quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Alô?!

Delicada e preciosa

  “Após cada morte a vida se torna, para nós, mais delicada e preciosa.”

Hermann Hesse, em Do universo à jabuticaba, de Rubem Alves

Capítulo 34 – A Uma Alma Sensível



Há aí, entre as cinco ou dez pessoas que me leem, há aí uma alma sensível, que está decerto um pouquito agastada com o capítulo anterior, começa a tremer pela sorte de Eugênia, e talvez.., sim, talvez, lá no fundo de si mesma, me chame cínico. Eu cínico, alma sensível? Pela coxa de Diana! esta injúria merecia ser lavada com sangue, se o sangue lavasse alguma coisa nesse mundo. Não, alma sensível, eu não sou cínico, eu fui homem; meu cérebro foi um tablado em que se deram peças de todo gênero, o drama sacro, o austero, o piegas, a comédia louçã, a desgrenhada farsa, os autos, as bufonerias, um pandemônio, alma sensível, uma barafunda de coisas e pessoas, em que podias ver tudo, desde a rosa de Esmirna até a arruda do teu quintal, desde o magnífico leito de Cleópatra até o recanto da praia em que o mendigo tirita o seu sono. Cruzavam-se nele pensamentos de vária casta e feição. Não havia ali a atmosfera somente da águia e do beija-flor; havia também a da lesma e do sapo. Retira, pois, a expressão, alma sensível, castiga os nervos, limpa os óculos, – que isso às vezes é dos óculos, – e acabemos de uma vez com esta flor da moita.

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

Que haverá no céu?

Se não houver cadeiras de balanço no Céu... que será da tia Élida, que foi para o Céu?

Mário Quintana, em Sapato Florido

| 3 | Vida Póstuma



[…]

Depois da Rússia, o outro grande país a se autoproclamar comunista foi a China, que se tornou uma “República do Povo” em 1949. Enquanto Marx e Lênin tinham seu ponto central no proletariado urbano, Mao Tsé-tung argumentava que os camponeses poderiam ser uma força revolucionária caso guiados pelos líderes “corretos”, como ele próprio. Mao evitou o modelo soviético de urgente industrialização e fez do desenvolvimento rural a prioridade máxima, inspirando, assim, muitos marxistas em países do Terceiro Mundo que nem sequer tinham uma indústria digna desse nome.
No entanto, o programa maoísta foi um desastre para o campesinato chinês: o Grande Salto Adiante, um plano de coletivização da agricultura e promoção das indústrias rurais de pequena escala, produziu fome em massa e foi abandonado em 1960, apenas dois anos depois de iniciado. No mesmo período houve a ruptura entre China e União Soviética. Nikita Krushchev havia ridicularizado o Grande Salto, e Mao revidou denunciando-o como “capitalista infiltrado”. Porém, desde a morte do Grande Timoneiro em 1976, a própria China passou a trilhar a rota capitalista e tornou-se a economia industrial que mais rapidamente cresce no mundo, ao mesmo tempo que proclama só agora haver atingido “o primeiro estágio do socialismo”. A despeito de ter abandonado os preceitos de Mao, o governo de Pequim continua a definir-se como marxista-leninista, embora “mercantil-leninista” fosse mais adequado.
Assim como as incontáveis seitas rivais do cristianismo, o marxismo revelou-se em disfarces admiravelmente distintos e em aparência incongruentes – bolcheviques e mencheviques, espartaquistas e revisionistas, stalinistas e trotskistas, maoístas e castristas, eurocomunistas e existencialistas. Marx previra, com severa resignação, que seu nome seria tomado em vão pelos “marxistas” muito depois de sua morte, quando não mais pudesse protestar. Seu mais famoso gesto de irritação face aos ilusórios discípulos foi uma censura aos socialistas franceses nos anos 1870: se eles forem marxistas, lamentou, “tudo o que sei é que então não sou um marxista”. E talvez não fosse. A história do século XX revelou que os países que não possuíam uma economia industrial avançada, uma classe capitalista ou um grande exército de proletários assalariados estavam mais propensos à revolução marxista. Daí o paradoxo observado pelo especialista marxiano David McLellan em 1983, quando quase meio mundo ainda era governado por regimes supostamente herdeiros de Marx:

O próprio fato de que o marxismo não tenha triunfado no Ocidente significa que não se tornou uma ideologia dominante; é, portanto, objeto de estudos sérios sem a intervenção de controles governamentais. Justamente na Europa Ocidental e na América – os países capitalistas – estuda-se Marx com maior desvelo. De fato, é correto afirmar que há mais marxistas reais no Ocidente que em muitos países chamados “marxistas”.

Em Estados comunistas, da Albânia ao Zimbábue, a definição local de marxismo foi elaborada pelo governo, jamais se demandou uma discussão subsequente (nem mesmo se permitiu). No Ocidente, contudo, seu significado tornou-se objeto tanto de profundo debate quanto de sutil revisão. Os trabalhos da chamada Escola de Frankfurt – que incluía Max Horkheimer, Theodor Adorno e Herbert Marcuse – na década de 1930 originaram um nova linha de filosofia marxista conhecida como “teoria crítica”, que rejeitava o determinismo econômico de Lênin e dos bolcheviques. A Escola de Frankfurt e outros pensadores do período, como Antonio Gramsci, também questionaram tradicionais posicionamentos marxistas em relação à consciência de classe do proletariado. O capitalismo, de acordo com Gramsci, mantém sua hegemonia por levar a classe trabalhadora – ou intimidá-la – a aceitar ilusoriamente a cultura burguesa como norma, ao mesmo tempo que reforça certos valores e exclui outros. Para desafiar esse consenso e demolir as pretensões capitalistas, os trabalhadores deveriam desenvolver uma cultura “contra-hegemônica” própria, por meio de novos sistemas de educação popular.
Os marxistas ocidentais, portanto, colocaram ênfase muito maior na importância daquilo que Marx denominava superestrutura – cultura, instituições, linguagem – do processo político, de tal modo que às vezes a reflexão sobre a base econômica desaparecia de todo. Incapazes de mudar o mundo, concentraram-se em interpretá-lo por meio do que ficou conhecido como “estudos culturais”, que estabeleceram sua própria hegemonia em vários campi universitários nas décadas finais do século XX e produziram uma transformação nos estudos de disciplinas como história, geografia, sociologia, antropologia e literatura.
Até a libido foi submetida ao escrutínio marxista. O psiquiatra Wilhelm Reich tentou conciliar Marx e Freud ao propor que os trabalhadores não poderiam ser verdadeiramente livres até que fossem libertados da repressão sexual e da tirania das estruturas familiares tradicionais (embora Marx tenha descartado o amor livre por considerá-lo uma perspectiva “bestial”, equivalente à “prostituição comum”). “O sexo está impregnado no trabalho e nas relações públicas e, portanto, torna-se mais suscetível à satisfação (controlada)”, escreveu Herbert Marcuse, guru da Nova Esquerda, no livro O homem unidimensional, de 1964. “O progresso técnico e o conforto material permitem a inserção sistemática dos elementos libidinosos nos domínios da produção e da troca de mercadorias.”
Esses domínios foram definidos de forma muito mais ampla do que Marx jamais imaginara. Abarcavam toda e qualquer forma de mercadoria cultural – um par de sapatos do tempo da brilhantina, uma fotografia de jornal, um disco pop e uma caixa de cereal eram todos “textos” que poderiam ser “lidos”. A crítica da cultura de massa dos primeiros teóricos influenciados pela Escola de Frankfurt foi gradualmente suplantada por um estudo dos diferentes meios pelos quais as pessoas recebem e interpretam esses textos cotidianos.
À medida que deram uma “guinada linguística” – expandiram-se em estruturalismo, pós-estruturalismo, desconstrutivismo e, depois, pós-modernismo –, os estudos culturais com frequência pareciam uma forma de se esquivar completamente da política, mesmo que muitos de seus adeptos continuem a se denominar marxistas. A lógica de sua burlesca insistência de que não há certezas ou realidades levou ao relativismo sem compromisso ou valor, capaz de celebrar, sem qualquer pudor, tanto a cultura pop norte-americana quanto a superstição medieval. Apesar do desdém pelas grandes narrativas históricas e leis gerais da natureza, muitos estudiosos pareciam aceitar o sucesso duradouro do capitalismo como um inevitável fato da vida. Aqueles que ainda nutriam impulsos subversivos buscaram refúgio em espaços marginais onde o domínio dos vitoriosos não estava bem assegurado: daí o entusiasmo pelo exótico e incorpóreo, desde as teorias conspiratórias dos óvnis aos fetiches sadomasoquistas. Um fascínio pelos prazeres do consumo (telenovelas, shoppings, o kitsch do mercado massificado) revelava o tradicional foco marxista sobre as condições da produção material.
A consequência foi, nas palavras do crítico marxista Terry Eagleton, “uma imensa inflação linguística, como se algo que na esfera política agora parecesse inconcebível ainda fosse bastante viável nas áreas do discurso, dos signos ou da textualidade. A liberdade do texto ou da linguagem viria compensar a falta de liberdade do sistema como um todo”. Os novos inimigos, escreve Eagleton, eram “todos os tipos de sistemas de crenças coerentes, em particular as formas de teoria e organização política que buscavam analisar e influenciar as estruturas da sociedade como um todo. Pois era justamente essa política que parecia ter fracassado”. Nenhuma crítica sistemática ao capitalismo monopolista obteria êxito uma vez que o capitalismo era ele próprio uma ficção, assim como a verdade, a justiça, as leis e todos os outros “constructos linguísticos”.
Cabe então a pergunta: como Marx, que tanto esforço fez para produzir uma crítica sistemática, se encaixa em tudo isso? Enquanto alegremente desconstroem comerciais de TV ou embalagens de bala, os teóricos parecem curiosamente relutantes em apontar seus cutelos para o texto do Capital, talvez por temer um parricídio literário. O historiador pós-modernista Dominick LaCapra afirma que este “é provavelmente o caso mais gritante de texto canônico que tem mais necessidade de uma releitura que de uma leitura literal, direta e atrelada a uma voz autoritária exclusivamente uniforme”.
Nessa linha, a mais notável revisão de Marx é Para ler “O Capital”, de 1965, uma coletânea de ensaios de Louis Althusser e alguns alunos seus, que começa com essa declaração de intenções:

É evidente que todos já lemos e continuamos a ler O Capital. Por quase um século, fomos capazes de lê-lo todos os dias, de forma transparente, em meio aos dramas e sonhos de nossa história, às suas disputas e conflitos, às conquistas e derrotas do movimento operário, que é nossa única esperança e destino. Desde que “viemos ao mundo”, lemos constantemente O Capital nos escritos e discursos daqueles que o leram para nós, bem ou mal, vivos ou mortos: Engels, Kautski, Plekhânov, Lênin, Rosa Luxemburgo, Trotski, Stálin, Gramsci, as lideranças das organizações operárias, seus seguidores e oponentes, fossem filósofos, economistas ou políticos. Lemos pequenas amostras, os “fragmentos” que a conjuntura “selecionou” para nós. Todos lemos, mais ou menos, inclusive o “livro primeiro”, desde “as mercadorias” até “a expropriação dos expropriadores”.
Algum dia, porém, é essencial que O Capital seja lido na íntegra, que o próprio texto seja lido….

Althusser, como qualquer outro leitor, encara a tarefa com um par de lentes ajustadas à sua própria avaliação. Foi ele quem primeiro insistiu no fato de que havia um abismo intransponível, uma “ruptura epistemológica”, entre o Marx dos anos 1840 e o homem que escreveu O Capital 20 anos depois. Ao contrário de Jean-Paul Sartre, que encontrou nos primeiros escritos filosóficos uma rica inspiração para sua formulação do marxismo como uma história da auto-emancipação humana, Althusser deplorava os interesses do jovem Marx por ética, alienação e “ação humana”. Para ele, a história era um “processo sem sujeito” e, portanto, não valia a pena estudá-la ou analisá-la: os indivíduos, mesmo coletivamente, não poderiam jamais evitar ou desafiar as forças impessoais dos aparelhos ideológicos do Estado – educação, religião e família – que produzem e mantêm o sistema de crenças dominante.
Althusser resgatou Marx do estreito determinismo econômico imposto por Lênin e seus herdeiros para confiná-lo em uma camisa-de-força igualmente restritiva. Em Para ler “O Capital” ele reduz a obra maior de Marx a um trabalho meramente científico, sem qualquer vestígio de influência hegeliana, apesar de o próprio Marx reconhecer com prazer esse débito, em particular no capítulo inicial sobre a mercadoria. O marxismo se tornou uma teoria da prática estrutural divorciada da política, da história e da experiência.
Segundo a lógica anti-humanista de Althusser, as pessoas não poderiam ser consideradas responsáveis por suas ações – tese que, anos depois, ele próprio exploraria para se eximir de qualquer culpa pelo homicídio de sua esposa. Em escala maior, serviu para isentar o Partido Comunista (do qual era antigo integrante): o assassinato em massa na União Soviética não era um crime, apenas um erro teórico – ou, no terrível eufemismo de Althusser para o stalinismo, “aquela nova forma de ‘existência não-racional da razão’”. Como escreveu o historiador marxista E.P. Thompson no polêmico A miséria da teoria, de 1979: “Podemos considerar a emergência do althusserianismo como a manifestação de uma ação de patrulha ideológica, uma tentativa de reconstruir o stalinismo no nível teórico.” Para Thompson, a insistência de Althusser em um marxismo totalmente conceitual, não contaminado pela história ou pela experiência, expunha-o como alguém “que tinha apenas um conhecimento fortuito da prática histórica” – pois, no mundo real, a toda hora, “a experiência chega sem ser anunciada e promove mortes e crises substanciais”. Isso era mais verdadeiro do que Thompson podia imaginar. A total extensão da ignorância de Althusser revelou-se em suas memórias póstumas, O futuro dura muito tempo, de 1994, em que confessa ser “um trapaceiro e um enganador”, que às vezes inventava citações ajustadas aos seus objetivos.

De fato, meu conhecimento filosófico dos textos era bastante limitado. Eu … sabia um pouco de Spinoza, nada de Aristóteles, os sofistas e os estoicos, bastante sobre Platão e Pascal, nada sobre Kant, um pouco sobre Hegel e, por fim, algumas passagens de Marx.

Mas como conseguiu se safar? A explicação para seus ilusionismos é surpreendentemente singela:

Eu tinha outra singular habilidade. A partir de uma única frase, pensava que poderia extrair (que ilusão!), se não as ideias mais específicas de um autor ou livro que não lera, ao menos o significado ou as linhas gerais. Obviamente eu tinha algum poder de intuição, assim como a habilidade de vislumbrar relações, ou a capacidade de estabelecer oposições teóricas que me permitiam reconstruir aquelas que acreditava serem as ideias de um autor, tendo por base os autores aos quais se opunha. Eu prosseguia com tranquilidade, estabelecendo contrastes e distinções, e em seguida elaborava uma teoria que amparasse tudo isso.

Graças a esse poder de intuição, Para ler “O Capital” é iluminado pelo brilho de percepções ocasionais, ainda que Althusser tenha estudado apenas algumas passagens de Marx. O livro propõe que O Capital deve ser visto como

uma resposta importante à pergunta que em nenhuma parte foi postulada, que Marx somente logra formular com a multiplicação das imagens necessárias para expressá-la…. A época em que Marx viveu não lhe proporcionou, e ele não poderia adquirir ao longo da vida, um conceito adequado com o qual pensar o que produziu: o conceito da eficácia de uma estrutura a partir de seus elementos.

