazerosas as ações adequadas à sua constituição. O poder
de julgá-las assim o acompanha para todo canto.
Perceba: a escolha de se direcionar
não é dada a um cilindro, à água, ao fogo ou a quaisquer entes
governados só pela natureza ou por almas irracionais. São impedidos
de inúmeras maneiras. Por outro lado, a inteligência e a razão
podem escolher transpor os impedimentos, pois foram constituídas
para isso. Note como a razão os transpõe tão facilmente quanto o
fogo ascende, a pedra cai ou um cilindro desce por um plano
inclinado. Não busque mais nada.
Entraves impedem apenas o corpo — um
cadáver. Exceto se assim opinar ou se renunciar à razão, não
esmagam nem danificam. Se esmagassem, quem fosse danificado se
tornaria pior. Mas, ao passo que os demais entes pioram quando são
danificados, o homem se torna melhor e mais elogiável quando emprega
esse “dano” com destreza.
Por fim, recorde-se: se não deteriora
um cidadão genuíno, não deteriora o estado. Se não afeta o
estado, não afeta a lei. Nenhum entrave infringe a lei. Logo, se não
fere a lei, não fere o cidadão ou o estado.
Marco Aurélio, em Meditações
Factótum
6
Na segunda-feira eu estava de ressaca.
Fiz a barba e fui atrás de um anúncio que vi no jornal. Me sentei,
e do outro lado estava o editor, um homem de mangas curtas e
depressões profundas ao redor dos olhos. Parecia que ele não dormia
há uma semana. Lá dentro era frio e escuro. Era a sala de montagem
de um dos dois jornais da cidade, o menor deles. Homens estavam
sentados em mesas sob lâmpadas de leitura, trabalhando com cópias.
— Doze dólares por semana —
propôs ele.
— Tudo bem — respondi —, eu
topo.
Eu trabalhava com um homenzinho gordo
que tinha uma barriga nada saudável. Ele usava um relógio de bolso
antiquado, preso em uma corrente dourada, vestia colete e um boné
verde, tinha lábios grossos e uma expressão carnosa e sombria. As
linhas do rosto não eram interessantes e sequer tinham
personalidade; a cara parecia ter sido dobrada várias vezes e depois
alisada, como se fosse um pedaço de papelão. Usava sapatos
quadrados bregas e mascava tabaco, cuspindo o sumo em uma
escarradeira no chão.
— O sr. Belger — disse ele sobre o
homem que precisava dormir — trabalhou duro para erguer este
jornal. Ele é um bom homem. Estávamos à beira da falência até
ele aparecer.
Ele me deu uma olhada. — Normalmente
dão esse emprego para um estagiário.
Um sapo, pensei, é o que
ele é, isso, sim.
— Quero dizer — explicou —, esse
trabalho costuma ser dado a um estudante. Ele pode estudar enquanto
espera uma ligação. Você estuda?
— Não.
— Esse trabalho em geral é para
quem estuda.
Voltei para a minha sala e sentei.
Estava abarrotada de fileiras e fileiras de gavetas de metal, e
dentro delas ficavam as gravuras em zinco que tinham sido usadas nos
anúncios. Muitas dessas gravuras eram usadas inúmeras vezes. Havia
também muitos tipos – com nomes de clientes e logomarcas. O gordo
gritava “Chinaski!”, e eu ia ver qual anúncio ou que tipo ele
queria. Muitas vezes eu era enviado ao jornal concorrente para pegar
emprestado alguns dos tipos. Eles também pegavam os nossos. Era uma
caminhada agradável, e eu achei um lugar em um beco onde podia tomar
um copo de cerveja por alguns centavos. O gordo não me chamava
muito, e o lugar da cerveja barata se tornou minha distração. O
gordo começou a sentir minha falta. No começo, ele só me olhava
com uma cara desagradável, até que um dia me perguntou:
— Onde você estava?
— Lá fora, tomando uma cerveja.
— Este é um trabalho para
estudantes.
— Eu não sou estudante.
— Vou ter que ter que mandá-lo
embora. Preciso de alguém que esteja aqui com total disponibilidade.
O gordo me levou até o Belger, que
parecia cansado como nunca.
— Este é um trabalho para
estudantes, sr. Belger. Receio que esse homem não se encaixe.
Precisamos de um estudante.
— Está bem — disse Belger. O
gordo saiu todo estufado da sala.
— Quanto te devemos? — perguntou
Belger.
— Cinco dias.
— Certo, leve isso ao RH.
— Ouça, Belger, aquele velho
miserável é nojento.
Belger suspirou. — Jesus, não me
diga?
