quinta-feira, 5 de março de 2026

Fabiano do Nascimento & Vittor Santos Orquestra

 

Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
 
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
 
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade, em Sentimento do Mundo

A bela cena



Tomas, personagem de A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera, não conhecia a experiência da paixão. O que ele conhecia eram os prazeres do sexo. Esgotada a orgia, o seu desejo era se livrar da mulher. A ideia de acordar com uma mulher ao lado o horrorizava. O seu horror ao amor era tal que nunca permitia que uma mulher dormisse na sua cama. Encontrava sempre uma desculpa para se livrar da companheira, levando-a de volta à casa dela. Ele se parecia com o sultão de As mil e uma noites, que, depois de uma noite de prazeres carnais, quando o sol iluminava o horizonte, fazia com que a amante fosse decapitada... Era assim que Tomas agia, como um animal caçador que abandona a caça tão logo sua fome é satisfeita.
Mas com Tereza tudo foi diferente. Não que ela tivesse algum traço especial, que a distinguisse das outras. Não era mais bonita. Por que Tomas a amou e deixou que ela passasse a noite na cama dele? Por mais que a examinasse, nada encontrava nela que pudesse ser apontado como a razão do seu amor. Eles se conheciam por um tempo tão curto! Mas, sem razões e contra a sua vontade, o fato era que ele estava apaixonado por ela.
Sua aventura com Tereza havia começado exatamente onde terminavam suas aventuras com as outras mulheres. Ela acontecera do outro lado do impulso que o levava às conquistas. Conhecera Tereza acidentalmente, num bar de uma cidadezinha do interior. Dissera-lhe, quase como brincadeira, que o procurasse se fosse à capital. E lhe dera o seu endereço. Tereza chegou à capital doente, sentindo-se perdida. Não tinha para onde ir. Foi isso que a levou a procurar Tomas. E foi aí que a história de amor começou.
Ela ardia em febre. Ele não podia fazer com ela aquilo que fazia com as outras. Não podia levá-la de volta para casa, porque ela não tinha casa. Ajoelhado à sua cabeceira, “ocorrera-lhe a ideia de que ela viera para ele numa cesta sobre as águas”.
Agora, a distância, pensava sobre as razões do seu amor e fazia, sem que disso se desse conta, a insólita pergunta de Santo Agostinho: “o que é que amo quando amo Tereza?”. Tudo se tornou claro de repente. Ele ficou comovido pela fragilidade de Tereza adormecida – criança amedrontada, chegando aos seus braços com um pedido de socorro.

A mulher não resiste à voz do que chama sua alma amedrontada; o homem não resiste à mulher cuja alma se torna atenta à sua voz. Parece que existe no cérebro uma zona específica, que poderíamos chamar de memória poética, que registra o que nos encantou, o que nos comoveu, o que dá beleza à nossa vida. Desde que Tomas conhecera Tereza, nenhuma outra mulher tinha o direito de deixar a marca, por efêmera que fosse, nessa zona do seu cérebro.

Agora, na memória poética de Tomas, aquela cena permanecia imóvel, imperturbável, fora do tempo. Era uma parte da sua alma. Não morreria jamais.
O que é que amo quando te amo?” Tomas amava Tereza porque amava nela uma outra coisa: aquela cena que repentinamente brilhara em sua imaginação. Na cena, Tereza não era Tereza; era uma criança abandonada, levada pelas águas de um rio. E, de repente, ele deixou de ser Tomas, o caçador – tornou-se um homem forte, que tomava aquela criança nos braços. Tereza poderia deteriorar-se ou morrer. Mas a cena permaneceria inalterada, suspensa na memória poética, como objeto de amor.
Amamos a bela cena antes de amar a pessoa. Amamos a pessoa porque ela completa a bela cena. Por isso Santo Agostinho, antecedendo os versos de Fernando Pessoa, escreveu em suas Confissões: “antes que te conhecesse eu já te amava”. Somos amantes antes de nos encontrar com a mulher ou com o homem que será o objeto do nosso amor. A alma é uma coleção de belos quadros adormecidos, seus rostos envoltos pelas sombras. Sua beleza é triste e nostálgica porque, sendo moradores da alma ao lado dos sonhos, eles não existem do lado de fora. Vez por outra, entretanto, defrontamo-nos com um rosto – ou apenas uma voz, um olhar, um gesto com a mão... – que, sem razões, ilumina um dos quadros que estava no escuro. Somos então possuídos pela certeza de que esse rosto que os olhos veem é o mesmo que está no quadro que mora nas sombras da alma. O corpo estremece. A paixão está nascendo.

Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

O impagável Quino

A borboleta

Cada vez que o poeta cria uma borboleta, o leitor exclama: “Olha uma borboleta!” O crítico ajusta os nasóculos e, ante aquele pedaço esvoaçante de vida, murmura: — Ah! sim, um lepidóptero.

Mário Quintana, em Caderno H

Capítulo 15 – O Despertar (excerto)



Garota, acorde! Garota, volte para a sua luta! Garota, recupere o seu poder! Garota, comece a agir como se fosse a filha de um Rei e houvesse sempre uma coroa na sua cabeça. Mesmo doente, eu ainda era Dele! Mesmo morta, eu ainda era Dele. Você sabe quem eu sou?
SARAH JAKES ROBERTS

[...]