Marx, em outras palavras, preparou uma bomba de efeito retardado, esperando que alguém fizesse a pergunta que ele já havia respondido. Isso é confirmado por uma carta enviada a Engels em 1867, logo depois de finalizar o primeiro volume, em que previa as objeções de “economistas vulgares” ao Capital:

Se desejasse refutar de antemão todas essas objeções, eu estragaria todo o método dialético da exposição. Ao contrário, o que há de bom nesse método é que ele está constantemente preparando armadilhas para esses sujeitos, a ponto de tornar evidente a sua estupidez.

Mais uma vez é impossível não vir à mente a penetrante ironia do relato A obra-prima ignorada de Balzac: a única falha na obra-prima de Frenhofer não eram as manchas amorfas e aparentemente desastrosas, mas o fato de ter sido executada com um século de antecedência, uma vez que era na verdade uma peça de arte abstrata do século XX. Como escreveu Edmund Wilson ao defender as classes que sofrem privações e sitiar a fortaleza da auto-satisfação burguesa, Marx trouxe para a economia um ponto de vista “cujo valor na época era diretamente proporcional à sua estranheza”.
Durante meio século após a publicação do Capital, no entanto, os economistas vulgares demonstraram pouco interesse em refutar Marx, e preferiam ignorá-lo. Eles viam o sistema capitalista mais como uma necessidade permanente que como uma fase histórica passageira, que contivesse dentro de si os germes de sua própria doença terminal. Enquanto Marx tratava os juros, os lucros e o aluguel como trabalho não-pago, os economistas acadêmicos descreviam os juros obtidos pelos detentores de capital como uma “recompensa pela abstinência”. Para Alfred Marshall – uma personagem dominante na economia britânica durante os períodos vitoriano tardio e eduardiano –, aqueles que acumulavam mais do que gastavam capital estavam realizando um “sacrifício de espera”, e por isso mereciam a recompensa por sua virtuosa moderação.
A economia ortodoxa argumentava que a superprodução – considerada por Marx traço fundamental do capitalismo – simplesmente não poderia ocorrer. De acordo com a lei dos mercados de Say, a oferta criava sua própria demanda: os ganhos com produção e venda de certas mercadorias proporcionavam o poder de compra para a aquisição de outras. Esse mesmo mecanismo autorregulador assegurava que o desemprego não fosse mais que uma breve e acidental imperfeição. Os desempregados aceitariam trabalhar por menos; a consequente queda dos salários diminuiria os preços das mercadorias, que, por sua vez, aumentariam a demanda por produtos e também as vendas, permitindo, então, o retorno do pleno emprego.
A turbulência econômica e o grande desemprego do período entre guerras mundiais forçaram o reconhecimento tardio de que, afinal, o capitalismo apresenta problemas sistemáticos. Alguns economistas passaram a questionar se o sistema era realmente eterno e imutável. Em seu estudo de 1939, Valor e capital, John Hicks duvidava que “se pudesse contar com a longa sobrevivência de algo semelhante a um sistema capitalista” na ausência de novas invenções suficientemente poderosas para manter o investimento. “É inevitável pensar”, acrescentou ele, “que talvez todo o processo de revolução industrial dos últimos 200 anos nada mais tenha sido senão uma vasta e mundana expansão.” J.M. Keynes, nascido no ano da morte de Marx, escreveu no livro A teoria geral do emprego, do juro e da moeda, de 1936: “Vejo o aspecto da aquisição de rendas do capitalismo como uma fase de transição que desaparecerá quando tiver cumprido seu papel.”
Keynes, o mais influente economista do século XX, desafiou a ideia de que o capitalismo do laissez-faire apresentava uma tendência natural ao auto-equilíbrio. A ideia de que o desemprego forçava a queda dos salários e com isso restaurava o pleno emprego talvez fosse verdadeira em companhias ou indústrias individuais. Mas se todos os salários fossem cortados, então todos os rendimentos cairiam, e a demanda ficaria estagnada, o que não incentivaria os empregadores a contratar mais trabalho. Nas palavras da economista keynesiana Joan Robinson: “Em uma multidão, qualquer pessoa pode ter uma visão melhor do desfile ao ficar em pé numa cadeira. Mas se todos fizerem o mesmo, ninguém terá uma visão melhor.”
Antes de Keynes, a maioria dos economistas tratava as ocasionais crises do capitalismo como aberrações negligenciáveis. Ele, como Marx, via-as como o ritmo fatal de um sistema instável. Entretanto, Keynes considerava Marx um excêntrico do “submundo do pensamento econômico”, cujas teorias eram “ilógicas, obsoletas, cientificamente equivocadas e sem interesse ou aplicabilidade no mundo moderno”. A veemência de sua denúncia é surpreendente, dada a semelhança entre a crítica de Marx aos economistas clássicos e a do próprio Keynes a seus sucessores neoclássicos. Como Joan Robinson escreveu em 1948:
Em ambos, o desemprego tem um importante papel. Em ambos, o capitalismo é visto como algo que carrega as sementes da própria decadência. Do lado negativo, como na oposição à ortodoxa teoria do equilíbrio, os sistemas de Keynes e Marx permanecem próximos; e há agora, pela primeira vez, entre os economistas acadêmicos e os marxistas, pontos em comum suficientes para tornar o debate possível. Apesar disso, há ainda poucos estudos sérios feitos por economistas acadêmicos ingleses a respeito de Marx.
Alguns desses estudos sem dúvida foram descartados por sua opacidade estilística. Embora Robinson acreditasse que a teoria da crise de Marx, apresentada no segundo tomo do Capital, tivesse íntimas afinidades com Keynes, ela confessava que “talvez tenha exagerado na semelhança. Os dois últimos volumes do Capital … são excessivamente obscuros e foram submetidos a muitas interpretações. Suas águas são turvas, e, talvez por isso, quem as examinar há de encontrar o próprio rosto”.
Mas a principal razão para ignorar a relação entre Marx e Keynes – na verdade, para negligenciar Marx totalmente – talvez fosse política. Keynes era mais um liberal que um socialista, e orgulhosamente declarava: “A luta de classes me encontrará ao lado da burguesia culta.” O keynesianismo se tornou a nova ortodoxia para os economistas e políticos ocidentais em meados do século XX, precisamente no momento em que a Guerra Fria fazia com que o nome de Marx se transformasse em sinônimo de inimigo. Alguns não-marxistas temiam se contaminar com essa associação.
A grande exceção foi o economista de origem austríaca Joseph Schumpeter, que permaneceu um herói para muitos empreendedores norte-americanos, ainda que sua obra mais famosa, Capitalismo, socialismo e democracia, de 1942, comece com uma avaliação de 54 páginas das conquistas de Marx, tão inesperadamente generosa como as próprias homenagens de Marx à burguesia no Manifesto Comunista.
Como um profeta, admite Schumpeter, Marx sofreu de “visão equivocada e análise imprecisa”, particularmente em sua previsão do aumento da miséria dos trabalhadores. Entretanto, “Marx viu o processo de mudança industrial mais claramente e percebeu sua importância crucial de modo mais completo que qualquer outro economista de sua época”, tornando-se, assim, “o primeiro economista de primeira grandeza a compreender e ensinar sistematicamente como a teoria econômica pode se transformar em análise histórica e como a narrativa histórica pode se transformar em histoire raisonée”. Algumas páginas adiante ele propõe a questão: “Pode o capitalismo sobreviver?” E responde: “Não. Creio que não.” Isso pode parecer um comentário bizarro em um livro concebido como defesa robusta do espírito empreendedor, e certamente Schumpeter, ao contrário de Marx, não se alegrava com isso. (“Se um médico prediz que seu paciente morrerá em breve, isso não quer dizer que este seja o desejo dele.”) Sua tese era que a inovação capitalista – novos produtos e métodos de produção – representa uma força de “destruição criativa” que afinal se tornaria, para seu próprio benefício, extremamente bem-sucedida, e portanto destrutiva.
Na última década do século XX, as obscuras advertências de Schumpeter pareciam se confundir com as de Marx. Com o comunismo agonizando, o capitalismo liberal à moda norte-americana poderia enfim reinar sem desafios – talvez para sempre. “O que estamos testemunhando”, proclamou Francis Fukuyama em 1989, “não é apenas o fim da Guerra Fria, ou a consumação de um determinado período da história do pós-guerra, mas o fim da história como tal, isto é, o ponto final da evolução ideológica da humanidade.” Mas a história em breve retornaria com sua Nêmesis. Em agosto de 1998, a dissolução econômica na Rússia, o colapso monetário na Ásia e o pânico do mercado em todo o mundo levou o jornal Financial Times a se perguntar se havíamos passado “do triunfo à crise do capitalismo global em apenas uma década”. O título do artigo era “Das Kapital revisited”.
Mesmo aqueles que obtinham os maiores benefícios do sistema começaram a questionar sua viabilidade. George Soros, o bilionário especulador que fora responsabilizado pelo desastre tanto da Ásia quanto da Rússia, alertou no livro A crise do capitalismo global: os perigos da sociedade globalizada, de 1998, que o instinto de manada dos detentores do capital deve ser controlado antes que eles tenham esmagado todos os demais sob seus pés:

O capitalismo não demonstra por si só qualquer tendência ao equilíbrio. Os detentores do capital buscam aumentar seus lucros. Se os deixarem agir como desejam, continuarão a acumular capital até a situação ficar insuportável. Há 150 anos, Marx e Engels ofereceram uma ótima análise do sistema capitalista, melhor em alguns aspectos, devo dizer, que a teoria do equilíbrio dos economistas clássicos…. A principal razão para que as terríveis previsões não se tenham concretizado foram as intervenções políticas compensatórias nos países democráticos. Infelizmente, outra vez corremos o risco de tirar as conclusões erradas das lições da história. Agora o perigo não vem do comunismo, mas do fundamentalismo do mercado.

Durante a Guerra Fria, enquanto os Estados comunistas veneravam a obra de Marx como uma escritura sagrada – completa e infalível –, aqueles que estavam do outro lado das trincheiras o ultrajavam como um enviado do demônio. Com a derrubada do Muro de Berlim, contudo, ele conquistou novos admiradores em lugares inesperados. “Não devemos nos felicitar tão rapidamente pela derrota de Marx junto com o marxismo”, escreveu em 1994 o economista de direita Jude Wanniski. “Nossa sociedade mundial é muito mais fluida do que era em seu tempo, mas o processo de renovação não está garantido. As forças de reação que ele corretamente identificou devem ser conquistadas a cada nova geração, uma tarefa monumental que agora nos confronta.” Wanniski, que cunhou a expressão supply-side economics (“economia da oferta”), citou O Capital como a principal inspiração para sua tese de que a produção, mais que a demanda, era a chave da prosperidade. Embora defensor do livre comércio e do padrão-ouro, inimigo da burocracia e admirador do espírito de Klondike, considerava Marx “um dos titãs da teoria e da prática clássicas” – e um profeta genial. Para Wanniski, Marx “chegou muito próximo da verdade” ao sugerir que o capitalismo disseminava as sementes da própria destruição: “Isto é, se o capitalismo requer competição impiedosa, ainda que os capitalistas façam todo o possível para eliminar a competição, temos um sistema inerentemente insustentável, como animais que devoram seus filhotes.”
Em outubro de 1997, John Cassidy, correspondente econômico da revista New Yorker, relatou uma conversa que tivera com um banqueiro inglês que trabalhava em Nova York. “Quanto mais tempo passo em Wall Street”, afirmou o banqueiro, “mais convencido fico de que Marx estava certo. Há um Prêmio Nobel à espera do economista que ressuscitar Marx e o inserir em uma teoria coerente. Estou absolutamente convencido de que a abordagem de Marx é o melhor caminho para entender o capitalismo.” Despertada sua curiosidade, Cassidy leu Marx pela primeira vez e convenceu-se de que seu amigo estava certo. Encontrou

provocantes passagens sobre globalização, desigualdade, corrupção política, monopolização, progresso técnico, declínio da alta cultura, a natureza enervante da existência moderna – temas com que os economistas agora novamente se defrontam, às vezes sem perceber que seguem os passos de Marx.

Citando o famoso slogan criado por James Carville para a campanha presidencial de Bill Clinton em 1992 – “It’s the economy, stupid” (“É a economia, seu estúpido”) –, Cassidy comentava:

o próprio termo de Marx para essa teoria – “a concepção materialista da história” – é agora tão amplamente aceito que analistas de todas as vertentes políticas usam-no, como Carville, sem o devido crédito. Quando os conservadores argumentam que o estado de bem-estar social está condenado porque sufoca a iniciativa privada, ou que a União Soviética entrou em colapso porque não poderia se igualar com eficiência ao capitalismo ocidental, eles adotam o argumento de Marx segundo o qual a economia é a força motriz do desenvolvimento humano.

Como o ridículo burguês de Molière, que descobriu, para seu espanto, que por mais de 40 anos falara em prosa sem o saber, grande parte da burguesia ocidental absorveu as ideias de Marx sem sequer notar. Foi uma leitura tardia de Marx nos anos 1990 que inspirou o jornalista James Buchan a escrever seu brilhante estudo Desejo congelado: uma investigação sobre o significado do dinheiro, publicado em 1997. Como explicou Buchan:

Marx está tão enredado em nosso modelo de pensamento ocidental que poucas pessoas têm consciência de seu débito com ele. Todo mundo que conheço agora acredita que suas atitudes são, em certa medida, uma criação de suas circunstâncias materiais – “que, ao contrário, seu ser social determina sua consciência”, como escreveu Marx – e que as mudanças no modo de produção afetam profundamente as relações humanas, mesmo fora das oficinas e fábricas.
É em grande medida por meio das ideias de Marx, mais que pela economia política, que tais noções chegaram até nós. Da mesma forma, todo mundo que conheço tem a impressão de que a história não é só uma sequência qualquer de acontecimentos, … mas uma espécie de processo em que algo de humano – liberdade, felicidade, potencialidade humana, algo positivo, enfim – se torna cada vez mais efetivo. Marx não criou esse sentimento, mas o disseminou.

Até os jornalistas John Micklethwait e Adrian Wooldridge, da revista The Economist, entusiastas do turbocapitalismo, reconheceram essa dívida: “Como profeta do socialismo, Marx pode estar derrotado”, escrevem no livro O futuro perfeito: os desafios e as armadilhas da globalização, de 2000. “Mas como profeta da ‘interdependência universal das nações’, que é como denominava a globalização, ele ainda pode ser de surpreendente relevância…. Sua descrição da globalização permanece tão aguçada hoje quanto o foi há 150 anos.” O maior medo dos autores era que, “quanto mais bem-sucedida se torna a globalização, mais parece estimular a própria reação a ela”, o que, em outras palavras, parece sugerir o acerto de Marx ao declarar que “o desenvolvimento da indústria moderna … abala a própria base sobre a qual a burguesia assentou seu regime de produção e apropriação. O que a burguesia produz são, sobretudo, seus próprios coveiros”. Graças a todo seu triunfalismo, Micklethwait e Wooldridge têm uma incômoda suspeita de que a destruição criativa forjada pelo capitalismo global “tenha um momento inato de paralisia, quando as pessoas não mais suportarão”.
A queda da burguesia e a vitória do proletariado não se concretizaram. Mas, na obra de Marx, os erros ou profecias não cumpridas sobre o capitalismo são ofuscados e transcendidos pela acurada precisão com que revelou a natureza desse monstro. Enquanto tudo o que é sólido continuar se desmanchando no ar, o vívido retrato feito no Capital das forças que governam nossas vidas – e da instabilidade, alienação e exploração que produzem – jamais perderá a ressonância ou o poder de colocar o mundo em foco. Como o artigo da New Yorker de 1997 concluiu: “Valerá a pena ler seus livros enquanto perdurar o capitalismo.” Longe de ter sido soterrado pelos destroços do Muro de Berlim, Marx só agora emerge em seu verdadeiro significado. Ele ainda pode vir a ser o mais influente pensador do século XXI.

Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A Cor do Som e Gilberto Gil | Abri a Porta

 

O guardador de águas

IV

O que ele era, esse cara
Tinha vindo de coisas que ele ajuntava nos bolsos —
por forma que pentes, formigas de barranco, vidrinhos
de guardar moscas, selos, freios enferrujados etc.
Coisas Que ele apanhava nas ruínas e nos montes de borra de mate
(nos montes de borra de mate crescem abobreiras debaixo das abobreiras
sapatos e pregos engordam…)
De forma que recolhia coisas de nada, nadeiras, falas de tontos, libélulas —
Coisas que o ensinavam a ser interior, como silêncio nos retratos.
Até que de noite pôs uma pedra na cabeça e foi embora.
Estrelas passavam leite nas pedras que carregava.
Vagou transpedregoso anos.
Se soube que atravessou Paris de urina presa.
Estudou anacoreto.
Afez-se com as estradas e o cheiro de ouro dos escaravelhos.
Um dia chegou em casa árvore.
Deitou-se na raiz do muro, do mesmo jeito que um rio fizesse
para estar encostado em alguma pedra.
Boca não abriu mais?
Arbora em paredes podres.

Manoel de Barros, em O guardador de águas

A brasilidade no traço de Portinari

Menino com Pássaro (1959), de Cândido Portinari

1609 – Santiago do Chile

As regras da mesa

Disseram-lhe esta manhã, quando lhe trouxeram o fumegante, cheiroso chocolate. De um pulo, o governador soltou-se dos lençóis holandeses: o rei da Espanha decidiu legalizar a escravidão dos índios capturados na guerra.
Quase um ano demorou a notícia para atravessar o oceano e a cordilheira. Já faz tempo que no Chile se vendem araucanos na frente de escrivão público, e aos que pretendem escapar, mandam cortar os tendões; mas a aprovação do rei fechará a boca de alguns resmungões que protestam.
Bendiga Deus este pão...
O governador oferece uma ceia aos domadores destas terras ariscas. Os convidados bebem vinho do país em chifres de boi e comem pães de milho enrolados em folhas de milho, a saborosa humita, prato dos índios. Como tinha recomendado Alfonso o Sábio, tomam com três dedos os pedaços de carne com pimenta; e como queria Erasmo de Rotterdam não roem os ossos, nem atiram embaixo da mesa, as cascas da fruta. Depois de tomar a aguinha quente de quelén-quelén, limpam os dentes com um palito, sem deixá-lo depois entre os lábios ou na orelha.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

O pacto nenhum ― negócio não feito


[…]

Aquelas obras, então, Diadorim não visse? Ah, conselho de amigo só merece por ser leve, feito aragem de tardinha palmeando em lume-dágua. O amor dá as costas a toda reprovação. E era o que Diadorim agora desfazia em mim, no amargoso.
Repuno: que você está diferente de toda pessoa, Riobaldo... Você quer dansação e desordem...
Mexi meu cuspe dentro da boca.
...A bem é que falo, Riobaldo, não se agaste mais... E o que está demudando, em você, é o cómpito da alma ― não é razão de autoridade de chefias...
Diadorim disse, e a voz dele, ecosa, me rodeou; as certas sinceridades. Amizade de amor surpreende uns sinais da alma da gente, a qual é arraial escondido por detrás de sete serras? Aí, demorei. Eu ia aceitar essa repreensão? Ah, nunca. E, desaguardadamente, eu atinei com outro motivo, para opor: a extratada conversa, que Diadorim tinha tido, adeparte, com o arrieiro de uma tropa. Perguntei, contra:
O segredo, com o velho arrieiro da tropa, Diadorim, que se falaram ― era de minha pessoa?
Essa tropa, que passara por nós, dias antes, rumava para o Abaeté, com carga de fumo, mantas de borracha, couros de onça e de lontra e cera de palmeiral, pouca coisa. Fossem atravessar o rio, num porto; iam passar por terras minhas conhecidas, nos sertões menores... Agora, eu queria saber.
Aquele levou um recado meu. Instruí o homem que levasse um recado...
Um recado, de mim? Aí hei, que?! Malfiz?!...
Um recado. Mais tu não pergunte, Riobaldo! que, o que fiz, foi.
Dizendo, Diadorim se arredou de mim, com uma decisão de silêncio. Não vê, que nem precisava. Eu tinha guardado meus ouvidos. Eu não queria escutar o reto, naquela ocasião, por desânimo de ser. Diadorim tinha citado alma. O que ele soubesse, não soubesse, não tinha ciência de coisa nenhuma, da arte em que eu tinha ido estipular o Oculto, nasVeredas Mortas, no ermo da encruzilhada... Aquilo não formava meu segredo? E, mesmo, na dita madrugada de noite, não tinha sucedido, tão pois. O pacto nenhum ― negócio não feito. A prova minha, era que o Demónio mesmo sabe que ele não há, só por só, que carece de existência. E eu estava livre limpo de contrato de culpa, podia carregar nômina; rezo o bendito! Trastempo, mais outras coisas sobrevinham, mas por roda normal do mundo, ninguém podia afiançar o contrário. Apús pedra por sobre pedra, não guardo lembrança. Eu era o chefe. Vez minha de dar comando e estar por mais alto. Zé Bebelo tinha de todo desaparecido. Agora, o que se carecia, era de se pegar mais munição. Todos deviam de me obedecer completamente. Só eu não queria abusar. Por que não queria? Ah, então, eu estava em dúvidas. Até por isso era que eu estremecia, fino, no ouvir certas menções. A haver a coisa que de longe me ameaçasse, feito o vem-vem das núvens de chuva. O demo, mesmo assim, podia me marcar? Se não fosse, como era que Diadorim viesse vir com aquelas palavras? Acho que eu não era capaz de ser uma coisa só o tempo todo.
Do que Diadorim se estranhava, era do seguinte! tinha sido o que aconteci com um sujeito senhor, um que disse se chamar nhô Constâncio Alves, que topamos no Chapéu-do-Boi. E também do desgraçado do homenzinho-na-égua, com o cachorro dele, que vieram vindo, três léguas depois daquele. As coisas vãs esparramáveis.
De que tivesse neste mundo um tal nhó Constâncio Alves, o que era que eu ponderava com isso? Mas ele mesmo ali loguinho falou: que era nado no pé da serra de Alegres, e sendo da minha primeira terra, também. Foi bem tratado. Mas disse que podia ser de ter me conhecido, quando eu menino. Isso me disse aquele nhó Constâncio Alves. Queria recompensas? Aos princípios, não desgostei de prosear com um antigo assim, compatrício, asseado em suas roupas e bem-avindo. Aí ele tomou café, com a gente. A dar, que o homem foi se avontadeando, encompridando as respostas; eu mesmo dava jeito para que ele tomasse coragem.
Até que, um certo momento, o pretinho Guirigó se chegou sorrateiro, e emitiu em minha orêlha. ― Ió chefe... ― arenga do menino Guirigó, que às vezes bem não regulava. O capeta ― ele falou no capeta? Ou então, só de olhar para ele, e escutar, eu pensei no capeta; mas, que era do capeta, eu entendi. Daí, de repente, quem mandava em mim já eram os meus avessos. Aquele homem tinha quantia consigo: tinha consciência ruim e dinheiro em caixa... ― assim eu defini. Aquele homem merecia punições de morte, eu vislumbrei, adivinhado. Com o poder de quê: luz de Lúcifer? E era, somente sei. A porque, sem prazo, se esquentou em mim o dóido afã de matar aquele homem, tresmatado. O desejo em si, que, nem era por conta do tal dinheiro: que bastava eu exigir e ele civilmente me entregava. Mas matar, matar assassinado, por má lei. Pois não era? Aí, esfreguei bem minhas mãos, ia apalpar as armas. Aí tive até um pronto de rir: nhó Constâncio Alves não sabia que a vida era do tamanhinho só menos de que um minuto…
Ah , mas, então, do sobredentro de minhas ideias ― do que nem certo sei se seja meu uma minha-voz, vozinha forte demais, de tão fraca, suministrou um cochicho. Foi. Em tão curta ocasião que teve, essa vozinha me deu aviso. Ah, um recanto tem, miúdos remansos, aonde o demônio não consegue espaço de entrar, então, em meus grandes palácios. No coração da gente, é o que estou figurando. Meu sertão, meu regozijo! Que isto era o que a vozinha dizia! ― Tento, cautela, toma tento, Riobaldo! que o diabo fincou pé de governar tua decisão!... A anteguarda que ouvi, e ouvi seteado; e estribei minhas forças energias. Que como? Tem então freio possível? Teve, que teve. Aí resisti o primeiramente. Só orçava. O instante que é, é ― o senhor nele se segure. Só eu sei.
[...]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