Desci para o RH.
Charles Bukowski, em Factótum
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
1613 – Londres
Shakespeare
A Companhia de Virgínia está levando
a breca na costa do norte da América, sem ouro nem prata, mas por
toda Inglaterra circulam seus panfletos de propaganda anunciando que
lá os ingleses trocam com os índios pérolas do Céu por pérolas
da terra.
Não faz muito que John Donne
explorava o corpo de sua amante, em um poema, como quem descobre a
América; e Virgínia, o ouro de Virgínia, é o tema central das
festas da boda da princesa Isabel. Em honra da filha do rei,
representa-se uma dança mascarada de George Chapman que gira ao
redor de um grande rochedo de ouro, símbolo de Virgínia ou das
ilusões de seus acionistas: o ouro, chave de todos os poderes,
segredo da vida perseguido pelos alquimistas, filho do sol como a
prata é filha da lua e o cobre nasce de Vênus. Há ouro nas zonas
quentes do mundo, onde o sol semeia, generoso, seus raios.
Nas celebrações do casamento da
princesa, também estreia uma obra de William Shakespeare, A
Tempestade, inspirada no naufrágio de um barco da Companhia de
Virgínia nas Bermudas. O grande criador de almas e maravilhas situa
esta vez seu drama em uma ilha do Mediterrâneo que mais parece do
mar Caribe. Ali o duque Próspero encontra Calibã, filho da bruxa
Sycorax, adoradora do deus dos índios da Patagônia. Calibã é um
selvagem, um desses índios que Shakespeare viu em alguma exibição
de Londres: coisa da escuridão, mais animal que homem, não aprende
outra coisa a não ser amaldiçoar e não tem capacidade de juízo
nem sentido de responsabilidade. Só como escravo, ou atado como um
macaco, poderia encontrar um lugar na sociedade humana, ou seja, a
sociedade europeia, onde não tem nenhum interesse de incorporar-se.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
A palavra
Tanto que tenho falado, tanto que
tenho escrito — como não imaginar que, sem querer, feri alguém?
Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade
surda, ou uma reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de
viver em voz alta.
Às vezes, também a gente tem o
consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou
alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia;
a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.
Agora sei que outro dia eu disse uma
palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve
ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com
naturalidade porque senti no momento — e depois esqueci.
Tenho uma amiga que certa vez ganhou
um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer
o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma
coisa ao piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua
máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum
tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um
pouco alto durante uma transmissão de jogo de futebol... mas o
canário não cantava.
Um dia a minha amiga estava sozinha em
casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven
— e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma
secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno
pássaro cor de ouro?
Alguma coisa que eu disse distraído —
talvez palavras de algum poeta antigo — foi despertar melodias
esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse
que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste
tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse
um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.
Rubem Braga, em Ai de ti, Copacabana
A poesia, a salvação e a vida
Seo Raul tem uma calça azul-pavão
e atravessa a rua de manhã
pra dar risada com o vizinho.
Negro bom.
O azul da calça de seo Raul
parece foi pintado por pintor;
mais é uma cor que uma calça.
Eu fico pensando:
o que é que a calça azul de seo Raul
tem que ver com o momento
em que Pilatos decide a inscrição
JESUS NAZARENUS REX JUDEORUM.
Eu não sei o que é,
mas sei que existe um grão de
salvação
escondido nas coisas deste mundo.
Senão, como explicar:
o rosto de Jesus tem manchas roxas,
reluz o broche de bronze
que prende as capas nos ombros dos
soldados romanos.
O raio fende o céu: amarelo-azul
profundo.
Os rostos ficam pálidos, a cor da
terra,
a cor do sangue pisado.
De que cor eram os olhos do centurião
convertido?
A calça azul de seo Raul
pra mim
faz parte da Bíblia.
Adélia Prado, em O Coração Disparado
O autor como leitor
Uma noite, no primeiro século da era
cristã, Caio Plínio Cecílio Segundo (conhecido pelos futuros
leitores como Plínio, o Jovem, para distingui-lo de seu erudito tio,
Plínio, o Velho, que morreu na erupção do monte Vesúvio em 79
d.C.) saiu de casa de um amigo romano cheio de justificada cólera.
Assim que chegou ao seu gabinete, sentou-se e, para ordenar os
pensamentos (ou talvez de olho no volume de cartas que reuniria e
publicaria mais tarde), escreveu ao advogado Cláudio Restituto sobre
os acontecimentos daquela noite.