Morte, vida adulta, responsabilidades. Todas as coisas que nunca estudei na faculdade e sobre as quais ninguém fala. E em meio a tudo isso, o trabalho e os testes aos poucos começaram a aparecer. Não há páginas ou capacidade de memória suficientes para explicar os testes. O produtor de elenco contratado liga para um agente de acordo com as necessidades do filme, do programa de TV ou da peça em questão. Caso você se encaixe na descrição, se tiver a visibilidade que o projeto requer e se a sua agência for poderosa o bastante, será chamado para um teste.
Naquela época, quase todos os papéis para os quais eu me encaixava eram de mães com alguma dependência química. Meu agente me enviava outros. Papéis de atriz negra descrita como “bonita” ou “atraente”. Eu usava maquiagem, arrumava meu cabelo e nunca conseguia os papéis, mesmo que os produtores fossem negros. Aceitava os trabalhos que me eram dados. Voltei à Trinity Rep e atuei em duas peças. Fui trabalhar no Guthrie Theater com a famosa diretora JoAnne Akalaitis em uma peça chamada The Rover, de Aphra Behn. Voltei à Trinity Rep para atuar em Um conto de Natal, de Dickens, e em Red Noses, de Peter Barnes. Foi durante Red Noses que recebi uma ligação do meu agente em Nova York a respeito de Seven Guitars, de August Wilson. O incrível Lloyd Richards ia dirigir. Fiquei muito animada. A peça seria exibida na Broadway, mas, antes seria desenvolvida no Goodman Theatre, em Chicago, na Huntington Theatre Company, em Boston, no A.C.T. (American Conservatory Theater), em São Francisco, e no Ahmanson Theatre, em Los Angeles. Estrearíamos um ano depois no Walter Kerr Theatre, em Nova York.
Estudei o roteiro à exaustão. A personagem era Vera. Ela tinha levado um fora do namorado, Floyd Barton, que, enquanto estava na cadeia, gravou uma canção que virou um sucesso. Agora ele estava saindo da prisão e me queria ao seu lado. Era uma linda cena de mágoa, dor, saudade, amor. Era eu. Não foi preciso muito para me conectar àquela parte de mim mesma. Estava bastante nervosa para o teste, mas ao mesmo tempo muito empolgada. Era algo importante. Peguei o trem para Nova York. Já tinha tudo memorizado. Na época, não decorava todas as falas da maioria dos testes de teatro porque as cenas tinham muitas páginas.
Uma audição de TV/cinema costumava ter uma página ou duas. Uma audição de teatro podia ter nove, dez ou mais. Quando eu recebia o roteiro de última hora, precisando estudar o personagem, a peça e o contexto, às vezes sobrava pouco tempo para decorar o texto. Mas aquela foi uma das raras ocasiões em que eu sabia as falas de cor. Desde o início, elas faziam parte de mim.
Lloyd Richards, o diretor, era um homem baixinho e calado. Ele tinha dirigido a produção original de O sol tornará a brilhar, com Sidney Poitier, Ruby Dee, Diana Sands e Glynn Turman. Eu queria muito aquele trabalho. Nunca fui uma atriz supercompetitiva, nem tinha coragem de admitir quando queria alguma coisa. Deixava a vida me levar. Ficava feliz em dizer simplesmente: “Oi! Isso, meu nome é Viola Davis e sou atriz.” Mas, naquele dia, eu queria o trabalho. E a produtora de elenco, Meg Simon, queria que eu conseguisse. Ela me vira entrar e sair de testes para muitos papéis ao longo dos anos, sem nunca conseguir nada. A audição começou e eu me sentia bem, mas não incrível. Era uma cena que terminava com um monólogo sobre como Vera estava raivosa por ter sido deixada e como Floyd lhe fazia falta. Começava com raiva e aos poucos se transformava nela se lembrando do quanto sentia falta dele, do seu toque.
Houve um silêncio.
Lloyd sorriu para mim e disse em tom suave:
Quero que você repita a cena. Desta vez, gostaria que pensasse que ela não quer lidar com esses sentimentos.
Ele estava me pedindo para segurar a emoção até que eu não pudesse mais, como naqueles momentos da vida em que você tenta comunicar um pensamento a uma pessoa querida e, de repente, uma grande onda de mágoa e vulnerabilidade emerge e a surpreende. Então repeti a cena. Foi um momento mágico. O momento que requer preparação, mas também sorte, destino, Deus. É ali que tudo se alinha. Terminei a cena e Lloyd disse:
Obrigado.
Peguei o trem de volta para Providence depois de falar com meu agente e anunciar: “Acho que fui muito bem.” Tenho a tendência de subestimar meu desempenho em testes. Às vezes, você acha que fez um ótimo teste, recebe um retorno ótimo, mas não consegue o papel. Ou descobre que foi bom, mas não excelente. Ou descobre que, aos olhos do produtor, do diretor, você foi simplesmente péssimo. É como disse Whoopi Goldberg: “Fui mal muitas vezes. Fui bem algumas vezes e fui ótima apenas de vez em quando.”
No dia seguinte, descobri que tinha conseguido o papel. Chorei. Só chorei duas vezes ao saber que tinha conseguido um papel. Mas caramba, caramba. Foi o primeiro trabalho realmente grande da minha carreira, e fiquei feliz demais.
Quando fui escalada para Seven Guitars, eu tinha entregado meu apartamento em Nova York. Nunca estava em casa. Estava sempre viajando. Esse é outro aspecto do ramo sobre o qual ninguém fala. Estar longe de casa ou não ter uma. É levar uma vida de nômade. A casa onde colocam você se torna seu lar até não ser mais.
A primeira parada em Chicago foi muito difícil. As temperaturas chegavam a três graus abaixo de zero. Passei minhas folgas no sofá com o aquecedor no máximo, mais um aquecedor portátil e um cobertor enorme por cima de mim. E eu ainda tremia. Trabalhando em Chicago, minhas alegrias eram a Michigan Avenue, ir ao supermercado, malhar durante o dia e atuar à noite. Eu estava feliz. Senti que estava crescendo e mudando de uma forma surpreendente. Eu me sentia independente e segura.
Seven Guitars teve uma temporada longa. Fomos da Chicago congelante para a Huntington Theatre Company, em Boston, que naquela época tinha problema com ratos. Dá para acreditar? Estávamos relaxando na área comum e um rato passava correndo! Caramba. O grande ator sul-africano Zakes Mokae entrou para o elenco — e na época não sabíamos, mas ele estava nos primeiros estágios do Alzheimer. Ele era um homem lindo, mas não conseguia lembrar as falas de seu personagem. A coisa ficou tão ruim em Boston que a produção posicionou quatro pessoas com o roteiro em vários pontos perto do palco, prontas para gritar as falas. E falo sério, gritar mesmo.
Até que ele passou a levar o roteiro para o palco… durante a apresentação… com a plateia presente. Foi uma situação cruel e difícil, que resume o dito popular de que “o show não pode parar”. Também ilustra o pensamento de que tudo pode acontecer em cena quando se está ao vivo no teatro. É uma preparação que desafia a compreensão. E as coisas só pioraram. Quando chegamos a São Francisco, Mokae tinha sido dispensado, o que foi de partir o coração. E um ator chamado Roger Robinson, que era maravilhoso, foi contratado.
Quando você está numa produção pré-Broadway, o roteiro vai sofrendo alterações. Ainda há mudanças no texto, ensaios. Quando estávamos no A.C.T., em São Francisco, a peça tinha quatro horas de duração e nos apresentávamos nove vezes por semana em vez de oito. Durante o dia, ensaiávamos por oito horas. Estávamos exaustos. Nesse tempo, aprendi a difícil lição do que significa ser um grande produtor. A energia e a saúde do ator devem ser a prioridade. Ninguém do elenco vinha dormindo o suficiente. Nós literalmente pegávamos no sono no palco. Dormi no set enquanto esperava para subir no palco durante um ensaio técnico. Acordei assustada, sem saber onde estava. Mas também havia momentos bons, especiais e inesquecíveis. Tommy Hollis, que já faleceu, interpretava o personagem de Red Carter na peça. Ele era um verdadeiro homem do campo. Eu o amava.
Passávamos horas conversando à noite. Falávamos sobre tudo. Reclamávamos do espetáculo. Conversávamos sobre os comentários das pessoas que tinham ido assistir. Falávamos dos medos, esperanças, sonhos. Ele me fazia sanduíches de pescoço de porco com molho picante. Isso mesmo. E eu comia. Ele deixava sanduíches de peru com farofa de pão de milho e calda de cranberry na minha porta. Anos mais tarde, depois do 11 de Setembro, tentei ligar para ele como sempre fazia, mas ninguém atendeu. Alguns dias depois, tentei ligar para todas as pessoas que conhecia em Nova York pedindo que alguém fosse ao apartamento dele. Enfim, Roger Robinson foi até lá. Ele disse que dava para sentir o cheiro do corpo de Tommy em decomposição quando chegou à porta. Foi preciso chamar o porteiro para abri-la. Tommy estava morto havia uma semana. Ele era uma alma linda e conflituosa. Fiquei arrasada.