Da ofensa

Ao se sentir ofendido por alguém, volte-se imediatamente para dentro e reflita sobre o quanto você mesmo se ofende quando valoriza o dinheiro, o prazer, a reputação e coisas afins. Ao refletir e se lembrar que o ofensor foi coagido a ofender, esquecerá a sua ira. Como ele poderia agir diferentemente? Caso consiga, liberte-o dessa coação.

Marco Aurélio, em Meditações

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Jorge Ben | Estão Chegando Os Alquimistas

 

o dia em que joguei pela janela uma grana preta

e, eu disse, você pode pegar seus ricos tios e tias e avós e pais

e todo aquele petróleo escroto deles
e seus sete lagos
e seus selvagens perus
e búfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus fuzilamentos de corvo
se seus calçadões de sábado à noite,
e sua biblioteca de meia-tigela
e seus vereadores corruptos
e seus artistas veadinhos –
você pode pegar tudo isso
e o seu jornal semanal
e os seus famosos tornados
e as suas enchentes imundas
e todos os seus gatos uivantes
e a sua assinatura da Time,
e enfiar lá, bebê,
enfiar lá.
posso empunhar de novo a picareta e o machado (acho)

e posso descolar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode tirar o grisalho
do meu cabelo;
e ainda consigo escrever poemas (às vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
não rendam nada,
é melhor do que esperar por mortes e petróleo,
e atirar em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece.
tá bom, vagabundo, ela disse,
cai fora.
o quê?, eu disse

cai fora. você teve o seu último

acesso de fúria.
cansei dos seus malditos acessos de fúria:
você está sempre agindo como um
personagem
de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, bebê,

não consigo
evitar.
você é diferente, tá bom!

meu Deus, quanta diferença!
não bata
a porta
quando sair.
mas, bebê, eu amo o seu dinheiro!
você nunca me disse

que me ama!
o que você quer

um mentiroso ou um
amante?
você não é nenhum dos dois! fora, vagabundo,

fora!…
mas bebê!

volte pro O’Neill!

fui até a porta,
fechei-a sem barulho e fui embora,
pensando: tudo que elas querem
é um índio de madeira
que diga sim e não
e fique parado acima do fogo e
não infernize demais;
mas você já está ficando
velho, garoto;
da próxima vez não abra
tanto
o jogo.

Charles Bukowski, em Sobre o amor

A impagável Laerte

É preciso parar

Estou com saudade de mim. Ando pouco recolhida, atendendo demais ao telefone, escrevo depressa, vivo depressa. Onde está eu?
Preciso fazer um retiro espiritual e encontrar-me enfim — enfim, mas que medo — de mim mesma.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Da Nuance e Da Minúcia





Em certas épocas da literatura, um determinado escritor parece encarnar a dignidade e a solidão de todo o ofício. Henry James foi “o Mestre” não só, nem principalmente, por causa de seus talentos, mas porque seus modos, seu estilo de vida, mesmo em ocasiões triviais, expressavam o ministério obrigatório da grande arte. Hoje há razão para se supor que Samuel Beckett é o escritor por excelência, que outros romancistas e teatrólogos encontram nele a sombra concentrada de suas lutas e dificuldades. Monsieur Beckett é — até a última fibra de seu ser denso e arredio — o ofício. Não há nenhum gesto supérfluo que se perceba, nenhum floreio público, nenhuma concessão — pelo menos que seja visível — aos ruídos e imprecisões da vida. Os primeiros anos de Beckett parecem ter sido um aprendizado deliberado (aos 21 anos trabalhava como secretário de Joyce). Suas primeiras publicações, o ensaio “Dante… Bruno… Vico… Joyce”, de 1929, a monografia de 1931 sobre Proust, uma coletânea de poemas lançada em 1935 pela Europa Press — nome sintomático —, são preliminares certeiras. Beckett mapeia, em função de suas próprias necessidades, as atrações próximas de Joyce e Proust; o que descarta é o que mais o influencia. Em More Pricks Than Kicks (Londres, 1934), ele já vibra sua nota específica. A guerra vem como uma interrupção banal. Ela cercou Beckett de um silêncio, uma rotina de insânia e dor tão tangível quanto a que se adivinhava em sua arte. Com Molloy em 1951 e Esperando Godot no ano seguinte, Beckett preencheu a menos interessante e mais necessária de todas as condições: a atemporalidade. Superara o tempo; o grande artista é, justamente, quem “sonha à frente”.
Henry James foi representativo pelo volume colossal de sua produção, pela convicção, patente em tudo o que escreveu, de que a linguagem, se trabalhada com suficiente energia e meticulosidade, pode vir a materializar e transmitir a soma das experiências de valor. A rarefação de Beckett, seu talento em dizer menos, é a antítese disso. Beckett usa as palavras como se cada uma delas tivesse de ser retirada de um cofre e vir à luz de contrabando, extraída de um estoque perigosamente baixo. Se a mesma palavra servir, use-a muitas vezes sem parar, até ficar bem gasta e anônima. O fôlego é um legado que não pode ser desperdiçado; os monossílabos bastam para os dias da semana. Louvados sejam os santos pelo ponto final; eles nos mantêm pródigos palradores a salvo da penúria. A ideia de que podemos falar a nossos ouvidos moucos e transmitir a outros seres humanos, cegos, surdos, insensíveis como são, alguma verdade, algum fato ou sensação completa — um quinto, um décimo, um milionésimo de tal verdade, fato ou sensação — é loucura e arrogância. James acreditava visivelmente que a coisa era possível; Proust também, e ainda Joyce, quando, numa última tentativa desvairada, lançou uma rede de palavras sonoras e cintilantes por sobre toda a criação. Agora os portões do parque se fecharam, as cartolas e a retórica se emboloram nos bancos vazios. Santos dos céus, senhor, para um homem já é difícil subir as escadas, quem dirá dizer assim:

Não eram muitos degraus. Contei mil vezes, subindo e descendo, mas o número sumiu da minha cabeça. Eu nunca soube se devia contar um com o pé na calçada, dois com o outro pé no primeiro degrau, e assim por diante, ou se a calçada não contava. No alto dos degraus eu me batia com o mesmo dilema. Na outra direção, quero dizer de cima para baixo, era o mesmo, a palavra não é forte demais. Eu não sabia por onde começar nem onde terminar, esta é a verdade. Portanto, cheguei a três números totalmente diferentes, sem nunca saber qual deles estava certo. E quando digo que o número sumiu da minha cabeça, quero dizer que nenhum dos três números está mais comigo, na minha cabeça.