“Acabei de sair indignado de uma
leitura na casa de um amigo meu e sinto que preciso escrever-te neste
instante, já que não posso falar-te pessoalmente. O texto que leram
era exatamente polido, de qualquer ângulo que se considere, mas duas
ou três pessoas espirituosas – ou que assim se julgam –
escutaram-no como se fossem surdos-mudos. Em nenhum momento abriram
os lábios, ou moveram as mãos, ou mesmo esticaram as pernas para
mudar de posição. Qual o objetivo dessa conduta e cultura sóbria,
ou, antes, dessa indolência e presunção, dessa falta de tato e bom
senso que leva alguém a passar o dia inteiro sem fazer outra coisa
senão causar desgosto e transformar em inimigo o querido amigo que
se veio ouvir?”
É um pouco difícil para nós, a uma
distância de vinte séculos, compreender a consternação de Plínio.
Em sua época, a leitura feita por autores tornara-se uma cerimônia
social da moda, e, como em qualquer cerimônia, havia uma etiqueta
estabelecida para autores e ouvintes. Dos ouvintes, esperava-se que
oferecessem uma reação crítica, com base na qual o autor
aperfeiçoaria o texto – motivo pelo qual Plínio ficou tão
ultrajado com a impassibilidade da plateia; ele próprio apresentava
às vezes uma primeira versão de um discurso a um grupo de amigos e
depois fazia alterações de acordo com a reação deles. Além
disso, esperava-se que os ouvintes ficassem até o fim da
apresentação, independentemente do tempo que durasse, de forma a
não perder nenhuma parte da obra, e Plínio julgava que quem usava
as leituras como mera diversão social não valia muito mais que um
desordeiro. Escreveu furioso para outro amigo: “A maioria deles
senta-se na sala de espera, perdendo tempo em vez de prestar atenção
e pedindo aos seus servos que lhes digam a toda hora se o leitor
chegou e já leu a introdução, ou se chegou ao fim da leitura.
Somente então, e com a maior relutância, arrastam-se para dentro. E
não ficam muito tempo, e saem antes do fim, alguns tentando escapar
despercebidos, outros saindo sem pejo. [...] Mais louvor e honra
merecem aqueles cujo amor pela escrita e leitura em voz alta não se
deixa afetar pelos maus modos e arrogância da plateia”.
O autor também estava obrigado a
seguir certas regras se quisesse ter sucesso em suas leituras, pois
havia toda espécie de obstáculo a ser superado. Antes de mais nada,
era preciso encontrar um local de leitura apropriado. Homens
abastados imaginavam-se poetas e, em opulentas casas de campo,
recitavam suas obras para um grande número de conhecidos - no
auditorium, uma sala construída especialmente com esse
objetivo.
Alguns desses poetas ricos, como
Ticínio Capito, eram generosos e emprestavam seus auditórios para
as apresentações de outros, mas a maioria desses espaços de
recital era de uso exclusivo dos proprietários. Uma vez reunidos os
amigos no local designado, o autor tinha de encará-los de uma
cadeira colocada sobre um tablado, usando uma toga nova e exibindo
todos os seus anéis. Segundo Plínio, esse costume atrapalhava-o
duplamente: “ele se encontra em grande desvantagem pelo mero fato
de ficar sentado, embora possa ser tão bem-dotado quanto oradores
que ficam de pé” e tem”"os dois principais auxiliares de
sua elocução, isto é, olhos e mãos”, ocupados em segurar o
texto.
As habilidades oratórias eram,
portanto, essenciais. Ao elogiar o desempenho de um leitor, Plínio
observou que “ele mostrou uma versatilidade adequada ao elevar e
baixar o tom e a mesma agilidade na passagem de temas elevados para
inferiores, do simples para o complexo ou de assuntos mais leves para
mais graves. A voz notavelmente agradável foi outra vantagem,
realçada pela modéstia, pelos rubores e pelo nervosismo, que sempre
acrescentam encanto a uma leitura. Não sei por quê, mas a timidez
cai melhor num autor do que a segurança”.
Aqueles que tinham dúvidas sobre suas
habilidades de leitor podiam recorrer a certos estratagemas. O
próprio Plínio, confiante quando lia discursos, mas inseguro sobre
sua capacidade de ler versos, teve a seguinte ideia para uma noitada
de suas poesias, comunicada por carta ao amigo Suetônio, o autor de
Vida dos doze Césares: “Estou planejando fazer uma leitura
informal para alguns amigos e penso em utilizar um de meus escravos.
Não darei grandes mostras de civilidade a meus amigos, pois o homem
que escolhi não é realmente um bom leitor, mas acho que será
melhor do que eu, uma vez que não é tão nervoso. [...] A questão
é: o que devo fazer enquanto ele estiver lendo?