Quando chegamos a Los Angeles para apresentar Seven Guitars estávamos em êxtase. Ai, meu Deus. Todo mundo foi ver o espetáculo — Halle Berry, Angela Bassett, todo mundo. O caminho até lá foi um saco. Mas quando saímos de Los Angeles e chegamos a Nova York, em um dia chuvoso no fim de março de 1996, tínhamos uma máquina em perfeito funcionamento. Muita coisa nesse ramo é anticlimática.
Não é tão glamoroso quanto as pessoas pensam, e é bem mais solitário. Mas, cara, Broadway? Faz jus a tudo o que se acredita que esse ramo pode ser. Satisfaz tanto a parte glamorosa quanto a profissional. Satisfaz a comunidade e a camaradagem. É um sonho. Mais que o Oscar. Mais que o Emmy. Cada um desses tem seu lado negativo. A Broadway é tudo o que se imagina; faz jus a cada pedacinho do sonho.
Houve momentos na minha vida que fizeram jus às expectativas, como adotar minha bebê — o amor que você tem por um filho (mesmo quando ele o enlouquece) é tudo, perfeição absoluta, na minha opinião. Tudo bem, esse é o número um. O número dois: me casar. Eu amei! Não tive nenhum estresse. Por isso fiz três cerimônias de casamento com meu marido. Cada uma delas está entre os dias mais perfeitos de toda a minha vida. Ganhar um Oscar, um prêmio da Screen Actors Guild — alguns momentos perfeitos. Mas estrear na Broadway, no dia 28 de março de 1996, certamente fez jus às expectativas. Foi perfeito. Foi tudo o que sonhei.
Quando era uma garotinha que sonhava em ser atriz, eu dizia: “Quero que as pessoas joguem flores para mim no palco.” Aquela noite de estreia de Seven Guitars na Broadway foi muito além de fantástica pra caralho. Foi como se alguém me desse uma grande injeção de adrenalina e da droga mais feliz do mundo. Há flores no camarim. Você ganha presentes. E então entra em cena! Nunca vou muito bem na noite de estreia na Broadway. Estou sempre nervosa demais. Mas não importa. Quando a peça estreia, os críticos já assistiram. E todas as críticas saem depois da noite de estreia.
Eu me lembro de estar muito nervosa devido à ansiedade por tudo que aquilo envolvia. Esperar pelas críticas e pela forma como a peça será recebida gera essa sensação. Principalmente quando você trabalhou no espetáculo por um ano, desenvolvendo-o, fazendo cortes, substituindo atores… etc. Seven Guitars era exatamente isso, sete personagens em harmonia. Vera chega ao seu monólogo final. Ela fala sobre uma visão que teve depois de enterrar Floyd “Schoolboy” Barton, o amor de sua vida: “(…) Tentei chamar o nome de Floyd, mas nada saía da minha boca. Parecia que ele havia começado a andar mais rápido. A única coisa que posso fazer aqui é dizer adeus. Acenei para ele e ele subiu aos céus.”
Um texto chocante e que eu sabia que afetaria meus pais, que acreditavam em mitos, espíritos e rituais. Era uma peça em que não apenas poderiam ver meu trabalho, mas que tinha uma escrita que era sobre ELES. Ao fim da noite de estreia de Seven Guitars na Broadway, quando estávamos todos no palco e as luzes se acenderam, câmeras de televisão focadas no meu rosto, todos usando smokings e vestidos de gala de pé gritando e aplaudindo estrondosamente, vi MaMama e papai. Meu pai estava chorando, aplaudindo, olhando para todo mundo, e eu sabia que seu coração batia forte no peito. Ele estava lindo, com um smoking preto; sempre conseguia se arrumar bem. Minha mãe batia palmas descontroladamente. Eu os hospedara em um hotel em frente ao teatro, e eles estavam muito felizes. Era um Best Western, mas para eles era como o Four Seasons. Ter minha família e amigos lá foi tudo com que eu sonhara.
A festa aconteceu no grande salão de festas no Marriott Marquis. Halle Berry, Laurence Fishburne e outros atores maravilhosos que sempre admirei estavam lá.
Todo mundo vai à Broadway. Havia um interfone em cada camarim. Após cada apresentação, o gerente de palco lá embaixo dizia pelo interfone: “Vanessa Redgrave está aqui para ver o elenco de Seven Guitars. Denzel e Pauletta Washington estão aqui para ver o elenco. Barbra Streisand está aqui para ver Viola Davis, Rosalyn Coleman, Ruben Santiago-Hudson, Michelle Shay, Tommy Hollis e Keith David.” Todo mundo vai se encontrar com você. Literalmente. Perdi a conta de com quantas pessoas falei — produtores, diretores, agentes — enquanto atuei em Seven Guitars.
Mas antes da noite de estreia, temos que botar a mão na massa. A recompensa do trabalho vem depois. Lloyd Richards era muito bom em organizar tudo, em transformar os atores numa companhia. Ele não se importava com quem tinha o nome anunciado na fachada, com quem era o ator principal; a atuação enquanto um negócio não lhe interessava. Ele acreditava que levava muito tempo para um elenco se tornar uma companhia de atores sincronizados. Somente no último ensaio em Nova York, quando nos reuniu no palco, foi que falou sobre sua experiência e como era incrível trabalhar conosco. Ele enfim nos olhou intensamente e disse, após uma longa pausa: “Agora vocês são uma companhia!” Lloyd representava os últimos vestígios da mentalidade vanguardista. Uma mentalidade que de fato se tornou rara.
Tudo foi merecido. Seven Guitars foi uma etapa significativa do meu crescimento como atriz. Fez diferença para então tomar a decisão de me tornar atriz, depois trabalhar para ser a melhor profissional possível, e enfim pôr à prova tudo o que eu aprendera. Também me ensinou muito sobre a vida. Não há palavras para descrever “a porta do palco”. É a porta do teatro por onde o ator sai depois da performance. Geralmente, as pessoas da plateia esperam ali para falar com você. Isso não acontece quando você faz televisão ou cinema.
Muitas vezes só encontramos os fãs ou críticos quando vamos ao supermercado ou ao shopping. No teatro, você fica cara a cara com eles toda noite. Aprendi sobre a generosidade de outros atores, o comprometimento e o apoio da comunidade. E também já conheci o outro lado. A crueldade e a inveja sem limites em um ramo de muita corrupção. A inveja é a mais cruel das emoções. E o que a torna tão cruel é a falta de domínio.
Apesar do lado bom e do ruim, fui indicada para os prêmios Tony. Eu assistia à premiação todo ano. Corria para a escola no dia seguinte e perguntava a todo mundo: “Você assistiu à cerimônia do Tony ontem à noite?” Mas quase sempre ficava sozinha nessa; geralmente só eu e meu amigo do ensino médio, Angelo, é que víamos. Bem, lá estava eu recebendo uma indicação para um Tony. Fiquei sabendo ao conferir a caixa postal do meu telefone. Isso foi na época em que precisávamos pagar para ouvir nossas mensagens. Custava uns seis ou dez dólares por mês. Podíamos ligar de qualquer número a qualquer hora e ouvir nossas mensagens. Na manhã das indicações do Tony, fui a Rhode Island relaxar. Mais tarde, chequei minhas mensagens e havia uma do meu agente, Mark Schlegel, pedindo que eu ligasse de volta. Quando liguei, ele disse:
Viola. Você foi indicada ao Tony!
Eu vibrei. Estava em um telefone público. Vibrei! Peguei um ônibus até a casa dos meus pais e entrei gritando:
FUI INDICADA PARA O TONY!
Meus pais e minhas sobrinhas começaram a gritar:
Uhuuu, tia!
Eles não sabiam o que aquilo significava, mas estavam felizes por mim. Pularam ao meu redor. Em um mundo e em um ramo em que as amizades se transformam, mudam, em que confiança, amor e lealdade são efêmeros, essa lembrança se destaca como uma pérola.
Mark, meu agente, me disse:
Viola, você tem pais incríveis.
Essa afirmação me chocou.
Tenho?
Tem, sim — confirmou ele. — Eles são incríveis.
Perguntei por que ele estava dizendo isso.
Estou neste ramo há algum tempo e já vi muitos pais de atores. Eles acabam se importando mais com eles mesmos do que com os filhos. Seus pais não são assim nem de longe. Eles só querem te ver voar. Estão felizes por você.
Foi uma semente plantada que me fez olhar para os meus pais sob uma luz totalmente diferente. Essa observação me acordou.
[…]