A reductio da linguagem em Beckett — Echos’s Bones [Ossos do eco], título de seu livro inicial de poemas, é uma designação perfeita — está relacionada com muitos elementos característicos da sensibilidade moderna. “Era o mesmo, a palavra não é forte demais” mostra a tensa jocosidade e o jogo dos tempos verbais da filosofia linguística. Há passagens em Beckett que quase se confundiriam com os “exercícios de linguagem” das Investigações filosóficas, de Wittgenstein; ambos ficam à espreita das inflações e imprecisões insípidas de nossa linguagem comum. Act without Words [Ato sem palavras] (1957) está para o teatro assim como “Preto sobre preto” está para a pintura, uma demonstração de lógica definitiva. Os silêncios de Beckett, sua estranha suposição de que uma rosa pode ser de fato uma rosa, mas que apenas um tolo tomaria uma proposição tão escandalosa como algo garantido ou se sentiria confiante em traduzi-la em arte, guardam afinidade com a tela monocromática, a estática warholiana e a música silenciosa.
Mas com uma diferença. Há em Beckett uma tremenda eloquência às avessas. As palavras, ajuntadas e batidas como são, dançam para ele como dançam para todos os bardos irlandeses. Em parte é a repetição que cria musicalidade; em parte ela brota de uma habilidosa delicadeza no ir e vir, um ritmo no diálogo que segue os moldes de uma comédia de pastelão. Beckett tem ligações com Gertrude Stein e Kafka. Mas foi com os Irmãos Marx que Vladimir e Estragon ou Hamm e Clov mais aprenderam. Em Esperando Godot há diálogos — mas “diálogo”, com sua conotação de uma troca efetiva, é um termo muito impróprio — com fugas musicais que são as que mais se aproximam, na literatura atual, da pura retórica:

vladimir: Temos nossas razões.
estragon: Todas as vozes mortas.
vladimir: Soam como asas.
estragon: Como folhas.
vladimir: Como areia.
estragon: Como folhas.
Silêncio.
vladimir: Falam todas ao mesmo tempo.
estragon: Cada qual para si.
Silêncio.
vladimir: Mais sussurram.
estragon: Farfalham.
vladimir: Murmuram.
estragon: Farfalham.
Silêncio.
vladimir: O que dizem?
estragon: Falam de suas vidas.
vladimir: Ter vivido não lhes basta.
estragon: Têm de falar a respeito.
vladimir: Ter morrido não lhes basta.
estragon: Não é suficiente.
Silêncio.
vladimir: Soam como plumas.
estragon: Como folhas.
vladimir: Como cinzas.
estragon: Como folhas.
Longo silêncio.

Tema para futuras teses: Usos do silêncio em Webern e Beckett. Em Textes pour Rien [Textos para nada] (1955), aprendemos que não podemos continuar falando de corpos e almas, de nascimentos, vidas e mortes; temos de dispensar tudo isso e seguir em frente, da melhor maneira possível. “Tudo isso é a morte das palavras, tudo isso é superfluidade das palavras, não sabem como dizer outra coisa, mas isso não dirão mais.” Eu procuro, diz Beckett, “a voz de meu silêncio”. Os silêncios que pontuam seu discurso, com comprimentos e intensidades que parecem modulados com o mesmo cuidado que há na música, não são vazios. Trazem em si, quase audível, o eco de coisas não ditas. E de palavras ditas em outra língua.
Samuel Beckett é mestre em duas línguas. Esse é um fenômeno novo e profundamente sugestivo. Até muito pouco tempo atrás, um escritor era, quase por definição, um ser enraizado em seu idioma materno, uma sensibilidade que habitava a concha de uma língua com mais intimidade, com mais inevitabilidade do que as pessoas comuns. Ser um bom escritor significava uma intimidade especial com aqueles ritmos da fala que estão num nível mais profundo do que a sintaxe normal; significava ter um ouvido para a infinidade de conotações e ecos recônditos de um idioma que nenhum dicionário é capaz de descrever. Um poeta ou romancista afastado de sua língua materna pelo exílio político ou alguma desgraça pessoal era uma criatura mutilada.
Oscar Wilde foi um dos primeiros “dualistas” modernos (essa especificação é necessária porque o bilinguismo em latim e no próprio vernáculo era, evidentemente, uma condição geral da alta cultura na Europa medieval e renascentista). Wilde escrevia maravilhosamente em francês, mas de maneira excêntrica, para mostrar a elegância desenraizada e a ironia em relação a um padrão fixo que lhe marcaram a obra e a carreira como um todo. Kafka conheceu as pressões simultâneas e as tentações poéticas de três línguas: o tcheco, o alemão e o iídiche. Várias parábolas e contos seus podem ser lidos como confissões simbólicas de um homem que não estava inteiramente à vontade na língua em que escolheu escrever ou que se viu obrigado a adotar. Kafka anota em seu diário em 24 de outubro de 1911:

Ontem me ocorreu que nem sempre amei minha mãe como ela merecia e como eu poderia, apenas porque o alemão impedia. A mãe judia não é uma Mutter; chamá-la Mutter torna-a um pouco cômica. […] Para os judeus, Mutter é especificamente alemão. […] Assim, a mulher judia que é chamada de Mutter fica não só cômica, mas também estranha.