Devo sentar-me quieto e silencioso
como um espectador, ou comportar-me como algumas pessoas e repetir as
palavras dele com meus lábios, olhos e gestos?”. Não sabemos se
Plínio ofereceu naquela noite uma das primeiras apresentações de
leitura labial sincronizada da história.
Muitas dessas leituras devem ter
parecido intermináveis. Plínio compareceu a uma que durou três
dias. (Essa leitura, em particular, não parece tê-lo aborrecido,
talvez porque o leitor anunciara à plateia: “Mas que me importam
os poetas do passado, se conheço Plínio?”.) Indo de várias horas
à metade de uma semana, as leituras públicas tornaram-se quase
inevitáveis para quem quisesse ser conhecido como autor. Horácio
queixava-se de que os leitores educados já não pareciam de fato
interessados nos escritos de um poeta, tendo “transferido todo o
prazer do ouvido para as delícias vazias e fugazes do olho”.
Marcial ficou tão farto de aturar
poetastros ansiosos por ler suas obras em voz alta que desabafou:
Pergunto-te: quem pode suportar
esse afã?
Lês para mim quando estou de pé,
Lês para mim quando estou sentado,
Lês para mim quando estou
correndo,
Lês para mim quando estou cagando.
Plínio, no entanto, aprovava a
leitura dos autores e via nelas os sinais de uma nova idade de ouro
literária. “Dificilmente tivemos um dia em abril em que não
houvesse alguém fazendo uma leitura pública”, observou
satisfeito. “Estou encantado por ver a literatura florescer e o
talento vicejar.” As gerações futuras discordaram do veredicto de
Plínio e decidiram esquecer o nome da maioria desses poetas
declamadores.
Contudo, se fosse destino de alguém
ficar famoso graças a essas leituras públicas, um autor não
precisava mais esperar a morte para ser consagrado. Plínio escreveu
a seu amigo Valério Paulino: “As opiniões divergem, mas minha
ideia de um homem verdadeiramente feliz é aquele que desfruta
antecipadamente de uma boa e duradoura reputação e, confiante no
veredicto da posteridade, vive na certeza da fama que virá”. A
fama no presente era importante para ele. Ficava encantado quando
alguém nas corridas achava que o escritor Tácito (a quem admirava
muito) poderia ser Plínio. “Se Demóstenes teve o direito de se
deleitar quando a velha da Ática o reconheceu com as palavras
‘aquele é Demóstenes’, eu certamente posso ficar contente ao
ver meu nome bem conhecido. Na verdade, estou contente e
admito isso.” Sua obra foi publicada e lida, até mesmo nos confins
de Lugdunum (Lyon). A outro amigo, escreveu: “Não pensei que
houvesse livreiros em Lugdunum, portanto fiquei ainda mais satisfeito
ao saber por sua carta que minhas obras estão à venda. Fico
contente que tenham no exterior a popularidade que conquistaram em
Roma e estou começando a pensar que minha obra deve ser realmente
boa, ao ver que a opinião pública de lugares tão diferentes
concorda sobre ela”. Porém, agradava-lhe muito mais o louvor de
uma plateia de ouvintes do que a aprovação silenciosa de leitores
anônimos.
Plínio sugeriu várias razões pelas
quais a leitura em público constituía um exercício benéfico. A
celebridade era sem dúvida um fator muito importante, mas havia
também o prazer de ouvir a própria voz. Ele justificava essa
autocomplacência observando que a audição de um texto levava a
plateia a comprar a peça publicada, causando assim uma demanda que
satisfaria tanto os autores quanto os editores-livreiros. Na sua
concepção, ler em público era a melhor maneira de um autor obter
público. Na verdade, a leitura pública era em si mesma uma forma
rudimentar de divulgação.
Como observou corretamente Plínio,
ler em público era uma representação, um ato executado por todo o
corpo para que outros percebessem. O autor que lê em público -
naquela época como agora recobra as palavras com certos sons e
interpreta-as com certos gestos; essa performance dá ao texto um tom
que (supostamente) é aquele que o autor tinha em mente no momento da
criação e, portanto, concede ao ouvinte a sensação de estar perto
das intenções do autor; ela dá também ao texto um selo de
autenticidade.
Mas, ao mesmo tempo, a leitura do
autor deturpa o texto, melhorando-o (ou empobrecendo-o) com a
interpretação. O romancista canadense Robertson Davies acrescentava
camadas e mais camadas de caracterização durante as leituras, antes
interpretando do que recitando sua ficção. A romancista francesa
Nathalie Sarraute, ao contrário, lê numa monotonia que não faz jus
aos seus textos líricos. Dylan Thomas cantava sua poesia, batendo
nas tônicas como gongos e deixando pausas enormes. Eliot resmungava
seus poemas como se fosse um vigário rabugento amaldiçoando seu
rebanho.
Ao ser lido para uma plateia, um texto
não é determinado exclusivamente pela relação entre suas
características intrínsecas e aquelas de seu público arbitrário,
sempre diferente, uma vez que os membros desse público não têm
mais a liberdade (como os leitores comuns teriam) de voltar, reler,
retardar e dar ao texto sua própria entonação conotativa. Ao
contrário, ele se torna dependente do autor-intérprete, que assume
o papel de leitor dos leitores, a encarnação presuntiva de cada
membro da plateia cativa da leitura, ensinando-lhes o modo de ler As
leituras de autores podem se tornar profundamente dogmáticas.
As leituras públicas não foram
exclusividade de Roma. Os gregos liam em público. Cinco séculos
antes de Plínio, por exemplo, Heródoto lia sua obra nos festivais
olímpicos, onde se reunia uma grande e entusiástica plateia vinda
de toda a Grécia; evitava-se assim viajar de cidade em cidade. Mas,
no século VI, as leituras públicas cessaram efetivamente, porque
parecia não haver mais um “público educado”. A última
descrição conhecida de uma platéia romana numa leitura pública
está nas cartas do poeta cristão Apolinário Sidônio, escritas na
segunda metade do século V. Àquela altura, como Sidônio lamenta, o
latim tornara-se uma língua especializada, estrangeira, “a
linguagem da liturgia, das chancelarias e de uns poucos eruditos”.
Por ironia, a Igreja cristã, que adotara o latim para difundir o
evangelho entre “todos os homens em todos os lugares”, percebeu
que essa língua se tornara incompreensível para a vasta maioria do
rebanho. O latim passou a ser parte do “mistério” da Igreja, e,
no século XI, apareceu o primeiro dicionário de latim, como forma
de ajudar os estudantes e noviços para quem esse idioma não era
mais a língua materna.
Mas os autores continuaram precisando
do estímulo de um público imediato. No final do século XIII, Daute
sugeria que a “língua vulgar” – isto é, o vernáculo – era
ainda mais nobre que o latim, por três motivos: era a primeira
língua falada por Adão e Eva; era “natural”, enquanto o latim
era “artificial”, pois aprendido apenas nas escolas; e era
universal, uma vez que todos os homens falavam uma língua vulgar e
somente uns poucos sabiam latim. Embora essa defesa da língua vulgar
fosse escrita, paradoxalmente, em latim, é provável que, mais para
o fim da vida, na corte de Guido Novel o da polenta, em Ravena, Dante
tenha lido trechos de sua Comédia na “língua vulgar” que
defendera de forma tão eloquente. O certo é que, nos séculos XIV e
XV, as leituras por autores voltaram a ser comuns; há muitos
exemplos na literatura, tanto secular quanto religiosa.
Em 1309, Jean de Joinville dedicou sua
Vida de são Luís a “vós e vossos irmãos que a ouvirão
ser lida”. No final do século XIV, o historiador francês
Froissart enfrentou tempestades em plena noite durante seis longas
semanas de inverno para ler seu romance Méliador para o
insone conde du Blois. O príncipe e poeta Charles d'Orléans,
aprisionado pelos ingleses em Agincourt, em 1415, escreveu numerosos
poemas durante um longo cativeiro, e, após ser libertado, em 1440,
leu-os para a corte de Blois em noitadas literárias para as quais
outros poetas, como François Villon, eram convidados. La
Celestina, de Fernando de Rojas. deixava claro em sua introdução
de 1499 que a comprida peça (ou romance em forma de peça de teatro)
destinava-se a ser lida em voz alta "quando umas dez pessoas se
reúnem para ouvir essa comédia"; é provável que o autor (de
quem sabemos muito pouco, exceto que era um judeu convertido e pouco
ansioso por chamar para sua obra a atenção da Inquisição) tivesse
apresentado previamente a "comédia" a seus amigos. Em
janeiro de 1507, Ariosto leu seu inacabado Orlando furioso
para a convalescente Isabela Gonzaga, “fazendo com que dois dias se
passassem não somente sem tédio, mas com todo o prazer”. E
Geoffrey Chaucer, cujos livros estão cheios de referências à
literatura lida em voz alta, certamente leu sua obra para uma plateia
atenta.
[…]
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura
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