Viola Davis, in Em Busca de Mim

A criada

Seu nome era Eremita. Tinha dezenove anos. Rosto confiante, algumas espinhas. Onde estava a sua beleza? Havia beleza nesse corpo que não era feio nem bonito, nesse rosto onde uma doçura ansiosa de doçuras maiores era o sinal da vida.
Beleza, não sei. Possivelmente não havia, se bem que os traços indecisos atraíssem como água atrai. Havia, sim, substância viva, unhas, carnes, dentes, mistura de resistências e fraquezas, constituindo vaga presença que se concretizava porém imediatamente numa cabeça interrogativa e já prestimosa, mal se pronunciava um nome: Eremita. Os olhos castanhos eram intraduzíveis, sem correspondência com o conjunto do rosto. Tão independentes como se fossem plantados na carne de um braço, e de lá nos olhassem – abertos, úmidos. Ela toda era de uma doçura próxima a lágrimas.
Às vezes respondia com má-criação de criada mesmo. Desde pequena fora assim, explicou. Sem que isso viesse de seu caráter. Pois não havia no seu espírito nenhum endurecimento, nenhuma lei perceptível. “Eu tive medo”, dizia com naturalidade. “Me deu uma fome”, dizia, e era sempre incontestável o que dizia, não se sabe por quê. “Ele me respeita muito”, dizia do noivo e, apesar da expressão emprestada e convencional, a pessoa que ouvia entrava num mundo delicado de bichos e aves, onde todos se respeitam. “Eu tenho vergonha”, dizia, e sorria enredada nas próprias sombras. Se a fome era de pão – que ela comia depressa como se pudessem tirá-lo – o medo era de trovoadas, a vergonha era de falar. Ela era gentil, honesta. “Deus me livre, não é?”, dizia ausente.
Porque tinha suas ausências. O rosto se perdia numa tristeza impessoal e sem rugas. Uma tristeza mais antiga que o seu espírito. Os olhos paravam vazios; diria mesmo um pouco ásperos. A pessoa que estivesse a seu lado sofria e nada podia fazer. Só esperar.
Pois ela estava entregue a alguma coisa, a misteriosa infante. Ninguém ousaria tocá-la nesse momento. Esperava-se um pouco grave, de coração apertado, velando-a. Nada se poderia fazer por ela senão desejar que o perigo passasse. Até que num movimento sem pressa, quase um suspiro, ela acordava como um cabrito recém-nascido se ergue sobre as pernas. Voltara de seu repouso na tristeza.
Voltava, não se pode dizer mais rica, porém mais garantida depois de ter bebido em não se sabe que fonte. O que se sabe é que a fonte devia ser antiga e pura. Sim, havia profundeza nela. Mas ninguém encontraria nada se descesse nas suas profundezas – senão a própria profundeza, como na escuridão se acha a escuridão. É possível que, se alguém prosseguisse mais, encontrasse, depois de andar léguas nas trevas, um indício de caminho, guiado talvez por um bater de asas, por algum rastro de bicho. E – de repente – a floresta.
Ah, então devia ser esse o seu mistério: ela descobrira um atalho para a floresta. Decerto nas suas ausências era para lá que ia. Regressando com os olhos cheios de brandura e ignorância, olhos completos. Ignorância tão vasta que nela caberia e se perderia toda a sabedoria do mundo.
Assim era Eremita. Que se subisse à tona com tudo o que encontrara na floresta seria queimada em fogueira. Mas o que vira – em que raízes mordera, com que espinhos sangrara, em que águas banhara os pés, que escuridão de ouro fora a luz que a envolvera – tudo isso ela não contava porque ignorava: fora percebido num só olhar, rápido demais para não ser senão um mistério.
Assim, quando emergia, era uma criada. A quem chamavam constantemente da escuridão de seu atalho para funções menores, para lavar roupa, enxugar o chão, servir a uns e outros.
Mas serviria mesmo? Pois se alguém prestasse atenção veria que ela lavava roupa – ao sol; que enxugava o chão – molhado pela chuva; que estendia lençóis – ao vento. Ela se arranjava para servir muito mais remotamente, e a outros deuses. Sempre com a inteireza de espírito que trouxera da floresta. Sem um pensamento: apenas corpo se movimentando calmo, rosto pleno de uma suave esperança que ninguém dá e ninguém tira.
A única marca do perigo por que passara era o seu modo fugitivo de comer pão. No resto era serena. Mesmo quando tirava o dinheiro que a patroa esquecera sobre a mesa, mesmo quando levava para o noivo em embrulho discreto alguns gêneros da despensa. A roubar de leve ela também aprendera nas suas florestas.

Clarice Lispector, em Todos os contos

domingo, 1 de março de 2026

Xande de Pilares | Ainda Bem

 

O poeta, ao espelho, barbeando-se

o rito
do dia
o rictus
do dia
o risco
do dia

EU?
UE?

olho
por olho
dente
por dente
ruga
por ruga

EU?
UE?

o fio
da barba
o fio
da navalha
a vida
por um fio

EU?
UE?

mas a barba
feita
a máscara
refeita
mais um dia
aceita

EU
EU

José Paulo Paes, em Antologia Poética 

Eu falando, ficava sendo


[...]

Real, mudando o propósito ― e para que isto bem se entenda. Fio que me aprovaram. Divertidos, todos; quem é que ia me contrariar? Eu era senhor dali e daqui! eu falando, ficava sendo. Do Demo, mesmo, não tirei noção. Agora eu estava com outra pressa. ― Desapeiem o homem, mandemos embora, que se vá! ― em ato ordenei. Até porque ele se cessava sem entendimento das coisas, sem ação. Transes que em instante temi! aquele homem morresse, roqueado no medo, rebaixado dessa forma ― então, ah, aí, então, o destino de lugar, para mim, estava definitivo! só sendo nas extremas do fim do Inferno... Com jeito, com asco, uns dos meus cumpriram meu mandado, desamontaram o homem, e o homem quase nem se impunha de ficar em pé. ― Tu foge fora daqui, tu te vai embora! ― eu disse, tive de gritar. Aí ele entendeu, e saíu. Por um momento, pensei que fosse correr. Mas esbarrou, sem espiar para trás. Agora era que achava pranto, com bem de choro: estava chorando soluços fortes, igual se fosse criança pequena. Aquilo não tinha nenhuma sensatez e me dava gastura, astúcia que remexia com minhas resistências. Aborrecidos, os do meu pessoal gritaram com ele, que tornou a pegar a correr, ao tom dos brados. Ainda esbarrou, outra vez, devia de estar chorando, conforme os ombros dele se sacudiam. Arrochei. Assim foi em arrebrusco: sobreveio em mim a estúrdia arfagem de chorar também ― eu nas margens do mar. Não quis e nem pude. Ânsia que meus olhos, para dentro, davam em escuro. As graças d arte ― sabe o senhor ―: na escuridão, não se chora, por não se ver, como não se pita cigarro... Com isso, desgostei de mim. Ah, no final da vez, o que ria o riso principal era ele, o demo. O Tisnado! Assim, por causa da judiação que eu, mesmo por querer salvar a vida dele, eu tinha procedido de demorar assim, com aquele homem. Antes tivesse logo matado. Como é que se podia desrespeitar tudo desse jeito, numa desgraçada pessoa, roupeada? Como é? E o homem não tinha vislumbrado de espiar para trás, para saber de sua cachorrinha. E a cachorrinha estava ali, bem amarrada na dignidade. Tanto ela não latia mais, que todos tinham se esquecido dela. Agora eu colhi em mim um estado de desânimo. A ser, que, por conta daquele homem, por meus desmandos, quem sabe eu ia ter, mais para adiante, de pagar, com graves castigos?
Algum tempo estava se passando, daí já tinham desarreado a égua, e o lombilho e os baixeiros botaram dependurados num galho de árvore de beira estrada. Ali estava aquele magro animal, preso somentemente no cabresto, que o Fafafa segurava; assim esperavam que eu desse cabo dela, eu mesmo, ou que mandasse outro fazer, segundo tinha sido a minha decisão. A cachorrinha, essa, eu pensei! eu dava para Diadorim, que perto todo o tempo tinha ficado, calado durante tudo. E, pois, era a hora de minha acertação, mesmo com a contrariedade. Ao dito, porque eu tinha começado a desastrada estória, que um final razoável carecia de ter. Suficiente sacar garrucha, e mirar o tiro na testa da égua, que se debruçava de pernas abertas, se acabando. A tanto, pois?
Ao que o Fafafa, que não teve poder em si de se consentir silêncio, virou para mim, e disse! ― Nosso Chefe, com vênia eu peço! o senhor aceite de eu pagar em dinheiro o prêço deste inocente animal, que seja poupado... A eguinha não é de todo ruim...
Aonde que ele disse, outros secundaram! eu deixasse. Repente meu foi meio irado; porque até o Fafafa me atravessava. Os demais, a ver que reprovavam minha decisão, de que a égua se matasse. A gente revoltosa? Ah, não; que, em seguida, gostei, eu mesmo. Instante em que me prazia ouvir o meu pessoal discordar daquilo, com a égua, a frio e por fria razão. Do demo era que eles discordavam! Rapaziada boa, solerte. Só que, assim, como eles queriam, não estava em meu regulamento resolver. Vender, não vendia a vida da égua ao Fafafa. Ah, não. Resumi um recurso, por aí alerta. O que foi como pronunciei!
Delibero o certo! o primeiro que eu vi, foi essa égua. Ela tinha de receber a morte... Ah, mas égua não é gente, não é pessoa que existe. E que? Ah, então, não é cabível que se mate a égua, por tanto que a minha palavra decidida era de se matar um homem! Não executo. A alçada da palavra se perdeu por si e se gastou ― pois não está dito? Acho e dou que o negócio veio ao terminado.
Verdadeiramente, com alegria, foi que todos me aprovaram. Ou seja que me admiravam em real, pela esperteza de toda solução que eu achava; e mesmo nem sabiam que essas minhas espertezas eram cobradas da manha do Tentador. Contente, tanto, e descontente, comigo, era que eu estava. Porque essas coisas, de certo modo, me tiravam o poder do chão. Mas, uma na outra, eu limpei o seco de minhas mãos.
Aí , correr alguém, em tempo de campear outra vez esse homem... ― eu disse. ― Trazer, a modo de se dar a ele dinheiro, se dar de comer e um café, e tornar a entregar a ele o que é dele…
Eu falava era por devolver a égua. E o Suzarte, José Gervásio e Jiribibe, torcendo em galope, foram pelo homem. A égua, que se soltou, caçava móitas de capim, para pastar. Com o que, já que se estava por descanso e espera, e se tinha boa aguada na vereda perto, o Jacaré armou a trempe e coou café. Sentei, na sombra dum pau-dóce, fiquei ouvindo os gabos que os em redor de mim me dessem, como arras de procedimentos maiores.
Tal a tal, o Chefe tira mais finíssimas artimanhas do que o Zé Bebelo próprio... ― um disse.
A fé, que determina com a mesma justiça que Medeiro Vaz... ― outro falou, mais aduloso.
Isso, bom louvo, sossegava a minha perturbação. Aquela hora, eu estimava meus homens, que vivessem, que falassem. Mas, para afirmar ideia e respeito de que eu estava em minha chefia independente, mandei que aquietassem, pelo que eu ia aproveitar para uma sesta de sonéques. Aprazia escutar o ventinho do chapadão, com o suave rumor que assopra e faz, nas folhas do bate-caixa. A cachorrinha, amarrada mesmo, se sujeitava de não latir: figuro que alguém estava dando a ela pedaços de carne-seca. Alembro que eu ainda podia caber nesse domingozinho de tranquilidade. O melhor ― ah, pensei, o melhor de tudo! ― era que o Anhangão não aparecesse, não se visse porfiando no meio de todos; e que mesmo o mais certo era d ele, demo, não competir, por não ter nenhuma existência.
Tirei minha madorna, a pouco. Suzarte, Jiribibe e José Gervásio já retornavam, com o vazio tido, sem o resultado algum.
...Sujeito se sumiu nesse mundo, carregando com o rastro, medo dele era medonho... Só achamos o nada dele...  ― assim rendiam explicação. Que é que se podia remediar? Seguir nossa marcha, sem mais tardanças. A gente largava a égua ali, acaso algum dia o homem voltava, ou dela por boca de outros tinha notícia. Amontamos. E a cachorrinha? ― Reinaldo, essa tu quer? ― perguntei a Diadorim. Meante o que, ele melhor respondeu! ― Só convém se soltar a coitadinha, de seguro ela vai se encontrar com onde estiver o dono... E ele mesmo desatou. Valia o senhor ver o raio de amor que tangeu a cachorrinhazinha! que latiu suas alegrias e airada correu, sem nenhuma demora, feito fosse para um pronto destino, há-de asas! Foi ela em longe desaparecer, e nós tocamos, no caminho contrário. A égua ficou lá, pastando; e o arreio do homem, como um espantalho, pendurado no ramo de árvore, até as moscas do campo já se ajuntassem nele.
Do que acontecido, me senti muito livre. Trotei, adiante. Eu ia, à meia-rédea, não me instava, não pensava. Será ― mal pergunto eu ao senhor ― que viajei este sertão com o Outro sendo meu sócio? Vá retro! Mas não tenho modo de entender como Diadorim estranhou meus semblantes. E por via disso é que tinha sido a nossa conversação ― por causa do de que agora lhe dei conta miudamente.
Do que discuti com Diadorim, do que derradeiro ele me disse, me ficou um retardo. Aquele passo me envergonhava. Como ser? Eu queria e não queria ouvir ― não queria e queria. Resto de toda resposta, que tivesse, tinha de ser acusação. E eu quis. Deu o que me deu, e eu vim, perguntar forçado; sentido, perguntei:
O recado mandado, Diadorim, tu diz.Teu falar no exato, dever de toda lealdade, é que eu a duras exijo ― o que me reverte!...
Sou teu amigo. O recado aquele, Riobaldo, pedi ao arrieiro para dar a uma mulher...
Ah, então foi para uma moça, para a filha do fazendeiro da Santa Catarina, que Otacília é, e que é minha nóiva; será?
Riobaldo, pois foi. Em que é que você malda?
Ao que, por praga, eu relutei no freio. Até o campolino meu cavalo assumiu um espanto. Porque surpreendi o mundo desequilibrado rústico, o que me pertencia e o que não me pertencia. Se a vida coisas assim às horas arranja, então que segurança de si é que a gente tem? Diadorim me olhava. Diadorim esperou, sempre com serenidade. O amor dele por mim era de todo quilate: ele não tartameava mais, de ciúme nem de medo. Disse assim:
Pedi a ela que rezasse por você, Riobaldo... Assim pela esperança de saudade que ela tivesse, que não esbarrasse de rezar, o todo tempo, por costume antigo...
No argame, no esquisito desgosto de meu espírito, vi que, mesmo antes dele falar, eu já sabia que aquilo era ― o que ele não evitava de me dizer. Rude que ainda reperguntei, mesmo assim:
Ah, não! Ah, você acha que eu careço de suas rezas orações, por minha ajuda, Diadorim?
Acho, de manhã à noite, Riobaldo... Demais. Nem sei mesmo se alguém te botou o malefício... Tua mãe, mesma, que estivesse viva, achava...
Mor, mor, aí, recebi surto de meu sangue, forte,no corpo da cara e na beira das orêlhas, e logo doeu no meu beiço o que eu estava me mordendo, assim para não insultar Diadorim com nomes que fossem da maior ofensa. Com um tapa na rédea, eu tirei de perto dele a cara de meu cavalo.
Acha tua vida, rapaz! Careço é de menos amizades... ― ainda eu maldisse, me apartando. Ao que bem pensei! ― Hás-de! Rezas essas, o contra? Atira, tu, em anta, com chumbo fino... ― e ri mamente. O que era que me transtornava, do meio para o fim, por essa fraseação?
Sendo que, depois logo, quando esbarramos a caminhada do dia, eu fiz questão de não querer prosa nem presenças de ninguém, para que vissem que eu estava pensativo de projetos, e raivoso. Tristonho. A gente parava no findar do Chapadão, longe do poente, segundo se ia indo, por meu comando. As muitas sérias coisas referi comigo, quando eu estava provando a fresca da tarde.
[…]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

Uma Dupla do Barulho





Estou em casa, depois de um jogo da Seleção Brasileira, com dor de cabeça, pensando na chatice em que o nosso futebol se transformou. Toca o relefone. É Hermínio Bello de Carvalho, diretamente de São Paulo, em companhia de Dona Neuma da Mangueira. Conheci Dona Neuma quando tive a honra de desfilar na Comissão de Frente da Mangueira, que homenageou Carlos Drummond de Andrade. A escola sagrou-se bicampeã. Sou salgueirense de enfartar, mas jamais esquecerei do abraço de Dona Neuma e de Dona Zica na pista, o dia clareando, no Desfile das Campeãs.
Hermínio já me deixou em situações dificílimas. Uma vez, também em São Paulo, estávamos Hermínio, Mello Menezes e eu meio de porre, num fim de tarde, dispostos a aprontar, quando o Mello notou três moças muito engraçadinhas (e, na aparência, nada ordinárias) na mesa em frente. Paquera vai, paquera vem, Hermínio fechou a cara:
Já vi que essas peruas vão estragar a boêmia.
Procuramos acalmá-lo: que nada, bobagem, e coisa e tal. As moças vieram pra nossa mesa. O pedaço que me coube naquele latifúndio mulherístico tinha uns dentes de fazer botar óculos escuros, uma beleza. Fiz um galanteio. Comparando os dentinhos dela com pérolas, troço muito original. A jovem agradeceu e escancarou ainda mais o anúncio luminoso. Hermínio, friamente, perguntou:
São naturais ou prótese?
E quando Mello Menezes elogiou os seios da moreninha, Hermínio repetiu a pergunta. Ora, diante desse clima, uma delas procurou brincar. Pra descontrair, entende? Disse pro Hermínio:
Ainda não sei o seu nome.
Lembram do muxoxo das novelas de antanho, aquelas bochechas de tédio e descaso e um bico assim, ó? Pois, é. Hermínio fez uma careta dessas pra coitada e respondeu:
Chamo-me Valéria.
Eu caí da cadeira e o Mello começou a chorar. Elas bateram asas, amores paulistanos que poderiam ter sido, mas não foram.
Pelo telefone, Dona Neuma me deu várias informações confidenciais sobre, digamos, atributos anatômicos de Noel Rosa, João da Baiana e de outros monstros sagrados de nossa música popular. Minha dor de cabeça passou de tanto rir. Quando o Hermínio apresentava suas despedidas misturadas com o repertório de Nora Nei fui acometido de curiosidade pouco elegante e perguntei:
Estão em São Paulo por quê?
Pra um casamento de bacana, responde Hermínio. E passou a descrever a festa: trombetas na entrada da igreja, uma orquestra enorme lá dentro, coro, viadinhos.
Viadinhos? – estranhei.
E o Hermínio, do alto de sua sabedoria:
Tem em todo lugar, meu filho. Parece criança...
E eis o fecho de ouro: na recepção, a noiva, uma verdadeira avalanche de rendas, aproximou-se da gloriosa Dona Neuma.
Dona Neuma, é uma honra ter a Mangueira aqui representada pela senhora.
A resposta:
Brigada, minha filha. Cê tá tão linda que eu tou até com saudade do meu cabaço.
God save a Estação Primeira!

Aldir Blanc, em Brasil passado a sujo

Condizente com a razão

Dado esse material, o que pode ser falado ou feito da maneira mais condizente com a razão? Seja o que for, falar ou fazer depende de você. Não se justifique dizendo que foi impedido.
Não suspenderá as lamentações até que o material que lhe é submetido e apresentado seja tão valorizado pela sua mente quanto o luxo o é pelos lascivos. Até que julgue prazerosas as ações adequadas à sua constituição. O poder de julgá-las assim o acompanha para todo canto.
Perceba: a escolha de se direcionar não é dada a um cilindro, à água, ao fogo ou a quaisquer entes governados só pela natureza ou por almas irracionais. São impedidos de inúmeras maneiras. Por outro lado, a inteligência e a razão podem escolher transpor os impedimentos, pois foram constituídas para isso. Note como a razão os transpõe tão facilmente quanto o fogo ascende, a pedra cai ou um cilindro desce por um plano inclinado. Não busque mais nada.
Entraves impedem apenas o corpo — um cadáver. Exceto se assim opinar ou se renunciar à razão, não esmagam nem danificam. Se esmagassem, quem fosse danificado se tornaria pior. Mas, ao passo que os demais entes pioram quando são danificados, o homem se torna melhor e mais elogiável quando emprega esse “dano” com destreza.
Por fim, recorde-se: se não deteriora um cidadão genuíno, não deteriora o estado. Se não afeta o estado, não afeta a lei. Nenhum entrave infringe a lei. Logo, se não fere a lei, não fere o cidadão ou o estado.

Marco Aurélio, em Meditações

Factótum



6

Na segunda-feira eu estava de ressaca. Fiz a barba e fui atrás de um anúncio que vi no jornal. Me sentei, e do outro lado estava o editor, um homem de mangas curtas e depressões profundas ao redor dos olhos. Parecia que ele não dormia há uma semana. Lá dentro era frio e escuro. Era a sala de montagem de um dos dois jornais da cidade, o menor deles. Homens estavam sentados em mesas sob lâmpadas de leitura, trabalhando com cópias.
Doze dólares por semana — propôs ele.
Tudo bem — respondi —, eu topo.
Eu trabalhava com um homenzinho gordo que tinha uma barriga nada saudável. Ele usava um relógio de bolso antiquado, preso em uma corrente dourada, vestia colete e um boné verde, tinha lábios grossos e uma expressão carnosa e sombria. As linhas do rosto não eram interessantes e sequer tinham personalidade; a cara parecia ter sido dobrada várias vezes e depois alisada, como se fosse um pedaço de papelão. Usava sapatos quadrados bregas e mascava tabaco, cuspindo o sumo em uma escarradeira no chão.
O sr. Belger — disse ele sobre o homem que precisava dormir — trabalhou duro para erguer este jornal. Ele é um bom homem. Estávamos à beira da falência até ele aparecer.
Ele me deu uma olhada. — Normalmente dão esse emprego para um estagiário.
Um sapo, pensei, é o que ele é, isso, sim.
Quero dizer — explicou —, esse trabalho costuma ser dado a um estudante. Ele pode estudar enquanto espera uma ligação. Você estuda?
Não.
Esse trabalho em geral é para quem estuda.
Voltei para a minha sala e sentei. Estava abarrotada de fileiras e fileiras de gavetas de metal, e dentro delas ficavam as gravuras em zinco que tinham sido usadas nos anúncios. Muitas dessas gravuras eram usadas inúmeras vezes. Havia também muitos tipos – com nomes de clientes e logomarcas. O gordo gritava “Chinaski!”, e eu ia ver qual anúncio ou que tipo ele queria. Muitas vezes eu era enviado ao jornal concorrente para pegar emprestado alguns dos tipos. Eles também pegavam os nossos. Era uma caminhada agradável, e eu achei um lugar em um beco onde podia tomar um copo de cerveja por alguns centavos. O gordo não me chamava muito, e o lugar da cerveja barata se tornou minha distração. O gordo começou a sentir minha falta. No começo, ele só me olhava com uma cara desagradável, até que um dia me perguntou:
Onde você estava?
Lá fora, tomando uma cerveja.
Este é um trabalho para estudantes.
Eu não sou estudante.
Vou ter que ter que mandá-lo embora. Preciso de alguém que esteja aqui com total disponibilidade.
O gordo me levou até o Belger, que parecia cansado como nunca.
Este é um trabalho para estudantes, sr. Belger. Receio que esse homem não se encaixe. Precisamos de um estudante.
Está bem — disse Belger. O gordo saiu todo estufado da sala.
Quanto te devemos? — perguntou Belger.
Cinco dias.
Certo, leve isso ao RH.
Ouça, Belger, aquele velho miserável é nojento.
Belger suspirou. — Jesus, não me diga?
Desci para o RH.

Charles Bukowski, em Factótum

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Lá do Alto | André Freitas

Calvin

1613 – Londres

Shakespeare

A Companhia de Virgínia está levando a breca na costa do norte da América, sem ouro nem prata, mas por toda Inglaterra circulam seus panfletos de propaganda anunciando que lá os ingleses trocam com os índios pérolas do Céu por pérolas da terra.
Não faz muito que John Donne explorava o corpo de sua amante, em um poema, como quem descobre a América; e Virgínia, o ouro de Virgínia, é o tema central das festas da boda da princesa Isabel. Em honra da filha do rei, representa-se uma dança mascarada de George Chapman que gira ao redor de um grande rochedo de ouro, símbolo de Virgínia ou das ilusões de seus acionistas: o ouro, chave de todos os poderes, segredo da vida perseguido pelos alquimistas, filho do sol como a prata é filha da lua e o cobre nasce de Vênus. Há ouro nas zonas quentes do mundo, onde o sol semeia, generoso, seus raios.
Nas celebrações do casamento da princesa, também estreia uma obra de William Shakespeare, A Tempestade, inspirada no naufrágio de um barco da Companhia de Virgínia nas Bermudas. O grande criador de almas e maravilhas situa esta vez seu drama em uma ilha do Mediterrâneo que mais parece do mar Caribe. Ali o duque Próspero encontra Calibã, filho da bruxa Sycorax, adoradora do deus dos índios da Patagônia. Calibã é um selvagem, um desses índios que Shakespeare viu em alguma exibição de Londres: coisa da escuridão, mais animal que homem, não aprende outra coisa a não ser amaldiçoar e não tem capacidade de juízo nem sentido de responsabilidade. Só como escravo, ou atado como um macaco, poderia encontrar um lugar na sociedade humana, ou seja, a sociedade europeia, onde não tem nenhum interesse de incorporar-se.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

A palavra



Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito — como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de viver em voz alta.
Às vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.
Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento — e depois esqueci.
Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa ao piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante uma transmissão de jogo de futebol... mas o canário não cantava.
Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pequena frase melódica de Beethoven — e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro?
Alguma coisa que eu disse distraído — talvez palavras de algum poeta antigo — foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.

Rubem Braga, em Ai de ti, Copacabana

A poesia, a salvação e a vida

Seo Raul tem uma calça azul-pavão
e atravessa a rua de manhã
pra dar risada com o vizinho.
Negro bom.
O azul da calça de seo Raul
parece foi pintado por pintor;
mais é uma cor que uma calça.
Eu fico pensando:
o que é que a calça azul de seo Raul
tem que ver com o momento
em que Pilatos decide a inscrição
JESUS NAZARENUS REX JUDEORUM.
Eu não sei o que é,
mas sei que existe um grão de salvação
escondido nas coisas deste mundo.
Senão, como explicar:
o rosto de Jesus tem manchas roxas,
reluz o broche de bronze
que prende as capas nos ombros dos soldados romanos.
O raio fende o céu: amarelo-azul profundo.
Os rostos ficam pálidos, a cor da terra,
a cor do sangue pisado.
De que cor eram os olhos do centurião convertido?
A calça azul de seo Raul
pra mim
faz parte da Bíblia.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

O autor como leitor



Uma noite, no primeiro século da era cristã, Caio Plínio Cecílio Segundo (conhecido pelos futuros leitores como Plínio, o Jovem, para distingui-lo de seu erudito tio, Plínio, o Velho, que morreu na erupção do monte Vesúvio em 79 d.C.) saiu de casa de um amigo romano cheio de justificada cólera. Assim que chegou ao seu gabinete, sentou-se e, para ordenar os pensamentos (ou talvez de olho no volume de cartas que reuniria e publicaria mais tarde), escreveu ao advogado Cláudio Restituto sobre os acontecimentos daquela noite.
Acabei de sair indignado de uma leitura na casa de um amigo meu e sinto que preciso escrever-te neste instante, já que não posso falar-te pessoalmente. O texto que leram era exatamente polido, de qualquer ângulo que se considere, mas duas ou três pessoas espirituosas – ou que assim se julgam – escutaram-no como se fossem surdos-mudos. Em nenhum momento abriram os lábios, ou moveram as mãos, ou mesmo esticaram as pernas para mudar de posição. Qual o objetivo dessa conduta e cultura sóbria, ou, antes, dessa indolência e presunção, dessa falta de tato e bom senso que leva alguém a passar o dia inteiro sem fazer outra coisa senão causar desgosto e transformar em inimigo o querido amigo que se veio ouvir?”
É um pouco difícil para nós, a uma distância de vinte séculos, compreender a consternação de Plínio. Em sua época, a leitura feita por autores tornara-se uma cerimônia social da moda, e, como em qualquer cerimônia, havia uma etiqueta estabelecida para autores e ouvintes. Dos ouvintes, esperava-se que oferecessem uma reação crítica, com base na qual o autor aperfeiçoaria o texto – motivo pelo qual Plínio ficou tão ultrajado com a impassibilidade da plateia; ele próprio apresentava às vezes uma primeira versão de um discurso a um grupo de amigos e depois fazia alterações de acordo com a reação deles. Além disso, esperava-se que os ouvintes ficassem até o fim da apresentação, independentemente do tempo que durasse, de forma a não perder nenhuma parte da obra, e Plínio julgava que quem usava as leituras como mera diversão social não valia muito mais que um desordeiro. Escreveu furioso para outro amigo: “A maioria deles senta-se na sala de espera, perdendo tempo em vez de prestar atenção e pedindo aos seus servos que lhes digam a toda hora se o leitor chegou e já leu a introdução, ou se chegou ao fim da leitura. Somente então, e com a maior relutância, arrastam-se para dentro. E não ficam muito tempo, e saem antes do fim, alguns tentando escapar despercebidos, outros saindo sem pejo. [...] Mais louvor e honra merecem aqueles cujo amor pela escrita e leitura em voz alta não se deixa afetar pelos maus modos e arrogância da plateia”.
O autor também estava obrigado a seguir certas regras se quisesse ter sucesso em suas leituras, pois havia toda espécie de obstáculo a ser superado. Antes de mais nada, era preciso encontrar um local de leitura apropriado. Homens abastados imaginavam-se poetas e, em opulentas casas de campo, recitavam suas obras para um grande número de conhecidos - no auditorium, uma sala construída especialmente com esse objetivo.
Alguns desses poetas ricos, como Ticínio Capito, eram generosos e emprestavam seus auditórios para as apresentações de outros, mas a maioria desses espaços de recital era de uso exclusivo dos proprietários. Uma vez reunidos os amigos no local designado, o autor tinha de encará-los de uma cadeira colocada sobre um tablado, usando uma toga nova e exibindo todos os seus anéis. Segundo Plínio, esse costume atrapalhava-o duplamente: “ele se encontra em grande desvantagem pelo mero fato de ficar sentado, embora possa ser tão bem-dotado quanto oradores que ficam de pé” e tem”"os dois principais auxiliares de sua elocução, isto é, olhos e mãos”, ocupados em segurar o texto.
As habilidades oratórias eram, portanto, essenciais. Ao elogiar o desempenho de um leitor, Plínio observou que “ele mostrou uma versatilidade adequada ao elevar e baixar o tom e a mesma agilidade na passagem de temas elevados para inferiores, do simples para o complexo ou de assuntos mais leves para mais graves. A voz notavelmente agradável foi outra vantagem, realçada pela modéstia, pelos rubores e pelo nervosismo, que sempre acrescentam encanto a uma leitura. Não sei por quê, mas a timidez cai melhor num autor do que a segurança”.
Aqueles que tinham dúvidas sobre suas habilidades de leitor podiam recorrer a certos estratagemas. O próprio Plínio, confiante quando lia discursos, mas inseguro sobre sua capacidade de ler versos, teve a seguinte ideia para uma noitada de suas poesias, comunicada por carta ao amigo Suetônio, o autor de Vida dos doze Césares: “Estou planejando fazer uma leitura informal para alguns amigos e penso em utilizar um de meus escravos. Não darei grandes mostras de civilidade a meus amigos, pois o homem que escolhi não é realmente um bom leitor, mas acho que será melhor do que eu, uma vez que não é tão nervoso. [...] A questão é: o que devo fazer enquanto ele estiver lendo?
Devo sentar-me quieto e silencioso como um espectador, ou comportar-me como algumas pessoas e repetir as palavras dele com meus lábios, olhos e gestos?”. Não sabemos se Plínio ofereceu naquela noite uma das primeiras apresentações de leitura labial sincronizada da história.
Muitas dessas leituras devem ter parecido intermináveis. Plínio compareceu a uma que durou três dias. (Essa leitura, em particular, não parece tê-lo aborrecido, talvez porque o leitor anunciara à plateia: “Mas que me importam os poetas do passado, se conheço Plínio?”.) Indo de várias horas à metade de uma semana, as leituras públicas tornaram-se quase inevitáveis para quem quisesse ser conhecido como autor. Horácio queixava-se de que os leitores educados já não pareciam de fato interessados nos escritos de um poeta, tendo “transferido todo o prazer do ouvido para as delícias vazias e fugazes do olho”.
Marcial ficou tão farto de aturar poetastros ansiosos por ler suas obras em voz alta que desabafou:

Pergunto-te: quem pode suportar esse afã?
Lês para mim quando estou de pé,
Lês para mim quando estou sentado,
Lês para mim quando estou correndo,
Lês para mim quando estou cagando.

Plínio, no entanto, aprovava a leitura dos autores e via nelas os sinais de uma nova idade de ouro literária. “Dificilmente tivemos um dia em abril em que não houvesse alguém fazendo uma leitura pública”, observou satisfeito. “Estou encantado por ver a literatura florescer e o talento vicejar.” As gerações futuras discordaram do veredicto de Plínio e decidiram esquecer o nome da maioria desses poetas declamadores.
Contudo, se fosse destino de alguém ficar famoso graças a essas leituras públicas, um autor não precisava mais esperar a morte para ser consagrado. Plínio escreveu a seu amigo Valério Paulino: “As opiniões divergem, mas minha ideia de um homem verdadeiramente feliz é aquele que desfruta antecipadamente de uma boa e duradoura reputação e, confiante no veredicto da posteridade, vive na certeza da fama que virá”. A fama no presente era importante para ele. Ficava encantado quando alguém nas corridas achava que o escritor Tácito (a quem admirava muito) poderia ser Plínio. “Se Demóstenes teve o direito de se deleitar quando a velha da Ática o reconheceu com as palavras ‘aquele é Demóstenes’, eu certamente posso ficar contente ao ver meu nome bem conhecido. Na verdade, estou contente e admito isso.” Sua obra foi publicada e lida, até mesmo nos confins de Lugdunum (Lyon). A outro amigo, escreveu: “Não pensei que houvesse livreiros em Lugdunum, portanto fiquei ainda mais satisfeito ao saber por sua carta que minhas obras estão à venda. Fico contente que tenham no exterior a popularidade que conquistaram em Roma e estou começando a pensar que minha obra deve ser realmente boa, ao ver que a opinião pública de lugares tão diferentes concorda sobre ela”. Porém, agradava-lhe muito mais o louvor de uma plateia de ouvintes do que a aprovação silenciosa de leitores anônimos.
Plínio sugeriu várias razões pelas quais a leitura em público constituía um exercício benéfico. A celebridade era sem dúvida um fator muito importante, mas havia também o prazer de ouvir a própria voz. Ele justificava essa autocomplacência observando que a audição de um texto levava a plateia a comprar a peça publicada, causando assim uma demanda que satisfaria tanto os autores quanto os editores-livreiros. Na sua concepção, ler em público era a melhor maneira de um autor obter público. Na verdade, a leitura pública era em si mesma uma forma rudimentar de divulgação.
Como observou corretamente Plínio, ler em público era uma representação, um ato executado por todo o corpo para que outros percebessem. O autor que lê em público - naquela época como agora recobra as palavras com certos sons e interpreta-as com certos gestos; essa performance dá ao texto um tom que (supostamente) é aquele que o autor tinha em mente no momento da criação e, portanto, concede ao ouvinte a sensação de estar perto das intenções do autor; ela dá também ao texto um selo de autenticidade.
Mas, ao mesmo tempo, a leitura do autor deturpa o texto, melhorando-o (ou empobrecendo-o) com a interpretação. O romancista canadense Robertson Davies acrescentava camadas e mais camadas de caracterização durante as leituras, antes interpretando do que recitando sua ficção. A romancista francesa Nathalie Sarraute, ao contrário, lê numa monotonia que não faz jus aos seus textos líricos. Dylan Thomas cantava sua poesia, batendo nas tônicas como gongos e deixando pausas enormes. Eliot resmungava seus poemas como se fosse um vigário rabugento amaldiçoando seu rebanho.
Ao ser lido para uma plateia, um texto não é determinado exclusivamente pela relação entre suas características intrínsecas e aquelas de seu público arbitrário, sempre diferente, uma vez que os membros desse público não têm mais a liberdade (como os leitores comuns teriam) de voltar, reler, retardar e dar ao texto sua própria entonação conotativa. Ao contrário, ele se torna dependente do autor-intérprete, que assume o papel de leitor dos leitores, a encarnação presuntiva de cada membro da plateia cativa da leitura, ensinando-lhes o modo de ler As leituras de autores podem se tornar profundamente dogmáticas.
As leituras públicas não foram exclusividade de Roma. Os gregos liam em público. Cinco séculos antes de Plínio, por exemplo, Heródoto lia sua obra nos festivais olímpicos, onde se reunia uma grande e entusiástica plateia vinda de toda a Grécia; evitava-se assim viajar de cidade em cidade. Mas, no século VI, as leituras públicas cessaram efetivamente, porque parecia não haver mais um “público educado”. A última descrição conhecida de uma platéia romana numa leitura pública está nas cartas do poeta cristão Apolinário Sidônio, escritas na segunda metade do século V. Àquela altura, como Sidônio lamenta, o latim tornara-se uma língua especializada, estrangeira, “a linguagem da liturgia, das chancelarias e de uns poucos eruditos”. Por ironia, a Igreja cristã, que adotara o latim para difundir o evangelho entre “todos os homens em todos os lugares”, percebeu que essa língua se tornara incompreensível para a vasta maioria do rebanho. O latim passou a ser parte do “mistério” da Igreja, e, no século XI, apareceu o primeiro dicionário de latim, como forma de ajudar os estudantes e noviços para quem esse idioma não era mais a língua materna.
Mas os autores continuaram precisando do estímulo de um público imediato. No final do século XIII, Daute sugeria que a “língua vulgar” – isto é, o vernáculo – era ainda mais nobre que o latim, por três motivos: era a primeira língua falada por Adão e Eva; era “natural”, enquanto o latim era “artificial”, pois aprendido apenas nas escolas; e era universal, uma vez que todos os homens falavam uma língua vulgar e somente uns poucos sabiam latim. Embora essa defesa da língua vulgar fosse escrita, paradoxalmente, em latim, é provável que, mais para o fim da vida, na corte de Guido Novel o da polenta, em Ravena, Dante tenha lido trechos de sua Comédia na “língua vulgar” que defendera de forma tão eloquente. O certo é que, nos séculos XIV e XV, as leituras por autores voltaram a ser comuns; há muitos exemplos na literatura, tanto secular quanto religiosa.
Em 1309, Jean de Joinville dedicou sua Vida de são Luís a “vós e vossos irmãos que a ouvirão ser lida”. No final do século XIV, o historiador francês Froissart enfrentou tempestades em plena noite durante seis longas semanas de inverno para ler seu romance Méliador para o insone conde du Blois. O príncipe e poeta Charles d'Orléans, aprisionado pelos ingleses em Agincourt, em 1415, escreveu numerosos poemas durante um longo cativeiro, e, após ser libertado, em 1440, leu-os para a corte de Blois em noitadas literárias para as quais outros poetas, como François Villon, eram convidados. La Celestina, de Fernando de Rojas. deixava claro em sua introdução de 1499 que a comprida peça (ou romance em forma de peça de teatro) destinava-se a ser lida em voz alta "quando umas dez pessoas se reúnem para ouvir essa comédia"; é provável que o autor (de quem sabemos muito pouco, exceto que era um judeu convertido e pouco ansioso por chamar para sua obra a atenção da Inquisição) tivesse apresentado previamente a "comédia" a seus amigos. Em janeiro de 1507, Ariosto leu seu inacabado Orlando furioso para a convalescente Isabela Gonzaga, “fazendo com que dois dias se passassem não somente sem tédio, mas com todo o prazer”. E Geoffrey Chaucer, cujos livros estão cheios de referências à literatura lida em voz alta, certamente leu sua obra para uma plateia atenta.

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Alberto Manguel, em Uma História da Leitura