Mas o escritor como polímata linguístico, plenamente à vontade em vários idiomas, é algo muito recente. É um fato de enorme interesse que os três prováveis gênios da literatura contemporânea — Nabokov, Borges e Beckett — tivessem uma fluência magistral em diversas línguas, e que Nabokov e Beckett tivessem produzido grandes obras em duas ou mais línguas extremamente diferentes. As implicações deste fato no novo internacionalismo cultural ainda não foram plenamente captadas. O desempenho desses autores e, em menor grau, de Ezra Pound — com sua mistura deliberada de línguas e alfabetos — sugere que o movimento modernista pode ser entendido como uma estratégia de exílio permanente. O artista e o escritor são turistas constantes olhando as vitrines em toda a gama de formas disponíveis. As condições de estabilidade linguística, de identidade local e nacional em que floresceu a literatura entre o Renascimento e, digamos, os anos 1950, agora estão sob extrema tensão. Faulkner e Dylan Thomas talvez possam algum dia ser considerados entre os últimos grandes “donos de sua morada” na literatura. O emprego de Joyce na escola de idiomas Berlitz e a residência de Nabokov num hotel podem vir a se tornar símbolos da época. Cada vez mais, todo ato de comunicação entre os seres humanos parece um ato de tradução.
Para entender a maestria simultânea e mutuamente formadora do bilinguismo de Beckett, é necessário recorrer a dois auxílios: a bibliografia crítica reunida por Raymond Federman e John Fletcher (Samuel Beckett: His Works and His Critics, que sairá ainda este ano pela University of California Press) e a edição trilíngue das peças de Beckett lançada pela Suhrkamp Verlag em Frankfurt, em 1963-4. Mais ou menos até 1945, Beckett escreveu em inglês; depois, escreveu principalmente em francês. Mas a situação se complica porque, até o momento, Watt (1953) só saiu em inglês e também porque há a possibilidade constante de que obras publicadas em francês tivessem sido escritas inicialmente em inglês, e vice-versa. Esperando Godot, Fim de partida, Molloy, Malone morre, O inominável e o recente Têtes-mortes [Cabeças mortas] apareceram primeiramente em francês. A maioria desses escritos, mas nem todos, Beckett traduziu para o inglês (alguns terão sido concebidos em inglês?), geralmente com cortes e alterações. A bibliografia de Beckett é tão labiríntica quanto a de Nabokov ou algumas das oeuvres multilíngues que Borges relaciona em suas Ficções. O mesmo livro ou fragmento pode ter várias vidas; peças somem e reaparecem muito mais tarde, com leves modificações. Para estudar a sério o gênio de Beckett, é necessário acompanhar lado a lado a versão francesa e a versão inglesa de Esperando Godot ou de Malone morre, casos em que a versão francesa muito provavelmente é anterior à inglesa, e fazer o mesmo com All that Fall [Tudo o que cai] ou Dias felizes, casos inversos em que Beckett refunde seu texto inglês em francês. Depois disso, bem ao estilo de uma fábula de Borges, devem-se pôr os oito textos a girar em torno de um mesmo eixo para acompanhar as permutações do espírito e da sensibilidade de Beckett dentro da matriz de duas grandes línguas. Apenas assim conseguimos perceber a que ponto o idioma de Beckett — as inflexões lacônicas, engenhosas, delicadamente ritmadas de seu estilo — é um pas de deux do francês e do inglês, acrescido de uma forte dose de humor irlandês e misteriosa tristeza.
É tão grande o duplo controle de Beckett que, ao traduzir, ele modifica suas piadas, encontra em sua outra língua um correspondente exato das conotações, das associações idiomáticas ou do contexto social do original. Nenhum tradutor externo teria escolhido as equivalências que Beckett encontrou para o famoso crescendo de mútuos impropérios no Ato II de Esperando Godot: “Andouille! Tordu! Crétin! Curé! Dégueulasse! Micheton! Ordure! Archi… tecte!” não se traduz, em nenhum senso comum, por “Moron! Vermin! Abortion! Morpion! Sewerrat! Curate! Cretin! Crritic!”. “Morpion” é um empréstimo sutil do francês, que significa uma espécie de piolho e também um jogo análogo ao desfiar de insultos de Vladimir e Estragon, mas é um empréstimo não do texto francês inicialmente dado pelo próprio Beckett! A escalada crescente da raiva transmitida pelos sons de cr no inglês deriva do francês não por tradução, mas por uma recriação interna; Beckett parece capaz de reavivar seja em francês ou em inglês os processos poéticos, associativos, que produziram o texto inicial. Assim, a comparação do monólogo alucinado de Lucky na versão francesa e n inglesa é uma aula memorável sobre a índole singular de cada idioma e sua interação europeia. Há uma riquíssima precisão dissimulada em “traduzir” Seine-et-Oise, Seine-et-Marne como Feckham Peckham Fulham Clapham. A morte de Voltaire se converte apropriadamente, mas com uma clara mudança da ênfase, na do dr. [Samuel] Johnson. Nem mesmo Connemara permanece; sofre uma grande transformação, tornando-se “Normandie on ne sait pourquoi”.
Stories and Texts for Nothing [Histórias e textos para nada], publicado recentemente pela Grove Press, é um caso assim. Essa coletânea de três fábulas curtas e treze monólogos é uma cama de gato. As histórias, ao que parece, foram escritas em francês em 1945 e estão relacionadas com Molloy e Malone morre. Os monólogos e histórias apareceram em Paris em 1955, mas pelo menos um deles já tinha saído numa revista. A edição inglesa do livro, com o título de No’s Knife, Collected Shorter Prose, traz quatro textos que não foram incluídos na edição americana da Grove Press, entre eles “Ping”, uma estranha miniatura que foi objeto de uma dissecação interessante no número de fevereiro da Encounter. A edição da Grove, como já se observou em outro lugar, não faz jus à rigorosa meticulosidade de Beckett em termos de datação e bibliografia. As poucas indicações dadas estão erradas ou incompletas. É uma obra fascinante, mas secundária. É menor quando menos porque Beckett permite que várias influências ou corpos estranhos se intrometam. Jonathan Swift, antecessor sempre fantasmagoricamente presente, avulta com muito peso na obscenidade e nas alucinações de “The End”. De Kafka, ou melhor, de um indisfarçado Kafka, há mais do que Beckett normalmente dá a mostrar: “É onde se reúne o tribunal neste serão, nas profundezas daquela noite abobadada, é onde sou escrivão e escrevente, sem entender o que ouço, sem saber o que escrevo”. Joyce está muito presente, com baladas irlandesas, o final de um dia de inverno, o bonde a cavalo e tudo o mais, em “The Expelled” [O expulso]. Lemos em “The Calmative” [O calmante] que “nunca houve nenhuma cidade afora a única” e pretende-se que captemos uma dupla unidade, Dublin-Paris, a jurisdição do grande artífice e agora do próprio Beckett.
Mas, ainda que sejam fragmentos, exercícios simples, os temas essenciais aparecem. O espírito se arrasta feito um catador de lixo vasculhando atrás de palavras que não estejam mascadas até o tutano, que tenham conservado um pouco de sua vida secreta, a despeito da falsidade vigente. O dândi como asceta, o mendigo exigente — tais são as persona e naturais de Beckett. O tom é de surpresa genuína, mas levemente insolente: “É suficiente para fazer a gente se indagar se estamos no planeta certo. Até as palavras nos abandonam, é ruim a esse ponto”. O apocalipse é uma morte da fala (que ecoa a desolação retórica, mas não menos definitiva, de Rei Lear):

Nem todas as pessoas do mundo iriam bastar, ao final dos bilhões você ia precisar de um deus, intestemunhada testemunha das testemunhas, que bênção que tudo foi pelo ralo, nunca nada como começou, nunca nada a não ser nada e nunca, nada nunca a não ser palavras sem vida.

E no entanto, neste reino de latas de lixo e chuva, às vezes “as palavras me estavam voltando e a maneira de fazê-las soar”.
Quando se acende essa iluminação pentecostal, Beckett literalmente canta, em voz baixa, penetrante, numa cadência de um assombro hábil. Comparada ao estilo de Beckett, a prosa de outros autores contemporâneos parece flatulenta:

Sei o que tenciono, ou um braço só melhor ainda, sem braços, sem mãos, muito melhor, velho como o mundo e não menos medonho, amputado por todos os lados, de pé em meus cotos fiéis, estourando de… orações velhas, lições velhas, alma, mente e carcaça se acabando juntas, para não mencionar as cusparadas de catarro, penosas demais de mencionar, soluços virados em muco, expectorados do coração, agora tenho um coração, agora sou completo. […] Noites, noites, que noites eram então, feitas de quê, e quando foi isso, não sei, feitas de sombras amigas, céus amigos, de tempo saciado, descansando de devorar, até sua meia-noite chegar, não sei, não mais do que então, quando costumava dizer, de dentro, ou de fora, da noite se acercando ou de sob o solo.

A lacônica finura de “alma, mente e carcaça se acabando juntas” mostra por si só a mão de um grande poeta. Mas a totalidade desse undécimo monólogo ou meditação murmurante é alta poesia e evoca Shakespeare num eco distante e inquietante (“onde estou, entre dois sonhos separados, desconhecendo ambos, desconhecido de ambos”).
A paisagem de Beckett é desoladamente monocromática. O tema de sua cantilena é a imundície, a solidão, a espectral autonomia que vem após um longo jejum. Apesar disso, ele é um de nossos cronistas indispensáveis, e sabe disso também: “Buu, aqui estou eu de novo, justo quando mais necessário, como a raiz quadrada de menos um, tendo terminado minhas humanidades”. Frase densa, de argúcia brilhante. A raiz quadrada de menos um é imaginária, espectral, mas a matemática não pode passar sem ela. “Terminado” (“terminated”) é um galicismo deliberado: significa que Beckett já domina o saber humano (esses textos se adensam repletos de alusões enigmáticas), que ele fez um inventário acadêmico da civilização antes de fechar os olhos e se desbastar até o osso. Mas “terminado” também significa finis, Fim de partida, Krapp’s Last Tape [A última gravação de Krapp]. É arte em estado terminal, convertendo a maior parte da crítica ou do comentário em vulgaridade supérflua.
A visão que se ergue do conjunto dos escritos de Beckett é estreita e repetitiva. É também austeramente alegre. Talvez não seja muito, mas, com tanta honestidade, bem pode demonstrar ser a melhor, a mais duradoura que temos. A rarefação de Beckett, a recusa em ver na linguagem e na forma literária realizações adequadas da sociedade ou do sentimento humano, faz dele a antítese de Henry James. Mas Beckett é representativo de nosso reduzido alcance atual, assim como James era representativo de uma espaçosidade perdida. Assim aplica-se a ambos a saudação de W. H. Auden no cemitério de Mount Auburn: “Mestre da nuance e da minúcia”.
27 de abril de 1968

George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos